sábado, 13 de dezembro de 2008

Canção de Tróia (A) - Colleen Mccullough


Baseada em várias fontes, nomeadamente em obras de Virgílio, Sófocles, Heródoto, Píndaro e, claro, na Iliada de Homero, a Canção de Tróia é de facto um excelente livro e uma obra excepcional para a cultura universal.

Afirmo isto porque simplesmente, num só livro, Colleen McCullough conseguiu reunir e unificar, de uma forma muito simples, todo um conjunto de obras de vários autores, elaborando o melhor texto que li sobre a Guerra de Tróiae sobre o relacionamento entre personagens lendárias como Agamémnon, Ulisses, Aquiles, Heitor, Helena, Patrocles, Príamo, Páris, Ájax, Peleu, Briseida, Nestor, Menelau, Eneias e até Hercules, que aparece no início do livro e que, indirectamente, está por detrás da génese da Guerra de Tróia.

Colleen McCullough faz assim um trabalho notável de recriação histórica e mitológica, arrancando do fundo da memória colectiva personagens íntegros, dando-lhes vida, onde a beleza está associada à coragem e à bravura, onde o erotismo anda de mãos dadas com a violência, sim, violência, porque este livro tem tanto de belo como de brutal. E é nessa conjugação que McCullough humaniza os personagens.

A Canção de Tróia começa muito antes da Guerra de Tróia. Começa na véspera do nascimento de Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. Nesses dias um acontecimento singular se dá em Tróia que mais tarde estará pode detrás do sucedido com Páris que levará à causa da Guerra.

Num espaço de 30 anos vamos acompanhando o nascimento de personagens e a vida quotidiana de outras e é assim que chegamos a Helena, irmã de Clitemenestra que é, por sua vez, esposa de Agamémnon, rei supremo da Grécia.

Ora bem, Agamémnon casa o seu irmão, Menelau, com Helena, que era, embora ainda muito jovem, uma mulher marcada por aventuras de cariz sexual, num tempo, aliás, onde o relacionamento sexual era visto como profundamente natural e onde os relacionamentos homossexuais não eram escondidos.

Helena era no entanto uma mulher promíscua que não fugia, antes pelo contrário, a aventuras extra-matrimoniais, sendo assim que acaba por se envolver com Páris, quando este está de visita ao reino de Menelau.

E o resto leiam por vós mesmo.

A narrativa é empolgante, sendo curiosa a forma como Colleen narra cada capítulo: todos eles são contados a partir do ponto de vista de vários personagens, logo, tanto ficamos com a perspectiva de A, B ou C, entendem? Isso é muito interessante e dota o livro de um constante refrescar da observação dos acontecimentos.

Depois consegue humanizar todos os personagens. Tirando as batalhas (são violentíssimas), surge-nos um Ulisses extremamente inteligente mas cheio de vícios e defeitos, sobretudo ao nível da ética. Isso é curioso, ainda mais porque se conhece que a ética na guerra era uma das maiores virtudes das civilizações antigas. Aquiles, e é impossível não se gostar de Aquiles, é descrito como um homem atormentado, quase paranóico, mas que se revela o mais feroz dos guerreiros, e nessa conjugação de virtudes e defeitos, acabamos por nos identificar com Aquiles como sendo ele um modelo para nós mesmos. Isso é curioso! E sem querer entrar noutras considerações, pois efectuei uma análise a quase todos os personagens e achei “engraçado” as conclusões que ia retirando, quero apenas referir Ájax, primo de Aquiles, que transpira poder, integridade, lealdade e coragem. Foi o personagem que mais gostei e aquele que considero a minha referência, com que mais me identifico.

Esta é verdadeiramente uma Epopeia. Não tenho pejo nenhum em a considerar, pelos acontecimentos que aborda, superior à Ilíada.

A Ilíada é bela pela forma como está escrita (se puderem leiam-na na sua forma original, ou seja, em poema. Mas eu sou daqueles que considero que a Ilíada não foi escrita por apenas um homem), mas esta Canção de Tróia é um documento histórico que entra nos personagens, revelando-nos a sua mentalidade, o seu dia-a-dia.

Pessoalmente acredito que Ulisses, Aquiles, Ájax, Heitor e todos os outros heróis existiram. Deuses não eram, apenas homens. Mas no livro Aquiles profere uma frase que, quanto a mim, descreve a imortalidade dos heróis que, à medida que os séculos passam, se vão misturando com deuses, tornando-se assim lendas e mitos. ”Se nos lábios das gerações futuras eu puder combater contra Heitor um milhão de vezes, então é porque de facto, nunca terei morrido”. E um milhão de vezes se tem narrado esse combate, um milhão de vezes esta guerra, estes guerreiros que fazem parte do imaginário da raça humana.

domingo, 30 de novembro de 2008

Máscaras de Salazar - Fernando Dacosta




Para quem se interesse por História, nomeadamente pela nossa História, eis um livro fabuloso que aborda, como o nome deixa adivinhar, todo o Estado Novo na figura do seu Presidente do Conselho: António de Oliveira Salazar.

Antes de abordar o livro, quero realçar a enorme surpresa que foi para mim a escrita de Fernando Dacosta, romancista, dramaturgo e jornalista, autor de várias obras, mas que nunca me despertou o interesse. No entanto surpreendeu-me a enorme simplicidade e objectividade da sua escrita, a clareza de raciocínio, a forma poética que emprega ao texto, ainda por mais sendo este uma narrativa e o tom neutro como aborda toda a obra, nunca julgando, nunca comentado, apresentando apenas factos.

Em as “Máscaras de Salazar”, Dacosta apresenta-nos o homem por detrás do político, aquela figura austera que ficou para a História. Salazar enquanto jovem estudante, a forma como entra na política, os seus anseios e desejos, o que o move, as suas ideologias, a forma de estar e ver a vida.

Salazar surge no comando do governo sem que ele saiba bem como e vê nisso um género de demanda, um sinal. É ele a salvação do país, por isso resolve consagrar e sacrificar a sua vida pessoal em prol de uma nação, de um império.

Surge-nos assim um homem com defeitos e virtudes, um homem que acredita no esoterismo, na astrologia, pouco religioso (achei isso curiosíssimo) embora tenha em Cerejeira um dos seus amigos e confidentes mais próximos, um homem que não apreciava jantares, ajuntamentos, que apreciava coisas simples e que, inclusive, pagava a renda de S.Bento com o seu próprio dinheiro. Uma figura muito distante do Salazar figura do regime.

Importa aqui referir que conheço pouco de Salazar e da sua obra. Ele é sempre apresentado como um ditador que, escondido em S.Bento, construiu toda uma rede tal Big Brother que a todos vigiava.

Isso até pode ter muito de verdade e Dacosta não o sonega, mas há de realçar que existiu também o homem Salazar, que tinha sentimentos, gostos, humores. Um ser humano e este livro não só o faz como ainda vai mais longe, ouve, osculta aqueles que mais próximo estiveram de Salazar: amigos de infância, políticos, simples pessoas que o conheceram e sobretudo D. Maria, a governanta que sempre o acompanhou.

Dacosta aborda assim os cerca de 40 anos do seu governo, as guerras que assolaram esse período, os interesses com as outras nações, a P.I.D.E., a oposição e a forma como sempre procurou defender os interesses de Portugal, indo até contra os interesses do Vaticano. Sobre o Vaticano é interessante o desvendar do 3º segredo de Fátima, segredo esse que provavelmente até tem a ver com Portugal. A forma como se relacionava com outros políticos e figuras que se cruzaram com ele, tanto política, como cultural e socialmente: Júlio Dantas, Gen. Costa Gomes, Ge, Humberto Delgado, Amélia Rey Colaço, Natália Correia, Salgado Zenha, Mário Soares, Aquilino Ribeiro, Duarte Pacheco e tantos outros.

E, entre várias curiosidades, ouve uma que me chamou especial atenção. Salazar, que tinha na sua governanta uma amiga e uma confidente (más línguas diziam que até algo mais), confidencia-lhe por várias vezes do porquê da necessidade de defender os territórios ultramarinos. Ele achava que Portugal sem esses territórios ficaria um país minúsculo e sem qualquer tipo de influência, um país que ficava assim sujeito a outras nações acabando por morrer. Ele tinha esse receio e, digo eu, era um visionário.

Um homem que não gostava do comunismo nem dos americanos que, dizia ele serem apologistas de uma política que visava o domínio das outras nações, muito pior que o próprio comunismo... e isso proferia ele na década de 60.

Em suma, um pequeno livro que se revelou numa obra de uma enorme extensão sobre Salazar, o seu regime e Portugal.

Rubicão - Steven Saylor


Embora seja uma amante de História e um grande apreciador de romances históricos, confesso que possuo uma relação de amor-ódio com o império romano e tudo o que lhe diga respeito, ou seja, sei perfeitamente da sua importância e influência nas sociedades ocidentais, que foi o império que mais durou, mas cada vez que leio alguma coisa sobre eles... enfim, é cá um fastio.

No entanto há ocasiões em que me apetece ler algo sobre eles e, devido a isso, lá acabo por me deparar com alguns “livrecos” interessantes e outros nem tanto, sendo que e neste caso, acabei por me deparar com algo que, enfim, lê-se.

Steven Saylor é licenciado em História e perito em política e cultura romanas.

Penso que isso é um excelente cartão de visita, ainda mais quando se junta o facto de ele ser fascinado por culturas clássicas, logo podemos estar certos que o descrito nas suas obras está de acordo com a época em causa.

Ora bem, não belisco minimamente a veracidade dos pormenores da época, até porque este “Rubicão” é o segundo livro do autor que leio e o outro, “Sangue Romano”, até me agradou, but este “Rubicão” é assim o sexto livro de uma série iniciada com o tal “Sangue Romano”, intitulada, a série, de “Roma Sub-Rosa”, Saylor, servindo-se do personagem Giordiano, que é um género de detective independente, aborda a vida social, cultural e política de Roma com todos os seus jogos de interesses políticos, cujas vidas dependiam de quem estava no poder e de quem apoiasse quem, tudo o que me aborrece.

Este livro descreve quando Júlio César resolve tomar o poder e guiar as suas tropas de volta a Roma, fazendo Pompeu, o seu rival e imperador, fugir com as suas tropas leias rumo ao sul, deixando Roma mergulhada no caos.

