segunda-feira, 23 de julho de 2007

Crónicas do Senhor da Guerra - Bernard Cornwell

Esta opinião visa toda a obra no seu conjunto não especificando nenhum dos volumes em particular.

Esta é uma obra que já reli por diversas vezes.. Na minha primeira leitura, há uns 10 anos, fui levado por um entusiasmo e um fascínio tão grande que e durante muito tempo, considerei esta obra como a da minha vida, aquela que recomendava sempre que me solicitavam alguma opinião sobre bons livros (ainda recomendo).

Senti-me novamente maravilhado e, embora agora não a considere como a obra da minha vida (Guerra e Paz é inultrapassável... acho!), tenho-a como uma daquelas que guardo gratas recordações pelos excelentes momentos que me proporcionou.

Quanto ao conteúdo:

A lenda arturiana, tal como ela hoje é conhecida, jamais foi comprovada, aliás, a existência de Artur é ainda uma incógnita havendo várias incongruência factuais à roda do nome e da real existência da personagem. No entanto, Bernard Cornwell efectua uma brilhante investigação histórica do tema, abordando frontalmente a questão e, em todos os três volumes, ele tece considerações sobre a época e os factos em que ele se baseia. Classifica documentos e nomes e não tem qualquer problema em desmistifcar essa lenda, nunca escondendo porém ele próprio ser um fã da mesma.

Assim Cornwell cria uma personagem fictícia para narrar a história de Artur. Século Quinto, Derferl Cardan, agora monge e já com uma idade avançada, escreve em língua saxã, a pedido da Rainha Igraine, as suas memórias de Artur, o Rei que Nunca Existiu, o Inimigo de Deus. Somos então levados pelas palavras de Derfel num caminho que se vai interligando com o de Artur e de outras personagens também míticas.

Um dos factos que mais me apaixonou, é o sentido violento e real que Cornwell imprime na narrativa e a quase ausência de magia. Embora a magia esteja quase sempre presente, nem que seja pelas imensas superstições, Cornwell dá-lhe sempre um tom soft, dando inclusivamente explicações a muitas manifestações ou brincando mesmo com elas.

Assente numa escrita simples e fluída, ele descreve minuciosa e detalhadamente as crenças, os usos e costumes daquelas gentes, da sua forma de pensar e de agir e, fundamentalmente das batalhas. Confrontos violentos e sangrentos, transporta-nos ao local de uma forma sublime onde, por vezes, parece que tudo aquilo está realmente a acontecer, todos aqueles gritos, os escudos que embatem violentamente uns nos outros, os cavalos que, assustados, espezinham homens em agonia que sufocam no seu próprio sangue, vomitado e excrementos. Até os cheiros nos faz sentir; a própria sensação de medo que os soldados sentem antes da batalha (quase todos se encharcavam em hidromel para ganharem coragem) e é arrepiante aquelas descrições daqueles momentos de ânsia, aquele compasso de espera onde os guerreiros se preparam para entrar na batalha, onde um homem pode estar a viver os seus últimos minutos ou um dia de glória. Onde a canção de Beli Mawr é cantada em uníssono pelos guerreiros bretães que e com a ajuda dos seus deuses, reúnem coragem para enfrentar o exército oponente.

Fabuloso!

Aqui a távola redonda não passa de uma mera mesa de madeira suja de comida e vomitado (palavras de Derfel); Excalibur jamais esteve cravada numa pedra; Guinevere é uma mulher ambiciosa que leva demasiado longe essa ambição; Lancelot... bom, Lancelot não passa de um reizinho arrogante, que se revela um cobarde, um mentiroso e um traidor; Merlin passa grande parte do tempo ausente, tendo aparições fulminantes e empolgantes, embora tenha também um papel determinante; Morgana... não é nada semelhante aquela Morgana que a lenda refere.

Uma história que aborda tempos violentos varridos por guerras e indefinições religiosas, sendo nítido os ventos de mudança que se faziam sentir, onde o fim do paganismo e o surgimento do cristianismo é uma realidade. É curioso também verificar uma constante crítica que o autor vai fazendo ao cristianismo em grande parte da obra. É notório o papel desestabelizador dessa religião na região e, grande parte dos conflitos, são gerados por interesses cristãos. Ou seja, é claro que o papel do cristianismo foi o de dividir para reinar, o de impor e obrigar a seguir uma ordem, o de matar qualquer oposição ou qualquer Deus ou religião que fizesse sombra ao cristianismo.

Em suma: Uma história fantástica que recria uma época longínqua onde a espada era a lei mas onde ainda existia lugar para a verdadeira amizade. Uma obra que aconselho a todos e que no fim nos deixa tristes por acabar e que também acaba por saber a pouco, pois Derfel deixa por contar como e onde acabaram certos personagens. Mas o certo é que estamos tão dentro da história, tão compenetrados que é-nos difícil acreditar e aceitar que já acabou.

Um romance histórico que me levou a adoptar este estilo como o meu preferido.

