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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Deus Veio ao Afeganistão e Chorou - Siba Shakib


Já li alguns livros sobre a vida das mulheres nos países árabes fundamentalistas, sobretudo casos de mulheres ocidentais raptadas que se vêm, de um momento para o outro, sob o jugo masculino que, protegidos por um estado fanático, as torna muito vulneráveis a todo o tipo de violações e maus tratos.

Este livro, da jornalista iraniana Siba Shakib, vai mais longe, muito mais longe.

Neste relato doloroso, acompanhamos a vida de Shirin-Gol desde que nasce numa aldeia perdida nos confins do Afeganistão.

Nascida na década de 70, Shirin-Gol cresce numa pequena comunidade de agricultores e pastores. Gente pobre, muito pobre, são uma comunidade onde o papel do homem predomina e onde a mulher apenas é tida para servir e cuidar dos filhos.

Ainda criança, os russos invadem o Afeganistão e Shirin-Gol nunca mais irá ter descanso. Vendo os pais e os irmãos tornarem-se mujahidin, Shirin-Gol acaba por fugir do local onde nasceu, iniciando aí um périplo que a irá conduzir ao Paquistão, voltar ao Afeganistão, fugir para o Irão e voltar a regressar ao Afeganistão.

Em todas essas andanças, o que impressiona mais, é a total miséria a incerteza do que pode acontecer a seguir. Ou seja, aquele povo sabe que de um momento para o outro tudo pode acabar devido a uma mina, a um míssil ou a um ataque de qualquer grupo armado. E não faltam situações onde tudo é arrasado e morto. Há inclusive uma das crianças que diz: “estou farto de fugir, estou farto de ver os meus amigos serem mortos”.

Impressionante também a forma como a mulher é mal tratada. Invadidos pelos russos que combateram de todas as formas, vêm-se numa guerra fratricida entre mujahedins, onde irão lutar irmãos contra irmãos. Na memória fica uma imagem quando os russos abandonam o Afeganistão. Shirin-Gol fica feliz por pensar que a guerra ia acabar, a mãe diz-lhe: “não sabes nada da vida, agora é que a verdadeira guerra vai começar”.

No entanto o pior estava para vir. Quando os talibãs impuseram o seu regime de terror e opressão, aí é verdadeiramente terrível constatar que a invasão soviética e a guerra entre os mujahidins eram brincadeiras de criança.

Os talibans impuseram um regime islâmico fundamentalista que, logo nos primeiros meses, proibiu o cultivo e venda de ópio que servia de “sustento” para a maioria do povo. As mulheres estavam impedidas de trabalhar, de ir à escola, ir aos hospitais públicos e até de sair sozinhas. Só podiam sair acompanhadas dos homens e só se fosse mesmo imprescindível. Casos extremos de violência pública são chocantes. Punições e execuções em estádios de futebol, em plena rua, são neste livro referidos e, uma vez mais, são chocantes. Mas não se pense que esse movimento dava total liberdade aos homens. Não, os homens eram obrigados a deixar crescer a barba e a rapar o cabelo, depois, era um chorrilho de humilhações onde não podiam reagir sob pena de serem executados sem dó nem piedade.

Gostei do livro sobretudo pela mais valia informativa e por constatar esses casos de viva voz por alguém, mulher, que sofreu na pele essas privacidades, passou uma vida inteira em guerras e viu morrer irmãos, sobrinhos, pais e amigos.

Uma história pungente que incomoda, que mostra a miséria humana, o efeito de movimentos religiosos cuja vida humana nada vale. O contraste entre o nosso mundo e aquele é brutal e, como não podemos deixar de inquirir, assim como Shirin-Gol a certa altura questiona: “Onde está Deus?”, “É isto que Deus quer?”.

Um livro muito bom. Não se trata de uma pérola da literatura mas também não foi isso que a autora pretendeu escrever. É antes um pedido de ajuda para um país com tradições seculares, rico em História, que há muitos anos é despojado das suas riquezas e que tem o povo a morrer na maior miséria, privado da sua honra e dignidade.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Aconteceu uma coisa engraçada a caminho do futuro… - Michael J. Fox


Este pequeno livro (literalmente no formato, li-o numa hora), é um livro que nos fala das pedras numa garrafa e da sua importância na nossa vida.

A metáfora das pedras na garrafa está na base da mensagem que Michael J. Fox pretende passar.

Sem qualquer curso superior, sem sequer ter terminado o liceu, Fox apresenta-nos um breve relato da sua vida e da sua ascensão na indústria do cinema. Emigrado para o Estados Unidos em busca de um sonho, Michael passou fome mas nunca desistiu. Quando estava no apogeu da sua carreira é-lhe diagnosticado a doença de Parkinson que se torna o ponto de viragem da sua vida e, segundo o próprio, a bênção que o fez ver a luz.

