domingo, 30 de setembro de 2007

Vida de Pi (A) - Yann Martel

Em Julho de 1977 um navio de carga japonês chamado Tsimtsum afundou-se em pleno Oceano Pacífico sem que, até hoje, se conheça as razões para tal naufrágio. Nesse navio, uma tripulação de vários homens, uma família de 4 pessoas e dezenas de animais selvagens perderam a vida sem que alguma vez qualquer corpo, ou parte ele, aparecesse. No entanto, houve alguém que sobreviveu para contar uma história tão surrealista que é difícil perceber onde acaba a realidade e começa a ficção, esta é a sua história.
Piscine Molitor Patel é um miúdo indiano que vive com os seus pais e irmão numa aldeia indiana chamada Pondicherry. O seu pai é director e dono do Jardim Zoológico local e isso dá azo a considerações muito interessantes de Patel sobre vários animais e, achei especialmente interessante a tese dele sobre o facto de os animais serem mais felizes a viver em cativeiro do que aqueles que vivem em estado selvagem. Não só tece as considerações, como dá exemplos históricos para provar a sua tese. E estas considerações não só são muito interessantes e didácticas, como também são muito importantes para o desenrolar da história, pois é através delas que percebemos o comportamento de certos animais.

Patel é um miúdo de 16 anos iguais a tantos outros. Adora a sua vida e adora igualmente o jardim e os animais que nele habitam. No entanto Patel tem um pequeno problema: não acha piada ao seu nome. Esse estranho nome foi-lhe dado em honra da Piscine Molitor, piscina que fazia a glória aquática de Paris por alturas dos Jogos Olímpicos de 1924. Imaginem alguém com nome de piscina. E vai daí, o seu nome era alvo de constante gozo por parte dos colegas e mesmo os diminutivos não ajudavam muito à festa... Pissinha Patel era um deles... imaginem o diálogo: "Ó Pissinha, está a mijar pra parede?". Até que um dia ele se lembrou e escreveu no quadro da escola "O meu nome é Piscine Molitor Patel, conhecido por todos como Pi Patel. Pi=3,14". Nasceu Pi Patel, também chamado O 3,14 Patel, aquele que se escondia debaixo de um telhado assente em dois postes. Curioso!

Patel é muito curioso e tal curiosidade leva-o a adoptar três religiões completamente distintas: Cristã. Hindu e Islâmica. Aqui Patel tece considerações muito curiosas e pertinentes sobre as três religiões, compara-as, professa-as e chega à conclusão que o étimo das três é o mesmo, existindo apenas um só Deus comum a todas elas.

Posteriormente e devido a problemas políticos, a família resolve emigrar para o Canadá. Vendem grande parte dos animais e resolvem levar os restantes consigo a fim de os vender nos Estados Unidos.

No dia 21 de Junho embarcam, a 2 de Julho, o navio naufraga.

A partir desse fatídico dia inicia-se a segunda parte do livro e aquela onde os acontecimentos são mais marcantes, onde o sentido do livro vem ao de cimo.

Sem saber muito bem como, vê-se num bote salva-vidas com uma zebra ferida, uma orangotango fêmea, uma hiena malhada e um poderoso tigre de Bengala. Surrealista são os acontecimentos que sucedem. Durante 227 dias, os mecanismos da cadeia alimentar sobressaem de uma forma natural e cruel. Quase a raiar a loucura, Pi Patel narra uma aventura onde a convivência entre as espécies é estranha, onde por vezes somos assaltados pela dúvida da veracidade do relato, pois os acontecimentos são tão surreais, violentos e fantásticos que, não só é difícil acreditar como também é impossível imaginarmos tal horror.

Mas Patel explana uma espantosa história de coragem e de resistência perante circunstância extraordinárias e tragicamente difíceis, uma verdadeira odisseia hipnotizadora onde, quase como um impacto, uma questão primordial se levanta: Existe Deus? Se existe, de certo protegeu e acompanhou Pi Patel.

Yann Martel, escritor espanhol residente no Canadá, descobriu esta história um pouco por acaso. Desde logo contactou Piscine e após algumas conversações, acabou por convencer Patel a contar a sua aventura. Em formato de diário, dividido em 100 capítulos, Martel constrói um livro fabuloso, de um humanismo tão profundo quanto animalesco.

Um humanismo tão profundo quanto animalesco...

Esta expressão é devido à fase final do livro. É que esse final é simplesmente desconcertante. Nesse final ficamos com uma séria dúvida, a mim pareceu-me que a história de Patel é real mas, o relato dos acontecimentos, ou pelo menos a forma como ele os conta, não passam de uma metáfora de acontecimentos ainda mais horríveis, trágicos e cruéis do que os narrados por Patel. Fiquei na dúvida e duvido que alguma vez as esclareça. Desconcertante!

Acreditem, este é um livro portentoso, uma obra prima que aconselho a todos aqueles que apreciem uma boa história e que apreciem também a possibilidade de pensar com o livro. Ele é didáctico, construtivo, verídico e faz-nos pensar da primeira à última página.

Terapia - David Lodge

David Lodge, escritor inglês, é hoje em dia um autor consagrado em todo o mundo. Com mais de uma dezena de livros escritos, cria em "Terapia" uma história que tem tanto de original, filosófico, prático, satírico como de hilariante.
Por muitos considerado como o seu melhor título, em "Terapia" temos um escritor de guiões que, depois de vários falhanços como actor, acaba, um pouco por acaso, por entrar no mundo da televisão ao escrever um guião para uma sitcom chamada "Os vizinhos do lado". Baseada na sua própria família e na da sua mulher, depressa esta série alcança um enorme sucesso nacional, levando-o a juntar uma considerável fortuna que lhe permite viver à vontade e à grande. Quando começamos o livro, já ele, de seu nome Laurence Passmore, conhecido no meio televisivo por "bolinha" Passmore, está bem na vida e as suas preocupações/obsessões andam a afligi-lo de uma forma impiedosa levando-o à depressão. E são essas preocupações/obsessões que vamos acompanhando em jeito de diário escrito por ele próprio.
Quase com 60 anos, "bolinha" Passmore tem uma vida estável: tem dinheiro, um grande carro a que ele chama de "ricomóvel", casado com uma mulher ainda vistosa e que não recusa nada na cama, dois filhos já criados e com as suas vidas independentes, "bolinha" tem aparentemente uma vida doirada. No entanto muitas e variadas pancadas afectam-lhe a vida. Sente-se infeliz, tem problemas com um joelho, já tem uma careca vistosa, é gorducho e, para ajudar à festa, tem problema do foro sexual. Que fazer? Primeiro de tudo, arranja forma de se meter em variadas terapias (fisioterapia, aromaterapia, acupunctura, psicoterapia, e outras mais), no entanto, qualquer uma delas é incapaz de lhe resolver o problema e a depressão e infelicidade aumentam de dia para dia.
É então que uma outra pancada chega à sua vida. Toma contacto com a obra de Kierkegaard, e aí a sua vida ou pelo menos a sua visão dela, toma um aspecto ainda mais angustiante, que leva a que alguns dos seus conhecidos tenham algumas considerações sobre si verdadeiramente hilariantes. Mas esta nova paixão tem também o condão de lhe fazer ver a vida sob outra perspectiva e esta é uma das verdadeiras terapias do livro. De salientar que Lodge aborda de uma forma coerente e até algo profunda a filosofia de Kierkegaard, tecendo considerações sobre a sua vida e as suas obras, descrevendo mesmo a actual casa-museu do filósofo situada em Copenhague.
Mas não acaba aqui as aventuras de "bolinha", mete-se com uma colega com a qual tem uma paixão platónica (sem sexo), um vagabundo que vai a sua casa ver futebol, uma americana que o quer levar para a cama, com uma colega que ele quer levar para a cama, uma mulher que namorou na adolescência e que de repente resolve procurar, etc, etc, etc.
Um livro onde David Lodge, através de um humor corrosivo, aflora de uma forma constantemente satírica a vida de um homem que, de repente, se apercebe que está a entrar na velhice. De uma sociedade e das relações humanas onde o sexo assume um papel catalisador nessas relações, visto e sentido como um escape para "tapar" certos "buracos" que a vida acaba por fazer.
Longe de ser uma obra prima, este romance lê-se muito bem dada a ligeireza do tema, da sua fluidez linguística e da forma muito real e palpável como os assuntos são abordados. Extremamente hilariante, dada a forma ora séria ora despreocupada como o personagem vê as "coisas", este é um livro que se lê de um fôlego (li-o em três dias) sem grandes necessidades de pararmos para pensar.
Um livro divertido, que nos faz soltar grandes gargalhadas devido à forma tão "british" como o personagem aborda as questões da sua vida e as própria sociedade.
Para finalizar, queria aqui deixar esta passagem numa altura em que "bolinha" Passmore, no apogeu do seu Síndroma da Disfunção do Joelho, vai realizar a partida semanal de ténis com três amigos seus, também nada famosos fisicamente: "jogo com outros três inválidos de meia idade: o Joe, que tem problemas graves na coluna, anda sempre com um colete e mal consegue servir; o Rupert, que teve um grande acidente de carro há uns anos e coxeia de ambas as pernas, se é que é possível, e o Humphrey, que tem artrite nos pés e uma articulação da anca de plástico. Exploramos as dificuldades uns dos outros de forma impiedosa. Por exemplo, se o Joe lança a bola para mim junto à rede, atiro-a alto, porque seu que ele não consegue levantar a raqueta acima da cabeça e, se eu estou a defender junto à linha de fundo, ele troca constantemente a direcção da bola de um lado para o outro, porque sabe que não consigo deslocar-me rapidamente por causa da liga (no joelho). Ver-nos jogar é de chorar, quer por pena, quer a rir."

Madame Bovary - Gustave Flaubert

Romance polémico, considerado a grande obra prima de Flaubert, Madame Bovary é uma espécie de radiografia de uma sociedade (francesa) que sofre de uma profunda crise moral. A forma como Flaubert escreve todo o trama, não só tocou num fenómeno (não digo qual para não desvendar o fim) que muita agitação criou naquela altura, dando azo inclusivamente a estudo sociológicos, como também deu origem a um processo movido contra Flaubert pelo Ministério Público por ofensa à moral pública e religiosa, embora esse processo fosse devido ao livro e aos vários temas abordados.