Jogador (O) - Fedor Dostoievsky

Neste romance, escrito em apenas 15 dias, Dostoiévski cria Alexis Ivanovitch, preceptor de uma abastada família russa que, em jeito de memórias, relata os acontecimentos em que se viu envolvido numa cidade alemã chamada Ruletemburgo. Á roda dessa família, giram outros excêntricos personagens que acabam por ter alguma relevância em toda a acção. Mlle. Blanché, amante do general (patrão de Ivanovitch), mulher interesseira que gosta de se expressar na sua língua materna (francês). Um inglês que tem um papel algo dúbio, até para o próprio Ivanovitch. Outro francês (De Grillet), personagem sui generis na sua forma de agir e, finalmente, uma velha avó de quem todos esperam notícias da sua morte e que, repentinamente, resolve aparecer em Ruletemburgo para espanto de todos, principalmente do general.
E é nessa senhora que tudo verdadeiramente começa. A velhota pede a Ivanovitch que lhe mostre a sala da roleta e que lhe explique as regras e, ele ao fazê-lo, dá oportunidade à senhora para jogar... depressa ela se vicia no jogo.
É o ponto de partida para o fascínio da roleta. A ânsia dos números que saem, o perde e ganha de dinheiro, o convencimento e certeza que "é agora que sai", o bichinho que os impulsiona, que os atira para a mesa, que os leva a sonhar com riquezas inimagináveis.
Jogador inveterado da roleta, Dostoiévski faz deste romance uma espécie de exorcismo de um vício que quase o levou à ruína. Inclusive, sabe-se que este romance foi escrito para pagar dívidas de jogo. Aqui e baseado numa experiência pessoal, ele faz-nos sentir toda aquela ânsia, toda aquela obsessão, aquela compulsiva necessidade de jogar, da crença que vai sair, de que por muito que se ganhe, é sempre possível ganhar mais, e mais, e mais... Todas essas sensações, a descrição de tal vicio está brilhantemente explicado e é engraçado também verificar a semelhança entre este vício e o vício da droga. Embora noutra perspectiva, a semelhança é notória. Também de notar a forma clara, aberta e honesta como Dostoiévski descreve todo esse sentimento, demonstrando que este vício é um problema muito sério.
Nesse aspecto, o livro ganha claramente importância e relevância dada a forma como aborda a questão. Quanto ao resto e olhando para a estória que gira em torno do assunto, penso que nada de positivo traz, descrevendo um arrastar das personagens acima mencionadas, cheia de relações humilhantes e absurdas.
Negativo também o exagero das frases em francês. Para quem não tenha conhecimentos de francês, é extremamente complicado seguir o texto, ou se quiserem, alguma partes que acabam por ter alguma importância na estória.
Em suma: Uma viagem guiada a um mundo de vício e perdição. A um mundo ilusório, uma doença onde o prazer se confunde com a dor, descrito por um homem que sofreu na pele os malefícios desse mal.

Canto dos Pássaros (O) – Sebastian Faulks

França, 1910, Stephen Wraysford é enviado pela sua empresa a França a fim de observar junto da família Azaire o negócio de texteis desta, sobretudo no sentido de perceber o processo de fabrico.

Instalando-se na casa dos Azaire, Stephen inicia o seu estudo da indústria ao mesmo tempo com que vai se relaconando com todos os membros e amigos da família, contudo esse ralacionamento torna-se mais íntimo com Madame Azaire, Isabelle, que como era algo comum na época, havia sido obrigada a casar com um homem rico e mais velho, não tendo por isso um casamento pleno e de acordo com o que a força da juventude exigia...

Nos seus 20 anos, Stephen conquista por completo Isabelle (8 anos mais velha), acabando por se envolverem de uma forma tórrida, deixando atrás deles um rasto de infâmia e humilhação.

Anos depois estala a Grande Guerra (1914-1918) e é precisamente a guerra a principal intérprete do livro.

Stephen é incorporado no Exército Expedicionário britânico e enviado para França conjuntamente com milhares de compatriotas imbuidos por um sentido altruista que visava a paz no mundo e a elevação do império britânico a maior portência mundial.

Que utopia!

Sobrevivendo nas toscas e nauseabundas trincheiras, Stephen irá acreditar na existência física do inferno, observando uma guerra insana, completamente ausente de lógica e capacidade em retirar todos e quaisquer sentimentos aos seres humanos.

É impressionante o relato dos movimentos dos batalhões. Pungente a pequenez e a indeferença que a vida humana tomou. A forma como é descrito os combates, os assaltos onde milhares de homens morrem, alguns deles simplesmente pulverizados sem o corpo para enterrar. Corpos abandonados no campo de batalha (terra de ninguém), decompostos a céu aberto, servindo de alimento aos incontáveis ratos e corvos.

Há descrições horríveis, como por exemplo um assalto a uma trincheira alemã onde na confusão do assalto, os homens dão-se conta de estar a pisar lama e restos de carne em decomposição...

Obviamente que como pano de fundo há a tal história de Stephen e Isabelle. Porém vai mais longe, o livro abrange três gerações apanhando, já em 1978, Elizabeth, neta de Stephen que se interessa pela história do avô, sobretudo porque se dá conta de ele ter estado numa guerra tão distante do tempo e cuja História é algo aparentemente escondida, como se esta guerra fosse para esquecer.

Mais do que a história de Stephen, Isabelle ou Elizabeth, este livro é uma descrição pura e dura da desumanidade desse conflito e do quanto infuenciou negativamente toda uma geração de homens que, ao sobreviveram áquela guerra e às recordações daí resultantes, desejaram terem ficado sepultados juntos dos seus camaradas, os únicos que os compreendiriam.

Um excelente documento sobre a I Grande Guerra.

domingo, 15 de julho de 2007

Guerra e Paz - Leon Tolstói

“Guerra e Paz” é o livro da minha vida!

Mais do que um romance, esta obra é um tributo, uma dádiva à humanidade.

Tolstoi efectua uma profunda e vasta análise à sociedade russa, assim como e apoiado em profundos conhecimentos da época em questão, ele realiza também profundas análises e reflexões às medidas e estratégias militares, tanto da parte dos russos como da parte dos franceses, comandados por essa figura mítica que foi Napeolão Bonaparte. Partindo assim dos seus próprios estudos e conhecimentos, Tolstoi formaliza conceitos e teorias sobre os porquês das guerras que opôs os exércitos russo e francês (campanhas de 1807 e 1812) assim como avança com apreciações sobre a invasão francesa e a posterior fuga desorganizada de Napoleão. E Tolstoi assente em teorias e factos palpáveis e credíveis, não se inibe em desmascarar ou desmentir os historiadores da época, chegando a conclusões divergentes e polémicas, pois ele põe em causa heróis a quem chama de falsos heróis e clama por outros personagens que tiveram mais importância e influência no desenrolar da guerra, mas que foram injustamente esquecidos. Faço ideia da celeuma que provocou com estas opiniões.

