sábado, 12 de janeiro de 2008

Um Deus Desconhecido (A) - John Steinbeck



John Steinbeck foi um escritor que escreveu sobretudo sobre a sua região: Califórnia. Aquele que fez da Califórnia a principal dos seus romances.
A acção do romance passa-se em pleno Oeste norte americano no início do séc. XX.
Tendo conhecimento que o governo estaria a oferecer terras para quem se quisesse estabelecer na Califórnia, Joseph Wayne abandona a casa paterna e empreende a viagem rumo ao seu sonho. Ao chegar, escolhe alguns hectares de que lhe parecem ricos, registando-as posteriormente em seu nome.
É já quando se está a estabelecer, que recebe uma carta dos seus irmãos, informando-o da morte do seu pai, notícia essa que o entristece mas que o faz tomar consciência de uma nova era que se inicia.
Acontece que nessas suas terras, existia uma grande e velha árvore que Joseph tomou como mais do que uma simples árvore, tomou-a como um ser vivo, pensante, algo que tinha sobre ele um poder especial, algo que incorporava o poder paternal, ao fim e ao cabo, o seu próprio pai.
Neste romance, que classifico como um romance estranho, Steinbeck cria um personagem central. Joseph Wayne, homem que apenas tem olhos para a terra, mas um homem com um carácter forte que, ás tantas, sobre ele alguém afirma: ”um novo Jesus do oeste”.
No entanto este romance é um romance sobre o meio físico e social. Social porque nos narra a organização típica de uma família do velho Oeste: Um rancho que agrupa toda uma extensa família, chefiada pela figura patriarcal, preocupada essencialmente com a sus subsistência, com a terra e com a criação do gado. Físico, porque Steinbeck situa muito bem o romance: Califórnia selvagem, entre o mar e o deserto.
Mas este romance tem alguns pormenores que deixam perceber que Steinbeck escreveu-o com um sentido muito mais amplo do que aquele que tenho visto referido. Um romance sobre o amor à terra e à vida? Não! Este é um livro mais profundo, não necessariamente mais belo por isso, mas tem mensagens que ultrapassam a de uma simples e mera história.
Se não repare-se:
O personagem principal e aquele que é a essência de todo o livro, chama-se Joseph Wayne. Joseph é um nome de origem hebraica que significa Deus Acrescenta. Curioso!
Curioso também a enorme semelhança física entre Joseph e Abraão, semelhança impressionante quando se sabe que, na Bíblia, Abraão deixa a casa do seu pai e parte para uma nova terra, a terra prometida. Em “A Um Deus Desconhecido”, Joseph parte em, busca da terra prometida: o Oeste. Mas não é apenas esta a única semelhança. Ao longo do livro é notória a semelhança desta obra com acontecimentos do Velho Testamento.
Logo, este romance tem uma fortíssima componente religiosa e, curioso, é a forma como Steinbeck, propositadamente, mistura a crença católica com actos de puro paganismo.
Joseph é um homem que ama essencialmente a terra, toda a natureza. Personifica numa velha e viçosa árvore a figura do seu próprio pai, do seu Deus. A essa árvore entrega oferendas, presta-lhe culto, cumpre assim uma espécie de rito pagão.
O certo é que toda essa relação entre a crença católica e pagã tem um fim abrupto, fim esse que irá desencadear toda uma série de acontecimentos extraordinários e inesperados que porão fim ao próprio livro.
E a chuva que tem um papel tão importante?
A queda da chuva que penetra na terra mãe gerando vida, faz-nos lembrar aquelas estatuetas do Paleolítico que personificavam a fertilidade...
Em suma: este romance é uma alusão clara a vários episódios bíblicos. Joseph Wayne age como um deus, ele é a terra, a chuva, a vida, toda a natureza.
É um romance algo angustiante porque desde o princípio nos apercebemos que o trajecto da acção é omissa de certezas e poucas esperanças. É um romance que não deve ser lido apenas para estar entretido. Penso que é um livro que deve ser lido com muita atenção e com algum tempo para analisar o que foi lido, pois existem muitas mensagens que se podem extrair.
Pessoalmente gostei mas não o considero uma obra do nível das “Vinhas da Ira”, sobretudo devido à própria acção e ao ritmo que Steinbeck imprime.
A analogia de Joseph com Abraão e as constantes metáforas bíblicas, dizem-me pouco, e para além de me dizerem pouco, existem diálogos estranhos, com pouco sentido, algo maçudos que, quanto a mim, acrescentam pouco ao livro.