Ema é a personagem central do romance. Filha de um abastado camponês, sente-se infeliz e só na companhia do seu pai com quem ainda vive. Essa solidão é atenuada com leituras compulsivas de romances românticos que faz nascer, na sua imaginação, todo um mundo, um ideal romântico que simplesmente não existe. A literatura torna-se assim um refúgio, através da qual a personagem procura fugir da mediocridade da sua vida.

Charles Bovary, personagem que acompanhamos desde a infância, é um homem medíocre, fraco mas de boa índole, que acaba por tirar o curso de medicina e, já viúvo de um casamento arranjado com uma mulher mais velha, acaba por desposar Ema, que vê nele a sua oportunidade de mudar de vida, de ter acesso à alta sociedade.

Antes do casamento, Ema acredita que ama verdadeiramente Charles. Vê nele aquele ideal de homem que havia conhecido nos vários romances que leu. No entanto à medida que o tempo passa, alguma coisa a faz afastar-se dele, alguma coisa a faz sentir repulsa pelo marido. Para Ema, aquela não era a vida que ela havia desejado. No entanto acaba por engravidar e mesmo depois do nascimento da criança a rotina acaba por se instalar, sempre a rotina, tudo é fastidioso, ela sente-se presa, atrofiada, muito infeliz.

É devido a essa infelicidade e por acreditar na felicidade e no ideal dos romances construído na sua mente que Ema acaba por se envolver com um nobre que vive nos arredores da aldeia. Um aventureiro que vê em Ema apenas mais uma conquista, algo para usar e deitar fora. De notar que Ema vive realmente a ilusão de uma paixão desenfreada, ela acredita que esse ideal criado na sua imaginação é real e que ela é a encarnação dessas heroinas romanticas.

Madame Bovary é uma obra tida como realista e que pretende caracterizar a sociedade francesa tocando num assunto ainda hoje tabu: o adultério. A obra, embora tenha criado um grande celeuma na altura, decepcionou-me bastante. É algo enfadonha, as situações chegam-se a arrastar de um modo cansativo, apenas ganhando interesse devido à forma irónica como Flaubert descreve todas as acções dos personagens. Contudo achei interessante a forma como Flaubert caracteriza os vários tipos sociais: o homem conformista, a nobreza decadente, a pequena burguesia que almeja a ser grande, os grandes burgueses e a ostentação da sua riqueza e até a falta de moral religiosa que, parece-me, estava em voga naquela altura. Todas estas personagens compõem o cenário da vida medíocre e cheia de intrigas e hipocrisias.

Estava realmente à espera de muito mais e melhor dada a fama que precede a obra. Muitíssimo bem escrito, com uma construção narrativa muito cuidada, o livro torna-se monótono e muito honestamente se não fosse a ânsia de saber qual o destino de Ema e dos personagens, provavelmente não o leria até ao fim, no entanto, o fim revela-se uma surpresa. Embora já estivesse à espera de algo semelhante, dada a sua previsibilidade, pois a o caminho que Flaubert constrói torna-se num caminho tortuoso e sem regresso, mas a forma fria e crua como Flaubert descreve os acontecimentos, criaram em mim um sentimento de angústia e tristeza. Fiquei verdadeiramente triste com o fim.

Por último não compreendo o porquê do alvoroço que esta obra criou. As descrições não são nada de especial, aliás, bem vistas as coisas nem existem descrições dos encontros sexuais de Ema. A forma como ela se comporta é realmente leviana, demonstrado também total desrespeito pela sua família e até por ela própria. Flaubert também tece algumas considerações nada abonatória contra a igreja e mesmo a forma leviana como ele aborda o grande fenómeno social da época é também chocante. No entanto seria isto motivo para essa grande algazarra que levou o Ministério Público a processá-lo por ofensa á moral pública e religiosa?

Nação Crioula - José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa, autor angolano mas com fortes raízes culturais lusas, é, hoje em dia, um nome sonante no meio literário português e, talvez. o mais sonante do universo angolano.
Desconhecendo por completo a sua escrita, este foi o primeiro e, até agora o único livro que li deste autor e as ilações são muito positivas.
Poucas páginas depois de ter começado, já não conseguia desgrudar do livro, tal a forma fluída, simples e atraente da sua escrita. Honestamente, Agualusa foi dos poucos escritores que me conseguiram prender logo nas primeiras páginas do primeiro livro, apenas com o grande Eça isso havia acontecido e nem Saramago me havia entusiasmado dessa maneira. Mas Agualusa tem efectivamente “aquele” dom de contar histórias, “aquele” dom mágico de prender o leitor à sua narrativa, fazendo com que o leitor se sinta parte integrante da narrativa, parceiro dos personagens.
É o próprio autor que afirma que a grande fonte de inspiração, aquele que o levou a ser escritor, foi o mestre Eça de Queiróz. Conhecedor e fanático da obra de Eça, nota-se em Agualusa o estilo e até mesmo uma certa ironia que efectivamente faz lembrar Eça, no entanto seria injusto afirmar que o estilo é o mesmo. Não, Agualusa cria um estilo, uma forma de narrar diferente, tornando-o, na minha opinião, um dos grandes escritores lusófonos da actualidade e, de certeza, de um dos grandes escritores do futuro a nível mundial.
Nesta obra, Agualusa inspira-se nas cartas de Fradique Mendes, personagem criada por Eça de Queiróz, para recriari a sociedade colonial em Angola no século XIX.
Fradique é um escritor português que chega a Luanda em 1868. O tema de fundo é a escravatura que embora tenha sido oficialmente abolida em 1836, na realidade é um negócio rentável, pois os negros continuam a ser enviados para o Brasil.
Todo o livro é composto por cartas que Fradique vai enviando à sua madrinha, narrando a sua vida em Luanda e tudo o que vai observando. Entretanto acaba por se apaixonar por uma ex-escrava, na altura uma mulher livre, mas que acaba por ser ver novamente na escravatura. Curioso verificar que o melhor amigo de Fradique dá pelo nome de Eça de Queiróz, e também para ele Fradique Mendes escreve cartas.
Um excelente livro onde Agualusa descreve a sociedade hipócrita da altura. Uma sociedade onde a mentira e os compadrios reinavam, cheia de falsas imagens sociais e de gente que se vendia por qualquer preço.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Três Mosqueteiros (Os) - Alexandre Dumas

Escrito em 1844, os “Três Mosqueteiros” nasceram aquando da descoberta por Alexandre Dumas de um manuscrito intitulado As memórias do sr. D’Artagnan”. Nessas memórias, d’Artagann refere que na primeira visita ao sr. de Tréville, capitão dos mosqueteiros, encontrou três moços que se chamavam Athos, Porthos e Aramis, nomes que Dumas julga tratar-se de pseudónimos que disfarçam nomes ilustres.
Posteriormente e perseguindo a sua investigação, Dumas acaba por descobrir um outro manuscrito intitulado ”Memórias do conde de La Fère, respeitante a alguns acontecimentos que se passaram em França em fins do reinado de Luís XIII e princípios do de Luís XIV”. Manuscrito este que e pelo que Dumas diz, relata os acontecimentos descritos no livro “Os três mosqueteiros” e um outro que me parece ser “20 anos depois”, também da autoria de Alexandre Dumas.
Esta informação, que desconhecia, vem no prefácio da edição que possuo.
Verdade? Ficção? Não o sei dizer!
Certo é que li esta obra quando tinha 12, 13 anos e que, até hoje, ficou guardado num lugar muito especial do meu imaginário. Uma obra de referência no panorama da literatura que, e depois de a ter relido, ainda aconselho a uma certa faixa etária e a pessoas que lêem pouco e apenas pretendem distrair-se um pouco.
Quero com isto dizer que fiquei muito desiludido com esta minha 2ª leitura.
Está muito longe de ser um bom livro. A narração, presumo que de Dumas, tem muitas falhas e os acontecimentos que se vão sucedendo, têm mais buracos que as ruas de Lisboa. A acção tem realmente factos históricos verídicos (lembro-me, por exemplo, do cerco de Arrochela), personagens que existiram (Luís XIII, Ana de Áustria, Richelieu), mas a forma como os acontecimentos se vão sucedendo, são extremamente rápidos, com pouco sentido e contém pouco rigor narrativo.
Se não concorda, atente a alguns factos:
D’Artagnan, jovem fidalgo gascão, vem para Paris com aspirações a ser mosqueteiro. É possuidor de uma carta de seu pai para o sr. de Tréville. Até chegar à presença do capitão, passa por alguns contratempos, perde a carta que Dumas nunca mais refere, e sobretudo assiste a uma impensável e violenta repreensão do sr. de Tréville a 3 mosqueteiros... e o sr. de Tréville nem sabia quem era d’Artagnan. 2, 3 páginas depois já d’Artagnan é grande compincha desses mosqueteiros e meia dúzia de páginas adiante já esses mosqueteiros seguem quase religiosamente d’Artagnan, e o jovem gascão apenas consegue ser colocado no corpo da guarda. Depois temos o papel de Richelieu que, à noite joga partidas amigáveis com o Rei e de dia conspira contra tudo e contra todos, não olhando a meios para atingir os seus fins. Existe de facto um fundo de verdade, mas o relato de Dumas é bastante desconexo assim como a ligação entre o cardeal e Milady e o papel desta é deveras incongruente, e confuso. Uma mulher que é tão bela que tem um poder hipnotizador sobre tudo e todos. Demonstra um ódio tão grande por tudo o que se mexe. Esse ódio não é muito compreensível porque também não é muito compreensível o percurso de Milady. Cheguei a parar para meditar no que lia, pois a ânsia que demonstra em fazer mal é tão grande que e por diversas vezes, me pareceu que várias etapas do texto ou foram omitidas ou nem sequer foram escritas. Lembro-me de uma “cena” quase no fim do livro onde ela é presa. O homem que a prende coloca um tenente a vigiá-la e, para que esse tenente não caia nos terríveis jogos de Milady, adverte-o para que não vá em cantigas, que não acredite numa palavra que ela disser, no entanto, esse tenente que tudo devia a esse homem, inclusive a sua vida, acaba por ser facilmente dominado por Milady em apenas 3, 4 dias, a ponto de a ajudar a fugir e de ele próprio cometer um terrível homicídio. E o engraçado é que ela nem usa grandes argumentos.
Mesmo a forma como o romance acaba é algo de impensável, uma completa contradição. Depois do que acabámos de ler, depois de os mosqueteiros terem passado o livro todo a lutar contra os homens do cardeal, com esse mesmo cardeal a demonstrar uma raiva mortal principalmente a d’Artagnan, é precisamente Richelieu que premeia o jovem gascão... certo que o cardeal sempre demonstrou uma certa admiração por d’Artagnan, mas é estranho!
A história em si é simples:
Situada em 1630 (+/-), 3 mosqueteiros e um jovem guarda, aliam-se á rainha contra o cardeal. D’Artagnan parte para Inglaterra para recuperar uma jóia que a rainha havia oferecido ao duque de Buckingham como prova do seu amor. O cardeal, sabendo disso, manipula do rei no sentido de ele realizar um baile em que a rainha terá que apresentar essa jóia. Mesmo com homens do cardeal atrás dos mosqueteiros, d’Artagnan consegue chegar a Inglaterra e trazer de volta essa jóia que a rainha, para grande raiva do cardeal, usa com visível satisfação. De notar que no caminho para Inglaterra, Athos, Porthos e Aramis vão ficando para trás sem nós sabermos se morreram ou não. Dumas pouco se importa em explicar, só depois de d’Artagnan chegar é que o sr. de Tréville se lembra dos mosqueteiros e lá parte o jovem guarda em busca dos amigos.
Posto isto, os 3 mosqueteiros entretêm-se com as suas conquistas e chulices amorosas (era uso e costume nessa época as amantes sustentarem os seus amados militares e eles até tinham brio em o fazer). São então convocados para o tal cerco de Arrochela e é daí que partem para a última aventura.
Eu assumo-me como um leitor muito exigente e um crítico feroz. Como cada qual, também eu tenho as minhas preferências e o que pode ser bom para mim, pode ser muito mau para outras pessoas e vice-versa. Esta obra desiludiu-me porque, sem ser pelas razões já apontadas, nota-se que Dumas se limitou a pegar nos textos já existentes, não lhe acrescentando mais valia nenhuma, nem sequer teve capacidade para criar um enredo mais elaborado, cuidado ou artístico. Repare-se que não é por acaso que Dumas foi talvez o único escritor que fez da arte de escrever um negócio de produção em série, empregando vários funcionários para escreverem histórias.
Assim “Os três mosqueteiros” é, na minha opinião, um típico romance de aventuras que aconselho a jovens que se iniciam neste mágico mundo da literatura ou a pessoas que pouco lêem e que apenas pretendem relaxar e divertir-se um pouco.
Para quem procura Qualidade, para quem deseje ler, absorver, pensar, analisar e estudar uma obra literária, este não é certamente um romance que aconselho.
Obviamente que continuará a fazer parte do meu imaginário, embora já tenha mudado de lugar. E eu que estava a pensar em reler o “Conde de Monte Cristo”, obra que tenho como uma das melhores que li até hoje, depois de reler os “três mosqueteiros”, prefiro deixá-la onde está e continuar a pensar no “Conde de Monte Cristo” como uma Grande Obra.

