Em 1968 foi parar às mãos de Umberto Eco um livro de um tal abade Vallet :"Le Manuscript de Dom Adso de Melk", que afirmava reproduzir fielmente um manuscrito o séc. XIV que havia sido encontrado no mosteiro de Melk. Entusiasmado e intrigado com tal achado, Umberto Eco levou a cabo algumas pesquisas que o levaram a concluir que as memórias de Adso narravam efectivamente acontecimentos reais que estavam envoltos em muitos mistérios, a começar na localização da abadia que Adso nunca revela, no entanto e pelas descrições de Adso, Eco consegue localizar a sua situação geográfica numa zona imprecisa entre Pomposa e Conques, ao longo da cadeia dos Apeninos, entre o Piemonte, a Ligúria e a França. sábado, 6 de outubro de 2007
Nome da Rosa (O) - Umberto Ecco
Em 1968 foi parar às mãos de Umberto Eco um livro de um tal abade Vallet :"Le Manuscript de Dom Adso de Melk", que afirmava reproduzir fielmente um manuscrito o séc. XIV que havia sido encontrado no mosteiro de Melk. Entusiasmado e intrigado com tal achado, Umberto Eco levou a cabo algumas pesquisas que o levaram a concluir que as memórias de Adso narravam efectivamente acontecimentos reais que estavam envoltos em muitos mistérios, a começar na localização da abadia que Adso nunca revela, no entanto e pelas descrições de Adso, Eco consegue localizar a sua situação geográfica numa zona imprecisa entre Pomposa e Conques, ao longo da cadeia dos Apeninos, entre o Piemonte, a Ligúria e a França. Cão como nós - Manuel Alegre
Esta é a história de Kurica, um cão de raça épagneul-breton, que durante muitos anos acompanhou a família Alegre. No entanto este cão não era um cão como os outros cães. Luz e Sombra - Ana Santos
Ana Eduardo Santos tem presentemente uns 24 anos. Este livro que me proponho agora a opinar foi escrito quando ela tinha apenas 15 anos. E pergunta-se: Como é que se publica com 15 anos? Cunhas? Também, mas neste caso é porque venceu o Prémio Revelação APE em 1998, na área da ficção. domingo, 30 de setembro de 2007
Vida de Pi (A) - Yann Martel
Em Julho de 1977 um navio de carga japonês chamado Tsimtsum afundou-se em pleno Oceano Pacífico sem que, até hoje, se conheça as razões para tal naufrágio. Nesse navio, uma tripulação de vários homens, uma família de 4 pessoas e dezenas de animais selvagens perderam a vida sem que alguma vez qualquer corpo, ou parte ele, aparecesse. No entanto, houve alguém que sobreviveu para contar uma história tão surrealista que é difícil perceber onde acaba a realidade e começa a ficção, esta é a sua história. Patel é um miúdo de 16 anos iguais a tantos outros. Adora a sua vida e adora igualmente o jardim e os animais que nele habitam. No entanto Patel tem um pequeno problema: não acha piada ao seu nome. Esse estranho nome foi-lhe dado em honra da Piscine Molitor, piscina que fazia a glória aquática de Paris por alturas dos Jogos Olímpicos de 1924. Imaginem alguém com nome de piscina. E vai daí, o seu nome era alvo de constante gozo por parte dos colegas e mesmo os diminutivos não ajudavam muito à festa... Pissinha Patel era um deles... imaginem o diálogo: "Ó Pissinha, está a mijar pra parede?". Até que um dia ele se lembrou e escreveu no quadro da escola "O meu nome é Piscine Molitor Patel, conhecido por todos como Pi Patel. Pi=3,14". Nasceu Pi Patel, também chamado O 3,14 Patel, aquele que se escondia debaixo de um telhado assente em dois postes. Curioso!
Patel é muito curioso e tal curiosidade leva-o a adoptar três religiões completamente distintas: Cristã. Hindu e Islâmica. Aqui Patel tece considerações muito curiosas e pertinentes sobre as três religiões, compara-as, professa-as e chega à conclusão que o étimo das três é o mesmo, existindo apenas um só Deus comum a todas elas.
Posteriormente e devido a problemas políticos, a família resolve emigrar para o Canadá. Vendem grande parte dos animais e resolvem levar os restantes consigo a fim de os vender nos Estados Unidos.
