domingo, 9 de março de 2008

1001 Livros para Ler antes de Morrer – Editado por Peter Boxall



Segundo o prefácio à Edição portuguesa, editada pela Lisma, este livro tem como intenção proporcionar aos fãs do género Romance um conjunto, neste caso 1001, de livros considerados como imprescindíveis, aqueles que eventualmente sejam de leitura obrigatória para os amantes deste género literário.

Esta Edição Internacional foi conseguida através de uma união entre várias editoras de todo o mundo que, por sua vez, reuniram várias centenas de colaboradores (escritores, críticos, jornalistas, etc) chegando assim a um conjunto de obras consideradas como as mais importantes nos cânones literários, algo que a meu ver é inteiramente conseguido tal a excepcionalidade das obras expostas.

Com 960 páginas, dividido por “Antes de 1800”, “Século XIX”, “Século XX” e “Século XXI”, este é um Manual riquíssimo e muito útil aos amantes dos livros (não só para os apreciadores do género), pois de facto contem todas as obras de relevância da literatura universal, assim como outras que, de certo, serão consideradas clássicos no futuro.

Embora afirmar que estes 1001 são mesmo os melhores seja algo muito subjectivo, sem dúvida que o é e eu até penso que falta ali uma obra impar mas que muitos consideram não pertencer aos romances, o certo é que cada livro ali exposto tem uma ficha associada com vários dados muito interessantes onde sobressai um resumo da historia e da sua importância na literatura, bem como, em vários casos, imagens de capas e cartazes das primeiras edições.

Um livro que me delicia e que me tem indicado vários livros que não conhecia, sendo certo que é também um livro que irá tornar realidade um sonho da maioria dos leitores.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Retrato de Dorian Gray (O) - Oscar Wilde



Nascido em Dublin no dia 16 de Outubro de 1854, Oscar Wilde teve uma educação esmerada, vindo a formar-se na famosa Universidade de Oxford cerca de 20 anos depois.
Reconhecido como um excepcional poeta e ensaísta, Wilde era também um homem que tinha consciência da sua inteligência e do fascínio que provocava no público, ao ponto de ter afirmado na alfândega, aquando da sua chegada a Nova Iorque, ”Nada tenho a declarar, excepto o meu génio”.
Levando uma vida relativamente calma, chegando mesmo entre 1887 e 1889 e dirigir uma revista feminina, foi precisamente nesse espaço de tempo que escreve os poucos contos que produziu e o seu único romance, justamente o ”Retrato de Dorian Gray”, e é curioso porque é devido a esse seu único romance que a sua vida se irá alterar de uma forma trágica, levando-o mesmo á sua ruína.
Por altura de 1893, época onde Wilde estreia algumas peças de teatro, conhece Lord Alfred Douglas, que havia ficado fascinado com o romance de Wilde. Dessa amizade nasce uma relação amorosa que levaria o pai de Alfred Douglas, o marquês de Queenberry, a condenar aquela relação, insultando Wilde e um processo que acabaria com a acusação e condenação de Oscar Wilde à prisão pelo crime de homossexualidade.
Aí ficou preso durante dois anos, altura em que escreve uma longa carta de amor a Lord Alfred, que viria a ser publicada em 1905 com o título de ”De Profundis”.
Sendo libertado em 1897, viu-se completamente arruinado. Abandonado pela família, com a reputação completamente destruída, viveu da caridade dos seus poucos amigos até falecer em 1900 em Paris, de meningite, num quarto de hotel, completamente só. Morria assim, um dos grandes génios da literatura que o mundo já teve.
Conhecido e assumido como homossexual, numa época onde isso era tido como um desvio de personalidade, uma anormalidade, Wilde cria uma grande escândalo com a publicação de o ”Retrato de Dorian Gray”, sendo acusado pela opinião pública de ”expor uma ambígua personalidade na figura do seu protagonista”, ou seja, este livro foi visto e foi tido, penso que ainda o é, como um dos ícones da “cultura” homossexual.
Pessoalmente penso que Oscar Wilde pretendeu de facto criar um conjunto de relações entre os personagens que leva a uma leve percepção que, aquelas relações de amizade, são mais do que isso, pois ele, de uma forma muito inteligente, efectua todo um jogo de palavras, de frases que indiciam precisamente relações de maior intimidade entre os personagens.
No entanto este livro parece-me mais um exame à consciência humana e principalmente um romance onde Wilde exorta a plenitude das suas ideias e opiniões acerca da sociedade e do espírito humano.
O ambiente da obra está assim imbuído de homossexualidade. Todos os personagens principais são homens e é num trio deles que o romance se irá desenvolver.
Dorian Gray é um jovem de 20 anos que possui uma beleza desmedida, cuja é retratada por um amigo, o pintor Basil Hallward, que tem por ele uma paixão tal, que pinta o quadro de uma forma tão transcendente que todos ficam estupefactos com a exactidão da pintura, parecendo mesmo que Basil conseguiu captar a própria alma de Dorian.
No dia em que termina o quadro, encontra-se presente Lorde Wolton, homem extremamente inteligente e dono de uma ironia tão vasta, que irá influenciar de uma forma crucial Dorian Gray. Refiro que, quanto a mim, Lorde Wolton personifica o próprio Oscar Wilde. É assombrosamente semelhante o carácter de Wolton com o de Wilde e não é por acaso que é precisamente Wolton que disserta sobre vários assuntos.
Todos ficam estarrecidos com o trabalho de Basil, principalmente por ele ter conseguido captar a extrema beleza de Gray e, nessa altura em que fitava o quadro, Dorian articula um desejo: ”este quadro manterá o meu rosto jovem para sempre, enquanto eu irei envelhecer. Quem me dera que fosse o contrário”.
O livro segue então um rumo assente na promiscuidade entre esses homens, rodeados de opulência num desvario moral que já nos dá a perceber a nociva influência de Lord Wolton em Dorian Gray, que se começa a aperceber que, estranhamente, o quadro apresenta algumas alterações...
Começa dessa forma uma história excepcional, repleta de diálogos extraordinários e de várias alegorias.
É claro a intenção de Wilde em retratar o cinismo e a hipocrisia da aristocracia da época. Há toda uma série de alegorias que pretendem expor toda uma sociedade que se movia por interesses e com pouco ou nenhum respeito pelo próximo, apenas preocupados com as aparências e na ostentação social. Até o facto de o retrato envelhecer, mantendo-se Dorian Gray eternamente jovem, não é nada mais nada menos do que uma alegoria à decadência moral e espiritual dessa mesma sociedade, sempre tão sorridente e bonita, mas suja e podre por dentro.
Wilde brinca assim com toda a sociedade. Penso que foi precisamente por isso que a opinião pública ficou chocada com o romance e não com a insignificante alusão à homossexualidade.
Wilde atira ideias e teorias completamente irónicas, nota-se o sentido de espicaçar, de mostrar o ridículo, de denunciar.
Logo e devido ao desenvolvimento dessas ideias, este acaba por ser um livro não muito fácil de ler, pois é visível que cada diálogo tem um objectivo definido, uma intenção que ultrapassa um mero diálogo.
Muitos vêm este romance como uma elogio à beleza e à vaidade.
Eu admito que sim, mas afirmo que essa apologia é à própria sociedade e ao carácter da mesma, sobretudo ao carácter da burguesia do qual Wilde fazia parte.
O ”Retrato de Dorian Gray” é assim mais um estudo camuflado de romance, cheio de intenções e alegorias à sua sociedade e ao seu próprio circulo. Um romance que é injustamente um ícone da “cultura” homossexual, quando, e na realidade, pouco indicia sobre essa “cultura”.
Um romance soberbo que deve ser lido e analisado à luz da época em que foi escrito, sobretudo ao nível social.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pecado de Darwin (O) - John Darnton


O Pecado de Darwin é um título que tem tanto de ambicioso como de decepcionante. Um título que, ao contrário do original do livro, deixa logo antever um pecado de Darwin e foi precisamente com esse interesse que me propus a ler este livro.

Darwin é, inquestionavelmente, um dos Grandes Nomes da Ciência. Assim, quanto a mim, é necessário uma grande dose de coragem para se elaborar um trama cujo principal tema é algo que Darwin “fez” e que esteve por detrás da origem da célebre teoria da Selecção Natural.

Este livro é uma obra de ficção. Não me recordo de ter lido uma referência clara à ficção, mas o percurso que o autor desenha é obrigatoriamente ficcional tal a diminuta referências existentes em relação à vida familiar de Darwin.

