sábado, 6 de outubro de 2007

Natal do sr. Scrooge (O) - Charles Dickens

Scrooge. – Disparate! Feliz Natal? Que razões tens para te sentires feliz? És pobre!..."
Há muitos anos que esta passagem me acompanha assim como a obra de Charles Dickens. Não que tenha alguma beleza literária, mas apenas porque, para mim, significa a beleza do Natal e o imenso significado que ele tem. Independentemente do consumismo e da hipocrisia que reina nessa época, o Natal, na sua génese, antecede a era cristã em cerca de 2.000 anos. Claro que não se festejava como actualmente, mas na época em causa, na antiga Mesopotâmia, realizavam-se festejos populares onde se comemorava o solísticio de inverno e, nessas festas pagãs, já existia o ritual das árvores iluminadas por muitas velas e ofereciam-se objectos uns aos outros como sinal de amizade e paz.
Claro que o cristianismo usurpou toda esta tradição, sendo, hoje em dia o Natal uma festa cristã onde se celebra o nascimento de Cristo e as prendas um ritual que celebra os reis magos.
Assim o Natal, originalmente, representava a época onde se festejava a natureza e a paz com a família e os amigos, e é assim que fui educado e é assim que educo e que gosto de ver e sentir o Natal, talvez a época do ano mais importante para mim. Desde criança que a minha família cultivou esse amor e não é por acaso que grande parte das minhas recordações de infância têm em comum o Natal.
Mas tudo isto porque pretendo exprimir o fascínio que para mim representa essa época: os sons, as cores, os cheiros, tudo característico e que me transporta à minha infância e que me traz doces recordações familiares.
Em 1843, o Natal era visto, em todo o mundo cristão, como uma festa religiosa com muito pouca festividade, pelo menos sem a festividade que hoje se conhece. Até que nesse ano, um senhor chamado Charles Dickens, publica um conto, pago inteiramente do seu bolso, intitulado O Natal do sr. Scrooge, publicado na semana anterior ao Natal de 1843. E não é que é devido a esse conto que surge o conceito de Natal que o mundo ocidental tem hoje?
Sabe-se que Charles Dickens gostava muito da época de Natal e que se entristecia por ver os seus conterrâneos darem pouco ou nenhum valor à época. Pai de cinco filhos e profundamente dedicado à família, Dickens escreve um conto de Natal que resolve publicar estrategicamente na semana anterior e é precisamente devido a essa publicação que o Natal se começou a impor.
O Natal do sr. Scrooge narra a história de um velho sovina que acha que o Natal é um monte de disparates. Homem solitário, tem uma firma onde emprega o seu jovem sobrinho, pobre de recursos mas rico em sentimentos, a quem trata e julga como um miserável. Na véspera de Natal e estando sozinho em sua casa, recebe a visita do fantasma do seu antigo sócio Marley, que lhe comunica que nessa mesma noite irá receber a visita de três espíritos: O do Natal Passado, O do Natal Presente e o do Natal Futuro. Mesmo falando com o fantasma de Marley, Scrooge escarnece do assunto e, após a partida do fantasma, decide voltar a adormecer. Até que quando bate a uma hora da manhã, Scrooge é acordado por terríveis pancadas que anunciam o espírito do Natal Passado. Sucessivamente e nessa noite, surgem-lhe os três fantasmas anunciados que o levam a visitar algo ou alguém, provocando assim uma completa transformação da personalidade de Scrooge, transformando-o num homem bom, generoso e honesto.
A mensagem é simples mas bonita: Bondade, amizade, união familiar e generosidade. São estes, talvez, os quatro pilares do Natal e, não deixa de ser tocante e marcante a transformação que é operada em Scrooge, fazendo-o ver o quanto é errado o seu comportamento e que ainda há pessoas que o amam.

Sinos do Ano Novo (Os) - Charles Dickens

No conto, Os Sinos do Ano Novo, publicado exactamente um ano depois, a receita é bastante idêntica. A acção decorre no último dia do ano, tendo como principal protagonista um bondoso e generoso homem, Toby Veck, que é em tudo contrário a Scrooge. Saindo nessa noite, acaba por adormecer (salvo erro numa igreja) e tem um sonho que lhe permitirá observar o seu futuro e o da sua adorada filha. Um conto mais pequeno, mas cheio de significado e acima de tudo, com uma mensagem de esperança num futuro que pode ser sempre melhor do que o presente.
Gosto muito de Charles Dickens. Da sua escrita, da forma como constrói as histórias, dos personagens que criou, etc. embora tenha sido um escritor que escrevia sobre os males morais e físicos, trazendo ao de cimo os males e injustiças sociais da sua Inglaterra vitoriana, a escrita dele é ternurenta e mágica. Nas suas obras somos constantemente envolvidos por uma teia cheia de poesia, amor e significado. As descrições que tanto gostava, são perfeitamente visíveis e compreensíveis, o leitor é assim convidado a participar na história, pois tão depressa sentimos alegria como, logo a seguir, uma imensa tristeza sobressai dos seus textos, sempre assente numa escrita fluída e eficaz.
Quem nunca ouviu falar de Ebenezer Scrooge, David Cooperfield ou Oliver Twist? Todas elas personagens literárias famosíssimas que se confundem com a vida real, marcos de uma época, de um escritor que, considero um dos 5 melhores escritores de todos os tempos.
Charles Dickens faleceu em 1870, o seu legado proporciona-nos obras de uma grandeza humana impar, onde o amor ao próximo, o sofrimento causado pela sociedade (que ele constantemente criticou), a alegria, a tristeza e a condição humana são destacadas de uma forma única em toda a literatura.
Pessoalmente, e repito, sou um apaixonado pela obra de Dickens. Pretendo, no futuro, opinar sobre todas as suas grandes obras: ”David Copperfield; ”Oliver Twist”; ”Grandes Esperanças” e ”Loja de Antiguidades”.

Eu, Cláudio - Robert Graves

Embora seja um leitor compulsivo de romances históricos, até à data não havia lido nenhum que tivesse como "cenário" o império romano e, o pouco que sei desse Grande Império é devido a programas de História que vão passando nos nossos canais por cabo. Assim e a conselho duma ilustre livriana, lancei-me na aventura de ler "Eu, Cláudio", livro escrito em 1941 por Robert Graves.
"Eu, Cláudio" relata 82 anos da História do Império Romano (41 a.c. a 41 d.c.). Toda a narrativa é nos contada na primeira pessoa por Tibério Cláudio Druso Nero Germânico, filho de Germânico e Antónia, neto de Lívia e por afinidade do imperador Augusto, sobrinho do imperador Tibério e tio de Calígula, outro famoso imperador.
"Cláudio, o gago"; "Cláudio, o idiota"; "Esse Cláudio"; "o pobre tio Cláudio" ou "Cláu, Cláu, Cláudio", é um homem que teve a sorte (já irão perceber porquê) de nascer coxo, gago, surdo de um ouvido e tido por quase todos, desde a sua infância, como sendo um imbecil. Devido a esse facto e embora pertença à família imperial, é colocado de parte e é entregue para que seja educado a Atenodoro que depressa se apercebe na imensa inteligência e perspicácia de Cláudio, dando-lhe então as bases para ele se tornar num minucioso historiador.
E é precisamente nessa perspectiva que Cláudio faz a narração dos acontecimentos que assolaram o império nos anos antes referidos.
Das personagens que vão desfilando, realço especialmente os imperadores Augusto, Tibério e Calígula. Enquanto Augusto se revela um homem com ideias e actos grandiosos, Tibério já se mostra algo fraco, revelando um gosto obsessivo por depravações sexuais. No entanto, o pior de todos e aquele que mais me impressionou é Calígula. Um homem que se julga um Deus. É completamente louco, manda assassinar quem quer e onde quer. Os acontecimentos absurdos e sádicos sucedem-se a um ritmo demente. Lembro-me que chega a nomear o seu cavalo para o cargo de senador, num casamento para o qual havia sido convidado e só por ver o noivo beijar a noiva, decide logo ali casar com ela, o que faz logo no dia seguinte, obrigando o noivo a assistir. Inventa leilões só para ganhar dinheiro, indo ao ponto de levar 20.000 moedas de ouro por uma sandália, não o par, mas uma única sandália. Um período completamente absurdo onde governou pelo terror. Mas a mais marcante talvez seja Lívia, mulher do imperador Augusto, que se revela uma mulher impiedosa, não olhando a meios nem a laços familiares para defender os seus interesses. E é nas descrições desses jogos e conspirações palacianas, que o romance gira, ficando assim com uma ideia clara da política, do interesseirismo que caracterizava o Império Romano.
"Eu, Cláudio" é um livro excepcional que, na minha opinião e embora eu admita não ter conhecimentos sobre a época que me ajudem a avaliar a exactidão Histórica da obra, mas e quanto a mim, peca apenas pelas imensas personagens que nele desfilam, personagens esses que, por vezes, não têm grande relevância na história. Mas é uma obra que nos revela a magnificência desse grandioso império, os jogos de interesse que iam ao ponto de alguém se divorciar só para casar com outro ou o próprio imperador decidir que aquele se divorciaria daquela para ir para outra. Há espaço também para a descrição das guerras com os germânicos, dos espectáculos sangrentos das arenas onde se digladiavam desde escravos, até simples cidadãos; inclusivamente aborda-se, embora de uma forma leve, a vinda do salvador que Calígula julgava ser ele (era da idade de Jesus Cristo).
Um livro apaixonante que se lê com um interesse redobrado, tal o encadeamento de toda a história, ajudando também a escrita fluída e simples que consegue "agarrar" o leitor do princípio ao fim.
Para findar, achei muito interessante a forma hilariante como Cláudio narra certos acontecimentos passados com ele e sobretudo com o louco Calígula. O homem julgava um ser divino e, por causa disso, Cláudio narra factos imensamente hilariantes que me levaram a dar imensa gargalhadas.
E a sorte dele foi mesmo ter nascido cheio de defeitos porque é precisamente por isso e por o terem sempre achado que era um imbecil que consegue passar sempre despercebido, nunca o vêm como um possível inimigo ou adversário, logo, deixam-no sossegado, no seu cantinho, entretido a escrever histórias.
Aconselho!