No dia 21 de Junho embarcam, a 2 de Julho, o navio naufraga.
A partir desse fatídico dia inicia-se a segunda parte do livro e aquela onde os acontecimentos são mais marcantes, onde o sentido do livro vem ao de cimo.
Sem saber muito bem como, vê-se num bote salva-vidas com uma zebra ferida, uma orangotango fêmea, uma hiena malhada e um poderoso tigre de Bengala. Surrealista são os acontecimentos que sucedem. Durante 227 dias, os mecanismos da cadeia alimentar sobressaem de uma forma natural e cruel. Quase a raiar a loucura, Pi Patel narra uma aventura onde a convivência entre as espécies é estranha, onde por vezes somos assaltados pela dúvida da veracidade do relato, pois os acontecimentos são tão surreais, violentos e fantásticos que, não só é difícil acreditar como também é impossível imaginarmos tal horror.
Mas Patel explana uma espantosa história de coragem e de resistência perante circunstância extraordinárias e tragicamente difíceis, uma verdadeira odisseia hipnotizadora onde, quase como um impacto, uma questão primordial se levanta: Existe Deus? Se existe, de certo protegeu e acompanhou Pi Patel.
Yann Martel, escritor espanhol residente no Canadá, descobriu esta história um pouco por acaso. Desde logo contactou Piscine e após algumas conversações, acabou por convencer Patel a contar a sua aventura. Em formato de diário, dividido em 100 capítulos, Martel constrói um livro fabuloso, de um humanismo tão profundo quanto animalesco.
Um humanismo tão profundo quanto animalesco...
Esta expressão é devido à fase final do livro. É que esse final é simplesmente desconcertante. Nesse final ficamos com uma séria dúvida, a mim pareceu-me que a história de Patel é real mas, o relato dos acontecimentos, ou pelo menos a forma como ele os conta, não passam de uma metáfora de acontecimentos ainda mais horríveis, trágicos e cruéis do que os narrados por Patel. Fiquei na dúvida e duvido que alguma vez as esclareça. Desconcertante!
Acreditem, este é um livro portentoso, uma obra prima que aconselho a todos aqueles que apreciem uma boa história e que apreciem também a possibilidade de pensar com o livro. Ele é didáctico, construtivo, verídico e faz-nos pensar da primeira à última página.
Terapia - David Lodge
David Lodge, escritor inglês, é hoje em dia um autor consagrado em todo o mundo. Com mais de uma dezena de livros escritos, cria em "Terapia" uma história que tem tanto de original, filosófico, prático, satírico como de hilariante. Madame Bovary - Gustave Flaubert
Romance polémico, considerado a grande obra prima de Flaubert, Madame Bovary é uma espécie de radiografia de uma sociedade (francesa) que sofre de uma profunda crise moral. A forma como Flaubert escreve todo o trama, não só tocou num fenómeno (não digo qual para não desvendar o fim) que muita agitação criou naquela altura, dando azo inclusivamente a estudo sociológicos, como também deu origem a um processo movido contra Flaubert pelo Ministério Público por ofensa à moral pública e religiosa, embora esse processo fosse devido ao livro e aos vários temas abordados.Nação Crioula - José Eduardo Agualusa
José Eduardo Agualusa, autor angolano mas com fortes raízes culturais lusas, é, hoje em dia, um nome sonante no meio literário português e, talvez. o mais sonante do universo angolano. terça-feira, 4 de setembro de 2007
Três Mosqueteiros (Os) - Alexandre Dumas
Escrito em 1844, os “Três Mosqueteiros” nasceram aquando da descoberta por Alexandre Dumas de um manuscrito intitulado As memórias do sr. D’Artagnan”. Nessas memórias, d’Artagann refere que na primeira visita ao sr. de Tréville, capitão dos mosqueteiros, encontrou três moços que se chamavam Athos, Porthos e Aramis, nomes que Dumas julga tratar-se de pseudónimos que disfarçam nomes ilustres. Sangue de Cristo e o Santo Graal - Michael Baigent , Richard Leigh , Henry Lincoln
Até à pouco tempo atrás, pensava que o Santo Graal se tratava de uma taça em madeira onde supostamente Jesus Cristo havia bebido na última ceia que efectuou com os seus apóstolos. Assim e julgando ser mais um mito do que propriamente um dado histórico, nunca dei muita importância a esse facto, sem ser quando lia algo sobre a idade média e a constante e quase obcecante busca pelo Graal. Monte dos Vendavais (O) - Emily Brontë
Emily Bronté nasce em Howorth em 1818 vindo a morrer de tuberculos de uma forma prematura em 1848 com apenas 30 anos.Nesse curto espaço de tempo legou ao mundo alguns poemas e um único romance: “O Monte dos Vendavais”, publicado por volta de 1846 e que teve o condão de revoltar e escandalizar os poucos que o leram.