É neste contexto que Numérico Pompeu, sobrinho do imperador, é assassinado no jardim de Giordano que, face à terrivel situação e exigência de Pompeu, empreende uma investigação do crime.

Obviamente que as situações vão ocorrendo e no fim temos o nome do assassino e o porquê do acto. Mas, e honestamente, como policial não me convenceu, sobretudo porque fui capaz de descobrir o assassino muito cedo, porém, como documento histórico, é de facto um bom livro.

Todos os acontecimentos que levaram Júlio César ao poder estão descritos no livro, os jogos políticos e a forma como as peças se iam movendo faz-nos sentir o ambiente de Roma e a tensão que se sentia.

O livro, quanto a mim, vale por isso e para quem tem curiosidade sobre este grande império, então aconselho o livro.

domingo, 16 de novembro de 2008

A Profissão de Carrasco - Jacques Delarue



Há livros que nos vêm parar às mãos um pouco por acaso, sem que estejamos à procura deles ou mesmo que o conheçamos, eis que de repente nos deparamos com esse tal livros nas mãos, a creditando tratar-se de um achado.

Este livro que me proponho aqui comentar foi um desses casos que achei há uns anos numa daquelas feiras do livro manhosas dos hipermercados. Havia um receptáculo de plástico com centenas de livros a 0,50€ e, no meio de tanta palha, surge-me este livro rosa choque com este título sugestivo.

Li a sinopse e logo me dei conta que não se tratava de nenhum romance, mas sim de um estudo Histórico deste tema tão desprezível mas que, quer queiramos quer não, tem uma História e que, por acaso, até achei que podia ser interessante.

O autor, Jacques Delarue, nascido em 1919, desconheço se possuiu alguma actividade académica, mas sei que o mesmo foi polícia e comparticipou na resistência francesa. Dessa vivência acabou por escrever “História da Gestapo” e “Tráficos e crimes durante a ocupação”, títulos que desconheço, mas que tendo em conta o livro “Profissão de Carrasco”, devem ser muito interessantes.

Ora bem, enquanto polícia, Delarue foi colectando material histórico sobre a pena de morte e o trabalho daqueles que tinham que levar a cabo a condenação: os carrascos.

Obviamente que Delarue incide sobretudo na história dos carrascos franceses, até porque a profissão ainda estava no activo no século XX e ainda estão vivos os últimos da espécie, mas ele vai narrando como é que a profissão nasceu, da forma maldita como eles eram vistos, rejeitados pela sociedade que se esquecia que por detrás do carrasco havia um homem com família que apenas tinha tido a má sorte de sujar as mãos com sangue dos condenados que essa mesma sociedade mandara sangrar.

Aborda também o contexto psicológico e humano. O testemunho de vários deles assim como a linhagem dos carrascos mais famosos, pois era uma profissão que passava de pais para filhos, um filho de carrasco não era bem aceite, tinha imensa dificuldades para arranjar casamento, o mesmo se passava com as filhas.

O livro segue sempre a um bom ritmo, cheio de interesse, embora existam muitas descrições horríveis, macabras. Os objectos e máquinas de tortura e execução são descritos, a sua criação e como actuavam... macabro.

Um excelente documento histórico que admito não ser fácil encontrar no mercado. Após uma breve investigação, constatei apenas o site da livraria Byblos possuir tal livro, embora a editora em Portugal seja a Livros do Brasil.

domingo, 9 de novembro de 2008

Vida num Sopro (A) - José Rodrigues dos Santos



A acção temporal tem apenas dez anos, mas dez anos onde acontecimentos determinantes sucederam tendo do um impacto determinante a nível nacional e internacional.

1929-1939, dez anos.

Dez anos onde ventos de mudança sopram. Assiste-se ao nascimento do Estado Novo num Portugal assustado, rude, inseguro, só o facto desse regime trazer ordem e segurança foi o bastante para o mesmo originar a simpatia pela larga maioria do povo.

1929-1939, dez anos onde nasce, decorre e finda a Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Uma guerra entre Nacionalistas e a Frente Popular, apelidados de blancos e Rojos, estes compostos pela esquerda (comunistas, anarquistas e também o governo eleito liberal-democrático). Uma guerra onde atrocidades são cometidas de uma forma arbitrária, sendo este conflito um laboratório de experiências para o conflito mundial que estava prestes a rebentar. Curioso o que está por detrás da ajuda camuflada do regime português aos nacionalistas.

1929-1939, dez anos onde o regime do Estado Novo ganha força e cria um sistema de informação acerca dos cidadãos tidos como ameaça para a nação (regime) e, mais grave, um sistema onde qualquer pessoa podia ser informador, bufo, e assim atraiçoar o melhor amigo ou qualquer familiar que tivesse a ousadia de proferir qualquer frase contra o regime. Ou seja, a imposição do regime do medo que, até hoje, nunca nos conseguimos apartar. Por detrás desse sistema a PVDE (Polícia de Vigilância Do Estado) ou a Pevide, como era conhecida pelo povo.

Neste livro são estes os três pontos principais da narrativa.

Como pano de fundo, interligando estes acontecimentos que nos colocam no cerne desses três pontos, uma história de amor. Uma simples, singela e trágica história de amor entre Luís Afonso e Amélia Rodrigues.

Passado entre Bragança-Lisboa-Penafiel-Vinhais, esta história é o elo condutor entre a vida e mentalidade rural e citadina. A mudança de mentalidades e a forma como se sente a diferença das mesmas de local para local não passa aqui despercebida.

Um livro apaixonante que narra acontecimentos importantes que estiveram por detrás da longevidade desse regime. Facilmente entendemos do porquê do surgimento do regime, do porquê de tão facilmente ter sido acolhido e do porquê de ter durado tantos anos. Quanto a mim o livro vale por isso.

A escrita é simples.

Aflorada por frases poéticas, José Rodrigues dos Santos não se perde em devaneios tão comum na maioria dos autores portugueses. Os diálogos são simples e directos, caracterizando a época com termos locais não faltando mesmo o castelhano e o galego.

É um livro na mesma linha da “Filha do Capitão”. Na minha opinião não se podem comparar devido aos temas que um e outro trata, no entanto o estilo é o mesmo mas confesso que este “A Vida num Sopro” apaixonou-me menos, no entanto sublinho que considero a “Filha do Capitão” um dos grandes livros da literatura universal, logo, será extremamente difícil JRS fazer melhor.

Este “A Vida num Sopro” é muito bom. Lê-se num fôlego, num sopro e facilmente nos apaixonamos pelos personagens, até porque, como é costume nos seus livros, JRS tem a capacidade de criar personagens do povo, gente como nós que facilmente incorporam se não nós mesmos, pelo menos, nossos antepassados.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Pequeno Livro do Grande Terramoto (O) - Rui Tavares



Considerado como o melhor ensaio de 2005 pelos leitores do destacável “Mil Folhas” do jornal “O Público”, e consagrado no programa da RTPN “Livro Aberto”, “O pequeno livro do Grande Terramoto” de Rui Tavares, escritor e historiador, efectua de uma forma simples e objectiva, uma análise ao terramoto de 1755 e o impacto que o mesmo teve, não só na vida social e cultural portuguesa, como também, e demonstrando uma grande capacidade de análise, em todo o mundo.

Mas Rui Tavares vai muito mais longe.

Inicialmente empreende uma comparação entre várias catástrofes naturais que, segundo ele, ficaram como marcos da humanidade. Assim, salta dos atentados às twin towers no 11 de Setembro de 2001, para o incêndio de Roma de 64 d.C., passando pelo tsunami de 2004 e acabando no terramoto de 1755, o verdadeiro objectivo do livro.

Achei isso deveras interessante, até porque ele aborda o impacto que esses desastres tiveram na mentalidade e o quanto o seu não acontecimento, ou seja, se não tivessem ocorrido, contribuiria para mudar, ou não, o curso da História, até porque a mentalidade da época estava muito encarcerada pela religião e isso é muito importante, se não mesmo vital, para se entender esse curso. E interessante também a forma como ele consegue interligar esses desastres dentro de vários denominadores comuns.

Depois Rui Tavares entra mais densamente na catástrofe de Novembro de 1755. Aí descreve os meses anteriores ao acontecimento, a disposição arquitectónica, a vida social dos habitantes e da côrte.

Mostrando várias figuras da época, vamo-nos apercebendo que Lisboa era uma cidade decadente, extremamente mal organizada ao nível arquitectónico, com ruas muito estreitas e escuras. Isso é alvo de análise, o terramoto veio quase fazer o que o Homem não tinha tido coragem para o fazer: destruir para erigir uma cidade mais moderna. Curioso constatar a enorme e obtusa religiosidade dos habitantes alfacinhas. No entanto, e isso foi alvo de uma profunda questão na época, Lisboa possuía dezenas de igrejas. Umas das razões apontadas à ocorrência do terramoto foi o de ser um castigo de Deus, pois várias dessas igrejas ruíram com centenas de pessoas que estavam na altura na missa, no entanto quem era adepto dessa explicação metafísica ficou extremamente incomodado quando se deparou com a zona de prostituição completamente incólume, enquanto que quase tudo o resto foi arrasado.

É de facto um excelente ensaio que analisa várias perspectivas dessa célebre catástrofe, focando também várias “vozes” que se ouviram do estrangeiro, assim como as influências que o terramoto de Lisboa de 1755 teve na arte, música, literatura e até na mentalidade de todo o mundo.

domingo, 19 de outubro de 2008

Dissolução - C.J Sansom


1531, Henrique VIII, soberano inglês, apaixona-se por Ana Bolena e, sendo este casado com Catarina de Aragão, resolve solicitar ao Papa a anulação deste casamento para assim poder desposar Bolena. Porém, o Papa recusa e Henrique VIII, numa atitude insólita de revolta contra a igreja papista, faz-se proclamar Protector da igreja inglesa. Em 1534 anuncia o “acto da supremacia” que faz saber aos súbitos que se devem submeter a essa nova ordem ou então seriam excomungados e perseguidos, ou seja, quem fosse papista teria os dias contados. Nasce assim a Reforma religiosa na Inglaterra.