Relíquia (A) - Eça de Queirós



Para quem já teve a oportunidade de apreciar um romance do mestre Eça de Queirós, deve saber que uma das suas características era o de efectuar, e isso está presente em todos os seus romances, uma crítica social mordaz, irónica mas, no fundo, uma crítica que tentava ser construtiva.
Neste romance que me proponho a opinar, romance esse considerado por muitos como a sua "obra-prima" ou aquela onde ele conseguiu explanar toda a sua corrosiva veia crítica e irónica, o mestre Eça, que publica este romance em 1887, época em que vive em Londres, dominado por pensamentos e teorias agnósticas que faziam então furor entre os intelectuais ingleses, mas, o mestre Eça constrói todo um trama assente sobretudo na observação dos costumes, nomeadamente uma observação que se propõe a narrar os costumes das gentes beatas e a hipocrisia que daí surgia.
Narrado sempre na primeira pessoa, o escritor começa por nos apresentar o seu principal protagonista: Teodorico Raposo, ele próprio o narrador da história.
Toda a narrativa aborda a própria vida de Teodorico. Homem que órfão aos 7 anos, foi deixado aos cuidados da sua tia, D. Maria do Patrocínio, mulher devota, púdica, que se guiava pelos padrões de uma antiga burguesia dominada pela religião. Beata e tremendamente receosa de Deus, a Titi envia Teodorico, aos nove anos, para um colégio interno e, após estadia em Coimbra, Teodorico acaba por regressar a Lisboa anos depois e já doutor. Toda essa fase é já dominada por um carácter devasso de Teodorico que, para além de ser um calão, encontra em tudo formas de diversão.
Feliz de ter um sobrinho doutor e muito crente e cumpridor dos seus deveres para com Deus (Teodorico passa a vida a simular idas à igreja e mostra-se sempre muito devoto em frente da Titi), a tia começa-lhe a dar uma rica mesada, começando assim Teodorico uma vida "farta e regalada".
Bom, mas um problema surge. A tia estava velha, era rica e, pelo que Teodorico se apercebe, ela prepara-se para deixar grande parte da sua fortuna à igreja e, é numa conversa com um amigo do pai que se convence que a única forma de ficar com a fortuna toda da velha é precisamente, ele, Teodorico Raposo, ser mais santo que o próprio Jesus Cristo.
Imaginem!
Assim e também porque passava por uma fase de profunda desilusão amorosa, ele resolve "cravar" uma viagem à sua tia, uma viagem que o irá levar à Terra Santa.
Essa viagem, alegadamente uma peregrinação em nome da Titi, irá transformar-se numa viagem louca, metendo uma amante inglesa em pleno Egipto que lhe faz a vez das idas à igreja..., uma estadia em Jerusalém onde, para além de ele achar tudo horrível, acaba por sair do Santo Sepulcro a praguejar, até a uma carga de porrada que ele leva de um escocês por ser apanhado a espreitar a filha deste enquanto tomava banho.
Hilariante!
Mas, antes desta viagem "santa", onde Teodorico se propunha a ser mais santo do que J.C., ele promete à Titi que lhe irá trazer uma relíquia que é nada mais, nada menos do que um bocado da própria coroa de espinhos. No entanto é um simples galho que irá fazer a vez da coroa, sendo então embrulhado em simples papel pardo, papel semelhante que embrulhava uma garrida e erótica camisa de dormir da sua amante inglesa que, em memória da sua última fogosa noite de amor juntos, oferece-lha de modo a recordar-se sempre dela.
Farto daquela miséria toda, ele resolve empreender a viagem de regresso, sendo então recebido em apoteose pela tia que já o vê como um santo, um modelo de ser humano, pois havia estado nos mesmos lugares que Jesus Cristo.
Agora imaginem o momento em que ele vai dar a tão prometida santa relíquia à sua tia...
Essa entrega irá processar-se de uma forma cerimoniosa. Todos os padres e todas as beatas são convidadas para a ocasião. Tal presente iria fazer furor e criar invejas junto da beatitude da sociedade lisboeta. E quando a Titi abre o embrulho, em vez de um galho da coroa de espinhos, eis que surge uma camisa de dormir de cores garridas, provocante e cheia de rendinhas... imaginem o desenrolar da cena. É deveras hilariante!
Pessoalmente gosto muito deste romance, aliás, eu gosto de todos os romances e contos de Eça. Neste caso ele constrói uma personagem extremamente religiosa e, em contraponto, uma outra mas extremamente liberal. O choque é inevitável. A hipocrisia assola todo o romance, chega a ser incomodativo e irritante tanta sobranceria e hipocrisia. À semelhança do que Eça fez noutros romances, ele descreve uma sociedade completamente dividida: os mais jovens, liberais e não crentes. Os mais velhos, ainda com aquela ideologia da alta burguesia do início do Sec. XVIII, completamente sob o domínio da igreja e dos seus representantes.
Sabe-se que Eça não era um grande simpatizante do catolicismo. Já em "O Crime do Padre Amaro", ele traçava um cenário profundamente crítico, caótico mesmo em relação à igreja e ao seu comportamento, no entanto em a "Relíquia", ele aborda a questão doutra forma, aliás, ele dispara as suas críticas sob outra perspectiva: a do fanatismo religioso. Quanto a mim, este romance complementa "O Crime do Padre Amaro", pois neste caso ele crítica, e é impiedosa a forma como o faz, toda uma sociedade que vivia de aparências... isto é tudo tão familiar nos dias de hoje!!!
Eça de Queirós é, pois, o melhor escritor português de todos os tempos e, não tenho a melhor dúvida, um dos melhores a nível mundial. Se ele fosse norte-americano, francês, inglês ou alemão, penso que seria considerado o grande mestre da literatura universal. Senhor de um estilo único, enquanto narrador conseguiu "pintar" cenários reais da sociedade portuguesa, efectuando também descrições e análises psicológicas dos seus personagens de uma forma intensa.
Embora este não seja o romance que mais aprecio do mestre, penso que a "Relíquia" é aquele onde ele consegue, de facto, expressar todo o seu génio, para além das sublimes descrições que efectua do Egipto (onde esteve para a inauguração do canal do Suez) e Palestina, ele consegue descrever de uma forma minuciosa os costumes da época, os hábitos da sociedade, o modo de pensar e o latente conflito de gerações que se dava na altura.

Casa dos Budas Ditosos (A) - João Ubaldo Ribeiro


Há livros que me vêm parar às mãos de uma forma quase surrealista. Muitos deles surgem-me quase vindo do nada e por vezes dou comigo a olhar para livros nas minhas estantes que, juro, não me recordo como apareceram ali.
Neste caso concreto, "A casa dos Budas Ditosos", não foi o caso de não saber como ali foi parar. Sei-o porque me foi oferecido há anos, a questão é que nunca me senti minimamente motivado para o ler dado, não só o estranho e estúpido título, como também porque não aprecio de forma geral literatura erótica e/ou pornográfica.

Mas há uns dias decidi-me a arrumar com este livro e eis a minha opinião:
Erotismo e sexo é algo que agrada a todos, mas que dizer de um relato onde, sob a desculpa de ser verdadeiro, se narra acontecimentos onde o erotismo tem uma presença, digamos... de nome, e o sexo, aliás, a pornografia sem regras é o principal tema do livro, aliás, aquilo é mais uma forma de vilipendiar o sexo. Mas enfim!
O conteúdo do livro é apenas e só as "várias formas de se fazer sexo doentio com homens e mulheres, sem olhar a meios e onde, tudo e mesmo tudo é permitido", contado por uma mulher de 68 anos que, segundo ela, está à beira da morte, resolvendo então contar ao escritor Ubaldo as suas memórias.
Uau! Que interessante! É o ser humano assim tão voyeurista que se interesse por um conto de uma desconhecida só por alegadamente ser erótico?
Mas será este um relato verdadeiro ou um conto retirado da imaginação deste escritor? Se querem saber, não consegui descobrir mas também não me esforcei muito.
Profundamente egocêntrica, pois apenas ela contava, ela vai narrando a sua vida, vida essa onde o sexo ocupava um lugar especial (especial é favor) 24 horas por dia (que pena o dia só ter 24 horas). A mulher até sonhava com sexo. Ganda maluca!
Esta libertina (oh pró Sade cheio de inveja) praticava sexo de todas as maneiras: ela era anal, oral, manual, grupal e mais que tal que aquilo nunca mais acabava, sem falar no incesto que, segundo ela era algo de muito natural. Bem mas aquilo era um forrobodó tão grande que progressivamente nos vai fazendo sentir como uns verdadeiros meninos de coro, não o de Santo Amaro de Oeiras, mas daqueles que julgam os preservativos serem balões para as festas de despedidas de solteiro.
E os tabus? A mulher pensa que os tabus vão sendo violentamente derrubados (esta frase é leve para classificar esse derrube). Essa mulher vive a sua liberdade de uma forma obsessiva, é estéril, logo e num tempo onde as doenças sexuais não eram uma grande preocupação, apenas o prazer físico, o conhecimento do fruto proibido, o êxtase sexual, lhe interessa, no entanto esse interesse e as práticas caem sempre no exagero.
E pouco mais há para dizer. João Ubaldo Ribeiro elabora uma narrativa compulsiva, uma narrativa onde a luxúria se apresenta na primeira página e se despede na última.
Como devem já ter constatado, não gostei do livro.
De erotismo e sensualidade gosto, no entanto este livro não se pode classificar de erótico, pois é um livro doentio onde existem temas que são abordados de ânimo leve com o intuito de chocar. Mas não o consegue, pois essa intenção descamba no ridículo, tal o exagero das situações descritas.
Se tiverem curiosidade em ler sobre uma vida dedicada à devassidão sexual, à luxúria, então força, no entanto também vos digo que entre a literatura erótica existem livros muito bons. Se nem essa curiosidade tiverem, então esqueçam-no, pois não vale um corno.

