quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Perfume (O) - Patrick Suskind

"O perfume", livro de Patrick Suskind editado em 1985, foi um livro que desde logo saltou para os top’s de vendas de qualquer livraria em qualquer parte do mundo, tornando-se num ápice um imenso sucesso editorial.
Aclamado por milhares de leitores e por grande parte dos críticos literários, "O perfume" foi um livro que li em 2001 mas que não me proporcionou qualquer tipo de prazer nem me ensinou nada de especial. No entanto e passados 4 anos resolvi dar-lhe uma segunda chance procedendo a uma segunda leitura, deparando-me então com um imenso mundo de metáforas dentro de uma imensa alegoria. É isso mesmo, este livro tem um significado muito diferente daquele que grande parte dos leitores lhe deu. Este livro não é um simples livro sobre um assassino que se entretém a matar jovens virgens apenas para lhe ficar com o odor delas. Não, este livro é uma imensa alegoria sobre a França do séc. XVIII e fundamentalmente sobre os ideais que originaram a Revolução Francesa.
Surpreendidos?
Mas vamos por partes.
A história
França, 1738. Numa praça imunda, situada no coração de Paris, nasce no meio de sangue, tripas de peixe e restante porcaria, Jean Baptiste Grenouille.
Filho de uma peixeira que o deixa no meio do lixo para morrer e de pai desconhecido, esta criança que logo fica órfão de mãe, acusada de pretender matar o bebé e posteriormente decapitada, é criado por uma ama, paga por frades, que o trata de uma forma indiferente, sem qualquer tipo de afecto.
Crescendo ao "Deus-dará", Grenouille desenvolve um intelecto virado para si próprio, demonstrando um enorme asco às pessoas, aliás, uma completa indiferença em relação aos restantes seres humanos, que também o consideravam um animalzinho insignificante. Porém Grenouille tem algo que o destingue das outras pessoas, tem um sentido olfactivo imensamente apurado, conseguindo detectar cheiros, por muito leves que sejam, a km’s de distância.
Ciente desse dom, Grenouille cresce catalogando cheiros. Ou seja, ele vai definindo cheiros, cataloga-os, elaborando assim no seu cérebro uma imensa biblioteca de cheiros, dando-se mesmo ao luxo de os combinar, criando novos odores.
Mas Grenouille quer ir mais longe, pretende criar perfumes supra-sumos, perfumes dignos do assombro de todos e é quando, através de uma demonstração do seu dom, consegue trabalho como aprendiz na melhor casa de perfumes de Paris. E o mundo irá ficar assombrado com as infinitas criações de Grenouille, embora a fama dessas criações sejam atribuídas ao patrão de Grenouille.
Posteriormente ele abandona a perfumaria e refugia-se numa caverna durante 7 anos, vivendo uma vida em torno de si próprio, uma espécie de introspectiva do seu Eu. Até que, num belo dia, dá-se conta que não tem odor corporal como qualquer ser humano, compreende então o porquê de os outros o repudiarem, de o acharem insignificante.
Começa então a saga dos assassinos em série de jovens virgens. Ele pretende criar o perfume perfeito, o seu próprio odor a partir da essência corporal de jovens mulheres.
Esta é a história de uma forma muito resumida.
Desde o início que me fez confusão as análises simplistas que li sobre a obra. Não fazia sentido, pois é notório que Suskind joga com os odores e com as situações, criando cenários nojentos, horríveis e sem grande sentido. Esta era uma obra que tinha que ter algo por detrás.
Chamou-me então a atenção para a acção temporal. Séc. XVIII, ano onde se inicia o livro: 1738, ano em que termina: 1767.
Depois a situação inicial do livro: o nascimento de Grenouille e a forma violenta e asquerosa como sucede e onde sucede: Paris, capital da França.
Comecei então a efectuar analogias com os tempos conturbados na França do séc. XVIII, sobretudo com os acontecimentos que deram origem à Revolução Francesa. Não esquecendo que nesses tempos a França era uma nação afundada na lama ignóbil da corrupção, governada por burgueses que viam e consideravam o povo como lixo, povo esse que sobrevivia na maior das misérias. E como é que começa o livro, não é na podridão? Não será essa podridão uma alegoria à França e sobretudo a Paris, capital do reino? "… em Paris o fedor era maior…". A França não era uma nação corruptamente podre?
Reparem:
Jean Baptiste Grenouille é um ser diferente dos outros pelo facto de não ter odor corporal. Já pensaram do porquê da obsessão dele em possuir um cheiro pessoal, uma identidade? Não representará ele a imagem do herói (revolução) que parte assim em busca de uma identidade no meio daquela porcaria toda?
A certa altura leio: "Grenouille quer ser um grande alambique que inundasse o mundo inteiro com os perfumes por ele criados…". Aqui fez-se definitivamente luz.
E para o fim está-nos reservado o maravilhoso epílogo. Ele entra num cemitério cheio de mendigos, ladrões, prostituas, aleijados, enfim, tudo que há de mais maldito na sociedade. Antes de entrar no cemitério, ele encharca-se de perfume, o tal perfume feito a partir da essência das virgens, o seu odor, acontecendo então uma chorrilho de acontecimentos verdadeiramente inconcebíveis. Ele é literalmente despedaçado e devorado pelos presentes. Que significado podemos dar a essa situação que tanto detestei há 4 anos?
Sendo Grenouille e o seu perfeito perfume a alegoria do idealismo da Revolução, não nos é licito pensar que aqueles malditos apenas pretenderam nutrir os seus corpos e almas com o perfume de Grenouille, com a sua perfeita essência, logo, não se alimentaram dos ideais da Revolução? Não terá sido Grenouille o tal alambique que inundou o mundo inteiro, ou pelo menos a Europa? A revolução não eclodiu nas ruas de Paris em 1789?
Todos estes factos e outros mais chamou-me a atenção. À medida que os ia colectando, ia construindo todo um painel que me levou a acreditar tratar-se este livro de uma imensa e genial alegoria do idealismo da Revolução Francesa que, como muitos sabem, teve uma grande influência na Europa.
Posteriormente iniciei uma pequena investigação na internet e rapidamente encontrei alguns documentos que corroboravam a minha análise com a particularidade de, pelo menos em duas delas, a análise ser muito mais profunda. Inclusivamente acabei pode descobrir uma pequena entrevista com o escritor, onde ele afirma tratar o "perfume" dos acontecimentos anteriores à Revolução Francesa.
Por isso, experimentem ler o livro com esta perspectiva, vão ver que "O perfume" é uma obra notável.

Ilha do Tesouso (A) - Robert L. Stevenson

A ”Ilha do Tesouro” é considerado como um dos grandes clássicos da literatura juvenil e, digo eu, muito justamente.
Muitos desconhecem, mas e inspirado nas histórias que o seu pai lhe contava na infância, Stevenson, já com 30 anos e consagrado como escritor, cria primeiramente um jogo para poder brincar com o seu enteado com o título de “ilha do tesouro”, jogo esse que tentava retratar uma busca a um tesouro mediante a consulta de um velho mapa. Daí nasce toda a aventura que dá depois origem ao texto que, numa fase inicial, Stevenson recusou a sua publicação, pois não lhe antevia grande sucesso. Até que e depois de muita insistência por parte de alguns amigos, a história é publicada em 1881 sob a forma de folhetim e com um título muito diferente: O Cozinheiro.
Longe estava Robert L. Stevenson de imaginar o enorme sucesso da obra que o havia de catapultar para a galeria dos Grandes Escritores.
A história é simples e destinada de facto aos mais jovens, ou seja, não é nenhuma metáfora ou foi escrito com segundas intenções. Este livro é mesmo um livro de aventuras.
Estamos no ano da graça de 17… (ele nunca especifica o ano) e, à velha hospedaria “Almirante Benbow”, chega um misterioso e mal encarado homem que, vendo a pacatez da hospedaria, acaba por ir ficando. Esse homem, que se tornava barulhento e conflituoso quando bebia, vivia permanentemente em sobressalto, parecendo estar a aguardar a chegada de alguém a qualquer momento. Acaba assim por “comprar” os serviços do jovem filho do dono da hospedaria, Jim Hawkins, no sentido de um rapaz estar alerta com a chegada de alguém com determinadas características físicas.
Entretanto e algum tempo depois, essa pessoa acaba por aparecer e, depois de uma violenta discussão, acaba por fugir, deixando o misterioso homem moribundo que, vamos a saber, se tratava de um famoso e perigoso pirata.
Jim Hawkins acaba, por mero acaso, por descobrir um velho mapa na arca que esse pirata havia deixado no quarto e, em conjunto com outros personagens, acabará por empreender uma louca viagem a uma distante ilha deserta em busca de um imenso tesouro.
Cheio de perigos, esta história é bastante cativante, contendo, e quero ressalvar precisamente isso, um rol de personagens fantásticos, de uma personalidade fortíssima que marcam de uma forma inegável todo o livro, e que na minha opinião, são o grande suporte da história e da fama que atingiu.
Por outro lado, Robert L. Stevenson é um mestre na forma como joga com as situações que vai criando. Desde o início que ele, para além de não perder o rumo e a coerência, consegue prender a atenção do leitor mediante situações empolgantes, onde o suspense e o mistério andam de mãos dadas.
Destinado realmente a um púbico mais jovem, penso ser este um livro que merece ser lido em qualquer idade, pois também ele tem a capacidade de nos fazer sonhar, algo como por exemplo é conseguido em “Peter Pan” e a sua Neverland.
Um dos grandes clássicos que enriquecem uma qualquer biblioteca privada e enobrecem a nossa alma.