No entanto “O Monte dos Vendavais”, “Wuthering Heights” no original, foi considerado no início do séc. XX como um clássico da literatura, sendo também adaptado ao cinema em diversas ocasiões.
Tudo começa em 1801 quando o chefe da família Earnshaw resolve efectuar uma viagem de negócios retornando, semanas depois, na companhia de uma criança orfã que resolve adoptar e a quem dá o nome de Heathcliff.
Depressa os seus dois filhos, Hindley e Catherine, se tomam de ciumes, porém e vendo que o pai votava cada vez mais carinho pelo orfão, Catherine resolve ir-se aproximando, enquanto Hindley empreende o caminho oposto, criando um ódio intenso que servirá de mote ao romance.
Objectivamente este romance é extremamente dramático, incómodo mesmo, faceà expressão de múltiplos sentimentos que Bronté consegue transmitir. Os ódios misturam-se com cenas de humilhação extrema, interligando-se estas com situações de um intenso amor platônico num mundo estranho, tempestuoso, diria mesmo roçando o universo shakesperiano expresso em “Otelo” ou “Romeu e Julieta”.
A ajudar o cenário criado pela autora que, diga-se, é precisamente aquele onde ela nasceu e cresceu, mas a escritora denota também um profundo conhecimento da realidade narrada o que torna, dessa forma, o livro algo assustador, com o quê de fantasmagórico.
É um livro trágico, insano em parte, pontuado por diversas situações de puro ódio, pura maldade, mas também assente num amor digo de uma Ofélia ou Julieta.
Um clássico de uma autora que conseguiu exprimir várias condições humanas, num estilo que caracteriza também a época vitoriana, evidenciado, contudo, ideais de liberdade e idependência no pensamento, algo que explica a forma como escandalizou os leitores da época.
Insaciável Homem-Aranha (O) - Pedro Juan Gutiérrez
Comparado por muitos a Henry Miller ou a Charles Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez tornou-se, com os aclamados “Trilogia Suja de Havana”, o “Rei de Havana” e Animal Tropical” um cronista da crua realidade cubana e também um autor de culto para muitos leitores que se revêm na forma apaixonada como ele descreve o quotidiano de um povo martirizado por 40 anos de ditadura.Neste “O Insaciável Homem-Aranha”, um conjunto de contos onde Pedro Juan intrelaça ficção e realidade, surge-nos todo um contexto dominado pelo amor, sexo, ódio e frustações num país que prende e oprime o povo de uma forma desumana.
Tal como nas suas anteriores obras, Pedro Juan não faz qualquer tipo de concessão e todos os contos são pródigos em narrar a imensa pobreza a que o povo está votado, a imensa onda de oportunistas que o povo cubano se obriga a ser, numa mistura explosiva de sexo e alcool onde o dinheiro está, quase sempre, à frente de quaisquer sentimentos.
Por outro lado Pedro Juan emprega uma ironia e uma mordacidade que chega a ser mórbida (passe a expressão) no sentido de não mostrar qualquer tipo de pena e remorço por certas atitudes descritas e das quais ele se aproveita, chegando mesmo a demonstrar prazer. É de levar às lágrimas certas descrições dos seus dias, das idas às compras em Havana, das viagens nos autocorros hiper-lotados onde o mesmo se aproveita para se roçar nas roliças fêmeas cubanas...
Um escritor que admiro, não só pela coragem que demonstra, o que denota também um desprendimento e, se calhar, um grito de angústia ao mundo, mas também pela forma como consegue transmitir a situação desse país caribenho que muitos conhecem pelas excelentes praias e marisco, mas que estão longe de saber que tudo isso jamais é usufruido pelo povo cubano.