A partir de 1535, é eleito como vigário-geral Thomas Cromwell, um homem que havia subido na cadeira do poder como apoiante de Ana Bolena e que é precisamente ele o responsável principal pela acusação de adultério que a levará ao cadafalso, mas Thomas Cromwell empreende uma política conhecida como a dissolução de mosteiros que continuavam a seguir a doutrina católica de veneração a santos e relíquias, algo que a reforma considerava absoleta e anti-reformista. Porém não se pense que não havia outros e maiores interesses, os mosteiros possuíam tesouros incalculáveis, para além de terras que o rei queria para ele.

É pois este o cenário do livro que me proponho aqui alvitrar. Um livro que considero excelente , escrito por C.J. Sansom, um jovem advogado que tem aqui o seu baptismo.

“Dissolução”, como a palavra deixa entender, é um romance policial-histórico sobre um processo de dissolução de um mosteiro, com o fim de extinguir e pilhar todos os bens do mesmo, no entanto esse trabalho teria sempre que ser realizado de uma forma segura e cuidadosa, pois caso contrário e como na época a reforma ainda estava em fase de implementação junto do povo, poderia desencadear uma revolta popular que nem o rei nem Cromwell pretendiam, pese embora e isso é um facto histórico, os mosteiros e os abades residentes terem má reputação junto dos vilões e aldeões.

É pois num mosteiro de Scarnsae, na costa sul de Inglaterra, que vem a notícia do homicídio brutal de um dos comissário do rei. Cromwell convoca então Matthew Shardlake, um conhecido e reputado advogado, entregando-lhe a incumbência de investigar e descobrir o assassino e, ao mesmo tempo, fazer tudo para levar o abade do mosteiro a assinar a carta de capitulação e assim ter motivos para encerrar o mosteiro.

Quando Shardlake e o seu jovem ajudante chegam a Scarnsea, descobrem um local pouco religioso, cheio de vícios e de condutas menos próprias para abades...

Através deste breve texto, facilmente poderá constatar que “Dissolução” tem um argumento muito semelhante ao “Nome da Rosa”, não só enquanto romance histórico mas e principalmente, como tendo como cenário um mosteiro e um crime aí praticado. Porém são épocas completamente distintas e não tenho dúvidas em afirmar que com “Dissolução” se aprende mais sobre a época em causa.

Obviamente e isso para mim foi claro, que o escritor se baseou um pouco no “Nome da Rosa”. Há toda uma variedade de situações que na verdade fazem lembrar o romance de Eco, no entanto não se julgue que “Dissolução” se trata de um pseudo-plágio do romance de Eco, não, este “Dissolução” é muito bom porque não só nos descreve uma época turbulenta, como também é, enquanto policial, cativante, com situações de suspense bem conseguidas, personagens sólidas e descrições vivas e bem reais.

É também um romance leve, com capítulos curtos e concisos, nunca é maçudo e nunca cai, mesmo quando o escritor explica a época e a situação política e religiosa, numa madorra erudita, algo que torna o “Nome da Rosa” num excelente livro, é um facto, mas de difícil leitura. Este não, é um excelente livro.

domingo, 12 de outubro de 2008

Trilogia Suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez

Pedro Juan Gutiérrez, ex-jornalista desiludido e ex-uma-série-de-profissões ainda mais desiludido, resolve enveredar pelo campo das letras e contar ao mundo a verdadeira face da Cuba socialista de Fidel Castro, e o resultado é uma profusão de pequenos textos verdadeiramente geniais e consideravelmente chocantes.

E mais chocantes se podem considerar quando sabemos, e é o próprio que afirma, que esses textos não são puramente ficcionais. Todos eles têm uma base, uma sustentação bem real que ou foi directamente vivida por Pedro Juan, ou então por alguém da seu circulo de amigos. E é com base nesta afirmação que esta "Trilogia Suja de Havana" se torna numa verdadeira catarse do autor, uma série de contos nitidamente autobiográficos.

Como o nome indica, esta trilogia é composta por três títulos: "Ancorado em Terra de Ninguém", "Nada que Fazer" e "Sabor a mí", que servem de apoio para algumas dezenas de outros pequenos contos que se interligam entre si, contos esses passados na década de 90, década em que uma grave crise assolou Cuba. Das várias personagens que vão surgindo e desaparecendo, há uma que assume o papel principal na esmagadora maioria dos contos: Pedro Juan, ele próprio.

Assim o universo de Pedro Juan é a velha e bela ilha de Cuba. Uma Cuba mágica para os turistas, mas uma outra Cuba para os seus habitantes.

Sobrevivendo num país praticamente destruído, o escritor vai-nos narrando, de uma forma extremamente cruel e violenta, o dia-a-dia daqueles que vivem em condições paupérrimas e que lutam por um simples naco de pão e por meia dúzia de pesos (moeda cubana) ou então que sonham com dólares norte-americanos. No entanto essa forma violenta de narrar tem a capacidade de nos mostrar a verdadeira Cuba, sobretudo a face de uma sociedade sem escrúpulos, totalmente dominada por um pretenso e oprimido desejo capitalista e por uma febre debochada de sexo, rum e charutos.

É nesta Cuba escondida dos turistas, numa Cuba fétida alheada do resto do mundo, que ele nos descreve a enorme promiscuidade sexual. Mas não são meras descrições de encontros sexuais. Não! Pouco tem de erótico, as mesmas assumem uma dimensão grotesca numa linguagem vernácula e sem quaisquer cuidados estéticos. Segundo Pedro Juan, o sexo é uma troca de fluídos, e nessa troca vale tudo, o limite conta-se pelo número de orgasmos, palavrões e violência física e psicológica. Mas ao mesmo tempo essa troca de fluídos, que por vezes nos parecem transportar para um mero conto pornográfico de baixa qualidade, têm o condão de expressar ainda mais a decrépita qualidade de vida daquelas pessoas que, por nada fazerem (desemprego e prisão) e pelo clima dos trópicos, acabam por se entreterem neste tipo de acções.

Numa escrita despretensiosa - o que não é alheia o facto de ele ter sido jornalista durante tantos anos (ganhava 3 dólares por mês) -, Pedro Juan Gutiérrez demonstra o seu enorme desencanto e descrença pelo falso sistema socialista cubano que advém da Revolução de Fidel Castro. Embora contenha toda uma descrição violenta, ele tem a capacidade de salpicar com grandes doses de humor toda uma narrativa que é uma autêntica flecha apontada ao seio do governo de Fidel.

Sempre duro e implacável, Pedro Juan Gutiérrez é uma voz incómoda que se levanta e um pertinaz cronista da sua amada Cuba, e é também um escritor genial que consegue criar, num mesmo texto, sentimentos tão dispares como: paixão, repulsa, compaixão, nojo, amor, ódio, excitação e boa-disposição.

Um escritor que já me tinham aconselhado e uma muito agradável surpresa.

Altamente aconselhável!







domingo, 5 de outubro de 2008

Roma - Steven Saylor



Steven Saylor, especialista da civilização romana e autor da célebre série “Roma sub-rosa”, tem com este épico o seu maior desafio e o resultado é simplesmente portentoso.

A intenção, segundo o próprio autor, era simples: construir um romance onde a principal figura seria a cidade de Roma e o império que deu origem. Como fio condutor, duas famílias e um estranho talismã que irá ser o elo de ligação dos primeiros mil anos da História da cidade e, principalmente, da sua fundação ao estabelecimento enquanto potência dominadora.

A esta história, eis que toma parte duas famílias ligadas por laços familiares: os clãs Potício e Pinário.

Desde a Rota do Sal (1.000 a.C.) é-nos narrado as suas aventuras e desventuras que, obviamente, coincidem com os acontecimentos que originaram mitos, alguns deles que ainda hoje fazem parte da tradição ocidental, muitos transportados para a religião originados festas e festejos.

Rómulo e Remo, que são descritos como simples rapazes órfãos e que, face à sua condição, sobem a pulso destacando-se dos outros pela sua visão chegando de facto a reis de Roma, e é de facto a partir deles que Roma começa a crescer enquanto cidade.

Os conceitos por detrás da República, as primeiras conquistas, os ditadores, os enredos pelo poder, a glória de uns e a aniquilação de muitos, fazem deste épico um romance histórico muito para além do mero romance, pois Saylor ressuscitando e dando voz a personagens reais, consegue transportar até nós não só esses conturbados tempos como também demonstrar a importância desses personagens e dos seus actos.

Pessoalmente nunca fui um grande simpatizante do Império Romano. Sempre o vi como um Império importante, sem dúvida, mas mesquinho, cheio de jogos políticos, lutas pelo poder, interesses pessoais e traições.

Enquanto leitor de romances históricos, agradam-se aqueles que dão mais ênfase ao lado bélico e à descrição das sociedade e ao seu modo de vida e o que havia lido até à data, no que respeita ao império romano, praticamente todos se debruçaram pelos jogos políticos e pelas tricas no seu seio colocando sempre em plano inferior, por vezes até nem falando dele, as questões militares e as suas conquistas.

Este “Roma” também não se aventura muito nessas questões, no entanto conta-nos como nasceu o império, a sua essência e é precisamente esse essência que nos assombra pois constatamos que uns meros mercadores de sal deram origem ao maior império de sempre cuja influência é patente na actual civilização ocidental.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Codex 632 (O) - José Rodrigues dos Santos

O ”Codex 632”, escrito entre 2004 e 2005, tenta ser um livro desmistificador da vida de Cristóvão Colombo, pelo menos numa perspectiva de lhe dar uma nacionalidade e, sobretudo, um objectivo.
Cristóvão Colombo nunca foi, para mim, uma personagem digna de especial relevo.

Para qualquer interessado em História, facilmente constata que Colombo não foi o primeiro a chegar à América, pois, e está mais do que comprovado, centenas de anos antes já lá “passeavam” feníncios, vikings e, soube-se à pouco tempo, até chineses já lá tinham aportado. Logo essa história de ter sido Cristóvão Colombo o primeiro a chegar à América, à muito que está ultrapassada.

Agora o que desconhecia é a história que está por detrás do homem.

Quem foi realmente Colombo? Qual a sua nacionalidade? O que o moveu nesse empreendimento e, chamava-se realmente Cristóvão Colombo?

