quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Druidas - Morgan Llymellyn

Este romance narra a história de Ainvar, Supremo Druida de uma das muitas tribos gaulesas e Senhor dos Bosques. Ainvar, enquanto Supremo Druida, liga-se a Vercingetorix, rei de uma das tribos e senhor de uma força física e de um carácter notável, que o levará a reunir esforços no sentido de unir as desorganizadas tribos gaulesas para combaterem um novo e fulminante inimigo que, aos poucos, se ia instalando em toda a Gália, sem que os seus habitantes se dessem conta do grau de influência que esses estrangeiros iam introduzindo no seu modo de vida: os Romanos.
Assim e quanto a mim, o principal personagem, ou se quiserem, o principal tema, é a invasão de Roma e a derrocada da Gália que, habitada por inúmeras tribos incapazes de se unirem em prol de um objectivo comum, algumas delas inclusive preferiam aliar-se a Roma, acabam por se “deixar” invadir sem apelo nem agravo, dando a luta possivel.
Logo este livro descreve a Gália antes da invasão, a vida pacífica das suas tribos que praticavam uma religião pagã, religião que tinha como seus sacerdotes os druidas, homens que se organizavam por classes, todos eles em sintonia com a natureza, donos de conhecimentos profundo e secretos, assim como secretos eram os seus rituais.
Os druidas eram assim vistos como os sacerdotes das tribos, logo, eram dos homens mais importantes e temidos das tribos.
Lhywelyn tenta então explorar essa relação entre os druidas e a natureza, conseguindo misturar toda essa relação cheia de mitos com a forma desordenada como os gauleses viam e levavam a vida, sobretudo a forma desordenada como actuavam na guerra, ainda mais quando pela frente tinham o exercito romano, imaginem o contraste. Achei curioso toda esta simbiose, pois é um livro que tão depressa nos coloca no mundo da magia, como logo de seguida, nos faz entrar em momentos terríveis.
Lhywelyn vai assim narrando a forma descontraída como os gauleses viviam e interessante, a forma como os gauleses viram a chegada dos romanos.
Eu gostei do livro, mas houve alguns factos que não apreciei, sobretudo alguns contra-sensos, quer ao nível do enredo, quer ao nível Histórico.
O estilo e o ritmo narrativo também não é o mais agradável. Em muitas situações do livro nota-se alguma pressa da escritora em resolver certos assuntos, no entanto e noutros, a história arrasta-se. Enfim, não existe uma grande coerência narrativa ao longo do livro.
Outro facto negativo que também vai de encontro ao já afirmado, prende-se com a pouca empatia com os personagens. A ligação é muito precária, nunca me senti especialmente ligado a nenhum deles porque a própria autora não tem essa capacidade de nos fazer vibrar e/ou sofrer com ou por eles.
Curioso também o pouco cuidado com as tradições celtas. Existem factos que o narrador afirma não serem costumes para, páginas depois, já descrever situações que põem tudo o que anteriormente afirmou em causa. Será que a escritora não reparou nisso quando reviu o livro?
Enfim, um livro que tenta e em parte até consegue, descrever a invasão romana e os costumes e tradições das tribos da Gália. No entanto a narração não está bem conseguida, raramente consegue agarrar o leitor.
Um romance que se lê bem, é agradável, mas enquanto romance histórico, é algo fraco.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Viver para Contá-la - Gabriel Garcia Marquez

Gabriel Garcia Marquez é para mim um escritor esquisito, não só ao nível da composição dos seus textos, como sobretudo devido à estranheza das suas histórias.
Prémio Nobel em 1982, Garcia Marquez assentou toda a sua carreira, enquanto escritor, num género que podemos classificar, ou pelo menos eu classifico-o, do realismo-fantástico, género esse povoado de fantasmas, demónios e situações surrealistas que vão sendo misturadas com o mundo real, dando então origem a um universo onírico, algo confuso, que deve ser lido, pensado e analisado com muito cuidado.
Pessoalmente não sou apreciador desse estilo, nem do simples e puro género do fantástico. Amante do Histórico e do realismo puro (Eça de Queirós, Maugham, Dostoiévski, Tolstoi, Vítor Hugo, Zola, Dickens, Jorge Amado e tantos outros), gosto essencialmente de ler sobre temas sociais e humanos e, após a leitura ou durante a mesma, efectuar vastas análises ao que leio e enquadrar aquela realidade na nossa actual sociedade.
No entanto e em relação a Marquez, algo me incomoda. Incomoda-me não entender a sua escrita e incomoda-me haver toda uma legião de fãs em todo o mundo que fazem dele o escritor mais consagrado do nosso tempo, sem que eu entenda esse sucesso. E vai daí, há algum tempo propus-me a entender a sua obra e o contexto da suas histórias.
Lendo por duas (2) vezes “Cem anos de solidão”, lendo também “Relato de um náufrago” e tentando ler o “Outono do Patriarca”, em todas estas situações fiquei sempre desiludido e como uma clara sensação de tempo perdido.
Até que, numa ida à biblioteca, me deparo com este “Viver para contá-la” livro que, alegadamente e segundo o que já havia lido, tratar-se-ia de uma autobiografia. Nada melhor então para ficar a conhecer em definitivo a s suas raízes, filosofias, paixões, gostos e inspirações que lhe moldaram o carácter e directamente o seu estilo de escrita.
”Viver para contá-la” trata-se então de uma autobiografia de Marquez que, sem preconceitos e tabús, narra de uma forma quente, apaixonada e ao mesmo tempo crua, toda a sua vida.
Antes de aprofundar a análise ao livro, há que referir que este trata-se do primeiro volume da sua biografia.
O livro inicia-se já enquanto Marquez estudante de direito em Barranquilla, recebendo a visita da mãe que lhe solicita que a acompanhe no sentido de venderem a casa dos avós em Aracataca, local onde ele nasceu e onde foi criado. É esse encontro o mote para este livro fabuloso, pois não se trata de umas simples memórias de Garcia Marquez.
Desde logo e com as descrições de Aracataca, ficamos com a ideia de onde Marquez foi beber a inspiração para criar “Cem anos de Solidão” e mais fascinados ficamos quando nos apercebemos que a história do livro é, simplesmente, a História da sua própria família. E continua.
Marquez vai desfilando as suas memórias. Memórias povoadas de histórias fantásticas mas reais, o surrealismo é algo que está entranhado nos povos caribenhos e da América do Sul, continente onde há muito circulam histórias e mistérios fantásticos. Quem nunca ouviu falar de Tiahuanaco, Cuzco, Nazca, Macchu Picchu, a perdida cidade do ouro dos Incas, os fantasmas da Jamaica, a misteriosa Ilha da Páscoa e tantos mais?
Pois bem, Marquez dá-nos o retracto daquele povo supersticioso, mas muito apaixonado e respeitoso da sua História e dos seu passado. Um mundo onde e segundo Marquez, “o estranho é não acontecer nada de estranho”
E vai por aí fora.
A sua infância e o modo como era visto e tido pelas pessoas que o rodeavam. As histórias que ia ouvindo pela bocas dos mais velhos, as suas observações e considerações pelo meio que o rodeava. O seu extemporâneo amor à leitura que o leva a ler, muito novo, obras como “As mil e uma noites”, a “Odisseia” de Homero, ”Orlando Furioso”, ”D. Quixote” e o ”Conde de Monte Cristo”, obras que lhe abriram as portas desses vasto e fascinante mundo da literatura e que o acompanharam desde sempre.
Mas Marquez vais mais longe.
Para além de narrar o passado dos seus pais e avós, ele situa, a nível geopolítico e social, a Colômbia no mundo, sobretudo ao nível das turbulências que desde sempre abalaram aquele país do Caribe. Amigo pessoal de figuras públicas, sobretudo figuras colombianas, destacando-se contudo a enorme amizade com Fidel Castro. Mas é curioso as personagens estranhas que marcam a sua vida e que lhe inspiraram a construção de personagens para os seus romances. Desde o coronel que fazia peixinhos de ouro numa velha oficina depois de uma vida de combatente (lembram-se do coronel Aureliano Buendía em “Cem anos de solidão”? Pois foi baseado no próprio avô de Marquez que fazia peixinhos de ouro depois de uma vida de combatente), até à sua tia que comia terra, passando pela tia que um dia lhes surgiu em casa e disse “venho me despedir, pois vou morrer!”, e à sua própria mãe, que com o seu forte carácter, o inspirou a criar a matriarca Úrsula, talvez a figura mais forte de “Cem anos de solidão”.
Em todas estas 579 páginas, Marquez narra tudo isso e muito mais. O seu percurso enquanto ser humano, o seu percurso estudantil e profissional. As obras e escritores que o inspiraram, a forma como estudou a aprendeu a técnica do romance, os mestres que lhe deram força para continuar quando as decepções o invadiam, os seus primeiros contos, enfim, todo um percurso rico em pormenores que finda em 1957 (fim deste volume).
Fico imensamente curioso em relação ao segundo volume, pois será nesse que Marquez narrará como construiu os seus romances, as suas estadias em Paris e no México (local onde escreveu “Cem anos de solidão”, a atribuição do Prémio Nobel e as suas amizades com escritores consagrados, entre os quais o “nosso” José Saramago.
Neste primeiro volume fica assim claro que as obras de Marquez espelham uma realidade que efectivamente é a do seu povo, uma realidade fantástica e sensual, inserida numa cultura secular com tantas tradições.
Quanto a mim, fiquei maravilhado com este livro e com o génio deste homem que, com os seus textos, procurou sempre honrar e homenagear um país e um povo que é o seu.
Talvez este livro tenha sido o mote para mais um fã de Marquez, ainda mais porque achei curioso algumas manias que ele tem que eu também tenho (por exemplo ele adora cheirar os livros novos e eu também). De certeza que vou ler mais uns romances dele, pelo menos agora que entendo o porquê desse estranho universo, Marquez tem agora outra lógica e outro sabor.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Amor em Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez

Florentino Ariza apaixona-se pela jovem Fermina Daza de uma forma tão intensa e pura que, segundo ele, é mesmo amor o que sente. Começa então a escrever-lhe bilhetes, utilizando a velha tia de Fermina como intermediária do jovem casal.
Declaram então um amor eterno, no entanto o pai de Fermina não vê com bons olhos esse relacionamento, pois Florentino não tem estatuto social e ele pretende que a jovem se case com alguém de “boas famílias” e não com um pé rapado sem futuro.
Fermina é então obrigada a partir com o pai numa longa viagem, no entanto, em vez de o amor desaparecer, apenas se torna mais intenso e, num belo dia após o regresso de Fermina, sem ela própria saber porquê, Fermina sente que esse amor desapareceu, assim, simplesmente desapareceu.
No entanto Florentino não se rende...
Das várias opiniões que li sobre esta obra, em todas ela se referia que esta história é uma bela história de amor.
Em parte concordo, pois realmente é uma bela e terna história de amor, porém, penso que é uma forma muito simplista de classificar e resumir esta obra.
Gabriel Garcia Marquez é indubitavelmente um dos grandes escritores de sempre. Ao contrário do que dizia José Luis Borges ”Marquez não trouxe nada de novo à literatura”, tenho a certeza que efectivamente Marquez trouxe muito de novo à literatura.
Marquez inventa, ou se quisermos, é um dos percursores e o seu mais fiel escritor do género “realismo fantástico”, género esse que não é o meu estilo mas que e depois de ter lido o “Viver para contá-la”, aprendi a respeitar e a apreciar.
Depois Garcia Marquez tem a excepcional capacidade de misturar as realidades com sonhos, crenças e rituais, tornando assim os seus romances em histórias onde a realidade e a ficção se misturam de uma forma onde nós não sabemos onde começa uma e acaba a outra, tal o universo cheio de fábulas, mitos e magia, completamente um universo onírico.
Pura e simplesmente o que Marquez faz é o de dar ao leitor um mundo, um universo que numa primeira análise é em tudo semelhante ao nosso para, e aos poucos, ir inserindo histórias fantásticas, mitos e fábulas do folclore colombiano, histórias estranhas da sua própria família, dos seus amigos e metáforas, principalmente metáforas políticas.
Dizia Garcia Marquez em “Viver para contá-la” :”estranho era não acontecer nada de estranho no local da minha infância”, por isso e de acordo com a própria vivência do escritor, imaginem o que salta para os seus romances.
Em “Amor em tempos de cólera”, Marquez não foge ao universo acima descrito.
A história tem um espaço temporal de cerca de 60 anos. Inicia-se algumas décadas antes do fim do séc. XIX e finda nas primeiras décadas do séc. XX.
Aqui Marquez não aborda questões políticas. Em toda a obra é apenas referido, e muito superficialmente, as guerras que devastaram a região das Caraíbas no período descrito.
Descreve também um surto de cólera que efectivamente existiu, mas ele usa esse surto para jogar com as personagens, criando cenários fantásticos numa grande metáfora sobre a vida humana.
Neste romance ele personifica a paixão, o amor humano em toda a sua pureza. Mas não só. N
este romance Marquez efectua uma homenagem à mulher, ser que guarda em si a eternidade da vida e a alegria, paz e harmonia do homem. Fermina Daza representa esse ideal. Uma mulher que é amada toda a vida, que é vista e tida como uma Deusa, como uma esplendorosa luz que ilumina a alma de Florentino, que lhe dá alento.
Florentino nunca deixa de amar aquela mulher. Um amor que extravasa o físico, a matéria.
No decurso da sua vida, Florentino entrega-se a várias mulheres (até o episódio da forma como Florentino perde a virgindade, e acreditem que no caso perde mesmo, é extremamente simbólico), relações sem futuro porque o seu coração estava entregue, aprisionado. As suas entregas são uma forma de prostituição, pois e consoante ele defendia: ”Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, e por todas com a mesma dor, sem atraiçoar nenhuma”.
A estrutura do romance não segue uma cronologia linear.
Marquez joga com as memórias dos personagens. Flash-back’s constantes compõem a obra, sempre num ritmo pausado, calmo, como deve ser vivido o amor. Um romance cheio de imagens mentais.
Gostei muito do romance fundamentalmente por causa da escrita de Marquez. Ele encanta. A forma como escreve é musical, poética e inimitável. Dá realmente um enorme prazer ler este livro, pois as palavras fluem compondo um texto narrativo a roçar o poético.
A simbologia que emprega é muito forte, agarrando-nos e dando-nos quase a possibilidade de vivermos aquelas vidas, pois ficamos com a sensação que todo aquele amor, é, ao fim e ao cabo, um pouco da nossa pretensão, do nosso próprio ideal romântico.
Um livro vivo e que nos faz viver um amor eterno.