E ele não abranda.

Começa por enaltecer Napoleão para depois e mais à frente, não tem pejo em chamar-lhe fraco, arrogante e cobarde, justificando-o pela capacidade que mostrou em esmagar qualquer oposição, não tendo contudo engenho de decidir e organizar, vendo-se então obrigado a fugir de Moscovo, deixando atrás de si milhares de soldados entregues a eles próprios e às circunstâncias que levou a grande maioria a encontrar a morte.

Esta é uma obra que deve e merece ser analisada ao pormenor. Uma obra que me levou cerca de três meses de apurada leitura, pois via-me "obrigado"a fazer pausas, às vezes por dias, para conseguir analisar e meditar no que havia lido. São muitas páginas de intensa informação histórica e social. Nas várias opiniões que li antes de avançar para a leitura do livro, alguém afirmava que "este é um livro que só deve ser lido por quem tenha hábitos de leitura". Concordo e digo mais: "e para quem consiga e goste de efectuar análises, pois esta obra ensina-nos muito!".

A profundidade histórica da época, a profundidade psicológica e social dos personagens é tão vasta que se torna difícil conseguir-mos assimilar tudo. Uma obra que é um manancial farto e vasto para uma tese de doutoramento ou mesmo um ensaio (se calhar existe, mas não conheço), pois esta é, sem qualquer sombra de dúvida, uma das melhoras OBRAS DE ARTE da humanidade.

Honestamente tenho dificuldades em exprimir todo o meu fascínio pela obra e conseguir oferecer-vos um pouco desse encantamento, no entanto e não querendo entrar em muitos detalhes do enredo, direi o seguinte:

Três famílias da alta sociedade russa são o suporte do livro: Bezukov; Bolkonski e Rostov. Dessas famílias sobressaem 3, 4 personagens que, na minha opinião, são as traves mestras da obra, são eles que incorporam toda uma sociedade que Tolstoi descreve: Pedro Bezukov (o meu favorito); André Bolkonski (partiu-se me o coração da forma como acabou...); Maria Bolkonski e Nicolau Rostov e, talvez, Natasha Rostov.

Vamos então começando a acompanhar a vida desses personagens e de muitos outros (é fácil começarmos a confundi-los) e é impressionante a opulência, vaidade, narcisismo e mesquinhez que grassa por toda a alta sociedade. Chega a ser irritante a forma despreocupada e vil como essa classe, por exemplo, vê a guerra. Discutem sobre assuntos fúteis e supérfluos, as festas sucedem-se e a hipocrisia é tão grande que há pessoas que têm opinião x num lado e y (totalmente oposta) noutro.

Posteriormente surge a guerra (existem dois períodos distintos de guerra com os franceses) e aí Tolstoi aprofunda as suas análises e críticas. É também notório que ele não era um grande simpatizante dos militares, pois veja-se o que ele, no início de um capítulo, escreve: "A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que cumpria um dever, embora inactivo, esse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atractivo do serviço militar". Os militares que me perdoem, mas é simplesmente delicioso!

Após a famosa batalha de Borodino, onde Tolstoi faz uma descrição terrível da batalha, tudo se desenrola de uma forma vertiginosa. Napoleão ocupa uma Moscovo deserta, algo que ele não esperava e em vez de se decidir, resolve esperar. Isso é-lhe fatal...!

Quase a findar, Tolstoi faz uma leve dissertação sobre Napoleão. Considera-o um homem sem convicções, sem passado, sem tradições, sem nome e que nem sequer é francês. Sobe ao poder por uma série de felizes circunstâncias e são essas circunstâncias felizes que o acompanham para todo o lado. Um homem medroso e que se "mete em trabalhos" que não fazem sentido, como é o caso da expedição ao Egipto. Dessas conquistas sobressaem os ideais de glória e grandeza que consistem em praticar todo o tipo de crimes e chacinas que nunca lhe são imputados. Um homem fabricado que quando não fez falta, foi deportado para a ilha de Elba para aí viver rica e despreocupadamente, embora saibamos que ele não acabou por aí..

Obviamente Napoleão foi mais do que Tolstoi afirma. A partir de certa altura, Napoleão torna-se quase uma obsessão para Tolstoi, ele nunca perde uma oportunidade de mostrar o seu desprezo, o seu asco por uma figura que ele acha que ocupa injustamente um lugar de relevo na história europeia, inclusivamente perto do fim da obra. No entanto, também não se inibe em criticar o exército russo, os generais, o povo e o próprio imperador.

Por último, Tolstoi faz uma longa prelecção filosófica sobre o "Que é o poder" e "Qual a força que move os povos", assim como o papel da História e dos historiadores. Embora chegue a conclusões curiosas e interessantes, o certo é que se torna algo cansativo e repetitivo, pois ele alonga-se durante cerca de 40 páginas. No entanto, nada disto invalida a portentosa Qualidade do livro.

Esta opinião embora longa, não demonstra o quanto o livro tem por analisar, porém é algo que deixo à consideração de cada um.