É assim uma obra que transmite esperança. Engane-se quem julga tratar-se de um livro onde o autor se vitimiza. Longe disso, fala-nos sim de sonhos e da forma como podemos e devemos viver o dia-a-dia em busca desses sonhos acreditando no melhor e não pensar nas dificuldades antes de elas chegarem.

E curioso a forma como ele insere estas mensagens.

Admitindo não ter tido uma educação que a sociedade tem como conveniente (curso superior, etc), Michael divide o livro por capítulos, nomeando-os com designações de ciências. É por si só uma metáfora à escola da vida que ele, superando as dificuldades, teve que percorrer e vencer.

Em suma, um livro delicioso que me transmite que devemos aceitar o presente como ele é, pois a vida não é linear, há desvios no percurso da vida, estradas que não contávamos percorrer, mas enfim, é a nossa vida e há que sorrir.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Mulheres que Amaram Demais – Helena Sacadura Cabral


Helena Sacadura Cabral regressa às biografias com algumas personagens femininas que tiveram impacto no séc. XX e que, segundo a autora, amaram demais a actividade por que ficaram conhecidas.

Numa análise mais vasta, penso que o título não é de todo o mais apropriado, pois o “demais” deixa transparecer alguém que apenas se dedicou a algo ou que se dedicou demasiado a algo e com isso atingiu o sucesso ou a ruína, e neste caso o que se constata é um conjunto de mulheres que sobressaíram, é um facto, mas que tiveram uma vida cheia de outras coisas e não apenas aquilo.

Algo que também me chamou a atenção foi a forma abrangente como a autora procurou distribuir essas personagens pelas várias áreas. Da ciência à arte, do social è moda, da religião à política, passando pelo cinema e política, temos aqui representadas praticamente todas as área de actividade.

A estrutura de cada biografia é simples.

De uma forma breve, há casos que a autora admite pouco se conhecer sobre a vida pessoal da biografada em questão, a autora narra o que se sabe da infância e juventude, o seu percurso na vida, as suas ligações, o que fizeram de importante e a forma como acabaram os seus dias. Vai traçando, aqui e ali e de uma forma subtil, algumas considerações pessoais, até porque há casos em que a autora tem memória.

Pessoalmente achei isso muito interessante. Não se limita a escrever o que já é conhecido, ela vai construindo um perfil mediante a sua visão e memória dessa mulher.

É um livro que se lê muito bem e que narra a vida de algumas das mulheres mais importantes do séc. XX.

domingo, 16 de maio de 2010

Biografia de Sherlock Holmes (A) – W.S. Baring-Gould


Sherlock Holmes é um ícone da literatura e, atrevo-me a dizer, do meio da investigação criminal.

Figura criada em 1887 por Sir Conan Doyle, o sucesso foi imediato. Para além de elevar a arte de detective particular a patamares nunca alcançados, Doyle conseguiu criar uma vedeta internacional e o mais curioso é que essa personagem nunca existiu.

Mesmo mais de 100 anos depois do fim das suas aventuras, é impossível não nos deixarmos entusiasmar e impressionar pelos casos criados e pelo carisma da personagem, facto que quanto a mim, é um dos principais razões do sucesso.

No entanto o fascínio de milhões de leitores fez com que a obra de Conan Doyle começasse a ser analisada ao pormenor. Esquecendo-se, ou talvez não, tratar-se de uma figura ficcional muitos começaram a apontar falhas nas histórias, vícios secretos e até segredos que não abonavam muito a favor de Holmes, alterando até um pouco a imagem imaculada de Holmes.

Em “A Biografia de Sherlock Holmes”, W.S. Baring-Gould simplesmente preenche, ou procura fazê-lo, todas as lacunas deixadas em aberto por Sir Conan Doyle.

Toda a biografia, embora obviamente ficcional, procura mostrar-se real, chegando ao ponto de mostrar imagens dos personagens como se de figuras reais se tratassem.

Iniciando-se no nascimento de Sherlock Holmes, é aqui narrado a sua infância, a sua família e como ele chega a detective particular. A vida de Sherlock Holmes é desvendada como a de um simples homem que nasce com um dom e uma enorme capacidade de observação.

Sendo eu um admirador de Sherlock Holmes (confesso que li mais de uma vez todas as suas aventuras e tenho em DVD a célebre série da BBC com Jeremy Brett como protagonista no papel de Sherlock Holmes), fiquei fascinado com a imensa capacidade e simplicidade com que Baring-Gould escreve esta biografia.

