domingo, 26 de agosto de 2012

Chaplin, os Primeiros Anos – Stephen Weissman



Se há personagem que todos conhecemos é, indiscutivelmente, Charlot, o “Adorável Vagabundo” que encantou gerações e que, cem anos depois do seu surgimento, continua a fazer rir quem assiste aos seus mudos filmes.

Charles Spencer Chaplin nasceu no dia 16 de Abril de 1889 em Londres. Filho de dois actores que chegaram a ser bastante conhecidos e apreciados (Hannah Chaplin e Charlie Chaplin Sénior), teve um início de infância dourado que brutamente terminou quando, aos 7 anos, se viu recluso num orfanato. Conforme Chaplin referiu muitos anos mais tarde, “a minha infância terminou aos 7 anos”, facto que teve um enorme impacto na sua vida e que teria enormes repercussões na sua brilhante carreira.

Sai do orfanato dois anos depois, indo viver para umas águas furtadas com a sua mãe, actriz caída no esquecimento e condenada a viver miseravelmente de trabalhos de costura, e com o seu irmão mais velho, Sydney Chaplin. Na verdade, Sydney Chaplin era seu meio irmão por parte da mãe, facto que é explicado neste livro.

Inicia-se um périplo terrível de fome e miséria numa busca constante pela sobrevivência. Em todo o caso os três lá iam sobrevivendo e, com cerca de 14 anos, Chaplin começa a tentar a sua sorte no teatro de comédia, iniciando-se aí uma carreira fulgurante que o levou ao estrelato e ao topo do mundo.

Nesta obra biográfica, Weissman escalpeliza praticamente toda a carreira de Charles Chaplin, dando especial atenção aos primeiros 25 anos da vida de Chaplin. Nesse sentido, conhecemos a sua dura e triste infância e percebemos o quanto lutou por um sonho que era também um dom, pois ela tinha características que, por si só, o tornavam um artista. Numa época onde o cinema estava em estado embrionário, Charles Chaplin transportou para o cinema os alicerces da pura arte teatral britânica e foi o pioneiro dos fundamentos da técnica de actuação cinematográficas, numa época onde técnica era algo que pouco existia.

É inegável a importância de Charlie Chaplin e do seu alter ego Charlot para a industria do cinema. Charlie Chaplin, em poucos anos, transformou a industria do cinema, que era uma actividade associada à gentalha, numa industria altamente rentável e tida em consideração pela sociedade. Até aos dias de hoje, Charlie Chaplin é considerado por muitos como o melhor actor de todos os tempos. Independentemente de o ser ou não, o certo é que Chaplin transportou a sua vivência e poder de observação para a sua arte, legando-nos filmes de enorme qualidade cómica e dramática que continuam a encantar.

Este é pois uma obra biográfica de enorme qualidade, onde nos é dado a conhecer o actor por detrás de Charlot. A criança pobre e miserável que com a sua força de vontade e as suas motivações, foi desbravando caminho num mundo elitista, mostrando-nos também que tudo pode ser possível, desde que acreditemos.

Chaplin é, indiscutivelmente, o mais importante artista criado pelo cinema.” Woody Allen

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Vento dos Khazares (O) – Marek Halter


Confesso que desconhecia totalmente a existência do reino dos Khazares. De origem turcomana, dominaram a região centro-asiática (entre o Mar Cáspio e o Mar Negro) entre os séx. VII e o séc. X, e até aos nossos dias representam um mistério, sobretudo face à religião que adoptaram: o judaísmo.

Rodeados pelos poderosos impérios bizantino e Sassânida, muitos historiados dissertaram do porquê dessa estranha conversão de um povo que nada tinha de ligações à religião judaica, existindo algumas teorias interessantes e outras um pouco estranhas.

Em todo o caso a conversão dos khazares ao judaísmo foi um facto e esse é, diria, o assunto principal desta obra de Marek Halter.

O livro vai intercalando por dois períodos temporais. Se por um lado nos situamos sensivelmente no ano 950 d.C., onde vamos acompanhando o rei Khazar José que recebe um embaixador de Constantino com uma proposta de aliança entre os dois impérios, aliança essa que é vista por todos os khazares como traiçoeira, por outro, no ano 2000, assistimos a um escritor que depois de uma estranha conferência, recebe a visita de um estranho que lhe oferece uma antiga moeda khazar e que lhe fala de uma caverna que contém um enorme tesouro desse império perdido.