Carteiro de Pablo Neruda (O) - António Skármeta

Dois motivos tão triviais levaram Mário Jiménez a mudar de ofício. Filho de pescador e com o futuro designado ao mesmo ofício do pai, Mário via o imenso esforço do pai que, depois de uma vida tão dedicada à faina, pouco ou nada havia ganho.
Mário, sonhando com amores audaciosos que via desfilar diante de si no cinematógrafo de San António, pretendia seguir outro rumo, outro destino que não aquele que lhe estava previsto.
O outro motivo foi a posse de uma bicicleta que lhe abriu as portas a uma nova e excitante profissão: carteiro.
É através de um anúncio na janela dos Correios, que Mário consegue esse emprego, sendo então colocado na ilha Negra a fim de entregar o correio a uma única e exclusiva pessoa: Pablo Neruda.
E é desse modo que Mário Jiménez se aproxima do poeta, nascendo entre eles uma amizade muito especial e deveras peculiar.
António Skármeta elabora um romance que, segundo o próprio, nasce um pouco por acaso, levando cerca de 14 anos a ser completado, pois, e é ele quem o diz, a inspiração nunca era muita e o jeito para a escrita também rareava.
Agora, o que dizer de um livro de 172 páginas que, alegadamente, tenta dar uma imagem dos tempos conturbados da década de 70 no Chile (golpe de Pinochet), abordando também a entrega do Nobel da Literatura a Neruda e o seu discurso na cerimónia?
Honestamente fiquei muito decepcionado, sobretudo porque a grande maioria das críticas são boas, sendo este livro considerado mesmo uma grande obra.
Ao nível da narrativa é muito fraquinho.
Até que começa bem e com um ritmo agradável, no entanto vai perdendo força e o interesse vai-se esfumando página a página.
O escritor, embora tenha iniciado o livro com um assunto e intenção bem delineada, a certa altura, parece começar a vaguear, afastando-se claramente dessa coerência inicial. Depois de andar um pouco às voltas, volta então ao rumo inicial, para terminar de uma forma desinteressante, pois o ritmo já foi destruído.
Propositadamente?
Se calhar, mas não acredito devido precisamente ao discurso inicial do escritor.
Depois destaco pela negativa a enorme simplicidade do texto.
Ele nunca se alonga em nenhum assunto. O golpe militar de Pinochet que derruba Allende é abordado muito ao de leve. A ida de Neruda, enquanto embaixador, para Paris, é narrada como um simples destacamento, longe de conseguir transmitir a enorme importância que teve na vida do poeta. Para não falar da atribuição do Nobel que, para além do discurso de Neruda, pouco ou nada conta.
É um livro que, repito, me decepcionou.
Não vejo onde está a enorme beleza que muitos descortinaram, pois até poemas de Neruda o livro é exíguo, a narrativa é demasiadamente simplista, algo enfadonha, falhando por vezes em sentido.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Estrada (A) - Cormac McCarthy

Vencedor do Prémio Pulitzer, Cormac McCarthy era um autor até agora desconhecido para mim até há bem pouco tempo. Dono de uma escrita que de facto faz lembrar José Saramago, penso, contudo que tem um dom apenas atribuído aos Grandes Escritores: sabe transmitir sensações através das palavras, descrever estados de espírito e as mais íntimas sensações humanas.

“A Estrada”é um livro que tem tanto de belo como de chocante.

Num futuro próximo o mundo caí numa era apocalíptica. A grande maioria das pessoas morreram e tudo se encontra devastado, coberto por cinzas.

É este o cenário que irá envolver toda a narrativa dando-nos, logo no seu início, uma visão dantesca do mundo onde estamos a penetrar.

Um clima agreste onde a solidão reina a par com o sofrimento que abalou o planeta. A ausência de vida é algo transversal em toda a história e a luta pela sobrevivência, dos poucos sobreviventes, é feroz. Contudo há uma questão que salta logo nas primeiras páginas: sobreviver para quê num mundo sem presente e sem futuro?

Um pai e um filho caminham numa estrada. Empurrando um carrinho de compras com todos os seus parcos haveres, eles dirigem-se em direcção ao mar na esperança de lá encontrarem outras pessoas “boas”.

Durante essa caminhada vão-se apoiando no amor que nutrem um pelo outro numa odisséia onde a solidão e a tristeza contrapõem com o constante jogo do “gato e do rato”.

Pessoalmente penso que existe uma grande similaridade desta odisseia com a de Homero, sobretudo na utopia de chegar a um objectivo antevendo vários perigos que se atravessarão no seu caminho. Uma e outra a esperança nunca morre numa luta diária num mundo irreal.

É uma obra que nos faz ver para onde, se calhar, caminham as sociedades puramente consumistas onde os ideais se vão perdendo assim como se vai retirando a esperança de sonhar. O que é o ser humano nesse contexto, a perda total de valores e piedade que nos aproximam, quanto a mim ultrapassam, os animais ditos irracionais..

McCarthy é exímio nas palavras e nas descrições. A forma crua como vai narrando, entranha-nos na alma, faz-nos sofrer. Basta ver que, a certa parte do livro o pai diz ao filho: “desculpa não ser azul”, “não faz mal”, diz o rapaz (sobre o mar).

Sem dúvida um dos melhores livros que li até à data e um escritor que é, sem dúvida, um dos melhores escritores da actualidade.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Portugal, Hoje - O Medo de Existir - José Gil