Fúria das Vinhas (A) - Francisco Moita Flores
Em 2004 Francisco Moita Flores escreveu para a RTP uma série televisiva denominada “A Ferreirinha” onde retratava a vida de Antónia Adelaide Ferreira (1811-1896), conhecida por Ferreirinha e responsável pela dinamização da produção do vinho do Porto catapultando-o definitivamente para o seio dos grandes vinhos internacionais.Dessa série, da qual guardo grandes e gratas recordações tal a sua beleza, ficou a imagem de uma mulher de garra com uma visão estratégica enorme e um sentido de justiça e humanidade tão raro, uma verdadeira benemérita para o povo.
Neste livro “A Fúria das Vinhas”, Moita Flores propõe dois desafios: duas histórias distintas mas com vários denominadores comuns espelhados nas terras do Douro novecentista que lhes servem de cenário.
Segundo Moita Flores, este romance recupera factos e histórias que ele não incluiu na série “A Ferreirinha”, e isso é perfeitamente perceptível, para quem assistiu à série, nas descrições das paisagens e até nos diálogos. Porém Moita Flores consegue igualmente transmitir a imensa força e alma que tinha a D. Antónia e o que ela representava para as gentes do Douro, o quanto ela amava aquelas terras que estavam sempre acima de qualquer interesse pessoal, assim como e isso no livro é bem explorado, a imensa praga que foi a filoxera e o quanto trabalho deu a exterminá-la.
Por outro lado e interligada com a história da Ferreirinha e da guerra à filoxera, Moita Flores cria um cenário de vários assassinatos de jovens virgens, abrindo assim espaço para não só descorrer sobre as mentalidades ultra-religiosas, conservadoras e supersticiosas de um Portugal rural temente a Deus, como também abre igualmente espaço para narrar o início dos processos, ou se quisermos, da entrada em Portugal dos processos de investigação científica e criminal que, na altura, estavam em voga na Europa e que tanta tinta e palavras fazia correr.
Numa época onde os assassinatos descritos eram atribuidos a ataques de lobos ou a actos do demónio, o autor, cria uma simpática personagem que faz lembrar Sherlock Holmes (criada na época pos Conan Doyle) e que vai assim introduzir ou ser o percursos de métodos de investigação científicos assente na dedução, na observação e análise, algo que foi uma autêntica pedrada no charco, para além dos imensos obstáculos que teve de derrubar para ser levado a sério.
Isso é muito interessante e associado ao combate à filoxera tendo como base a alma de D. Antónia, transforma este livro numa pérola da nossa literatura e num hino de louvor à memória de D. Antónia Adelaide Ferreira que falecendo em 1896 manteve-se viva na memória das gentes e terras do Douro e naqueles que amam o empreendadorismo.
“O segredo da nossa casa foi termos posto a qualidade dos nossos vinhos acima de outro interesse, e o melhor vinho só pode sair de boas vinhas, e só são boas se forem cuidadas, trabalhadas com paixão. É por isso que quem trabalha para nós tem de ser bem tratado, respeitado e acarinhado.”
Há 130 anos D. Antónia tinha este discurso.
Há 130 anos tinha uma imagem da importância da qualidade e das pessoas enquanto bens mais valiosos de uma indústria.
130 anos depois a maioria das pessoas e, mais grave, dos empresários, nem sabe o que é qualidade e da sua imensa importância estratégica.
Um livro irrepreensível que aconselho a todos.
Filipa de Lencastre - Isabel Stilwell
Burford Castle, Maio de 1364, Philippa of Lencaster percorre os vastos corredores estranhando aquele silêncio. Gelada, vê a sua ama, Maud, passar apressada com algo nas mãos. Resolve segui-la sem saber o que irá encontrar.É assim que se inicia este romance de Isabel Stilwell que visa a narração da vida de um das mais importantes e amadas rainhas de Portugal. Desde a infância até à sua morte em 1415, Stilwell consegue de facto desenhar um fresco muito interessante da vida de D. Filipa, porém existem falhas que embora possam ser desvalorizadas dada a imensidão do trabalho de investigação, quanto a mim devem ser mencionadas sem que estas diminuam o valor do livro, pois essas falhas não são propriamente de cariz Histórico.
Dividido em duas fases, e ambas assentes na apresentação de árvores geneológicas, a primeira fase dá-nos a conhecer a infância de Philippa of Lencaster, filha primogénita de John of Gaunt, neta do rei Edward III, prima direita do futuro rei Richard III (a sua vida foi retractada por Shakespeare com a pela Richard III) e irmã de outro rei, Henry IV (também retractada por Shakespeare na pela Henry IV e, curiosamente, uma das minhas peças preferidas).