Entre estes dois períodos existem elos comuns que vão, de alguma forma, interligando a história. Em todo o caso, desde logo existe uma áurea de mistério, principalmente na acção empreendida pelo escritor em busca de mais informações e pistas sobre esse reino.

Embora o tema seja de facto algo desconhecido e tenha percebido a intenção do autor em revelar ou a dar a conhecer esse império, quanto a mim, o autor desenvolve um trabalho fraco e com poucos pontos de interesse.

O que vamos lendo do período khazar, pouco nos dá a conhecer esse povo. Imagino ou dou o benefício da dúvida que poucos vestígios existem e que o autor também não quis ficcionar muito, em todo o caso, a história por ele narrada dá-nos uma sensação de vazio, pois praticamente resume-se à história de um visitante do ocidente que pretende entregar uma missiva do seu importante rabi ao rei José enquanto este se mantém ocupado num suposto acordo politico com o representante de Bizâncio. Paralelamente, surge a bela irmã do rei que se envolve com esse visitante ocidental. Pouco mais é do que isso e se desconhecíamos os khazares, só os ficamos a conhecer pelo nome, pois seus costumes e cultura são aqui pouco ou nada mencionados.

Depois na outra história, a do escritor, tudo é um pouco estranho. Desde a forma como ele se mete em busca dessa civilização através de um personagem que depois desaparece e que se revela de pouca importância, até ao epílogo digno de uma fita americana de 3ª categoria com explosões e interesses petrolíferos á mistura. Tudo finda de uma forma estranha, mal construída, diria até construída à pressa, sem grandes elos de ligação e coerência.

Confesso que foi o primeiro livro que li de Marek Halter e que foi uma grande desilusão. A história em si é cativante, ele escreve bem e a narrativa segue uma estrutura simples, sendo a sua leitura fluída e rápida. No entanto não gostei da história e da forma como o autor vai desenvolvendo um trama que se revela algo vazio, com personagens pouco ou nada interessantes, dos tais que não deixam saudades e que nos esquecemos dois dias após o término do livro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Livros dos Mosquetes (O) – Emílio Miranda


Uma crónica japonesa (crónica do mosquete ou Teppo-ki) refere que no dia 23 de Setembro de 1543 um junco chinês com três marinheiros portugueses, que se dirigia para Liampo, sofreu uma violenta tempestade e foi parar à ilha de Tanegashima no Sul do Japão. Na altura os portugueses já mantinham um intenso contacto comercial com a China e julga-se que tinham já conhecimento da existência dessa ilha a que davam o nome de Cipongo, até porque há muito que os chineses e coreanos mantinham trocas comerciais com o Japão.

Em todo o caso, pode não ter sido bem como a crónica de Teppo-ki menciona, pois há provas que apontam para a chegada de três naus portuguesas, efectivamente em Setembro, comandadas por António Peixoto, António da Mota e Francisco Zeimoto que desde logo encetaram contactos com as autoridades locais com o objectivo de comércio.

Ou seja, duas histórias distintas. Uma mais aventureira e a outra mais real que se coaduna mais na forma como os navegadores portugueses agiam.

O Livro dos Mosquetes pretende dar-nos uma visão da chegada dos portugueses e das percepções e considerações de ambos os lados, sobretudo no que respeita aos usos e costumes dos japoneses e da terrível invenção que os portugueses dão a conhecer: o mosquete.

E o livro surpreendeu-me pela sua qualidade.

Numa escrita fluída e intervalada por capítulos muito curtos, o autor vai construindo um trama que se inicia com o naufrágio do junco e da chegada a terra da sua tripulação. Nos dias em que esse junco se encontra em reparações, João Boavida enceta os primeiros contactos com aquele estranho povo e decide, com a autorização do seu capitão, permanecer junto desse povo até ao regresso dos portugueses. O objectivo é de estabelecer contactos comerciais e políticos com a autoridade (Daímo), aprender os costumes e hábitos enquanto vai espalhando a sua cultura europeia.