Portugal, Hoje: O Medo de Existir, é uma obra que desconhecia e que me foi aqui apresentada neste nosso cantinho livriano pela mui estimada colega livriana Lisa.
Escrito pelo filósofo José Gil, tido como um dos 25 grandes pensadores mundiais da actualidade, logo e obrigatoriamente uma figura ou um intelectual de relevo da nossa cultura.
O autor neste livro procura analisar a alma lusitana e toda a actual e antiga conjuntura que levaram o nosso país e as nossas gentes ao actual e miserável estado de pessimismo em que o país está atolado (para não dizer outra coisa). Uma análise também ela extremamente pessimista que ressalva apenas os traços mais negativos da nossa forma de ser e da forma como a democracia foi erigida e mantida.
Embora José Gil tenha dificuldade em classificar o género deste livro, classificando-o mesmo como “indefinido”, eu não tenho quaisquer dúvidas em o classificar como um Ensaio, porque simplesmente este é um Ensaio ou, na pior das hipóteses, uma espécie de Ensaio sobre os males e os vícios que dominam os portugueses, a sua herança cultural e a forma como essa herança foi aproveitada e consagrada pelo regime salazarista, e são precisamente estes dois últimos pontos que, quanto a mim, destroem toda a abordagem de José Gil. Mas vamos por partes. J
osé Gil desde o início refere as más características dos portugueses e a forma como se identifica essa forma de ser: irresponsável; invejoso; dado à inércia; medroso, quase cobarde; sem motivação e auto-estima; resistente à lei; com a mania que é “chico-esperto”, levando essa faceta directa e indirectamente à corrupção.
Correcto, digo eu e dirão muitos, no entanto e tendo o cuidado de analisar o livro como um todo, no final do mesmo constatei que o discurso de Gil assenta essencialmente apenas e só nisso, num desenvolver de características tão conhecidas, sem contudo dar qualquer tipo de respostas nem apresentar alternativas para que seja possível uma mudança. Esta é a minha maior crítica. O que o autor faz é essencialmente o seguinte: "os portugueses são uns preguiçosos, não fazem nenhum, são uns despreocupados, estão-se a borrifar para os outros, etc". E porquê que os portugueses são assim? "Ah coisa e tal, salazarismo práqui, salazarismo práli...". Ou seja, ele não dá nenhuma explicação plausível.
A única tentativa de explicação e por acaso essa tentativa desapontou-me muito, é dada mediante uma excessiva colagem do Portugal de hoje ao Portugal de 1974 acabado de sair da ditadura, afirmando vezes sem conta ou deixando perceber claramente que nada mudou desde esses tempos, nada se ”inscreveu”, que inclusive os portugueses continuam a viver com um medo herdado do salazarismo...
Não concordo! Discordo em absoluto!
Não querendo entrar aqui em dissertações ou em discursos que contraponham o que José Gil escreve, penso que e ao contrário do que ele afirma, os portugueses não são como são devido aos 45 anos de ditadura, pese embora que também tenham tido influência. Ele passa praticamente todo o livro a “bater na mesma tecla”, a sublinhar o papel negativo do regime salazarista como principal e único culpado deste actual estado de coisas. Não concordo! Admito que ainda existem muitos vícios que sobreviveram desse regime, mas não concordo que os portugueses são amorfos, medrosos, cobardes, invejosos e irresponsáveis devido apenas a esse regime. É Histórico e Gil esqueceu-se de analisar a História, não faltam relatos desses comportamentos fatalistas, invejosos, brejeiros, “chico-esperto” em vários dos nossos escritores do séc. XVIII e XIX. Camões narra um pouco desses comportamentos no “Lusíadas” e as obras de Eça e Camilo são também um óptimo mostruário.
Salazar de facto aproveitou essas características para implantar o medo e a repressão, mas e passados mais de 30 anos da Revolução dos Cravos, nós não somos como somos devido apenas a esse regime, nós sempre fomos assim. Célebre a frase de Júlio César no ano 100 A.C. quando dizia: “nos confins da península existe um povo (lusitanos) que não se governa nem se deixa governar...
Ele refere também e não são poucas as vezes que o faz, das não “inscrições” em Portugal. Tudo é constantemente adiado.
É verdade, pelo menos o do constantemente adiado, o de deixar andar, no entanto e no contexto onde ele coloca a expressão “inscrição”, para mim é aberrante essa análise.
Será que em mais de 30 anos de democracia nada mudou?
Obviamente que essa democracia foi mal construída, análise que Gil efectua, tocando nalgumas feridas, mas que diabo, estamos nas mesmas condições que estávamos em 1974? Nada mudou?
Penso que bem ou mal, muita coisa se fez nesse país que merece ficar ”inscrito” na nossa sociedade e na nossa História, mesmo afirmando ele que ”Portugal conhece uma democracia com baixo grau de cidadania e liberdade”, afirmação essa que deriva, mais uma vez de uma atribuição de culpas ao antigo regime, eu questiono: Mas isso só acontece em Portugal? Esse alheamento da vida política, esse afastamento só se verifica em Portugal? Nos outros países também não se verifica o mesmo? E o mais decepcionante é que José Gil faz essas declarações, mas nunca efectua nenhuma análise profunda do porquê, dos factores e razões que levaram a esse alheamento e afastamento. J
osé Gil vai assim colocando tudo numa condição extremamente pessimista. Embora concorde com parte dessas constatações, não concordo com maior parte delas, sobretudo o modo alarmista como ele as coloca e por serem meras constatações.
Considero de facto que ele tem razão em muitas criticas que efectua, no entanto ele coloca as “coisas” como incontornáveis, como se fosse impossível a alteração dessas situações. Mas não será legítimo exigir mais a um pensador desta craveira do que constatações tão simplistas?
Para além de tudo o que refiro atrás, ele entra em profundas contradições, pois é célere a criticar o povo pela não ”inscrição” e ele, com este livro, faz exactamente isso (queixa-se, queixa-se), demonstrando também ser um mau conhecedor da História Universal dos povos e com pouca visão e perspectiva do futuro.
Por outro lado e ligado ao que afirmei no parágrafo atrás, é arrepiante a forma como ele se esquece de analisar e de incluir a nossa História, afirmando mesmo sermos um povo saudosista mas com poucas referências ou lembranças da História, algo que ele próprio demonstra no livro, pois para ele existe uma massa de gentes encravada num pequeno território à beira de um precipício.
Portugal é apenas isso?
Não teria ele arranjado melhor explicação (praticamente não dá nenhuma) para a nossa forma de ser, se, por exemplo se desse ao trabalho de analisar os Descobrimentos e o facto de ter sido Portugal uma potência europeia e mundial durante séculos?
Em suma: José Gil efectua uma análise ao não desenvolvimento democrático, social, mental e cultural do país e das fracas capacidades dos portugueses.
No entanto é uma análise vazia, sem conteúdo, pouco ou nada profunda, pessimista, onde ele se limita ao simples desfilar de defeitos sem nunca evidenciar as virtudes e onde jamais apresenta soluções ou alternativas. Caí assim ele próprio em contradição com as críticas que realiza, pois parece tomar a atitude de um iluminado, quando e depois de tudo exprimido, este livro é extremamente populista, acabando assim por ele próprio se ”inscrever” num grupo que poderemos denominar de ”Vencidos da Vida” (a frase não é minha), grupo esse que me recuso a pertencer.
Conceitos abstractos, não explicados e por vezes demasiados densos, acabam por dominar grande parte do livro, tornando-o de ora fácil, ora de difícil leitura, caindo também em blocos extremamente filósofos e de sentido dúbio.
A mim decepcionou-me porque estava à espera de uma análise mais cuidada de alguém tão respeitado e tido em todo o mundo, uma análise às razões históricas e sociais que levaram os portugueses a serem realmente um povo tão amorfo. no entanto recomendo, porque José Gil foca alguns dos nossos problemas e defeitos, o que para muitos pode ser um despertar proveitoso para esses mesmos problemas e defeitos, talvez uma tomada de consciência ou um inteirar dos reais problemas deste país.

Museu Britânico Ainda Vem Abaixo (O) - David Lodge

Definitivamente não vou “á bola” com David Lodge. Há tempos li a “Terapia”, livro mundialmente conhecido e reconhecido como sendo um livro hilariante e não sei que mais, mas o certo é que não dei mais de 3 estrelas e por algumas gargalhadas que me arrancou.
Neste "O Museu Britânico ainda vem abaixo”, enfim, tem menos qualidade do que “Terapia”.
A história é a seguinte:
Anos 60, um jovem casal, que segue direitinho os mandamentos do catolicismo, vive um dilema ou poderemos dizer um drama: Não consegue ter uma vida sexual feliz e agradável. E tudo porquê? Porque a igreja é contra o preservativo e outros métodos contraceptivos e, vai dai, o casal só tem relações em determinados dias e dependente da temperatura da mulher, pois há que ter a certeza que não está na fase da ovulação.
Para piorar o cenário, descobrem ou desconfiam que, depois de uma farra em casa de uns amigos e depois de chegar a casa, tiveram relações sexuais. No entanto não têm a certeza, logo e se tiveram, quer dizer que correm o perigo de ela estar novamente grávida. Resta acrescentar que já têm 3 filhos e uma hipotética gravidez iria alterar, e muito, a estabilidade familiar.
Ora bem, não pretendo escrever uma opinião longa porque simplesmente este livro não a merece, no entanto tentarei efectuar uma pequena análise ao livro.
Este livro é acima de tudo uma “boca” de Lodge às regras arcaicas do catolicismo.
Logo na introdução, o próprio Lodge vai uma breve descrição do que era a vida dos casais católicos nos anos 60, casais esses onde ele e a mulher se incluíam. Logo e embora ele desminta, parece-me que este livro é mais uma dissertação das suas angustias enquanto jovem cheio de força e pujança. A mim parece-me.
Depois e embora este seja o problema principal e aquele onde gira toda a história, ele vai descrevendo o seu dia, aliás, descreve o dia do personagem e aí, situações mais ridículas que hilariantes sucedem a um ritmo louco e, na minha óptica, algo forçado. De notar e isso foi algo que me agradou, que toda a acção se passa num só dia, um pouco ao estilo de “Ulisses” de Joyce, mas é só no estilo porque no jeito, não tem nada a ver.
E pronto, resumidamente é isso.
Eles com medo de uma gravidez indesejada, com uma vontade louca de ter sexo e não o poderem porque senão, gravidez certa. Ele no trabalho, no tal Museu Britânico, onde tem como trabalho ler livros… é verdade. E mais umas coisitas práqui, e umas coisitas práli.
Sinceramente não gostei. Na altura em que foi escrito deve ter sido mesmo um sucesso, mas nos tempos que correm, não só o estilo como os motivos, estão completamente ultrapassados, ou será que ainda algum casal, mesmo fanaticamente católico, não usa métodos contraceptivos?