Anjos e Demónios - Dan Brown



Aquando do lançamento do "Código Da Vincai", fui daqueles que, influenciado pela publicidade e pela inúmeras opiniões positivas no Livra, corri a uma livraria próxima a fim de o adquirir, pois parecia que se tratava do melhor livro de todos os tempos.
Não vou dizer que não gostei, estaria a mentir a mim próprio, no entanto e embora ele me tivesse despertado para um mistério que me deu, posteriormente, bastante gozo investigar, o certo é que não o achei assim tão bom. Tem de facto uma história excitante, cheio de pormenores históricos de realce, mas é muito incoerente em muitos factores, principalmente no nível temporal da própria acção. Mas isso é a minha opinião, vale o que vale, sendo certo que não o achei um portento mas deu-me gozo lê-lo.
Este "Anjos e Demónios" antecede o "Código Da Vincai". É neste que surge o professor de simbologia de Harvard, Robert Langdon, que vê os seus serviços serem requisitados por um Centro de Pesquisas suiço, alegadamente por terem encontrado, cruelmente assassinado, um dos mais influentes cientistas do centro.
Está dado o mote para uma aventura muito semelhante ao "Código Da Vincai", pelo menos no seu estilo.
Uma aventura que se inicia nos Estados Unidos, passa pela Suiça e tem toda a sua excitante acção em pleno Vaticano. Aqui Brown não se limita a criar suspanse, ele vai-nos dando informações e detalhes históricos de Roma, do Vaticano e do próprio cristianismo. Curioso que no livro o Papa falece e os Cardeais se preparam para o conclave. Temos então um rol de informações sobre o conclave, o que é e como se procede, enfim, informações valiosas que vão de encontro ao momento actual.
É claro que Brown não se fica apenas por isso. Como no "Código Da Vincai", ele vai-nos dando pistas correctas e pistas falsas. Faz-nos crer em vários suspeitos, para ao longo do livro baralhar e voltar a dar. Nós próprios entramos nesse jogo ilusório, na própria investigação, nesse intrincado puzzle, no entanto as peças que possuímos são diminutas, Brown esconde-nos peças importantes...
Nesta obra temos também uma sociedade secreta, a filha do morto que vai ajudar Langdon na investigação, uma assassino que crê piamente nas suas convicções e nas ordens do mestre, enfim, alguns ingredientes que já prováramos em o "Código Da Vinci".
Não gostei novamente do espaço temporal da acção. Repare-se que desde que Langdon recebe o primeiro telefonema, ainda nos Estados Unidos, até que o mistério fica totalmente resolvido, passam cerca de 12 horas, tempo que acho muito curto para as situações que decorrem. No entanto e como não tem tantos enigmas como em o "Código Da Vincai", penso que esse factor acaba por não dar tanto nas vistas, acabando assim por ser mais credível e mais facilmente digerível. A fase final do livro também não gostei. Não vou aqui desvendar nada, mas penso que ele enrola um bocado. E outro factor que achei incoerente, é o facto de que a linguagem universal da ciência (matemática) passa a ser outra, ainda por cima a explicação que Brown dá é, mínimo, desenxabida.
Em suma: Dan Brown assente em dados factuais verídicos, constrói todo um trama de conspiração numa autêntica corrida contra ao tempo em pleno coração do Vaticano, logo do catolocismo. Penso que Brown tentou criar uma espécie de conflito ou ,se quisermos, polémica entre ciência e religião, indo ao ponto de afirmar que apenas a ciência poderá provar a existência de Deus. Não me quero expressar sobre isso, mas a verdade é que a narrativa desta história nos deixa a pensar nesse facto; um género de conflito ideológico e de crença entre ateus e crentes.
Impossível não se fazer comparações entre "Anjos e Demónios" e o "Código Da Vincai": são bastante semelhantes. Pessoalmente talvez tenha gostada mais do "Código Da Vinci" (comparando os dois, notei claramente uma evolução ente o 1º e o 2º livro), no entanto apenas porque aborda uma temática que me apaixona mais e também porque achei os enigmas presentes mais exóticos e excitantes, aliás, considero que o "Código Da Vincai" está mais recheado de enigmas, de situações mirabolantes.
No entanto, aconselho a leitura deste "Anjos e Demónios". Lê-se compulsivamente, em cada página as situações sucedem-se a um ritmo alucinante, a ansiedade apodera-se de nós, parece que a resolução do mistério está "já ali", no entanto, várias surpresas acontecem...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Afonso, o Conquistador - Maria Helena Ventura

Afonso, o conquistador, é um projecto ambicioso de Maria Helena Ventura, socióloga que faz da investigação a sua especialização.

Autora de outras obras como, por exemplo, “A musa de Camões”, deixa perceber de facto toda a extensa e cuidada investigação da época em causa, quer seja ao nível do pensamento reinante, como também relativamente aos costumes e até na forma como se falava.

Projecto ambicioso, considero, porque realizar uma obra romanceada sobre o maior vulto da História de Portugal requer um cuidado especial até porque a esse nível nada existe, mas considero que se podia fazer muito melhor.

O romance até nem é mau, longe disso, mas faltam condimentos que a autora, se calhar até pelo seu estilo, não foi capaz de empregar.

Começando com um D. Afonso Henriques no início do seu reinado (a primeira falha, pois o processo que eleva Afonso Henriques a chefe do condado Portucalense e até a batalha de S. Mamede são simplesmentes omitidos), a história centra-se na personagem Afonso Henriques e nos seus companheiros íntimos que ficam indelevelmente ligados ao surgimento de Portugal enquanto nação.

Representado como um homem rude, Afonso cinquista território em busca de autonomia e reconhecimento, quer da Santa Sé, quer do seu primo e rei de Castela, também ele Afonso.

Desde logo associado aos templários, é clara a ligação entre ele e os guerreiros do templo, Afonso Henriques é a causa de um povo que sonha com a independência, de uma língua nova e de uma cultura.

O romance cumpre bem o seu objectivo, dando-nos a conhecer o home por detrás do mito, porém Maria Helena Ventura é algo macia nas descrições da vida efectiva do rei e extremamente sensaborona na descrição das batalhas onde Afonso se envolveu. Aliás, sensaborona é elogio porque essas descrições praticamente não existem.

É a maior pecha do livro e, quanto a mim, tira-lhe beleza e qualidade, pois não consegue passar a época. Pessoalmente nunca consegui situar-me na época, visualizar as suas descrições, sentir os seus cheiros.

Penso que a memória de D. Afonso Henriques merece mais e melhor, no entanto este “Afonso, o Conquistador” não é de deitar fora, sendo uma leitura que se faz com prazer e interesse.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Livros lidos em 2007

No ano que agora finda li 47 livros (contabilizo apenas aqueles que li da primeira à última página pois há outros que desisti a meio), número dentro de uma média anual mantida há uns dez anos.

Dessa lista pretendo aqui referir os dez que mais gostei.

- “A Estrada” de Cormac McCarthy
- “1984” de George Orwell
- “Cruz de Portugal” de José Sequeira Gonçalves
- “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón
- “A Odisseis dos Dez Mil” de Michael Curtis Ford
- “Filipa de Lencastre de Isabel Stilwell
- “O Canto dos Pássaros de Sebastian Faulks
- “A Voz dos Deuses” de João Aguiar
- “Predadores” de Pepetela
- “A Voz da Terra de Miguel Real

Sem nenhuma ordem de preferência destaco, contudo, “A Estrada” como o livro que mais me marcou, diria mesmo que foi um dos melhores livros que li até à data e “A Voz da Terra”, um livro que merece o rótulo de obra-prima da literatura portuguesa.

Destaco também um livro que reli pela 4ª vez: “A Filha do Capitão” de José Rodrigues dos Santos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Sombra do Vento (A) - Carlos Ruiz Zafón

Grande sucesso em Espanha e praticamente em todos os países onde foi publicada, “A sombra do vento” é um livro que fala de livros e da influência que os mesmos podem ter na vida daqueles que os lêem.

A acção situa-se em Barcelona em meados da década de 40 (século XX) onde ainda se vive sob o espectro da guerra civil que assolou toda a Espanha e sob a ditadura de Franco.

Daniel Sempere, o principal personagem e narrador da história, de mão dado com o pai é levado à descoberta de um local mágico e misterioso: O cemitério dos livros esquecidos. Gigantesca e labiríntica biblioteca onde são guardados os livros saídos de circulação e há muito esquecidos pela sociedade.