Sangue de Cristo e o Santo Graal - Michael Baigent , Richard Leigh , Henry Lincoln

Até à pouco tempo atrás, pensava que o Santo Graal se tratava de uma taça em madeira onde supostamente Jesus Cristo havia bebido na última ceia que efectuou com os seus apóstolos. Assim e julgando ser mais um mito do que propriamente um dado histórico, nunca dei muita importância a esse facto, sem ser quando lia algo sobre a idade média e a constante e quase obcecante busca pelo Graal.
Após ler o famosíssimo “Codigo Da Vincai” fiquei deveras surpreendido com as revelações que o autor fazia. Servindo-se duma história policial, Dan Brown começava por fazer referências a quadros de Leonardo Da Vincai, da simbologia contida nas obras, para acabar por nos conduzir a todo um mistério mais intricado que punha em causa a própria igreja católica e toda a filosofia/crença que esta defende. Nesse mesmo livro, o autor acabava por dar referência de uns 3 livros que, segundo ele, estariam na génese de todo o trama do livro.
Independentemente de ter gostado ou não do livro, o certo é que esse assunto sobressaiu na minha mente. A minha curiosidade ficou espicaçada e decidi que tinha que saber mais sobre o assunto, queria saber se realmente Leonardo Da Vincai sabia “demais” e se tinha deixado mesmo aquelas mensagens nos seus quadros. Queria saber o que seriam aquelas organizações que Brown refere, se o Santo Graal era, ou não, o que ele sugeria e, mais importante, queria saber até onde poderia ter ido a hipocrisia da igreja católica.
Efectuei então uma busca por bibliografia sobre os temas abordados, busca essa que me levou a um texto bastante curioso “Protocolos dos Sábios de Sião” e um outro livro ”Segredo dos Templários”, que me parecia ser um complemento daquele que, desde logo, me pareceu ser o mais completo, aquele que Brown foca e, neste momento, não tenho dúvida em afirmar que foi neste que Brown se inspirou para escrever o seu policial.
”O Sangue de Cristo e o Santo Graal” é um livro que segundo os autores (Michael Baigent, Henry Lincoln, Richard Leigh) surgiu um pouco por acaso. Tudo começou em 1969 quando um dos autores comprou um pequeno livro de bolso, onde factos históricos, mistérios e conjecturas se misturavam entre si. Nesse texto, intitulado “O tesouro maldito”, fazia-se referência a um tesouro, encontrado por acaso em 1890 por um padre em Rennes-le-Château. E é através deste facto, ao princípio um facto curioso, que o autor começa uma pequena investigação que, pouco depois e devido a algumas descobertas interessantes, o obrigam a iniciar uma investigação mais séria. Tudo isto em 1970.
E é num simples livro de bolso que foi parar às mãos de um especialista em História, que se inicia uma investigação que irá demorar mais de 10 anos!
Uma investigação que teve direitos a primeiras páginas e a reacções tempestuosas das mais variadas personagens políticas e religiosas, que fizeram de tudo para tentar desacreditar as conclusões dos autores.
E se esta foi uma investigação histórica e científica, porquê todas essas reacções contra o livro? Seria o livro um perigo para a sociedade? Teria ele revelações que colocariam em causa todo um sistema político ou social? Desmascaria certas convenções? Certamente! As teorias deste livro, teorias essas assentes em provas fundamentadas, são simplesmente demolidoras para a igreja católica.
Em 1885, em Renens-le-Château, o padre dessa aldeia, Bérenger Saunière, aquando das obras na sua pequena e pobre igreja, fez uma descoberta de algo que se encontrava enterrado naquela igreja. Este facto é indesmentível, pois nessa altura ele pede para ser recebido no Vaticano e após o seu regresso, a sua vida muda por completo, começando então a levar uma vida de opulência que os fracos rendimentos de um simples padre eram impossíveis de sustentar. Reconstruiu a sua igreja, mandou fazer um palacete que nunca chegou a habitar (Vila Bethânia) e inclusivamente mandou construir uma torre dando-lhe o nome de Torre Magdala. Sabe-se também do poder que demonstrava possuir sobre o Bispo da localidade e do medo e respeito que o Vaticano demonstrava ter por ele. Saunière veio a falecer em 1917, altura em que os seus gastos atingiram o equivalente a vários milhões de libras. De onde veio essa inexplicável riqueza? Que tesouro é que ele descobriu a ponto de o próprio Vaticano lhe prestar vassalagem?
É assim que com este, aparente, pequeno mistério, os investigadores iniciam os seus estudos e, partindo de Rennes-le-Château, lar ancestral de Bertrand de Blanchefort, quarto grão-mestre dos Templários, os autores iniciam uma viagem tão espantosa quanto polémica. De início não tinham nada em mente, apenas um novelo que tinham curiosidade de desenrolar, estando eles muito longe de imaginarem o que aquilo ia dar.
Não pretendo aqui dissertar sobre os mistérios abordados no livro. Iria levar muito tempo e retiraria o interesse do livro, mas toda esta investigação leva-nos a conhecer de perto os Templários e o porquê da sua formação. As lutas e altos interesses políticos subjacentes à ordem. O Priorado de Sião, cuja acção foi, demonstradamente essencial, continuando ainda hoje a existir. O profundo mistério do Santo Graal. O que realmente foi (é) o Santo Graal? Será que os Templários ou o Priorado de Sião possuíram alguma vez esse Santo Graal? Qual o papel dos Cátaros e quem foram eles? O lendário Templo de Jerusalém, onde supostamente o Santo Graal esteve escondido e onde os Templários tiveram a sua primeira sede, vindo do templo o nome da Ordem. Que dinastia é essa dos Merovíngios que o Priorado de Sião continua a idolatrar? Que papel foi o de Jesus Cristo ou o porquê da suposta crucificação quando ele, comprovadamente, descendia de uma linhagem real? Qual o papel de Maria Madalena? Muitos desconhecem que também ela era de linhagem real. Teria sido Jesus Cristo casado com Maria Madalena? Teriam tido descendência?
Foi no concílio de Niceia, em 325 d.C., que foi decidido que Jesus era um deus e não um profeta mortal, foi aí estabelecida a data da páscoa e sabe-se que é por essas alturas que a Bíblia é composta através de alguns evangelhos cuidadosamente seleccionados, sendo os outros textos que falavam de Cristo, abolidos e, nalguns casos destruídos. É então nessa altura que Jesus assume o estatuto que hoje goza, todos esses textos foram desde então alvos de sucessivas correcções e omissões, sendo actualmente um produto de editores e escritores do século IV. E os envagelhos apócrifos , descobertos aqui e ali, que descrevem situações completamente opostas às narradas na Bíblia?
Enfim, não quero aqui expressar a minha opinião pessoal sobre este fabuloso mistério, nem pretendo levantar muito o véu., apenas pretendo transmitir a enorme sensação que esta obra me proporcionou. Através de factos históricos, somos confrontados com toda uma teia muito intensa e extensa, que foi elaborada com um sentido muito simples e claro.
Um livro que deve ser lido (estudado) com um espírito aberto, pois põe em causa convicções e crenças que estão, há muito, enraizadas na nossa cultura, na nossa sociedade, na própria forma de ser e de pensar das sociedades ocidentais, pondo mesmo em causa a própria fé de cada um e mina por completo, as estruturas da religião católica.
Este livro não uma “teoria da conspiração”. É uma obra histórica, escrupulosamente estudada, documentada e pensada. Ao autores sabiam o que podiam estar a criar, fizeram-no em consciência, apenas pretendem dar a conhecer ao mundo o que descobriram, que a História que sempre nos contaram, se calhar, não foi bem assim.
Se quiser ir mais além do que Dan Brown descreve em “O Código Da Vincai”, aconselho a ler este livro.