Druidas - Morgan Llymellyn

Este romance narra a história de Ainvar, Supremo Druida de uma das muitas tribos gaulesas e Senhor dos Bosques. Ainvar, enquanto Supremo Druida, liga-se a Vercingetorix, rei de uma das tribos e senhor de uma força física e de um carácter notável, que o levará a reunir esforços no sentido de unir as desorganizadas tribos gaulesas para combaterem um novo e fulminante inimigo que, aos poucos, se ia instalando em toda a Gália, sem que os seus habitantes se dessem conta do grau de influência que esses estrangeiros iam introduzindo no seu modo de vida: os Romanos.
Assim e quanto a mim, o principal personagem, ou se quiserem, o principal tema, é a invasão de Roma e a derrocada da Gália que, habitada por inúmeras tribos incapazes de se unirem em prol de um objectivo comum, algumas delas inclusive preferiam aliar-se a Roma, acabam por se “deixar” invadir sem apelo nem agravo, dando a luta possivel.
Logo este livro descreve a Gália antes da invasão, a vida pacífica das suas tribos que praticavam uma religião pagã, religião que tinha como seus sacerdotes os druidas, homens que se organizavam por classes, todos eles em sintonia com a natureza, donos de conhecimentos profundo e secretos, assim como secretos eram os seus rituais.
Os druidas eram assim vistos como os sacerdotes das tribos, logo, eram dos homens mais importantes e temidos das tribos.
Lhywelyn tenta então explorar essa relação entre os druidas e a natureza, conseguindo misturar toda essa relação cheia de mitos com a forma desordenada como os gauleses viam e levavam a vida, sobretudo a forma desordenada como actuavam na guerra, ainda mais quando pela frente tinham o exercito romano, imaginem o contraste. Achei curioso toda esta simbiose, pois é um livro que tão depressa nos coloca no mundo da magia, como logo de seguida, nos faz entrar em momentos terríveis.
Lhywelyn vai assim narrando a forma descontraída como os gauleses viviam e interessante, a forma como os gauleses viram a chegada dos romanos.
Eu gostei do livro, mas houve alguns factos que não apreciei, sobretudo alguns contra-sensos, quer ao nível do enredo, quer ao nível Histórico.
O estilo e o ritmo narrativo também não é o mais agradável. Em muitas situações do livro nota-se alguma pressa da escritora em resolver certos assuntos, no entanto e noutros, a história arrasta-se. Enfim, não existe uma grande coerência narrativa ao longo do livro.
Outro facto negativo que também vai de encontro ao já afirmado, prende-se com a pouca empatia com os personagens. A ligação é muito precária, nunca me senti especialmente ligado a nenhum deles porque a própria autora não tem essa capacidade de nos fazer vibrar e/ou sofrer com ou por eles.
Curioso também o pouco cuidado com as tradições celtas. Existem factos que o narrador afirma não serem costumes para, páginas depois, já descrever situações que põem tudo o que anteriormente afirmou em causa. Será que a escritora não reparou nisso quando reviu o livro?
Enfim, um livro que tenta e em parte até consegue, descrever a invasão romana e os costumes e tradições das tribos da Gália. No entanto a narração não está bem conseguida, raramente consegue agarrar o leitor.
Um romance que se lê bem, é agradável, mas enquanto romance histórico, é algo fraco.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Viver para Contá-la - Gabriel Garcia Marquez

Gabriel Garcia Marquez é para mim um escritor esquisito, não só ao nível da composição dos seus textos, como sobretudo devido à estranheza das suas histórias.
Prémio Nobel em 1982, Garcia Marquez assentou toda a sua carreira, enquanto escritor, num género que podemos classificar, ou pelo menos eu classifico-o, do realismo-fantástico, género esse povoado de fantasmas, demónios e situações surrealistas que vão sendo misturadas com o mundo real, dando então origem a um universo onírico, algo confuso, que deve ser lido, pensado e analisado com muito cuidado.
Pessoalmente não sou apreciador desse estilo, nem do simples e puro género do fantástico. Amante do Histórico e do realismo puro (Eça de Queirós, Maugham, Dostoiévski, Tolstoi, Vítor Hugo, Zola, Dickens, Jorge Amado e tantos outros), gosto essencialmente de ler sobre temas sociais e humanos e, após a leitura ou durante a mesma, efectuar vastas análises ao que leio e enquadrar aquela realidade na nossa actual sociedade.
No entanto e em relação a Marquez, algo me incomoda. Incomoda-me não entender a sua escrita e incomoda-me haver toda uma legião de fãs em todo o mundo que fazem dele o escritor mais consagrado do nosso tempo, sem que eu entenda esse sucesso. E vai daí, há algum tempo propus-me a entender a sua obra e o contexto da suas histórias.
Lendo por duas (2) vezes “Cem anos de solidão”, lendo também “Relato de um náufrago” e tentando ler o “Outono do Patriarca”, em todas estas situações fiquei sempre desiludido e como uma clara sensação de tempo perdido.
Até que, numa ida à biblioteca, me deparo com este “Viver para contá-la” livro que, alegadamente e segundo o que já havia lido, tratar-se-ia de uma autobiografia. Nada melhor então para ficar a conhecer em definitivo a s suas raízes, filosofias, paixões, gostos e inspirações que lhe moldaram o carácter e directamente o seu estilo de escrita.
”Viver para contá-la” trata-se então de uma autobiografia de Marquez que, sem preconceitos e tabús, narra de uma forma quente, apaixonada e ao mesmo tempo crua, toda a sua vida.
Antes de aprofundar a análise ao livro, há que referir que este trata-se do primeiro volume da sua biografia.
O livro inicia-se já enquanto Marquez estudante de direito em Barranquilla, recebendo a visita da mãe que lhe solicita que a acompanhe no sentido de venderem a casa dos avós em Aracataca, local onde ele nasceu e onde foi criado. É esse encontro o mote para este livro fabuloso, pois não se trata de umas simples memórias de Garcia Marquez.
Desde logo e com as descrições de Aracataca, ficamos com a ideia de onde Marquez foi beber a inspiração para criar “Cem anos de Solidão” e mais fascinados ficamos quando nos apercebemos que a história do livro é, simplesmente, a História da sua própria família. E continua.
Marquez vai desfilando as suas memórias. Memórias povoadas de histórias fantásticas mas reais, o surrealismo é algo que está entranhado nos povos caribenhos e da América do Sul, continente onde há muito circulam histórias e mistérios fantásticos. Quem nunca ouviu falar de Tiahuanaco, Cuzco, Nazca, Macchu Picchu, a perdida cidade do ouro dos Incas, os fantasmas da Jamaica, a misteriosa Ilha da Páscoa e tantos mais?
Pois bem, Marquez dá-nos o retracto daquele povo supersticioso, mas muito apaixonado e respeitoso da sua História e dos seu passado. Um mundo onde e segundo Marquez, “o estranho é não acontecer nada de estranho”
E vai por aí fora.
A sua infância e o modo como era visto e tido pelas pessoas que o rodeavam. As histórias que ia ouvindo pela bocas dos mais velhos, as suas observações e considerações pelo meio que o rodeava. O seu extemporâneo amor à leitura que o leva a ler, muito novo, obras como “As mil e uma noites”, a “Odisseia” de Homero, ”Orlando Furioso”, ”D. Quixote” e o ”Conde de Monte Cristo”, obras que lhe abriram as portas desses vasto e fascinante mundo da literatura e que o acompanharam desde sempre.
Mas Marquez vais mais longe.
Para além de narrar o passado dos seus pais e avós, ele situa, a nível geopolítico e social, a Colômbia no mundo, sobretudo ao nível das turbulências que desde sempre abalaram aquele país do Caribe. Amigo pessoal de figuras públicas, sobretudo figuras colombianas, destacando-se contudo a enorme amizade com Fidel Castro. Mas é curioso as personagens estranhas que marcam a sua vida e que lhe inspiraram a construção de personagens para os seus romances. Desde o coronel que fazia peixinhos de ouro numa velha oficina depois de uma vida de combatente (lembram-se do coronel Aureliano Buendía em “Cem anos de solidão”? Pois foi baseado no próprio avô de Marquez que fazia peixinhos de ouro depois de uma vida de combatente), até à sua tia que comia terra, passando pela tia que um dia lhes surgiu em casa e disse “venho me despedir, pois vou morrer!”, e à sua própria mãe, que com o seu forte carácter, o inspirou a criar a matriarca Úrsula, talvez a figura mais forte de “Cem anos de solidão”.
Em todas estas 579 páginas, Marquez narra tudo isso e muito mais. O seu percurso enquanto ser humano, o seu percurso estudantil e profissional. As obras e escritores que o inspiraram, a forma como estudou a aprendeu a técnica do romance, os mestres que lhe deram força para continuar quando as decepções o invadiam, os seus primeiros contos, enfim, todo um percurso rico em pormenores que finda em 1957 (fim deste volume).
Fico imensamente curioso em relação ao segundo volume, pois será nesse que Marquez narrará como construiu os seus romances, as suas estadias em Paris e no México (local onde escreveu “Cem anos de solidão”, a atribuição do Prémio Nobel e as suas amizades com escritores consagrados, entre os quais o “nosso” José Saramago.
Neste primeiro volume fica assim claro que as obras de Marquez espelham uma realidade que efectivamente é a do seu povo, uma realidade fantástica e sensual, inserida numa cultura secular com tantas tradições.
Quanto a mim, fiquei maravilhado com este livro e com o génio deste homem que, com os seus textos, procurou sempre honrar e homenagear um país e um povo que é o seu.
Talvez este livro tenha sido o mote para mais um fã de Marquez, ainda mais porque achei curioso algumas manias que ele tem que eu também tenho (por exemplo ele adora cheirar os livros novos e eu também). De certeza que vou ler mais uns romances dele, pelo menos agora que entendo o porquê desse estranho universo, Marquez tem agora outra lógica e outro sabor.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Amor em Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez

Florentino Ariza apaixona-se pela jovem Fermina Daza de uma forma tão intensa e pura que, segundo ele, é mesmo amor o que sente. Começa então a escrever-lhe bilhetes, utilizando a velha tia de Fermina como intermediária do jovem casal.
Declaram então um amor eterno, no entanto o pai de Fermina não vê com bons olhos esse relacionamento, pois Florentino não tem estatuto social e ele pretende que a jovem se case com alguém de “boas famílias” e não com um pé rapado sem futuro.
Fermina é então obrigada a partir com o pai numa longa viagem, no entanto, em vez de o amor desaparecer, apenas se torna mais intenso e, num belo dia após o regresso de Fermina, sem ela própria saber porquê, Fermina sente que esse amor desapareceu, assim, simplesmente desapareceu.
No entanto Florentino não se rende...
Das várias opiniões que li sobre esta obra, em todas ela se referia que esta história é uma bela história de amor.
Em parte concordo, pois realmente é uma bela e terna história de amor, porém, penso que é uma forma muito simplista de classificar e resumir esta obra.
Gabriel Garcia Marquez é indubitavelmente um dos grandes escritores de sempre. Ao contrário do que dizia José Luis Borges ”Marquez não trouxe nada de novo à literatura”, tenho a certeza que efectivamente Marquez trouxe muito de novo à literatura.
Marquez inventa, ou se quisermos, é um dos percursores e o seu mais fiel escritor do género “realismo fantástico”, género esse que não é o meu estilo mas que e depois de ter lido o “Viver para contá-la”, aprendi a respeitar e a apreciar.
Depois Garcia Marquez tem a excepcional capacidade de misturar as realidades com sonhos, crenças e rituais, tornando assim os seus romances em histórias onde a realidade e a ficção se misturam de uma forma onde nós não sabemos onde começa uma e acaba a outra, tal o universo cheio de fábulas, mitos e magia, completamente um universo onírico.
Pura e simplesmente o que Marquez faz é o de dar ao leitor um mundo, um universo que numa primeira análise é em tudo semelhante ao nosso para, e aos poucos, ir inserindo histórias fantásticas, mitos e fábulas do folclore colombiano, histórias estranhas da sua própria família, dos seus amigos e metáforas, principalmente metáforas políticas.
Dizia Garcia Marquez em “Viver para contá-la” :”estranho era não acontecer nada de estranho no local da minha infância”, por isso e de acordo com a própria vivência do escritor, imaginem o que salta para os seus romances.
Em “Amor em tempos de cólera”, Marquez não foge ao universo acima descrito.
A história tem um espaço temporal de cerca de 60 anos. Inicia-se algumas décadas antes do fim do séc. XIX e finda nas primeiras décadas do séc. XX.
Aqui Marquez não aborda questões políticas. Em toda a obra é apenas referido, e muito superficialmente, as guerras que devastaram a região das Caraíbas no período descrito.
Descreve também um surto de cólera que efectivamente existiu, mas ele usa esse surto para jogar com as personagens, criando cenários fantásticos numa grande metáfora sobre a vida humana.
Neste romance ele personifica a paixão, o amor humano em toda a sua pureza. Mas não só. N
este romance Marquez efectua uma homenagem à mulher, ser que guarda em si a eternidade da vida e a alegria, paz e harmonia do homem. Fermina Daza representa esse ideal. Uma mulher que é amada toda a vida, que é vista e tida como uma Deusa, como uma esplendorosa luz que ilumina a alma de Florentino, que lhe dá alento.
Florentino nunca deixa de amar aquela mulher. Um amor que extravasa o físico, a matéria.
No decurso da sua vida, Florentino entrega-se a várias mulheres (até o episódio da forma como Florentino perde a virgindade, e acreditem que no caso perde mesmo, é extremamente simbólico), relações sem futuro porque o seu coração estava entregue, aprisionado. As suas entregas são uma forma de prostituição, pois e consoante ele defendia: ”Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, e por todas com a mesma dor, sem atraiçoar nenhuma”.
A estrutura do romance não segue uma cronologia linear.
Marquez joga com as memórias dos personagens. Flash-back’s constantes compõem a obra, sempre num ritmo pausado, calmo, como deve ser vivido o amor. Um romance cheio de imagens mentais.
Gostei muito do romance fundamentalmente por causa da escrita de Marquez. Ele encanta. A forma como escreve é musical, poética e inimitável. Dá realmente um enorme prazer ler este livro, pois as palavras fluem compondo um texto narrativo a roçar o poético.
A simbologia que emprega é muito forte, agarrando-nos e dando-nos quase a possibilidade de vivermos aquelas vidas, pois ficamos com a sensação que todo aquele amor, é, ao fim e ao cabo, um pouco da nossa pretensão, do nosso próprio ideal romântico.
Um livro vivo e que nos faz viver um amor eterno.

