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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Memória das Estrelas Sem Brilho - José Leon Machado

Há livros que têm a capacidade de nos surpreender. Livros cujo título nos é completamente desconhecido mas que, fruto de acasos, nos chegam às mãos e que, quer pela história que narram, quer pela qualidade da escrita, nos surpreendem pela positiva, deixando, no fim, uma sensação de tristeza e alegria. Alegria porque tivemos a sorte de o ler, tristeza, por vermos partir personagens que conviveram connosco durante dias, semanas, tornando-se amigos, quase família.

Memória das Estrelas Sem Brilho é um destes livros. Provavelmente o melhor livro que li em 2016 (sinceramente já nem aponto o que leio), foi um livro que li devagar porque comecei a gostar tanto que não queria que terminasse. Dessa forma li-o devagar, saboreando a narrativa letra por letra, palavra por palavra. Adorei conhecer os seus vários personagens encabeçados pelo Alferes Luis Vasques que, com a sua narrativa, nos dá uma imagem clara e real do Portugal dos anos da Primeira Grande Guerra e sobretudo a intervenção portuguesa na Guerra ao lado dos Aliados.

O livro é um relato de memórias que intervala entre esse período e o pós Guerra, no entanto sobressai as difíceis condições da Guerra da de trincheiras e sobretudo a hipocrisia que esteve por detrás do envio do CEP para França. Um exército mal preparado, sem motivação nenhuma que descamba no desastre do dia 09 de Abril de 1918 na Batalha de La Lys. É surreal, em 2017 e quase a completar cem anos, nós lermos sobre a matança que foi essa guerra e no que o exercito português estava lá a fazer.

O livro tem um ritmo estonteante. Agarra-nos logo desde o inicio e nunca desmorece esse ritmo, denotando igualmente uma apurada investigação sobre os factos.

Este livro faz parte de uma trilogia que se pode ler de uma forma independente e que tem como objectivo centrar-se nos vários conflitos militares onde Portugal participou, directa ou inderectamente no Século XX.

Proximamente irei ler o 2º volume: “A Vendedora de Cupidos”.


Repito: um excelente livro que me proporcionou horas de autêntico prazer literário.


domingo, 15 de maio de 2016

Fogo Cruzado – Bernard Cornwell



É do conhecimento comum que os Estados Unidos foram uma colónia britânica durante muito tempo e que só em 1783 os Estados Unidos conseguiram a sua independência, numa Guerra que durou 8 anos (1775-1783), guerra essa conhecida por: Guerra de Independência dos Estados Unidos, Guerra Revolucionária Americana, Guerra Americana da Independência, ou simplesmente Guerra Revolucionária.

Confesso que antes de ler este livro, a minha ignorância sobre o tema era altíssima, pois julgava que se havia tratado de uma guerra entre soldados britânicos e americanos, no entanto fui percebendo que houve implicações mais profundas e com a participação de outras nações, casos da França, Holanda e Espanha, ou seja, praticamente todas as potências militares da altura entraram ao barulho, tornando assim este conflito uma espécie de Guerra Mundial.

Em todo o caso esta opinião versa sobre este livro que tem como pano de fundo a Guerra da Independência.

Bernard Cornwell situa-nos em 1777 na cidade e arredores de Filadélfia. Os britânicos ganham terreno e obrigam à fuga dos americanos. Na cidade ficam apenas os lealistas e alguns patriotas que, embora não escondendo as suas opções, convivem lado a lado com o inimigo em constantes tertúlias de uma hipocrisia atroz. Obviamente que esse convívio fomenta traições e jogos políticos cujo o autor é exímio na construção de toda uma narrativa que nos prende do principio ao fim do livro.

Como em todos os seus livros, ele vai construindo personagens de vários tipos de carácter.

Temos o herói, o vilão, os amigos do vilão, os amigos do herói, enfim, uma panóplia de personagens fortíssimos que ajudam, e muito, a que nos mantenhamos agarrados ao livro, pois nunca sabemos o que vai surgir a seguir.

Outra imagem de marca de Cornwell, que faz com que o considere o meu autor preferido no género do romance histórico, é a brutalidade e a forma viva como narra as batalhas. Uma vez mais, sentimo-nos no campo de batalha, onde homens morrem de forma atroz. São violentíssimas as descrições e, como em todos os seus livros, dei por mim a ouvir as explosões, os gritos, os toques da corneta e os relinchar dos cavalos. Confesso que é algo que muito me atrai neste autor, pois ele não se limita a ser quase fiel aos factos históricos, consegue embelezar os seus romances com descrições de batalhas como julgo terem sido, ferozes e brutais.

Em suma, já tinha saudades de um romance deste género e, pese embora não me tenha preenchido de uma forma plena, sobretudo porque é uma época que não me sinto especialmente atraído (prefiro romances históricos na Idade medieval), acabei por o ler num ápice.


sábado, 18 de julho de 2015

O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo (O Continente)



Dividido em três volumes que foram escritos em 15 anos (1947 – 1962), “O Tempo e o Vento” é considerado como a Obra Prima de Erico Veríssimo, um autor que muito admiro, sendo que “Olhai os Lírios do Campo” figuram como um dos livros da minha vida. Desta forma empreendi a leitura desta mega-obra (mais de 2.000 páginas), algo que estava há muito tempo nas minhas pretensões.