Philippa pertencia assim, em linha directa, à casa real inglesa, crescendo numa corte opulenta do séc. XIV, rodeada de damas, cavaleiros e intrigas, pese embota John of Gaunt, que chefiava o exército inglês que o levava a andar em sucessivas campanhas, fizesse deslocar a família de castelo em castelo, tornando assim a vida dos seus filhos excitante face aos constantes cenários vividos.
Toda essa fase está descrita pela autora que, resta-me, acreditar na sua investigação, pois será importante na evolução do carácter de D. Filipa.
A segunda fase do romance, que é também a maior, começa com a ida de D. Philippa para Portugal onde a espera um casamento de conveniência com o rei D. João I.
A conveniência do casamento está muito bem explicada e historicamente está irrepreensível.
Assim D. Philippa casa com D. João I em 1387, iniciando-se uma nova vida agora denominada D. Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal e benfeitora do povo.
As descrições da Inglaterra e Portugal medieval são excelentes. Stilwell consegue de facto transmitir o ambiente da época nas cortes onde as intrigas abundavam.
Muito bem também a descrição da verdadeira e visível faceta de D. Filipa: o seu sentido empreendedor, voluntarioso e determinado. Não é por acaso qe são os seus filhos que iniciam o grande desenvolvimento do país ( a célebre Ínclita Geração). A educação que D. Filipa lhes porpocona, assim como dos contactos que ela estabelece, incentiva a famosa prole em busca de um rumo que mudaria a face da nação e até do mundo.
No livro isso está muito presente e a influência de D. Filipa, a vários níveis, é imensa. Eu acredito que assim foi, pois também é conhecida a imensa consideração que os seus filhos tinham por ela (D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Isabel, D. João e D. Fernando – todos eles extraordinários).
Excelente e valiosas as imagens, algumas delas pintadas na época, que compõem o livro, enriquecendo-o.
Mas o livri não tem só factos positivos.
A meu ver peca por situar a acção apenas nas cortes e o seio de D. Filipa.
Numa época extremamente violenta e recheada de acontecimentos vitais para o futuro da Europa, onde praticamente todas as cortes se guerreavam entre si (quando não era também no seu seio), Stilwell passa completamente ao lado desses conflitos, jamais deixando transparecer grandes climas conflituosos, parecendo sempre que tudo está na paz dos deuses. Repare-se, por exemplo, na célebre revolta dos camponeses que foi um acontecimento importantíssimo na Europa medieval, tem aqui uma breve abordagem e apenas porque a família Lencaster viu o seu castelo atacado, mas nunca Stilweel deixa perceber a importância dessa revolta nem dos terríveis acontecimentos que marcaram aquela época. Para não falar também na batalha de Aljubarrota, pouco antes do casamento de D. Filipa com D. João I, que levou inclusivamente à construção do Mosteiro da Batalha, construção essa que teve a “mão” de D. Filipa.
Mas não se fica por aqui.
Na corte de Portugal, surge-nos um D. João I demasiado banana, que se deixa constantemente vergar pela mulher e, imagine-se, enganar por vários conselheiros. Um rei que foi um dos principais monarcas do país, responsável, entre outras coisas, pelo acordo Luso-britânico que vigora até hoje, pela extraordinária vitória em Aljubarrota e pela tomada de Ceuta, é aqui retractado como um homem que vivia para as caçadas e para a família.
Num ambiente muito “cor-de-rosa”, cheio de amor entre o rei e a rainha, surge-nos D. Nuno Álvares Pereira, o condestável e protector do reino, figura decisiva em Aljubarrota. Mas aqui há enormes contracensos. Se bem que foi verdade que D. Nuno era uma figura muita tida e respeitada pelo rei e que esse o chegou a proibir de agir como um monarca nas terras oferecidas pelo rei, por outro lado descreve o condestável como um homem muito religioso que ouvia três missas por dia. Isso é também verdade, mas Stilwell não explica a mudança operada em Nuno Álvares Pereira após a morte da mulher e isso é uma falha importante porque, para quem desconhece o que aconteceu, coloca várias questões e uma série de incoerências factuais que era escusado.