Passo a explicar:

Fundamentalmente esta biografia parece ter sido escrita pelo próprio Conan Doyle. O estilo é o mesmo, até a forma como o detective faz as suas observações são semelhantes, denotando uma imensa pesquisa e análise à obra de Conan Doyle por parte de Baring-Gould. Depois o escritor para escrever esta biografia, para criar todo um passado de Holmes e até alguns factos futuros, faz algo que é óbvio mas que nunca ninguém o tinha efectuado, simplesmente ele utiliza as próprias informações que Conan Doyle ia atirando sobre Holmes e até Watson em cada uma das suas aventuras.

Conan Doyle em cada aventura desvendava novas facetas. Algumas inesperadas, mas ia preenchendo ou dando dicas sobre a família de Holmes, os seus amigos, as suas manias, etc. Baring-Gould colecta todos esses factos e preenche-os, dá-lhes conteúdo, é como uma ponta de novelo que começa a desenrolar, explora os factos criados pelo próprio Conan Doyle. Brilhante!

Brilhante também, e penso que é o primeiro escritor a fazê-lo, coloca Sherlock Holmes a investigar e a descobrir a identidade de Jack “O Estripador”, célebre assassino que aterrorizou as ruas de Londres em 1889, precisamente na época em que a reputação de Sherlock Holmes estava em alta. E a descoberta da identidade, pese embora não tenha achado que tivesse sido muito complicada, tem o condão de surpreender pela identidade do assassino e curioso como nunca foi avançada essa hipótese, embora faça todo o sentido.

Em suma, é um livro muito interessante, uma espécie de esticar das aventuras originais de Holmes onde todos se irão deleitar com a sua enorme capacidade na arte da lógica dedutiva, assim como em conhecer factos nunca conhecidos e que surpreenderão.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Homens de Führer. A Elite do Nacional Socialismo 1939-1945 (Os) - Ferran Gallego


Para a maioria das pessoas o nazismo foi um regime que se impôs na Alemanha e que, durante a 2ª Guerra Mundial, foi responsável pela morte de milhões de seres humanos em campos de concentração.

Embora essa ideia tenha um fundo de verdade, o sistema nazi não foi apenas isso, longe, a sua génese, os seus mecanismos e funcionamento moldaram uma imensa máquina política que se aproveitou de um contexto social para emergir da obscuridade, estando por detrás dele, algumas figuras influentes na época mas sobretudo, desconhecidos e homens desiludidos com a situação actual da Alemanha após 1ª Grande Guerra.

“Os Homens do Führer” dá-nos a conhecer algumas, as mais influentes diga-se, das figuras mais importantes do sistema, aqueles que ocuparam os lugares mais poderosos do partido e como chegaram a esses lugares.

Confesso que desconhecia por completo homens como Anton Drexler, Julius Streicher, Gregor Strasser, Robert Ley, Von Schirach ou Martin Borman, e mito menos o seu contributo. No entanto, e isso, na minha opinião é a mais valia da obra, para além de Ferran Gallego nos dar a conhecer essas figuras, explica a sua importância e a forma como eles foram subindo no seio do partido, as suas relações e jogos de influência.

Acima de tudo é claro que Hitler, que não é aqui analisado, não fez o partido sozinho. Ele de facto soube emergir enquanto líder fundamentalmente pela sua capacidade oratória, no entanto muito do trabalho da sua subida ao poder e do surgimento do partido, deveu-se em grande parte ao contexto social-económico da época e a outros homens que, na sombra, foram desbastando caminho ao Führer.

A análise de Ferran Gallego é exaustiva e minuciosa. O nazismo é explorado enquanto sistema que foi bem idealizado. Facilmente entendemos o que esteve por detrás do maior crime contra a humanidade.

Independentemente desse facto, goste da análise e fiquei consciente que aqueles homens acreditavam no que faziam e o que faziam era, numa fase inicial, para o bem da Alemanha que havia ficado tão maltratada e mal vista pós 1ª Grande Guerra, pese embora também tivesse existido homens que, a dado momento, não estiveram de acordo com a linha política e ambições do partido.

Uma obra altamente aconselhável para quem se interesse por História e Biografias.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

I-Steve – Na Mente de Steve Jobs – Leander Kahney


Tradução: Saul Barata
Páginas: 236
Colecção: Novo Milénio, N.º 17
Preço: 16,80 €
ISBN: 978-972-23-4258-2


De certo muitos já ouviram falar de Steve Jobs mas, provavelmente, desconhecem o seu trabalho e da sua importância para o mundo.

Provavelmente muitos conhecem a Apple, o Machintosh, o I-Pod ou o I-Phone, mas se calhar poucos sabem que Steve Jobs foi o homem por detrás destas criações, foi ele o fundador e o motor da gigante Apple.