Logo aqui há uma clara referência à estrutura labiríntica imagina por Umberto Eco no seu livro “O nome da Rosa” e, na minha perspectiva, uma crítica à sociedade pela forma como trata os seus livros, para além de ele próprio fomentar a idéia da importância de todos os livros como veículo de cultura.

Esta cena inicial torna-se assim na premissa para todo o enredo que irá rodar sob o livro que Daniel escolhe do Cemitério dos livros esquecidos: A Sombra do Vento, escrito pelo enigmático e obscuro Julián Carax.

Apaixonado pela história contida no livro, Daniel empreende uma busca por mais livros deste autor, acabando por entrar numa intrincada teia de ódios, assassinatos, paixões e amizades que vão para além do imaginado e que se situam muitos anos antes do nascimento de Daniel.

Zafón é muito inteligente na forma como cria o enredo e, sobretudo, na forma como liga vários pormenores e personagens de outros autores da literatura e isso é algo que mais me surpreendeu e me fez apaixonar pelo livro.

Como história em si, posso afirmar, segundo a minha opinião, que não é uma grande história, já tenho lido muito melhor, porém uma das mais valias deste livro é a influência de outros autores e dos seus gêneros. É nítida a influência do gótico de Egdar Allan Poe. O inspector Fumero, até na descrição do seu aspecto físico, é quase um clone do inspector Javert nos “Miseráveis” e até no seu relacionamento com Fermín, um dos personagens mais fascinantes, faz lembrar as situações com Jean Valjean no referido título.

Achei curiosa a forma como o autor consegue jogar com vários estilos literários, quase que altera os estilos de página a página. Ora cria um clima de autêntico romance psicológico ao estilo de um Dostoeivsky, como passa para um policial, um thriller povoado de imagens e situações góticas e sobrenaturais, acabando num estilo histórico e até de costumes.

É claro que isso é intencional e dá ao romance algo de inédito, até porque é também uma forma do autor homenagear escritores universais e gêneros.

Bela é também a sua escrita e as metáforas criadas. Facilmente descreve situações de uma forma poética, de uma profundidade emocional e intelectual superior.

Não é de forma nenhuma um livro difícil de ler, é sim um livro belíssimo que fala de outros livros e das capacidades humanas em todas as suas vertentes, tendo também a capacidade de analisar a História e o peso que a mesma tem com comportamento do ser humano enquanto individualidade e em grupo.

Último Távora (O) - José Norton

Pedro de Almeida Portugal, 3.º marquês de Alorna e 6.º conde de Assumar, nascido em Lisboa em 1754, viu toda a sua família ser quase toda eliminada em 1759 por ocasião do célebre processo dos Távoras. No entanto esse processo decretou a prisão do seu pai, mãe e irmãs durante 18 anos, tempo em que Pedro foi criado sob a protecção daquele que esteve por detrás de todo o processo: Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

Descendente da uma família maldita, Pedro irá sentir toda a vida a perseguição de inimigos invisíveis que, na sombra, desenvolvem acções que minam a reputação que Pedro consegue conquistar.

Marquês da Alorna (embora descendente dos Távora, era-o por parte da mãe, pelo que herdou o título do pai, no entanto isso está muito bem explicado neste livro), título da velha aristocracia, os Alorna ocuparam durante várias gerações lugares de destaque em vários sectores do reino, lugares que trouxeram prestígio e riqueza à sua casa, mantida também com casamentos com outras casas nobres, construindo assim uma forte rede de interesses e influências que abarcavam todo o império português.

Filho de D. João de Alorna e de D. Leonor de Távora, uma das filha dos marqueses de Távora, Pedro, como primogênito, logo ficou com o futuro definido.

Estava destinado a altos postos ao serviço do rei. No entanto os acontecimentos posteriores ao Terramoto de 1755 iriam alterar esse destino.

Terá assim uma vida rica em acontecimentos que o levam a manter relações muito próximas com o príncipe D. João. Através desses contactos, D. Pedro vai ocupando lugares de liderança no exército português até às invasões francesas em 1808 quando é nomeado como um dos comandantes das forças portuguesas. A partir dessa data inicia um novo capítulo da sua vida que o irá levar a conhecer pessoalmente Napoleão e comandar nove batalhões portugueses nessa terrível e famosa campanha.

Pessoalmente desconhecia a presença de tantos soldados portugueses na campanha da Rússia de 1812, mas o autor descreve minuciosamente todo o processo de envolvimento dos batalhões portugueses e dos seus comandantes, dos quais fazia parte o Marquês de Alorna. E aqui faço a ressalva para a forma como os portugueses eram vistos e tidos pelos fanceses: Soldados de coragem e bravura. Napoleão sobre isso escrevia na sua proclamação de 7 de Setembro diz, referindo-se a Borodino: “Que a posteridade mais remota cite com orgulho a vossa conduta neste dia.”

Este livro surpreendeu-me bastante.

Antes de mais é um excelente documento histórico. Para além da enorme capacidade narrativa demonstrado pelo autor, é-nos oferecido um documento Histórico que abrange 50 anos de uma época importantíssima na Europa.

Começa por nos situar na época descrevendo o processo dos Távoras e o porquê do mesmo.

Achei também curioso e imensamente interessante a forma narrativa do autor.

Na prática torna-se um documento de pura História onde o autor descreve o sucedido, porém nunca se coíbe em colocar diálogos entre os personagens, ou seja, este livro é uma mescla brilhante entre documento Histórico e romance.

Surpreendeu-me também pelas várias histórias. As ligações familiares, as intrigas políticas, as mesquinhices do Portugal setecentista. O porquê das invasões francesas, a intervenção de soldados portugueses em várias campanhas de Napoleão, etc.

É um livro belíssimo sobre um homem e uma época. Uma época que marca a Europa e que traz ventos de mudança, e um homem que viveu com uma cruz. Lutou imenso e tentou sempre elevar a condição da sua casa: os Alorna.

domingo, 4 de novembro de 2007

remorso de baltazar serapião (o) - walter hugo mãe

Prémio José Saramago 2007, este romance de Walter Hugo Mãe, escrito curiosamente em 2004 mas só agora premiado, situa a acção em Portugal durante o reinado de D. Dinis, logo em plena idade medieval entre os anos 1279 – 1325.

Época brutal e miserável, Baltazar Serapião é o filho mais velho de três (dois rapazes e uma rapariga) que subsistem da agricultura e devem vassalagem a D. Afonso, o senhor feudal todo poderoso.

É nessa perspectiva que a irmã de Baltazar, quando chega à adolescência, vai servir para a casa de D. Afonso, acabando por o servir sexualmente a ele, algo que a família não vê com bons olhos mas que o medo os faz calar.

Baltazar Serapião que, sexualmente falando se vai desenrascando com uma pobre diaba, a puta do sítio, acaba por cair de amores por Ermesinda, casando-se pouco depois.

Mas D. Afonso mete os olhos em Ermesinda e exige que a mesma vá todos os dias a sua casa. Para fazer o quê? Essa é a pergunta que está por detrás de todo o trama do romance.

Baltazar é assaltado por terríveis dúvidas sobre a fidelidade da sua mulher e, imbuído pela sua imaginação e pelas conversas que ouve, emprega terríveis castigos físicos a Ermesinda diante da aquiescência de todos que achavam comportamentos desses normais e até morais.

Num trabalho notável de linguagem (Walter Hugo recria o português medieval), este livro é, quanto a mim, único no panorama literário português.