No entanto, para dar maior credibilidade à história, o autor tenta desmontar um embuste que estaria por detrás da teoria de Darwin. Não vou aqui referir qual, mas para isso a história é descrita em três perspectivas. A do próprio Darwin enquanto jovem a bordo do Beagle, diários de Elizabeth (uma das filhas de Darwin) e de dois investigadores que, na actualidade, compreendem estarem no rasto de um terrível segredo que irá colocar em causa a credibilidade de Darwin.
O trama está bem construído, saltitando entre essas três perspectivas de uma forma coerente e equilibrada. No entanto não posso deixar de registar o imenso incómodo que o livro me proporcionou. Não que Darwin seja uma figura para mim fascinante, mas sim porque o autor coloca em causa a reputação desse homem. Mesmo sendo ficção, acredito que muitos do que irão ler o livro ficarão com a ideia que Darwin não é aquilo que sempre se disse que era e isso, a meu ver, é algo que, independentemente da obra ficcional e história, deveria ser defendida pelo editor e pelo autor, algo que não fazem, criando sim a ideia que a história narrada tem fundamento.

Achei rebuscada a forma como, principalmente os investigadores tinham a acesso a cartas e diários do próprio Darwin e filha. Sempre por acaso e por vezes até sabiam onde se dirigir, as informações vinham cair-lhes à mãos, informações essas, por vezes, bombásticas. Pessoalmente penso que esses factos ajudam a dar uma áurea de “faz de conta”, porém é notório também a intenção do autor em criar um clima de “teoria da conspiração”, clima esse que nunca convence.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Filha do Capitão (A) - José Rodrigues dos Santos

Este GRANDE ROMANCE procura reproduzir factos históricos ocorridos na Flandres entre 1917 e 1918. As personagens são fictícias, no entanto, os acontecimentos e episódios por eles vividos aconteceram.
Há 3 anos, Feira do Livro de Lisboa, tive o prazer e a felicidade de conhecer e estar à conversa cerca de 10 min. com José Rodrigues dos Santos. Assim e aproveitando a sua enorme simpatia e disponibilidade, coloquei-lhe algumas questões sobre o livro, questões essas que me elucidaram sobre alguns dos factos e que originaram um deslumbramento ainda maior por este magnífico romance. Nesta opinião tentarei então abordar a obra segundo as minhas percepções e também segundo aquilo que me foi transmitido pelo próprio autor do livro: José Rodrigues dos Santos.
O livro tem o seu início temporal em 1890, ano do nascimento de Afonso Brandão, personagem principal da obra.
De origem humilde mas com uma inteligência e curiosidade apurada, é-nos relatada a vida pobre daquela humilde família de seis filhos no meio ribatejano.
Nessa mesma altura em Lille, França, nasce Agnés de Chevallier, filha de um abastado enólogo e comerciante de vinhos. Nascida em berço de ouro, Agnés tem de tudo. Uma educação esmerada, dinheiro, comida da melhor, acesso à cultura e inclusive chega a visitar em 1900 a Exposição Universal de Paris onde sobe, diliciada, a Torre Eifiel.
Aqui Rodrigues dos Santos mostra-nos bem a diferença que havia entre o interior francês e o português, universos muito distantes, completamente opostos. Ao mesmo tempos aproveita para descrever a célebre exposição de Paris.
Nos primeiros capítulos acompanhamos assim a infância de Afonso e Agnés, sendo fácil de adivinhar que, mais tarde ou mais cedo, as vidas deles se vão interligar.
De salientar que o facto de o livro começar em 1890 não ter sido por acaso. Rodrigues dos Santos pretendeu narrar alguns dos factos que surgem por essa altura e que tanta importância irão ter no futuro.
É assim descrito a vinda a Lisboa da família de Afonso e o fascínio que demonstram pela cidade e pelas novidades, algumas delas demasiado futuristas. De notar o pormenor de eles andarem descalços e de ficarem admirados por verem as pessoas no Rocio (Rossio) a passearem-se calçados. Curioso também a descrição do surgimento do futebol enquanto jogo do povo em Portugal e dos primeiros jogos entre o Carcavelos e o Fotball Club Lisbonense, desporto esse que, para além de rivalizar já com a tourada, adquiria, para essa gente do Ribatejo, o nome de fubôu. Curioso também ser nessa altura que surgem as “fotografias vivas” passadas no Real Colyseu e no Teatro D. Amélia, que era nada mais nada menos que exibições do animatógrafo, logo os primórdios do cinema. E mais, o livro está cheio de curiosidades históricas.
Quando Afonso atinge os 14, 15 anos (1904-1905), começam-se a dar em Portugal acontecimentos que irão ficar gravados num lugar de destaque da nossa História. E aqui Rodrigues dos Santos é exímio na narração desses acontecimentos, conseguindo interligar as personagens, a história do livro com os factos históricos.
O assassinato do rei D. Carlos e do seu filho, o príncipe D. Luiz Filipe no dia 1 de Fevereiro de 1910 em plena Praça do Commércio. Os tempos agitados que se seguiram até à implantação da república no dia 5 de Outubro de 1910. Acreditem, é empolgante, delicioso, excepcional.
Até que numa manhã de Agosto de 1914, já Afonso era tenente num quartel em Braga, inicia-se um novo capítulo do romance e o seu principal motivo de interesse A Grande Guerra.
Devido a interesses que envolvia um acordo secreto entre a Alemanha e a Inglaterra, acordo esse que definia em segredo as possessões ultramarinas portuguesas, o governo português apercebeu-se que a sua velha aliada estava a fazer jogo duplo. Por outro lado, a aproximação anglo-espanhola e a frieza com que os dois países, ambos monárquicos, viam a implantação da república em Portugal, indiciavam que a Inglaterra fecharia os olhos a uma possível anexação de Portugal por parte da Espanha, chegando mesmo o governo britânico a avisar o governo português que as obrigação da aliança Portugal-Inglaterra visava apenas a garantia da defesa da costa marítima e não das fronteiras terrestres… Assim e devido a todos esses acordos que punham em perigo a nossa integridade e independência, o governo português não teve outra alternativa do que provocar a Alemanha no sentido de esta nos declarar guerra, para assim tomarmos a posição das forças aliadas e podermos ocupar a mesa das negociações no pós-guerra, defendendo assim as colónias e as fronteiras do continente e ilhas. Para quem quiser saber mais sobre estes jogos, aconselho a leitura de “Crónicas de Guerra” do mesmo autor.
É então que em Abril de 1917, o Corpo Expedicionário Português (CEP), composto por algumas dezenas de batalhões, é enviado para a frente de combate, as temíveis trincheiras da Flandres. Como comandante da Infantaria 8 ia o tenente Afonso Brandão.
Começa nessa altura a terrível odisseia de milhares de homens que, praticamente sem qualquer tipo de treino militar, se vêm nas trincheiras atolados em “merda”, em condições sub-humanas, a servirem, literalmente, de carne para canhão.
Estes acontecimentos são assim o grande objectivo de Rodrigues dos Santos. Narra episódios reais da estadia do CEP nas trincheiras que se estendiam por Fauquissart, Neuve Chapelle e Ferme du Bois.
E é angustiante ler as terríveis provações que os nossos soldados passaram. Eles foram enviados para as trincheiras simplesmente para morrerem, porque quantas mais baixas houvessem, mais apreciado era Portugal pela comunidade internacional. O governo de Lisboa não tinha qualquer interesse e consideração pelas tropas. A partir do momento que chegavam a França, o contigente português jamais era substituído e o regresso dos soldados apenas se dava em sacos mortuários, quando havia alguma coisa para colocar nesses sacos…
ai minha rica mãezinha, não me deixem morrer!” Afirmava m homem cujo rosto era uma massa ensanguentada... Um retracto do inferno.
As outras tropas aliadas e alemãs eram substituídas regularmente, os portugueses mantinham-se nas suas posições até morrer, definhando, apodrecendo atolados em lama tendo por companhia o zunir das balas e as ratazanas. Passaram fome e frio, andavam rotos com fardas fornecidas pelo exército britânico, logo, grandes para os soldados portugueses. Ao mesmo tempo a maior parte dos oficiais, que estavam contra a guerra, faziam de tudo para se afastarem da frente, inclusivamente até se faziam de doentes para serem enviados para Lisboa, ficando o CEP quase sem oficiais. Por isso imaginem o moral das praças, homens simples, a maior parte deles analfabetos que passavam o dia na lama, a cheirar e a pressentir a morte, vendo os oficiais fugir como as ratazanas que lhes passavam por cima.
Mas a fé mantinha-se, a coragem e os sonhos faziam com que aqueles homens acreditassem que o seu esforço tinha um objectivo e que o dia do regresso a casa estaria para breve…
É neste contexto que José Rodrigues dos Santos nos dá uma verdadeira aula de História de Portugal na Grande Guerra e do enorme e heróico esforço que os nossos soldados realizaram.
Quanto a mim o romance vale por isso.
Mas a história continua com Afonso e Agnés até ao seu encontro…
Que posso dizer mais sobre este soberbo, fenomenal, excepcional e grandioso romance?
Antes de mais asseguro que é dos melhores livros de sempre da literatura portuguesa.
Depois, fez-me sentir muito orgulhoso dos meus compatriotas que lutaram tão heroicamente naquela guerra. Deliciei-me igualmente com a escrita fluida e com a forma narrativa de Rodrigues dos Santos. A descrição da ofensiva alemão em Abril de 1918 ao contigente português (La Lys) é terrivelmente real e angustiante. Está tão bem descrito que parece que ouvimos o troar dos canhões, o matraquear das metralhadoras, o zunir das granadas e das balas, os gritos de raiva, medo e angustia de milhares de soldados que lutavam por uma nação e pela sua vida.
La Lys foi um episódio marcante da nossa história e este livro presta homenagem a todos aqueles que lá combateram. Segundo o autor, um dos objectivos do livro é precisamente o de exorcizar velhos fantasmas, o de prestar homenagem ao Corpo Expedicionário Português e a milhares de homens que tão garbosamente combateram nas trincheiras da Flandres.
A história de Afonso e Agnés passa assim para segundo plano. Não que Rodrigues dos Santos o tenha feito premeditadamente, não! A história está sempre presente e é narrada como tema principal, sendo a guerra o pano de fundo, mas sei que o valor do livro está nos factos históricos.
Não pretendo alongar-me mais, no entanto este é daqueles livros que gostaria de escrever, escrever, sem, contudo, conseguir expressar o enorme fascínio que o mesmo me provocou.
Com ele percebi o porquê do desastre português em La Lys e do sofrimento de todos aqueles homens que lutaram por uma causa que desconheciam.
Foi um romance que me comoveu imenso. Em três, quatro ocasiões, tive que fechar o livro porque simplesmente a comoção era enorme.
Foi também, e que me lembre, o único livro em que depois de lida a última página, voltei à primeira.
Sabe meu capitão, descobri que o mais duro não é fazer guerra, o mais difícil é sobreviver a ela, é viver com ela depois de ter vivido nela, percebe o que quero dizer?”.
E esta deixou-me de rastos:
Marianne ficou a estudá-lo, hesitante, receando acreditar. Deu um passo em frente, a medo, depois outro e outro ainda, começou a andar e o andar transformou-se em corrida, correu para ele como se sempre o tivesse conhecido, ninguém lhe disse que era ele mas ela soube-o, talvez fosse desejo, talvez fantasia…”; “… daquele murmúrio da voz embargada que lhe brotava dos lábios e era repetidamente soprado aos ouvidos da menina que o enlaçava pelo pescoço. Ma petite fille”.
Um romance excepcionalmente admirável. Aconselho vivamente, rogo-vos que o leiam, exijo que o façam, pois estamos perante um dos grandes romances de sempre da nossa literatura.