Pois bem, neste “Codex 632”, José Rodrigues dos Santos, assente em documentos genuínos, apresenta-nos muitos factos e dá também muitas respostas, porém e na minha opinião, comete um erro: não assume essas teorias, deixa antever que ali há muita coisa romanceada, sem contudo separar os factos reais dos dissimulados, e isso desvaloriza o livro.

Antes de abordar a história do livro expresso a minha profunda admiração pelo trabalho de JRS, sobretudo ao nível literário. O seu romance anterior, “A Filha do Capitão”, é uma pérola da literatura portuguesa e não só. Ele escreve bem, tem sensibilidade, não complica, nem entra em desnecessárias descrições ou devaneios. A escrita dele é simples, fluída e o ritmo que emprega, faz com que o livro se leia num ápice. “A Filha do Capitão” foi assim, e este “Codex 632” também. Porém, dificilmente ele escreverá um outro romance que bata, em Qualidade e sensibilidade, a “Filha do Capitão”.

Este “Codex” é um romance histórico, na linha de Dan Brown. Pois é meu caro Rodrigues dos Santos, por muito que teime, é difícil desmentir tais semelhanças. A estrutura é muito semelhante. Concordo que o curso da história e os personagens e alguns outros pormenores sejam diferentes, mas os objectivos, o porquê da história é semelhante entre os dois livros: “Código Da Vinci” e “Codex 632”.

Tomás Noronha é um professor de História da Universidade Nova de Lisboa e perito em Criptanálise e Línguas Antigas que recebe uma proposta de um organismo norte-americano no sentido de descodificar uma cifra que seria a chave para entrar no trabalho de investigação que um outro professor havia feito, trabalho esse que havia ficado sem quaisquer conclusões conhecidas, pois esse investigador havia falecido sem divulgar as suas conclusões...

Homem estudioso, Tomás vive uma época muito conturbada da sua vida ao nível familiar, problemas esses que necessitam de dinheiro para serem solucionados, e é precisamente por essa necessidade que Tomás resolve aceitar a incumbência que lhe propõem, acabando assim por empreender uma aventura cheia de códigos, mistérios, enigmas e muitos segredos. Ao princípio Tomás tem como objectivo investigar as notas desse tal falecido investigador, notas essas que alegadamente seriam sobre os Descobrimentos Portugueses, porém depressa Tomas começa a juntar uma série de peças que lhe dão a visão clara de muitos factos do séc. XIV e XV, factos esses que influenciam não só a actual perspectiva dos Descobrimentos, como também a visão dos jogos políticos que estiveram por detrás dos mesmos. E é por aí que Tomás chega a Cristóvão Colombo, e o papel que ele desempenhou naquele cenário.

Embora este seja um livro repleto de aventuras, volto a repetir, na mesma linha de “Código Da Vinci”, é também, e isso é indesmentível, um rico manancial de História dos Descobrimentos.
Rodrigues dos Santos leva a cabo uma investigação minuciosa da época, dos objectivos, da política, dos interesses e – e para mim foi uma surpresa -, o que está por detrás dos Descobrimentos, como começaram, quem os impulsionou e que objectivos tinham. E mais uma vez surgem os Templários, com a sua Ordem de Cristo legalmente formalizada em Portugal.

De resto é necessário referir que JRS não descobriu a pólvora. Ele limitou-se a usar velhas teorias.

Já em 1992 o Prof. Augusto Mascarenhas Barreto publicava, fruto de 20anos de investigação, “Cristóvão Colombo – Agente Secreto de El Rei D. João II”, e em 1997, “Colombo Português: provas Documentais”.

Nesses trabalhos, AMB conclui que Colombo não era genovês, mas sim judeu português, natural de Cuba, Alentejo. Conclui também que havia um complôt entre D. João II e Colombo, no sentido de iludir a atenção dos Reis Católicos de Espanha, entre outras interessantes conclusões que Rodrigues dos Santos aproveita para escrever o “Codex 632”.

O livro está bem conseguido, isso é um facto. No entanto há partes que não gostei e acho até que estão mal exploradas e até mal escritas. A vida familiar de Tomás é desenvolvida de uma forma paralela à história da investigação, no entanto nunca se percebe bem qual a finalidade. Para além de ser muito piegas, JRS usa e abusa de lugares-comuns, dando a sensação que grande parte é escrita apenas para ocupar espaço. Bem sei que a vida familiar de Tomás está por detrás do motivo de ele aceitar esse encargo de descodificar aquelas cifras, mas depois disso...

Depois há as situações sexuais, e aí, enfim, que dizer?

Na minha humilde opinião estão muito mal conseguidas. Nada excitantes ou provocatórias, quase todas as situações são ridículas e sem ponta de sensualidade. Lê-se coisas como ”fazer sopa de peixe com o leite das minhas mamas”, entre outras frase muito fraquinhas.

Mas pronto, de resto gostei bastante do livro.

Descobri muitos factos novos e interessantes e diverti-me imenso, só é pena JRS não encarar de frente esses Históricos factos.

















quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Vida Sexual de Catherine M. - Catherine Millet


Embora não sendo um apreciador de romances eróticos, este ”A vida sexual de Catherine M.” chegou-me às mãos de uma forma muito curiosa, parecendo ser uma daquelas situações ocasionais do destino que me colocaram nas mãos um livro que poderia ser interessante analisar e perceber até onde teria ido essa tal Catherine M., sobretudo depois de saber que este livro criou um grande impacto em França.

Do livro, uma questão fulcral se levanta: ”O que leva uma conhecida crítica de arte, ainda por mais, directora de uma prestigiada revista de arte, descrever, de uma forma nua e crua, toda a sua vida sexual?”

Honestamente não sei! Sobretudo depois de ler o livro.

O livro tem pouco para analisar ou a contar, pois é simplesmente um desfilar de recordações misturadas com factos imaginários a partir da altura em que Catherine Millet perde, aos 18 anos, a virgindade.

Pertencente à geração que defendia a liberdade sexual, Catherine lança-se numa promiscuidade sem regras, numa selvajaria sexual sem limites, sem cuidados e sem fronteiras. Catherine pratica sexo puro e duro da mesma forma que respira, algo intrínseco à sua pessoa, à sua personalidade. Pode-se dizer mesmo que o sexo ocupa o seus pensamentos e actos 24 horas por dia, com centenas de homens, em lugares privados, clubes, automóveis, no campo, casas particulares. Com conhecidos e desconhecidos. Amontoados de corpos onde ele mergulha, onde se entrega sem qualquer tipo de preliminares, apenas sexo por sexo, um cavalgar incessante, violento e sem ponta de sentimento. Ela própria afirma que não sabe a quantidade de parceiros que teve, alguns sem rosto, todos eles onde apenas o falo tinha importância e a forma como a usavam até à saturação física, a perfuravam violentamente, uns atrás dos outros, em catadupa, pela frente, por detrás... violento? Apenas tento transmitir a aberração do relato dela.

É um livro muito cansativo que usa e abusa de uma linguagem vernácula, ostensivamente chocante. Catherine narra sem qualquer pudor toda uma vida dedicada à prática sexual sem limites, um exibicionismo admitido, uma prática animal sem freio, pouco ou nada erótica e sim altamente doentia, paranóica, pois a diferença que separa o ser humano dos animais é aqui completamente diluída nos actos dementes desta mulher.

Muitos podem gostar, achar erótico e até excitarem-se com as descrições, inclusivamente surpreendeu-me Eduardo Prado Coelho afirmar: ”ler este livro é uma experiência de leitura poderosa e inesquecível”. Poderosa em que aspecto? Inesquecível é de facto tal a javardice e promiscuidade relatada.

Agora o livro valerá alguma coisa?

Certamente que sim, pois sabe-se que o narrado por Catherine, por muito que possa ser chocante, é algo que cada vez mais é algo comum nas sociedades contemporâneas e muito comum nas sociedades antigas. Ou seja, o livro poderá valer pela análise das situações num contexto social alargado, no entanto e para além de certamente agradar aos vouyeristas, não estou a ver alguém que tire especial prazer das situações narradas e muito menos que aprenda alguma coisa com elas.

Obviamente que sendo ainda um tabu na sociedade contemporânea, cada um de nós vê e pensa o sexo à sua maneira, no entanto considero as experiências relatadas por Catherine Millet, doentias, nada eróticas, explicitamente pornográficas e, ao contrário do que ela afirma, nada têm a ver com a liberdade, pois ela acaba por ficar presa naquele mundo, um mundo onde centenas de homens apenas a viam, ou vêm, como uma gaja que abria as pernas a qualquer um e sugava qualquer pénis.

Isso é liberdade?

Peço desculpa por algumas das palavras aqueles mais susceptíveis, mas tentei apenas descrever um pouco da brutalidade dos factos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Asteca - Gary Jennings

Gary Jennings, autor reconhecido em todo o mundo como um dos melhores autores do género romance histórico, era um homem muito erudito que levava a cabo intensas e rigorosas pesquisas antes de escrever os seus livros.

Falecido em 1999, Jennings deixou ao mundo um conjunto de obras aclamadas pela crítica, entre as quais “Asteca” que comporta as obras, em Portugal, “Orgulho Asteca” e “Sangue Asteca”, dois volumes.

Fascinado pelos Astecas, Gary viveu durante 12 anos no México. Aprendeu espanhol antigo e passou todos esses anos a viajar pelas selvas mexicanas e a ler textos antigos, tanto dos Mexica (Astecas) como dos espanhóis. Assim começou a criar todo o exótico mundo asteca, dando a esta obra uma autenticidade única, pois toda ela é baseada em factos verídicos.

Publicado pela editora “Saída de Emergência”, estes dois volumes, conforme referi acima, compõem a obra “Aztec” e é uma das melhores obras que já li, sem dúvida a mais realista e brutal.

Em 1519 Herman Cortez chega à costa do império Mexica. Confundido com o Deus Quetzalcoatl que, diziam as tradições Mexica, regressaria vindo do mar precisamente nessa altura, faz com que os senhores dos impérios não levantem armas contra os homens barbudos. Após várias intrigas com os povos subjugados pelos poderosos Mexica, equipado por apenas alguns cavalos, poucas centenas de soldados e meia dúzia de peças de artilharia, consegue chegar à cidade estado do império, devastando-a.