Eurico, o Presbítero - Alexandre Herculano

Apreciador de romances históricos, não podia deixar de efectuar uma homenagem pessoal ao iniciador do romance histórico em Portugal que, seguindo o modelo de Wlater Scott, fez reviver velhas tradições medievais, reconstruindo toda uma sociedade onde gentis cavaleiros tentavam conquistar imponentes castelos: Alexandre Herculano.
Alexandre Herculano foi um dos mentores do movimento romântico, logo, a sua obra reflecte as tendências do romantismo. Historiador e escritor, Herculano que, diga-se de passagem, foi durante muitos anos responsável pela Torre do Tombo, tendo assim acesso de uma forma privilegiada a documentos históricos, mas Alexandre Herculano estendeu a sua capacidade de escrita por diversos géneros literários: Poesia, Romance e História. Dono de uma visão apurada sobre a realidade do país, nos seus romances procurou sempre relacionar a História com a ficção, no entanto procurou inserir essa ficção dentro da História para que, assim, essa ficção, fundamentalmente ao nível dos diálogos, não destruísse a História. Ou seja, Herculano foi o primeiro a entender o quão importante seria o romance histórico para a divulgação e conhecimento da História.
Mas Alexandre Herculano como historiador foi deveras importante para a sociedade da altura. Penso que para o caso não vale a pena aqui aprofundar a questão. Não só porque nos levaria para campos políticos e filosóficos que influenciaram os seus contemporâneos, como também abordar a sua importância enquanto historiador, seria afastarmo-nos do meu propósito, no entanto e apenas para complementar, Alexandre Herculano teve um papel vital na visão da História em Portugal e foi um dos grandes escritores portugueses de todos os tempos e um homem que teve um contributo decisivo na cultura portuguesa.
"Eurico, o Presbítero" é um romance grandioso, uma verdadeira Odisseia.
Li, algures, que podemos compara "Eurico, o Presbítero", enquanto obra grandiosa, a "Odisseia" de Homero. Pessoalmente concordo. Não tenho mesmo problemas nenhuns em considerar "Eurico" uma obra no mesmo patamar da "Odisseia" ou dos "Lusíadas", enquanto obra de capital importância para a nossa cultura e identidade lusa.
Eurico, nobre mas sem grandes bens, enamora-se por Hermengarda, filha de um importante e influente nobre. No entanto e dada a sua baixa condição social, os apaixonados são impedidos de casar, forçando assim Eurico a escolher uma vida de celibato, tomando os juramentos de monge e fechando-se num mosteiro.
A primeira fase do romance é belíssima. Eurico vagueia triste e pensativo. Os seus pensamentos são em prosa poética e revelam uma visão do mundo que vai de encontro às próprias teses de Herculano. Eurico elabora nesta fase uma profunda reflexão sobre os problemas que afligem o Homem.
Ainda no mosteiro, Eurico vem a saber das invasões árabes e da fuga das hostes cristãs. Nessa desordenada fuga, Hermengarda acaba por ser raptada pelos mouros.
Quando está prestes a ser desonrada pelo comandante dos exércitos mouros, Hermengarda é espectacularmente salva por um cavaleiro negro que, lutando como um louco, consegue desbaratar todo o exército muçulmano. Para espanto de Hermengarda, o cavaleiro negro identifica-se e é com espanto que vê surgir na sua frente o próprio Eurico, seu antigo noivo. Porém mais está para acontecer, os mouros não desistem...
Alexandre Herculano situa a acção na época das primeiras invasões árabes (sec. IX, salvo erro). Portugal ainda não existia, o qeu existia era um povo que ocupava esta nossa faixa de território da Península Ibérica: os Visigodos.
Assim, Herculano descreve uma época problemática e perigosa a vários níveis: a influência da cultura romana era praticamente nula, os visigodos procuravam na crença do deus único um sentido, enquanto que em contraponto, surgia fulgurante, uma outra civilização com outras crenças religiosas. A própria tragédia de Eurico é um sinal desse confronto de crenças, por um lado exige-se o celibato, por outro, os seus pensamentos deixam antever outras ideias. A derrocada do "império" Godo está também presente, quase como a antevisão do surgimento de um outro povo. O tom grandioso da obra deixa antever futuros acontecimentos que irão mudar a face do território e a sua História.
É engraçado que neste romance Herculano dá bastante ênfase ao conflito amoroso. E é neste fase que se dá aqueles pensamentos poéticos que tornam a obra belíssima. Digo engraçado porque o próprio Herculano afirmava ser essa a fase aquela com que ele maiss e identificava, sendo aí que ele expôs o fulcro do seu pensamento. Ora bem, sabe-se que na juventude Herculano também havia sacrificado uma paixão à sua vocação de escritor. Logo, Eurico ao preferir o celibato ao amor, personifica a sublimação de um ideal, o sacrifício do amor a esse ideal. É interessante!
Em suma, uma obra cuja opinião é muito difícil, sobretudo porque tenho a percepção que toda a obra deve ser analisada (não é por acaso que existe os "Apontamentos" da Europa-América), pois toda ela tem uma série de técnicas literárias, intenções políticas, estruturas díspares, críticas sociais e morais, pensamentos que advêm de várias correntes filosóficas e inclusivamente pretensões de inquirir o papel da religião.
Quanto a mim é uma obra muito profunda que, e a custo (custou-me também constatar que ainda ninguém havia opinado sobre a obra) elaborei esta opinião, mas reconheço que está muito incompleta. No entanto e por muito que goste de efectuar análises aos livros que leio, neste caso não consigo melhor e mesmo assim, só à custa de vários apontamentos que fui escrevendo ao longo de várias semanas.
Uma obra portentosa, importantíssima para a nossa cultura.

Diário de Bridget Jones - Helen Fielding

O livro está escrito numa linguagem muito leve, fácil, muito soft. Desculpem-me quem adorou o livro, mas a mim pareceu-me um livro tipicamente light.
A história é demasiado simplista: Uma jovem mulher (na casa dos 30 anos), tem uma vida fútil, cheia de nada e trasbordante de obsessões. Ela é obsessiva pelo peso, pelo tabaco, pelo álcool, pelos homens e até as relações com a família e amigos é algo obsessiva.
O livro basicamente é apenas isso. Não há nada para analisar. De início é engraçado, algumas páginas depois entretém e antes do meio já é um terrível tédio, pois as situações são muito semelhantes, tudo numa madorra irritante, onde ela vai descrevendo as suas obsessões e, a partir de uma certa altura, a obsessiva relação com o seu chefe.
Tem de facto algumas passagens engraçadas, sobretudo porque, já tendo visto e gostado do filme, acabava por imaginar as situações com o Hugh Grant e a Renée Zellweger, mas e sem ser isso, o livro é um vazio execrável.
Com um enleio (chamemos-lhe assim) muito fraco, com personagens que nunca se impõem (ao contrário do filme), este foi um livro que me decepcionou muito, pois fica muito aquém do filme, filme esse que apenas ressalva o que a obra tem de interesse.
Chegando ao fim, não consegui começar o seguinte (havia-o requisitado na biblioteca). De certeza que o estilo é idêntico, de certeza que ela irá continuar na sua obsessão pelo peso, tabaco, álcool e homens. De certeza tudo, a receita do primeiro teve êxito, logo não há que mudar.
As mulheres que afirmam que este filme sublinha as suas preocupações, os seus estados de espírito ou um pouco do seu dia-a-dia, então, minha amigas, penso que terão que rever as prioridades da vossa vida. Isso sem querer ofender ninguém, mas arrepia-me pensar que existe alguém que tenha uma vida tão fútil.
Enfim, um livro muito fraco, onde não só se aprende nada, como não tem a capacidade de entreter.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Um Deus Desconhecido (A) - John Steinbeck