Ano da Morte de Ricardo Reis (O) - José Saramago

Este é, para muitos, o melhor romance de José Saramago. O próprio Saramago admite que tem um carinho muito especial por ele e é um dos que mais trabalho lhe deu a nível da pesquisa histórica.
Para mim e embora seja um romance excepcional, não está ao nível do "Memorial do Convento", do "Evangelho Segundo Jesus Cristo" ou do "Ensaio sobre a Cegueira" e simplesmente porque em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", Saramago não atinge o brilhantismo da ironia ou da hilaridade que atingiu em o "Evangelho", não atinge a genialidade do épico "Memorial" e também não atinge a corrosiva crítica social que consegue em "O Ensaio sobre a Cegueira".
Porém e sendo ou podendo ser considerado um romance histórico, Saramago conta-nos uma estória passada em Lisboa no ano de 1936 e em que o principal personagem é Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernado Pessoa.
Regressado do Brasil onde se havia refugiado por motivos políticos, Ricardo Reis desembarca em Lisboa em Dezembro de 1935. Instala-se então no famoso Hotel Bragança, alugando posteriormente um apartamento. Penso que ainda seja no Hotel (já li o livro à uns 3 anos) que e numa noite fria e chuvosa, dá de caras com o fantasma de Fernando Pessoa, fantasma que lhe irá fazer visitas regulares até à sua derradeira hora de vida.
Em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", Saramago utiliza vários elementos da atmosfera do "Livro do Desassossego", misturando-os com informações concretas e reais: As ruas, os restaurantes ou as casas de pasto, o café Royal que ficava ao pé do Hotel Bragança e que hoje, salvo erro, é um Banco.
No entanto e embora acompanhemos todo o percurso de Ricardo Reis, o verdadeiro protagonista da estória é o próprio ano de 1936. Um ano onde ocorrem importantes acontecimentos: A guerra civil espanhola, a ascensão do nazismo, a consolidação do fascismo em Portugal, a vitória da Frente Popular em França, o desenlace da guerra na Etiópia. Todos esses acontecimentos dividem Ricardo Reis e até aí Saramago mostra-se atento, pois sabe-se que Fernando Pessoa era anticomunista e percebe-se que Ricardo Reis também o é.
Em suma: através de uma já conhecida capacidade de efabulação, Saramago transporta-nos a uma Lisboa sombria, prendendo-nos à personagem e levando-nos a assistir a espantosas e curiosas conversas entre Fernando Pessoa e Ricardo Reis ou, se quiserem, entre Fernando Pessoa e ele próprio.
Um livro onde se nota, uma vez mais, uma clara intenção de Saramago em, através de metáforas, falar da nossa sociedade e dos problemas a ela inerentes.

Lista de Schindler (A) - Thomas Keneally

Provavelmente que mais de meio mundo já viu o excelente filme realizado por Steven Spilberg em 1993 e que lhe valeu 7 óscars da Academia de Hollywood. Esse filme retractava a acção de Óskar Schindler durante a II Guerra Mundial, quando na Polónia ocupada pelos nazis, monta uma indústria suportada por mão de obra judia e assim consegue salvar da morte milhares de judeus.
Este livro, escrito pelo escritor australiano Thomas Keneally, é precisamente o "documento" que deu origem ao filme de Spilberg.
E afirmo "documento" porquê?
Porque conta a história verídica de Óskar Schindler, empresário alemão que conseguiu, mediante o emprego na sua fábrica, salvar a vida a milhares de judeus que assim escaparam aos campos de extermínio nazis.
E parece que a origem do livro surge um pouco por acaso.
Pelo que li, foi em 1980, quando Keneally efectuava compras em Beverly Hills que conheceu Poldek Pfefferberg, dono da loja onde se encontrava. Conversa puxa conversa e Keneally fica a saber que Poldek era judeu e um dos que haviam sido salvos por um tal de Óskar Schindler.
É este o ponto de partida.
Interessa-se pelo assunto e é a partir de Poldek que consegue encontrar e entrevistar cerca de cinquenta pessoas que haviam sido salvas por Schindler e que o haviam conhecido. E basicamente o livro é isso mesmo; assente em história verídicas, Keneally constrói o percurso de Schindler durante o conflito mundial. A forma especuladora, os pactos e amizades, o ódio que nutria pelos nazis e a vergonha que sentia pela política do "seu" governo, é algo que salta à vista. Mesmo assim os seus jogos de interesse sobrepõem-se a tudo isso e é precisamente por isso que Schindler não pode ser visto apenas como um "bom samaritano". Embora ele tenha salvo muitas vidas, em parte fê-lo porque também precisava delas para alcançar os seus objectivos. Embora de uma forma algo leve, o livro mostra um pouco dessa faceta.
O certo é que o livro é realmente um documento pungente do Holocausto. Ao contrário de outros que já li: "Treblinka" e "Se isto é um Homem", em "A lista de Schindler" não conhecemos os campos de extermínio, mas sim a vida dos judeus que se vêm, de repente, cercados por arames farpados e delimitados a uma certa área, um género de campo que antecede os campos de extermínio. Ou seja, é a partir desses campos que eles são depois enviados para os de extermínio. Assim essas pessoas vêm-se sem nada e sem esperança, sempre na contingência de morrer. Keneally, nitidamente de propósito, usa o livro como um alerta futuro para a humanidade, pois narra com uma impressionante minuciosidade algumas das atrocidades e assassinatos cometidos pelos nazis. Foi dos poucos livros em que tive de parar por diversas vezes, pois as barbaridades, os horrores eram tão grandes que me inquietavam e me repugnavam, parecendo que ouvia os gritos das mulheres e das crianças...
E é precisamente por todas aquelas atrocidades, contadas ao pormenor e com um requinte algo macabro, que me recuso a dar nota máxima ao livro. Está efectivamente muito bem escrito, podem até dizer, tal como eu, que é um género de exorcismo de todo aquele horror, mas é que o escritor ao não nos poupar, fez com que tivesse que viver tudo aquilo e, as minhas horas de leitura que são sempre horas de lazer, transformaram-se em horas de guerra onde constantemente era assaltado pelos fantasmas das vítimas. Ou seja foi muito cansativo!
Esta é a minha sincera opinião. Um documento histórico belíssimo, mas muito violento e pesado, não aconselhável a espírito sensíveis.