Homem Duplicado (O) - José Saramago

Agora que está prestes a sair um novo romance de José Saramago, lancei-me novamente na (re)leitura deste nobel escritor que, quanto a mim, é o melhor escritor da actualidade.
Este ”Homem Duplicado” foi publicado no final de 2002 e é, talvez, o romance menos conseguido do escritor e pelas razões que apontarei mais adiante.
No universo saramaguiano (acabei de inventar a palavra), um universo que podemos classificar de Realismo Fantástico, temos quase sempre um cenário onde pessoas comuns se deparam com um acontecimento violento que, de algum modo, lhes afectará a vida.
Em “Memorial do Convento”, a construção do convento toma a posição desse violento acontecimento.
No “Evangelho Segundo J.C.”, um homem rude descobre que é, imagine-se, filho de Deus.
No “Ensaio sobre a Cegueira” há o aparecimento de uma cegueira colectiva que irá afectar o normal quotidiano de todo um povo, estratégia seguida dentro dos mesmos moldes em “Ensaio sobre a Lucidez”.
É uma estratégia muito própria de Saramago que, dono de um estilo que destila uma ironia acusadora dos podres da sociedade através de metáforas, consegue sempre construir tramas bem urdidos com princípio, meio e fim (salvo em o “Ensaio sobre a Lucidez”).
Em o ”Homem Duplicado”, Saramago segue essa tal estratégia construtiva, no entanto comete um pecado que desvirtua grande parte da beleza da obra, ele quase que copia o enredo de “Todos os Nomes”, aliás, é completamente indissociável a colagem entre esses dois romances.
O “Homem Duplicado” é construído tendo por base uma questão: ”Será possível existirem pessoas duplicadas?”, ou seja: ”Será possível haver pessoas que têm, algures no mundo, uma outra igualzinha a ela, um duplo?”. Ao fim e ao cabo uma questão que já tem sido levantada por outros escritores, simplesmente um conflito de identidade.
Tertuliano Máximo Afonso é professor de História no ensino superior. Divorciado e esquecido desse casamento, porque um homem esquece-se do que não se quer lembrar e lembrar é próprio daqueles que não se querem esquecer. Vive agora sozinho e aborrecido, desesperadamente à procura do seu Eu, enquanto se relaciona num relacionamento Não-Relação com uma bancária. Só e triste, resolve que está necessitado de uma distração excitante e, a conselho de um amigo da mesma profissão, empreende uma viagem ao louco mundo do vídeo-clube da zona a fim de alugar o tal filme sugerido, sugestão essa que recaí num daqueles filmes cómicos de 3ª categoria produzido por uma produtora desconhecida e só, mas de 4ª categoria. Mas dias não são dias e ala que se faz tarde, eis o nosso, salvo seja, Tertuliano com a cassete na mão, preparando-se para assistir, no conforto do seu lar, a este belo e desconhecido filme. Senta-se confortavelmente e após visionar alguns minutos de filme, constata o surgimento em cerca de 5 cenas de um personagem igualzinho a ele. Sem tirar nem pôr, a sua cara cuspida e escarrada: “Sou eu!”, afirma Tertuliano, de Máximo Afonso no nome.
Depressa regressa ao vídeo-clube no sentido de alugar mais filmes daquela desconhecida e suspeita produtora e, após horas a visionar esses mesmos filmes, dá de “caras” novamente com ele mesmo, aliás, e perdida a cabeça que já está, pois perdido por um perdido por mil, Máximo Afonso, dá então de “frontispício” com esse actor. Tem então o cuidado de, através das fichas técnicas e depois de excluir alguns factos e pormenores de somenos importância, descobrir o nome desse actor e criar todo um intricado plano para descobrir onde mora. E agora é que é, assim o disse assim o fez, Ala que se faz tarde.
José Saramago, que tem tanto de bom escritor como de pedante, elabora neste livro um género de crónica não muito honesta, pelo menos em relação ao leitor.
Desconheço se houve ou não intenção dele, mas ele usa-se da fórmula do romance “Todos os Nomes” onde um funcionário do Cartório vai em busca de uma pessoa da qual apenas sabe o nome, desconhecendo até se essa pessoa ainda é viva. Assim elabora todo um esquema de busca, não sabendo contudo o significado dessa busca nem a sua reacção quando a completa-se.
Logo, Saramago utiliza-se de um para construir o outro. Varia um bocado a forma, obviamente, mas é indismentível que repete esquemas, situações e inclusivamente, julgo porque não estive para investigar, repete, pelo menos na forma, um monólogo.
Esse é o seu grande pecado e o “pormenor” pelo qual considero este romance como o seu livro menos conseguido, aquele onde ele revela uma grande falta de inspiração que em nada revela o seu génio.
Mas o estilo está lá.
Os pensamentos íntimos do personagem, embora e por vezes se perca em demasiados eufemismos. Os diálogos imaginários com o Bom Senso são divertidíssimos, mas também pecam um pouco pelo exagero com que ele os utiliza. O tom mordaz com que vai descrevendo as situações, sempre assente em metáforas alusivas aos males da sociedade, o constante jogo cúmplice entre o escritor e o leitor, enfim, uma escrita com o cunho de Saramago.
Longe de possuir a mesma beleza estética e a força narrativa dos seus outros livros, este “Homem Duplicado” lê-se muito bem e diverte-nos com as suas constantes “bocas”. No entanto Saramago parece brincar demasiadamente com o leitor, parece querer dar-se ao luxo de fazer crer que este é um romance original. Não é, longe disso, porque e repito, segue a mesma linha de “Todos os Nomes”, inclusivamente as “mensagens” subjacentes repetem-se e esse é o seu maior pecado.