Pilares da Terra (Os) - Ken Follett

Apaixonado por romances históricos, ando constantemente à procura de livros do género, lendo opiniões e recensões, efectuando análises e buscas em variadíssimos sites, sempre esperançado na descoberta de um novo título, num novo autor.
Existindo actualmente muitos e bons livros, considero apaixonante os romances históricos porque permitem ao leitor uma digressão e uma percepção da época abordada, do seu modo de vida, forma de pensamento, de estar e de agir.
Assim e ao longo de muitos anos que levo como leitor compulsivo (HÁ QUE O DIZER ABERTAMENTE), tive o imenso prazer de ler romances históricos memoráveis, verdadeiras pérolas da literatura universal, que muito me ensinaram sobre os povos, sua cultura, usos e costumes da época em questão. Senti-me sempre como um deles, fiz amizades com reis, imperadores, bispos, papas, gente do povo, ricos homens, homens primitivos, soldados, generais, etc, etc. Sofri e pensei com e como eles, interagindo no seu mundo que foi também o meu mundo.
Há tempos, aconselharam-me uma obra que, segundo esse pessoa, teria sido um dos melhores livros que já tinha lido. Pois bem, aceitei essa sugestão e comecei à procura do livro... debalde, o livro está esgotado em toda a parte e até a editora, aparentemente, faliu, logo só consegui achar este livro na biblioteca cá da zona e voilá.
O livro é vasto!
Com 916 páginas, cerca de 3 kg. de peso, este é uma obra que podemos considerar, literalmente, de peso. Acima de tudo, de peso na literatura universal.
Escrito por Ken Follett, escritor galês, conhecido e apreciado pelos seus sucessos na literatura policial e de espionagem, "Os Pilares da Terra" começou a ser a ser concebido na década de 70 quando Follett visitou uma catedral medieval na cidade de Peterborough. Esta visita fez nascer nele uma verdadeira obsessão por aquelas elegantes construções, iniciando então uma pesquisa sobre catedrais e sobre a época medieval da Inglaterra do séc. XII.
Então em 1989 Follett publica "Os Pilares da Terra" e acreditem que ao fazê-lo, deu ao mundo uma obra colossal que se não fosse alguns pequenos erros históricos, tinha tudo para ser a melhor obra que já li até à data.
A HISTÓRIA:
Inglaterra, 1123, um homem é enforcado numa praça cheia de gente que se acotovela para ver a face da morte. Quando ela está expressa na face daquele homem, uma jovem mulher, grávida, profere uma maldição fugindo logo de seguida. Os presentes ficam atemorizados, essa maldição irá percutir-se no futuro e inicia-se desta forma uma história que tem como protagonistas principais uma catedral e a época.
Assente em várias histórias paralelas, todas elas com um fio condutor que as une, Ken Follett consegue reconstituir magistralmente aquela época, construindo um painel de personagens que abrande todos os géneros: O clero, onde o prior Philip e o malévolo Valeron Bigot são a sua face para o bem e para o mal; O Povo, por Tom Builder, Alfredo e Jack; A aristocracia, com Aliena, Richard, William Hamleigh, o sanguinário cavaleiro que se vê conde; O rei que surge a espaços; Os proscritos, gente sem casa, sem nada, representada por Ellen. Ou seja, Follett teve o cuidado de reconstruir toda a sociedade da época o que, na minha opinião, é uma das principais razões da beleza deste livro.
Todos estes personagens gravitam em torno da construção da catedral de Kingsbridge cujo priorado, dirigido por Philip é o responsável. E é devido a essa construção que nos surge um painel de tempos conturbados, varridos por uma guerra civil recheada de conspirações, jogos labirínticos pelo poder e muita violência, aliás, Follett não omite a enorme violência daquela altura, existem muitos acontecimentos ao longo do livro onde ele não tem pejo em descrever a violência exercida. As mortes são atrozes, os assassinatos são cometidos de uma forma quase normal, a matança de crianças é mencionada e descrita, as violações são cometidas à vista de todos e recordo-me de quando um nobre viola uma prostitua com toda a gente a assistir e sem que ninguém tenha feito nada, aliás ele viola-a, obriga um amigo a fazer outra coisa e ainda batem na prostituta. O assassinato de Thomas Becket, para além de ser fria e violenta, tem contornos sádicos, pois depois de lhe abrirem a cabeça com uma espada cujo golpe é tão violenta que a espada se quebra, há um cavaleiro que mete a ponta da sua espada na cabeça aberta do bispo e lhe tira os miolos espalhando-os pelo chão...
Mas pessoalmente gosto assim, quanto mais fiel melhor e todos sabemos que essa época foi violenta, então o melhor é saber-se como as coisas efectivamente se passavam.
Mas a história inicia-se , 1123 e finda em 1174. Cerca de 50 anos de acontecimentos da História da Inglaterra. A guerra civil travada pelo trono de Inglaterra; a movimentações políticas e religiosas entre o clero e a nobreza que tem como ponto culminante e de viragem aquando do assassinato de Thomas Becket a mando do rei Henrique II; os episódios com os proscritos envolvendo assaltos e fazendo lembrar o Robin Hood, enfim, um painel riquíssimo.
De salientar a descrição do modo de vida das pessoas, as suas imensas superstições. Follett não deixa escapar o constante confronto entre os Homens e Deus, onde os Homens eram simplesmente manipulados pelos padres que, sabendo do temor dos Homens a Deus, não se coíbem de os mandar fazer tudo o que eles querem para depois os perdoarem através da confissão.
Gostei também da forma exímia como ele descreve o modo de vida das cidades, vilas e aldeias, da forma de organização e do que era necessário para se fazerem feiras e da sua importância para aquela sociedade. A vida nos castelos e nas abadias, até a vida que alguns levavam na floresta nos é apresentada.
Descrito é também a arquitectura das catedrais e a forma como se constróem. A forma de calcular as suas medidas, do estilo romântico ao surgimento do estilo gótico vindo do Oriente.
Dos personagens e como em todos os livros, existem aqueles com quem simpatizamos e outros que odiamos. Aqui há aqueles que são tão asquerosos que aplaudimos a fim que têm, os outros, aqueles de quem gostamos, deixam-nos uma terrível saudade.
No entanto este não é um romance histórico perfeito e simplesmente porque Follett comete alguns erros de análise histórica que, depois de 15 anos de estudo, tinha a obrigação de não cometer.
1º: Naquela época era impossível a forma como Follett descreve a sucessão ou a queda de um nobre. Penso que ele se deu conta desse erro e tenta desculpar-se com a guerra civil onde o rei fecharia os olhos aos acontecimentos absurdos dessas "quedas".
Depois ele refere também alguns produtos alimentares, como por exemplo o milho, cereal ainda desconhecido na Europa nessa altura. Fala também da Espanha, no entanto a Espanha naquela altura era constituída por uma série de reinos independentes uns dos outros não tendo eu a certeza se já era denominada por Espanha, mas tenho dúvidas. E outros mais pormenores que acabam por abalar um bocadinho a obra.
No entanto não é por causa desse pormenores que o livro perde beleza. É uma narrativa muito didáctica e construtiva, tem aqui e ali algumas falhas históricas mas globalmente está assente em fortes pilares históricos.
Escrito numa linguagem fluida, este é daqueles que se devora de uma forma compulsiva, pois e embora a história seja intrincada e extensa, não sendo por isso possível aqui abordar tudo o que o livro nos oferece, esta é de facto uma história muito boa, Follett consegue ainda criar suspense ao longo da mesma de uma forma quase surrealista.
Depois de lermos "Os Pilares da Terra", ficamos com uma imensa nostalgia. Não só das personagens que desaparecem da nossa vida, como também por uma época passada que por algum tempo foi nossa, uma época que tinha tanto de violento como de fantástico.