Monte dos Vendavais (O) - Emily Brontë

Emily Bronté nasce em Howorth em 1818 vindo a morrer de tuberculos de uma forma prematura em 1848 com apenas 30 anos.

Nesse curto espaço de tempo legou ao mundo alguns poemas e um único romance: “O Monte dos Vendavais”, publicado por volta de 1846 e que teve o condão de revoltar e escandalizar os poucos que o leram.

No entanto “O Monte dos Vendavais”, “Wuthering Heights” no original, foi considerado no início do séc. XX como um clássico da literatura, sendo também adaptado ao cinema em diversas ocasiões.

Tudo começa em 1801 quando o chefe da família Earnshaw resolve efectuar uma viagem de negócios retornando, semanas depois, na companhia de uma criança orfã que resolve adoptar e a quem dá o nome de Heathcliff.

Depressa os seus dois filhos, Hindley e Catherine, se tomam de ciumes, porém e vendo que o pai votava cada vez mais carinho pelo orfão, Catherine resolve ir-se aproximando, enquanto Hindley empreende o caminho oposto, criando um ódio intenso que servirá de mote ao romance.

Objectivamente este romance é extremamente dramático, incómodo mesmo, faceà expressão de múltiplos sentimentos que Bronté consegue transmitir. Os ódios misturam-se com cenas de humilhação extrema, interligando-se estas com situações de um intenso amor platônico num mundo estranho, tempestuoso, diria mesmo roçando o universo shakesperiano expresso em “Otelo” ou “Romeu e Julieta”.

A ajudar o cenário criado pela autora que, diga-se, é precisamente aquele onde ela nasceu e cresceu, mas a escritora denota também um profundo conhecimento da realidade narrada o que torna, dessa forma, o livro algo assustador, com o quê de fantasmagórico.

É um livro trágico, insano em parte, pontuado por diversas situações de puro ódio, pura maldade, mas também assente num amor digo de uma Ofélia ou Julieta.

Um clássico de uma autora que conseguiu exprimir várias condições humanas, num estilo que caracteriza também a época vitoriana, evidenciado, contudo, ideais de liberdade e idependência no pensamento, algo que explica a forma como escandalizou os leitores da época.

Insaciável Homem-Aranha (O) - Pedro Juan Gutiérrez

Comparado por muitos a Henry Miller ou a Charles Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez tornou-se, com os aclamados “Trilogia Suja de Havana”, o “Rei de Havana” e Animal Tropical” um cronista da crua realidade cubana e também um autor de culto para muitos leitores que se revêm na forma apaixonada como ele descreve o quotidiano de um povo martirizado por 40 anos de ditadura.

Neste “O Insaciável Homem-Aranha”, um conjunto de contos onde Pedro Juan intrelaça ficção e realidade, surge-nos todo um contexto dominado pelo amor, sexo, ódio e frustações num país que prende e oprime o povo de uma forma desumana.

Tal como nas suas anteriores obras, Pedro Juan não faz qualquer tipo de concessão e todos os contos são pródigos em narrar a imensa pobreza a que o povo está votado, a imensa onda de oportunistas que o povo cubano se obriga a ser, numa mistura explosiva de sexo e alcool onde o dinheiro está, quase sempre, à frente de quaisquer sentimentos.

Por outro lado Pedro Juan emprega uma ironia e uma mordacidade que chega a ser mórbida (passe a expressão) no sentido de não mostrar qualquer tipo de pena e remorço por certas atitudes descritas e das quais ele se aproveita, chegando mesmo a demonstrar prazer. É de levar às lágrimas certas descrições dos seus dias, das idas às compras em Havana, das viagens nos autocorros hiper-lotados onde o mesmo se aproveita para se roçar nas roliças fêmeas cubanas...

Um escritor que admiro, não só pela coragem que demonstra, o que denota também um desprendimento e, se calhar, um grito de angústia ao mundo, mas também pela forma como consegue transmitir a situação desse país caribenho que muitos conhecem pelas excelentes praias e marisco, mas que estão longe de saber que tudo isso jamais é usufruido pelo povo cubano.

Fúria das Vinhas (A) - Francisco Moita Flores

Em 2004 Francisco Moita Flores escreveu para a RTP uma série televisiva denominada “A Ferreirinha” onde retratava a vida de Antónia Adelaide Ferreira (1811-1896), conhecida por Ferreirinha e responsável pela dinamização da produção do vinho do Porto catapultando-o definitivamente para o seio dos grandes vinhos internacionais.

Dessa série, da qual guardo grandes e gratas recordações tal a sua beleza, ficou a imagem de uma mulher de garra com uma visão estratégica enorme e um sentido de justiça e humanidade tão raro, uma verdadeira benemérita para o povo.

Neste livro “A Fúria das Vinhas”, Moita Flores propõe dois desafios: duas histórias distintas mas com vários denominadores comuns espelhados nas terras do Douro novecentista que lhes servem de cenário.

Segundo Moita Flores, este romance recupera factos e histórias que ele não incluiu na série “A Ferreirinha”, e isso é perfeitamente perceptível, para quem assistiu à série, nas descrições das paisagens e até nos diálogos. Porém Moita Flores consegue igualmente transmitir a imensa força e alma que tinha a D. Antónia e o que ela representava para as gentes do Douro, o quanto ela amava aquelas terras que estavam sempre acima de qualquer interesse pessoal, assim como e isso no livro é bem explorado, a imensa praga que foi a filoxera e o quanto trabalho deu a exterminá-la.

Por outro lado e interligada com a história da Ferreirinha e da guerra à filoxera, Moita Flores cria um cenário de vários assassinatos de jovens virgens, abrindo assim espaço para não só descorrer sobre as mentalidades ultra-religiosas, conservadoras e supersticiosas de um Portugal rural temente a Deus, como também abre igualmente espaço para narrar o início dos processos, ou se quisermos, da entrada em Portugal dos processos de investigação científica e criminal que, na altura, estavam em voga na Europa e que tanta tinta e palavras fazia correr.

Numa época onde os assassinatos descritos eram atribuidos a ataques de lobos ou a actos do demónio, o autor, cria uma simpática personagem que faz lembrar Sherlock Holmes (criada na época pos Conan Doyle) e que vai assim introduzir ou ser o percursos de métodos de investigação científicos assente na dedução, na observação e análise, algo que foi uma autêntica pedrada no charco, para além dos imensos obstáculos que teve de derrubar para ser levado a sério.

Isso é muito interessante e associado ao combate à filoxera tendo como base a alma de D. Antónia, transforma este livro numa pérola da nossa literatura e num hino de louvor à memória de D. Antónia Adelaide Ferreira que falecendo em 1896 manteve-se viva na memória das gentes e terras do Douro e naqueles que amam o empreendadorismo.

“O segredo da nossa casa foi termos posto a qualidade dos nossos vinhos acima de outro interesse, e o melhor vinho só pode sair de boas vinhas, e só são boas se forem cuidadas, trabalhadas com paixão. É por isso que quem trabalha para nós tem de ser bem tratado, respeitado e acarinhado.”

Há 130 anos D. Antónia tinha este discurso.

Há 130 anos tinha uma imagem da importância da qualidade e das pessoas enquanto bens mais valiosos de uma indústria.

130 anos depois a maioria das pessoas e, mais grave, dos empresários, nem sabe o que é qualidade e da sua imensa importância estratégica.

Um livro irrepreensível que aconselho a todos.

Filipa de Lencastre - Isabel Stilwell

Burford Castle, Maio de 1364, Philippa of Lencaster percorre os vastos corredores estranhando aquele silêncio. Gelada, vê a sua ama, Maud, passar apressada com algo nas mãos. Resolve segui-la sem saber o que irá encontrar.

É assim que se inicia este romance de Isabel Stilwell que visa a narração da vida de um das mais importantes e amadas rainhas de Portugal. Desde a infância até à sua morte em 1415, Stilwell consegue de facto desenhar um fresco muito interessante da vida de D. Filipa, porém existem falhas que embora possam ser desvalorizadas dada a imensidão do trabalho de investigação, quanto a mim devem ser mencionadas sem que estas diminuam o valor do livro, pois essas falhas não são propriamente de cariz Histórico.

Dividido em duas fases, e ambas assentes na apresentação de árvores geneológicas, a primeira fase dá-nos a conhecer a infância de Philippa of Lencaster, filha primogénita de John of Gaunt, neta do rei Edward III, prima direita do futuro rei Richard III (a sua vida foi retractada por Shakespeare com a pela Richard III) e irmã de outro rei, Henry IV (também retractada por Shakespeare na pela Henry IV e, curiosamente, uma das minhas peças preferidas).

Philippa pertencia assim, em linha directa, à casa real inglesa, crescendo numa corte opulenta do séc. XIV, rodeada de damas, cavaleiros e intrigas, pese embota John of Gaunt, que chefiava o exército inglês que o levava a andar em sucessivas campanhas, fizesse deslocar a família de castelo em castelo, tornando assim a vida dos seus filhos excitante face aos constantes cenários vividos.

Toda essa fase está descrita pela autora que, resta-me, acreditar na sua investigação, pois será importante na evolução do carácter de D. Filipa.

A segunda fase do romance, que é também a maior, começa com a ida de D. Philippa para Portugal onde a espera um casamento de conveniência com o rei D. João I.

A conveniência do casamento está muito bem explicada e historicamente está irrepreensível.

Assim D. Philippa casa com D. João I em 1387, iniciando-se uma nova vida agora denominada D. Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal e benfeitora do povo.

As descrições da Inglaterra e Portugal medieval são excelentes. Stilwell consegue de facto transmitir o ambiente da época nas cortes onde as intrigas abundavam.