Devido não só à extensão da obra, proponho-me a comentá-la à medida que vou lendo os três volumes e também porque não faço tensões de os ler em série. Ou seja, agora terminei “O Continente” e vou pegar noutros livros que aqui tenho para, qualquer dia, pegar no “O Retrato” (2º volume) e posteriormente no “O Arquipélago”, pois também já constatei que, embora sendo uma saga, os volumes se podem ler de uma forma independente.

De uma forma muito resumida, “O Tempo e o Vento” narra a história do Rio Grande do Sul que se entrelaça com a família Terra Cambará. Embora o título presente abranja 150 anos dessa história (1745-1895), podemos, sem sombra de dúvida, afirmar que mais do que a história desse vilarejo e dessa família, o que sobressai é a História do próprio Brasil.

1745 o Brasil pertence ainda à coroa portuguesa e se por um lado os castelhanos entram território adentro matando tudo o que encontram, por outro lado assiste-se a uma cimentação das missões jesuítas e é precisamente numa destas missões que se inicia o romance com o nascimento de Pedro Missioneiro. A partir daí e à medida que vamos acompanhando o percurso de vários personagens, o autor dá-nos o ponto de situação da nação brasileira e da forma como os portugueses conseguiram manter aquele imenso território unido. Cheio de guerras e episódios verdadeiramente sangrentos, entra-nos alma dentro a constação da miscelânea de um povo e as suas raízes. 

Propositalmente situado na região gaúcha por ser a região natal do autor, o livro dá-nos belíssimos momentos de narrativa só ao alcance dos génios literários que de facto Veríssimo foi.

De notar que, pese embora o livro assente na força das personagens femininas, são de facto elas que servem de suporte não apenas à família como igualmente a toda a obra (família Terra), são sim as personagens masculinas aquelas que com a sua coragem e força dão força e carisma à narrativa (família Cambará). É inegável o apego que essas personagens masculinas nos deixam. De Pedro Missioneiro a Maneco Terra, sobretudo o carismático “sem vergonha” Cap. Rodrigo Cambará, Juvenal Terra, Bolívar Cambará, entre outros, são personagens masculinos que nos servem de mote para todo um romance brilhantemente construído, pese embora, repito, sejam as figuras femininas aquelas que os suportem.

É impressionante a capacidade que Veríssimo tinha em construir personagens de uma enorme complexidade. Todos eles têm o seu lugar e a sua importância bem definidas no romance. Dos mais carismáticos aqueles que aparentemente pouca importância têm, o autor consegue-lhes dar uma alma que faz com que todos eles sejam recordados muito depois de terem desaparecido. Ou seja, pese embora a árvore genealógica seja grande, não é de todo difícil conseguirmos visualizar e recordar quem foi quem e recordar-nos da sua importância no romance.

Este é pois um romance soberbo que vai directamente para a galeria restrita dos meus livros favoritos e uma obra que aconselho a todos aqueles que apreciam a boa literatura que também nos oferece a narrativa de parte da História do Brasil que é também um pouco da História de Portugal.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Oficina dos Livros Proibidos (A) - Eduardo Roca


Atribui-se a Johannes Gutenberg, no século XV, a invenção da imprensa que de facto foi um dos inventos que veio revolucionar o mundo, pois e até aí os livros que existiam eram produzidos por copistas e um exemplar demorava bastante tempo a prouzir, pois era tudo feito à mão. Dessa forma os livros simplesmente não circulavam e os que havia ou pertenciam ao clero ou então eram propriedade dos grandes senhores que, na maior parte das vezes, os mandavam fazer apenas com um sentido ostentatorio da sua posição, ou seja, nem sequer os liam.

A imprensa veio alterar todo esse cenário, porque permitiu mais cópias em menor tempo e, sobretudo, porque tornou essa produção mais barata, logo, é a partir do século XV que o livro começa a circular mais amiúde o que, obviamente, vai ter imensas repercussões no campo da cultura e da evolução das sociedades.

A obra do catalão Eduardo Roça situa-nos precisamente nesse contexto, dando-nos uma excelente perspectiva do modo de vida na Europa renascentista e, sobretudo no aspecto em que a sociedade europeia estava formada sob o jugo das forças opulentas do clero, dos grandes senhores e de um povo subjugado pelo medo e pela ignorância.

A época em si era extremamente violenta, cheia de contrastes que não nos deixam de chocar, no entanto e como em todas as épocas, surgiam homens decididos a arriscar a sua vida em prol de um futuro melhor para a humanidade e do progresso. Se não fossem esses homens e mulheres, alguns deles que morreram nas fogueiras da inquisição, provavelmente hoje em dia ainda assistiríamos a um controlo insano da parte da igreja sob tudo aquilo que consideravam ser prejudicial aos seus interesses e o mundo não tinha evoluído.