Brumas de Avalon (As) - Marion Zimmer Bradley

Apreciador de romances históricos, posso até afirmar que este é o meu género predilecto, há muito que ouvi falar nesta obra de Marion Zimmer Bradley "Brumas de Avalon", composta por 4 volumes com cerca de 300 págs. cada um. Obra de culto para milhares de pessoas, existindo inclusive clubes de fãs da obra, esta era, porém, uma obra que nunca me tinha despertado especial atenção, sobretudo e tenho de o admitir, por ser uma obra que aborda a lenda arturiana numa perspectiva mais ficcional ou, se quiserem, mais fantasiosa, usando a magia como algo de normal numa Era da qual não existem muitos registos, onde imperava a superstição, onde, de facto, tudo era visto como sendo realizado pelos Deuses ou de acordo com as suas vontades, e onde o paganismo começou a perder "terreno" para o cristianismo. Assim, facilmente se constata o muito material que está à disposição dos escritores, sobretudo a nível das lendas e da mitologias, numa época, repito, onde os registos são muito poucos, sendo conhecido inclusive pela época onde a Europa esteve mergulhada nas trevas. De salientar os muitos romances históricos realizados sobre o tema, principalmente a partir da 2ª metade do séc. XX, alguns deles, diga-se, excelentes.
Mas mesmo não sendo o meu estilo de romance, pois não aprecio obras de ficção que contenha magias e afins, houve aqui neste excelente site, duas ilustres e prezadas livrianas que me entusiasmaram com o seu entusiasmo e amor pela obra e, vai daí, lá resolvi meter olhos e cérebro à obra e li, de uma assentada, os 4 volumes.
Primeiro há que salientar a visão que Bradley imprime ao mito. Uma visão feminista, ou seja, toda a história é nos narrada tendo como principais protagonistas as mulheres que compunham a corte do Rei-Supremo. São elas que compõem o ramalhete, são elas que jogam no tabuleiro do poder e no destino da Grã-Bretanha. Igraine, mãe de Artur, Morgaine, a meia-irmã e amante por uma noite de Artur; Gwenhwyfar, mulher de Artur e amante de Lencelet; Viviane, a Senhora do Lago, mãe de Lencelet: Morgause, irmã de Igraine e Viviane, filhas de Taliesin. São estas as principais estrelas e são elas que fazem girar toda a história. Só por este facto o livro começou-me logo a interessar, pois aqui a expressão masculina é quase nula, raramente se sente a barbárie daqueles tempos, os relatos dos combates são inexistentes e tudo parece ser um mar de rosas, cheio de paz e tranquilidade.
Assente nas lendas celtas, nos mistérios obscuros e tradições sagradas que Avalon era a guardiã, Bradley constrói um cenário que tem de tudo no que respeita à lenda arturiana: O Rei Artur; Lencelet; a Távola redonda e os doze cavaleiros que a compunham; Gwenhwyfar; Morgaine; Taliesin o "Merlim"; Camelot; magia por todo o lado; Excalibur; inclusive os episódios de Tristão e Isolda e o atirar a espada Excalibur ao lago são aqui abordados; e sobretudo a doce inocência. Nesta obra todos são inocentes, até aqueles que são fanaticamente religiosos, que cometem continuamente adultério, incesto, sexo em grupo, assassinatos, são sempre inocentes.
No entanto e na minha opinião, a autora tentou fazer da luta das religiões o principal protagonista da obra. Em toda o romance é facilmente perceptível que o mal é o cristianismo que, de início ao fim, tenta-se impor ao paganismo. Bradley insiste continuamente nesta luta, repete a fórmula até à exaustão, as mesmas questões são levantadas n vezes, torna assim a obra algo enfadonha, pelo menos nesse sentido. Claro que sabemos que o cristianismo venceu as crenças pagãs, inclusivamente sobressai as influências que os cultos pagãos tiveram e têm nas tradições cristãs, mas o certo é que Bradleu exagera nessa insistência.
Quanto às personagens: Artur é um homem que promete fidelidade a Avalon e que por influência da diabólica/pura/inocente Gwenhwyfar, se vira completamente do avesso para o cristianismo, transformando-se num homem algo bucólico, fraco. Lencelet, um garanhão parte-corações, jura fidelidade a Artur mas passa a vida na cama de Gwenhwyfar. Gwenhwyfar, educada num convento muito casto, vê-se casada com Artur, no entanto quanto melhor Artur a trata, mais ela suspira por Lencelet e por uma gravidez de qualquer um deles. Morgaine, educada em Avalon e sacerdotisa com 18 anos, logo possuidora de conhecimentos superiores, passa a maior parte da sua vida como açafata de Gwenhwyfar, no entanto tem a visão sagrada mas apenas abraça o seu destino já perto da velhice. E dos restantes personagens nem vou falar porque, quanto a mim, estes são os principais.
Mas não se julgue que não gostei da obra. Li os 4 volumes em 3 semanas, fiquei deliciado com a história, no entanto não posso deixar de criticar o que não apreciei (acima descrito) e principalmente o pouco realismo Histórico da obra, pelo menos no que toca a acção e também no que toca às relações entre as pessoas, são todos sempre muito amigos, muito justos, parece que apenas existe pessoas nos castelos, o povo raramente é mencionado.
No que respeita às descrições dos locais e dos usos e costumes da época e embora também não seja um profundo conhecedor, pareceu-me correcta, embora também me tivesse parecido que existem algumas incongruências temporais entre a época descrita e alguns dos povos e lugares abordados, no entanto, não é nada que tenha grande relevância.
A exaustiva luta entre as religiões também me pareceu de acordo com a História, embora Bradley tenha abusado. Achei curioso as farpas que ela atira ao cristianismo.
Em suma, uma obra muito agradável, que se lê num ápice, com uma escrita fluida, detalhes e curiosidades históricas excelentes, contendo todos os condimentos necessários para o sucesso: Sexo, luxúria, religião, magia, guerras, jogos políticos, interesses, estratégia, enfim, se não fosse alguns excessos que tornam a obra algo repetitiva e previsível, poderia considerá-lo como uma Grande Obra, algo que e na minha modesta opinião, não é.