Para o poderoso Daímo (senhor feudal) é uma honra hospedar um estrangeiro, ainda mais porque compreende que aquela arma lhe pode via a ser muito útil e dessa forma ganhar mais poder juntos dos outros daímos. De notar que o Japão estava organizado numa sociedade milenar, de hábitos e regras muito rígidas que estipulavam o direito à vida e à morte dos senhores feudais sobre o povo. Samurais orgulhosos da sua descendência compunham a elite social e a preparação para a guerra era uma constante, aliás, a guerra era quase o único objectivo de um samurai.

É nesse contexto que João se vai confrontar e daí surgem contraste enormes, não só de costumes culturais, como e principalmente, de filosofias de ser e estar. Nesse sentido adorei o livro e a forma como o autor conseguiu explorar e evidenciar esses contrastes. Por um lado temos um representante de um povo que andava a desbravar mares e a descobrir outros povos. Do outro, um povo que vivia isolado mas que possuía um enorme apreço pela sua cultura milenar. O português representava um povo que, preso pelas agrilhoas da religião, desprezava o corpo (por exemplo) e que tinha uma perspectiva arrogante e até pesada face a várias questões. Os japoneses retiravam prazer de pequenas coisas, eram limpos e organizados e tinham um enorme respeito pelos seus deuses mas sem caírem na idolatria que, por exemplo, os bárbaros do sul, conforme chamavam aos portugueses, se atolavam.

Para mim essa é a principal virtude do romance. O contraste entre culturas e a curiosidade em perceber que, de facto, o ser humano a tudo se adapta, sobretudo quando se apercebe que o local onde vive lhe moldou o caracter e que agora é uma pessoa melhor.

Curiosas as considerações e as ilacções que Boavida vai tirando de tudo o que observa e vive. Fica assombrado pela forma livre e despudorada como os japoneses vêm o sexo que, conforme João refere a certa altura, seriam considerados heréticos e indignos na Europa, no entanto João percebe que o sexo é algo natural, uma necessidade para o corpo e para o espírito que permite às pessoas sentirem-se plenas e felizes.

Gostei muito do livro e surpreendeu-me a qualidade da escrita e a forma clara e honesta como o autor expõe um conjunto de factos que ajudam a compreender o estabelecimento de relações entre os portugueses e os japoneses. A forma como descreve o impacto de uma cultura completamente oposta é algo que muito me agradou e que tornam o livro, a meu ver, um bom veículo cultural.

Altamente aconselhável!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo – João Ferreira



O jornalista João Ferreira, depois do sucesso alcançado com o livro “Histórias Recambolescas da História de Portugal”, repete um pouco a receita e dá-nos a conhecer uma série de histórias bizarras de vários personagens e não só.

À semelhança do seu primeiro livro, neste, o autor repete a fórmula dando-nos a conhecer alguns factos muito resumidos ao estilo da wikipédia. Ou seja, vários casos são aqui tratados, no entanto, todos eles não merecem mais de 2, 3 páginas, onde a história é resumida, teorias mencionadas e nenhuma conclusão.

No entanto não se pense que estamos na presença de um mau livro ou um produto de puro oportunismo.

Divido por capítulos, é possível lermos sobre personagens míticas como D. Afonso Henriques ou a Papisa Joana; os falsos diários de Hitler, Ilha da Páscoa, ou as mortes misteriosas de Viriato, D. Pedro V, Rasputin e Sá Carneiro; doenças misteriosas que dizimaram a humanidade, ou então alguns dos espiões que pululam na História assim como traidores e bandidos famosos.

Várias curiosidades, até no próprio discurso de João Ferreira que afirma no capitulo sobre Cristovão Colombo (para os amigos, pois o seu verdadeiro nome teria sido Colon): “A História faz-se de com documentos. Se amanhã forem encontradas provas que sustentem aquilo que, por enquanto, pertence ao domínio do romance histórico ou da excitante «história alternativa...»”, então deduzimos que só aí poderemos levar em linha de conta o que hoje em dia já se sabe sobre a personagem de Colombo. Ele afirma isso para menorizar o que vários investigadores já constataram através dos vários documentos achados.