Rei Lear - William Shakespeare

Escrito entre 1603 e 1606, sendo levado pela primeira vez à cena em Dezembro de 1606, o Rei Lear é considerado uma das obras mais importantes de Shakespeare e é aquela que é mais lida e representada na Grã-Bretanha, até a 1ª fase da série “Black Adder” é inspirada nesta obra.
Poder, traição, vingança e amores, são os temas principais desta obra, focada num velho rei que faz doações de todos os seus domínios às suas 3 filhas tendo, contudo, como condição que todas elas no momento de receber essa doação, dissessem palavras bajuladoras ao rei. Porém uma delas recusa-se a ser hipócrita e, num acesso de fúria e loucura, Lear renega essa filha (Cordélia), deserdando-a e dividindo então o reino pelas outras duas.
Os conselheiros de Lear tentam alertá-lo para a terrível injustiça que ele acaba de cometer mas, e à boa maneira medieval, Lear não lhes dá ouvidos e com o orgulho ferido expulsa Cordélia do seu reino.
Uma vez na posse das terras, as duas filhas (Goreil e Regane) logo encetam uma série de contactos a fim de usurpar o reino de Lear e é neste contexto de vilanias e traições, de combinações secretas e de vis acções que se desenvolve toda esta famosa peça de Shakespeare.
Tal como sucedeu em praticamente todas as suas obras, para não dizer mesmo em todas, Shakespeare não foi o criador do trama de Rei Lear. Obras como “Romeu e Julieta”, “Hamlet”, “Mcbeth”, já eram bem conhecidas na época de Shakespeare, no entanto o que Shakespeare fez não se tratou de plágio. Shakespeare teve o génio de “pegar” nessas histórias e de as tirar do circulo do folclore local, empregando a sua pena para escrever ou rescrever obras fenomenais. Ou seja, ele “pegou” em historiazecas e rescreveu-as mantendo, contudo, o fulcro original.
A história do Rei Lear surge pela primeira vez em latim na “História Britonum de Geoffrey os Monmouth” em 1135. daí para a frente, são várias as versões de “Lear”, sempre tendo como trama principal o rei louco e as suas filhas. Assim constata-se que Shakespeare teve acesso a uma enorme bibliografia que o ajudou a elaborar a sua obra, no entanto e pelos textos anteriores, Shakespeare deu-lhe nova forma, e porquê? Simplesmente porque deixou o fulcro da história intocável mas introduziu velhas lendas britânicas, colocou o seu ideal de justiça e inclusive narrou factos astronómicos verificados naquela época (1603-1606).
Este Rei Lear torna-se assim mais de que uma mera peça teatral. Para além de expor muito do pensamento da Renascença, esta, assim como todas as peças de Shakespeare, é um retracto da Inglaterra medieval com todos os tramas que caracterizavam aquelas épocas.
Pessoalmente e tendo já lido praticamente toda a obra de Shakespeare, que considero o primeiro mestre da literatura moderna, aquele que serviu e serve de escola para muitos escritores, esta peça não é das que mais aprecio.
Não tem a força e o carácter de Macbeth, Othello ou Hamlet. Não tem a ternura e o tom trágico de Romeu e Julieta. Os tramas das peças mencionadas empolgam, fazem-nos vibrar, deliciam-nos. Este Rei Lear, embora seja marcado por traições e encontros conspiratórios, não tem a força dos diálogos de outras peças e parece-me também que faltam excertos que interliguem alguns dos actos, pois há acontecimentos que se sucedem um pouco sem nexo e de uma forma precipitada.
Esta não é das melhores obras de Shakespeare, pessoalmente prefiro Mcbeth, Hamlet e Othello.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Perfume (O) - Patrick Suskind

"O perfume", livro de Patrick Suskind editado em 1985, foi um livro que desde logo saltou para os top’s de vendas de qualquer livraria em qualquer parte do mundo, tornando-se num ápice um imenso sucesso editorial.
Aclamado por milhares de leitores e por grande parte dos críticos literários, "O perfume" foi um livro que li em 2001 mas que não me proporcionou qualquer tipo de prazer nem me ensinou nada de especial. No entanto e passados 4 anos resolvi dar-lhe uma segunda chance procedendo a uma segunda leitura, deparando-me então com um imenso mundo de metáforas dentro de uma imensa alegoria. É isso mesmo, este livro tem um significado muito diferente daquele que grande parte dos leitores lhe deu. Este livro não é um simples livro sobre um assassino que se entretém a matar jovens virgens apenas para lhe ficar com o odor delas. Não, este livro é uma imensa alegoria sobre a França do séc. XVIII e fundamentalmente sobre os ideais que originaram a Revolução Francesa.
Surpreendidos?
Mas vamos por partes.
A história
França, 1738. Numa praça imunda, situada no coração de Paris, nasce no meio de sangue, tripas de peixe e restante porcaria, Jean Baptiste Grenouille.
Filho de uma peixeira que o deixa no meio do lixo para morrer e de pai desconhecido, esta criança que logo fica órfão de mãe, acusada de pretender matar o bebé e posteriormente decapitada, é criado por uma ama, paga por frades, que o trata de uma forma indiferente, sem qualquer tipo de afecto.
Crescendo ao "Deus-dará", Grenouille desenvolve um intelecto virado para si próprio, demonstrando um enorme asco às pessoas, aliás, uma completa indiferença em relação aos restantes seres humanos, que também o consideravam um animalzinho insignificante. Porém Grenouille tem algo que o destingue das outras pessoas, tem um sentido olfactivo imensamente apurado, conseguindo detectar cheiros, por muito leves que sejam, a km’s de distância.
Ciente desse dom, Grenouille cresce catalogando cheiros. Ou seja, ele vai definindo cheiros, cataloga-os, elaborando assim no seu cérebro uma imensa biblioteca de cheiros, dando-se mesmo ao luxo de os combinar, criando novos odores.
Mas Grenouille quer ir mais longe, pretende criar perfumes supra-sumos, perfumes dignos do assombro de todos e é quando, através de uma demonstração do seu dom, consegue trabalho como aprendiz na melhor casa de perfumes de Paris. E o mundo irá ficar assombrado com as infinitas criações de Grenouille, embora a fama dessas criações sejam atribuídas ao patrão de Grenouille.
Posteriormente ele abandona a perfumaria e refugia-se numa caverna durante 7 anos, vivendo uma vida em torno de si próprio, uma espécie de introspectiva do seu Eu. Até que, num belo dia, dá-se conta que não tem odor corporal como qualquer ser humano, compreende então o porquê de os outros o repudiarem, de o acharem insignificante.
Começa então a saga dos assassinos em série de jovens virgens. Ele pretende criar o perfume perfeito, o seu próprio odor a partir da essência corporal de jovens mulheres.
Esta é a história de uma forma muito resumida.
Desde o início que me fez confusão as análises simplistas que li sobre a obra. Não fazia sentido, pois é notório que Suskind joga com os odores e com as situações, criando cenários nojentos, horríveis e sem grande sentido. Esta era uma obra que tinha que ter algo por detrás.
Chamou-me então a atenção para a acção temporal. Séc. XVIII, ano onde se inicia o livro: 1738, ano em que termina: 1767.
Depois a situação inicial do livro: o nascimento de Grenouille e a forma violenta e asquerosa como sucede e onde sucede: Paris, capital da França.
Comecei então a efectuar analogias com os tempos conturbados na França do séc. XVIII, sobretudo com os acontecimentos que deram origem à Revolução Francesa. Não esquecendo que nesses tempos a França era uma nação afundada na lama ignóbil da corrupção, governada por burgueses que viam e consideravam o povo como lixo, povo esse que sobrevivia na maior das misérias. E como é que começa o livro, não é na podridão? Não será essa podridão uma alegoria à França e sobretudo a Paris, capital do reino? "… em Paris o fedor era maior…". A França não era uma nação corruptamente podre?
Reparem:
Jean Baptiste Grenouille é um ser diferente dos outros pelo facto de não ter odor corporal. Já pensaram do porquê da obsessão dele em possuir um cheiro pessoal, uma identidade? Não representará ele a imagem do herói (revolução) que parte assim em busca de uma identidade no meio daquela porcaria toda?
A certa altura leio: "Grenouille quer ser um grande alambique que inundasse o mundo inteiro com os perfumes por ele criados…". Aqui fez-se definitivamente luz.
E para o fim está-nos reservado o maravilhoso epílogo. Ele entra num cemitério cheio de mendigos, ladrões, prostituas, aleijados, enfim, tudo que há de mais maldito na sociedade. Antes de entrar no cemitério, ele encharca-se de perfume, o tal perfume feito a partir da essência das virgens, o seu odor, acontecendo então uma chorrilho de acontecimentos verdadeiramente inconcebíveis. Ele é literalmente despedaçado e devorado pelos presentes. Que significado podemos dar a essa situação que tanto detestei há 4 anos?
Sendo Grenouille e o seu perfeito perfume a alegoria do idealismo da Revolução, não nos é licito pensar que aqueles malditos apenas pretenderam nutrir os seus corpos e almas com o perfume de Grenouille, com a sua perfeita essência, logo, não se alimentaram dos ideais da Revolução? Não terá sido Grenouille o tal alambique que inundou o mundo inteiro, ou pelo menos a Europa? A revolução não eclodiu nas ruas de Paris em 1789?
Todos estes factos e outros mais chamou-me a atenção. À medida que os ia colectando, ia construindo todo um painel que me levou a acreditar tratar-se este livro de uma imensa e genial alegoria do idealismo da Revolução Francesa que, como muitos sabem, teve uma grande influência na Europa.
Posteriormente iniciei uma pequena investigação na internet e rapidamente encontrei alguns documentos que corroboravam a minha análise com a particularidade de, pelo menos em duas delas, a análise ser muito mais profunda. Inclusivamente acabei pode descobrir uma pequena entrevista com o escritor, onde ele afirma tratar o "perfume" dos acontecimentos anteriores à Revolução Francesa.
Por isso, experimentem ler o livro com esta perspectiva, vão ver que "O perfume" é uma obra notável.