Eurico, o Presbítero - Alexandre Herculano

Apreciador de romances históricos, não podia deixar de efectuar uma homenagem pessoal ao iniciador do romance histórico em Portugal que, seguindo o modelo de Wlater Scott, fez reviver velhas tradições medievais, reconstruindo toda uma sociedade onde gentis cavaleiros tentavam conquistar imponentes castelos: Alexandre Herculano.
Alexandre Herculano foi um dos mentores do movimento romântico, logo, a sua obra reflecte as tendências do romantismo. Historiador e escritor, Herculano que, diga-se de passagem, foi durante muitos anos responsável pela Torre do Tombo, tendo assim acesso de uma forma privilegiada a documentos históricos, mas Alexandre Herculano estendeu a sua capacidade de escrita por diversos géneros literários: Poesia, Romance e História. Dono de uma visão apurada sobre a realidade do país, nos seus romances procurou sempre relacionar a História com a ficção, no entanto procurou inserir essa ficção dentro da História para que, assim, essa ficção, fundamentalmente ao nível dos diálogos, não destruísse a História. Ou seja, Herculano foi o primeiro a entender o quão importante seria o romance histórico para a divulgação e conhecimento da História.
Mas Alexandre Herculano como historiador foi deveras importante para a sociedade da altura. Penso que para o caso não vale a pena aqui aprofundar a questão. Não só porque nos levaria para campos políticos e filosóficos que influenciaram os seus contemporâneos, como também abordar a sua importância enquanto historiador, seria afastarmo-nos do meu propósito, no entanto e apenas para complementar, Alexandre Herculano teve um papel vital na visão da História em Portugal e foi um dos grandes escritores portugueses de todos os tempos e um homem que teve um contributo decisivo na cultura portuguesa.
"Eurico, o Presbítero" é um romance grandioso, uma verdadeira Odisseia.
Li, algures, que podemos compara "Eurico, o Presbítero", enquanto obra grandiosa, a "Odisseia" de Homero. Pessoalmente concordo. Não tenho mesmo problemas nenhuns em considerar "Eurico" uma obra no mesmo patamar da "Odisseia" ou dos "Lusíadas", enquanto obra de capital importância para a nossa cultura e identidade lusa.
Eurico, nobre mas sem grandes bens, enamora-se por Hermengarda, filha de um importante e influente nobre. No entanto e dada a sua baixa condição social, os apaixonados são impedidos de casar, forçando assim Eurico a escolher uma vida de celibato, tomando os juramentos de monge e fechando-se num mosteiro.
A primeira fase do romance é belíssima. Eurico vagueia triste e pensativo. Os seus pensamentos são em prosa poética e revelam uma visão do mundo que vai de encontro às próprias teses de Herculano. Eurico elabora nesta fase uma profunda reflexão sobre os problemas que afligem o Homem.
Ainda no mosteiro, Eurico vem a saber das invasões árabes e da fuga das hostes cristãs. Nessa desordenada fuga, Hermengarda acaba por ser raptada pelos mouros.
Quando está prestes a ser desonrada pelo comandante dos exércitos mouros, Hermengarda é espectacularmente salva por um cavaleiro negro que, lutando como um louco, consegue desbaratar todo o exército muçulmano. Para espanto de Hermengarda, o cavaleiro negro identifica-se e é com espanto que vê surgir na sua frente o próprio Eurico, seu antigo noivo. Porém mais está para acontecer, os mouros não desistem...
Alexandre Herculano situa a acção na época das primeiras invasões árabes (sec. IX, salvo erro). Portugal ainda não existia, o qeu existia era um povo que ocupava esta nossa faixa de território da Península Ibérica: os Visigodos.
Assim, Herculano descreve uma época problemática e perigosa a vários níveis: a influência da cultura romana era praticamente nula, os visigodos procuravam na crença do deus único um sentido, enquanto que em contraponto, surgia fulgurante, uma outra civilização com outras crenças religiosas. A própria tragédia de Eurico é um sinal desse confronto de crenças, por um lado exige-se o celibato, por outro, os seus pensamentos deixam antever outras ideias. A derrocada do "império" Godo está também presente, quase como a antevisão do surgimento de um outro povo. O tom grandioso da obra deixa antever futuros acontecimentos que irão mudar a face do território e a sua História.
É engraçado que neste romance Herculano dá bastante ênfase ao conflito amoroso. E é neste fase que se dá aqueles pensamentos poéticos que tornam a obra belíssima. Digo engraçado porque o próprio Herculano afirmava ser essa a fase aquela com que ele maiss e identificava, sendo aí que ele expôs o fulcro do seu pensamento. Ora bem, sabe-se que na juventude Herculano também havia sacrificado uma paixão à sua vocação de escritor. Logo, Eurico ao preferir o celibato ao amor, personifica a sublimação de um ideal, o sacrifício do amor a esse ideal. É interessante!
Em suma, uma obra cuja opinião é muito difícil, sobretudo porque tenho a percepção que toda a obra deve ser analisada (não é por acaso que existe os "Apontamentos" da Europa-América), pois toda ela tem uma série de técnicas literárias, intenções políticas, estruturas díspares, críticas sociais e morais, pensamentos que advêm de várias correntes filosóficas e inclusivamente pretensões de inquirir o papel da religião.
Quanto a mim é uma obra muito profunda que, e a custo (custou-me também constatar que ainda ninguém havia opinado sobre a obra) elaborei esta opinião, mas reconheço que está muito incompleta. No entanto e por muito que goste de efectuar análises aos livros que leio, neste caso não consigo melhor e mesmo assim, só à custa de vários apontamentos que fui escrevendo ao longo de várias semanas.
Uma obra portentosa, importantíssima para a nossa cultura.

Diário de Bridget Jones - Helen Fielding

O livro está escrito numa linguagem muito leve, fácil, muito soft. Desculpem-me quem adorou o livro, mas a mim pareceu-me um livro tipicamente light.
A história é demasiado simplista: Uma jovem mulher (na casa dos 30 anos), tem uma vida fútil, cheia de nada e trasbordante de obsessões. Ela é obsessiva pelo peso, pelo tabaco, pelo álcool, pelos homens e até as relações com a família e amigos é algo obsessiva.
O livro basicamente é apenas isso. Não há nada para analisar. De início é engraçado, algumas páginas depois entretém e antes do meio já é um terrível tédio, pois as situações são muito semelhantes, tudo numa madorra irritante, onde ela vai descrevendo as suas obsessões e, a partir de uma certa altura, a obsessiva relação com o seu chefe.
Tem de facto algumas passagens engraçadas, sobretudo porque, já tendo visto e gostado do filme, acabava por imaginar as situações com o Hugh Grant e a Renée Zellweger, mas e sem ser isso, o livro é um vazio execrável.
Com um enleio (chamemos-lhe assim) muito fraco, com personagens que nunca se impõem (ao contrário do filme), este foi um livro que me decepcionou muito, pois fica muito aquém do filme, filme esse que apenas ressalva o que a obra tem de interesse.
Chegando ao fim, não consegui começar o seguinte (havia-o requisitado na biblioteca). De certeza que o estilo é idêntico, de certeza que ela irá continuar na sua obsessão pelo peso, tabaco, álcool e homens. De certeza tudo, a receita do primeiro teve êxito, logo não há que mudar.
As mulheres que afirmam que este filme sublinha as suas preocupações, os seus estados de espírito ou um pouco do seu dia-a-dia, então, minha amigas, penso que terão que rever as prioridades da vossa vida. Isso sem querer ofender ninguém, mas arrepia-me pensar que existe alguém que tenha uma vida tão fútil.
Enfim, um livro muito fraco, onde não só se aprende nada, como não tem a capacidade de entreter.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Um Deus Desconhecido (A) - John Steinbeck