Não sendo propriamente um livro fácil de se ler, não só devido à linguagem como também à estrutura do texto (nota-se claramente a influência de Saramago), é sim um livro sobre a condição de vida da época medieval e, sobretudo, sobre a condição das mulheres que eram inferiores aos animais.
Gostei imenso do livro, pese embora o tenha achado por vezes repetitivo e algo aborrecido, pois há situações que se repetem e a obsessão e as dúvidas de Baltazar pela mulher é algo que se repete por diversas vezes, deixando também antever o fim do livro.

sábado, 3 de novembro de 2007

Longa Caminhada (A) - Slavomir Rawicz



No dia 17 de Setembro de 1939, o exército da URSS invadiu a Polónia. Cerca de um mês antes, mais propriamente no dia 23 de Agosto, a Alemanha nazi, através de Hitler, firma um acordo de Não-Agressão com a URSS de Joseph Estalin. Esse acordo previa a divisão da Polónia entre a Alemanha e a URSS no final da guerra. No dia 1 de Setembro, os alemães invadem a Polónia pelo Ocidente, enquanto que a 17, a URSS invade o país através das suas fronteiras do Oriente. Nessa invasão muitos inocentes perecem às mãos das tropas nazis e russas, no entanto, são as acusações de traição e espionagem que são hoje alvo de relatos e investigações. E é precisamente por uma acusação de ser espião, que o tenente da cavalaria do exército polaco, Slavomir Rawicz, se vê no meio do inferno.

Esta é uma história real. Narrada pelo próprio e escrita pela primeira vez em 1956, este é um relato pungente de homens que se viram acusados e privados da liberdade sem que nada tenham feito. O único mal que fizeram foi de terem estado no local errado aquando da passagem da maré fascista, numa autêntica "caça às bruxas" na União Soviética. Este é um relato, um grito de alerta ao mundo contra os malefícios do comunismo, da fanatismo político, do fascismo e, principalmente um grito a favor da liberdade e da vida, pois e conforme o próprio Rawicz afirma: "A liberdade é como o oxigénio".

Mas Slavomir Rawicz vê-se, sem saber porquê, aprisionado pelos russos que, sob enormes e variadas torturas, insistem para que ela assine um papel onde admite a sua culpabilidade. Recusando-se sempre a assinar tal documento, acaba por ir a julgamento sendo então condenado a 25 anos de trabalhos forçados num campo de trabalho na Sibéria. Já nesse campo (campo 303), Rawicz narra todas as privações e principalmente a forma como os próprios presos se organizavam. Até que derivado de alguns acontecimentos, toma consciência que a fuga é possível, no entanto ele sabe que a percentagem de êxito é baixa, mas ela existe.

Juntando-se a um grupo de 7 homens, no qual se inclui um engenheiro americano que se irá revelar um elo fundamental, estes homens iniciam uma fuga de 8.000 km, atravessando toda a Sibéria, Mongólia, Tibete, Himalaias, chegando por fim à Índia, onde são acolhidos pelo exército britânico.

Essa travessia dura cerca de um ano e é inimaginável o que aqueles homens sofrem.

Como devem supor, atravessar a Sibéria torna-se um tormento, ainda mais não tendo praticamente quaisquer víveres, dormindo de dia escondidos pelo gelo e caminhando de noite. Agora imaginem atravessar o deserto de Gobi (Mongólia) em pleno Verão e sem água. As descrições são tão reais e fortes, damos connosco a sentir o sufoco do calor, a lingua inchada, as pernas inchadas e os pés em chagas de tanto andarem.

Toda esta jornada se desenrola a pé. Trata-se de uma fuga e mesmo fora dos territórios da URSS, eles não estão seguros, pois os países que atravessam mantém laços de amizade com a URSS, logo, é sempre possível serem capturados.

Rawicz escreve este livro muitos anos depois. A edição actual é de 2000, revisada pelo próprio. Há muitos acontecimentos que o próprio afirma não se lembrar ou de ter uma ténue lembrança, no entanto e é talvez onde encontre algo a apontar a este relato, nota-se, aliás, sente-se e até se pode ler nas entrelinhas, que muita coisa ficou por contar. Embora ele afirme variadas vezes que não se recorda ou que não sabe bem como aconteceu, fiquei com a clara sensação, para não dizer a certeza, que ele omite propositadamente certos factos. A história da mulher do comandante do campo que o ajuda na fuga, está muito mal contada e claramente inacabada. Não sei se se passou algo entre eles, sinceramente não me pereceu, mas sente-se que ele a menciona porque ela foi importante na História, mas há algo que ele omite.

Depois também achei, e continuo-o a achar, muito estranho que, depois daquela fuga, não se terem iniciado buscas ou perseguições para capturar os fugitivos. Eles fogem e jamais relatam qualquer visão de qualquer perseguição. Mesmo com aquelas temperaturas, a nevar toda a noite, o que apagaria qualquer rasto que eles tivessem deixado, achei no mínimo estranho. Depois é também a aparente "facilidade" com que eles vão caminhando. Encontram sempre gente acolhedora que raramente lhes fazem perguntas. Enfim, não ponho em causa nada do relato, mas apercebi-me que existiram acontecimentos que Rawicz achou por bem não mencionar ao mundo.

Mas e mesmo com estes pequenos pormenores, esta é de facto uma viagem fantástica. Eles percorrem sítios recônditos de países longínquos, vêm gentes e seres estranhos (achei fabuloso o estranho encontro que ele têm em pleno Himalaias com duas estranhas criaturas que, segundo opinião de Rawicz, só podiam ser esse ser chamado Abominável Homem das Neves), passam fome, frio, sempre agarrados à esperança de alcançar a liberdade, sempre apoiados uns nos outros, todos como sendo um único corpo. Este é um relato comovente de amizade, coragem, dor, solidão, solidariedade, amor e fraternidade. Uma história que de certo incomoda todas aqueles que defendem e fomentam o comunismo e o fascismo e até para a própria História da Rússia, uma história que merece ser divulgada pelo mundo inteiro.

A todos que gostam de ler bons livros, a todos aqueles que gostam de fazer parte desta "família" chamada ser-humano, a todos aqueles que fomentam o amor e a solidariedade ao próximo, apenas posso aconselhar a leitura urgente deste magnífico livro. No entanto, para aquele que me incentivou a ler esta obra, deixo aqui o meu obrigado, assim como à restante comunidade livriana pelas suas excelentes dicas.