Ilha do Tesouso (A) - Robert L. Stevenson

A ”Ilha do Tesouro” é considerado como um dos grandes clássicos da literatura juvenil e, digo eu, muito justamente.
Muitos desconhecem, mas e inspirado nas histórias que o seu pai lhe contava na infância, Stevenson, já com 30 anos e consagrado como escritor, cria primeiramente um jogo para poder brincar com o seu enteado com o título de “ilha do tesouro”, jogo esse que tentava retratar uma busca a um tesouro mediante a consulta de um velho mapa. Daí nasce toda a aventura que dá depois origem ao texto que, numa fase inicial, Stevenson recusou a sua publicação, pois não lhe antevia grande sucesso. Até que e depois de muita insistência por parte de alguns amigos, a história é publicada em 1881 sob a forma de folhetim e com um título muito diferente: O Cozinheiro.
Longe estava Robert L. Stevenson de imaginar o enorme sucesso da obra que o havia de catapultar para a galeria dos Grandes Escritores.
A história é simples e destinada de facto aos mais jovens, ou seja, não é nenhuma metáfora ou foi escrito com segundas intenções. Este livro é mesmo um livro de aventuras.
Estamos no ano da graça de 17… (ele nunca especifica o ano) e, à velha hospedaria “Almirante Benbow”, chega um misterioso e mal encarado homem que, vendo a pacatez da hospedaria, acaba por ir ficando. Esse homem, que se tornava barulhento e conflituoso quando bebia, vivia permanentemente em sobressalto, parecendo estar a aguardar a chegada de alguém a qualquer momento. Acaba assim por “comprar” os serviços do jovem filho do dono da hospedaria, Jim Hawkins, no sentido de um rapaz estar alerta com a chegada de alguém com determinadas características físicas.
Entretanto e algum tempo depois, essa pessoa acaba por aparecer e, depois de uma violenta discussão, acaba por fugir, deixando o misterioso homem moribundo que, vamos a saber, se tratava de um famoso e perigoso pirata.
Jim Hawkins acaba, por mero acaso, por descobrir um velho mapa na arca que esse pirata havia deixado no quarto e, em conjunto com outros personagens, acabará por empreender uma louca viagem a uma distante ilha deserta em busca de um imenso tesouro.
Cheio de perigos, esta história é bastante cativante, contendo, e quero ressalvar precisamente isso, um rol de personagens fantásticos, de uma personalidade fortíssima que marcam de uma forma inegável todo o livro, e que na minha opinião, são o grande suporte da história e da fama que atingiu.
Por outro lado, Robert L. Stevenson é um mestre na forma como joga com as situações que vai criando. Desde o início que ele, para além de não perder o rumo e a coerência, consegue prender a atenção do leitor mediante situações empolgantes, onde o suspense e o mistério andam de mãos dadas.
Destinado realmente a um púbico mais jovem, penso ser este um livro que merece ser lido em qualquer idade, pois também ele tem a capacidade de nos fazer sonhar, algo como por exemplo é conseguido em “Peter Pan” e a sua Neverland.
Um dos grandes clássicos que enriquecem uma qualquer biblioteca privada e enobrecem a nossa alma.

Carteiro de Pablo Neruda (O) - António Skármeta

Dois motivos tão triviais levaram Mário Jiménez a mudar de ofício. Filho de pescador e com o futuro designado ao mesmo ofício do pai, Mário via o imenso esforço do pai que, depois de uma vida tão dedicada à faina, pouco ou nada havia ganho.
Mário, sonhando com amores audaciosos que via desfilar diante de si no cinematógrafo de San António, pretendia seguir outro rumo, outro destino que não aquele que lhe estava previsto.
O outro motivo foi a posse de uma bicicleta que lhe abriu as portas a uma nova e excitante profissão: carteiro.
É através de um anúncio na janela dos Correios, que Mário consegue esse emprego, sendo então colocado na ilha Negra a fim de entregar o correio a uma única e exclusiva pessoa: Pablo Neruda.
E é desse modo que Mário Jiménez se aproxima do poeta, nascendo entre eles uma amizade muito especial e deveras peculiar.
António Skármeta elabora um romance que, segundo o próprio, nasce um pouco por acaso, levando cerca de 14 anos a ser completado, pois, e é ele quem o diz, a inspiração nunca era muita e o jeito para a escrita também rareava.
Agora, o que dizer de um livro de 172 páginas que, alegadamente, tenta dar uma imagem dos tempos conturbados da década de 70 no Chile (golpe de Pinochet), abordando também a entrega do Nobel da Literatura a Neruda e o seu discurso na cerimónia?
Honestamente fiquei muito decepcionado, sobretudo porque a grande maioria das críticas são boas, sendo este livro considerado mesmo uma grande obra.
Ao nível da narrativa é muito fraquinho.
Até que começa bem e com um ritmo agradável, no entanto vai perdendo força e o interesse vai-se esfumando página a página.
O escritor, embora tenha iniciado o livro com um assunto e intenção bem delineada, a certa altura, parece começar a vaguear, afastando-se claramente dessa coerência inicial. Depois de andar um pouco às voltas, volta então ao rumo inicial, para terminar de uma forma desinteressante, pois o ritmo já foi destruído.
Propositadamente?
Se calhar, mas não acredito devido precisamente ao discurso inicial do escritor.
Depois destaco pela negativa a enorme simplicidade do texto.
Ele nunca se alonga em nenhum assunto. O golpe militar de Pinochet que derruba Allende é abordado muito ao de leve. A ida de Neruda, enquanto embaixador, para Paris, é narrada como um simples destacamento, longe de conseguir transmitir a enorme importância que teve na vida do poeta. Para não falar da atribuição do Nobel que, para além do discurso de Neruda, pouco ou nada conta.
É um livro que, repito, me decepcionou.
Não vejo onde está a enorme beleza que muitos descortinaram, pois até poemas de Neruda o livro é exíguo, a narrativa é demasiadamente simplista, algo enfadonha, falhando por vezes em sentido.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Estrada (A) - Cormac McCarthy

Vencedor do Prémio Pulitzer, Cormac McCarthy era um autor até agora desconhecido para mim até há bem pouco tempo. Dono de uma escrita que de facto faz lembrar José Saramago, penso, contudo que tem um dom apenas atribuído aos Grandes Escritores: sabe transmitir sensações através das palavras, descrever estados de espírito e as mais íntimas sensações humanas.

“A Estrada”é um livro que tem tanto de belo como de chocante.

Num futuro próximo o mundo caí numa era apocalíptica. A grande maioria das pessoas morreram e tudo se encontra devastado, coberto por cinzas.

É este o cenário que irá envolver toda a narrativa dando-nos, logo no seu início, uma visão dantesca do mundo onde estamos a penetrar.

Um clima agreste onde a solidão reina a par com o sofrimento que abalou o planeta. A ausência de vida é algo transversal em toda a história e a luta pela sobrevivência, dos poucos sobreviventes, é feroz. Contudo há uma questão que salta logo nas primeiras páginas: sobreviver para quê num mundo sem presente e sem futuro?

Um pai e um filho caminham numa estrada. Empurrando um carrinho de compras com todos os seus parcos haveres, eles dirigem-se em direcção ao mar na esperança de lá encontrarem outras pessoas “boas”.

Durante essa caminhada vão-se apoiando no amor que nutrem um pelo outro numa odisséia onde a solidão e a tristeza contrapõem com o constante jogo do “gato e do rato”.

Pessoalmente penso que existe uma grande similaridade desta odisseia com a de Homero, sobretudo na utopia de chegar a um objectivo antevendo vários perigos que se atravessarão no seu caminho. Uma e outra a esperança nunca morre numa luta diária num mundo irreal.