John Steinbeck foi um escritor que escreveu sobretudo sobre a sua região: Califórnia. Aquele que fez da Califórnia a principal dos seus romances.
A acção do romance passa-se em pleno Oeste norte americano no início do séc. XX.
Tendo conhecimento que o governo estaria a oferecer terras para quem se quisesse estabelecer na Califórnia, Joseph Wayne abandona a casa paterna e empreende a viagem rumo ao seu sonho. Ao chegar, escolhe alguns hectares de que lhe parecem ricos, registando-as posteriormente em seu nome.
É já quando se está a estabelecer, que recebe uma carta dos seus irmãos, informando-o da morte do seu pai, notícia essa que o entristece mas que o faz tomar consciência de uma nova era que se inicia.
Acontece que nessas suas terras, existia uma grande e velha árvore que Joseph tomou como mais do que uma simples árvore, tomou-a como um ser vivo, pensante, algo que tinha sobre ele um poder especial, algo que incorporava o poder paternal, ao fim e ao cabo, o seu próprio pai.
Neste romance, que classifico como um romance estranho, Steinbeck cria um personagem central. Joseph Wayne, homem que apenas tem olhos para a terra, mas um homem com um carácter forte que, ás tantas, sobre ele alguém afirma: ”um novo Jesus do oeste”.
No entanto este romance é um romance sobre o meio físico e social. Social porque nos narra a organização típica de uma família do velho Oeste: Um rancho que agrupa toda uma extensa família, chefiada pela figura patriarcal, preocupada essencialmente com a sus subsistência, com a terra e com a criação do gado. Físico, porque Steinbeck situa muito bem o romance: Califórnia selvagem, entre o mar e o deserto.
Mas este romance tem alguns pormenores que deixam perceber que Steinbeck escreveu-o com um sentido muito mais amplo do que aquele que tenho visto referido. Um romance sobre o amor à terra e à vida? Não! Este é um livro mais profundo, não necessariamente mais belo por isso, mas tem mensagens que ultrapassam a de uma simples e mera história.
Se não repare-se:
O personagem principal e aquele que é a essência de todo o livro, chama-se Joseph Wayne. Joseph é um nome de origem hebraica que significa Deus Acrescenta. Curioso!
Curioso também a enorme semelhança física entre Joseph e Abraão, semelhança impressionante quando se sabe que, na Bíblia, Abraão deixa a casa do seu pai e parte para uma nova terra, a terra prometida. Em “A Um Deus Desconhecido”, Joseph parte em, busca da terra prometida: o Oeste. Mas não é apenas esta a única semelhança. Ao longo do livro é notória a semelhança desta obra com acontecimentos do Velho Testamento.
Logo, este romance tem uma fortíssima componente religiosa e, curioso, é a forma como Steinbeck, propositadamente, mistura a crença católica com actos de puro paganismo.
Joseph é um homem que ama essencialmente a terra, toda a natureza. Personifica numa velha e viçosa árvore a figura do seu próprio pai, do seu Deus. A essa árvore entrega oferendas, presta-lhe culto, cumpre assim uma espécie de rito pagão.
O certo é que toda essa relação entre a crença católica e pagã tem um fim abrupto, fim esse que irá desencadear toda uma série de acontecimentos extraordinários e inesperados que porão fim ao próprio livro.
E a chuva que tem um papel tão importante?
A queda da chuva que penetra na terra mãe gerando vida, faz-nos lembrar aquelas estatuetas do Paleolítico que personificavam a fertilidade...
Em suma: este romance é uma alusão clara a vários episódios bíblicos. Joseph Wayne age como um deus, ele é a terra, a chuva, a vida, toda a natureza.
É um romance algo angustiante porque desde o princípio nos apercebemos que o trajecto da acção é omissa de certezas e poucas esperanças. É um romance que não deve ser lido apenas para estar entretido. Penso que é um livro que deve ser lido com muita atenção e com algum tempo para analisar o que foi lido, pois existem muitas mensagens que se podem extrair.
Pessoalmente gostei mas não o considero uma obra do nível das “Vinhas da Ira”, sobretudo devido à própria acção e ao ritmo que Steinbeck imprime.
A analogia de Joseph com Abraão e as constantes metáforas bíblicas, dizem-me pouco, e para além de me dizerem pouco, existem diálogos estranhos, com pouco sentido, algo maçudos que, quanto a mim, acrescentam pouco ao livro.

Relíquia (A) - Eça de Queirós



Para quem já teve a oportunidade de apreciar um romance do mestre Eça de Queirós, deve saber que uma das suas características era o de efectuar, e isso está presente em todos os seus romances, uma crítica social mordaz, irónica mas, no fundo, uma crítica que tentava ser construtiva.
Neste romance que me proponho a opinar, romance esse considerado por muitos como a sua "obra-prima" ou aquela onde ele conseguiu explanar toda a sua corrosiva veia crítica e irónica, o mestre Eça, que publica este romance em 1887, época em que vive em Londres, dominado por pensamentos e teorias agnósticas que faziam então furor entre os intelectuais ingleses, mas, o mestre Eça constrói todo um trama assente sobretudo na observação dos costumes, nomeadamente uma observação que se propõe a narrar os costumes das gentes beatas e a hipocrisia que daí surgia.
Narrado sempre na primeira pessoa, o escritor começa por nos apresentar o seu principal protagonista: Teodorico Raposo, ele próprio o narrador da história.
Toda a narrativa aborda a própria vida de Teodorico. Homem que órfão aos 7 anos, foi deixado aos cuidados da sua tia, D. Maria do Patrocínio, mulher devota, púdica, que se guiava pelos padrões de uma antiga burguesia dominada pela religião. Beata e tremendamente receosa de Deus, a Titi envia Teodorico, aos nove anos, para um colégio interno e, após estadia em Coimbra, Teodorico acaba por regressar a Lisboa anos depois e já doutor. Toda essa fase é já dominada por um carácter devasso de Teodorico que, para além de ser um calão, encontra em tudo formas de diversão.
Feliz de ter um sobrinho doutor e muito crente e cumpridor dos seus deveres para com Deus (Teodorico passa a vida a simular idas à igreja e mostra-se sempre muito devoto em frente da Titi), a tia começa-lhe a dar uma rica mesada, começando assim Teodorico uma vida "farta e regalada".
Bom, mas um problema surge. A tia estava velha, era rica e, pelo que Teodorico se apercebe, ela prepara-se para deixar grande parte da sua fortuna à igreja e, é numa conversa com um amigo do pai que se convence que a única forma de ficar com a fortuna toda da velha é precisamente, ele, Teodorico Raposo, ser mais santo que o próprio Jesus Cristo.
Imaginem!
Assim e também porque passava por uma fase de profunda desilusão amorosa, ele resolve "cravar" uma viagem à sua tia, uma viagem que o irá levar à Terra Santa.
Essa viagem, alegadamente uma peregrinação em nome da Titi, irá transformar-se numa viagem louca, metendo uma amante inglesa em pleno Egipto que lhe faz a vez das idas à igreja..., uma estadia em Jerusalém onde, para além de ele achar tudo horrível, acaba por sair do Santo Sepulcro a praguejar, até a uma carga de porrada que ele leva de um escocês por ser apanhado a espreitar a filha deste enquanto tomava banho.
Hilariante!
Mas, antes desta viagem "santa", onde Teodorico se propunha a ser mais santo do que J.C., ele promete à Titi que lhe irá trazer uma relíquia que é nada mais, nada menos do que um bocado da própria coroa de espinhos. No entanto é um simples galho que irá fazer a vez da coroa, sendo então embrulhado em simples papel pardo, papel semelhante que embrulhava uma garrida e erótica camisa de dormir da sua amante inglesa que, em memória da sua última fogosa noite de amor juntos, oferece-lha de modo a recordar-se sempre dela.
Farto daquela miséria toda, ele resolve empreender a viagem de regresso, sendo então recebido em apoteose pela tia que já o vê como um santo, um modelo de ser humano, pois havia estado nos mesmos lugares que Jesus Cristo.
Agora imaginem o momento em que ele vai dar a tão prometida santa relíquia à sua tia...
Essa entrega irá processar-se de uma forma cerimoniosa. Todos os padres e todas as beatas são convidadas para a ocasião. Tal presente iria fazer furor e criar invejas junto da beatitude da sociedade lisboeta. E quando a Titi abre o embrulho, em vez de um galho da coroa de espinhos, eis que surge uma camisa de dormir de cores garridas, provocante e cheia de rendinhas... imaginem o desenrolar da cena. É deveras hilariante!
Pessoalmente gosto muito deste romance, aliás, eu gosto de todos os romances e contos de Eça. Neste caso ele constrói uma personagem extremamente religiosa e, em contraponto, uma outra mas extremamente liberal. O choque é inevitável. A hipocrisia assola todo o romance, chega a ser incomodativo e irritante tanta sobranceria e hipocrisia. À semelhança do que Eça fez noutros romances, ele descreve uma sociedade completamente dividida: os mais jovens, liberais e não crentes. Os mais velhos, ainda com aquela ideologia da alta burguesia do início do Sec. XVIII, completamente sob o domínio da igreja e dos seus representantes.
Sabe-se que Eça não era um grande simpatizante do catolicismo. Já em "O Crime do Padre Amaro", ele traçava um cenário profundamente crítico, caótico mesmo em relação à igreja e ao seu comportamento, no entanto em a "Relíquia", ele aborda a questão doutra forma, aliás, ele dispara as suas críticas sob outra perspectiva: a do fanatismo religioso. Quanto a mim, este romance complementa "O Crime do Padre Amaro", pois neste caso ele crítica, e é impiedosa a forma como o faz, toda uma sociedade que vivia de aparências... isto é tudo tão familiar nos dias de hoje!!!
Eça de Queirós é, pois, o melhor escritor português de todos os tempos e, não tenho a melhor dúvida, um dos melhores a nível mundial. Se ele fosse norte-americano, francês, inglês ou alemão, penso que seria considerado o grande mestre da literatura universal. Senhor de um estilo único, enquanto narrador conseguiu "pintar" cenários reais da sociedade portuguesa, efectuando também descrições e análises psicológicas dos seus personagens de uma forma intensa.
Embora este não seja o romance que mais aprecio do mestre, penso que a "Relíquia" é aquele onde ele consegue, de facto, expressar todo o seu génio, para além das sublimes descrições que efectua do Egipto (onde esteve para a inauguração do canal do Suez) e Palestina, ele consegue descrever de uma forma minuciosa os costumes da época, os hábitos da sociedade, o modo de pensar e o latente conflito de gerações que se dava na altura.