John Steinbeck foi um escritor que escreveu sobretudo sobre a sua região: Califórnia. Aquele que fez da Califórnia a principal dos seus romances.
A acção do romance passa-se em pleno Oeste norte americano no início do séc. XX.
Tendo conhecimento que o governo estaria a oferecer terras para quem se quisesse estabelecer na Califórnia, Joseph Wayne abandona a casa paterna e empreende a viagem rumo ao seu sonho. Ao chegar, escolhe alguns hectares de que lhe parecem ricos, registando-as posteriormente em seu nome.
É já quando se está a estabelecer, que recebe uma carta dos seus irmãos, informando-o da morte do seu pai, notícia essa que o entristece mas que o faz tomar consciência de uma nova era que se inicia.
Acontece que nessas suas terras, existia uma grande e velha árvore que Joseph tomou como mais do que uma simples árvore, tomou-a como um ser vivo, pensante, algo que tinha sobre ele um poder especial, algo que incorporava o poder paternal, ao fim e ao cabo, o seu próprio pai.
Neste romance, que classifico como um romance estranho, Steinbeck cria um personagem central. Joseph Wayne, homem que apenas tem olhos para a terra, mas um homem com um carácter forte que, ás tantas, sobre ele alguém afirma: ”um novo Jesus do oeste”.
No entanto este romance é um romance sobre o meio físico e social. Social porque nos narra a organização típica de uma família do velho Oeste: Um rancho que agrupa toda uma extensa família, chefiada pela figura patriarcal, preocupada essencialmente com a sus subsistência, com a terra e com a criação do gado. Físico, porque Steinbeck situa muito bem o romance: Califórnia selvagem, entre o mar e o deserto.
Mas este romance tem alguns pormenores que deixam perceber que Steinbeck escreveu-o com um sentido muito mais amplo do que aquele que tenho visto referido. Um romance sobre o amor à terra e à vida? Não! Este é um livro mais profundo, não necessariamente mais belo por isso, mas tem mensagens que ultrapassam a de uma simples e mera história.
Se não repare-se:
O personagem principal e aquele que é a essência de todo o livro, chama-se Joseph Wayne. Joseph é um nome de origem hebraica que significa Deus Acrescenta. Curioso!
Curioso também a enorme semelhança física entre Joseph e Abraão, semelhança impressionante quando se sabe que, na Bíblia, Abraão deixa a casa do seu pai e parte para uma nova terra, a terra prometida. Em “A Um Deus Desconhecido”, Joseph parte em, busca da terra prometida: o Oeste. Mas não é apenas esta a única semelhança. Ao longo do livro é notória a semelhança desta obra com acontecimentos do Velho Testamento.
Logo, este romance tem uma fortíssima componente religiosa e, curioso, é a forma como Steinbeck, propositadamente, mistura a crença católica com actos de puro paganismo.
Joseph é um homem que ama essencialmente a terra, toda a natureza. Personifica numa velha e viçosa árvore a figura do seu próprio pai, do seu Deus. A essa árvore entrega oferendas, presta-lhe culto, cumpre assim uma espécie de rito pagão.
O certo é que toda essa relação entre a crença católica e pagã tem um fim abrupto, fim esse que irá desencadear toda uma série de acontecimentos extraordinários e inesperados que porão fim ao próprio livro.
E a chuva que tem um papel tão importante?
A queda da chuva que penetra na terra mãe gerando vida, faz-nos lembrar aquelas estatuetas do Paleolítico que personificavam a fertilidade...
Em suma: este romance é uma alusão clara a vários episódios bíblicos. Joseph Wayne age como um deus, ele é a terra, a chuva, a vida, toda a natureza.
É um romance algo angustiante porque desde o princípio nos apercebemos que o trajecto da acção é omissa de certezas e poucas esperanças. É um romance que não deve ser lido apenas para estar entretido. Penso que é um livro que deve ser lido com muita atenção e com algum tempo para analisar o que foi lido, pois existem muitas mensagens que se podem extrair.
Pessoalmente gostei mas não o considero uma obra do nível das “Vinhas da Ira”, sobretudo devido à própria acção e ao ritmo que Steinbeck imprime.
A analogia de Joseph com Abraão e as constantes metáforas bíblicas, dizem-me pouco, e para além de me dizerem pouco, existem diálogos estranhos, com pouco sentido, algo maçudos que, quanto a mim, acrescentam pouco ao livro.

