sexta-feira, 25 de abril de 2008

Voz da Terra (A) - Miguel Real


Que grande, grande, grande livro.

Excelente, soberbo, espantoso!

”A Voz a Terra” do prof. Miguel Real (pseudónimo do professor e escritor Luís Martins), é um dos melhores livros que li até à data e, considero, um dos livros mais importantes da literatura portuguesa.

Assente em estudos profundos, o prof. Miguel Real oferece-nos uma obra importantíssima que nos ajuda a compreender, não só a actual mentalidade portuguesa, como também compreender todo um período que marcou a História da Europa, sobretudo uma época onde sucessivos acontecimentos serviram de fronteira entre mentalidades.

Júlio Telles Fernandes, português emigrado no Brasil, regressa a Lisboa tendo em mente duas missões: entregar à judia Violante Dias, prima da sua falecida mulher, um anel que vem passando de geração em geração e, segundo, interceder junto do ministro Sebastião José de Carvalho e Mello (Marquês de Pombal) pela independência de Pernambuco.

O livro começa assim com a entrada do navio na barra de Lisboa e, logo ali, surge-nos um fresco da velha Lisboa oitocentista, no entanto uma visão de alguém que há muito está longe e que vê a cidade de uma forma suja, estrangulada sobre si mesma.

Recebido como um herói, sobretudo porque é tido como um homem rico, sendo viúvo, logo um bom partido, Júlio Telles Fernandes irá iniciar um périplo por toda a cidade de Lisboa, inundando-nos de pormenores e curiosidades deliciosas, descrevendo lugares, modos de vida e mentalidades. Tudo isso nos é narrado até ao surgimento inesperado da Voz da Terra, o terramoto de 02 de Novembro de 1755.

E é precisamente o terramoto o centro da narrativa, o acontecimento para o qual convergem o antes e após, ou seja, o terramoto marca de uma forma inegável a transição de mentalidades, uma oportunidade do governo português para lançar o país rumo ao progresso, ao futuro.

Isso é claro, pois é explorado o antes do terramoto. Um país amorfo, rude, fanático, onde existia mais de 200.000 monges, freiras e padres. Mais de um terço de Portugal pertencia-lhes. 500 conventos, igrejas, capelas, ermidas, mosteiros, nem um vintém de impostos pago para o bem comum, era só receber, sacar subsídios, doações e privilégios. A burguesia e o clero ocupavam os lugares chave no governo e demais instituições e era este o Portugal que existia antes do terramoto e foi este Portugal que desaba com a cidade de Lisboa em 1755, acontecimento que, diga-se, está descrito de uma forma magistral.

Ou seja, se quisermos, e eu fui por aí, o terramoto foi bem real mas é também uma gigantesca metáfora da mudança.

É descrito também a condenação e martírio dos Távoras, duque de Aveiro e do Padre Malagrida. É arrepiante a descrição das torturas e execuções, no entanto é notório o propósito de tais execuções. Não foram meras perseguições. A brutalidade das execuções foram um aviso a quem ousasse criticar a nova política do estado português. Antes que o clero e a nobreza pensasse em qualquer tipo de rebeliões (algo normalíssimo na altura), o estado aproveita uma conspiração mal explicada e urdida para executar duas das famílias mais influentes e executa o padre Malagrida que possuía também um alto grau de influência.

O terramoto é assim o clique para uma mudança que já germinava na cabeça do Marquês do Pombal, sobretudo ao nível das mentalidades, marcando também o surgimento do ensino público, o fim da escolástica em favor da filosofia natural, o experimentalismo e o racionalismo, até pelo facto dos títulos serem agora atribuídos ao esforço e não pelo direito familiar, ou seja, a própria renovação da aristocracia.

Um livro impressionante que, recorde-se, venceu o Prémio Fernando Pessoa 2006.

Acreditem, um romance histórico de valor incalculável no panorama cultural português.

Uma nota também para as várias estampas e gravuras do séc. XVIII relacionadas com o terramoto e com vários episódios que permitiram a Miguel Real efectuar várias das suas descrições.