Pouco tempo depois o rei de Espanha ordena ao bispo da Nueva España que lhe faculte toda a informação sobre a vida, costumes e tradições daquele exótico e estranho povo agora vassalo de Espanha. O bispo, contra sua vontade, decide convocar um ancião asteca, iniciando assim a narração das suas memórias e, claro, do modo de vida e das tradições astecas.

No primeiro livro, “Orgulho Asteca”, seguimos o jovem Mixtli na sua vida familiar e no início da sua vida activa na sociedade Mexica. Nas suas memórias, relatadas com detalhe, ficamos a conhecer como funcionava aquela sociedade. No segundo livro, “Sangue Asteca”, continuamos a seguir a vida de Mixtli, já adulto com uma posição, e uma sociedade que se debate então com a chegada dos deuses prometidos ou de estranhos estrangeiros. Esse capítulo marca o fim desta civilização, dando-nos então a conhecer a verdadeira história da subjugação espanhola em simultâneo que nos fornece outras histórias que nos permitem entender alguns dos mitos acerca de cidades de ouro, etc. Curioso saber, entre muitas outras curiosidades, que foram os próprios espanhóis a fazer com que o fabuloso tesouro asteca se tivesse perdido.

Bom, mas o que ele vai narrar vai chocar não só o austero bispo, como toda a sociedade ocidental.

Uma obra poderosa, portentosa e brutal que descreve os alicerces onde assentava essa civilização, o modo como viviam, como desfrutavam os prazeres da vida, da religião que lhe dava permissão para todo o tipo de prazeres…, a forma como viam os brancos e a estranheza de os mesmos serem tão arcaicos…

Guerras, incesto, assassinatos, canibalismo e rituais religiosos sangrentos marcam uma civilização cheia de preconceitos, medos e fascínio pelo sobrenatural.

Uma obra violentíssima, exótica e muito sensual. A descrição dos actos de canibalismo, assassinatos, envolvimentos sexuais e dos rituais são arrepiantes. O à vontade e a naturalidade com que Mixtli narra a sua história vai contra tudo o que é considerado convencional pelos europeus.

Um épico notável que aconselho vivamente aqueles que gostam do género histórico, diria até para quem gosta de História pura, pois este é mais que um romance, é um documento histórico sobre os Mexia, os Astecas.

Com esta obra entramos no mais íntimo daquele povo, somos transportados ao seu coração, à sua alma e vivemos o auge de uma colossal civilização.

sábado, 30 de agosto de 2008

Fábula de La Fontaine - Jean de La Fontaine


Jean de La Fontaine nasceu em Château-Thierry, França, em 1621. Estudante de Teologia e Direito, depressa se apercebe que a sua vocação não estava direccionada para nenhum daqueles cursos, pelo que e após ter andado pelos negócios paterno, acabou por se dedicar às artes literárias, estreando-se como autor dramaturgo em 1654 com a comédia “L’Eunuque”.

Amigo pessoal de grande vultos da cultura francesa como Moliére e Racine, La Fontaine acaba por conseguir a protecção de Fouquet, poderoso ministro de Luís XIV (Rei Sol). No entanto, e desconhecem-se as razões, acaba por cair em desgraça alguns anos depois, sendo mesmo preso pelos mosqueteiros que tinham a capitaneá-los um tal de D’Artagnan, pelo menos é o que consta na História.

Mas tirando a sua vida pessoal que muito ainda tem para referir, La Fontaine ganhou notoriedade no seu tempo e fama para a posteridade devido às fábulas que escreveu.

Os primeiro livros de fábulas surgem em 1668 inspiradas nos textos de Esopo e Fedro, pois as fábulas remontam à antiguidade grega e até indiana, e é um tipo de narrativa alegórica em verso – ou quase sempre – que põe em evidência certas características humanas, tais como a vaidade, a arrogância, a ganância, a violência, o egoísmo, hipocrisia, etc. assim, as fábulas “pegando” nessas tais características, dão-nos uma lição moral muito simples mas cheia de significado.

E La Fontaine teve a inteligência e o bom senso de as introduzir na literatura ocidental, adaptando alguns contos populares franceses e situações correntes, ele adaptou de uma forma crítica, não raras vezes irónica mas sempre de uma forma inteligente e irreverente, irreverência essa que, curiosamente, lhe valeu o apreço de todas as classes sociais e que ainda hoje são dignas desses apreço. E é curioso analisar-se o porquê desse apreço.

Independentemente de existirem muitas outras informações, entre as quais, e é importante referir, as primeiras fábulas são escritas propositadamente para o Delfim e para as restantes crianças da côrte, La Fontaine serviu-se sempre dos animais para mostrar aos Homens a imagem da virtude, da tolice e outros “vícios” ridículos, assim como vários aspectos da própria sociedade francesa da altura, pois é facilmente perceptível algumas denúncias às misérias e abissais injustiças que pululavam na época.

Mas La Fontaine escreveu muitas fábulas. Algumas delas são bem conhecidas e ainda hoje ocupam um lugar muito especial no imaginário Humano, não apenas pela mensagem moral, como também porque facilmente as podemos empregar no nosso dia-a-dia.: ”O lobo e a raposa”; “A galinha dos ovos de ouro”; “A cigarra e a formiga”; “O leão e o rato”; “A água e a coruja”; “A rã invejosa”; “A vendedora de leite”, entre tantas outras.

Verdadeiro manancial educativo, as Fábulas de La Fontaine, que inclusivamente chegaram a ser traduzidas por Bocage, representam uma forma de sabedoria e conhecimento principalmente para os mais novos que, através de um universo aparentemente idílico, começam a conhecer o mundo e a pérfida natureza humana.

Em todas as suas fábulas podemos tirar conclusões e descobrir o que cada animal representa e o que significa cada acção e cada lógica.

É uma obra que recomendo a todos, principalmente que tiver filhos(as), sobrinhos(as), irmãos, irmãs, netos ou netas, pois assim e de uma forma simples e fácil, as crianças poderão ganhar consciência do mundo e da civilização.”

CITAÇÕES DE LA FONTAINE

”a avareza perde tudo ao pretender tudo ganhar”. “Arriscamo-nos a perder tudo quando queremos ganhar demais”.

“Quem julga caçar é caçado”.

“É um prazer dobrado enganar quem engana”.

“Paciência e tempo dão mais resultado do que força e raiva”.

“Correr não adianta. É preciso partir a tempo”.

“Todo o adulador vive à custa de quem o escuta”.

“Não julguem ninguém apenas pelas aparências”.

Umas das grandes obras literárias de sempre.

sábado, 23 de agosto de 2008

Planícies de Passagem - Jean M. Auel


Em "Planícies de Passagem" chega ao fim toda a saga de Ayla, a menina Cro-Magnon que em o "Clã do Urso das Cavernas" se viu aos 5 anos sem família e só num mundo inóspito e cruel, sendo então adoptada e carinhosamente criada por um clã Neanderthal, seres muito diferentes dos seus.

Neste 4º volume, Ayla já é uma mulher responsável mas que busca o seu espaço no mundo e sobretudo junto daqueles da sua espécie.

Acompanhada de um homem que escolheu para parceiro, partem os dois em busca de uma terra a que possam chamar de lar e aí constituir família.

É extremamente complicado abordar a história deste livro porque fazê-lo significa desvendar obrigatoriamente vários factos que põem em causa outros factos que se descobrem no primeiro, segundo ou terceiro volume. A vida de Ayla é uma autêntica aventura no período Paleolítico, logo, um período em que muito há a descobrir, sobretudo ao nível da antropologia e geologia. Uma aventura que coloca em evidência a relação do Homem primitivo com o mundo que o rodeia e a percepção que o mesmo tem desse mundo e do lugar que ele começa a ocupar.

Ao nível geológico e antropológico, todos esses volumes são um manancial Histórico surpreendente e assaz rico. Desde o modo de vivência e relacionamento entre os membros das próprias tribos, até ao relacionamento entre os mesmos e interacção desses com o ambiente. Toda a viagem de Ayla dá-nos a conhecer vastos locais que hoje são perfeitamente identificáveis e, sabe-se, que Jean Auel foi bastante minuciosa e atenta às descrições que efectua, assim como bastante rigorosa na descrição do clima e das condições de vida daqueles primitivos povos.

Fazendo uma retrospectiva deste 4 volumes - "Clã do Urso das Cavernas", "Vale dos Cavalos", "Caçador de Mamutes" e "Planícies de Passagem" -, vendo todos estes livros apenas como sendo uma obra com o título "Saga dos Filhos da Terra", posso garantir-vos que se trata de um conjunto de livros muito interessantes, que se lêem com gosto e de uma forma compulsiva, tal a forma e o ritmo agradável e ávido que Auel utiliza na sua escrita. No entanto e enquanto eu aconselho principalmente os dois primeiros livros, já deixo algumas reservas no terceiro e já não recomendo o quatro.

Sobretudo porque o quarto título (também ele divido em dois volume), deveria ser um título que finalmente desvendasse algumas das muitas questões que Auel vai levantando nos seus antecessores. Questões essas que nos deixam na ânsia de ler para saber, porém é imensamente frustante muitas dessas questões ficarem sem resposta.

Por outro lado é nítida a saturação da escritora. A aventura parece não ter fim, é aborrecida. As zangas e as pazes entre Ayla e Jondalar são quase sempre iguais, as cenas de sexo repetem-se numa clara tentativa, frustada, de dar algum erotismo ao livro, no entanto e embora Auel use uma linguagem muito explicita, geralmente essas cenas não nos comovem rigorosamente nada.

Porém e embora me tenha desagradado bastante este livro, pois admito que também eu já estivesse saturado da obra - 6 volume são 2463 págs. -, sei que este título não fechou a saga, pois e posteriormente Auel ainda editou um outro livro com o nome "The Shelters of Stone" (2003) que nunca foi editado em Portugal e em muitos países, visto que o flop foi tão grande com os últimos títulos que, acharam as editoras, um novo título não seria vendável.

Tenho pena, pois e provavelmente teríamos a resposta a várias questões que ficaram no ar, logo, parte da minha crítica que me leva a classificar este volume como um mau livro, poderia sofrer uma grande atenuante, pois parece-me ser este "Planícies de Passagem" mais um volume intermediário e não um volume final.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll


Considerado como uma obra prima da literatura universal, esta obra, escrita por Lweis Carroll, pseudónimo do diácono da igreja angelicana, Charles Lutwidge Dodgson, é um aglomerado imenso de jogos de palavras e linguagem inventiva que recriam um mundo fantasioso e absurdo, situações e aspectos da época vitoriana difíceis hoje em dia de entender e analisar em toda a sua plenitude, pois os significados, as metáforas e analogias são aparentemente tantas que tornam esta obra complicada de ser analisada.