Relíquia (A) - Eça de Queirós



Para quem já teve a oportunidade de apreciar um romance do mestre Eça de Queirós, deve saber que uma das suas características era o de efectuar, e isso está presente em todos os seus romances, uma crítica social mordaz, irónica mas, no fundo, uma crítica que tentava ser construtiva.
Neste romance que me proponho a opinar, romance esse considerado por muitos como a sua "obra-prima" ou aquela onde ele conseguiu explanar toda a sua corrosiva veia crítica e irónica, o mestre Eça, que publica este romance em 1887, época em que vive em Londres, dominado por pensamentos e teorias agnósticas que faziam então furor entre os intelectuais ingleses, mas, o mestre Eça constrói todo um trama assente sobretudo na observação dos costumes, nomeadamente uma observação que se propõe a narrar os costumes das gentes beatas e a hipocrisia que daí surgia.
Narrado sempre na primeira pessoa, o escritor começa por nos apresentar o seu principal protagonista: Teodorico Raposo, ele próprio o narrador da história.
Toda a narrativa aborda a própria vida de Teodorico. Homem que órfão aos 7 anos, foi deixado aos cuidados da sua tia, D. Maria do Patrocínio, mulher devota, púdica, que se guiava pelos padrões de uma antiga burguesia dominada pela religião. Beata e tremendamente receosa de Deus, a Titi envia Teodorico, aos nove anos, para um colégio interno e, após estadia em Coimbra, Teodorico acaba por regressar a Lisboa anos depois e já doutor. Toda essa fase é já dominada por um carácter devasso de Teodorico que, para além de ser um calão, encontra em tudo formas de diversão.
Feliz de ter um sobrinho doutor e muito crente e cumpridor dos seus deveres para com Deus (Teodorico passa a vida a simular idas à igreja e mostra-se sempre muito devoto em frente da Titi), a tia começa-lhe a dar uma rica mesada, começando assim Teodorico uma vida "farta e regalada".
Bom, mas um problema surge. A tia estava velha, era rica e, pelo que Teodorico se apercebe, ela prepara-se para deixar grande parte da sua fortuna à igreja e, é numa conversa com um amigo do pai que se convence que a única forma de ficar com a fortuna toda da velha é precisamente, ele, Teodorico Raposo, ser mais santo que o próprio Jesus Cristo.
Imaginem!
Assim e também porque passava por uma fase de profunda desilusão amorosa, ele resolve "cravar" uma viagem à sua tia, uma viagem que o irá levar à Terra Santa.
Essa viagem, alegadamente uma peregrinação em nome da Titi, irá transformar-se numa viagem louca, metendo uma amante inglesa em pleno Egipto que lhe faz a vez das idas à igreja..., uma estadia em Jerusalém onde, para além de ele achar tudo horrível, acaba por sair do Santo Sepulcro a praguejar, até a uma carga de porrada que ele leva de um escocês por ser apanhado a espreitar a filha deste enquanto tomava banho.
Hilariante!
Mas, antes desta viagem "santa", onde Teodorico se propunha a ser mais santo do que J.C., ele promete à Titi que lhe irá trazer uma relíquia que é nada mais, nada menos do que um bocado da própria coroa de espinhos. No entanto é um simples galho que irá fazer a vez da coroa, sendo então embrulhado em simples papel pardo, papel semelhante que embrulhava uma garrida e erótica camisa de dormir da sua amante inglesa que, em memória da sua última fogosa noite de amor juntos, oferece-lha de modo a recordar-se sempre dela.
Farto daquela miséria toda, ele resolve empreender a viagem de regresso, sendo então recebido em apoteose pela tia que já o vê como um santo, um modelo de ser humano, pois havia estado nos mesmos lugares que Jesus Cristo.
Agora imaginem o momento em que ele vai dar a tão prometida santa relíquia à sua tia...
Essa entrega irá processar-se de uma forma cerimoniosa. Todos os padres e todas as beatas são convidadas para a ocasião. Tal presente iria fazer furor e criar invejas junto da beatitude da sociedade lisboeta. E quando a Titi abre o embrulho, em vez de um galho da coroa de espinhos, eis que surge uma camisa de dormir de cores garridas, provocante e cheia de rendinhas... imaginem o desenrolar da cena. É deveras hilariante!
Pessoalmente gosto muito deste romance, aliás, eu gosto de todos os romances e contos de Eça. Neste caso ele constrói uma personagem extremamente religiosa e, em contraponto, uma outra mas extremamente liberal. O choque é inevitável. A hipocrisia assola todo o romance, chega a ser incomodativo e irritante tanta sobranceria e hipocrisia. À semelhança do que Eça fez noutros romances, ele descreve uma sociedade completamente dividida: os mais jovens, liberais e não crentes. Os mais velhos, ainda com aquela ideologia da alta burguesia do início do Sec. XVIII, completamente sob o domínio da igreja e dos seus representantes.
Sabe-se que Eça não era um grande simpatizante do catolicismo. Já em "O Crime do Padre Amaro", ele traçava um cenário profundamente crítico, caótico mesmo em relação à igreja e ao seu comportamento, no entanto em a "Relíquia", ele aborda a questão doutra forma, aliás, ele dispara as suas críticas sob outra perspectiva: a do fanatismo religioso. Quanto a mim, este romance complementa "O Crime do Padre Amaro", pois neste caso ele crítica, e é impiedosa a forma como o faz, toda uma sociedade que vivia de aparências... isto é tudo tão familiar nos dias de hoje!!!
Eça de Queirós é, pois, o melhor escritor português de todos os tempos e, não tenho a melhor dúvida, um dos melhores a nível mundial. Se ele fosse norte-americano, francês, inglês ou alemão, penso que seria considerado o grande mestre da literatura universal. Senhor de um estilo único, enquanto narrador conseguiu "pintar" cenários reais da sociedade portuguesa, efectuando também descrições e análises psicológicas dos seus personagens de uma forma intensa.
Embora este não seja o romance que mais aprecio do mestre, penso que a "Relíquia" é aquele onde ele consegue, de facto, expressar todo o seu génio, para além das sublimes descrições que efectua do Egipto (onde esteve para a inauguração do canal do Suez) e Palestina, ele consegue descrever de uma forma minuciosa os costumes da época, os hábitos da sociedade, o modo de pensar e o latente conflito de gerações que se dava na altura.

Casa dos Budas Ditosos (A) - João Ubaldo Ribeiro


Há livros que me vêm parar às mãos de uma forma quase surrealista. Muitos deles surgem-me quase vindo do nada e por vezes dou comigo a olhar para livros nas minhas estantes que, juro, não me recordo como apareceram ali.
Neste caso concreto, "A casa dos Budas Ditosos", não foi o caso de não saber como ali foi parar. Sei-o porque me foi oferecido há anos, a questão é que nunca me senti minimamente motivado para o ler dado, não só o estranho e estúpido título, como também porque não aprecio de forma geral literatura erótica e/ou pornográfica.

Mas há uns dias decidi-me a arrumar com este livro e eis a minha opinião:
Erotismo e sexo é algo que agrada a todos, mas que dizer de um relato onde, sob a desculpa de ser verdadeiro, se narra acontecimentos onde o erotismo tem uma presença, digamos... de nome, e o sexo, aliás, a pornografia sem regras é o principal tema do livro, aliás, aquilo é mais uma forma de vilipendiar o sexo. Mas enfim!
O conteúdo do livro é apenas e só as "várias formas de se fazer sexo doentio com homens e mulheres, sem olhar a meios e onde, tudo e mesmo tudo é permitido", contado por uma mulher de 68 anos que, segundo ela, está à beira da morte, resolvendo então contar ao escritor Ubaldo as suas memórias.
Uau! Que interessante! É o ser humano assim tão voyeurista que se interesse por um conto de uma desconhecida só por alegadamente ser erótico?
Mas será este um relato verdadeiro ou um conto retirado da imaginação deste escritor? Se querem saber, não consegui descobrir mas também não me esforcei muito.
Profundamente egocêntrica, pois apenas ela contava, ela vai narrando a sua vida, vida essa onde o sexo ocupava um lugar especial (especial é favor) 24 horas por dia (que pena o dia só ter 24 horas). A mulher até sonhava com sexo. Ganda maluca!
Esta libertina (oh pró Sade cheio de inveja) praticava sexo de todas as maneiras: ela era anal, oral, manual, grupal e mais que tal que aquilo nunca mais acabava, sem falar no incesto que, segundo ela era algo de muito natural. Bem mas aquilo era um forrobodó tão grande que progressivamente nos vai fazendo sentir como uns verdadeiros meninos de coro, não o de Santo Amaro de Oeiras, mas daqueles que julgam os preservativos serem balões para as festas de despedidas de solteiro.
E os tabus? A mulher pensa que os tabus vão sendo violentamente derrubados (esta frase é leve para classificar esse derrube). Essa mulher vive a sua liberdade de uma forma obsessiva, é estéril, logo e num tempo onde as doenças sexuais não eram uma grande preocupação, apenas o prazer físico, o conhecimento do fruto proibido, o êxtase sexual, lhe interessa, no entanto esse interesse e as práticas caem sempre no exagero.
E pouco mais há para dizer. João Ubaldo Ribeiro elabora uma narrativa compulsiva, uma narrativa onde a luxúria se apresenta na primeira página e se despede na última.
Como devem já ter constatado, não gostei do livro.
De erotismo e sensualidade gosto, no entanto este livro não se pode classificar de erótico, pois é um livro doentio onde existem temas que são abordados de ânimo leve com o intuito de chocar. Mas não o consegue, pois essa intenção descamba no ridículo, tal o exagero das situações descritas.
Se tiverem curiosidade em ler sobre uma vida dedicada à devassidão sexual, à luxúria, então força, no entanto também vos digo que entre a literatura erótica existem livros muito bons. Se nem essa curiosidade tiverem, então esqueçam-no, pois não vale um corno.