É uma obra que nos faz ver para onde, se calhar, caminham as sociedades puramente consumistas onde os ideais se vão perdendo assim como se vai retirando a esperança de sonhar. O que é o ser humano nesse contexto, a perda total de valores e piedade que nos aproximam, quanto a mim ultrapassam, os animais ditos irracionais..

McCarthy é exímio nas palavras e nas descrições. A forma crua como vai narrando, entranha-nos na alma, faz-nos sofrer. Basta ver que, a certa parte do livro o pai diz ao filho: “desculpa não ser azul”, “não faz mal”, diz o rapaz (sobre o mar).

Sem dúvida um dos melhores livros que li até à data e um escritor que é, sem dúvida, um dos melhores escritores da actualidade.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Portugal, Hoje - O Medo de Existir - José Gil

Portugal, Hoje: O Medo de Existir, é uma obra que desconhecia e que me foi aqui apresentada neste nosso cantinho livriano pela mui estimada colega livriana Lisa.
Escrito pelo filósofo José Gil, tido como um dos 25 grandes pensadores mundiais da actualidade, logo e obrigatoriamente uma figura ou um intelectual de relevo da nossa cultura.
O autor neste livro procura analisar a alma lusitana e toda a actual e antiga conjuntura que levaram o nosso país e as nossas gentes ao actual e miserável estado de pessimismo em que o país está atolado (para não dizer outra coisa). Uma análise também ela extremamente pessimista que ressalva apenas os traços mais negativos da nossa forma de ser e da forma como a democracia foi erigida e mantida.
Embora José Gil tenha dificuldade em classificar o género deste livro, classificando-o mesmo como “indefinido”, eu não tenho quaisquer dúvidas em o classificar como um Ensaio, porque simplesmente este é um Ensaio ou, na pior das hipóteses, uma espécie de Ensaio sobre os males e os vícios que dominam os portugueses, a sua herança cultural e a forma como essa herança foi aproveitada e consagrada pelo regime salazarista, e são precisamente estes dois últimos pontos que, quanto a mim, destroem toda a abordagem de José Gil. Mas vamos por partes. J
osé Gil desde o início refere as más características dos portugueses e a forma como se identifica essa forma de ser: irresponsável; invejoso; dado à inércia; medroso, quase cobarde; sem motivação e auto-estima; resistente à lei; com a mania que é “chico-esperto”, levando essa faceta directa e indirectamente à corrupção.
Correcto, digo eu e dirão muitos, no entanto e tendo o cuidado de analisar o livro como um todo, no final do mesmo constatei que o discurso de Gil assenta essencialmente apenas e só nisso, num desenvolver de características tão conhecidas, sem contudo dar qualquer tipo de respostas nem apresentar alternativas para que seja possível uma mudança. Esta é a minha maior crítica. O que o autor faz é essencialmente o seguinte: "os portugueses são uns preguiçosos, não fazem nenhum, são uns despreocupados, estão-se a borrifar para os outros, etc". E porquê que os portugueses são assim? "Ah coisa e tal, salazarismo práqui, salazarismo práli...". Ou seja, ele não dá nenhuma explicação plausível.
A única tentativa de explicação e por acaso essa tentativa desapontou-me muito, é dada mediante uma excessiva colagem do Portugal de hoje ao Portugal de 1974 acabado de sair da ditadura, afirmando vezes sem conta ou deixando perceber claramente que nada mudou desde esses tempos, nada se ”inscreveu”, que inclusive os portugueses continuam a viver com um medo herdado do salazarismo...
Não concordo! Discordo em absoluto!
Não querendo entrar aqui em dissertações ou em discursos que contraponham o que José Gil escreve, penso que e ao contrário do que ele afirma, os portugueses não são como são devido aos 45 anos de ditadura, pese embora que também tenham tido influência. Ele passa praticamente todo o livro a “bater na mesma tecla”, a sublinhar o papel negativo do regime salazarista como principal e único culpado deste actual estado de coisas. Não concordo! Admito que ainda existem muitos vícios que sobreviveram desse regime, mas não concordo que os portugueses são amorfos, medrosos, cobardes, invejosos e irresponsáveis devido apenas a esse regime. É Histórico e Gil esqueceu-se de analisar a História, não faltam relatos desses comportamentos fatalistas, invejosos, brejeiros, “chico-esperto” em vários dos nossos escritores do séc. XVIII e XIX. Camões narra um pouco desses comportamentos no “Lusíadas” e as obras de Eça e Camilo são também um óptimo mostruário.
Salazar de facto aproveitou essas características para implantar o medo e a repressão, mas e passados mais de 30 anos da Revolução dos Cravos, nós não somos como somos devido apenas a esse regime, nós sempre fomos assim. Célebre a frase de Júlio César no ano 100 A.C. quando dizia: “nos confins da península existe um povo (lusitanos) que não se governa nem se deixa governar...
Ele refere também e não são poucas as vezes que o faz, das não “inscrições” em Portugal. Tudo é constantemente adiado.
É verdade, pelo menos o do constantemente adiado, o de deixar andar, no entanto e no contexto onde ele coloca a expressão “inscrição”, para mim é aberrante essa análise.
Será que em mais de 30 anos de democracia nada mudou?
Obviamente que essa democracia foi mal construída, análise que Gil efectua, tocando nalgumas feridas, mas que diabo, estamos nas mesmas condições que estávamos em 1974? Nada mudou?
Penso que bem ou mal, muita coisa se fez nesse país que merece ficar ”inscrito” na nossa sociedade e na nossa História, mesmo afirmando ele que ”Portugal conhece uma democracia com baixo grau de cidadania e liberdade”, afirmação essa que deriva, mais uma vez de uma atribuição de culpas ao antigo regime, eu questiono: Mas isso só acontece em Portugal? Esse alheamento da vida política, esse afastamento só se verifica em Portugal? Nos outros países também não se verifica o mesmo? E o mais decepcionante é que José Gil faz essas declarações, mas nunca efectua nenhuma análise profunda do porquê, dos factores e razões que levaram a esse alheamento e afastamento. J
osé Gil vai assim colocando tudo numa condição extremamente pessimista. Embora concorde com parte dessas constatações, não concordo com maior parte delas, sobretudo o modo alarmista como ele as coloca e por serem meras constatações.
Considero de facto que ele tem razão em muitas criticas que efectua, no entanto ele coloca as “coisas” como incontornáveis, como se fosse impossível a alteração dessas situações. Mas não será legítimo exigir mais a um pensador desta craveira do que constatações tão simplistas?
Para além de tudo o que refiro atrás, ele entra em profundas contradições, pois é célere a criticar o povo pela não ”inscrição” e ele, com este livro, faz exactamente isso (queixa-se, queixa-se), demonstrando também ser um mau conhecedor da História Universal dos povos e com pouca visão e perspectiva do futuro.
Por outro lado e ligado ao que afirmei no parágrafo atrás, é arrepiante a forma como ele se esquece de analisar e de incluir a nossa História, afirmando mesmo sermos um povo saudosista mas com poucas referências ou lembranças da História, algo que ele próprio demonstra no livro, pois para ele existe uma massa de gentes encravada num pequeno território à beira de um precipício.
Portugal é apenas isso?
Não teria ele arranjado melhor explicação (praticamente não dá nenhuma) para a nossa forma de ser, se, por exemplo se desse ao trabalho de analisar os Descobrimentos e o facto de ter sido Portugal uma potência europeia e mundial durante séculos?
Em suma: José Gil efectua uma análise ao não desenvolvimento democrático, social, mental e cultural do país e das fracas capacidades dos portugueses.
No entanto é uma análise vazia, sem conteúdo, pouco ou nada profunda, pessimista, onde ele se limita ao simples desfilar de defeitos sem nunca evidenciar as virtudes e onde jamais apresenta soluções ou alternativas. Caí assim ele próprio em contradição com as críticas que realiza, pois parece tomar a atitude de um iluminado, quando e depois de tudo exprimido, este livro é extremamente populista, acabando assim por ele próprio se ”inscrever” num grupo que poderemos denominar de ”Vencidos da Vida” (a frase não é minha), grupo esse que me recuso a pertencer.
Conceitos abstractos, não explicados e por vezes demasiados densos, acabam por dominar grande parte do livro, tornando-o de ora fácil, ora de difícil leitura, caindo também em blocos extremamente filósofos e de sentido dúbio.
A mim decepcionou-me porque estava à espera de uma análise mais cuidada de alguém tão respeitado e tido em todo o mundo, uma análise às razões históricas e sociais que levaram os portugueses a serem realmente um povo tão amorfo. no entanto recomendo, porque José Gil foca alguns dos nossos problemas e defeitos, o que para muitos pode ser um despertar proveitoso para esses mesmos problemas e defeitos, talvez uma tomada de consciência ou um inteirar dos reais problemas deste país.