Sabe-se que Carroll quando escreveu “Alice no País das Maravilhas”, o fez com a intenção de ser uma obra de facto dirigida às crianças e em homenagem a Alice Liddell, filha de um amigo. Curioso constatar ser Carroll um muito provável pedófilo, pois sabe-se que adorava fotografar crianças, além de as desenhar nuas cm o consentimento dos pais. É um comportamento bizarro, assim como bizarro é o mundo criado por ele em homenagens a Alice Liddell.

Alice vê passar por si um coelho branco a falar. Segue-o, acabando por entrar numa toca onde cai no vazio, surgindo então numa sala. Começa aí a aventura de Alice no País das Maravilhas onde, para além de várias situações absurdas, conhece personagens bizarras e estranhas.

É claro que Lewis pretendeu criar uma gigantesca metáfora ao mundo dos adultos. Ao mesmo tempo são várias as analogias à infância e sobretudo à fase da adolescência. Por outro lado é claro também a similaridade que existe em algumas personagens com figuras públicas da época vitoriana.

É uma obra com uma forte simbologia. Grande parte dessa simbologia escapou-me claramente, pois é perceptível que o absurdo das situações e das personagens tem algum significado mas, honestamente, desconheço.

Era uma obra que tinha curiosidade em ler, mas que admito, não gostei dada a pouca coerência e irracionalidade que a invadem. Não lhe retiro minimamente o mérito e a importância que teve e tem na literatura, mas enfim, não retirei prazer na leitura nem me ensinou nada de especial.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Mistério de Colombo Revelado (O) - Manuel da Silva Rosa e Eric J. Steele



A História tradicional, aquela que nos ensinam na escola, refere que em 1492 um genovês chamado Cristóvão Colombo, ao serviço dos reis católicos de Castela, descobriu o continente da América, colocando assim o seu nome na diminuta galeria de personagens históricas conhecidas a nível mundial.

Mas será que a história que os livros ensinam é a real?

Quem foi Cristóvão Colombo? Como se iniciou o processo da descoberta da América? Numa época onde a maior potência da navegação, aquela que possuía os grandes segredos era Portugal, é exequível pensar que um genovês, ainda por cima tecelão, teve a capacidade de capitanear toda uma expedição aos serviços dos reis de Castela, convencendo-os de algo que, aos olhos do mundo, ainda não estava provado?

É comummente aceite que a História está em constante redescoberta à medida que novos vestígios são descobertos e à medida que o avanço científico vai dando lugar a novas teorias e mesmo certezas.

Repara-se que só nesta década se descobriu que grande parte dos dinossáurios tinha a pele revestida por penas e que, grande parte deles, são antepassados das aves e não dos répteis como sempre se disse.

Assim é natural que investigações profundas sobre qualquer matéria dêem lugar a novas e sensacionais descobertas que, para além de juntarem novas peças ao que se sabe tem por vezes a capacidade de reescrever a própria realidade histórica.

E foi precisamente isso que se fez em meados do séc. XX: alguém começou a investigar Cristóvão Colombo, dando então conta de várias incongruências da história aceite como verdadeira.

Ou seja, a questão sobre quem foi Cristóvão Colombo não nasceu com este livro. Antes dele outros historiadores já debateram esse mistério e há inclusivamente vários livros acerca da questão onde sobressai a obra de Mascarenhas Barreto. No entanto poucos foram aqueles que investigaram sobre ele. Quem foi, onde nasceu, como viveu e como se desenrolou a aproximação aos reis de Castela e com que motivação.

Este livro, fruto de 15 anos de exaustivas pesquisas, tenta levantar o véu de mistério que persiste sobre a personagem, ao mesmo tempo que desmente, com provas documentais, o imenso embuste que foi criado e que, até à data, é História oficial.

Ninguém sabe quem foi Cristóvão Colombo, onde nasceu e quais os seus antepassados, mas há factos que desmentem muito do que se escreveu acerca dele.

O que se sabe é fruto de documentos do seu filho, dos reis de Castela e Portugal e de alguns apontamentos e cartas escritas pelo próprio. Esses dados suportam suposições lógicas. Uma vida que é uma espécie de teia onde se consegue desenlear algumas pontas.

A História oficial ensina-nos que Cristóvão Colombo ou Cristoforo Colombo, nasce em Génova sensivelmente em 1449. Filho de tecelões de lã e ele próprio tecelão, Colombo era analfabeto e, sem se saber porquê, resolve, já com 26 anos (+/-), ser marinheiro sendo que e após nadar oito milhas a partir de um embarcação naufragada, dá à costa portuguesa em 1476. Mesmo sendo um pobre marinheiro analfabeto, dois anos depois (pelos vistos não regressou a Génova antes tendo ficado inexplicavelmente por Portugal), surpreendentemente, casa com D. Filipa Moniz Perestrelo, membro da Ordem de Santiago e filha primogénita de uma das famílias nobres do reino. Ou seja, um pobre plebeu analfabeto e estrangeiro desposa a primogénita de uma família da nobreza e ainda por cima com a autorização do rei de Portugal D. João II, pois o rei como Grão Mestre da Ordem de Santiago teria de dar autorização para que um membro da ordem se casasse.

Para além de todo este absurdo, outras questões se levantam como se poderá constatar no livro.

No entanto a História conta-nos que este tecelão marinheiro depressa chega à presença do rei D. João II onde lhe apresenta o projecto de navegar até à Índia por Oeste, projecto esse que o rei rejeita peremptoriamente. Zangado, Colombo fixa-se em Espanha com a ideia de “vender” o mesmo projecto aos reis católicos e, mesmo vendo a mesma ser rejeitada durante 7 anos (curioso que agora já não se zanga), lá acaba por convencer os reis do empreendimento.

Obviamente que até aqui há imensas questões que colocam em causa toda esta história. Naquela época era impossível acontecer muitos dos factos até aqui referidos, mas e mesmo assim há factos que levantam outras pertinentes questões:

Em apenas 9 anos (1476-1485), o Cristóvão Colombo da História, plebeu, naufraga em Portugal e, mesmo analfabeto e não percebendo nada de navegação, consegue casar com uma dama nobre, aprender latim, português, castelhano, cosmografia, geografia, álgebra, navegação, a bíblia quase toda de cor, algum hebraico e grego, assim como um alfabeto secreto que ainda hoje é desconhecido, para além de se ter esquecido do seu genovês.

É obra!!!

Mas alguém acredita nisso?

É possível alguém acreditar que o homem que chegou efectivamente à América em 1492 nasceu em Génova e que era tecelão?

Mas estes factos são apenas aqueles que provam que Colon (nunca foi Colombo) não foi de certeza genovês. Não era nenhum mentecapto, sendo sim um homem instruído, nascido no seio de uma família da nobreza, de relações particulares com a casa real portuguesa, movimentando-se com total à vontade na corte castelhana.

Este livro surpreendeu-me pelas provas documentais apresentadas.

De uma forma honesta e muito rigorosa, estes investigadores trazem a lume documentos até hoje desconhecidos e esquecidos. Não descuram pormenores e são precisamente esses pormenores que levantam o véu deste imenso mistério que está profundamente interligado com a situação geopolítica da Ibéria dos sécs. XIV e XV.

Um livro que nos dá uma perspectiva completamente diferente daquilo que nos é contado nas escolas. Cheio de provas e pistas, ficamos com algumas certezas mas muitas dúvidas. A investigação é profunda e abarca praticamente toda a vida de Cólon, no entanto cabe a cada leitor analisar os documentos mostrados e daí tirar conclusões.

Pessoalmente não me interessa saber se Cólon era português ou não. O que me interessa é saber a verdade e o que esteve por detrás da descoberta da América. É aí que a investigação mais dificuldades encontra e é esse, para mim, o grande mistério.

O que sobressai também é os factos absurdos que levaram a ter Colon como genovês. Não entendo como é que os historiadores aceitaram a história e como é que continuam a aceitar. Uma coisa é afirmarmos desconhecer se Colon foi português ou não, outra, completamente distinta, é afirmar que Colon nasceu em génova e que era tecelão e analfabeto.

Conforme refere o Livros dos Conselhos: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Desgraça - J.M. Coetzee


David Lurie, cinquentão e divorciado, é professor universitário de literatura. Vive sozinho e para dar mais sabor à sua aborrecida vida, frequenta pontualmente às 14H das quintas-feiras, uma jovem prostitua de nome Soraya.

Tardes de prazer dão a David uma sensação de afeição que é brutalmente interrompida quando Soraya lhe comunica que se irá ausentar.

Sentindo-se abandonado e rejeitado, Lurie acaba por se aproveitar da fragilidade psicológica de uma aluna para com ela ter um caso, originando um escândalo na comunidade escolar que o faz cair em desgraça.

E é neste estado que ele resolve desaparecer, indo visitar a sua filha que vive numa comunidade no interior do país. No entanto as desgraças não param de suceder...

Este livro, que aquando da sua publicação deu origem a intensos debates na África do Sul, expõe de uma forma brutal o ressentimento e as tensões raciais que surgiram após a queda do Apartheid.

As desgraças de David simbolizam a desonra e a humilhação que caracterizaram as relações entre raças sul-africanas. O choque entre o passado e o presente, entre duas culturas sem quaisquer laços históricos e fraternais que originam uma situação explosiva que ainda hoje se mantém.

A teia que Coetzee vai tecendo é magistral. Ele coloca-nos, de uma forma crua, questões de opção completamente opostas.

A dor física sobrepõe-se à psicológica e inversamente. Somos levados a optar por uma ou por outra, o bom torna-se mau e o mau, bom. Destinos com perspectivas de futuro assustadoras.
Um livro incómodo que nos faz parar várias vezes face à brutalidade, várias vezes psicológica e moral, dos acontecimentos que assolam o quotidiano de David.