Mais Bela História da Terra (A) - André Brahie, Paul Tapponier, Lester R. Brown



Como tudo começou?
Quando olhamos para o céu, numa daquelas límpidas e escuras noites, contemplando todos aqueles pontos luminosos a que vulgarmente denominamos de estrelas, alguma vez pensaram ou sequer imaginaram, como é que tudo começou? Têm consciência da incomensurável grandeza e da tamanha e fenomenal violência que desencadeou todo esse Universo onde nos inserimos?
E por falar em nós, será o nosso planeta o único que reúne estas excepcionais condições de vida em todo o Universo? Como terá sido o processo de nascimento e consolidação do nosso planeta e dos restantes que compõem o nosso sistema? Poderá existir vida noutros planetas ou, fazendo a pergunta de outra forma, será que existem outros planetas em que as condições para o surgimento da vida sejam tão boas quanto às verificadas na Terra?
Jacques Girardon é um reputado jornalista francês, cujo trabalho está directamente ligado à Astrofísica, Biologia e Geofísica.
Para elaborar este pequeno mas fabuloso livro, convidou três cientistas que são referências dentro das suas ciências: André Brahie, astrofísico, professor na Universidade de Paris VII e director de pesquisas no CEA em Sealay. Paul Tapponier, geofísico, director do laboratório de tectónica no Instituto de Physique du Globe, em Paris e Lester R. Brown, agrónomo, fundador e director do Worldwatch Institute, em Washington.
Assim e em separado, Girardon efectuta uma entrevista com cada um deles.
O primeiro é André Brahie que disserta sobre quando e como surgiu o Sistema Solar e os Planetas; como o Universo se foi expandido; de como ainda hoje se pode “ver” vestígios dessa explosão primitiva; o Sol como sendo uma estrela inusual no Universo; Os primórdios da Terra; os principais componentes do planeta; o enigma da Lua, etc. ou seja, assente na sua ciência, Brahie segue uma linha de orientação muito coerente e clara. Começando na explicação da acumulação de energia que originou a explosão primitiva (Big Bang), ele segue sempre um rumo histórico dos acontecimentos, proporcionando no final da entrevista, uma continuação lógica, um fio condutor para que o segundo entrevistado possa continuar.
No segundo acto do planeta, a Terra já se encontra estável a nível dessas grandes e violentas convulsões. É a hora das alterações dos continentes e Oceanos. Tapponier aborda então o aparecimento dos Oceanos; a infância dos continentes; as alterações dos Pólos; a glaciação; os períodos primários da evolução do planeta.
Depois que o planeta estabilizou desse inferno primitivo, começaram a surgir os primeiros oceanos e, com eles, chegaram as primeiras formas de vida. Todo este processo desenrola-se num período de milhões de anos, ao mesmo tempo, surgem continentes que se movimentam, é o planeta em movimento, começando a compor-se para a forma actual.
Tapponier desenvolve assim a História da Terra para, no final da entrevista e conforme o seu antecessor, a deixar em suspenso de modo a que, o terceiro entrevistado, tenha um fio condutor para a continuar.
Lester Brown continua assim a narração da História do planeta, abordando a proliferação da vida desde a sua origem primitiva até aos dias de hoje, a forma como a vida modificou e continua a modificar a Terra, as florestas que surgiram e desapareceram, os dinossauros que tiveram um longuíssimo período de domínio no planeta até à sua extinção, não esquecendo de explicar o porquê dessa extinção.
Em suma: não é necessário ter-se quaisquer conhecimentos científicos para usufruir deste livro. Este livro é sim uma pequena pérola na forma fácil como explica tantas questões sobre o mundo que nos rodeia. É cativante a forma como as entrevista são dirigidas, sobretudo porque elas são orientadas de forma a formar uma História quase cronológica do planeta.
Para quem se preocupa em saber como tudo surgiu e como se desenvolveu, para quem gosta de aprender e possuir um pouco mais de cultura geral, então acreditem que este livro é de leitura obrigatória. Pessoalmente já o li por duas vezes e n vezes que o abri para ler pequenos excertos sobre determinado assunto.

Eu, Lucifer - Glen Duncan


Há livros que nos vêm para às mãos de uma forma surrealista e completamente por acaso. O livro que me proponho a opinar foi um dos tais onde uma dessas vicissitudes sucederam. Não interessa estar aqui a divagar sobre a forma como descobri o livro na biblioteca (foi tão por acaso que teria imensa dificuldade em contar), o certo é que o acabei por trazer, sabia não ser um livro de missas negras e afins, mas e talvez tenha sido isso que me seduziu: a forma como a história era descrita, pois se forem ler a sinopse, repararão que estão diante de um livro de humor negro, mordaz, irónico, talvez com episódios chocantes, enfim, um livro para descomprimir...
Posto isto e mesmo sabendo que tinha e tenho tantos livros em fila de espera, lá me lancei à leitura deste livro. Inicialmente de uma forma ávida, a meio de uma forma pausada (já ia pegando noutro que deixei a meio) e no fim de uma forma arrastada (foi um suplício acabar a leitura).
Pois bem: Senhores e senhoras, meninos e meninas ou como dizia o outro; portugueses e portuguesas, quero-vos apresentar o Demónio ou Satanás ou Lúcifer em pessoa (atenção, Belzebú não, porque trata-se da segunda figura mais importante da ordem infernal), aliás, ele quer-se apresentar, pois é ele próprio que nos conta a sua história: Uau! Que uindo! Vem a mim Satanás, pensarão alguns, enquanto os pudicos e os beatos dirão: cruzes, credo, canhoto, vai-te Demo! Bah, nunca percebi essa do canhoto, as cruzes e os credos até que passam, mas que raio têm os canhotos a ver com isto?
Então é assim: Olá malta – diz o Lúcifer - eu sou aquele que foi expulso do céu pelo Velhadas que vocês conhecem por Deus. E vai daí, sou um filho-da-mãe da pior espécie. Nem imaginam o que já fiz desde que o mundo é mundo, imaginem que certa vez até levei o Jesusito quase à loucura. É verdade, o gajo dava-me cá uns nervos, mas o tipo era duro... e Madalena que o diga... E a Eva? Xiii, que mulheraço, nossa mãe do inferno!
Lúcifer reina na terra. Comanda um bando de anjos demoníacos que, outrora como ele, pertenceram ao reino dos céus, no entanto, numa bela época há muito distante, Deus ausentou-se para criar o mundo e vai daí deixou todos os anjos sozinhos (gandas malucos). Sem nada para fazerem depressa o tédio começou a instalar-se e Lúcifer, encabeçando um grupo que se revoltou contra este estado de coisas, acabou por fazer algumas coisitas que chegaram aos ouvidos de Deus e é assim que Lúcifer é expulso daqueles reinos. Sem espinhas, pois Deus não é cá para brincadeiras, Ele gosta é de tudo sisudo e de aspecto muito sério. MAIS NADA! E TOCA A AJOELHAR!
Boa, agora ate já havia animais na terra e imagine-se, Deus havia criado um grande jardim onde habitavam dois seres humanos, Adão e Eva... oh Eva, aquela desenvergonhada...
Já podem ver que género de livro é.
Mas e nos dias de hoje, Lúcifer recebe a visita de um anjo muito importante (não me recordo se é Rafael ou Miguel) que afirmam serem portadores de uma importante mensagem de Deus: Deus está pronto a dar uma nova oportunidade de redenção a Lúcifer, com a condição de ele ocupar o corpo de um ser humano durante um mês e, nesse mês, viver e sentir como essa pessoa, como qualquer pessoa, ou seja, deixar aquele estado angélico, omnipresente, e viver e sentir como um comum mortal. Se ele for capaz de se comportar conforme o estipulado, então Deus recebe-o de braços abertos e manda às malvas todas as maldades de Satanás.
Lúcifer rejubila: "O velhadas passou-se!", e vendo aquela hipótese como um género de férias à pala, ele acaba por aceitar e incorpora um corpo de um jovem escritor falhado que está prestes a cometer suicídio e, agindo como essa pessoa, acaba por escrever um livro que é nada mais nada menos que a própria história de Satanás. Aliás nem é bem assim, porque o que ele vai descrevendo é um género da história da criação ao estilo hollywoodesco, para posteriormente tentar adaptá-lo a um guião.
Neste livro, escrito realmente num tom irónico e mordaz, o escritor elabora uma nova narrativa de muitos acontecimentos bíblicos e históricos: Adão e Eva e o paraíso; A forma como Deus criou o mundo; O porquê da sua revolta; A tentação de Jesus no deserto (Jesusito segundo ele); O regime nazi; A inquisição; Seitas.
Mas eu não gostei.
É um livro que divaga imenso entre a ideia do bem e do mal. Lúcifer, mostra-se um "ser" mordaz e irónico. Demonstra que a sua natureza não é maléfica e que a fama que tem apenas se deve a mal entendidos, ou, vá lá, a alguns mal entendidos, pronto, a poucos mal entendidos e a acusações injustas. Explica o porquê da sua revolta e, achando injusto ter sido expulso do céu, resolver empreender todo um comportamento e práticas que vão em sentido contrário às prática de Deus, no entanto é ele próprio que nos vais colocando questões morais que põem, propositadamente, essa bondade de Deus em causa. É um livro que tem um início verdadeiramente empolgante mas que, com o desenrolar da história, vai perdendo interesse, pois torna-se repetitivo, os diálogos e monólogos não nos levam a lado nenhum e no meio de isto tudo existe algo que me decepcionou, imaginem, o comportamento de Lúcifer é terrivelmente pacífico, nada condizente com a sua fama (chega até a levar uma carga de porrada). E eu a pensar que o livro estaria povoado por acontecimentos sangrentos e macabros, transbordando de orgias, deparo-me com um livro sonsinho que faria corar qualquer ser angélico da hoste de Deus. Amém!
No entanto existe um grande contra-senso, é que o livro está recheado de palavrões, a maior parte deles colocados forçosamente e sem qualquer tipo de lógica, no entanto eles estão lá, parecendo que o escritor não teve coragem de evocar acontecimentos mais fortes, mais chocantes, encontrando nos palavrões a única coisa que poderia chocar... pois, ai que inocente o menino é.
Claro que a história acaba por se ler, nem que seja para seguir o comportamento do senhor das trevas enquanto simples mortal, no entanto e embora a crítica britânica tenha feito excelentes críticas sobre este livro e sobre este autor, a mim, não me convenceu e até digo mais, pareceu-me que ele quis imitar o estilo de Ervine Welsh, brilhante escritor escocês autor de livros como "Trainspotting", "Ectasy", "Lixo" ou "Porno", no entanto, fica muito, mas mesmo muito aquém do talento de Welsh.