Stonehenge - Bernard Cornwell

Stonehenge situa-se na zona de Wiltshire, zona rica em ruínas pré-históricas com mais de 350 sepulturas que servem de testemunhas a uma intensa actividade que, outroura, dominou a planície de Salisbury.
Constituído actualmente por um anel de monólitos de arenito ligados por inúmeros lintéis e com uma altura de 5 metros, Stonehenge é apenas uma sombra do monumento/construção que um dia foi. Conhecido pelos saxões por Pedras Erectas "Stonehenge" ou "Hanging Stones" (Pedras Suspensas), enquanto que na época medieval eram conhecidas por "Dança de Gigantes", Stonehenge foi, provavelmente, construída há cerca de 5.000 anos, sendo então constituído por uma formação circular em torno da qual se dispunham 56 fossas formando assim um anel. Investigações efectuadas na segunda metade do séc. XX, colocaram a descoberto evidências claras de uma avenida de monólitos que ligavam o monumento ao rio Avalon, a cerca de 3,2 km de distância. Esses monólitos, assim como aqueles utilizados para edificarem Stonehenge, foram extraídos e transportados desde a zona Sul do País de Gales, a cerca de 320 km de distância. Todo este cuidado e preciosismo dá-nos uma clara ideia da grande importância que Stonehenge constituiu para os seus construtores. Sabe-se também que o monumento teve várias etapas de construção, pois cerca de 1500 após o início da edificação, ainda se procedia a arranjos finais.
Stonehenge é um assunto extraordinário que levanta muitas e pertinentes questões:
Quem a construiu? Qual a sua finalidade? Porquê a necessidade daquele tipo de pedras (pedra-lipes e arenito do País de Gales)? E mais extraordinário fica este mistério quando se sabe que ali foram celebrados ritos funerários; que Stonehenge constituía um sofisticado meio de observação do céu; que se podia tratar de um poderoso templo cósmico dedicado aos doze deuses do zodíaco; que o monumento aponta o exacto momento do nascer do Sol quando os dias são mais longos e, mais extraordinário, como foi possível transportar enorme blocos de pedra de arenito a uma distância tão grande (há uns anos tentou-se recriar esse transporte apenas com as ferramentas da altura e, essa experiência constituiu-se como um autêntico fracasso).
E mais há para dizer. Bernard Cornwell teve a coragem de abordar de frente este mistério e essa coragem é de salientar e louvar.
Famoso pela forma realista e excitante como descreve mundo antigos, Cornwell é, na minha opinião, um dos melhores escritores de romances históricos, sendo autor de uma das melhores obras que alguma vez li: "Crónicas do Senhor da Guerra", e precisamente por ter aquele dom da escrita, de Bernard Cornwell espera-se sempre uma grande narrativa e, afirmo aqui, ele também tem essa responsabilidade.
Neste livro e embora seja impossível não fazermos comparações com a obra acima referida, Cornwell não foge às expectativas, criando um romance excitante, com acção e bastante realista de uma época distante onde existem poucas evidências dos seus habitantes, quanto mais da forma de eles pensarem e agirem.
Na base do livro, embora o seu objectivo seja a construção de Stonehenge, estão três irmãos filhos do chefe de Ratharry, cujos feitios e ambições são completamente distintas. Nessa trilogia de amizades, interesses e conflitos, os mitos, crenças e medos vão interagindo de uma forma convincente com o povo e com o leitor, dando assim origem ao desenvolvimento de uma obra que porá em evidência a supremacia da sua tribo no seio dos Deuses, um importante legado para que jamais esqueçam aquele povo: Stonehenge. E assim Cornwell, assente em profundas pesquisas sobre o tema, dá-nos a sua visão e teoria sobre o assunto: Foi um monumento construído para efeitos religiosos. Talvez!, digo eu.
Uma obra que me apaixonou, sobretudo pela forma como Cornwell dá vida aos personagens, pela forma como consegue tornar real as suas descrições e, principalmente, volto a repetir, pela sua enorme coragem em, através do romance histórico, abordar um assunto que mais ninguém abordou.
Uma narrativa excelente, mas que perde um bocado, pelo menos em relação a "Crónicas do Senhor da Guerra", pela quase ausência de suspense, ou seja, Cornwell não tem muito para explorar em relação a batalhas e acontecimentos sangrentos, facto que fazem de "Crónicas do Senhor da Guerra" uma obra monumental.
Um livro que aconselho e que consegue dar uma visão realista desses tempos tao longínquos e desconhecido.

Nome da Rosa (O) - Umberto Ecco

Em 1968 foi parar às mãos de Umberto Eco um livro de um tal abade Vallet :"Le Manuscript de Dom Adso de Melk", que afirmava reproduzir fielmente um manuscrito o séc. XIV que havia sido encontrado no mosteiro de Melk. Entusiasmado e intrigado com tal achado, Umberto Eco levou a cabo algumas pesquisas que o levaram a concluir que as memórias de Adso narravam efectivamente acontecimentos reais que estavam envoltos em muitos mistérios, a começar na localização da abadia que Adso nunca revela, no entanto e pelas descrições de Adso, Eco consegue localizar a sua situação geográfica numa zona imprecisa entre Pomposa e Conques, ao longo da cadeia dos Apeninos, entre o Piemonte, a Ligúria e a França.
Assim, tido como verídico, estes acontecimentos datam do ano de 1327, período da idade média conhecido como "período das trevas", dominado pelo Papa João XXI que, anos antes havia-se aliado ao rei de França na acusação que levou à extinção da Ordem dos Templários. Curioso que este Papa foi, em 1322 acusado de herético por Luís, o Bávaro.
É pois nesta Europa atolada em interesses políticos e pela inquisição, completamente dominada por uma igreja corrupta que granjeava inimigos em todos os lados, que Adso, já envelhecido, se propõe a escrever o seu testemunho sobre os admiráveis e terríveis acontecimentos que assistiu na sua juventude.
A história passa-se em apenas sete dias (uma semana) e está dividida nas partes que a igreja usava para rezar: Matinas, Laudes, Primeira, Terceira, Sexta, Nona, Vésperas e Completas.
Itália, 1327, uma estranha e misteriosa morte ocorre num isolado mosteiro. Para desvendar essa morte, é chamado o abade franciscano Guilherme de Baskerville (conhecido pelos seus trabalhos para a santa inquisiçã) que se faz acompanhar pelo seu protegido, o jovem monge beneditino Adso de Melk. Nesse mosteiro, uma espécie de microsociedade medieval, um clima de mistério e medo recebe os nossos protagonistas que logo se deparam com uma cortina de silêncio sobre esta estranha morte. No entanto o pior está para vir, mais mortes acontecem. De uma forma estranha e peculiar, vários abades aparecem mortos e, após observar os cadáveres, Guilherme de Baskerville chega a uma conclusão: as mortes derivam de envenenamento e parecem ter alguma ligação com a biblioteca da abadia, uma biblioteca fascinante construída em forma de labirinto que acaba por ser o centro e o cenário principal deste romance. Ligado à biblioteca, surge o venerável Jorge de Burgos, bibliotecário cego que dirige a biblioteca de uma forma austera (é clara a homenagem a Jorge Luís Borges).
A obra foca intensamente a forma como se vivia num mosteiro medieval. Sobressai a quase ausência de liberdade e principalmente a ausência de liberdade de acesso ao conhecimento. Numa época obscura, onde ainda não existia imprensa, os mosteiros acabavam por ser o albergue de todo o conhecimento. Os livros eram copiados à mão (isso é sublinhado na obra) apenas por monges seleccionados e só apenas alguns tinham acesso aos livros e mediante autorização prévia do venerável Jorge. Algo que também é referido insistentemente no livro é o dogmatismo religioso que encarava o conhecimento como perigoso, assim, este romance tem como papel central um livro de Aristóteles "Poética", supostamente sobre o riso, livro tido como um mito, mas guardado religiosamente na abadia. Importante notar que um livro deste tipo seria sempre visto como muito perigoso. Os monges não podiam demonstrar alegria, Jesus Cristo nunca demonstrou alegria, logo, os servilistas seguidores do Cristo também não podiam sentir qualquer tipo de alegria.
E é neste cenário, assente em pilares históricos muito consistentes que Guilherme de Baskerville vai desenvolver uma investigação fantástica em busca da solução para todas aquelas estranhas mortes.
No entanto nem tudo é positivo neste livro. As expressões em latim são demasiadas, tornando o livro, por vezes, aborrecido sendo que se reflecte no nosso entusiasmo que, por vezes desvanece. O próprio escritor afirma ter sentido a necessidade de não traduzir algumas frases para não retirar alguma da exactidão da obra, no entanto e pessoalmente, achei algo exagerado as inúmeras frases e trechos inteiros em latim, embora também reconheça que dá beleza à narração.
Um excelente livro histórico que merece ser lido e analisado com calma e cuidado.

Cão como nós - Manuel Alegre

Esta é a história de Kurica, um cão de raça épagneul-breton, que durante muitos anos acompanhou a família Alegre. No entanto este cão não era um cão como os outros cães.
-"Este cão é um sacana, caça um bocado e depois põe-se a fazer a parte..."
Um cão que tinha a mania que era fino e fidalgo. Um cão que tinha dificuldades em obedecer, era irrequieto, exibicionista, altivo e até perverso. Parecia que queria falar, aliás, parece que se convenceu que seria o primeiro cão do mundo a falar a língua dos humanos, estava convencido que não era um cão.
Cão é cão, porém este quando olhava de esguelha demonstrando que era um igual, era rebelde, teimoso, insuportável e subversivo e, engraçado, mas estava-se completamente nas tintas para qualquer tipo de ordens, ao fim e ao cabo, era, como diziam os filhos de Manuel Alegre, um Cão Como Nós.
Esta pequena narrativa (115 págs), que li em menos de uma hora, é simplesmente uma singela e emocionante homenagem a Kurica, o cão da família Alegre que, desde pequeno no seio da família, foi acarinhado, amado, estimado e considerado como um membro da família. É uma narrativa emocionante sobre a lealdade e amizade que um ser animal que é apenas um cão, consegue dar apenas "exigindo" em troca respeito.
Uma narrativa fluída, muitíssimo bem delineada, poderosa, leve, emanando respeito e Alegria, no fundo uma história simples que temo como objectivo o de elogiar Kurica, um companheiro cujas cinzas andam por aí no vento, talvez nas asas de alguma perdiz.
Como nós eras altivo
fiel mas como nós
desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
mas não cativo
e sempre presente-ausente
como nós.
Cão que não querias
ser cão
e não lambias
a mão
e não respondias
à voz.
Cão como nós.
in Cão Como Nós