Achei isso engraçado pois ele nem necessitava de menorizar porque, simplesmente, nem devia abordar esse assunto neste livro. Dedica-lhe página e meia e refere apenas dois factos insignificantes quando há dezenas de outros que não fazem parte da «história alternativa». Em todo o caso não entendo a afirmação "Se amanhã forem encontradas provas que sustentem...", até porque e no caso de Colombo, já existem muitas provas que sustentam que a História conforme nos é contada até hoje é falsa e João Ferreira certamente desconhece esses factos.

No entanto achei curioso a posterior contradição quando e depois de escrever que a “A História faz-se de com documentos”, mencionar neste livro a lendas como Robin Hood, o tesouro dos Templários ou Judas e o que está escrito na Bíblia… Curioso, no mínimo, até porque quem ler o livro fica com a convicção que o autor acredita nessas lendas.

Em todo o caso é um livro simples mas muito interessante, que se lê rápido e que contribui um pouco para a nossa cultura geral e que serve para mudar de conversa num jantar de amigos.

Quanto a mim faltou apenas mencionar as lendas das moiras encantadas que, de certo, para o autor existiram com toda a certeza e que, ainda hoje, se podem ver e ouvir em qualquer noite de lua cheia em qualquer canto de Portugal, mesmo em locais que nunca viram mouros.

Resultados do Passatempo “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo ”

O Blog NLivros e a Editora Esfera dos Livros agradecessem a todos os participantes do passatempo “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo ”, que decorreu do dia 18 de Julho até as 23:59 do dia 08 de Agosto .


A Vencedora é:

Isabel Martins - Seia


Parabéns à vencedora e continuação de boas leituras.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Divulgação

Titulo: abaddon
Autor: Rui Madureira
Edição: Junho 2012
Páginas: 597
Preço: 20.70€
Editora: Edium Editores
 
Rui Madureira nasceu a 13 de Dezembro de 1985, uma sexta-feira treze que decerto terá alimentado a enorme paixão que nutre pelo fantástico. Formou-se em Psicologia na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, onde concluiu o ciclo de estudos conducente ao grau de Mestre na área de Psicologia Clínica e da Saúde. O cinema e a literatura, porém, foram desde sempre as suas grandes paixões. Acima de tudo, sempre desejou ser um contador de histórias. Fosse por que meio fosse, sempre almejou tornar-se um narrador de grandes contendas e aventuras inesquecíveis. Assumindo o papel de crítico de cinema, escreve regularmente para o Portal Cinema e o SCIFIWORLD PORTUGAL, dois sítios da internet dedicados essencialmente à 7ª Arte. Tem também a seu cargo uma coluna bi-mensal no jornal regional Maia Hoje, onde publica crónicas variadas relacionadas com o cinema. Algumas das suas críticas cinematográficas foram publicadas em revistas como a Premiere e a Fórum Estudante. É autor de dois contos não publicados, um dos quais recebeu o terceiro prémio de um concurso literário organizado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Abaddon é o seu primeiro romance literário. Encontra-se de momento a trabalhar num segundo romance com título ainda indefinido, “Neste momento estou a trabalhar num segundo romance, identifica-se como uma espécie de história fantasma”, avançou o autor,  baseado num argumento para cinema também da sua autoria.


Sinopse

Sedento de poder e cegado pelo seu próprio orgulho, Lucifer - o primeiro anjo criado por Deus e o mais belo de toda a estirpe celestial - decide rebelar-se contra o Pai divino após a misteriosa e muito polémica criação do Homem. Persuadindo uma enormíssima falange de anjos guerreiros com as suas ideias de revolta e usurpação do trono divino, o primogénito dos anjos avança sobre as muralhas do imponente palácio de Deus com um vasto exército de anjos rebeldes nas suas costas. Porém, travado pelas brilhantes tácticas defensivas dos Arcanjos Michael, Gabriel, Raphael e Uriel, Lucifer acaba por tombar e ver os seus desígnios megalómanos cortados pela raiz, sendo aprisionado no Inferno para toda a eternidade conjuntamente com os seus seguidores. Os milénios passam, mas nem por isso o revoltado Príncipe dos anjos esquece a sua sede de vingança. Pretendendo desforrar-se do ser humano e do Pai que o deserdou, começa desde logo a arquitectar uma invasão ao reino do Homem com a ajuda do demónio Abaddon, a única criatura capaz de despoletar o Apocalipse em solo terrestre. E como tentativa desesperada de evitar o fim do mundo, Deus envia o Arcanjo Gabriel à Terra com a incumbência de liderar uma legião de guerreiros celestiais capaz de fazer frente ao Diabo e às suas hostes de monstros oriundos do Abismo. Poderá o Homem salvar-se no seu maior momento de provação? Ou sucumbirá para sempre ante as trevas orquestradas pelo colérico Rei do Inferno?