Mas o romance não se desvirtua por isso. Aqui é apenas questões de estilo que admiro nos romances históricos. Prefiro aqueles mais realistas à épca descrita, assim como prefiro outros pormenores que aqui são declinados, porém a verdadeira intenção da autora é romancear a vida de D. Filipa de Lencastre, mãe da Ínclita Geração, e isso é plenamente conseguido, ficando-nos a clara ideia do que foi a sua vida e da importância que teve a formação da identidade nacional.
Por último ressalvo a parte final do livro onde a autora descreve os “caminhos de Philippa” e o que ainda pode ser visto e visitado. Realço o Palácio da Vila em Sintra, conhecido também como o Paço da Rainha, onde sobressaem duas chaminés imensas impostas por D. Filipa que tomou aquele palácio como um dos seus favoritos e principal local de férias.
sábado, 18 de agosto de 2007
Ana Karenina - Leon Tolstói
As obras de Tolstoi são sempre extensas e muito complexas. Em todas elas o escritor mostra um extremo gosto em utilizar um elevado número de personagens que, com a sua propensão em brincar com os nomes, torna a história difícil de ser acompanhada. E, por falar em nomes, quero aqui referir algo que explica o porquê de os autores russos utilizarem quase sempre três nomes para representar um personagem. Por exemplo, neste romance um dos personagens que mais apreciei chama-se Stepane Arcadievitch, também referenciado por Oblonski e Stiva. Ora bem, toda esta confusão, deriva de uma convenção própria do sistema russo. Qualquer natural da Rússia tem um primeiro nome (ex: Stepane), um patronímico (relativo ao pai, ex: Arcadievitch) e um apelido (ex: Oblonski). O patronímico é composto pelo primeiro nome do pai acompanhado de um sufixo que significa "filho(a) de", ex: Arcadievitch (filho de Arcadi) e o diminutivo de Stepane é Stiva. No caso das senhora é algo diferente, na convenção elas usam o apelido do marido, ex: Agata Mikhailovna (mulher de Mikhail), Karenina (mulher de Karenin) e Kitty é diminutivo de Katerina. É algo confuso, mas depois de percebermos a lógica, esta informação é bastante útil para conseguirmos entender todo o "fio" de qualquer romance russo, pois e no caso de Tolstoi torna-se bastante útil dado a enormidade de personagens utilizados e os nomes a triplicar que todos eles têm. De salientar que consegui esta informação numa insistente busca na net. Mil e Uma Noites (As) - Vários
As Mil e Uma Noite era daquelas obra que há muito constavam na minha lista de clássicos. No entanto e aproveitando a recente edição do Jornal de Notícias, só agora é que me lancei neste aventura de a ler, porque acreditem que é mesmo uma grande aventura ler este conjunto de contos. Trilogia de Nova Iorque - Paul Auster
Trilogia de Nova Iorque foi, até agora, o único livro que li de Paul Auster. Aproveitando a sua saída na Colecção do Público “Mil Folhas”, este livro revelou-se um policial por excelência. Primo Basílio (O) - Eça de Queirós
Em o "Primo Basílio" Eça escreve mais uma etapa do seu projecto "Crónicas da vida portuguesa", onde ele se propunha a efectuar 12 romances em que abordaria todas as características da vida portuguesa. Esse projecto nunca foi terminado, mas não o impediu de escrever alguns romances extraordinários, reflectindo a sociedade portuguesa dos finais do século XIX.Este romance é, na minha humilde opinião, aquele onde Eça consegue pintar o fresco mais real da aristocracia lisboeta (e portuguesa) do final do século XIX e também é aquele onde ele onde efectua as mais minuciosas análises psicológicas. É interessante verificar a constante luta moral ao longo do livro. À medida que a história se desenrola, é comum sermos confrontados com questões morais pertinentes e inclusivamente convenções sociais que são quebradas de uma forma abrupta e escandalosa. Um jogo que o autor, propositadamente, procura jogar com as regras da época e que tanta celeuma levantou na altura da publicação e que, cá para nós, tantas questões ainda levanta se a analisarmos à luz das actuais convenções morais.