Anjos e Demónios - Dan Brown



Aquando do lançamento do "Código Da Vincai", fui daqueles que, influenciado pela publicidade e pela inúmeras opiniões positivas no Livra, corri a uma livraria próxima a fim de o adquirir, pois parecia que se tratava do melhor livro de todos os tempos.
Não vou dizer que não gostei, estaria a mentir a mim próprio, no entanto e embora ele me tivesse despertado para um mistério que me deu, posteriormente, bastante gozo investigar, o certo é que não o achei assim tão bom. Tem de facto uma história excitante, cheio de pormenores históricos de realce, mas é muito incoerente em muitos factores, principalmente no nível temporal da própria acção. Mas isso é a minha opinião, vale o que vale, sendo certo que não o achei um portento mas deu-me gozo lê-lo.
Este "Anjos e Demónios" antecede o "Código Da Vincai". É neste que surge o professor de simbologia de Harvard, Robert Langdon, que vê os seus serviços serem requisitados por um Centro de Pesquisas suiço, alegadamente por terem encontrado, cruelmente assassinado, um dos mais influentes cientistas do centro.
Está dado o mote para uma aventura muito semelhante ao "Código Da Vincai", pelo menos no seu estilo.
Uma aventura que se inicia nos Estados Unidos, passa pela Suiça e tem toda a sua excitante acção em pleno Vaticano. Aqui Brown não se limita a criar suspanse, ele vai-nos dando informações e detalhes históricos de Roma, do Vaticano e do próprio cristianismo. Curioso que no livro o Papa falece e os Cardeais se preparam para o conclave. Temos então um rol de informações sobre o conclave, o que é e como se procede, enfim, informações valiosas que vão de encontro ao momento actual.
É claro que Brown não se fica apenas por isso. Como no "Código Da Vincai", ele vai-nos dando pistas correctas e pistas falsas. Faz-nos crer em vários suspeitos, para ao longo do livro baralhar e voltar a dar. Nós próprios entramos nesse jogo ilusório, na própria investigação, nesse intrincado puzzle, no entanto as peças que possuímos são diminutas, Brown esconde-nos peças importantes...
Nesta obra temos também uma sociedade secreta, a filha do morto que vai ajudar Langdon na investigação, uma assassino que crê piamente nas suas convicções e nas ordens do mestre, enfim, alguns ingredientes que já prováramos em o "Código Da Vinci".
Não gostei novamente do espaço temporal da acção. Repare-se que desde que Langdon recebe o primeiro telefonema, ainda nos Estados Unidos, até que o mistério fica totalmente resolvido, passam cerca de 12 horas, tempo que acho muito curto para as situações que decorrem. No entanto e como não tem tantos enigmas como em o "Código Da Vincai", penso que esse factor acaba por não dar tanto nas vistas, acabando assim por ser mais credível e mais facilmente digerível. A fase final do livro também não gostei. Não vou aqui desvendar nada, mas penso que ele enrola um bocado. E outro factor que achei incoerente, é o facto de que a linguagem universal da ciência (matemática) passa a ser outra, ainda por cima a explicação que Brown dá é, mínimo, desenxabida.
Em suma: Dan Brown assente em dados factuais verídicos, constrói todo um trama de conspiração numa autêntica corrida contra ao tempo em pleno coração do Vaticano, logo do catolocismo. Penso que Brown tentou criar uma espécie de conflito ou ,se quisermos, polémica entre ciência e religião, indo ao ponto de afirmar que apenas a ciência poderá provar a existência de Deus. Não me quero expressar sobre isso, mas a verdade é que a narrativa desta história nos deixa a pensar nesse facto; um género de conflito ideológico e de crença entre ateus e crentes.
Impossível não se fazer comparações entre "Anjos e Demónios" e o "Código Da Vincai": são bastante semelhantes. Pessoalmente talvez tenha gostada mais do "Código Da Vinci" (comparando os dois, notei claramente uma evolução ente o 1º e o 2º livro), no entanto apenas porque aborda uma temática que me apaixona mais e também porque achei os enigmas presentes mais exóticos e excitantes, aliás, considero que o "Código Da Vincai" está mais recheado de enigmas, de situações mirabolantes.
No entanto, aconselho a leitura deste "Anjos e Demónios". Lê-se compulsivamente, em cada página as situações sucedem-se a um ritmo alucinante, a ansiedade apodera-se de nós, parece que a resolução do mistério está "já ali", no entanto, várias surpresas acontecem...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Afonso, o Conquistador - Maria Helena Ventura

Afonso, o conquistador, é um projecto ambicioso de Maria Helena Ventura, socióloga que faz da investigação a sua especialização.

Autora de outras obras como, por exemplo, “A musa de Camões”, deixa perceber de facto toda a extensa e cuidada investigação da época em causa, quer seja ao nível do pensamento reinante, como também relativamente aos costumes e até na forma como se falava.

Projecto ambicioso, considero, porque realizar uma obra romanceada sobre o maior vulto da História de Portugal requer um cuidado especial até porque a esse nível nada existe, mas considero que se podia fazer muito melhor.

O romance até nem é mau, longe disso, mas faltam condimentos que a autora, se calhar até pelo seu estilo, não foi capaz de empregar.

Começando com um D. Afonso Henriques no início do seu reinado (a primeira falha, pois o processo que eleva Afonso Henriques a chefe do condado Portucalense e até a batalha de S. Mamede são simplesmentes omitidos), a história centra-se na personagem Afonso Henriques e nos seus companheiros íntimos que ficam indelevelmente ligados ao surgimento de Portugal enquanto nação.

Representado como um homem rude, Afonso cinquista território em busca de autonomia e reconhecimento, quer da Santa Sé, quer do seu primo e rei de Castela, também ele Afonso.

Desde logo associado aos templários, é clara a ligação entre ele e os guerreiros do templo, Afonso Henriques é a causa de um povo que sonha com a independência, de uma língua nova e de uma cultura.

O romance cumpre bem o seu objectivo, dando-nos a conhecer o home por detrás do mito, porém Maria Helena Ventura é algo macia nas descrições da vida efectiva do rei e extremamente sensaborona na descrição das batalhas onde Afonso se envolveu. Aliás, sensaborona é elogio porque essas descrições praticamente não existem.

É a maior pecha do livro e, quanto a mim, tira-lhe beleza e qualidade, pois não consegue passar a época. Pessoalmente nunca consegui situar-me na época, visualizar as suas descrições, sentir os seus cheiros.

Penso que a memória de D. Afonso Henriques merece mais e melhor, no entanto este “Afonso, o Conquistador” não é de deitar fora, sendo uma leitura que se faz com prazer e interesse.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Livros lidos em 2007

No ano que agora finda li 47 livros (contabilizo apenas aqueles que li da primeira à última página pois há outros que desisti a meio), número dentro de uma média anual mantida há uns dez anos.

Dessa lista pretendo aqui referir os dez que mais gostei.

- “A Estrada” de Cormac McCarthy
- “1984” de George Orwell
- “Cruz de Portugal” de José Sequeira Gonçalves
- “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón
- “A Odisseis dos Dez Mil” de Michael Curtis Ford
- “Filipa de Lencastre de Isabel Stilwell
- “O Canto dos Pássaros de Sebastian Faulks
- “A Voz dos Deuses” de João Aguiar
- “Predadores” de Pepetela
- “A Voz da Terra de Miguel Real

Sem nenhuma ordem de preferência destaco, contudo, “A Estrada” como o livro que mais me marcou, diria mesmo que foi um dos melhores livros que li até à data e “A Voz da Terra”, um livro que merece o rótulo de obra-prima da literatura portuguesa.