“Na Mente de Steve Jobs” é simultaneamente uma biografia, não autorizada, e um guia sobre liderança e Gestão. É o descrever do perfil de um homem, dos seus objectivos, anseios e da sua demanda pela excelência que resulta numa forma de agir e pensar muito particular que o levaram ao sucesso.

Extremamente positivo a forma como o autor divide o livro por capítulos, dando-nos uma clara percepção temporal do percurso de Jobs.

Steve Jobs, em parceria com um amigo de liceu (nenhum deles tiraria qualquer curso académico), constitui a Apple em 1976 com sede no quarto de Jobs. Depressa começaram a montar computadores à mão na garagem dos pais de Jobs. 4 anos depois a Apple já estava cotada em bolsa e em 1983, 7 anos após a sua constituição, a empresa já se situava no grupo das 500 maiores empresas da Fortune (411), a mais rápida ascenção de uma empresa até então.

O que levou a esse fulgurante surgimento e ascensão da Apple?

A resposta é dada neste livro. A visão, a intuição e uma atitude muito positiva de Steve Jobs, um autêntico génio em diversas matérias.

Steve Jobs é minuncioso, obcessivo pela excelência, workaholic, narcisista, perfeccionista, frio (os interessas da empresa acima de tudo), fanático por marketing, disciplinado e não tem problemas em arriscar. Junta todos esses traços da sua personalidade, dá-lhe um toque de encanto e carisma e, com a sua liderança nata, tornou a Apple numa empresa distinta e respeitada.

A obra contempla todo o início e os bastidores da Apple. O autor narra todo o processo da criação da empresa, entrevista ex-colaboradores que privaram com Jobs, de modo a poder traçar um perfil do homem enquanto profissional. As suas virtudes e os seus defeitos são aqui examinados de uma forma desapaixonada. Em simultâneo vai traçando todo um percurso de gestão, alguma meramente intuitiva, que deu frutos. No final de cada capítulo temos “as lições de Steve” onde, de acordo com o capítulo acabado de ler, as ideias chave são colocados em tópicos de forma a servir de guia.

Um livro que aconselho para aqueles que gostam de biografias ou que querem perceber o que pode estar por detrás de uma empresa de grande sucesso.

domingo, 5 de julho de 2009

Cinzas de Ângela (As) - Frank McCourt



Tal como escrevi há tempos sobre um determinado livro, há títulos que me chegam às mãos não só por mero acaso, como também como uma espécie de dádiva que qualquer ser celestial resolve oferecer-me.

Este “As Cinzas de Ângela”, de Frank McCourt é um desses títulos.

Um livro que, curiosamente, cada vez que ia à Biblioteca me parecia gritar: “Leva-me!”. No entanto a pequena descrição no verso do livro nunca me despertou especial atenção e, não sei dizer porquê, um dia senti-me como que seduzido e resolvi requisitá-lo.

Que obra extraordinária!

As Cinzas de Ângela” narra a infância miserável e decadente de Frank McCourt, ele próprio, o autor do livro que, diga-se, venceu o Prêmio Pulitzer e o National Book Award com este livro.

Por voz própria, McCourt vai-nos descrevendo a sua deplorável infância na sua Irlanda. Uma vida em condições sub-humanas na companhia dos pais e irmãos. Vamos assim conhecendo uma cidade de Limerick dos anos quarenta que ainda vive sob os espectros da guerra civil e das atrocidades centenárias dos ingleses. Atrocidades que cimentam velhos rancores e profundos complexos nos irlandeses.

Numa época em que a Europa e parte do Mundo estão mergulhados na guerra, McCourt, sempre em tom irónico e sem qualquer tipo de medos, descreve a sua comunidade. Uma comunidade profundamente egoísta, marcada por superstições ancestrais, assente numa mentalidade submissa mas, ao mesmo tempo, guerreira, enérgica e muito, muito religiosa.

Uma história de vida trágica, mas onde a dignidade, a coragem e a força de vontade vão vencendo as duras vicissitudes de uma vida negra, dando a cada uma dessas vidas, não um significado (ali poucas vidas têm algum sentido e significado), mas um contributo para um conjunto de memórias que tornam este livro num hino à vida, à coragem e ao próprio povo irlandês.

Classificação: 5

segunda-feira, 16 de março de 2009

Rapaz Perdido (O) - Dave Pelzer


Neste segundo volume da trilogia que se inicia com o livro “Uma criança chamada coisa”, continuamos a seguir a vida atribulada de Dave Pelzer.

Enquanto no primeiro volume tomamos conhecimento da forma macabra como Dave é maltratado pela mãe, neste “Rapaz perdido” seguimos a libertação de Dave e o seu constante saltitar de família em família de adopção.

Dave tem 12 anos quando o pesadelo dos maus tratos físicos e psicológicos termina. No entanto um duplo problema está prestes a começar: o querer entender e esquecer o seu passado e conseguir integrar uma nova sociedade que se lhe depara.