Servidão Humana - Somerset Maugham

Servidão Humana foi dos romances que mais me surpreendeu pela positiva durante o ano de 2003 e, sem dúvida, um dos melhores livros que já li.
Foi um livro que adquiri na colecção "Mil Folhas" do Jornal "O Público" e embora nada me dissesse, adquiri-o porque uma das minhas colegas, verdadeira fanática por literatura, disse-me maravilhas de Somerset Maugham e especialmente sobre este livro. Após o ter terminado, agradeci-lhe por me ter dado a oportunidade de ter lido e apreciado uma verdadeira obra prima.
Somerset Maugham foi um escritor muito apreciado e lido até à década de 70. Era visto como um escritor pertencente ao clássicos, no mesmo patamar de um Dostóievski, Tolstoi ou Hemingway. No entanto e desconheço porquê, deixou de ser o lido e inclusivamente deixou de ser reeditado, absolutamente incompreensível.
O livro narra a história de Philip, uma criança tímida que e após a morte dos pais, é adoptada pelos tios e com eles vai viver. No entanto há um terrível senão: Philip tem pé boto e embora isso em nada influencie o amor que os seus tios lhe dedicam, é fundamental para lhe moldar o carácter, fechando-o aos poucos para o mundo. Num mundo seu cheio de medos e angústias e devido à sua proximidade com o divino (o tio de Philip é pároco) ele resolve pedir um desejo a Deus: "Cura-me o meu pé boto!"
Na manhã seguinte e noutras manhãs, ele acordo esperançado e a mesma morre ao visualizar o seu horrível defeito que lá continua. Então dá-se uma transformação vital na sua personalidade e no próprio livro: "Porquê ama-Lo?", "Porquê servi-Lo e sujeitar-me à dor e à humilhação se Ele nada faz por mim?" É nestas perguntas que Philip toma a sua decisão mais importante...
Acompanhamos então o percurso de Philip até á sua maioridade. Estudaremos com ele pintura em Paris e medicina em Londres. Apaixonaremo-nos pelas mulheres que Philip ama e, desses amores, sofreremos desilusões atrozes e choraremos sós e humilhados, completamente esquecidos e isolados do mundo.
Da solidão e da miséria, nasce um amor sério e honesto assente no respeito.
Uma grande obra que aconselho a quem aprecia a boa literatura. Um escritor que tem aquele dom de saber contar histórias.
Um livro que aborda a questão da fé e das crenças. Colocando-se do "lado de fora", o escritor faz uma crítica a essa crenças e quanto ridícula e exagerada elas podem ser.
De leitura obrigatória!

Evangelho Segundo Jesus Cristo (O) - José Saramago

O Evangelho Segundo Jesus Cristo nasce, segundo o próprio Saramago, de uma visão tida em Sevilha, onde o autor julga ver escrito numa capa de revista o título "Evangelho Segundo Jesus Cristo", posteriormente tem o "tal" click em Bolonha, cidade onde ele escreve os primeiros apontamentos.

Saramago assume-se como ateu!

Assim e de uma forma racionalista que desde logo vai de encontro à filosofia catalólica, porque essa filosofia não se pode dizer que seja racionalista, ele tem a coragem de escrever sobre a vida de Jesus Cristo, mais, ele aborda o Evangelho bíblico de um ponto de vista humano, ou seja, ele aparta-se daquele ser divino para o tornar num simples ser humano que tem a sorte ou o azar de se encontrar com Deus e o Diabo. E o homem tem mesmo azar porque senão veja-se: Ele é o mais velho de 8 filhos de José e Maria (eram doidos para a brincadeira) e com tantos filhos logo tinha que ser ele a andar nas "bocas" do mundo?

E Saramago não recua: O anjo passa a mendigo, os reis magos são apenas pastores e até Maria Madalena (uma das heroínas de Saramago) é uma mulher com uma antiga profissão e que adora "ensinar" os prazeres carnais a Jesus.

Encontros e desencontros com um Deus feroz, vingativo, maldoso e que tem uma vasta colecção de mártires que morreram atrozmente em seu nome. Aí percebe-se claramente a aversão de Saramago à Igreja e tem um quê de Nietzsche (digo eu!). Um Diabo que veste a pele de um pastor cuja maior diversão e, precisamente, "divertir-se" com as suas ovelhas, mas que até dá bons conselhos a J.C.

Em suma: com Deus, J.C. conhece a fúria e a miséria, com Maria Madalena conhece os prazeres do corpo e o prazer da paixão, com o Diabo, aprende a conhecer o mundo que o rodeia.

Um romance que só escandaliza os fracos de espírito. Independentemente de sermos crentes ou não, isso não impede de pensar, interpretar e avaliar esta obra notável. 

É por causa deste romance que Sousa Lara retira o nome de Saramago da lista de concorrentes ao Prémio Literário Europeu... Hipócrita!

Cada um faça o seu próprio juízo, no entanto, penso que Portugal se deve orgulhar deste grande escritor e da sua obra.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago

Embora tenha sido o seu romance "Evangelho Segundo J.C." aquele que tanto escandalizou e incomodou tanta gente santa e que tanto imbróglio criou, foi com o "Ensaio sobre a Cegueira" que Saramago mais mexeu com a consciência colectiva, a diferença é que este romance não toca em crenças ou na Madre Igreja (Amém) e, agora, Saramago também já era um escritor consagrado e era certo a asneirola que Lara havia feito quando correu com ele.

Pois quem ler este romance, de certo se sentirá incomodado, pelo menos irá pensar um bocadinho.