Não há lugar para divorciadas - Francisco Moita Flores



Francisco Moita Flores, ex-criminologista e actual Presidente da Câmara de Santarém, é um profícuo escritor, dono de uma já admirável bibliografia da qual destaco o seu último romance “A Fúria das Vinhas”.

Admirador do seu trabalho foi com surpresa que me deparei com este título “Não há lugar para divorciadas”, livro publicado em 2003 e que, pareceu-me, é uma espécie de ensaio da sua própria escrita.

A história passa-se em Lisboa trinta anos no futuro a partir do momento em que começar a ler pois, como o autor refere, estes acontecimentos são iguais quer daqui a 30 anos, quer 30 anos após esses 30 anos...

Como facilmente se constata, o livro é imensamente irônico e mordaz, levando facilmente às gargalhadas tal a paródia corrosiva que Moita Flores constrói.

A premissa é básica: mostrar como um mentecapto da nossa sociedade chega a ministro. E isso é algo bastante comum.

Leônidas Tábuas que arranja Távora como nome artístico (ficava mal um político chamar-se Leônidas Tábuas), um “Zé ninguém” que foge da sua aldeia acusado de vender droga e roubar galinhas, vê-se, com 30 anos, atrás de um balcão no bar de um partido político.

Como foi lá parar?

Vivendo de trabalhos esporádicos, Leônidas é convidado por uns amigos para colar cartazes a troco de bom dinheiro. Vendo que era trabalho fácil, Leônidas decide filiar-se no partido, pois os prosélitos do partido tinham sempre a primazia para este tipo de trabalho e havia que aproveitar.

No entanto, sem saber bem como, acaba por conseguir trabalho no bar do partido onde tudo se ouve e tudo se sabe, condição sine qua non para se construir uma carreira política de sucesso.

De influência em influência, o imbecil do Leônidas consegue chegar a deputado de última fila, local onde se metem os imbecis sem opinião e que nunca abrem a boca. Porém não se fica por aqui e consegue chegar a ministro...

Moita Flores escreveu este livro, repito, em 2003, logo, longe de imaginar que um dia seria político. Porém, ele expõe ao ridículo a política e a vaga de interesses que a varre, assim como os motivos que a grande maioria (aí uns 99%) dos políticos tem.

Opinando de uma forma muito objectiva sobre os meandros da política e dos partidos (chega a dizer que na política os inimigos são aqueles que estão dentro do partido, pois são esses que querem o lugar que agora ocupas) e até da influência e interesses da comunicação social, caracteriza de uma forma corrosiva o político comum: um ser estúpido, intelectualmente incapaz, lambe botas, supérfluo, preguiçoso, demagogo, apenas interessado no dinheiro e no poder.

Inclusivamente é corrosivo nalgumas indirectas que vai distribuindo, como por exemplo, quando refere o caso de um capitão que na guerra roubava batatas para vender e que ainda foi promovido a major... penso que todos sabem a quem se destina tal farpa.

Caracteriza também um futuro onde a obcessão pela Al-Qaeda é paranóica, num mundo supervisionado pelos norte-americanos que tal como um big brother, tudo vêm e tudo controlam.

É um livro delicioso, de leitura muito fácil (li-o em pouco mais de 3 horas), sem uma grande construção literária, pois aqui a idéia é mostrar o ridículo, a banalidade, a hipocrisia e a superfluidade dos políticos.

Quer seja agora, quer seja dentro de 30, 40, 50 ou 60 anos.

Mudam apenas as moscas.

Há dúvidas?


Excertos:

”- E o seu genro? Se o senhor não quer ser ministro de Estado, eu insisto para que o seu genro entre neste Governo”.
- Dá-me jeito. O tipo é um sorvedouro de dinheiro e a minha filha vai ficar contente.
- E pensar numa pasta para ele?
- Dá-lhe uma dessas pastas para imbecis. Sei lá, o Desporto, a Educação.
- Para a Educação estava a pensar no Fernandes. Não é estúpido mas é um grande mentiroso. E quando ao Desporto, não sei se é um bom futuro para a sua família.
- Não?
- Como os dirigentes que temos no futebol, precisamos de um ministro igual a eles para que se entendam. Alguém que seja analfabeto, suficientemente ordinário, que goste de contar anedotas, de almoçaradas, que arrote sonoramente e putanheiro. Para alem de tudo isto, é bom que se deixe corromper barato porque senão custa-nos uma fortuna!”




“- Uma espécie rara senhor almirante. Vive da treta, odeia o trabalho e vive da treta. Uma língua alcoolizada, uma imaginação prodigiosa, uma capacidade excepcional para a preguiça e, apesar de profundamente ignorante, fala todas as línguas que o engenho exija e disserta sobre qualquer assunto com mais convicção do que um acadêmico letrado.
- Está a falar dos portugueses.- Não. Estou a falar dos portugueses refinados. O verdadeiro chulo adora mulheres, sobretudo para lhe passarem a roupa e apertarem os cordões dos sapatos, anseia por uma boa briga, pela-se pela intrigalhada, embebeda-se diáriamente, nunca trabalha, aliás, odeia quem trabalha, e é o rei da inveja. A inveja é um pecado português, sabia?”

domingo, 14 de outubro de 2007

Lolita - Nabokov

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade, meu pecado, minha alma. Lo-li-ta".

Assim se inicia um dos romances mais polémicos de sempre e aquele que marcou toda a carreira literária de Vladimir Nabokov.

Nabokov nasceu em 1899 na cidade russa de San Petersburgo no seio da aristocracia. Em 1919, devido à Revoilução Bolchevique, a sua família é obrigada a abandonar a Rússia, refugiando-se em Inglaterra. Nabokov matricula-se então na famosa universidade de Cambridge onde se licencia em 1922 em literatura russa e francesa. A partir daí, Nabokov saltita de lugar para lugar. Primeiro Berlim, depois Paris e em 1940 e para fugir aos nazis, parte para os Estados Unidos da América, onde se dedica a leccionar literatura russa, além de trabalhar em tradução de livros e no departamento de entomologia de Harvard.