Luz e Sombra - Ana Santos

Ana Eduardo Santos tem presentemente uns 24 anos. Este livro que me proponho agora a opinar foi escrito quando ela tinha apenas 15 anos. E pergunta-se: Como é que se publica com 15 anos? Cunhas? Também, mas neste caso é porque venceu o Prémio Revelação APE em 1998, na área da ficção.
Pessoalmente acho que ninguém é um bom escritor antes dos 40 anos. Mesmo escritores consagrados que conseguiram publicar antes dos 40, ou tiveram pouco sucesso ou essas obras são sempre alvo de diversas críticas por parte dos próprios autores. Independentemente de actualmente haverem vários escritores, e alguns já com bastante sucesso, com menos de 40 anos, ou ainda de existirem escritores que realizaram grandes obras antes dessa idade, o que quero dizer é que só se pode ser um bom escritor depois da pessoa amadurecer, pois grande parte do que o escritor transporta para as suas obras é fruto da sua vivência e experiência pessoal, sem falar na obrigatoriedade de ter lido muito.
Então que esperar de um livro escrito por uma adolescente de 15 anos?
Eu esperava pouco, mas não estava à espera de esse pouco ser quase nada.
A história é simples: uma rapariga com 15 anos, obviamente, passa os seus dias entre a casa e a escola onde, na companhia de uma amiga, se entretém com o que dão nas aulas e no pouco que discutem quando estão a almoçar. Em casa, Laura, a tal menina de 15 anos, gosta imenso de desenhar e escrever (estudar é mentira) e é devido a um personagem que ela cria, o Alfredo, que de repente e de uma forma muito mal construída, lhe surge, vindo do nada, um outro mundo: o mundo da fantasia. Ou seja, às tantas e depois de só levarmos com clichés atrás de clichés de um mundo, para mim pouco ou nada atraente, da adolescência, surge-lhe em carne e osso o Alfredo, a sua personagem fictícia... depois inicia uma viagemzitas entre o mundo do Alfredo (Alfri às tantas e para os amigos) e o de Laura (o nosso mundo), tudo num absurdismo modorrento, obtuso e medonhamente enfadonho.
Não pretendo perder mais tempo com esta estopada. Pequeno (156 págs.) que levei mais de um mês para o ler e apenas o conseguindo porque me obriguei a ler cerca de 5 págs. por noite (e mesmo assim fugia quando podia, era inventar pretextos atrás de pretextos). Mas esta é uma história que, até posso admitir, possa granjear admiração principalmente na faixa etária abordada, mas para mim, tornou-se um castigo, um calvário interminável.
Pior só mesmo os livros de Margarida Rebelo Pinto.

domingo, 30 de setembro de 2007

Vida de Pi (A) - Yann Martel

Em Julho de 1977 um navio de carga japonês chamado Tsimtsum afundou-se em pleno Oceano Pacífico sem que, até hoje, se conheça as razões para tal naufrágio. Nesse navio, uma tripulação de vários homens, uma família de 4 pessoas e dezenas de animais selvagens perderam a vida sem que alguma vez qualquer corpo, ou parte ele, aparecesse. No entanto, houve alguém que sobreviveu para contar uma história tão surrealista que é difícil perceber onde acaba a realidade e começa a ficção, esta é a sua história.
Piscine Molitor Patel é um miúdo indiano que vive com os seus pais e irmão numa aldeia indiana chamada Pondicherry. O seu pai é director e dono do Jardim Zoológico local e isso dá azo a considerações muito interessantes de Patel sobre vários animais e, achei especialmente interessante a tese dele sobre o facto de os animais serem mais felizes a viver em cativeiro do que aqueles que vivem em estado selvagem. Não só tece as considerações, como dá exemplos históricos para provar a sua tese. E estas considerações não só são muito interessantes e didácticas, como também são muito importantes para o desenrolar da história, pois é através delas que percebemos o comportamento de certos animais.

Patel é um miúdo de 16 anos iguais a tantos outros. Adora a sua vida e adora igualmente o jardim e os animais que nele habitam. No entanto Patel tem um pequeno problema: não acha piada ao seu nome. Esse estranho nome foi-lhe dado em honra da Piscine Molitor, piscina que fazia a glória aquática de Paris por alturas dos Jogos Olímpicos de 1924. Imaginem alguém com nome de piscina. E vai daí, o seu nome era alvo de constante gozo por parte dos colegas e mesmo os diminutivos não ajudavam muito à festa... Pissinha Patel era um deles... imaginem o diálogo: "Ó Pissinha, está a mijar pra parede?". Até que um dia ele se lembrou e escreveu no quadro da escola "O meu nome é Piscine Molitor Patel, conhecido por todos como Pi Patel. Pi=3,14". Nasceu Pi Patel, também chamado O 3,14 Patel, aquele que se escondia debaixo de um telhado assente em dois postes. Curioso!

Patel é muito curioso e tal curiosidade leva-o a adoptar três religiões completamente distintas: Cristã. Hindu e Islâmica. Aqui Patel tece considerações muito curiosas e pertinentes sobre as três religiões, compara-as, professa-as e chega à conclusão que o étimo das três é o mesmo, existindo apenas um só Deus comum a todas elas.

Posteriormente e devido a problemas políticos, a família resolve emigrar para o Canadá. Vendem grande parte dos animais e resolvem levar os restantes consigo a fim de os vender nos Estados Unidos.

No dia 21 de Junho embarcam, a 2 de Julho, o navio naufraga.

A partir desse fatídico dia inicia-se a segunda parte do livro e aquela onde os acontecimentos são mais marcantes, onde o sentido do livro vem ao de cimo.

Sem saber muito bem como, vê-se num bote salva-vidas com uma zebra ferida, uma orangotango fêmea, uma hiena malhada e um poderoso tigre de Bengala. Surrealista são os acontecimentos que sucedem. Durante 227 dias, os mecanismos da cadeia alimentar sobressaem de uma forma natural e cruel. Quase a raiar a loucura, Pi Patel narra uma aventura onde a convivência entre as espécies é estranha, onde por vezes somos assaltados pela dúvida da veracidade do relato, pois os acontecimentos são tão surreais, violentos e fantásticos que, não só é difícil acreditar como também é impossível imaginarmos tal horror.

Mas Patel explana uma espantosa história de coragem e de resistência perante circunstância extraordinárias e tragicamente difíceis, uma verdadeira odisseia hipnotizadora onde, quase como um impacto, uma questão primordial se levanta: Existe Deus? Se existe, de certo protegeu e acompanhou Pi Patel.

Yann Martel, escritor espanhol residente no Canadá, descobriu esta história um pouco por acaso. Desde logo contactou Piscine e após algumas conversações, acabou por convencer Patel a contar a sua aventura. Em formato de diário, dividido em 100 capítulos, Martel constrói um livro fabuloso, de um humanismo tão profundo quanto animalesco.

Um humanismo tão profundo quanto animalesco...

Esta expressão é devido à fase final do livro. É que esse final é simplesmente desconcertante. Nesse final ficamos com uma séria dúvida, a mim pareceu-me que a história de Patel é real mas, o relato dos acontecimentos, ou pelo menos a forma como ele os conta, não passam de uma metáfora de acontecimentos ainda mais horríveis, trágicos e cruéis do que os narrados por Patel. Fiquei na dúvida e duvido que alguma vez as esclareça. Desconcertante!

Acreditem, este é um livro portentoso, uma obra prima que aconselho a todos aqueles que apreciem uma boa história e que apreciem também a possibilidade de pensar com o livro. Ele é didáctico, construtivo, verídico e faz-nos pensar da primeira à última página.