Através dos olhos de uma criança torturada, assustada e completamente desadaptada socialmente, tomamos parte das tentativas de Dave em receber amor e carinho. Carenciado em vários aspectos, Dave tenta dar nas vistas querendo parecer-se o que não é, iniciando-se assim um caminho tortuoso que, após o tribunal decretar a sua separação da família biológica, o leva numa direcção penosa onde tenta ultrapassar os fantasmas do passado.

Mas não se pense que Dave se livra das garras do seu carrasco. Porque é uma criança deslocada, acaba por se ver constantemente em problemas, sendo que os mesmos são aproveitados de uma forma tétrica pela sua mãe, para voltar a levar o caso a tribunal. Demasiadamente insano e brutal, ela está sempre atrás da sua vítima que é o próprio filho.

Embora a fase das torturas físicas tenha de facto passado, este é um livro que descreve o quanto uma criança vítimas de maus tratos sofre psicologicamente. É dura da sua leitura. Ao longo de todo o livro Dave faz inúmeras vezes a mesma pergunta: “porquê?” e é curioso que essa pergunta fica sem resposta, tornando o caso ainda mais mórbido.

Talvez no 3º volume intitulado “Um homem chamado Dave” ele nos dê explicações para a sua terrível infância, mas e pelo que já li em alguns sites, penso que o próprio Dave Pelzer desconhece as razões.

Não vale a pena escrever muito mais sobre este livro porque este livro simplesmente, e perdoe-se a palavra “simplesmente”, narra a história real de David Pelzer a partir da libertação do seu pesadelo. Os problemas posteriores, as humilhações, mas também a esperança num futuro melhor. Tudo isso faz parte do percurso de uma criança assustada e terrivelmente traumatizada.
Por fim deixem-me dizer-vos que é muito interessante a pequena dissertação que ele efectua no final do livro sobre a adopção, desmestificando totalmente, não só o processo, como também os profissionais a ela ligados; as famílias de adopção, nomeando inclusivamente alguns casos que se tornaram lendários; oficiais de polícia que são, em grande parte, responsáveis pelo desencadear do processo de libertação de crianças maltratadas; as organizações, sobretudo uma que se destaca “Jaycees”, que são voluntários e que realizam um trabalho fantástico em prol de crianças sem lar. Dave defende e louva tudo isso, sendo que é perfeitamente compreensível e louvável fazê-lo depois do seu imenso sofrimento.

Deixo dois excertos que me marcaram. Sobretudo porque ao me envolver tanto com esta tragédia, não deixei de me comover ao ler o seguinte.

Tal como o ‘Jaycees’ e o ‘Arrow Project’, talvez a sociedade possa aliviar algumas das frustrações dos que escolheram esta função. Talvez nós possamos enviar um postal a um professor sem uma razão especial, e dizer-lhe apenas obrigado, ou dar um pequeno ramos de flores a uma assistente social. Talvez na próxima vez que virmos um agente da polícia, nós possamos sorrir e cumprimentá-lo; ou oferecer uma pizza a uma família adoptiva. Se nós podemos tratar figuras do espectáculo e do desporto com se fossem dádivas dos deuses, porque é que nós não podemos mostrar um pouco de gratidão para com aqueles que desempenham um tão inestimável papel na nossa comunidade?”

Em Janeiro de 1994 tive o privilégio de apresentar um programa de orientação em Ottumwa, Iowa, a um grupo de pais adoptivos..., ... durante o curso, dei o exemplo de como eu costumava escapar à dor sonhando como um herói. No exterior, o meu herói não se integrava na sociedade dominante, contudo, no interior, o meu herói sabia quem era, e queria ajudar os necessitados. Eu voava, usava uma capa vermelha, e tinha um “S” no peito. Eu era o Super-Homem. Quando eu disso isto, os pais adoptivos desataram a bater palmas. Enquanto as lágrimas corriam pelo rosto de alguns deles, ergueram um cartaz que dizia: “O SUPER-HOMEM TINHA PAIS ADOPTIVOS

Elucidativo. Leiam esta obra!

Classificação: 5

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Uma Criança Chamada Coisa - Dave Pelzer



Nunca li nada tão brutal como este livro. A história é algo que ultrapassa o limiar do chocante, é algo verdadeiramente insano, animalesco, um autêntico pesadelo que dói ler.
Uma Criança Chamada “Coisa” é o relato de um dos casos mais graves de maus tratos infantis na História dos Estados Unidos. Eu até arriscava a dizer do Mundo, mas depois de ler as considerações finais do autor, fico estarrecido ao perceber que milhões de crianças são tratadas como “coisas”.