Muito bem também a descrição da verdadeira e visível faceta de D. Filipa: o seu sentido empreendedor, voluntarioso e determinado. Não é por acaso qe são os seus filhos que iniciam o grande desenvolvimento do país ( a célebre Ínclita Geração). A educação que D. Filipa lhes porpocona, assim como dos contactos que ela estabelece, incentiva a famosa prole em busca de um rumo que mudaria a face da nação e até do mundo.

No livro isso está muito presente e a influência de D. Filipa, a vários níveis, é imensa. Eu acredito que assim foi, pois também é conhecida a imensa consideração que os seus filhos tinham por ela (D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Isabel, D. João e D. Fernando – todos eles extraordinários).

Excelente e valiosas as imagens, algumas delas pintadas na época, que compõem o livro, enriquecendo-o.

Mas o livri não tem só factos positivos.

A meu ver peca por situar a acção apenas nas cortes e o seio de D. Filipa.

Numa época extremamente violenta e recheada de acontecimentos vitais para o futuro da Europa, onde praticamente todas as cortes se guerreavam entre si (quando não era também no seu seio), Stilwell passa completamente ao lado desses conflitos, jamais deixando transparecer grandes climas conflituosos, parecendo sempre que tudo está na paz dos deuses. Repare-se, por exemplo, na célebre revolta dos camponeses que foi um acontecimento importantíssimo na Europa medieval, tem aqui uma breve abordagem e apenas porque a família Lencaster viu o seu castelo atacado, mas nunca Stilweel deixa perceber a importância dessa revolta nem dos terríveis acontecimentos que marcaram aquela época. Para não falar também na batalha de Aljubarrota, pouco antes do casamento de D. Filipa com D. João I, que levou inclusivamente à construção do Mosteiro da Batalha, construção essa que teve a “mão” de D. Filipa.

Mas não se fica por aqui.

Na corte de Portugal, surge-nos um D. João I demasiado banana, que se deixa constantemente vergar pela mulher e, imagine-se, enganar por vários conselheiros. Um rei que foi um dos principais monarcas do país, responsável, entre outras coisas, pelo acordo Luso-britânico que vigora até hoje, pela extraordinária vitória em Aljubarrota e pela tomada de Ceuta, é aqui retractado como um homem que vivia para as caçadas e para a família.

Num ambiente muito “cor-de-rosa”, cheio de amor entre o rei e a rainha, surge-nos D. Nuno Álvares Pereira, o condestável e protector do reino, figura decisiva em Aljubarrota. Mas aqui há enormes contracensos. Se bem que foi verdade que D. Nuno era uma figura muita tida e respeitada pelo rei e que esse o chegou a proibir de agir como um monarca nas terras oferecidas pelo rei, por outro lado descreve o condestável como um homem muito religioso que ouvia três missas por dia. Isso é também verdade, mas Stilwell não explica a mudança operada em Nuno Álvares Pereira após a morte da mulher e isso é uma falha importante porque, para quem desconhece o que aconteceu, coloca várias questões e uma série de incoerências factuais que era escusado.

Mas o romance não se desvirtua por isso. Aqui é apenas questões de estilo que admiro nos romances históricos. Prefiro aqueles mais realistas à épca descrita, assim como prefiro outros pormenores que aqui são declinados, porém a verdadeira intenção da autora é romancear a vida de D. Filipa de Lencastre, mãe da Ínclita Geração, e isso é plenamente conseguido, ficando-nos a clara ideia do que foi a sua vida e da importância que teve a formação da identidade nacional.
Por último ressalvo a parte final do livro onde a autora descreve os “caminhos de Philippa” e o que ainda pode ser visto e visitado. Realço o Palácio da Vila em Sintra, conhecido também como o Paço da Rainha, onde sobressaem duas chaminés imensas impostas por D. Filipa que tomou aquele palácio como um dos seus favoritos e principal local de férias.

sábado, 18 de agosto de 2007

Ana Karenina - Leon Tolstói

As obras de Tolstoi são sempre extensas e muito complexas. Em todas elas o escritor mostra um extremo gosto em utilizar um elevado número de personagens que, com a sua propensão em brincar com os nomes, torna a história difícil de ser acompanhada. E, por falar em nomes, quero aqui referir algo que explica o porquê de os autores russos utilizarem quase sempre três nomes para representar um personagem. Por exemplo, neste romance um dos personagens que mais apreciei chama-se Stepane Arcadievitch, também referenciado por Oblonski e Stiva. Ora bem, toda esta confusão, deriva de uma convenção própria do sistema russo. Qualquer natural da Rússia tem um primeiro nome (ex: Stepane), um patronímico (relativo ao pai, ex: Arcadievitch) e um apelido (ex: Oblonski). O patronímico é composto pelo primeiro nome do pai acompanhado de um sufixo que significa "filho(a) de", ex: Arcadievitch (filho de Arcadi) e o diminutivo de Stepane é Stiva. No caso das senhora é algo diferente, na convenção elas usam o apelido do marido, ex: Agata Mikhailovna (mulher de Mikhail), Karenina (mulher de Karenin) e Kitty é diminutivo de Katerina. É algo confuso, mas depois de percebermos a lógica, esta informação é bastante útil para conseguirmos entender todo o "fio" de qualquer romance russo, pois e no caso de Tolstoi torna-se bastante útil dado a enormidade de personagens utilizados e os nomes a triplicar que todos eles têm. De salientar que consegui esta informação numa insistente busca na net.

Ana Karenina é considerado um dos grandes clássicos da literatura, não só pela sua vertente Histórica onde é abordada e descrita a sociedade russa do séc. XIX, como também pela sua vertente psicológica e filosófica, pois Tolstoi realiza minuciosos estudos às suas personagens, assim como não se coíbe de efectuar várias dissertações filosóficas e religiosas.

A obra relata as vidas cruzadas de várias famílias que têm entre elas sempre um ponto em comum. Dessas famílias, sobressai a personagem de Ana Karenina, mulher da alta sociedade, casada com um importante homem de estado e mão afectuosa de uma criança de 9 anos (se não estou em erro). Acontece no entanto que Ana apaixona-se por um jovem e galante conde (Vronsky), começando então uma relação intensa que irá escandalizar toda S. Petersburgo. Resolvido a não prejudicar a sua brilhante carreira, o marido de Ana fecha finge que nada se passa, até que em face de um acontecimento, é obrigado a tomar consciência da realidade e a tomar uma decisão... E mais não conto!

Claro que todas as outras personagens do livro são importantes. Na minha opinião existem dois ou três personagens cuja presença é imprescindível à beleza do drama, no entanto é inegável que a heroína é Ana Karenina e é nela que toda a história assenta.

Escrita entre 1875 e 1877 (depois de Guerra e Paz), Tolstoi joga com um assunto altamente polémico em todas as culturas ocidentais: o adultério. E, ainda descontente com este assunto, lança mais lenha para a fogueira: os valores morais, religiosos e políticos. Todas estas componentes juntas e misturadas, com uns pózinhos de filosofia do próprio autor, põe o leitor diante de um autêntico combate entre o bem e o mal, entre a imperfeição e a virtude. É intensa a forma como Tolstoi descreve as lutas morais dos personagens, aliás, chega a ser incomodativo a forma como o faz, porque quer queiramos quer não, nós próprios acabamos por entrar na discussão e tomar partido por ou contra alguém.

Para além disso, achei interessante a abordagem do autor aos sistemas que me pareceram ser o socialista e o comunista (pelo menos na sua génese). A forma como esses sistemas poderiam ser introduzidos e nos benefícios que trariam aos camponeses, assim como achei delicioso a forma irónica como Tolstoi aborda a teoria do capitalismo: Analfabetismo = Baixo custo de mão de obra = Riqueza dos burgueses.

Mas e não querendo alongar-me mais, porque este é um livro que tem muito para analisar e se o fizesse nunca mais daqui sairia, findo afirmando que esta obra é uma das melhores que li até hoje. Não se pense que se trata de uma mera história de amor, nada disso, Tolstoi, um mestre do realismo, efectua uma vasta análise à sua sociedade nos seus vários extractos (alta, média e baixa), conseguindo transmitir-nos todo aquela ambiente de uma Moscovo e S. Petersburgo cheias de tradições. E é curioso que, as personagens são tão intensas que facilmente damos por nós a "tocá-las", a "senti-las", a "falar" com elas. Ou seja, Tolstoi consegue fazer interagir as personagens com o leitor, consegue com que o leitor sinta os seus problemas, as suas dúvidas, as suas angústias, os seus dramas.

O final do romance é um bocado abrupto, pessoalmente não fiquei satisfeito, teria-lhe dado outro final que penso ter sido plausível, no entanto é precisamente nesse final que está a resposta a todas as questões que vão sendo colocadas: Devemos lutar pela nossa felicidade contra tudo e contra todos?; Até onde devemos seguir os costumes da sociedade? Devemos preocuparmo-nos com o que os outros dizem?

Mil e Uma Noites (As) - Vários

As Mil e Uma Noite era daquelas obra que há muito constavam na minha lista de clássicos. No entanto e aproveitando a recente edição do Jornal de Notícias, só agora é que me lancei neste aventura de a ler, porque acreditem que é mesmo uma grande aventura ler este conjunto de contos.

As Mil e Uma Noite é pois um conjunto de contos que estão elaborados de forma a contemplarem-se entre si, no entanto estes mesmos contos podem ser lidos de uma forma independente, pois cada um é uma metáfora, uma alegoria a algo.

Estes contos não têm autor ou autores conhecidos, desconhecendo-se mesmo as suas origens e em que altura surgiram reunidos em volume, embora se saiba que estes contos derivam das tradições populares que foram sendo transmitidos de forma oral de geração em geração. Porém existem registos que já mencionam a existência deste volume no séc. VII, pelo menos grande parte dos textos. Mas o que se sabe com certeza, é que esta obra é um retracto magnífico das antigas culturas orientais, grande parte das tradições árabes são aqui mencionadas, sendo muito usual nome como Bagdad, Cairo, Pérsia, Constantinopla, Damasco, etc.