Destaco também um livro que reli pela 4ª vez: “A Filha do Capitão” de José Rodrigues dos Santos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Sombra do Vento (A) - Carlos Ruiz Zafón

Grande sucesso em Espanha e praticamente em todos os países onde foi publicada, “A sombra do vento” é um livro que fala de livros e da influência que os mesmos podem ter na vida daqueles que os lêem.

A acção situa-se em Barcelona em meados da década de 40 (século XX) onde ainda se vive sob o espectro da guerra civil que assolou toda a Espanha e sob a ditadura de Franco.

Daniel Sempere, o principal personagem e narrador da história, de mão dado com o pai é levado à descoberta de um local mágico e misterioso: O cemitério dos livros esquecidos. Gigantesca e labiríntica biblioteca onde são guardados os livros saídos de circulação e há muito esquecidos pela sociedade.

Logo aqui há uma clara referência à estrutura labiríntica imagina por Umberto Eco no seu livro “O nome da Rosa” e, na minha perspectiva, uma crítica à sociedade pela forma como trata os seus livros, para além de ele próprio fomentar a idéia da importância de todos os livros como veículo de cultura.

Esta cena inicial torna-se assim na premissa para todo o enredo que irá rodar sob o livro que Daniel escolhe do Cemitério dos livros esquecidos: A Sombra do Vento, escrito pelo enigmático e obscuro Julián Carax.

Apaixonado pela história contida no livro, Daniel empreende uma busca por mais livros deste autor, acabando por entrar numa intrincada teia de ódios, assassinatos, paixões e amizades que vão para além do imaginado e que se situam muitos anos antes do nascimento de Daniel.

Zafón é muito inteligente na forma como cria o enredo e, sobretudo, na forma como liga vários pormenores e personagens de outros autores da literatura e isso é algo que mais me surpreendeu e me fez apaixonar pelo livro.

Como história em si, posso afirmar, segundo a minha opinião, que não é uma grande história, já tenho lido muito melhor, porém uma das mais valias deste livro é a influência de outros autores e dos seus gêneros. É nítida a influência do gótico de Egdar Allan Poe. O inspector Fumero, até na descrição do seu aspecto físico, é quase um clone do inspector Javert nos “Miseráveis” e até no seu relacionamento com Fermín, um dos personagens mais fascinantes, faz lembrar as situações com Jean Valjean no referido título.

Achei curiosa a forma como o autor consegue jogar com vários estilos literários, quase que altera os estilos de página a página. Ora cria um clima de autêntico romance psicológico ao estilo de um Dostoeivsky, como passa para um policial, um thriller povoado de imagens e situações góticas e sobrenaturais, acabando num estilo histórico e até de costumes.

É claro que isso é intencional e dá ao romance algo de inédito, até porque é também uma forma do autor homenagear escritores universais e gêneros.

Bela é também a sua escrita e as metáforas criadas. Facilmente descreve situações de uma forma poética, de uma profundidade emocional e intelectual superior.

Não é de forma nenhuma um livro difícil de ler, é sim um livro belíssimo que fala de outros livros e das capacidades humanas em todas as suas vertentes, tendo também a capacidade de analisar a História e o peso que a mesma tem com comportamento do ser humano enquanto individualidade e em grupo.

Último Távora (O) - José Norton

Pedro de Almeida Portugal, 3.º marquês de Alorna e 6.º conde de Assumar, nascido em Lisboa em 1754, viu toda a sua família ser quase toda eliminada em 1759 por ocasião do célebre processo dos Távoras. No entanto esse processo decretou a prisão do seu pai, mãe e irmãs durante 18 anos, tempo em que Pedro foi criado sob a protecção daquele que esteve por detrás de todo o processo: Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

Descendente da uma família maldita, Pedro irá sentir toda a vida a perseguição de inimigos invisíveis que, na sombra, desenvolvem acções que minam a reputação que Pedro consegue conquistar.

Marquês da Alorna (embora descendente dos Távora, era-o por parte da mãe, pelo que herdou o título do pai, no entanto isso está muito bem explicado neste livro), título da velha aristocracia, os Alorna ocuparam durante várias gerações lugares de destaque em vários sectores do reino, lugares que trouxeram prestígio e riqueza à sua casa, mantida também com casamentos com outras casas nobres, construindo assim uma forte rede de interesses e influências que abarcavam todo o império português.

Filho de D. João de Alorna e de D. Leonor de Távora, uma das filha dos marqueses de Távora, Pedro, como primogênito, logo ficou com o futuro definido.

Estava destinado a altos postos ao serviço do rei. No entanto os acontecimentos posteriores ao Terramoto de 1755 iriam alterar esse destino.

Terá assim uma vida rica em acontecimentos que o levam a manter relações muito próximas com o príncipe D. João. Através desses contactos, D. Pedro vai ocupando lugares de liderança no exército português até às invasões francesas em 1808 quando é nomeado como um dos comandantes das forças portuguesas. A partir dessa data inicia um novo capítulo da sua vida que o irá levar a conhecer pessoalmente Napoleão e comandar nove batalhões portugueses nessa terrível e famosa campanha.

Pessoalmente desconhecia a presença de tantos soldados portugueses na campanha da Rússia de 1812, mas o autor descreve minuciosamente todo o processo de envolvimento dos batalhões portugueses e dos seus comandantes, dos quais fazia parte o Marquês de Alorna. E aqui faço a ressalva para a forma como os portugueses eram vistos e tidos pelos fanceses: Soldados de coragem e bravura. Napoleão sobre isso escrevia na sua proclamação de 7 de Setembro diz, referindo-se a Borodino: “Que a posteridade mais remota cite com orgulho a vossa conduta neste dia.”

Este livro surpreendeu-me bastante.

Antes de mais é um excelente documento histórico. Para além da enorme capacidade narrativa demonstrado pelo autor, é-nos oferecido um documento Histórico que abrange 50 anos de uma época importantíssima na Europa.

Começa por nos situar na época descrevendo o processo dos Távoras e o porquê do mesmo.

Achei também curioso e imensamente interessante a forma narrativa do autor.

Na prática torna-se um documento de pura História onde o autor descreve o sucedido, porém nunca se coíbe em colocar diálogos entre os personagens, ou seja, este livro é uma mescla brilhante entre documento Histórico e romance.

Surpreendeu-me também pelas várias histórias. As ligações familiares, as intrigas políticas, as mesquinhices do Portugal setecentista. O porquê das invasões francesas, a intervenção de soldados portugueses em várias campanhas de Napoleão, etc.

É um livro belíssimo sobre um homem e uma época. Uma época que marca a Europa e que traz ventos de mudança, e um homem que viveu com uma cruz. Lutou imenso e tentou sempre elevar a condição da sua casa: os Alorna.

domingo, 4 de novembro de 2007

remorso de baltazar serapião (o) - walter hugo mãe

Prémio José Saramago 2007, este romance de Walter Hugo Mãe, escrito curiosamente em 2004 mas só agora premiado, situa a acção em Portugal durante o reinado de D. Dinis, logo em plena idade medieval entre os anos 1279 – 1325.

Época brutal e miserável, Baltazar Serapião é o filho mais velho de três (dois rapazes e uma rapariga) que subsistem da agricultura e devem vassalagem a D. Afonso, o senhor feudal todo poderoso.