Um livro notável!

domingo, 27 de julho de 2008

Crónica de uma morte anunciada - Gabriel Garcia Marquez

Ângela Vicário, poucas horas depois do seu casamento, é devolvida à família pelo seu recente esposo, supostamente por não ser virgem na noite de núpcias.

Assolada pela vergonha, a família de Ângela pressiona-a no sentido dela dizer quem foi o causador de tal descaramento , acabando por nomear Santiago Nasar como o causador dessa desfloração.

Completamente cegos por vingança, os irmãos de Ângela, pegam em facas de matar porcos e, informando que com eles se cruza no caminho, vão em busca de Santiago para o matarem, o que conseguem de um modo verdadeiramente atroz.

Muitíssimo bem escrito, o que é normal em Garxia Marquez, um dos factos que tornam o livro curioso e sui-generis, é o facto que desde a primeira página, sabermos que Santiago já morreu assassinado pelos irmão Vicário.

A questão aqui centra-se não no porquê desse assassinato, pois e de acordo com a sui-generis e fantástica sociedade rural colombiana parece ser normal tal acontecer, mas a questão central reside precisamente na própria crónica dessa morte que narra as últimas horas da vida de Santiago, principalmente a sua última hora.

Um excelente livro, baseado num acontecimento verídico, que considero ser até o livro ideal para entrar no mundo fantástico de Garcia Marquez. Uma história que narra um acontecimento aparentemente banal, mas é essa aparente banalidade que é fascinante. No entanto parece-me que Garcia Marquez tem o condão de tornar especial tudo o que escreve.

sábado, 19 de julho de 2008

Caçadores de Mamutes (Os) - Jean M. Auel


Em os "Caçadores de Mamutes", divido em dois volumes, voltamos a encontrar Ayla, agora já uma jovem e bela mulher com a capacidade de discernir o seu mundo e as diferenças que a separam daqueles que a criaram.

Neste terceiro volume, e não querendo entrar em detalhes, pois poderia estragar o prazer da descoberta e da surpresa, Ayla parte para a terra dos Mamutes, animais imponentes que eram a base da alimentação da altura.

Atravessando planícies sem fim, Ayla acaba por encontrar uma terra habitada pelos da sua espécie, no entanto ela própria sabe que também cada vez está mais longe da tribo que a criou e onde ela ainda tem motivos para amar...

Este terceiro volume, pese embora Auel continue o estilo e a forma narrativa assente, como já referi, em factos Geológicos e Históricos reais, perde imenso para os dois antecedentes.

Não vou aqui mencionar as principais razões porque considero essa perda, sobretudo porque iria cair em considerações sobre acontecimentos da própria história, mas há algo que está subjacente à própria extensão da obra, que é algum cansaço e saturação que se nota na escritora, assim como uma natural saturação do próprio leitor, pois repare-se: quando chegamos a este "Caçador de Mamutes", já levamos dois volumes lidos num total de cerca de 1.000 páginas. Sobre a época descrita, sobretudo sobre a coexistência entre o Homem de Neanderthal e o de Cro-Magnon já tudo foi praticamente dito em o "Clã do Urso das Cavernas" e o "Vale dos Cavalos" assim, este presente livro torna-se algo repetitivo nessas descrições, caindo assim também na repetição ao nível das situações, sobretudo quando Auel parece ter considerado o sexo como um escape ao argumento.

Pessoalmente gostei, mas não escondo que me decepcionou imenso. Vinha embalado com os outros dois e foi deveras frustante ver e sentir que a própria escritora estava mortinha para acabar com a história.

Obviamente que o livro tem a sua Qualidade. Lê-se bem e é curioso constatar a evolução de Ayla, mesmo a sua evolução no contacto com os da sua espécie, porém este fica muito aquém do esperado e exigível.

Mas existem algumas análises que se podem fazer, sobretudo no contexto social, nomeadamente ao nível do comportamento em grupo, podendo mesmo afirmar que este livro efectua uma curiosa análise aos primórdios dos comportamentos entre indivíduos.

domingo, 13 de julho de 2008

Benevolentes (As) - Jonathan Littell


Aclamado e vencedor de Prémios em praticamente todo o mundo, “As Benevolentes” é um calhamaço de 900 págs. tido já como um futuro clássico da literatura e comparado a obras do Cânones da literatura ou de mestres como Dostoiesvky, Tolstoi, Dickens ou Hugo.

Littell propõe-se a narrar as memórias de um ex-oficial nazi, hoje em dia um notável e respeitável empresário, que ocupou um importante lugar na hierarquia do partido, tendo tomando parte na questão judaica e não só.

A história inicia-se alguns anos antes do conflito de (1939-1945). Maximillian Aue, de uma forma pragmática e aparentemente se remorsos, narra parte da sua infância e juventude até à sua casual entrada no partido nazi. A partir daí há toda uma ascensão na hierarquia que o leva a estar presente na invasão à Rússia, passando por diversos campos de concentração onde foi um dos organizadores dos mesmos.

Descreve assim a origem e início das deportações, os interesses das mesmas e das perseguições lavadas a cabo em toda a Europa, assim como vai descrevendo situações de guerra, sobretudo, para mim das mais interessantes e cruéis, a Batalha de Estalinegrado, considerada como a batalha mais sangrenta de toda a História das guerras, onde pareceram, em apenas 6 meses, 1,5 milhões de pessoas, entre soldados e civis.

Obviamente que nesses aspectos o livro é muito interessante, mas, globalmente o livro aborreceu-me imenso.

O autor prende-se demasiadamente em diálogos que não levam a lado nenhum. Diálogos vazios, de ocasião, colocados em exagerados jantares, almoços e encontros que até admito pretender mostrar o vazio da vida da elite alemã, mas que de interessante nada têm e que têm o condão de cortar o ritmo que o livro por vezes consegue.

É notória a intenção do autor em chocar com os pormenores de alguns detalhes que até podiam servir como um tempero para os acontecimentos que se seguem, no entanto, pese embora esses pormenores e para a história que narra e para o que procura contar, é um livro demasiado volumoso com dezenas e dezenas de páginas de pura palha, arrastando-se numa modorra irritante e sonolenta.

Embora todas as sinopses falem de descrições de atrocidade como sendo algo que marca o livro, elas são diminutas, aqui e ali pontuadas com alguma crueldade, mas longe de serem extremamente chocantes, pois já tenho lido noutros romances descrições muito mais realistas e cruéis, aliás, facilmente me dei conta de inúmeros clichés na história (as crianças que são arrancadas às mães, famílias separadas, assassinatos a sangue frio).

Um livro muito decepcionante que não faz jus ao marketing que foi criado e muito menos às supostas comparações com outras obras épicas como “Guerra e Paz” conforme li algures. Só alguém de má fé, que não tenha lido a obra de Tolstoi ou um brincalhão, pode comparar a obra de Tolstoi a este “Benevolentes”, aliás, comparar um ao outro é como comparar a “Pirâmide de Gize” ao Centro Comercial das Amoreiras.

No entanto é um livro que exige muito do leitor. Uma aturada atenção página a página assim como uma atenta análise aos pormenores pois, e deixo aqui uma ressalva à minha opinião, este é livro que irá merecer de certo uma posterior releitura da minha parte, pois é um livro, pese embora a minha sincera opinião acima exposta, onde me ficou uma sensação de algo que me passou despercebido, algo como mensagens que me passaram ao lado.

Tal como já anteriormente aconteceu (por exemplo em “O Perfume”), este pode ser um livro cuja minha opinião mude drasticamente aquando da sua releitura, pois sinto que não retirei todo o potencial do livro.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Vale dos Cavalos (O) - Jean M. Auel


Este "Vale dos Cavalos" é o segundo da tetralogia "Os Filhos da Terra", iniciada como o fabuloso "Clã do Urso das Cavernas".

Tal como no primeiro volume, e outra coisa não seria de esperar, somos novamente transportados até ás planícies asiáticas de há 25.000 anos em pleno período Paleolítico.

A história segue exactamente a linha iniciada em "O clã do urso das Cavernas". Ayla é agora uma adolescente em constante conflito com os membros do clã que a adoptaram. Ela é diferente deles e começa-se a aperceber não só dessas diferenças como e principalmente das capacidades que os outros não têm. Obviamente que isso, e ainda por mais sendo fêmea, provoca nos outros um sentimento de frustação, ira e inveja, o que irá levar a naturais conflitos e uma expulsão do clã, partindo assim Ayla em busca dos da sua espécie.

Jean M. Auel é novamente brilhante na forma como descreve não só a época em si, como na abordagem das práticas e costumes do Homem de Neanderthal e Cro-Magnon.

A história é profundamente terna, conseguindo também ponto de viragem absolutamente fantásticos, pois vão sendo lançados factos violentos que marcavam, de uma forma natural, aquela época tão longínqua como igualmente desconhecida.

Obviamente que muito da obra é puramente ficcional, sobretudo no aspecto do relacionamento e coexistência entre esses dois grupos de hominídeos, no entanto a escrita de Auel é tão viva e interessante que facilmente nos deixamos engolir pela narrativa, sendo então arrebatados para aquela época.

Um volume muito bom, mas que já não tem aquela áurea que nos surpreende em "O clã do urso das cavernas", sobretudo porque após o brilhantismo do primeiro volume, é lícito esperar-se uma continuação melhor ou igual.

Claro que existem muitos pormenores Históricos, mas deixo que descubram isso por vocês próprios.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Clã do Urso das Cavernas (O) - Jean M. Auel

Este é um dos melhores livros que li até à data. Para além da história cheia de pormenores e excelentemente bem narrada por Jean Auel, a mesma é enriquecida por toda uma arquitectura fortemente alicerçada em factos Históricos e Geológicos reais.

Jean M. Auel aquando da preparação deste notável romance histórico, efectuou vários e apurados estudos da época retractada - chegando mesmo a acampar durante uma noite num abrigo construído "à moda" pré-histórica e em condições extremamente duras - assim como acerca dos homínideos caracterizados: Homem de Cro-Magnon e Homem de Neanderthal.

Há 25.000 anos o planeta Terra era um "local" ainda em construção, habitado aqui e ali por estranhos animais que viviam sobretudo da caça. Uma época algo perdida na História, mas uma época onde se sabe que o Homem começa a ter alguma "atitude" artística e religiosa.