Assim e no seu estilo, aliás, no seu melhor estilo, Saramago põe a nu a porcaria que é a nossa sociedade, cheia de invejas, hipocrisias e cinismo, onde nem os políticos são poupados.

Exemplar e genial são as referências que Saramago vai usando ao longo do romance sem que demos conta disso. Apenas sobressaem quando paramos para pensar no alcance da obra e é aí que facilmente identificamos alusões aos campos de concentração nazis, à visão bíblica sobre os cegos conduzindo outros cegos, à obra "Peste" de Eramus e também presente está a obra de Homero "Ilíada" aquando das constantes referências à mulher do médico, pondo-a na pele de Eneias. E é precisamente na figura da mulher do médico que sobressai a grande heroína de Saramago, poderosa cuja identidade com Blimunda ou Maria Madalena é clara e onde Saramago completa o seu trio de heroínas.

Por fim gostaria de referir uma frase de José Leon Machado que caracteriza na perfeição o romance: "O livro marca de tal forma o leitor que difícil será para este livrar-se da visão e do cheiro de tanta miséria e de tanta merda que, no fundo, caracterizam este mundo. Mundo que, para não a ver e para não a cheirar, constrói tapumes de cartão e espalha perfumes à volta".

Ilucidativo!

Memorial do Convento - José Saramago

José Saramago, enquanto pessoa, gera amores e ódios. De uma personalidade irascível, alia a sua experiência de vida ao seu pedantismo o que, com o status adquirido, o torna uma das maiores personalidade do panorama português dos sécs. XX e XXI.

Esse pedantismo a roçar por vezes o exagero, é transportada para a maioria das suas obras, onde e com uma mestria que lhe granjeia invejas, alia o seu dom de contador de estórias à de crítico de toda uma sociedade (fundamentalmente a portuguesa) e também ao da escrita ou, se quisermos, uma construção do texto e da narração inovadora e difícil de acompanhar.

Pessoalmente gosto e muito do Saramago crítico, não me identifico com a sua ideologia política nem compreendo, por vezes, as suas observações, mas e mesmo vivendo em Espanha, não se contenta com o rumo do nosso país e gosto especialmente quando ele resolve arrasar nos seus romances, como são os casos do "Ensaio sobre a cegueira" e "Evangelho segundo J.C.".

No entanto e desta vez, proponho-me opinar sobre o Memorial do Convento que é, quanto a mim, uma das Grandes Obras da literatura portuguesa do séc. XX, um portento de inspiração e de uma beleza artística apenas ao alcance dos Maiores.

Ler Saramago, como anteriormente referi, não é fácil. Porém à medida que começamos a compreender o seu estilo, a leitura torna-se fluída e todo aquele aglomerado de letras, aparentemente sem pontuação, deixa de ter importância, porque a pontuação está lá e o homem tem mesmo jeito para contar estórias.

Quanto ao livro:

Temos duas personagens principais que já correram mundo: Blimunda e Baltasar. Ela "Sete Luas" e ele "Sete Sóis", ela uma mulher que consegue ver os corpos à transparência quando em jejum e ele, um ex-soldado que regressa da guerra sem uma mão e quase sem alma, apenas o seu corpo lhe dá a aparência de ser humano.

Numa época dominada pela inquisição, um padre constrói ume estranho artefacto a que lhe chama Passarola e tenta convencer o rei que aquilo pode voar, esse rei (D. João V) bem tenta que a sua mulher, a rainha D. Maria Josefa, engravide, no entanto "se quiseres um infante, manda construir um convento" diz-lhe um monge e o rei, temente a Deus, faz nascer a principal figura do livro: O Convento de Mafra.

Acompanhamos então toda a construção e ao mesmo tempo as aventuras e desventuras dos personagens antes mencionados, para, no fim, ficarmos estupidificados com a surpresa que Saramago nos guarda. Já li o livro três vezes e fico sempre com um nó na garganta com as páginas finais.

Um livro que já deu uma ópera que e pelo que tenho lido, deve ser arrepiante, pois no fim existe um coro de padecimento e martírios...

Um romance extraordinário!

Bizâncio - Stephen Lawhead

Embora leia de tudo um pouco, os romances históricos são aqueles que fazem as minhas preferências, andando sempre em busca de mais e mais. No entanto não é fácil descobrir os bons escritores deste estilo, pois existem escritores (as) que têm fama e proveito mas, qualidade... escrevem de qualquer maneira, sem rigor literário e histórico.

Stephen Lawhead é daqueles que nasceram para escrever romances históricos!

Embora os seus primeiros livros se situassem na área do fantástico, é, com a obra composta por cinco volumes "Ciclo Pedragon" (Taliesin, Merlin, Artur, Pedragon e Graal) que alcança a celebridade e maturidade literária.

Quanto à obra que me proponho opinar: Bizâncio é um dos melhores romances históricos que já li e, a nível de rigor histórico, um dos mais perfeitos.

A história é contada na primeira pessoa por um monge que vive tranquilamente num mosteiro na Irlanda. Um dia, Aidan (o seu nome) é um dos escolhidos para fazer parte de um grupo que pretende deslocar-se à exótica Bizâncio para presentear o imperador romano com o belo e santo livro de Kells.

A partir desse embarque, excitantes e extraordinárias aventuras Aidan irá passar, uma autêntica odisseia desde as verdejantes colinas da Irlanda aos tenebrosos mares do Atlântico, das águas do Mediterrâneo aos desertos árabes. Dos Celtas aos Vikings, dos Romanos aos Árabes, Aidan colocará em causa a sua própria crença em Deus, conhecerá a tristeza e a alegria, a riqueza e pobreza, enfim, uma odisseia belíssima, brutal, onde conseguimos sentir toda aquela atmosfera desses períodos tão conturbados e bárbaros como dos anos 850 d.C.