Profundamente pedante, chegando mesmo a afirmar: "penso como um génio, escrevo como um autor distinto e falo como uma criança", Nabokov desprezava escritores que, segundo ele, escreviam literatura ideológica e politicamente correcta. Assim odiava escritores como Thomas Mann, Balzac, Dostoievski, Gorki e Kafka, dizendo insolentemente deste último que a sua obra "Metamorfose" era um excelente livro de dissecação de insectos... Em suma, tinha fama de misantropo, a mania da superioridade e era completamente intratável, ou seja, e digo eu, era um completo Palhaço!

E pergunto: Como é que este senhor consegue escrever uma obra que é considerada como um dos clássicos da literatura?

Mas após a leitura deste livro, entendi porquê.

Como classificar Lolita? Narrado em jeito de memórias, uma forma que torna sempre uma história credível, "Lolita" é uma trágica confissão de Humbert Humbert, o protagonista-narrador, que na prisão e antes de enfrentar um julgamento por homicídio, resolve contar as suas memórias em relação ao grande amor da sua vida. Narrado sempre na primeira pessoa, "Lolita" é um conto chocante que descreve os pensamentos e acções de um pedófilo.

Humbert é um pedófilo. Tem 42 anos, europeu, professor de literatura inglesa que, depois de algumas aventuras amorosas na Europa, chega à América com o intuito de apagar o seu passado no velho continente. Acaba por se instalar numa pequena cidade onde aluga um quarto em casa de uma viúva quarentona chamada Charlotte Haze, que tem uma filha ainda criança: Lolita, 12 anos.

Nessa altura e devido aos seus pensamentos, apercebemo-nos que Humbert gosta de crianças a quem ele chama de ninfetas e percebemos, dentro do possível, o porquê dessa paranóia.

Mas Humbert começa a desejar Lolita, pensamentos libidinosos começam a percorrer a sua mente. Só pensa nela e imagina-se já envolvido com ela. Posteriormente Humbert apercebe-se duma inclinação de Mrs. Haze em relação a ele e, é precisamente através desse casamento que ele se aproxima de vez de Lolita, pois passa a ter “poderes” sobre ela enquanto padrasto.

A narrativa segue o seu pervertido rumo com alguma sensualidade e humor, no entanto o tomo é sempre chocante, a paixão de Humbert é avassaladora, doentia, obsessiva. É curioso o pormenor com que Nabokov analisa a mente de Humbert. Ele efectua um exame profundo da mente do pedófilo, inquietando-nos com o que extraí, as conclusões vai-nos chocando, ferindo e é impressionante o seguinte contra-senso: tem a capacidade de nos convencer que a pedófilia pode não ser tão aberrante, tão doentia como podemos julgar, podendo mesmo ser uma forma de amor. É impressionante mas é verdade. Nabokov joga literalmente connosco, com os nossos preconceitos, com os nossos medos e, depois de entregar o jogo, volta a tirar as cartas e baralha novamente. Repara-se que ele atinge o auge do chocante e do aberrante quando descreve os diários e sucessivos abusos (quase violações) de Humbert a Lolita, [que diga-se também de passagem, não era nenhuma ingénua "colegial" de 12 anos] Humbert deseja até engravidar Lolita para que pudesse dar à luz uma ninfeta, para, obviamente, futuro deleite de Humbert. É asqueroso! Mas depois Nabokov dá completamente a volta a este sentimento.

Mas será "Lolita" um simples livro erótico, pedófilo, pornográfico ou psicológico?

Claro que não!

Este livro é escrito com um objectivo.

Nabokov (um autêntico palhaço) odiava Freud (o homem devia odiar toda a gente), considerava-o um bacoco primitivo que falava por clichés e sem pingo de inteligência. Assim criticava a psicanálise e a psicologia e este livro é simplesmente uma paródia a estas duas ciências. No livro, Humbert (Nabokov) goza com os psicólogos, indo ao ponto de afirmar que inventava sonhos para os psicólogos descodificarem. A forma como Humbert vai narrando os acontecimentos, os seus impulsos sexuais, a sua obsessão por crianças, é notoriamente uma paródia a Freud e à sua psicanálise. Existem também uma série de enigmas presentes em todo o texto, assim como frases com segundo sentido. No romance surge uma personagem feminina que se chama Vivian Darkbloom que é um anagrama de Vladimir Nabokov, ou seja, um autêntico jogo criado por alguém que era mestre de xadrez e que pretendeu fazer deste livro um género de quebra-cabeças. E repare-se que afirmo que isto pelo que fui lendo sobre a obra, porque eu próprio não dei conta de alguns pormenores que afirmam estarem lá colocados estrategicamente.

Independentemente de quaisquer considerações sobre esta obra, independentemente daqueles que afirmam ser este livro uma obra de arte escrito de uma forma genial, eu vejo-o como um livro onde um escritor arrogante brinca e manipula, brilhantemente é um facto, o leitor. Um livro onde o escritor mandas às malvas simples regras éticas e humanas, descrevendo a mente nojenta de um pedófilo com uma finalidade objectiva: Chocar e achincalhar outros personagens destacados doa sociedade da altura.
Por isso, para mim, Nabokov foi um palhaço!

Mulheres do Meu Pai (As) - José Eduardo Agualusa

Por ocasião da morte da mãe, Laurentina, prosaica mulher portuguesa, descobre que aqueles que a criaram não são os seus verdadeiros pais e que é filha de um famoso músico angolano chamado Faustino Manso.

Empreende então uma viagem a Angola acabando por chegar precisamente no dia do funeral de Faustino.

Realizadora de cinema, Laurentina resolve abraçar a sugestão de um dos seus sobrinhos e dá início a um périplo por todos os locais por onde passou Faustino Manso a fim de realizar um documentário sobre o músico.

Saindo de Luanda até Benguela, Namíbe, África do Sul, Maputo, Quilimane e Ilha de Moçambique, Laurentina traça um roteiro que lhe permitirá reconstruir a história do seu pai e, sobretudo, as paisagens e culturas tão diferentes.

E é aqui que o livro resplandece beleza.

As diversas culturas entrelaçam-se nas várias personagens que surgem. A narração poética de Agualusa consegue-nos transmitir o exótico daqueles países, faz-nos ter vontade de conhecer aqueles personagens e realizar-mos, nós próprios, essa espécie de road-movie que Laurentina efectua.

No entanto, nem tudo o que parece é, e Laurentina descobre factos muitos interessantes sobre Faustino.

Gostei imenso do livro.

As descrições de Agualusa sobre essas culturas transmitem alegria e naturalidade. A expressão das relações promiscuas, que é ancestral, está bem vincada e achei curioso a forma como Agualusa contrapõe ou, diria, equivale ao comportamento verificado hoje em dia por grande parte dos jovens portugueses. Não será esse comportamento importando a essas gentes africanas e à sua cultura, tão diferente da portuguesa? Até porque Laurentina representa uma faixa, minoritária é certo, de jovens portugueses: Nascida em Portugal, mas com fortes laços culturais com essa África.

Quanto à escrita de Agualusa, é poética, descreve na perfeição sítios e lugares, transmitindo várias das chagas que abundam em África (e não só) e a alegria e despreocupação em que vivem os autóctones daquelas regiões. Não é tão corrosivo como outro célebre autor angolano, mas deixa entender, embora ao de leve, crítica sociais ao pós independência como também ao papel dos colonos portugueses.
Interessante a leve referência ao aparthaide, assunto que talvez merecesse uma abordagem mais ampla, mas não no contexto deste livro.