Aceitei com todo o gosto empreender a leitura deste seu primeiro romance, sobretudo porque me agradou imenso a sinopse e também porque é sempre um prazer divulgar um autor português.



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Deus Veio ao Afeganistão e Chorou - Siba Shakib


Já li alguns livros sobre a vida das mulheres nos países árabes fundamentalistas, sobretudo casos de mulheres ocidentais raptadas que se vêm, de um momento para o outro, sob o jugo masculino que, protegidos por um estado fanático, as torna muito vulneráveis a todo o tipo de violações e maus tratos.

Este livro, da jornalista iraniana Siba Shakib, vai mais longe, muito mais longe.

Neste relato doloroso, acompanhamos a vida de Shirin-Gol desde que nasce numa aldeia perdida nos confins do Afeganistão.

Nascida na década de 70, Shirin-Gol cresce numa pequena comunidade de agricultores e pastores. Gente pobre, muito pobre, são uma comunidade onde o papel do homem predomina e onde a mulher apenas é tida para servir e cuidar dos filhos.

Ainda criança, os russos invadem o Afeganistão e Shirin-Gol nunca mais irá ter descanso. Vendo os pais e os irmãos tornarem-se mujahidin, Shirin-Gol acaba por fugir do local onde nasceu, iniciando aí um périplo que a irá conduzir ao Paquistão, voltar ao Afeganistão, fugir para o Irão e voltar a regressar ao Afeganistão.

Em todas essas andanças, o que impressiona mais, é a total miséria a incerteza do que pode acontecer a seguir. Ou seja, aquele povo sabe que de um momento para o outro tudo pode acabar devido a uma mina, a um míssil ou a um ataque de qualquer grupo armado. E não faltam situações onde tudo é arrasado e morto. Há inclusive uma das crianças que diz: “estou farto de fugir, estou farto de ver os meus amigos serem mortos”.

Impressionante também a forma como a mulher é mal tratada. Invadidos pelos russos que combateram de todas as formas, vêm-se numa guerra fratricida entre mujahedins, onde irão lutar irmãos contra irmãos. Na memória fica uma imagem quando os russos abandonam o Afeganistão. Shirin-Gol fica feliz por pensar que a guerra ia acabar, a mãe diz-lhe: “não sabes nada da vida, agora é que a verdadeira guerra vai começar”.

No entanto o pior estava para vir. Quando os talibãs impuseram o seu regime de terror e opressão, aí é verdadeiramente terrível constatar que a invasão soviética e a guerra entre os mujahidins eram brincadeiras de criança.

Os talibans impuseram um regime islâmico fundamentalista que, logo nos primeiros meses, proibiu o cultivo e venda de ópio que servia de “sustento” para a maioria do povo. As mulheres estavam impedidas de trabalhar, de ir à escola, ir aos hospitais públicos e até de sair sozinhas. Só podiam sair acompanhadas dos homens e só se fosse mesmo imprescindível. Casos extremos de violência pública são chocantes. Punições e execuções em estádios de futebol, em plena rua, são neste livro referidos e, uma vez mais, são chocantes. Mas não se pense que esse movimento dava total liberdade aos homens. Não, os homens eram obrigados a deixar crescer a barba e a rapar o cabelo, depois, era um chorrilho de humilhações onde não podiam reagir sob pena de serem executados sem dó nem piedade.

Gostei do livro sobretudo pela mais valia informativa e por constatar esses casos de viva voz por alguém, mulher, que sofreu na pele essas privacidades, passou uma vida inteira em guerras e viu morrer irmãos, sobrinhos, pais e amigos.

Uma história pungente que incomoda, que mostra a miséria humana, o efeito de movimentos religiosos cuja vida humana nada vale. O contraste entre o nosso mundo e aquele é brutal e, como não podemos deixar de inquirir, assim como Shirin-Gol a certa altura questiona: “Onde está Deus?”, “É isto que Deus quer?”.