Museu Britânico Ainda Vem Abaixo (O) - David Lodge

Definitivamente não vou “á bola” com David Lodge. Há tempos li a “Terapia”, livro mundialmente conhecido e reconhecido como sendo um livro hilariante e não sei que mais, mas o certo é que não dei mais de 3 estrelas e por algumas gargalhadas que me arrancou.
Neste "O Museu Britânico ainda vem abaixo”, enfim, tem menos qualidade do que “Terapia”.
A história é a seguinte:
Anos 60, um jovem casal, que segue direitinho os mandamentos do catolicismo, vive um dilema ou poderemos dizer um drama: Não consegue ter uma vida sexual feliz e agradável. E tudo porquê? Porque a igreja é contra o preservativo e outros métodos contraceptivos e, vai dai, o casal só tem relações em determinados dias e dependente da temperatura da mulher, pois há que ter a certeza que não está na fase da ovulação.
Para piorar o cenário, descobrem ou desconfiam que, depois de uma farra em casa de uns amigos e depois de chegar a casa, tiveram relações sexuais. No entanto não têm a certeza, logo e se tiveram, quer dizer que correm o perigo de ela estar novamente grávida. Resta acrescentar que já têm 3 filhos e uma hipotética gravidez iria alterar, e muito, a estabilidade familiar.
Ora bem, não pretendo escrever uma opinião longa porque simplesmente este livro não a merece, no entanto tentarei efectuar uma pequena análise ao livro.
Este livro é acima de tudo uma “boca” de Lodge às regras arcaicas do catolicismo.
Logo na introdução, o próprio Lodge vai uma breve descrição do que era a vida dos casais católicos nos anos 60, casais esses onde ele e a mulher se incluíam. Logo e embora ele desminta, parece-me que este livro é mais uma dissertação das suas angustias enquanto jovem cheio de força e pujança. A mim parece-me.
Depois e embora este seja o problema principal e aquele onde gira toda a história, ele vai descrevendo o seu dia, aliás, descreve o dia do personagem e aí, situações mais ridículas que hilariantes sucedem a um ritmo louco e, na minha óptica, algo forçado. De notar e isso foi algo que me agradou, que toda a acção se passa num só dia, um pouco ao estilo de “Ulisses” de Joyce, mas é só no estilo porque no jeito, não tem nada a ver.
E pronto, resumidamente é isso.
Eles com medo de uma gravidez indesejada, com uma vontade louca de ter sexo e não o poderem porque senão, gravidez certa. Ele no trabalho, no tal Museu Britânico, onde tem como trabalho ler livros… é verdade. E mais umas coisitas práqui, e umas coisitas práli.
Sinceramente não gostei. Na altura em que foi escrito deve ter sido mesmo um sucesso, mas nos tempos que correm, não só o estilo como os motivos, estão completamente ultrapassados, ou será que ainda algum casal, mesmo fanaticamente católico, não usa métodos contraceptivos?

Druidas - Morgan Llymellyn

Este romance narra a história de Ainvar, Supremo Druida de uma das muitas tribos gaulesas e Senhor dos Bosques. Ainvar, enquanto Supremo Druida, liga-se a Vercingetorix, rei de uma das tribos e senhor de uma força física e de um carácter notável, que o levará a reunir esforços no sentido de unir as desorganizadas tribos gaulesas para combaterem um novo e fulminante inimigo que, aos poucos, se ia instalando em toda a Gália, sem que os seus habitantes se dessem conta do grau de influência que esses estrangeiros iam introduzindo no seu modo de vida: os Romanos.
Assim e quanto a mim, o principal personagem, ou se quiserem, o principal tema, é a invasão de Roma e a derrocada da Gália que, habitada por inúmeras tribos incapazes de se unirem em prol de um objectivo comum, algumas delas inclusive preferiam aliar-se a Roma, acabam por se “deixar” invadir sem apelo nem agravo, dando a luta possivel.
Logo este livro descreve a Gália antes da invasão, a vida pacífica das suas tribos que praticavam uma religião pagã, religião que tinha como seus sacerdotes os druidas, homens que se organizavam por classes, todos eles em sintonia com a natureza, donos de conhecimentos profundo e secretos, assim como secretos eram os seus rituais.
Os druidas eram assim vistos como os sacerdotes das tribos, logo, eram dos homens mais importantes e temidos das tribos.
Lhywelyn tenta então explorar essa relação entre os druidas e a natureza, conseguindo misturar toda essa relação cheia de mitos com a forma desordenada como os gauleses viam e levavam a vida, sobretudo a forma desordenada como actuavam na guerra, ainda mais quando pela frente tinham o exercito romano, imaginem o contraste. Achei curioso toda esta simbiose, pois é um livro que tão depressa nos coloca no mundo da magia, como logo de seguida, nos faz entrar em momentos terríveis.
Lhywelyn vai assim narrando a forma descontraída como os gauleses viviam e interessante, a forma como os gauleses viram a chegada dos romanos.
Eu gostei do livro, mas houve alguns factos que não apreciei, sobretudo alguns contra-sensos, quer ao nível do enredo, quer ao nível Histórico.
O estilo e o ritmo narrativo também não é o mais agradável. Em muitas situações do livro nota-se alguma pressa da escritora em resolver certos assuntos, no entanto e noutros, a história arrasta-se. Enfim, não existe uma grande coerência narrativa ao longo do livro.
Outro facto negativo que também vai de encontro ao já afirmado, prende-se com a pouca empatia com os personagens. A ligação é muito precária, nunca me senti especialmente ligado a nenhum deles porque a própria autora não tem essa capacidade de nos fazer vibrar e/ou sofrer com ou por eles.
Curioso também o pouco cuidado com as tradições celtas. Existem factos que o narrador afirma não serem costumes para, páginas depois, já descrever situações que põem tudo o que anteriormente afirmou em causa. Será que a escritora não reparou nisso quando reviu o livro?
Enfim, um livro que tenta e em parte até consegue, descrever a invasão romana e os costumes e tradições das tribos da Gália. No entanto a narração não está bem conseguida, raramente consegue agarrar o leitor.
Um romance que se lê bem, é agradável, mas enquanto romance histórico, é algo fraco.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Viver para Contá-la - Gabriel Garcia Marquez