Lorenz Block é um ourives viúvo que vive só com a sua filha adolescente. Embora seja ourives, Lorenz tem um imenso amor pela escrita o que o leva a inventar uma espécie de máquina que está na origem da prensa. Consciente da importância do seu invento, Lorenz tem também consciência que tal invento pode ser visto com desagrado pelas forças da cidade e, sobre um enorme secretismo, desenvolve a máquina de impressão mecânica, até que recebe, por intermédio de um desconhecido, uma encomenda de um livro de Aristóteles que deve ser produzido em apenas alguns dias, feito que ele consegue. No entanto a encomenda seguinte é um livro proibido e algo corre mal...

É um livro sobre livros e essencialmente um livro sobre a capacidade do Ser Humano em acreditar no progresso e no desejo em que a cultura esteja disponível a todos e não confinada em bibliotecas dos mosteiros ou particulares. Para quem gosta de livros, é efectivamente um livro que dá gozo ler, não apenas pelo objecto livro como também pela descrição do contexto histórico, isso foi o que mais apreciei e considero o livro muito bem conseguido. 

No entanto não é perfeito e já não gostei tanto da forma como vários personagens foram evoluindo, algumas delas com uma evolução sensaborona e, a meu ver, descuidada, sem grande sentido, um pouco como se o autor se tivesse fartado delas e simplesmente, dando-lhes um final mal conseguido. Depois também considero o livro um pouco repetitivo em alguns aspectos. Não os vou mencionar, mas, às tantas, parece que estava a ler cenas já ocorridas e que pouco sumo tinham, não levando a lado nenhum.

Em todo o caso é um livro muito bom que aconselho aos amantes dos livros e do género romance histórico, pois dá-nos de facto uma excepcional perspectiva da Europa dessa época.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Dispara, Eu Já Estou Morto – Júlia Navarro



Nesse seu último romance, Júlia Navarro, que já percebi ter um estilo ou seguir uma forma de estrutura literária muito semelhante em todos os seus livros, vai novamente buscar a problemática do fanatismo e intolerância religiosa (já levantada no livro “O Sangue dos Inocentes”), erigindo um excelente romance histórico que nos dá uma clara percepção do problema Israel/Arabe/Palestina e sobretudo narra-nos como tudo começou e porque chegou ao estado actual.

E, pese embora ela dê vários saltos temporais como forma de nos situar, a verdade é que todos eles ligam muito bem, sendo, desta forma e na minha opinião, o melhor romance desta escritora, porque e embora possamos considerar num estilo algo light, a verdade é que, para além de nos entreter, vai-nos dando autênticas lições de História que nos fazem perceber a situação actual e do passado.

E a narrativa inicia-se na Rússia do final do século XIX quando os pogroms varreram a comunidade judaica nesse imenso país. É aqui que a imigração judaica, a grande maioria obviamente forçada, tem inicio e que mais tarde vão acabar por confluir na sua terra prometida: Israel. Muitos judeus conseguiam fugir com muito da sua riqueza e quando chegavam a Israel uniam-se em comunidades (kibutz), comprando essas terras aos próprios palestinianos que, sedentos de riqueza, as vendiam sem querer saber que futuro estavam a traçar. Essas comunidades, que eram erigidas junto a terras ocupadas por palestinianos, obviamente que floresciam fruto do trabalho conjunto da comunidade e rapidamente se sobrepunham em riquezas o que acabava por originar um mal estar junto dos palestinianos que, aos poucos, começaram a olhar para essas comunidades com inveja e temor. 

Após o fim da Segunda Guerra, os Judeus fartos de serem perseguidos e assassinados ao longo da História, iniciam uma enorme diáspora para Israel e é a partir daí que, definitivamente, tudo começa a descambar na violência que chegou até aos nossos dias.

A autora consegue traçar-nos todo este percurso assente numa série de personagens de fortíssimo caracter que nos fazem ver e sentir ambas as partes do conflito, pois e note-se, ela nunca toma o partido de ninguém, limita-se a colocar os factos de ambos os lados do problema, deixando para o leitor as conclusões que se devem, ou não, tirar.

Foi um livro que me deu imenso prazer ler, pese embora tenha achado alguns pontos que me tenham desagradado e que, depois ter já ter lido três livros de Navarro, penso ser algo onde ela tem de trabalhar mais arduamente. Ou seja, na ânsia de narrar um conjunto enorme de eventos, ela vai deixando muitas pontas soltas que, simplesmente, não se dá ao trabalho de as colar. Houve acontecimentos que me deixaram estarrecidos e que julguei ir ler mais à frente o seu epilogo e, debalde, continuo à espera…

Folgo em ver que Júlia Navarro enveredou definitivamente por este estilo de romances, pois penso que tem muito mais a dar à literatura com este estilo do que com os romances policiais que antes escrevia. Faço tenções de ler o seu grande sucesso policial, mas este é um estilo onde ela acaba por aliar o histórico com o policial, revelando-se uma autora de leitura compulsiva cujos romances possuem um conteúdo muito interessante.