Numa escrita viva, fluida, realista, Lawhead dá-nos uma obra fenomenal, historicamente rica, cheia de pormenores deliciosos sobre essas distintas civilizações que dominavam o Mundo. E é extraordinário que num romance longo (755 pág.) Lawhead consegue expor e interligar todos estes povos de uma forma correcta e inteligente.

Aidan mac Cainnech existiu na realidade, o seu túmulo pode ser visto na Capela dos Santos Padres, à sombra da Hagia Sophia em Bizâncio ou Constantinopla, actual Istambul. Esta é a estória da sua odisseia!

Maias (Os) - Eça de Queirós

Para mim é extremamente complicado falar, opinar sobre Eça de Queiróz e sobretudo sobre a sua obra prima "Os Maias" (como subtítulo: "Episódeos da vida romântica"), porque simplesmente por muito que fale, divague ou discuta, são poucas as palavras para exprimir o seu génio e a sua grandeza.

A minha paixão por Eça de Queiróz vem, ao contrário do que se poderia pensar, dos tempos de liceu quando fui obrigado a ler "Os Maias". Afirmo obrigado porque e naquela altura, andava mais interessado em obras de aventuras como "O conde de Monte Cristo" (grande obra), "Ivanhóe" ou aqueles livrecos de terror da colecção "Pêndulo". Bom, o suplício foi de pouca duração porque à 10ª página já eu me tinha apaixonado, sobretudo pela forma de escrita.

Desde essa altura, e já lá vãos uns anitos, já li o livro por mais três vezes, e o fascínio continua a ser o mesmo.

Quanto ao romance: Eça narra as aventuras e desventuras de uma família lisboeta ao longo de três gerações, onde a sociedade da época, com todos os seus defeitos e virtudes, é descrita de uma forma irónica, mordaz e bastante real, pois sabe-se que Eça era um homem profundamente realista, gostava de escrever o que via e sentia de uma forma coerente (pensou inclusivé em descrever a sociedade portuguesa ao longo de 12 romances). Assim, toca nas feridas da sociedade portuguesa da época (??), expondo toda a futilidade, a vaidade, o cinismo, a hipocrisia e o ridículo (tão actual!!)

É igualmente interessante focar a sublime ironia com que Eça narra alguns acontecimentos, nomeadamente uma situação entre o Eusebiozinho e Carlos da Maia ou as situações de João da Ega... soltei gargalhadas profundas.

Por falar em João da Ega, cada vez mais me convenço que Eça serve-se de Ega para se auto-retratar, pois atente-se como ele descreve João da Ega: "O esforço da inteligência (...) terminou por lhe influenciar as maneiras e a fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os pêlos arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito — tinha alguma coisa de rebelde e de satânico".

A nível do texto literário, a forma como consegue sugerir as formas, as cores, as paisagens ou os cheiros, é simplesmente genial. A forma e a facilidade que descreve comportamentos humanos, onde facilmente nos apercebemos das alegrias, tristezas e do tédio. Recordo-me da descrição de Sintra... é estonteante, um concerto de beleza!

Claro que a história não se resume apenas à história de 3 gerações e dos costumes da sociedade. Mas peço desculpa a quem esperava uma descrição da estória dos "Maias", para mim, a beleza da obra está no que anteriormente referi.

Cada leitor sente o livro à sua maneira, tentei descrever a sensações que ele me provocou, mas e como referi logo de início, é muito difícil para mim opinar sobre esta grandiosa obra, porque tudo o que posso afirmar é pouco para exprimir o que senti.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Noiva Prometida (A) - Bapsi Sidhawa

Bapsi Sidhawa tem aqui a sua estreia no campo da literatura e logo com um texto onde expõe a amargura das tradições patriarcais indianas e paquistanesas, países vizinhos mas tão iguais nas tradições, separados apenas pela vertente religiosa.

E é esse aspecto o primeiro que Sidhawa explora quando aborda, num género de intróito para as situações vindouras, dos terríveis acontecimentos de 1947 quando as terras férteis do Punjabe foram subitamente divididas entre o Paquistão e a índia, provocando uma enorme deslocação de refugiados que iam sendo apanhados em emboscadas que acabavam numa enorme chacina.

É assim que Qasim, homem das montanhas há muito emigrado nas planícies (e existe uma enorme diferença entre aqueles que habitam na montanha e aqueles que são das planícies) adopta uma órfã de 5 anos que encontra perdida após os seus pais terem sido mortos por guerrilheiros.

Inicia-se aí um périplo onde as tradições e mentalidades demonstram que a condição da mulher nesses países é inferior ao de qualquer animal, onde a mesma é negociada e trocada por vacas, ovelhas e dívidas monetárias, onde a honra masculina se lava apenas com sangue, independentemente do grau familiar, homem que toque em mulher alheia… já era.

Num espaço árido e perdido no tempo, no meio de nenhures, sentimos o quanto o ocidente se afastou daquelas mentalidades, o quanto estranho é para nós aquelas tradições que pouco evoluíram desde o paleolítico e é precisamente isso que nos choca, que nos faz pensar que por muitos vícios que o ocidente tenha, sempre é melhor viver no ocidente do que num país ou comunidade onde a humanidade não existe.

A escrita de Sidhawa está carregada de simbolismo numa clara tentativa de gritar ao mundo aqueles estranhos e desconhecidos costumes que escravizam todas as mulheres e as sujeitam aos caprichos dos maridos, sem qualquer apelo nem misericórdia.

domingo, 24 de junho de 2007

Equador - Miguel Sousa Tavares



"Equador" marca a estreia no campo do romance do conhecido jornalista Miguel Sousa Tavares, autor de mais alguns livros de sucesso, mas todos de contos ou crónicas.