Terapia - David Lodge

David Lodge, escritor inglês, é hoje em dia um autor consagrado em todo o mundo. Com mais de uma dezena de livros escritos, cria em "Terapia" uma história que tem tanto de original, filosófico, prático, satírico como de hilariante.
Por muitos considerado como o seu melhor título, em "Terapia" temos um escritor de guiões que, depois de vários falhanços como actor, acaba, um pouco por acaso, por entrar no mundo da televisão ao escrever um guião para uma sitcom chamada "Os vizinhos do lado". Baseada na sua própria família e na da sua mulher, depressa esta série alcança um enorme sucesso nacional, levando-o a juntar uma considerável fortuna que lhe permite viver à vontade e à grande. Quando começamos o livro, já ele, de seu nome Laurence Passmore, conhecido no meio televisivo por "bolinha" Passmore, está bem na vida e as suas preocupações/obsessões andam a afligi-lo de uma forma impiedosa levando-o à depressão. E são essas preocupações/obsessões que vamos acompanhando em jeito de diário escrito por ele próprio.
Quase com 60 anos, "bolinha" Passmore tem uma vida estável: tem dinheiro, um grande carro a que ele chama de "ricomóvel", casado com uma mulher ainda vistosa e que não recusa nada na cama, dois filhos já criados e com as suas vidas independentes, "bolinha" tem aparentemente uma vida doirada. No entanto muitas e variadas pancadas afectam-lhe a vida. Sente-se infeliz, tem problemas com um joelho, já tem uma careca vistosa, é gorducho e, para ajudar à festa, tem problema do foro sexual. Que fazer? Primeiro de tudo, arranja forma de se meter em variadas terapias (fisioterapia, aromaterapia, acupunctura, psicoterapia, e outras mais), no entanto, qualquer uma delas é incapaz de lhe resolver o problema e a depressão e infelicidade aumentam de dia para dia.
É então que uma outra pancada chega à sua vida. Toma contacto com a obra de Kierkegaard, e aí a sua vida ou pelo menos a sua visão dela, toma um aspecto ainda mais angustiante, que leva a que alguns dos seus conhecidos tenham algumas considerações sobre si verdadeiramente hilariantes. Mas esta nova paixão tem também o condão de lhe fazer ver a vida sob outra perspectiva e esta é uma das verdadeiras terapias do livro. De salientar que Lodge aborda de uma forma coerente e até algo profunda a filosofia de Kierkegaard, tecendo considerações sobre a sua vida e as suas obras, descrevendo mesmo a actual casa-museu do filósofo situada em Copenhague.
Mas não acaba aqui as aventuras de "bolinha", mete-se com uma colega com a qual tem uma paixão platónica (sem sexo), um vagabundo que vai a sua casa ver futebol, uma americana que o quer levar para a cama, com uma colega que ele quer levar para a cama, uma mulher que namorou na adolescência e que de repente resolve procurar, etc, etc, etc.
Um livro onde David Lodge, através de um humor corrosivo, aflora de uma forma constantemente satírica a vida de um homem que, de repente, se apercebe que está a entrar na velhice. De uma sociedade e das relações humanas onde o sexo assume um papel catalisador nessas relações, visto e sentido como um escape para "tapar" certos "buracos" que a vida acaba por fazer.
Longe de ser uma obra prima, este romance lê-se muito bem dada a ligeireza do tema, da sua fluidez linguística e da forma muito real e palpável como os assuntos são abordados. Extremamente hilariante, dada a forma ora séria ora despreocupada como o personagem vê as "coisas", este é um livro que se lê de um fôlego (li-o em três dias) sem grandes necessidades de pararmos para pensar.
Um livro divertido, que nos faz soltar grandes gargalhadas devido à forma tão "british" como o personagem aborda as questões da sua vida e as própria sociedade.
Para finalizar, queria aqui deixar esta passagem numa altura em que "bolinha" Passmore, no apogeu do seu Síndroma da Disfunção do Joelho, vai realizar a partida semanal de ténis com três amigos seus, também nada famosos fisicamente: "jogo com outros três inválidos de meia idade: o Joe, que tem problemas graves na coluna, anda sempre com um colete e mal consegue servir; o Rupert, que teve um grande acidente de carro há uns anos e coxeia de ambas as pernas, se é que é possível, e o Humphrey, que tem artrite nos pés e uma articulação da anca de plástico. Exploramos as dificuldades uns dos outros de forma impiedosa. Por exemplo, se o Joe lança a bola para mim junto à rede, atiro-a alto, porque seu que ele não consegue levantar a raqueta acima da cabeça e, se eu estou a defender junto à linha de fundo, ele troca constantemente a direcção da bola de um lado para o outro, porque sabe que não consigo deslocar-me rapidamente por causa da liga (no joelho). Ver-nos jogar é de chorar, quer por pena, quer a rir."

Madame Bovary - Gustave Flaubert

Romance polémico, considerado a grande obra prima de Flaubert, Madame Bovary é uma espécie de radiografia de uma sociedade (francesa) que sofre de uma profunda crise moral. A forma como Flaubert escreve todo o trama, não só tocou num fenómeno (não digo qual para não desvendar o fim) que muita agitação criou naquela altura, dando azo inclusivamente a estudo sociológicos, como também deu origem a um processo movido contra Flaubert pelo Ministério Público por ofensa à moral pública e religiosa, embora esse processo fosse devido ao livro e aos vários temas abordados.

Ema é a personagem central do romance. Filha de um abastado camponês, sente-se infeliz e só na companhia do seu pai com quem ainda vive. Essa solidão é atenuada com leituras compulsivas de romances românticos que faz nascer, na sua imaginação, todo um mundo, um ideal romântico que simplesmente não existe. A literatura torna-se assim um refúgio, através da qual a personagem procura fugir da mediocridade da sua vida.

Charles Bovary, personagem que acompanhamos desde a infância, é um homem medíocre, fraco mas de boa índole, que acaba por tirar o curso de medicina e, já viúvo de um casamento arranjado com uma mulher mais velha, acaba por desposar Ema, que vê nele a sua oportunidade de mudar de vida, de ter acesso à alta sociedade.

Antes do casamento, Ema acredita que ama verdadeiramente Charles. Vê nele aquele ideal de homem que havia conhecido nos vários romances que leu. No entanto à medida que o tempo passa, alguma coisa a faz afastar-se dele, alguma coisa a faz sentir repulsa pelo marido. Para Ema, aquela não era a vida que ela havia desejado. No entanto acaba por engravidar e mesmo depois do nascimento da criança a rotina acaba por se instalar, sempre a rotina, tudo é fastidioso, ela sente-se presa, atrofiada, muito infeliz.

É devido a essa infelicidade e por acreditar na felicidade e no ideal dos romances construído na sua mente que Ema acaba por se envolver com um nobre que vive nos arredores da aldeia. Um aventureiro que vê em Ema apenas mais uma conquista, algo para usar e deitar fora. De notar que Ema vive realmente a ilusão de uma paixão desenfreada, ela acredita que esse ideal criado na sua imaginação é real e que ela é a encarnação dessas heroinas romanticas.

Madame Bovary é uma obra tida como realista e que pretende caracterizar a sociedade francesa tocando num assunto ainda hoje tabu: o adultério. A obra, embora tenha criado um grande celeuma na altura, decepcionou-me bastante. É algo enfadonha, as situações chegam-se a arrastar de um modo cansativo, apenas ganhando interesse devido à forma irónica como Flaubert descreve todas as acções dos personagens. Contudo achei interessante a forma como Flaubert caracteriza os vários tipos sociais: o homem conformista, a nobreza decadente, a pequena burguesia que almeja a ser grande, os grandes burgueses e a ostentação da sua riqueza e até a falta de moral religiosa que, parece-me, estava em voga naquela altura. Todas estas personagens compõem o cenário da vida medíocre e cheia de intrigas e hipocrisias.

Estava realmente à espera de muito mais e melhor dada a fama que precede a obra. Muitíssimo bem escrito, com uma construção narrativa muito cuidada, o livro torna-se monótono e muito honestamente se não fosse a ânsia de saber qual o destino de Ema e dos personagens, provavelmente não o leria até ao fim, no entanto, o fim revela-se uma surpresa. Embora já estivesse à espera de algo semelhante, dada a sua previsibilidade, pois a o caminho que Flaubert constrói torna-se num caminho tortuoso e sem regresso, mas a forma fria e crua como Flaubert descreve os acontecimentos, criaram em mim um sentimento de angústia e tristeza. Fiquei verdadeiramente triste com o fim.

Por último não compreendo o porquê do alvoroço que esta obra criou. As descrições não são nada de especial, aliás, bem vistas as coisas nem existem descrições dos encontros sexuais de Ema. A forma como ela se comporta é realmente leviana, demonstrado também total desrespeito pela sua família e até por ela própria. Flaubert também tece algumas considerações nada abonatória contra a igreja e mesmo a forma leviana como ele aborda o grande fenómeno social da época é também chocante. No entanto seria isto motivo para essa grande algazarra que levou o Ministério Público a processá-lo por ofensa á moral pública e religiosa?