Esta é a história de Dave Pelzer, a criança que foi brutalmente maltratada durante toda a sua infância pelos próprios pais, sobretudo pela mãe. É verdade, é o próprio que descreve os seus maus tratos e meus caros e caras amigas, nem imaginam a brutalidade do cenário que estamos prestes a conhecer.
Volto a repetir, é insano todo o relato. É de doidos os castigos que a própria mãe inflige ao filho diante da aquiescência do pai que, estranhamente por medo da mulher, nada fazia para alterar a situação.

Num verdadeiro grito de revolta e alerta Dave Pelzer dá conta de todo o seu sofrimento, descrevendo os castigos que lhe eram aplicados, do ambiente degradado onde vivia, pois e obviamente os seus pais andavam quase sempre alcoolizados e isso é algo que está por detrás dos maus tratos, mas acreditem que não justificam absolutamente nada. Curiosamente e por muito que sofra, Dave tem sempre a vã esperança que as coisas se alterem, que da parte da mãe venha um gesto de carinho, que seja tratado como um ser humano, que tenha uma família, um lar.

À medida que vamos lendo as poucas páginas deste livro (li-o em cerca de 3 horas), acabamos até por colocar em causa a veracidade do relato, não só pela insanidade das situações como também por emergirem algumas questões que, neste livro, não são respondidas, e questões como: “porquê se eram 4 irmãos, apenas Dave era maltratado?”, “Que fez ele de tão grave para a mãe o odiar assim tanto?”, “Embora tratado abaixo de animal, o certo é que ele vai sempre à escola e, embora vestido de uma forma andrajosa, ninguém o comparava com os outros irmãos, não achando isso estranho?”. Embora desconfie do porquê do ódio da mãe, existem de facto algumas questões que não batem certo com a narração, mas o certo é que a história é real, absurdamente real.

Para além de este ser o primeiro livro de uma trilogia, é importante ressalvar o profundo significado que este livro pode ter na sociedade. Já no fim, Dave faz uma pequena dissertação sobre os maus tratos a crianças, abordando a questão da projecção desses maus tratos no futuro da vítima e dos que o rodeiam. Pessoas que crescem atormentadas e que no futuro têm comportamentos assassinos, outros que estendem as suas frustrações nos filhos, na família, nos colegas, etc.

Este é um problema sério e de todos nós, pois uma criança maltratada no presente pode vir a ser um grande problema para a sociedade no futuro, e não é só isso, é um dever enquanto seres humanos alertar as autoridades sobre maus tratos que possamos ter conhecimento, defender aqueles que não têm força para o fazer.

Este é um livro, acreditem, assustador, macabro, violento, sádico, demente. Mas é um livro que deve ser lido, que deve ser divulgado em prol não só das crianças, como também por nós mesmos enquanto seres humanos.

Para quem quiser, procurem no YouTube acerca do assunto. Há vários videos dedicados a esta história e inclusivamente uma entrevista da Oprah ao próprio Dave.
E a próxima opinião será a continuação do pesadelo de Dave Pelzer no 2º volume: “O rapaz perdido”.


ALGUNS EXCERTOS
(e não daqueles muito insanos)

“A mãe então acendeu os bicos de gás do fogão da cozinha. Disse-me que lera um artigo acerca de uma mãe que obrigara o filho a deitar-se sobre um fogão a escaldar. Eu fiquei imediatamente aterrorizado. O meu cérebro ficou paralisado, e as minhas pernas vacilaram, eu queria desaparecer. Fechei os olhos, desejando que ela estivesse longe. O meu cérebro fechou-se, quando senti a mão da mãe agarrar-me o braço como se estivesse drogada...

“...eu sabia que a mãe tinha qualquer coisa terrível na cabeça. Logo que eles partiram (o pai e os irmãos), trouxe uma das fraldas sujas do Russel (irmão mais novo e ainda bebé). Esfregou-me a fralda na cara. Eu tentei manter-me sentado, perfeitamente quieto. Sabia que se me mexesse, seria pior. Não olhei para cima..., ela ajoelhou-se ao meu lado e, numa voz sarcástica, disse: “come-a”.... comecei a chorar...esfregou-me a cara na fralda de um lado para o outro...”

Embora a mãe nunca mais me tivesse mandado engolir amoníaco (imaginem), fez-me beber colheres de detergente algumas vezes...”

sozinho na garagem, senti que estava a perder o controlo. Ansiava por comida... queria um mínimo de respeito, um pouco de dignidade. Ali sentado sobre as mãos (era outro dos castigos), ouvia os meus irmãos a abrir o frigorífico para tirar a sobremesa, e sentia ódio. Olhei para mim. A minha pele estava amarelada, e os meus músculos enfraquecidos...”