Assim, neste seu primeiro romance, por sinal, um romance histórico que obriga sempre o autor a um estudo profundo e exaustivo da época e do meio que aborda (neste caso é muito bem conseguido), Tavares situa-nos em 1905 numa sociedade portuguesa que vive, sem o saber, os últimos dias da monarquia e é dominada por um viver mundano e de aparências, onde a pequena e alta burguesia não faz outra coisa que pavonear-se e falar da vida alheia. um pouco ao estilo do "nosso" Eça.

Tendo este contexto como pano de fundo, surge-nos a personagem principal, o jovem Bernardo Valença, que tendo herdado do seu pai uma quota maioritária num negócio de navegação, vive tranquila e confortavelmente, passeando o seu charme pelos clubes, soirés de S.Carlos e reuniões de amigos onde se discute um pouco de tudo, principalmente política. E é nesta inacção camuflada que o jovem Valença escreve uns artigos de opinião sobre a escravatura que fazem furor no meio intelectual de Lisboa e é precisamente devido a esses artigos que o mesmo recebe um convite do próprio rei D.Carlos para que se desloque a Vila Viçosa, onde e depois de um faustoso almoço, o rei convida-o para ser governador de uma pequena ilha desterrada no fim do mundo, disputada por outras potências marítimas e bastante rica em cacau: S. Tomé e Príncipe.

Da história não vou revelar mais nada porque aí o interesse poderia diminuir, mas posso adiantar que ainda mete amores, interesses sujos, jogos estratégicos, um cônsul inglês e a sua jovem e bela mulher, a cena de sexo mais sensual que alguma vez li (entre outras bem quentes...), enfim, um romance na verdadeira acepção da palavra.

Quanto ao texto literário: Li algures alguém que afirmava que "Equador" estava no mesmo patamar que os "Maias" de Eça. Claro que é um exagero e um pouco herege, mas sem dúvida que faz lembrar um pouco o notável romance de Eça. Vasco Graça Moura diz na edição que possuo "há vinte anos ou mais que eu não devorava um romance português como aconteceu com Equador" e eu afirmo: "tirando o Memorial do Convento, desde o falecimento de Eça que ninguém escrevia uma estória tão cativante como o fez Miguel Sousa Tavares". Exagero? Um pouco, mas a beleza da obra não está propriamente na sua escrita, embora fluída, é simples, eficaz e reflexo da profissão do autor.

A beleza do romance está no ritmo alucinante que imprime, está nas personagens muito bem conseguidas e inesquecíveis, está na forma como trata a mulher (linda de morrer! E expressa a profunda admiração que Tavares tem pelo sexo feminino), da sensualidade e da magia que nos consegue descrever e fazer sentir, dos odores, das sensações.

Um livro admirável, profundamente comovente e de um humanismo que nos deixa estarrecidos num paraíso terrestre.

Sem dúvida um dos melhores livros que li até hoje e, sem ferir suceptibilidades, um dos melhores da literatura portuguesa. Obrigatório mesmo para quem lê 1 livro por ano.
Um romance que devorei em dois dias (relendo muitas partes) e que no fim, me deixou uma sensação de vazio e muitas saudades.

Novos Mistérios de Sintra (Os) - Vários

Um dos factos que marcou, em certa medida, o ano de 2005 no panorama literário português, foi o lançamento de uma obra assinada por sete ilustres escritores(as) da nossa praça que, um pouco à semelhança do feito por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão com o seu “Mistério da Estrada de Sintra”, tentavam ou tinham a pretensão de escrever uma história entre eles.

A premissa era simples: juntar um grupo de escritores (José Fanha, José Jorge Letria, João Aguiar, Luísa Beltrão, Mário Zambujal, Rosa Lobato Faria) que se disponibilizassem a colaborar em grupo no sentido de escreverem os novos mistérios de Sintra, sendo que e numa primeira fase existiu uma reunião para se estabelecer que género de história ou mistério se iria criar, depois, cada um escreveria um capítulo, outro continuaria e assim sucessivamente.

Interessante, no mínimo!

A história é, acima de tudo, sobre Sintra e o Palácio da Vila.Sendo uma história de mistério, ou seja, onde começa por acontecer algo de misterioso no palácio, começa por ser engendrado todo um trama rico em pormenores históricos e outros de cariz policial. Obviamente que nos apercebemos de vários estilos de escrita, pois essa acaba também por ser um dos objectivos da obra.

No entanto este é um livro que me decepcionou imenso.

Primeiro porque a coerência da história e a consistência da mesma tem imensas falhas, gralhas gritantes e personagens cujas personalidades vão sendo alteradas capítulo a capítulo e, quando se olha para os nomes dos escritores, não se percebe do porquê dessas incoerências (nem nada justifica), mesmo de falta de qualidade, saltando também à vista que eles não fizeram “pontos de situação” ao longo da obra.

Outro factor que não gostei foi o de, capítulo para capítulo, novos e mais enigmáticos pormenores vão surgindo, dando a clara sensação que um escritor queria deixar a sua marca com mais um condimento. Assim e às tantas, percebe-se a imensa dificuldade em começar a explicar factos e, para borrar ainda mais, muitos desses factos são estupidamente explicados, outros são socorridos de uma forma, digamos, sui-generis, outros ainda nem explicados são. E no final, parece que eles não se entenderam com o fim e resolveram escrever quatro finais, cada um mais ridículo que o outro, um grande disparate.

Penso que este tipo de exercício se torna engraçado e até seria bastante útil esta “troca” de escrita entre escritores, mas meus amigos, tem que haver alguma consistência nas intrigas criadas, tem de haver algum trabalho de revisão por parte de todos eles, e não de qualquer maneira, dando a sensação que o que interessava era publicar o livro, que a simples menção do nome destes escritores seria o bastante para vender e ser um sucesso. Não é, e penso mesmo que este é um projecto falhado e por culpa dos escritores e do editor.