Algures no continente asiático, um violento abalo sísmico devasta todo um acampamento de uma tribo de Cro-Magnon, no entanto e por se encontrar fora do espaço da aldeia, acaba por sobreviver a esse forte abalo uma menina de uns 5 anos (Ayla), que se vê, de um momento para o outro, sozinha num mundo assustador e inóspito.

Obrigada a vaguear pelas frias estepes asiáticas, acaba por ser vencida pelo cansaço, soçobrando, destinada, quiça, a servir de alimento para terríveis felinos.

É encontrada então por um grupo de viajantes Neanderthalenses que, com pena daquele frágil ser, a acabam por adoptar, nascendo aí toda uma história que irá pôr em foco as diferenças entre essas duas raças e sobretudo uma curiosa comparação e estudo entre as mesmas.

É um texto imponente onde é evidente o porquê do fim do Homem de Neanderthal. Extremamente atractivo ao nível das peripécias narradas, é também ele constantemente salpicado por factos sórdidos de cariz sexual, revelando, como é compreensível, uma bestialidade insana, mesmo grotesca.

Brilhantemente adaptado ao cinema em 1986 por Michael Chapman e tendo como principal actriz a bela Daryl Hannah, este é um livro riquíssimo ao nível Histórico e deveras aliciante e excitante na forma como o enredo é construído.

Altamente recomendado.





domingo, 29 de junho de 2008

Perfumista (O) - Joaquim Mestre

O Perfumista tem como pano de fundo a 1ª Guerra Mundial e a Pneumática que devastou milhares de vidas na Península Ibérica após 1918.

Tem também como pano de fundo a arte de perfumista, criador das mais variantes aromas que enlouquecem homens e mulheres. Um artificie que tem tanto de antigo como de misterioso.

Toda a acção passa-se no Alentejo, num Portugal rural, supersticioso, pouco desenvolvido e ainda agarrado aos ideais monárquicos.

Numa determinada região alentejana, um homem apaixona-se por uma mulher. Em busca de uma vida melhor, este homem emigra para a grande cidade no sentido de aprender uma profissão que muito tem a ver com ele: Perfumista.

Anos depois regressa á vila e aí desposa essa mulher ficando ambos a viver, na companhia da mãe dela, numa grande casa onde aí montam um negócio de perfumista que lhes irá trazer fama.

Pouco tempo depois este homem é incorporado no corpo expedicionário português e é enviado a combater em França, na terríveis trincheiras.

Por essa altura surge, tal como um furacão, a Pneumática que arrasa milhares de famílias, ao mesmo tempo que o Corpo Expedicionário é arrasado em La Lys.

Gostei muito deste romance.

É um romance onírico, cheio de magia que se assemelham ao mundo mágico de Marquez. É inegável a semelhança de estilo de Marquez (esta vila faz lembrar a aldeia dos Buéndia), notando-se também fortes semelhanças com o estilo de Saramago não faltando, na história, um descendente de Baltazar Sete-Sóis.

Foi um livro que me deu muito prazer ler. A história é terna, dura e tomada por aromas díspares que se soltam página a página, palavra a palavra.

Considero este livro um dos excelentes livros da nossa literatura dos últimos anos.

domingo, 22 de junho de 2008

Número de Deus (O) - José Luis Corral


José Luis Coral é o autor espanhol de mais êxito no género do romance histórico. Professor de História medieval, é conhecido por ser o autor de várias obras, onde se incluem livros, artigos, guiões para tv e inclusivamente foi assessor histórico do filme “1492 – Cristóvão Colombo”. As suas obras demonstram sempre um grande rigor histórico, não descura pormenores, nem de linguagem nem dos usos e costumes da época e este “Número de Deus” vem mostrar não apenas isso, como também, uma grande capacidade, que nem todos os escritos do género têm, de colocar no mesmo livro, uma época e toda a sua mentalidade, a evolução da mesma, misturado com os acontecimentos que marcaram a época.

Confusos?

O livro inicia-se no séc. XI (1212) com o nascimento em Burgos de Teresa Rendol, filha única do mestre pintor de frescos Arnal Rendol. A história vai-se dividindo entre vários reinos (França, Leão e Castela). Nesses anos reinava em Castela Henrique I e em Leão Afonso IX. Época marcada por constantes desavenças entre estes dois reinos irmãos, irá ser o filho de Afonso IX, Fernando III, que irá reunificar os reinos, sendo também que ficará para a História como um dos Maiores reis de sempre, sendo considerado pela igreja católica como santo e posteriormente canonizado.

A história passa-se maioritariamente no reinado de D. Fernando III, época onde reinava um fervor religioso enorme, mas também uma época onde se respeitava o génio humano e havia espaço para o mesmo ser posto ao serviço de Deus para construir grandes obras, entre as quais, catedrais.

Embora o livro trate em específico desse trabalho, a da construção de catedrais onde trabalhavam grandes Mestres de vários ofícios sempre em busca da perfeição, José Luis Corral vai abordando também a mentalidade e a evolução, em pouquíssimo tempo, da mesma. Uma época cheia de acontecimentos, onde a guerra com os mouros era constante, vamos assistindo à imposição da igreja na sociedade, à perseguição dos Cátaros e ao surgimento de novas teorias acerca do mundo e da sociedade, principalmente no acolhimento, por interesse próprio, das teorias de Aristóteles em prejuízo das de Platão, pois era Aristóteles que defendia que a mulher era inferior ao homem. Vai nascendo assim uma outra concepção da natureza que irá ter repercussões nos séculos vindoiros. E Corral, numa linguagem simples e correcta, explica isso, encaixando de uma forma brilhante na história que é de várias histórias interligadas.

Quanto a mim o livro vale por essa questão. Pessoalmente desconhecia como havia nascido essa mentalidade que jogou a Europa em centenas de anos de obscuridade, assim como achei estupenda a narração da situação geopolítica dos vários Estados, inclusivamente vai-se, aqui e ali, abordando o reino de Portugal. E sobre o reino de Portugal constatei que uma das razões que nunca houve grandes planos para o tomarem, foi de que os reis portugueses sempre foram bastante inteligentes, pois faziam vários acordos com o Papa e casamentos estratégicos com várias casas reais.

É um excelente livro que aborda uma época que me apaixona e que demonstra o quão maléfico foi a igreja católica que atrasou séculos de evolução, tanto espiritual, como intelectual.

domingo, 15 de junho de 2008

Guerra dos Tronos (A) - R.R. Martin


Não sendo um apreciador do género fantástico, opiniões muito favoráveis fizeram-me despertar o interesse por esta saga composta, segundo consta, por 14 volumes (!!!), sendo que metade deles ainda está por escrever.

Obviamente que a extensão desta obra pode ser desajustada, no entanto, dada a subjectividade, o melhor é analisar volume a volume, perceber, ou tentar, a objectividade do autor e o interesse, a chama, que o mesmo despertará nos volumes subsequentes.

Foi pois com alguma expectativa que peguei neste “A Guerra dos Tronos”, livro Um da saga “As Crónicas de Gelo e Fogo”.

Eddard Stark, lorde dos domínios de Winterfell, recebe a inesperada visita do Rei Robert Baratheon, algo como um Rei Supremo, e da sua comitiva.

Desde logo é perfeitamente perceptível a intimidade e amizade que existe entre estes dois homens.

A intenção do Rei Robert é convidar Eddard para ser o seu “Mão-do-Rei”, o cargo mais importante da corte, algo como um Primeiro Ministro.

Desconfiado, mesmo percebendo as razões do rei, Eddard aceita e conjuntamente com duas filhas, uma delas prometida ao filho mais velho de Robert, parte para Sul para os domínio reais.

E aí depara-se com uma corte fustigada pelas intrigas e invejas, onde a maldade impera e onde os inimigos espreitam a cada esquina.

Em simultâneo, outras prestigiadas famílias também com interesses vários, agem num intrincado e promíscuo tabuleiro estratégico de forma a ganharem poder e vantagem sobre as outras, e curioso constatar que todas as famílias estão unidas por casamentos, mas mesmo assim fomentam o mal das outras.

Sendo uma obra classificada como fantástica, pensei que me ia deparar com dragões, duendes, elfos e afins, no entanto e para além de alguns pormenores realmente fantásticos, fiquei agradavelmente surpreendido com a pouca fantasia deste 1º volume.

A acção pode-se classificar como sendo da idade medieval. Em termos geográficos e embora as descrições, os nomes e até o mapa nos faça recordar a Grã-Bretanha, as semelhanças ficam-se apenas por aí, pois a descrição do clima e sobretudo a variante meteorológica de Norte para Sul é tão elevada e radical que fazem-nos perceber que aquele mundo não existe, que de facto foi criado por Martin.

É interessante e deveras agradável a simbiose que o autor efectua entre o género fantástico e o histórico. As descrições dos costumes e usos são, sem dúvidas, os medievais, assim como medievais até a forma dos diálogos e o vestuário, no entanto, aqui e ali, lá vai surgindo pitadas leves de fantasia, seja no surgimento de lobos gigantes, seja na floresta Assombrada que supostamente contém criaturas perigosas e espantosas.

Com vários capítulos, todos eles nomeados com o nome dos vários personagens (é desta forma que acompanhamos todos em simultâneo), o autor consegue criar um trama interessante e que tem tudo para se desenvolver nos volumes sequentes, porém nem tudo é positivo neste volume, neste início de saga.

Talvez porque o autor tem consciência que a dimensão prometida poderá levá-lo a becos sem saída, a história ou, se quiserem, o trama, tem pouco desenvolvimento para as suas 360 páginas. Durante todo esse “tempo”, o período temporal é curto e a descrição do passado, que é sempre um trunfo para a moenga de histórias, é pouco explorado. Tenho consciência que o autor irá explorar precisamente isso ao longo dos volumes, no entanto fiquei com uma sensação de insatisfação acerca da história e sobretudo acerca de alguns personagens que são apenas aflorados e depois abandonados.

Mas não escondo que a obra me agradou e que fiquei interessado no 2º volume: “A Muralha de Gelo”. A escrita é simples, objectiva e eficaz. O autor é claro e parco nas suas descrições, mas, repito, dada o tamanho da obra, temo que o autor vá desenvolvendo a um ritmo lento, correndo o perigo de retirar interesse aos leitores.

Dou o benefício da dúvida e vou continuar a leitura da saga.