Esta obra chega á Europa no séc. XVIII, através de Antoine Galland, arqueólogo e diplomata francês que, apaixonado por uma cultura em que esteve inserido durante grande parte da sua vida, acabou por efectuar a primeira tradução desta obra para o francês, oferecendo assim ao Ocidente uma descrição do pensamento, modo de vida e cultura popular de um povo tão desconhecido.

Quanto à obra:

Há muito, muito, mas mesmo muito tempo, em terras do Oriente, existia um poderoso sultão que era muito amado pelo seu povo devido à sua generosidade e justiça que demonstrava. Esse sultão tinha uma esposa, tão jovem e casta, que amava muito e que cuja presença davam aos seus dias uma luz só comparável à luz do divino. Porém, a sua doce e bela sultana era-lhe infiel e quando o poderoso sultão descobriu a traição de que era constantemente alvo (e logo em flagrante), uma onda de violência varreu o palácio, acabando o sultão por assassinar a sua esposa e decretando que a partir daquele dia, todos os dias desposaria uma jovem de entre as jovens do povo, assassinando-a quando o Sol nasce-se, impedindo assim qualquer traição. Surge então Xerazade, filha do vizir (espécie de primeiro-ministro) que, mesmo indo contra a vontade do pai, disponibiliza-se a contrair matrimónio com o sultão. Assim, graças à sua inteligência, beleza e cultura, ela consegue adiar a sua morte noite após noite, devido às histórias que vai contando, deixando sempre as mesmas em situação de suspense quando o Sol nasce. O sultão, ansioso por saber o fim dessas histórias, acaba sempre por adiar a execução.

É desta forma que, através de Xerazade, vamos tomando conhecimento de dezenas de fábulas que nos narram as tradições culturais do povo oriental, de personagens que actualmente pululam no nosso imaginário: Aladino, Ali Bábá, Sindbad, Zobeida e a própria Xerazade. Todas estas histórias das quais destaco aquelas que mais apreciei: ”O Mercador e o Génio”; ”História do jovem Rei das ilhas negras”; ”História do Invejoso e do Invejado”; ”História de Zobeida”; ”Sindbad o Marinheiro”; ”Nuredine”; ”Aladino”; ”O Princípe Ahmed”, acabam por ser metáforas didácticas, sendo também e na minha opinião, pelo menos gosto de pensar assim, histórias que caricaturam situações reais.

De notar que e segundo a tradição oriental em relação a estes contos, os mesmos, na sua génese, tinham um forte cariz erótico, alguns eram mesmo ostensivamente sexuais, no entanto, Galland retirou ou omitiu todas essas alusões, o que na minha opinião é uma pena, pois para além de podermos perceber o aforismo dessa cultura nesse aspecto, o ambiente e as situações descritas são, sem dúvida, propícias ao erotismo.

Em suma: embora contenha alguns contos pouco interessantes e repetitivos (existem sempre mercadores, sultões e vizires), esta obra, no seu todo, dá-nos realmente uma visão da cultura oriental e do seu modo de vida. As paisagens descritas são exóticas e a componente mágica está quase sempre presente (muitos génios e outras situações irreais).

Assim e para os curiosos desta cultura, será uma obra para ser lida e analisada com calma. Para os outros (onde me insiro), é uma obra curiosa, cheia de contos sobre a moral, com muitas princesas, sultanas, sultões, vizires, mercadores e génios, que entretém e que nos transporta a um mundo e uma cultura muito diferente da nossa.

Trilogia de Nova Iorque - Paul Auster

Trilogia de Nova Iorque foi, até agora, o único livro que li de Paul Auster. Aproveitando a sua saída na Colecção do Público “Mil Folhas”, este livro revelou-se um policial por excelência.
Contendo três histórias que se interligam e em que a busca ou a vigilância de alguém a alguém é um factor comum em todas elas.
Não sendo o meu estilo preferido, aliás, é mesmo um estilo que me enfadonha um pouco, embora ainda hoje recorde a obra de Conan Doyle (Sherlock Holmes), obra que devorei na adolescência, mas e como ia dizendo, fiquei agradado com a forma como Paul Auster desenvolve as histórias e a com a imprevisibilidade das mesmas, pois todas as três tiveram o condão de me surpreender.
O cenário de fundo é a cidade de Nova Iorque e, nas três histórias, a realidade mistura-se com a ficção, sendo o próprio leitor a definir onde acaba e começa essa ficção, ou seja, Auster joga brilhantemente com as palavras, criando assim três argumentos onde é possível ser o leitor a definir qual a ficção que mais lhe agrada (é um pouco confuso, mas não encontro forma de explicar melhor). Isso é brilhante e profundamente desconcertante. Paul Auster joga também com a nossa percepção dos acontecimentos e é exímio mesmo na forma incoerente como cria toda uma ilusão.
Auster revela-se um mestre nessa mistura. Consegue misturar histórias distintas, baralhando o leitor que não consegue definir e separar com exactidão o começo, fim e conteúdo dessas histórias, porque em todas elas existe um fio condutor análogo que lhes dá uma só identidade. Confuso? Experimentem ler!
Na primeira história “Cidade de Vidro”, um escritor de romances policiais vê-se envolvido numa terrível confusão que começa quando recebe telefonemas a perguntar por Paul Auster. Ele não é esse homem, mas resolve adoptar essa identidade e responder afirmativamente...
Na segunda história “Fantasmas”, Blue, um detective particular, recebe a incumbência de vigiar um homem chamado Black...
Na terceira, “Quarto Fechado”, uma busca no passado da sua identidade, um conto desconcertante...
Um livro muito interessante. Um livro que se revela um jogo, aliás, um género de puzzle onde as peças de todas as três histórias de vão encaixando aqui e ali, formando um puzzle gigante.

Primo Basílio (O) - Eça de Queirós

Em o "Primo Basílio" Eça escreve mais uma etapa do seu projecto "Crónicas da vida portuguesa", onde ele se propunha a efectuar 12 romances em que abordaria todas as características da vida portuguesa. Esse projecto nunca foi terminado, mas não o impediu de escrever alguns romances extraordinários, reflectindo a sociedade portuguesa dos finais do século XIX.

Este romance é, na minha humilde opinião, aquele onde Eça consegue pintar o fresco mais real da aristocracia lisboeta (e portuguesa) do final do século XIX e também é aquele onde ele onde efectua as mais minuciosas análises psicológicas. É interessante verificar a constante luta moral ao longo do livro. À medida que a história se desenrola, é comum sermos confrontados com questões morais pertinentes e inclusivamente convenções sociais que são quebradas de uma forma abrupta e escandalosa. Um jogo que o autor, propositadamente, procura jogar com as regras da época e que tanta celeuma levantou na altura da publicação e que, cá para nós, tantas questões ainda levanta se a analisarmos à luz das actuais convenções morais.

A história é simples de resumir: Luísa é uma mulher casada que se vê sozinha em Lisboa depois de o seu marido ter que se ausentar em trabalho para o Alentejo. Começa então a receber visitas diárias de um primo (Basílio) que se encontra em Lisboa. Daí até ao envolvimento de ambos vai um curto passo e começam-se a encontrar numa outra casa. Esta relação é descoberta por Juliana, a criada de Luísa que a começa a chantagear com a ameaça de contar tudo ao marido de Luísa. Basílio, que apenas vê em Luísa uma espécie de diversão para os seus tempos livres, resolve fugir de Lisboa quando Luísa lhe pede ajuda (um pulha), e é então que os papéis entre Luísa e Juliana se invertem: A senhora passa a ser a criada e a criada passa a ser a senhora. Aí Eça é genial na forma como aborda a questão, assim como na análise deste facto, descrevendo-nos situações verdadeiramente humilhantes para Luísa.

De notar que a abordagem de Eça ao adultério não foi por caso. Repare-se que a convenção da época era permissiva em relação ao homem e radicalmente subversiva em relação à mulher. Digo mais, pelo que percebi dos vários romances que tenho lido, russos, portugueses, ingleses e franceses, era até visto como sinal de virilidade um homem ter uma amante e veja que ( e quem ler o livro irá perceber) Basílio é visto como um homem que não faz nada de mal (inclusivamente Basílio ocupa um papel secundário), aqui o pecado é de Luísa. Ela é que comete adultério. O marido de Luísa, na sua viagem de trabalho, também comete adultério, no entanto aponta-se o dedo a Luísa, ou seja, todos andam na coboidada, mas apenas Luísa tem a obrigação de "pagar a factura".

Embora não seja o meu romance preferido do mestre Eça, este é sem dúvida um relato fiel dessa época, onde relações extraconjugais eram vista como normais no seio masculino, mas completamente proibidas às senhoras.

Mas como costumo questionar nos livros de Eça: "Será que a nossa sociedade mudou alguma coisa?"

Proibido - António Costa Santos

António Costa Santos, jornalista, guionista e escritor, rompe o anonimato com este livro “Proibido” onde, sempre num tom irónico e sarcástico, mas muito bem estruturado e delineado, descreve algumas das muitas proibições que o Estado Novo impôs ao povo português por mais de quarenta anos, nomeadamente e como é fácil de perceber, durante a vigência do fascismo.

Começando como “Era proibido quase tudo”, António Santos começa por referir algo muito curioso e igualmente verdadeiro: os portugueses sempre gostaram de se proibir uns aos outros. Sociológicamente a maneira de ser lusa sempre foi o de apanhar o outro em falta, logo, o regime apenas se aproveitou desse estranho sindrome para proibir tudo e mais alguma coisa, notado contudo que havia certas obrigatoriedades que não exisitiam na legislação mas que de acordo com esse tal sindroma, parecia mal ou não se fazia porque sim, logo, passava a ser obrigatório.

E é assim que tomamos conhecimento, para quem desconhece, de algumas atrocidades cometidas em prol dos bons costumes, tais como: “Proibido usar biquini”, “Poribido uma mulher entrar numa igreja de cabeça descoberta” (aqui há uma explicação muito curiosa sobre o homem ter que tirar o chapéu na igreja e a mulher ser o inverso), “Proibido ir de mini-saia para o liceu”, “Proibido ler certos livros”, “Editar e vender certos livros”, “beber coca-cola”, “proibido realizar certos filmes”, etc, etc e etc de proibidos, algumas verdadeiramente descabidas e hilariantes e outras no minino estranhas.