Nação Crioula - José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa, autor angolano mas com fortes raízes culturais lusas, é, hoje em dia, um nome sonante no meio literário português e, talvez. o mais sonante do universo angolano.
Desconhecendo por completo a sua escrita, este foi o primeiro e, até agora o único livro que li deste autor e as ilações são muito positivas.
Poucas páginas depois de ter começado, já não conseguia desgrudar do livro, tal a forma fluída, simples e atraente da sua escrita. Honestamente, Agualusa foi dos poucos escritores que me conseguiram prender logo nas primeiras páginas do primeiro livro, apenas com o grande Eça isso havia acontecido e nem Saramago me havia entusiasmado dessa maneira. Mas Agualusa tem efectivamente “aquele” dom de contar histórias, “aquele” dom mágico de prender o leitor à sua narrativa, fazendo com que o leitor se sinta parte integrante da narrativa, parceiro dos personagens.
É o próprio autor que afirma que a grande fonte de inspiração, aquele que o levou a ser escritor, foi o mestre Eça de Queiróz. Conhecedor e fanático da obra de Eça, nota-se em Agualusa o estilo e até mesmo uma certa ironia que efectivamente faz lembrar Eça, no entanto seria injusto afirmar que o estilo é o mesmo. Não, Agualusa cria um estilo, uma forma de narrar diferente, tornando-o, na minha opinião, um dos grandes escritores lusófonos da actualidade e, de certeza, de um dos grandes escritores do futuro a nível mundial.
Nesta obra, Agualusa inspira-se nas cartas de Fradique Mendes, personagem criada por Eça de Queiróz, para recriari a sociedade colonial em Angola no século XIX.
Fradique é um escritor português que chega a Luanda em 1868. O tema de fundo é a escravatura que embora tenha sido oficialmente abolida em 1836, na realidade é um negócio rentável, pois os negros continuam a ser enviados para o Brasil.
Todo o livro é composto por cartas que Fradique vai enviando à sua madrinha, narrando a sua vida em Luanda e tudo o que vai observando. Entretanto acaba por se apaixonar por uma ex-escrava, na altura uma mulher livre, mas que acaba por ser ver novamente na escravatura. Curioso verificar que o melhor amigo de Fradique dá pelo nome de Eça de Queiróz, e também para ele Fradique Mendes escreve cartas.
Um excelente livro onde Agualusa descreve a sociedade hipócrita da altura. Uma sociedade onde a mentira e os compadrios reinavam, cheia de falsas imagens sociais e de gente que se vendia por qualquer preço.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Três Mosqueteiros (Os) - Alexandre Dumas

Escrito em 1844, os “Três Mosqueteiros” nasceram aquando da descoberta por Alexandre Dumas de um manuscrito intitulado As memórias do sr. D’Artagnan”. Nessas memórias, d’Artagann refere que na primeira visita ao sr. de Tréville, capitão dos mosqueteiros, encontrou três moços que se chamavam Athos, Porthos e Aramis, nomes que Dumas julga tratar-se de pseudónimos que disfarçam nomes ilustres.
Posteriormente e perseguindo a sua investigação, Dumas acaba por descobrir um outro manuscrito intitulado ”Memórias do conde de La Fère, respeitante a alguns acontecimentos que se passaram em França em fins do reinado de Luís XIII e princípios do de Luís XIV”. Manuscrito este que e pelo que Dumas diz, relata os acontecimentos descritos no livro “Os três mosqueteiros” e um outro que me parece ser “20 anos depois”, também da autoria de Alexandre Dumas.
Esta informação, que desconhecia, vem no prefácio da edição que possuo.
Verdade? Ficção? Não o sei dizer!
Certo é que li esta obra quando tinha 12, 13 anos e que, até hoje, ficou guardado num lugar muito especial do meu imaginário. Uma obra de referência no panorama da literatura que, e depois de a ter relido, ainda aconselho a uma certa faixa etária e a pessoas que lêem pouco e apenas pretendem distrair-se um pouco.
Quero com isto dizer que fiquei muito desiludido com esta minha 2ª leitura.
Está muito longe de ser um bom livro. A narração, presumo que de Dumas, tem muitas falhas e os acontecimentos que se vão sucedendo, têm mais buracos que as ruas de Lisboa. A acção tem realmente factos históricos verídicos (lembro-me, por exemplo, do cerco de Arrochela), personagens que existiram (Luís XIII, Ana de Áustria, Richelieu), mas a forma como os acontecimentos se vão sucedendo, são extremamente rápidos, com pouco sentido e contém pouco rigor narrativo.
Se não concorda, atente a alguns factos:
D’Artagnan, jovem fidalgo gascão, vem para Paris com aspirações a ser mosqueteiro. É possuidor de uma carta de seu pai para o sr. de Tréville. Até chegar à presença do capitão, passa por alguns contratempos, perde a carta que Dumas nunca mais refere, e sobretudo assiste a uma impensável e violenta repreensão do sr. de Tréville a 3 mosqueteiros... e o sr. de Tréville nem sabia quem era d’Artagnan. 2, 3 páginas depois já d’Artagnan é grande compincha desses mosqueteiros e meia dúzia de páginas adiante já esses mosqueteiros seguem quase religiosamente d’Artagnan, e o jovem gascão apenas consegue ser colocado no corpo da guarda. Depois temos o papel de Richelieu que, à noite joga partidas amigáveis com o Rei e de dia conspira contra tudo e contra todos, não olhando a meios para atingir os seus fins. Existe de facto um fundo de verdade, mas o relato de Dumas é bastante desconexo assim como a ligação entre o cardeal e Milady e o papel desta é deveras incongruente, e confuso. Uma mulher que é tão bela que tem um poder hipnotizador sobre tudo e todos. Demonstra um ódio tão grande por tudo o que se mexe. Esse ódio não é muito compreensível porque também não é muito compreensível o percurso de Milady. Cheguei a parar para meditar no que lia, pois a ânsia que demonstra em fazer mal é tão grande que e por diversas vezes, me pareceu que várias etapas do texto ou foram omitidas ou nem sequer foram escritas. Lembro-me de uma “cena” quase no fim do livro onde ela é presa. O homem que a prende coloca um tenente a vigiá-la e, para que esse tenente não caia nos terríveis jogos de Milady, adverte-o para que não vá em cantigas, que não acredite numa palavra que ela disser, no entanto, esse tenente que tudo devia a esse homem, inclusive a sua vida, acaba por ser facilmente dominado por Milady em apenas 3, 4 dias, a ponto de a ajudar a fugir e de ele próprio cometer um terrível homicídio. E o engraçado é que ela nem usa grandes argumentos.
Mesmo a forma como o romance acaba é algo de impensável, uma completa contradição. Depois do que acabámos de ler, depois de os mosqueteiros terem passado o livro todo a lutar contra os homens do cardeal, com esse mesmo cardeal a demonstrar uma raiva mortal principalmente a d’Artagnan, é precisamente Richelieu que premeia o jovem gascão... certo que o cardeal sempre demonstrou uma certa admiração por d’Artagnan, mas é estranho!
A história em si é simples:
Situada em 1630 (+/-), 3 mosqueteiros e um jovem guarda, aliam-se á rainha contra o cardeal. D’Artagnan parte para Inglaterra para recuperar uma jóia que a rainha havia oferecido ao duque de Buckingham como prova do seu amor. O cardeal, sabendo disso, manipula do rei no sentido de ele realizar um baile em que a rainha terá que apresentar essa jóia. Mesmo com homens do cardeal atrás dos mosqueteiros, d’Artagnan consegue chegar a Inglaterra e trazer de volta essa jóia que a rainha, para grande raiva do cardeal, usa com visível satisfação. De notar que no caminho para Inglaterra, Athos, Porthos e Aramis vão ficando para trás sem nós sabermos se morreram ou não. Dumas pouco se importa em explicar, só depois de d’Artagnan chegar é que o sr. de Tréville se lembra dos mosqueteiros e lá parte o jovem guarda em busca dos amigos.
Posto isto, os 3 mosqueteiros entretêm-se com as suas conquistas e chulices amorosas (era uso e costume nessa época as amantes sustentarem os seus amados militares e eles até tinham brio em o fazer). São então convocados para o tal cerco de Arrochela e é daí que partem para a última aventura.
Eu assumo-me como um leitor muito exigente e um crítico feroz. Como cada qual, também eu tenho as minhas preferências e o que pode ser bom para mim, pode ser muito mau para outras pessoas e vice-versa. Esta obra desiludiu-me porque, sem ser pelas razões já apontadas, nota-se que Dumas se limitou a pegar nos textos já existentes, não lhe acrescentando mais valia nenhuma, nem sequer teve capacidade para criar um enredo mais elaborado, cuidado ou artístico. Repare-se que não é por acaso que Dumas foi talvez o único escritor que fez da arte de escrever um negócio de produção em série, empregando vários funcionários para escreverem histórias.
Assim “Os três mosqueteiros” é, na minha opinião, um típico romance de aventuras que aconselho a jovens que se iniciam neste mágico mundo da literatura ou a pessoas que pouco lêem e que apenas pretendem relaxar e divertir-se um pouco.
Para quem procura Qualidade, para quem deseje ler, absorver, pensar, analisar e estudar uma obra literária, este não é certamente um romance que aconselho.
Obviamente que continuará a fazer parte do meu imaginário, embora já tenha mudado de lugar. E eu que estava a pensar em reler o “Conde de Monte Cristo”, obra que tenho como uma das melhores que li até hoje, depois de reler os “três mosqueteiros”, prefiro deixá-la onde está e continuar a pensar no “Conde de Monte Cristo” como uma Grande Obra.