Por fim deixo esta citação de Júlio já perto do fim que, quanto a mim, marca o livro: ”... Lisboa é uma cidade sitiada, ontem uma febre do Império, da Fé, do Evangelho, hoje é a febre da Europa, do Progresso, do Comércio, da Indústria, tudo é esmagado cruelmente em nome da nova missão de Portugal, ser europeu, quanto Paris, como se o nosso modo de ser não fosse também europeu, e, irado, acrescentou, era preciso esmagar as oito canas dos membros do duque de Aveiro e do marquês de Távora pai?, era preciso martelar-lhes o ventre em vez da arcada do peito, para lhes prolongar a agonia?..., será que o Portugal que Sebastião José de Carvalho e Mello quer vingar é assim tão diferente do Portugal de d. João V), não será o mesmo, as atitudes extremadas, a mesma infinita capacidade de fanatização, o mesmo sentido missionário, antes do Império, hoje na Europa? ..., será que a adoração pelo comércio e pela indústria não vieram substituir a adoração pelas ordens religiosas, Jesuítas e Franciscanos

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Lixo - Irvine Welsh


Imaginem um tipo que é corrupto, violento, sádico, machista, racista, misantropo, alcoólico, consumidor de drogas, apreciador de fast-food (principalmente peixe frito e caril), consumidor dos serviços de prostitutas sem usar protecção, pulha com os amigos que, para além de os enganar, ainda tenta engatar as mulheres deles, adúltero e promíscuo (tudo o que vem à rede é peixe e não tem o mínimo respeito pelas mulheres, todas elas servem para as suas necessidades) e, finalmente, vive atormentado com a puta da lombriga que lhe lixa a porra da vida e que, imagine-se, até tem direito a pensar... a lombriga.

E se vos disser que este tipo, que de certo acharão como um ser repugnante, é um agente da autoridade de Edimburgo, graduado e que até goza do estatuto de excelente pessoa em toda a comunidade, inclusive até entre os colegas?

Lindo, não é?

Pois bem, "Lixo" é o livro mais hilariante que já li e, ao mesmo tempo, um dos livros mais repugnantes, sobretudo por causa de seu personagem principal: O sargento Detective Bruce Robertson.

Irvine Welsh nasceu em Edimburgo, Escócia, em 1961. Autor de pequenos textos que foram sendo declinados por algumas editoras, vê o seu nome catapultado para a fama quando em 1994 consegue publicar o seu primeiro livro: "Trainspotting" que, e como muitos conhecem, narrava as aventuras e principalmente as desventuras de um grupo de amigos que estavam enterrados na droga.

É este o livro que torna então conhecido Welsh, a crítica louvou-lhe a forma irónica e mordaz da sua escrita, sem medos ele denunciava o submundo de Edimburgo, submundo esse, aliás, tão semelhante a tantos outros.

O seu segundo livro, "Ectasy", escrito em 1995, é um conjunto de 3 contos que se vão interligar no fim, no entanto e neste caso, Welsh assume um estilo mais duro, mais sádico e mais radical. Os contos são extremamente violentos, nojentos mesmo, e a sensação que fica é que Welsh terá ficado deslumbrado com o enorme sucesso de "Trainspotting", correndo mesmo o risco de ficar conhecido apenas por esse livro.

Até que em 1998, Irvine Welsh dá a conhecer este "Lixo", livro que, segundo a minha opinião e já li todos os livros dele, é o melhor. A escrita é fluida, parece ser um daqueles livros que nascem num momento de verdadeira inspiração. A história é mordaz, irónica, sádica e constitui uma autêntica pedrada no sistema policial escocês, pois na pele de Bruce Robertson, Welsh caracteriza, não só a sua ideia do polícia escocês, como também de todo o sistema.

Ele então desenha-nos um polícia com todos aqueles defeitos que descrevi no início, um polícia que despreza tudo e todos, negligente com o serviço e até consigo próprio, um homem que não tem qualquer respeito por ninguém.

Bruce Robertson é esse homem. Importunado por uma grande e feliz lombriga, que até nos contempla com pensamentos profundos, Bruce está preocupado com uma promoção que, aparentemente, se destina a ele. No entanto há a hipótese de ser um outro colega, então, nada melhor que lançar maldosos boatos desse colega.