No fim brinda-nos com algumas proibições dos nossos dias para mostrar, e isso sente-se em todo o livro, que o tempo da “outra senhora” (leia-se Salazar em código), não está assim tão longe quanto isso e que essa onda de proibições do passado pode até ser um bom aviso para o presente...

domingo, 29 de julho de 2007

Crime e Castigo - Fedor Dostoievsky

Fiodor Dostoievski é considerado, e justamente, como um dos grandes escritores russos e um dos maiores escritores universais de todos os tempos. Nascido em Moscovo em 1821, Dostoievski teve uma infância algo triste, caracterizada pela profunda austeridade do seu pai, austeridade essa que se estendia igualmente ao seu irmão mais velho e à sua mãe, que viria a falecer quando ele contava apenas 10 anos.

Na juventude, frequentou a Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo. De onde saí em 1843, vindo pouco tempo depois a abandonar a carreira militar para ingressar no mundo das letras. Crê-se que esse entusiasmo pela letras deriva de uma visita de Balzac a São Petersburgo, visita essa que o leva a traduzir “Eugenia Grandet” do célebre escritor francês.

Já como escritor, envolve-se num movimento de líricos, de artistas, que nas suas reuniões são conhecidos por terem opiniões contra o sistema político e em 1849, é preso e acusado de conspiração contra o czar, sendo então condenado a ser fuzilado. Porém, no dia marcado para o fuzilamento e quando já estava perfilado diante do pelotão, veio a informação que o czar havia comutado a pena de fuzilamento para 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Tal episódeo tem um papel fulcral na via de Dostoievski e repercute-se em toda a sua obra, 4 anos em contacto com outros criminosos foram essenciais para a escrita de “Crime e Castigo”.

Vida difícil, marcada pelo sofrimento moral e físico (tinha constante ataques epilépticos) e pelas dívidas ao jogo que o deixa frequentemente na penúria, publica em 1866 a obra “Crime e Castigo”, livro esse que depois desta pequena mas importante introdução, me proponho a opinar.

É assim que marcado por um estado de angústia e amargura, Dostoievski tem todo um clima ideal para escrever o romance que o levaria à galeria dos imortais, aquele livro onde Dostoievski demonstra que atingiu o total amadurecimento.

Como já referi, os 4 anos passados na Sibéria na companhia de tantos criminosos, familiarizaram-no com o sentimento de culpa, pois ali foi possível conviver com homens que lhe mostraram o crime nas suas diversas facetas. Homens tidos na sociedade como monstros, mas que são capazes de revelar sentimentos humanos. Homens que se transformaram em criminosos devido à injustiça social, mas capazes de mostrarem remorsos que lhes dilaceram a alma, homens que devido à vicissitudes da vida acabam por se considerarem inocentes. Esses factos perturbou Dostoievski.

Assim e em “Crime e Castigo”, Dostoievski apresenta-nos a personagem principal Raskolnikov, que é apenas um estudante com um futuro brilhante. No entanto, a sua difícil situação financeira, assim como a situação da sua mãe e irmã, faz com que Raskolnikov se vá isolando do mundo, deixando logo antever grandes fragilidades psicológicas misturadas com um crescente estado nervoso.

Resolve então penhorar alguns objectos junto de uma velha que, aproveitando-se da precária situação de Raskolnikov, oferece-lhe sempre menos dinheiro do que aquele que era justo. Face a essa injustiça, Raskolnikov vê nascer um ódio pela velha agiota, planeando então assassiná-la. De notar que Raskolnikov vê na velha a face da injustiça social que assalta a Rússia. Dostoievski é brilhante na forma como descreve toda a situação do assassinato. Desde o momento que sai de casa, as dúvidas, as hesitações, a angústia de Raskolnikov, os seus pensamentos que acompanhamos quase como sendo uma segunda consciência de Raskolnikov: “como tudo é repugnante”, “isto é uma loucura, um absurdo”, “serei eu capaz de tamanha infâmia?”, “isto é ignóbil, nojento!”... no entanto, assassina-a de um modo grotesco, sádico e cruel, rouba nervosamente alguns valores e, sem que Raskolnikov o prevê-se , nessa altura entra em casa a irmã da velha que, ao ver a usurária morta, fica em estado de choque, completamente petrificada de terror. Raskolnikov não pensa e mata-a, sem piedade e de uma forma macabra. Duas mortes atrozes que vão agora atormentar o nosso personagem.

Depois de quase ser apanhado em flagrante (Dostoievski faz essa descrição de um modo excitante), consegue fugir sem ser visto e voltar ao seu quarto onde se inicia a sua luta consigo próprio, uma luta psicológica que o irá levar a um estado latente de loucura.

Nesta obra, Dostoievski realiza algumas análises á sociedade do seu tempo. A miséria humana da família Marmaledov (a forma como o pai dessa família sucumbe é atroz, mas aconteciam inúmeros casos na altura) caracteriza a injustiça social. Injustiça essa também explorada na personagem de Svidrigailov, homem sem escrúpulos, chantagista. Dúnia que está pronta a sacrificar a sua vida para o bem estar da família. No entanto, a sua maior análise vai inteirinha para a luta psicológica de um homem que mata mas que não sente remorsos pelo que faz, sente sim a dúvida moral do seu acto, o seu desespero em encontrar um subterfúgio que lhe atenue essa dúvida que lhe dilacera a alma, que o tortura, que o castiga.

Dostoievski descreve todo um processo psíquico do sentimento de culpa. Raskolnikov pensa que a velha é um mal no mundo, que esse mundo apenas tem a ganhar com a sua morte. Como tal, ele tem o direito de impor a sua própria moral, no entanto ele é consumido pela tortura interior. A sua tortura constitui um esforço desesperado para, através do raciocínio lógico, encontrar uma explicação para os crimes, uma explicação que amaine a sua consciência. Será que matar a velha foi um erro? Se ele não se arrepende, então não pode ser culpado por algo que foi merecido. Ele agiu como devia, logo, o seu suplício não tem razão de existir... Mas será que ele tem realmente esse direito, será ele um Deus?... é neste conflito interior que o tortura, que a figura de uma jovem prostituta, marcada igualmente pelo sofrimento, lhe vai falar à sua consciência. Sublime ironia de Dostoievski, numa autêntica batalha entre o bem e o mal.
Uma obra genial!

"chamam-me psicólogo, mas não é verdade. Sou apenas um realista no mais alto sentido, ou seja, retracto todas as profundezas da alma humana.” - Fiodor Dostoievski

Nossa Senhora de Paris - Victor Hugo

Victor Hugo é, ainda hoje, um dos escritores mais considerados em todo o mundo. Poeta, romancista e político, Victor Hugo foi uma das figuras públicas de maior relevância na França do séc. XIX e, como escritor, autor de um dos grandes clássicos de todos tempos e um dos melhores livros que já li: “Os Miseráveis”.

Victor Hugo foi autor de várias obras de cariz histórico, sempre crítico sobre a sua França e sobre a forma como a dirigiam, principalmente após a Revolução, visto que sempre se assumiu como um monárquico convicto.

Publicado em 1832, “Nossa Senhora de Paris” narra a história de uma cigana que fascina todos os homens de Paris pela sua beleza, um sineiro corcunda, um padre que corrompe a sua própria alma por amor à jovem cigana, e um jovem oficial que é o espelho do comportamento da alta sociedade da altura.

E este livro, na minha óptica, e precisamente a narração do comportamento de um conjunto de classes da Paris do séc. XIX, sobretudo a forma fácil como se castigava pessoas, inocentes ou não, a forma como o povo clamava por sangue, a forma como a guilhotina era vista e falada de uma forma tão displicente (era uma festa popular quando havia execuções). E digo isto porque a história é simplória, pequena e com algumas falhas, não históricas, mas falhas circunstanciais, ou seja, existem pedaços na história que Victor Hugo nem se dá ao trabalho de explicar. Pareceu-me também que o livro tem por objectivo, ou se quiserem o autor elaborou o livro também com outro objectivo que é, talvez, o principal tema: a Catedral de Nossa Senhora de Paris ou, se preferirem, a Catedral de Notre-Dame.

O escritor tem a preocupação de ao longo de todo o livro, efectuar uma descrição pormenorizada da Catedral, contar a sua História, criticar as mudanças operadas na Catedral e na própria cidade e é engraçado que essas críticas são feitas a construções ou estilos que hoje em dia, passados cerca de 200 anos, são motivo de reverência e referência. Penso mesmo até que Victor Hugo pretendia escrever simplesmente sobre a Catedral, no entanto e se o fizesse, ele sabia que a mensagem não passaria, correria mesmo o risco do seu livro ser politizado e, idolatrado como ele era, apenas um romance lhe permitiria escrever, descrever e criticar não só esse espaço histórico, assim como a própria comunidade.

A história em si e para quem não sabe, é hoje conhecida pelo “corcunda de Notre-Dame”, nunca me cativou. Achei-a fraquinha, algo desmembrada, chegando a ser algo incoerente.
Entretém, dá-nos conhecimentos interessantes sobre a Catedral e sobre uma Paris já desaparecida, mas não chega para poder considerar esta obra como um Grande Livro.