Classificação: 5

Eça de Queiroz A Vida Privada - José Calvet Magalhães



Este é um livro destinado sobretudo aos amantes da obra de Eça de Queiroz, embora para o amante da História e da vida cultural e social portuguesa do séc. XIX, tenha também motivos de extremo interesse.

É um livro que aborda a vida de José Maria d’Eça de Queiroz, o José Maria para os amigos e é assim que o autor o denomina durante todo o livro, principalmente porque José Calvet efectua uma divisão clara entre o homem e o escritor, separa-os, e embora tal separação se revele complicada e quase impossível de ser feita, o certo é que este livro narra-nos a vida do homem, do cidadão, que vai muito para além da sua escrita.

Assim o livro, que não é um romance mas sim uma biografia, inicia-se a meio do séc. XIX com o caso que junta os pais de Eça, caso que irá levar a várias confusões, culminando com o registo de José Maria como filho do dr. José Maria Queiroz (ele tinha o nome do pai) e de mãe incógnita.

A juventude de Eça é superficialmente abordada porque simplesmente existem poucos dados e o próprio Eça raramente falava nela. Mas e com o pouco que tem, o autor consegue fazer um pequeno filme da sua infância, chegando à conclusão que teve uma infância feliz. E é com essas raízes que José Maria, já adolescente, vai para Coimbra cursar direito, período esse que já se encontra bem melhor documentado.

E é precisamente por estar excelentemente documentado por cartas de amigos e do próprio Eça, até pela voz própria de testemunhas que conheceram Eça e que foram deixando escrito vários episódios, que o autor descreve a vida do escritor, os seus vícios, virtudes, defeitos, maleitas, medos, dissabores, amores, amizades e inimizades, conhecemos a vida de Eça de Queiroz, o homem, cônsul de profissão e escritor por vocação.

Pessoalmente este livro encantou-me. Eça é um dos meus ídolos, uma das minhas referências, o meu escritor de eleição. Um homem íntegro, sério, mas um homem que, como qualquer ser humano, tinha defeitos, sentia, sofria e amava, possuía uma inteligência e um sentido de humor formidáveis, transpondo para as suas obras a sua visão da sociedade, a melhor herança que podia ter deixado à sua nação.

Desfilando ao lado de personagens igualmente marcantes (Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Rei D. Carlos, Rainha D. Amélia, Emile Zola e tantos outros), sobressaem episódios caricatos da sua vida, uma vida tão cheia e rica, mas uma vida que findou da mesma forma como viveu.Eu adorei e só não o classifico como Obra-Prima porque gostaria de ter lido mais acerca da inspiração para os seus livros, o que estavam por detrás deles, as suas ideias. Aborda isso levemente.


Classificação: 4

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Viver para Contá-la - Gabriel Garcia Marquez