Sangue de Cristo e o Santo Graal - Michael Baigent , Richard Leigh , Henry Lincoln

Até à pouco tempo atrás, pensava que o Santo Graal se tratava de uma taça em madeira onde supostamente Jesus Cristo havia bebido na última ceia que efectuou com os seus apóstolos. Assim e julgando ser mais um mito do que propriamente um dado histórico, nunca dei muita importância a esse facto, sem ser quando lia algo sobre a idade média e a constante e quase obcecante busca pelo Graal.
Após ler o famosíssimo “Codigo Da Vincai” fiquei deveras surpreendido com as revelações que o autor fazia. Servindo-se duma história policial, Dan Brown começava por fazer referências a quadros de Leonardo Da Vincai, da simbologia contida nas obras, para acabar por nos conduzir a todo um mistério mais intricado que punha em causa a própria igreja católica e toda a filosofia/crença que esta defende. Nesse mesmo livro, o autor acabava por dar referência de uns 3 livros que, segundo ele, estariam na génese de todo o trama do livro.
Independentemente de ter gostado ou não do livro, o certo é que esse assunto sobressaiu na minha mente. A minha curiosidade ficou espicaçada e decidi que tinha que saber mais sobre o assunto, queria saber se realmente Leonardo Da Vincai sabia “demais” e se tinha deixado mesmo aquelas mensagens nos seus quadros. Queria saber o que seriam aquelas organizações que Brown refere, se o Santo Graal era, ou não, o que ele sugeria e, mais importante, queria saber até onde poderia ter ido a hipocrisia da igreja católica.
Efectuei então uma busca por bibliografia sobre os temas abordados, busca essa que me levou a um texto bastante curioso “Protocolos dos Sábios de Sião” e um outro livro ”Segredo dos Templários”, que me parecia ser um complemento daquele que, desde logo, me pareceu ser o mais completo, aquele que Brown foca e, neste momento, não tenho dúvida em afirmar que foi neste que Brown se inspirou para escrever o seu policial.
”O Sangue de Cristo e o Santo Graal” é um livro que segundo os autores (Michael Baigent, Henry Lincoln, Richard Leigh) surgiu um pouco por acaso. Tudo começou em 1969 quando um dos autores comprou um pequeno livro de bolso, onde factos históricos, mistérios e conjecturas se misturavam entre si. Nesse texto, intitulado “O tesouro maldito”, fazia-se referência a um tesouro, encontrado por acaso em 1890 por um padre em Rennes-le-Château. E é através deste facto, ao princípio um facto curioso, que o autor começa uma pequena investigação que, pouco depois e devido a algumas descobertas interessantes, o obrigam a iniciar uma investigação mais séria. Tudo isto em 1970.
E é num simples livro de bolso que foi parar às mãos de um especialista em História, que se inicia uma investigação que irá demorar mais de 10 anos!
Uma investigação que teve direitos a primeiras páginas e a reacções tempestuosas das mais variadas personagens políticas e religiosas, que fizeram de tudo para tentar desacreditar as conclusões dos autores.
E se esta foi uma investigação histórica e científica, porquê todas essas reacções contra o livro? Seria o livro um perigo para a sociedade? Teria ele revelações que colocariam em causa todo um sistema político ou social? Desmascaria certas convenções? Certamente! As teorias deste livro, teorias essas assentes em provas fundamentadas, são simplesmente demolidoras para a igreja católica.
Em 1885, em Renens-le-Château, o padre dessa aldeia, Bérenger Saunière, aquando das obras na sua pequena e pobre igreja, fez uma descoberta de algo que se encontrava enterrado naquela igreja. Este facto é indesmentível, pois nessa altura ele pede para ser recebido no Vaticano e após o seu regresso, a sua vida muda por completo, começando então a levar uma vida de opulência que os fracos rendimentos de um simples padre eram impossíveis de sustentar. Reconstruiu a sua igreja, mandou fazer um palacete que nunca chegou a habitar (Vila Bethânia) e inclusivamente mandou construir uma torre dando-lhe o nome de Torre Magdala. Sabe-se também do poder que demonstrava possuir sobre o Bispo da localidade e do medo e respeito que o Vaticano demonstrava ter por ele. Saunière veio a falecer em 1917, altura em que os seus gastos atingiram o equivalente a vários milhões de libras. De onde veio essa inexplicável riqueza? Que tesouro é que ele descobriu a ponto de o próprio Vaticano lhe prestar vassalagem?
É assim que com este, aparente, pequeno mistério, os investigadores iniciam os seus estudos e, partindo de Rennes-le-Château, lar ancestral de Bertrand de Blanchefort, quarto grão-mestre dos Templários, os autores iniciam uma viagem tão espantosa quanto polémica. De início não tinham nada em mente, apenas um novelo que tinham curiosidade de desenrolar, estando eles muito longe de imaginarem o que aquilo ia dar.
Não pretendo aqui dissertar sobre os mistérios abordados no livro. Iria levar muito tempo e retiraria o interesse do livro, mas toda esta investigação leva-nos a conhecer de perto os Templários e o porquê da sua formação. As lutas e altos interesses políticos subjacentes à ordem. O Priorado de Sião, cuja acção foi, demonstradamente essencial, continuando ainda hoje a existir. O profundo mistério do Santo Graal. O que realmente foi (é) o Santo Graal? Será que os Templários ou o Priorado de Sião possuíram alguma vez esse Santo Graal? Qual o papel dos Cátaros e quem foram eles? O lendário Templo de Jerusalém, onde supostamente o Santo Graal esteve escondido e onde os Templários tiveram a sua primeira sede, vindo do templo o nome da Ordem. Que dinastia é essa dos Merovíngios que o Priorado de Sião continua a idolatrar? Que papel foi o de Jesus Cristo ou o porquê da suposta crucificação quando ele, comprovadamente, descendia de uma linhagem real? Qual o papel de Maria Madalena? Muitos desconhecem que também ela era de linhagem real. Teria sido Jesus Cristo casado com Maria Madalena? Teriam tido descendência?
Foi no concílio de Niceia, em 325 d.C., que foi decidido que Jesus era um deus e não um profeta mortal, foi aí estabelecida a data da páscoa e sabe-se que é por essas alturas que a Bíblia é composta através de alguns evangelhos cuidadosamente seleccionados, sendo os outros textos que falavam de Cristo, abolidos e, nalguns casos destruídos. É então nessa altura que Jesus assume o estatuto que hoje goza, todos esses textos foram desde então alvos de sucessivas correcções e omissões, sendo actualmente um produto de editores e escritores do século IV. E os envagelhos apócrifos , descobertos aqui e ali, que descrevem situações completamente opostas às narradas na Bíblia?
Enfim, não quero aqui expressar a minha opinião pessoal sobre este fabuloso mistério, nem pretendo levantar muito o véu., apenas pretendo transmitir a enorme sensação que esta obra me proporcionou. Através de factos históricos, somos confrontados com toda uma teia muito intensa e extensa, que foi elaborada com um sentido muito simples e claro.
Um livro que deve ser lido (estudado) com um espírito aberto, pois põe em causa convicções e crenças que estão, há muito, enraizadas na nossa cultura, na nossa sociedade, na própria forma de ser e de pensar das sociedades ocidentais, pondo mesmo em causa a própria fé de cada um e mina por completo, as estruturas da religião católica.
Este livro não uma “teoria da conspiração”. É uma obra histórica, escrupulosamente estudada, documentada e pensada. Ao autores sabiam o que podiam estar a criar, fizeram-no em consciência, apenas pretendem dar a conhecer ao mundo o que descobriram, que a História que sempre nos contaram, se calhar, não foi bem assim.
Se quiser ir mais além do que Dan Brown descreve em “O Código Da Vincai”, aconselho a ler este livro.