Macbeth - William Shakespeare

Macbeth apenas foi editado pela primeira vez em 1623, 7 anos após a morte de Shakespeare. Desconhece-se a data em que foi escrita (pensa-se que tenha sido numa data posterior a 1606 devido à narração, na obra, de alguns factos ocorridos nessa altura) e do porquê de ele não a ter tornado conhecida, mas sabe-se que esta foi uma peça que não teve revisões por parte do autor, dadas as anomalias que o texto incerra.
A história que Shakespeare narra é parcialmente real. O poeta imaginou os diálogos e as situações, mas os acontecimentos descritos sucederam-se na realidade. Macbeth era o senhor de Glamis e primo do rei Duncan por altura de 1030. Cronistas da época descrevem o contraste entre Duncan e Macbeth. Enquanto Duncan era um homem pacífico e calmo, Macbeth era violento e cruel. Macbeth era um dos generais do exército de Duncan e a sua fama era tão grande que as forças inimigas tremiam só de ouvir o seu nome. No entanto, Macbeth era muito ambicioso e sabia que se o rei morresse, ele seria o seu natural sucessor e, numa ida de Duncan ao Castelo de Macbeth (era normal na época o rei efectuar uma visita anual aos seus condados, ficando hospedado nos palácios dos seus nobres), Macbeth, protegido pela neblina da noite, assassina o seu primo, apoderando-se assim da coroa escocesa. Esse assassinato, que relembro aconteceu na realidade, pensa-se ter ocorrido no Castelo de Glamis, situado a cinco milhas de Farfair. Curioso verificar que, hoje em dia, este castelo é extremamente famoso por outros factos que apaixonam os amantes do sobrenatural. É que o castelo de Glamis é um dos castelos assombrados mais famosos do mundo... No entanto, não existe a certeza de realmente foi nesse castelo que ocorreu o homicídio, pois uma outra história afirma ter o local, onde Duncan foi morto, sido devastado pelo seu filho Malcolm, sendo actualmente uma das muitas ruínas que abundam na Escócia. Mas estes foram os factos reais. Shakespeare pegou nesta história e deu-lhe magia e imortalidade. Nesta peça, Shakespeare apresenta-nos um personagem que é, na minha opinião, o seu personagem mais violento e controverso. Macbeth revela-se um homem violento, falso, cruel, extremamente supersticioso, vaidoso e narcisista, ou seja, Shakespeare parece aqui tentar efectuar a sua mais intrincada, elaborada e minuciosa análise psicológica de sempre. Macbeth representa quase todas as facetas que um Homem poderá possuir. Em cenários negros e lúgubres, Macbeth surge-nos como um grande senhor feudal, importante chefe do clã, com uma impressionante força e coragem, mas e ao mesmo tempo, com dúvidas que lhe dilaceram a alma, deixando antever um homem cobarde e medroso, inundado por terrores que raiam o limiar da loucura. Ou seja, um claro contra-senso que nos obriga a questionar? Aonde Shakespeare quis chegar, ou o que ele pretendia? Os remorsos de Macbeth são algo que flutuam durante a peça. Todas as cenas em que este sentimento se revela, são extremamente intensas e dramáticas. Shakespeare no entanto surpreende, porque debaixo desse homem vil, consegue criar um outro que demonstra sentimentos humanos muito fraternais. Um homem que na loucura da sua ambição, ganha características que são opostas ao seu verdadeiro (aparente) ser. Embora não seja a minha peça favorita, dada a sua violência e intensidade psicológica, Macbeth é notável pela forma como o trama é construído, pelos cenários recriados e pelos sublimes jogos de palavras entre os personagens. Uma obra grandiosa em que a psique humana é analisas sob diversos aspectos e é devido a essas múltiplas análises que, na minha opinião, mora o busílis da questão anteriormente colocada: Que pretendia Shakespeare com esta peça? Na minha opinião, esta foi a peça que Shakespeare sonhou tornar como a sua obra prima, a obra que pretendeu tornar única, atingir a perfeição. No entanto, penso que o Mestre ou não teve tempo ou não conseguiu fazê-lo. A obra está muito bem conseguida mas nota-se falhas, principalmente na história, na acção. A forma como constrói o personagem é quase perfeito, digo quase porque existem facetas que não fazem sentido, a forma oposta como ele cria dois personagens em apenas um, os jogos que ele cria, acaba por construir uma teia que fica por destruir. Por isso é que, e atenção que é apenas a minha opinião, Shakespeare nunca tornou conhecida esta peça, ele buscava a perfeição e, com Macbeth esteva a um passo de a conseguir. Estarei errado? É possível. Não sou nenhum entendido em Shakespeare, apenas gosto de efectuar análises do que leio, quando vale a pena claro! Na peça, saliento também as inúmeras alusões a factos históricos, alguns deles de grande importância para a monarquia inglesa e escocesa. Shakespeare demonstra que estava atento à sua época e que era um investigador minucioso que nada deixava ao acaso, abrilhantando o seu texto com lendas, superstições e folclore popular. Goste-se ou não, quando mais leio Shakespeare, mais me convenço que o homem era um génio. Ele não se limitou a escrever peças de teatro baseadas em lendas ou Histórias reais, ele foi mais longe. Assente numa escrita melodiosa e numa estrutura textual harmoniosa, Shakespeare efectuou profundas análises à sua sociedade e principalmente aos comportamentos, perfis psicológicos e morais das gentes, deixando-nos um legado valorosíssimo e de uma riqueza tal, que poucos têm sabido dar o seu real valor.

Hamlet - William Shakespeare

Hamlet é, porventura, a melhor obra de William Shakespeare. Pelo menos é aquela onde o autor elabora as suas mais minuciosas análises aos sentimentos humanos, medindo sensações e jogando com sentimentos de uma forma arrepiante. Sentimentos como o amor, a traição, o ódio, o ciúme, a ambição, o medo e a avareza, são transportados e lançados para dentro dos personagens, dando-lhes vida e personalidade.

Mas quando é que esta peça surge?

A primeira edição de Hamlet surge em 1604, no entanto existem muitas dúvidas sobre a real data em que Shakespeare criou esta peça. E porquê? Porque e embora a obra tenha sido editada em 1604, sabe-se que em 1596 era representada nos teatros de Londres uma peça com o nome de Hamlet. Antes, em 1594, encontra-se um Hamlet representado em Newington-Butts. E antes, em 1589, numa epístola que serve de prefácio ao “Menaphon” de Greene, existe uma alusão a Hamlet. Será que Shakespeare escreveu a peça antes de 1589? Muitos investigadores pensam que sim e por duas fortes razões: a primeira razão está presente no próprio texto onde Shakespeare faz alusão a factos que sucederam em 1584 e também porque nesse ano o escritor deu o nome de Hamlet a um dos seus filhos.

Embora pareça que nada tem a ver com a obra, penso que é importante saber a data da concepção da obra, ou, pelo menos, a data aproximada e simplesmente porque é fundamental para conseguirmos efectuar uma correcta análise do texto e entendermos a vastidão da obra.

Posto isto.

Como em praticamente todas as suas obras, Shakespeare não inventou a história. A mesma tem bases históricas muito antigas, confundindo-se factos reais com lendários.

Pensa-se que Hamlet (ou Ameth) tenha vivido dois séculos antes de Cristo. Era filho de Horwendilo, rei da Jutlândia. No entanto não existe consenso em relação ao seu nascimento, pois há quem defenda que ele viveu 500 anos antes de Cristo, na Selândia, onde ainda hoje se mostra o seu túmulo, no parque do Castelo de Marienlust, perto de Elsenor. Mas o certo é que a lenda de Hamlet, amplificada pelos imaginativos e sombrios bardos do norte da Europa, é vista como mais uma fábula do que propriamente um facto verídico, embora muitos historiadores aceitem que existe realmente um fundo de verdade na lenda. Mas o certo é que Shakespeare tomou, de alguma maneira, conhecimento desta lenda e retirou dela todos os materiais para escrever o seu drama.

O enredo de Hamlet respeita os factos da lenda e, como em praticamente todas as obras do Mestre, é muito simples. Um rei que é assassinado pelo irmão que, depois de se apoderar do trono, desposa a cunhada. O filho do rei assassinado, sabe de todo o trama pelo fantasma do próprio pai que lhe pede que cumpra uma missão e é aí que o drama se inicia.

É notável a forma como Shakespeare dirige o drama, a forma como ele expõe os afectos, as sensações e os sentimentos. A construção da obra está genial, Shakespeare consegue humanizar as personagens, dar-lhe a alma e uma forma comovente (leiam a obra ao som de Mozart ou Beethoven, é de arrepiar).

Cheia de superstições, medos, lendas e história lúgubres. A intensidade é espantosa, todo o cenário que o dramaturgo nos apresenta é sombrio, fantasmagórico, arrepiante. A descrição do cemitério é feita de uma forma decadente... “um terreno argiloso, perto da igreja e das habitações humanas, onde nem os fetos conseguem vegetar...”, Shakespeare injecta-nos medo.
O personagem de Hamlet é virtuoso, esplendidamente assombroso. É cativante, genialmente louco e loucamente genial. Um verdadeiro prodígio que nos arremessa pensamentos, dúvidas, certezas e inquietações de uma forma ora dramática, ora cómica e alegre, causando-nos admiração e respeito pela sua mestria oratória. Um personagem cheio de carisma que nos aparta da realidade e nos convoca para um mundo onde as palavras dançam. Pensamentos profundos inquietam Hamlet, perturbando-o, ora dando, ora retirando fundamentos que deseja possuir mas que vão contra o seu espírito. Um homem em luta consigo próprio, sistematicamente pesando nos pratos da balança os prós e contras, num combate lúcido de como e quando executar (a vingança). Arrebatador, assombroso.

A encantadora Ofélia... Oh Ofélia!

Que sensível, virtuosa e poetisa sóis! Ternos são os teus olhos, doce a tua pele, belo o teu ser. Doces cantos vos dediquei e acabastes por me deixar. Oh Ofélia, quais suspiros arrancam minha alma às garras de possessas águias que desmantelam o meu corpo... Oh Ofélia! Que companhia, dama, desejou aquele Rei que habita nas negras águas...

De todas as peças que li de Shakespeare, esta é aquela que mais me toca, a mais melancólica, aquela que mais me enriqueceu. Em Hamlet descobri um ser virtuoso, incapaz de fingir sentimentos, um ser que, atormentado por dúvidas, transpõe-nas com um carácter grandiloquente. Para mim, uma obra que é um símbolo da arte literária e teatral.

Historicamente existem algumas inverdades no texto, ex: na Dinamarca do tempo de Hamlet a religião era pagã, enquanto que na obra de Shakespeare todos estão convertidos ao catolicismo, mas que importa? Perante tal mimo literário tudo se perdoa em face do portento artístico que Shakespeare nos legou, do prazer que sentimos quando penetramos na obra, ao contemplarmos a genial falsa loucura deste príncipe encantador.

Ser ou não ser – eis a questão. Deve uma alma nobre sofrer os golpes da adversidade, ou lutar contra eles? Morrer... dormir... – mais nada. Este sono faz cessar os sofrimentos do coração, as mil amarguras que a natureza legou à nossa carne. Eis o que devemos ambicionar com ardor. Morrer... dormir... dormir. Sonhos talvez... eis o dilema. Que sonhos teremos no sono da morte, depois duma existência tumultuosa?... é isto que nos obriga a meditar, que torna prolongada a vida do infeliz...”