Um livro muito bom. Não se trata de uma pérola da literatura mas também não foi isso que a autora pretendeu escrever. É antes um pedido de ajuda para um país com tradições seculares, rico em História, que há muitos anos é despojado das suas riquezas e que tem o povo a morrer na maior miséria, privado da sua honra e dignidade.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Histórias de um Portugal Assombrado - Vanessa Fidalgo


Portugal, à semelhança do que sucede em todas as culturas do mundo, possui uma herança cultural vastíssima em que, como não podia deixar de ser, as lendas, mitos e histórias de assombrações são parte importante que ajudam a explicar o que somos como povo.

Quem nunca ouviu falar das lendas das moiras encantadas, ou da lenda da costureirinha que é mantida em muitas das aldeias do país (que curiosamente não é referida neste livro), ou na dama de branco que aparece translucida numa curva famosa pelos acidentes mortais ou até no mega sucesso que foi “A Curva” na serra de Sintra?

E foi utilizando muitas dessas lendas, mitos urbanos e histórias que são narradas boca-a-boca (no diz que disse ou alguém ouviu), que a jornalista Vanessa Fidalgo criou este livro. Ou seja, trata-se apenas e só de um amontoado de histórias que de assombrações pouco tem e de investigação própria, nada.

Confesso que me senti muito tentado a ler esta obra. Não só porque sempre fui um curioso da temática, mas também porque sempre desejei conhecer alguns dos casos mais enigmáticos sucedidos em Portugal. Pois bem, a autora traz-nos de facto a narração de alguns desses casos, no entanto assenta quase todo o livro em lendas (as lendas das moiras são folclore puro), mitos urbanos e muito pouco em histórias estranhas e cujas investigações de facto sucederam.

Esquecendo esses mitos e lendas que pertencem mais ao folclore cultural, a autora simplesmente narra as histórias conforme as pesquisou em blogs, sites da internet ou em algumas publicações, sobressaindo aqui e ali, alguns telefonemas que a autora deve ter efectuado (pelo menos é o que subentende).

Confesso que me senti ludibriado com o livro. Embora sendo jornalista, a autora, que até se baseou em trabalhos de outros colegas, não foi ao local investigar nada, e inclusive traz para este livro relatos de pessoas que, dizem, ter passado por experiências paranormais em determinados locais, mas sem existir outras testemunhas. É como se, por exemplo, eu agora fosse dizer que um dia ia numa qualquer rua em Lisboa e que tinha sentido uma força invisível a barrar-me o caminho e que depois tinha fugido com medo. Pronto, siga, está bom para colocar no livro.

Embora tenha gostado de ler algumas dessas histórias, acabei o livro a saber quase o mesmo que sabia antes. Lugares supostamente assombrados em Portugal deve haver muitos (onde está, por exemplo, o moradia dos vasos em Rio de Mouro?), mas este livro mostra poucos e se mesmo assim pretendemos saber o que deu a suposta investigação de alguns dos casos mencionados, então o melhor é pesquisar na net, pois o livro é quase omisso nessas explicações, sem falar em explicar ou teorizar, enfim, népias.

Em todo o caso o livro não é assim tão mau.

A forma como está dividido ajuda a descortinar algumas características entre tipos de assombrações, ou lendas ou outra coisa qualquer. Acima de tudo, o livro é útil porque reúne muitas lendas e mitos que povoam o nosso país e que são, acima de tudo, de uma riqueza cultural a preservar e, nesse contexto, a autora está de parabéns pelo trabalho desenvolvido.

A meu ver o livro peca pela falta de investigação. Talvez a minha expectativa fosse elevada face ao que li na sinopse, no entanto, repito, algumas dessas histórias estranhas, mereciam e deveriam ter sido melhor aprofundadas, sem falar na ausência de outros casos já conhecidos e investigados. Por outro lado não me parece que a autora se tenha deslocado aos locais. A maioria dos relatos e a própria admite, são retirados de fóruns que comentam sobre os casos, são retirados de artigos da net e inclusive até uma reportagem da revista Sábado é aqui utilizada. Ou seja, achei o livro fraco, uma espécie de trabalho escolar de um aluno do secundário e muito longe de um suposto trabalho de investigação.