Casa dos Budas Ditosos (A) - João Ubaldo Ribeiro


Há livros que me vêm parar às mãos de uma forma quase surrealista. Muitos deles surgem-me quase vindo do nada e por vezes dou comigo a olhar para livros nas minhas estantes que, juro, não me recordo como apareceram ali.
Neste caso concreto, "A casa dos Budas Ditosos", não foi o caso de não saber como ali foi parar. Sei-o porque me foi oferecido há anos, a questão é que nunca me senti minimamente motivado para o ler dado, não só o estranho e estúpido título, como também porque não aprecio de forma geral literatura erótica e/ou pornográfica.

Mas há uns dias decidi-me a arrumar com este livro e eis a minha opinião:
Erotismo e sexo é algo que agrada a todos, mas que dizer de um relato onde, sob a desculpa de ser verdadeiro, se narra acontecimentos onde o erotismo tem uma presença, digamos... de nome, e o sexo, aliás, a pornografia sem regras é o principal tema do livro, aliás, aquilo é mais uma forma de vilipendiar o sexo. Mas enfim!
O conteúdo do livro é apenas e só as "várias formas de se fazer sexo doentio com homens e mulheres, sem olhar a meios e onde, tudo e mesmo tudo é permitido", contado por uma mulher de 68 anos que, segundo ela, está à beira da morte, resolvendo então contar ao escritor Ubaldo as suas memórias.
Uau! Que interessante! É o ser humano assim tão voyeurista que se interesse por um conto de uma desconhecida só por alegadamente ser erótico?
Mas será este um relato verdadeiro ou um conto retirado da imaginação deste escritor? Se querem saber, não consegui descobrir mas também não me esforcei muito.
Profundamente egocêntrica, pois apenas ela contava, ela vai narrando a sua vida, vida essa onde o sexo ocupava um lugar especial (especial é favor) 24 horas por dia (que pena o dia só ter 24 horas). A mulher até sonhava com sexo. Ganda maluca!
Esta libertina (oh pró Sade cheio de inveja) praticava sexo de todas as maneiras: ela era anal, oral, manual, grupal e mais que tal que aquilo nunca mais acabava, sem falar no incesto que, segundo ela era algo de muito natural. Bem mas aquilo era um forrobodó tão grande que progressivamente nos vai fazendo sentir como uns verdadeiros meninos de coro, não o de Santo Amaro de Oeiras, mas daqueles que julgam os preservativos serem balões para as festas de despedidas de solteiro.
E os tabus? A mulher pensa que os tabus vão sendo violentamente derrubados (esta frase é leve para classificar esse derrube). Essa mulher vive a sua liberdade de uma forma obsessiva, é estéril, logo e num tempo onde as doenças sexuais não eram uma grande preocupação, apenas o prazer físico, o conhecimento do fruto proibido, o êxtase sexual, lhe interessa, no entanto esse interesse e as práticas caem sempre no exagero.
E pouco mais há para dizer. João Ubaldo Ribeiro elabora uma narrativa compulsiva, uma narrativa onde a luxúria se apresenta na primeira página e se despede na última.
Como devem já ter constatado, não gostei do livro.
De erotismo e sensualidade gosto, no entanto este livro não se pode classificar de erótico, pois é um livro doentio onde existem temas que são abordados de ânimo leve com o intuito de chocar. Mas não o consegue, pois essa intenção descamba no ridículo, tal o exagero das situações descritas.
Se tiverem curiosidade em ler sobre uma vida dedicada à devassidão sexual, à luxúria, então força, no entanto também vos digo que entre a literatura erótica existem livros muito bons. Se nem essa curiosidade tiverem, então esqueçam-no, pois não vale um corno.

Anjos e Demónios - Dan Brown



Aquando do lançamento do "Código Da Vincai", fui daqueles que, influenciado pela publicidade e pela inúmeras opiniões positivas no Livra, corri a uma livraria próxima a fim de o adquirir, pois parecia que se tratava do melhor livro de todos os tempos.
Não vou dizer que não gostei, estaria a mentir a mim próprio, no entanto e embora ele me tivesse despertado para um mistério que me deu, posteriormente, bastante gozo investigar, o certo é que não o achei assim tão bom. Tem de facto uma história excitante, cheio de pormenores históricos de realce, mas é muito incoerente em muitos factores, principalmente no nível temporal da própria acção. Mas isso é a minha opinião, vale o que vale, sendo certo que não o achei um portento mas deu-me gozo lê-lo.
Este "Anjos e Demónios" antecede o "Código Da Vincai". É neste que surge o professor de simbologia de Harvard, Robert Langdon, que vê os seus serviços serem requisitados por um Centro de Pesquisas suiço, alegadamente por terem encontrado, cruelmente assassinado, um dos mais influentes cientistas do centro.
Está dado o mote para uma aventura muito semelhante ao "Código Da Vincai", pelo menos no seu estilo.
Uma aventura que se inicia nos Estados Unidos, passa pela Suiça e tem toda a sua excitante acção em pleno Vaticano. Aqui Brown não se limita a criar suspanse, ele vai-nos dando informações e detalhes históricos de Roma, do Vaticano e do próprio cristianismo. Curioso que no livro o Papa falece e os Cardeais se preparam para o conclave. Temos então um rol de informações sobre o conclave, o que é e como se procede, enfim, informações valiosas que vão de encontro ao momento actual.
É claro que Brown não se fica apenas por isso. Como no "Código Da Vincai", ele vai-nos dando pistas correctas e pistas falsas. Faz-nos crer em vários suspeitos, para ao longo do livro baralhar e voltar a dar. Nós próprios entramos nesse jogo ilusório, na própria investigação, nesse intrincado puzzle, no entanto as peças que possuímos são diminutas, Brown esconde-nos peças importantes...
Nesta obra temos também uma sociedade secreta, a filha do morto que vai ajudar Langdon na investigação, uma assassino que crê piamente nas suas convicções e nas ordens do mestre, enfim, alguns ingredientes que já prováramos em o "Código Da Vinci".
Não gostei novamente do espaço temporal da acção. Repare-se que desde que Langdon recebe o primeiro telefonema, ainda nos Estados Unidos, até que o mistério fica totalmente resolvido, passam cerca de 12 horas, tempo que acho muito curto para as situações que decorrem. No entanto e como não tem tantos enigmas como em o "Código Da Vincai", penso que esse factor acaba por não dar tanto nas vistas, acabando assim por ser mais credível e mais facilmente digerível. A fase final do livro também não gostei. Não vou aqui desvendar nada, mas penso que ele enrola um bocado. E outro factor que achei incoerente, é o facto de que a linguagem universal da ciência (matemática) passa a ser outra, ainda por cima a explicação que Brown dá é, mínimo, desenxabida.
Em suma: Dan Brown assente em dados factuais verídicos, constrói todo um trama de conspiração numa autêntica corrida contra ao tempo em pleno coração do Vaticano, logo do catolocismo. Penso que Brown tentou criar uma espécie de conflito ou ,se quisermos, polémica entre ciência e religião, indo ao ponto de afirmar que apenas a ciência poderá provar a existência de Deus. Não me quero expressar sobre isso, mas a verdade é que a narrativa desta história nos deixa a pensar nesse facto; um género de conflito ideológico e de crença entre ateus e crentes.
Impossível não se fazer comparações entre "Anjos e Demónios" e o "Código Da Vincai": são bastante semelhantes. Pessoalmente talvez tenha gostada mais do "Código Da Vinci" (comparando os dois, notei claramente uma evolução ente o 1º e o 2º livro), no entanto apenas porque aborda uma temática que me apaixona mais e também porque achei os enigmas presentes mais exóticos e excitantes, aliás, considero que o "Código Da Vincai" está mais recheado de enigmas, de situações mirabolantes.
No entanto, aconselho a leitura deste "Anjos e Demónios". Lê-se compulsivamente, em cada página as situações sucedem-se a um ritmo alucinante, a ansiedade apodera-se de nós, parece que a resolução do mistério está "já ali", no entanto, várias surpresas acontecem...