É nessa perspectiva que a irmã de Baltazar, quando chega à adolescência, vai servir para a casa de D. Afonso, acabando por o servir sexualmente a ele, algo que a família não vê com bons olhos mas que o medo os faz calar.

Baltazar Serapião que, sexualmente falando se vai desenrascando com uma pobre diaba, a puta do sítio, acaba por cair de amores por Ermesinda, casando-se pouco depois.

Mas D. Afonso mete os olhos em Ermesinda e exige que a mesma vá todos os dias a sua casa. Para fazer o quê? Essa é a pergunta que está por detrás de todo o trama do romance.

Baltazar é assaltado por terríveis dúvidas sobre a fidelidade da sua mulher e, imbuído pela sua imaginação e pelas conversas que ouve, emprega terríveis castigos físicos a Ermesinda diante da aquiescência de todos que achavam comportamentos desses normais e até morais.

Num trabalho notável de linguagem (Walter Hugo recria o português medieval), este livro é, quanto a mim, único no panorama literário português.

Não sendo propriamente um livro fácil de se ler, não só devido à linguagem como também à estrutura do texto (nota-se claramente a influência de Saramago), é sim um livro sobre a condição de vida da época medieval e, sobretudo, sobre a condição das mulheres que eram inferiores aos animais.
Gostei imenso do livro, pese embora o tenha achado por vezes repetitivo e algo aborrecido, pois há situações que se repetem e a obsessão e as dúvidas de Baltazar pela mulher é algo que se repete por diversas vezes, deixando também antever o fim do livro.

sábado, 3 de novembro de 2007

Longa Caminhada (A) - Slavomir Rawicz



No dia 17 de Setembro de 1939, o exército da URSS invadiu a Polónia. Cerca de um mês antes, mais propriamente no dia 23 de Agosto, a Alemanha nazi, através de Hitler, firma um acordo de Não-Agressão com a URSS de Joseph Estalin. Esse acordo previa a divisão da Polónia entre a Alemanha e a URSS no final da guerra. No dia 1 de Setembro, os alemães invadem a Polónia pelo Ocidente, enquanto que a 17, a URSS invade o país através das suas fronteiras do Oriente. Nessa invasão muitos inocentes perecem às mãos das tropas nazis e russas, no entanto, são as acusações de traição e espionagem que são hoje alvo de relatos e investigações. E é precisamente por uma acusação de ser espião, que o tenente da cavalaria do exército polaco, Slavomir Rawicz, se vê no meio do inferno.

Esta é uma história real. Narrada pelo próprio e escrita pela primeira vez em 1956, este é um relato pungente de homens que se viram acusados e privados da liberdade sem que nada tenham feito. O único mal que fizeram foi de terem estado no local errado aquando da passagem da maré fascista, numa autêntica "caça às bruxas" na União Soviética. Este é um relato, um grito de alerta ao mundo contra os malefícios do comunismo, da fanatismo político, do fascismo e, principalmente um grito a favor da liberdade e da vida, pois e conforme o próprio Rawicz afirma: "A liberdade é como o oxigénio".

Mas Slavomir Rawicz vê-se, sem saber porquê, aprisionado pelos russos que, sob enormes e variadas torturas, insistem para que ela assine um papel onde admite a sua culpabilidade. Recusando-se sempre a assinar tal documento, acaba por ir a julgamento sendo então condenado a 25 anos de trabalhos forçados num campo de trabalho na Sibéria. Já nesse campo (campo 303), Rawicz narra todas as privações e principalmente a forma como os próprios presos se organizavam. Até que derivado de alguns acontecimentos, toma consciência que a fuga é possível, no entanto ele sabe que a percentagem de êxito é baixa, mas ela existe.

Juntando-se a um grupo de 7 homens, no qual se inclui um engenheiro americano que se irá revelar um elo fundamental, estes homens iniciam uma fuga de 8.000 km, atravessando toda a Sibéria, Mongólia, Tibete, Himalaias, chegando por fim à Índia, onde são acolhidos pelo exército britânico.

Essa travessia dura cerca de um ano e é inimaginável o que aqueles homens sofrem.

Como devem supor, atravessar a Sibéria torna-se um tormento, ainda mais não tendo praticamente quaisquer víveres, dormindo de dia escondidos pelo gelo e caminhando de noite. Agora imaginem atravessar o deserto de Gobi (Mongólia) em pleno Verão e sem água. As descrições são tão reais e fortes, damos connosco a sentir o sufoco do calor, a lingua inchada, as pernas inchadas e os pés em chagas de tanto andarem.

Toda esta jornada se desenrola a pé. Trata-se de uma fuga e mesmo fora dos territórios da URSS, eles não estão seguros, pois os países que atravessam mantém laços de amizade com a URSS, logo, é sempre possível serem capturados.

Rawicz escreve este livro muitos anos depois. A edição actual é de 2000, revisada pelo próprio. Há muitos acontecimentos que o próprio afirma não se lembrar ou de ter uma ténue lembrança, no entanto e é talvez onde encontre algo a apontar a este relato, nota-se, aliás, sente-se e até se pode ler nas entrelinhas, que muita coisa ficou por contar. Embora ele afirme variadas vezes que não se recorda ou que não sabe bem como aconteceu, fiquei com a clara sensação, para não dizer a certeza, que ele omite propositadamente certos factos. A história da mulher do comandante do campo que o ajuda na fuga, está muito mal contada e claramente inacabada. Não sei se se passou algo entre eles, sinceramente não me pereceu, mas sente-se que ele a menciona porque ela foi importante na História, mas há algo que ele omite.

Depois também achei, e continuo-o a achar, muito estranho que, depois daquela fuga, não se terem iniciado buscas ou perseguições para capturar os fugitivos. Eles fogem e jamais relatam qualquer visão de qualquer perseguição. Mesmo com aquelas temperaturas, a nevar toda a noite, o que apagaria qualquer rasto que eles tivessem deixado, achei no mínimo estranho. Depois é também a aparente "facilidade" com que eles vão caminhando. Encontram sempre gente acolhedora que raramente lhes fazem perguntas. Enfim, não ponho em causa nada do relato, mas apercebi-me que existiram acontecimentos que Rawicz achou por bem não mencionar ao mundo.

Mas e mesmo com estes pequenos pormenores, esta é de facto uma viagem fantástica. Eles percorrem sítios recônditos de países longínquos, vêm gentes e seres estranhos (achei fabuloso o estranho encontro que ele têm em pleno Himalaias com duas estranhas criaturas que, segundo opinião de Rawicz, só podiam ser esse ser chamado Abominável Homem das Neves), passam fome, frio, sempre agarrados à esperança de alcançar a liberdade, sempre apoiados uns nos outros, todos como sendo um único corpo. Este é um relato comovente de amizade, coragem, dor, solidão, solidariedade, amor e fraternidade. Uma história que de certo incomoda todas aqueles que defendem e fomentam o comunismo e o fascismo e até para a própria História da Rússia, uma história que merece ser divulgada pelo mundo inteiro.

A todos que gostam de ler bons livros, a todos aqueles que gostam de fazer parte desta "família" chamada ser-humano, a todos aqueles que fomentam o amor e a solidariedade ao próximo, apenas posso aconselhar a leitura urgente deste magnífico livro. No entanto, para aquele que me incentivou a ler esta obra, deixo aqui o meu obrigado, assim como à restante comunidade livriana pelas suas excelentes dicas.