Gabriel Garcia Marquez é para mim um escritor esquisito, não só ao nível da composição dos seus textos, como sobretudo devido à estranheza das suas histórias.
Prémio Nobel em 1982, Garcia Marquez assentou toda a sua carreira, enquanto escritor, num género que podemos classificar, ou pelo menos eu classifico-o, do realismo-fantástico, género esse povoado de fantasmas, demónios e situações surrealistas que vão sendo misturadas com o mundo real, dando então origem a um universo onírico, algo confuso, que deve ser lido, pensado e analisado com muito cuidado.
Pessoalmente não sou apreciador desse estilo, nem do simples e puro género do fantástico. Amante do Histórico e do realismo puro (Eça de Queirós, Maugham, Dostoiévski, Tolstoi, Vítor Hugo, Zola, Dickens, Jorge Amado e tantos outros), gosto essencialmente de ler sobre temas sociais e humanos e, após a leitura ou durante a mesma, efectuar vastas análises ao que leio e enquadrar aquela realidade na nossa actual sociedade.
No entanto e em relação a Marquez, algo me incomoda. Incomoda-me não entender a sua escrita e incomoda-me haver toda uma legião de fãs em todo o mundo que fazem dele o escritor mais consagrado do nosso tempo, sem que eu entenda esse sucesso. E vai daí, há algum tempo propus-me a entender a sua obra e o contexto da suas histórias.
Lendo por duas (2) vezes “Cem anos de solidão”, lendo também “Relato de um náufrago” e tentando ler o “Outono do Patriarca”, em todas estas situações fiquei sempre desiludido e como uma clara sensação de tempo perdido.
Até que, numa ida à biblioteca, me deparo com este “Viver para contá-la” livro que, alegadamente e segundo o que já havia lido, tratar-se-ia de uma autobiografia. Nada melhor então para ficar a conhecer em definitivo a s suas raízes, filosofias, paixões, gostos e inspirações que lhe moldaram o carácter e directamente o seu estilo de escrita.
”Viver para contá-la” trata-se então de uma autobiografia de Marquez que, sem preconceitos e tabús, narra de uma forma quente, apaixonada e ao mesmo tempo crua, toda a sua vida.
Antes de aprofundar a análise ao livro, há que referir que este trata-se do primeiro volume da sua biografia.
O livro inicia-se já enquanto Marquez estudante de direito em Barranquilla, recebendo a visita da mãe que lhe solicita que a acompanhe no sentido de venderem a casa dos avós em Aracataca, local onde ele nasceu e onde foi criado. É esse encontro o mote para este livro fabuloso, pois não se trata de umas simples memórias de Garcia Marquez.
Desde logo e com as descrições de Aracataca, ficamos com a ideia de onde Marquez foi beber a inspiração para criar “Cem anos de Solidão” e mais fascinados ficamos quando nos apercebemos que a história do livro é, simplesmente, a História da sua própria família. E continua.
Marquez vai desfilando as suas memórias. Memórias povoadas de histórias fantásticas mas reais, o surrealismo é algo que está entranhado nos povos caribenhos e da América do Sul, continente onde há muito circulam histórias e mistérios fantásticos. Quem nunca ouviu falar de Tiahuanaco, Cuzco, Nazca, Macchu Picchu, a perdida cidade do ouro dos Incas, os fantasmas da Jamaica, a misteriosa Ilha da Páscoa e tantos mais?
Pois bem, Marquez dá-nos o retracto daquele povo supersticioso, mas muito apaixonado e respeitoso da sua História e dos seu passado. Um mundo onde e segundo Marquez, “o estranho é não acontecer nada de estranho”
E vai por aí fora.
A sua infância e o modo como era visto e tido pelas pessoas que o rodeavam. As histórias que ia ouvindo pela bocas dos mais velhos, as suas observações e considerações pelo meio que o rodeava. O seu extemporâneo amor à leitura que o leva a ler, muito novo, obras como “As mil e uma noites”, a “Odisseia” de Homero, ”Orlando Furioso”, ”D. Quixote” e o ”Conde de Monte Cristo”, obras que lhe abriram as portas desses vasto e fascinante mundo da literatura e que o acompanharam desde sempre.
Mas Marquez vais mais longe.
Para além de narrar o passado dos seus pais e avós, ele situa, a nível geopolítico e social, a Colômbia no mundo, sobretudo ao nível das turbulências que desde sempre abalaram aquele país do Caribe. Amigo pessoal de figuras públicas, sobretudo figuras colombianas, destacando-se contudo a enorme amizade com Fidel Castro. Mas é curioso as personagens estranhas que marcam a sua vida e que lhe inspiraram a construção de personagens para os seus romances. Desde o coronel que fazia peixinhos de ouro numa velha oficina depois de uma vida de combatente (lembram-se do coronel Aureliano Buendía em “Cem anos de solidão”? Pois foi baseado no próprio avô de Marquez que fazia peixinhos de ouro depois de uma vida de combatente), até à sua tia que comia terra, passando pela tia que um dia lhes surgiu em casa e disse “venho me despedir, pois vou morrer!”, e à sua própria mãe, que com o seu forte carácter, o inspirou a criar a matriarca Úrsula, talvez a figura mais forte de “Cem anos de solidão”.
Em todas estas 579 páginas, Marquez narra tudo isso e muito mais. O seu percurso enquanto ser humano, o seu percurso estudantil e profissional. As obras e escritores que o inspiraram, a forma como estudou a aprendeu a técnica do romance, os mestres que lhe deram força para continuar quando as decepções o invadiam, os seus primeiros contos, enfim, todo um percurso rico em pormenores que finda em 1957 (fim deste volume).
Fico imensamente curioso em relação ao segundo volume, pois será nesse que Marquez narrará como construiu os seus romances, as suas estadias em Paris e no México (local onde escreveu “Cem anos de solidão”, a atribuição do Prémio Nobel e as suas amizades com escritores consagrados, entre os quais o “nosso” José Saramago.
Neste primeiro volume fica assim claro que as obras de Marquez espelham uma realidade que efectivamente é a do seu povo, uma realidade fantástica e sensual, inserida numa cultura secular com tantas tradições.
Quanto a mim, fiquei maravilhado com este livro e com o génio deste homem que, com os seus textos, procurou sempre honrar e homenagear um país e um povo que é o seu.
Talvez este livro tenha sido o mote para mais um fã de Marquez, ainda mais porque achei curioso algumas manias que ele tem que eu também tenho (por exemplo ele adora cheirar os livros novos e eu também). De certeza que vou ler mais uns romances dele, pelo menos agora que entendo o porquê desse estranho universo, Marquez tem agora outra lógica e outro sabor.