A história é simples de resumir: Luísa é uma mulher casada que se vê sozinha em Lisboa depois de o seu marido ter que se ausentar em trabalho para o Alentejo. Começa então a receber visitas diárias de um primo (Basílio) que se encontra em Lisboa. Daí até ao envolvimento de ambos vai um curto passo e começam-se a encontrar numa outra casa. Esta relação é descoberta por Juliana, a criada de Luísa que a começa a chantagear com a ameaça de contar tudo ao marido de Luísa. Basílio, que apenas vê em Luísa uma espécie de diversão para os seus tempos livres, resolve fugir de Lisboa quando Luísa lhe pede ajuda (um pulha), e é então que os papéis entre Luísa e Juliana se invertem: A senhora passa a ser a criada e a criada passa a ser a senhora. Aí Eça é genial na forma como aborda a questão, assim como na análise deste facto, descrevendo-nos situações verdadeiramente humilhantes para Luísa.
De notar que a abordagem de Eça ao adultério não foi por caso. Repare-se que a convenção da época era permissiva em relação ao homem e radicalmente subversiva em relação à mulher. Digo mais, pelo que percebi dos vários romances que tenho lido, russos, portugueses, ingleses e franceses, era até visto como sinal de virilidade um homem ter uma amante e veja que ( e quem ler o livro irá perceber) Basílio é visto como um homem que não faz nada de mal (inclusivamente Basílio ocupa um papel secundário), aqui o pecado é de Luísa. Ela é que comete adultério. O marido de Luísa, na sua viagem de trabalho, também comete adultério, no entanto aponta-se o dedo a Luísa, ou seja, todos andam na coboidada, mas apenas Luísa tem a obrigação de "pagar a factura".
Embora não seja o meu romance preferido do mestre Eça, este é sem dúvida um relato fiel dessa época, onde relações extraconjugais eram vista como normais no seio masculino, mas completamente proibidas às senhoras.
Mas como costumo questionar nos livros de Eça: "Será que a nossa sociedade mudou alguma coisa?"
Proibido - António Costa Santos
António Costa Santos, jornalista, guionista e escritor, rompe o anonimato com este livro “Proibido” onde, sempre num tom irónico e sarcástico, mas muito bem estruturado e delineado, descreve algumas das muitas proibições que o Estado Novo impôs ao povo português por mais de quarenta anos, nomeadamente e como é fácil de perceber, durante a vigência do fascismo.Começando como “Era proibido quase tudo”, António Santos começa por referir algo muito curioso e igualmente verdadeiro: os portugueses sempre gostaram de se proibir uns aos outros. Sociológicamente a maneira de ser lusa sempre foi o de apanhar o outro em falta, logo, o regime apenas se aproveitou desse estranho sindrome para proibir tudo e mais alguma coisa, notado contudo que havia certas obrigatoriedades que não exisitiam na legislação mas que de acordo com esse tal sindroma, parecia mal ou não se fazia porque sim, logo, passava a ser obrigatório.
E é assim que tomamos conhecimento, para quem desconhece, de algumas atrocidades cometidas em prol dos bons costumes, tais como: “Proibido usar biquini”, “Poribido uma mulher entrar numa igreja de cabeça descoberta” (aqui há uma explicação muito curiosa sobre o homem ter que tirar o chapéu na igreja e a mulher ser o inverso), “Proibido ir de mini-saia para o liceu”, “Proibido ler certos livros”, “Editar e vender certos livros”, “beber coca-cola”, “proibido realizar certos filmes”, etc, etc e etc de proibidos, algumas verdadeiramente descabidas e hilariantes e outras no minino estranhas.
No fim brinda-nos com algumas proibições dos nossos dias para mostrar, e isso sente-se em todo o livro, que o tempo da “outra senhora” (leia-se Salazar em código), não está assim tão longe quanto isso e que essa onda de proibições do passado pode até ser um bom aviso para o presente...
domingo, 29 de julho de 2007
Crime e Castigo - Fedor Dostoievsky
Fiodor Dostoievski é considerado, e justamente, como um dos grandes escritores russos e um dos maiores escritores universais de todos os tempos. Nascido em Moscovo em 1821, Dostoievski teve uma infância algo triste, caracterizada pela profunda austeridade do seu pai, austeridade essa que se estendia igualmente ao seu irmão mais velho e à sua mãe, que viria a falecer quando ele contava apenas 10 anos. "chamam-me psicólogo, mas não é verdade. Sou apenas um realista no mais alto sentido, ou seja, retracto todas as profundezas da alma humana.” - Fiodor Dostoievski