Gabriel Garcia Marquez é para mim um escritor esquisito, não só ao nível da composição dos seus textos, como sobretudo devido à estranheza das suas histórias.
Prémio Nobel em 1982, Garcia Marquez assentou toda a sua carreira, enquanto escritor, num género que podemos classificar, ou pelo menos eu classifico-o, do realismo-fantástico, género esse povoado de fantasmas, demónios e situações surrealistas que vão sendo misturadas com o mundo real, dando então origem a um universo onírico, algo confuso, que deve ser lido, pensado e analisado com muito cuidado.
Pessoalmente não sou apreciador desse estilo, nem do simples e puro género do fantástico. Amante do Histórico e do realismo puro (Eça de Queirós, Maugham, Dostoiévski, Tolstoi, Vítor Hugo, Zola, Dickens, Jorge Amado e tantos outros), gosto essencialmente de ler sobre temas sociais e humanos e, após a leitura ou durante a mesma, efectuar vastas análises ao que leio e enquadrar aquela realidade na nossa actual sociedade.
No entanto e em relação a Marquez, algo me incomoda. Incomoda-me não entender a sua escrita e incomoda-me haver toda uma legião de fãs em todo o mundo que fazem dele o escritor mais consagrado do nosso tempo, sem que eu entenda esse sucesso. E vai daí, há algum tempo propus-me a entender a sua obra e o contexto da suas histórias.
Lendo por duas (2) vezes “Cem anos de solidão”, lendo também “Relato de um náufrago” e tentando ler o “Outono do Patriarca”, em todas estas situações fiquei sempre desiludido e como uma clara sensação de tempo perdido.
Até que, numa ida à biblioteca, me deparo com este “Viver para contá-la” livro que, alegadamente e segundo o que já havia lido, tratar-se-ia de uma autobiografia. Nada melhor então para ficar a conhecer em definitivo a s suas raízes, filosofias, paixões, gostos e inspirações que lhe moldaram o carácter e directamente o seu estilo de escrita.
”Viver para contá-la” trata-se então de uma autobiografia de Marquez que, sem preconceitos e tabús, narra de uma forma quente, apaixonada e ao mesmo tempo crua, toda a sua vida.
Antes de aprofundar a análise ao livro, há que referir que este trata-se do primeiro volume da sua biografia.
O livro inicia-se já enquanto Marquez estudante de direito em Barranquilla, recebendo a visita da mãe que lhe solicita que a acompanhe no sentido de venderem a casa dos avós em Aracataca, local onde ele nasceu e onde foi criado. É esse encontro o mote para este livro fabuloso, pois não se trata de umas simples memórias de Garcia Marquez.
Desde logo e com as descrições de Aracataca, ficamos com a ideia de onde Marquez foi beber a inspiração para criar “Cem anos de Solidão” e mais fascinados ficamos quando nos apercebemos que a história do livro é, simplesmente, a História da sua própria família. E continua.
Marquez vai desfilando as suas memórias. Memórias povoadas de histórias fantásticas mas reais, o surrealismo é algo que está entranhado nos povos caribenhos e da América do Sul, continente onde há muito circulam histórias e mistérios fantásticos. Quem nunca ouviu falar de Tiahuanaco, Cuzco, Nazca, Macchu Picchu, a perdida cidade do ouro dos Incas, os fantasmas da Jamaica, a misteriosa Ilha da Páscoa e tantos mais?
Pois bem, Marquez dá-nos o retracto daquele povo supersticioso, mas muito apaixonado e respeitoso da sua História e dos seu passado. Um mundo onde e segundo Marquez, “o estranho é não acontecer nada de estranho”
E vai por aí fora.
A sua infância e o modo como era visto e tido pelas pessoas que o rodeavam. As histórias que ia ouvindo pela bocas dos mais velhos, as suas observações e considerações pelo meio que o rodeava. O seu extemporâneo amor à leitura que o leva a ler, muito novo, obras como “As mil e uma noites”, a “Odisseia” de Homero, ”Orlando Furioso”, ”D. Quixote” e o ”Conde de Monte Cristo”, obras que lhe abriram as portas desses vasto e fascinante mundo da literatura e que o acompanharam desde sempre.
Mas Marquez vais mais longe.
Para além de narrar o passado dos seus pais e avós, ele situa, a nível geopolítico e social, a Colômbia no mundo, sobretudo ao nível das turbulências que desde sempre abalaram aquele país do Caribe. Amigo pessoal de figuras públicas, sobretudo figuras colombianas, destacando-se contudo a enorme amizade com Fidel Castro. Mas é curioso as personagens estranhas que marcam a sua vida e que lhe inspiraram a construção de personagens para os seus romances. Desde o coronel que fazia peixinhos de ouro numa velha oficina depois de uma vida de combatente (lembram-se do coronel Aureliano Buendía em “Cem anos de solidão”? Pois foi baseado no próprio avô de Marquez que fazia peixinhos de ouro depois de uma vida de combatente), até à sua tia que comia terra, passando pela tia que um dia lhes surgiu em casa e disse “venho me despedir, pois vou morrer!”, e à sua própria mãe, que com o seu forte carácter, o inspirou a criar a matriarca Úrsula, talvez a figura mais forte de “Cem anos de solidão”.
Em todas estas 579 páginas, Marquez narra tudo isso e muito mais. O seu percurso enquanto ser humano, o seu percurso estudantil e profissional. As obras e escritores que o inspiraram, a forma como estudou a aprendeu a técnica do romance, os mestres que lhe deram força para continuar quando as decepções o invadiam, os seus primeiros contos, enfim, todo um percurso rico em pormenores que finda em 1957 (fim deste volume).
Fico imensamente curioso em relação ao segundo volume, pois será nesse que Marquez narrará como construiu os seus romances, as suas estadias em Paris e no México (local onde escreveu “Cem anos de solidão”, a atribuição do Prémio Nobel e as suas amizades com escritores consagrados, entre os quais o “nosso” José Saramago.
Neste primeiro volume fica assim claro que as obras de Marquez espelham uma realidade que efectivamente é a do seu povo, uma realidade fantástica e sensual, inserida numa cultura secular com tantas tradições.
Quanto a mim, fiquei maravilhado com este livro e com o génio deste homem que, com os seus textos, procurou sempre honrar e homenagear um país e um povo que é o seu.
Talvez este livro tenha sido o mote para mais um fã de Marquez, ainda mais porque achei curioso algumas manias que ele tem que eu também tenho (por exemplo ele adora cheirar os livros novos e eu também). De certeza que vou ler mais uns romances dele, pelo menos agora que entendo o porquê desse estranho universo, Marquez tem agora outra lógica e outro sabor.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Amor em Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez

Florentino Ariza apaixona-se pela jovem Fermina Daza de uma forma tão intensa e pura que, segundo ele, é mesmo amor o que sente. Começa então a escrever-lhe bilhetes, utilizando a velha tia de Fermina como intermediária do jovem casal.
Declaram então um amor eterno, no entanto o pai de Fermina não vê com bons olhos esse relacionamento, pois Florentino não tem estatuto social e ele pretende que a jovem se case com alguém de “boas famílias” e não com um pé rapado sem futuro.
Fermina é então obrigada a partir com o pai numa longa viagem, no entanto, em vez de o amor desaparecer, apenas se torna mais intenso e, num belo dia após o regresso de Fermina, sem ela própria saber porquê, Fermina sente que esse amor desapareceu, assim, simplesmente desapareceu.
No entanto Florentino não se rende...
Das várias opiniões que li sobre esta obra, em todas ela se referia que esta história é uma bela história de amor.
Em parte concordo, pois realmente é uma bela e terna história de amor, porém, penso que é uma forma muito simplista de classificar e resumir esta obra.
Gabriel Garcia Marquez é indubitavelmente um dos grandes escritores de sempre. Ao contrário do que dizia José Luis Borges ”Marquez não trouxe nada de novo à literatura”, tenho a certeza que efectivamente Marquez trouxe muito de novo à literatura.
Marquez inventa, ou se quisermos, é um dos percursores e o seu mais fiel escritor do género “realismo fantástico”, género esse que não é o meu estilo mas que e depois de ter lido o “Viver para contá-la”, aprendi a respeitar e a apreciar.
Depois Garcia Marquez tem a excepcional capacidade de misturar as realidades com sonhos, crenças e rituais, tornando assim os seus romances em histórias onde a realidade e a ficção se misturam de uma forma onde nós não sabemos onde começa uma e acaba a outra, tal o universo cheio de fábulas, mitos e magia, completamente um universo onírico.
Pura e simplesmente o que Marquez faz é o de dar ao leitor um mundo, um universo que numa primeira análise é em tudo semelhante ao nosso para, e aos poucos, ir inserindo histórias fantásticas, mitos e fábulas do folclore colombiano, histórias estranhas da sua própria família, dos seus amigos e metáforas, principalmente metáforas políticas.
Dizia Garcia Marquez em “Viver para contá-la” :”estranho era não acontecer nada de estranho no local da minha infância”, por isso e de acordo com a própria vivência do escritor, imaginem o que salta para os seus romances.
Em “Amor em tempos de cólera”, Marquez não foge ao universo acima descrito.
A história tem um espaço temporal de cerca de 60 anos. Inicia-se algumas décadas antes do fim do séc. XIX e finda nas primeiras décadas do séc. XX.
Aqui Marquez não aborda questões políticas. Em toda a obra é apenas referido, e muito superficialmente, as guerras que devastaram a região das Caraíbas no período descrito.
Descreve também um surto de cólera que efectivamente existiu, mas ele usa esse surto para jogar com as personagens, criando cenários fantásticos numa grande metáfora sobre a vida humana.
Neste romance ele personifica a paixão, o amor humano em toda a sua pureza. Mas não só. N
este romance Marquez efectua uma homenagem à mulher, ser que guarda em si a eternidade da vida e a alegria, paz e harmonia do homem. Fermina Daza representa esse ideal. Uma mulher que é amada toda a vida, que é vista e tida como uma Deusa, como uma esplendorosa luz que ilumina a alma de Florentino, que lhe dá alento.
Florentino nunca deixa de amar aquela mulher. Um amor que extravasa o físico, a matéria.
No decurso da sua vida, Florentino entrega-se a várias mulheres (até o episódio da forma como Florentino perde a virgindade, e acreditem que no caso perde mesmo, é extremamente simbólico), relações sem futuro porque o seu coração estava entregue, aprisionado. As suas entregas são uma forma de prostituição, pois e consoante ele defendia: ”Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, e por todas com a mesma dor, sem atraiçoar nenhuma”.
A estrutura do romance não segue uma cronologia linear.
Marquez joga com as memórias dos personagens. Flash-back’s constantes compõem a obra, sempre num ritmo pausado, calmo, como deve ser vivido o amor. Um romance cheio de imagens mentais.
Gostei muito do romance fundamentalmente por causa da escrita de Marquez. Ele encanta. A forma como escreve é musical, poética e inimitável. Dá realmente um enorme prazer ler este livro, pois as palavras fluem compondo um texto narrativo a roçar o poético.
A simbologia que emprega é muito forte, agarrando-nos e dando-nos quase a possibilidade de vivermos aquelas vidas, pois ficamos com a sensação que todo aquele amor, é, ao fim e ao cabo, um pouco da nossa pretensão, do nosso próprio ideal romântico.
Um livro vivo e que nos faz viver um amor eterno.