Entretanto, que chatice, sucede um assassinato de um negro, em condições extremamente violenta e sádica, que vai levar com que Bruce tenha, se calhar, de adiar as suas mini férias que já havia marcado para a época natalícia, umas férias de arromba em Amesterdão, cheias de álcool, drogas e sexo.

Que se lixe o gajo assassinado, e lá vai o nosso amigo Bruce, acompanhado de um amigalhaço tótó, para Amesterdão, para uma semana de completa depravação. Todo o livro é irónico e divertido, mas nessa semana, Bruce mostra o quanto asqueroso é pois tudo faz para lixar o amigo: desde roubar-lhe dinheiro e depois emprestar-lhe esse dinheiro; parte-lhe os óculos; faz telefonemas obscenos para a mulher deste; enfim, um animal.

E entretanto quando regressa, já saciado de drogas e semi saciado de sexo...

E não conto mais!

Este é o melhor livro de Welsh, aquele onde ele exprime todo o seu especial talento.

Digo especial porque consegue colocar num só personagem todas as más facetas que um ser humano pode ter, construindo contudo, uma forma de agir que desencadeia em nós toda uma simpatia pelo personagem. Para além disso, é exímio na forma mordaz e irónica como descreve as situações e como vai narrando a história, sempre na primeira pessoa. Sente-se que a história está totalmente controlada, é coerente, tem um princípio, meio e fim, que se encaixam na perfeição.

O personagem Bruce Robertson é repugnante, desafia a própria vida, é malicioso e inteligente, maníaco pelo sexo, drogas e rock-and-roll e, sobretudo, tem imensa piada. Um homem que espelha em si próprio todos os males das sociedades contemporâneas.

Aconselho todos os livros de Irvine Welsh, sobretudo este "lixo" e "Porno" que, muitos desconhecem, é a continuação, dez anos depois, de "Trainspotting".

Penso que este livro não deverá ser muito do agrado das senhoras, dada a forma como Bruce as trata e o modo como ele as vê, mas e apartando-se disso, penso que Welsh é um dos melhores escritores da actualidade.

Meus Problemas (Os) - Miguel Esteves Cardoso



Miguel Esteves Cardoso foi um jornalista que durante os anos 80 e início dos anos 90, teve uma voz activa na vida social portuguesa, quer enquanto simples cronista do “Expresso” e “Público”, quer mesmo, enquanto membro permanente na “Noite da Má Lingua”, onde ele e uns tantos batiam e evidenciam vários “podres” da nossa sociedade.

Dono de uma forma de se expressar extremamente mordaz mas bem objectiva, Esteves Cardoso era bastante corrosivo na forma como elaborava as suas análises, quer aquelas proferidas no programa de tv, quer as outras que foi escrevendo para os jornais.

E são precisamente algumas dessas crónicas, nomeadamente algumas publicadas no “Expresso” entre 1986 e 1987, numa coluna chamada “Os meus problemas”, que compõe este livro que tem tanto de brilhante como de hilariante.

Assim, este livro é simplesmente um conjunto de crónicas onde Esteves Cardoso opina sobre a forma de estar, ver e agir do povo português, evidenciando as suas mais carismáticas manias e fobias, sempre num tom irónico e mordaz.

Começando por “Cartas portuguesas”, as “classes automóveis”, “libertação dos maridos”, “a fogueira do ciúme”, “adeus, ó tchau, vai-te embora”, enfim, acreditem é dos livros mais hilariantes que já li e ao mesmo tempo, um livro que toca em vários defeitos do povo português. Pese embora as distâncias, um género de Woody Allen.

E é curioso constatar que não é necessário escrever-se livros sérios, estudos filosóficos do “ser português”, pois qualquer um em a capacidade de análise e de formar opinião, no entanto, Miguel Esteves Cardoso demonstra uma capacidade de análise que vai além dessa simplicidade, ele, para além de evidenciar alguns dos “nossos” defeitos, demonstra o quão ridículo e caricata são muitas das situações que se sucedem dia após dia e, mais importante, a gravidade e importância que se dão a essas situações.

Não sei se me fiz entender…

Demonstrando que não é necessário ser um génio despótico para se imitir qualquer tipo de análises, Esteves Cardoso lega-nos um conjunto de crónicas extremamente bem elaboradas e com alvos bem definidos.

Grandes gargalhadas que se soltam daquelas páginas.

domingo, 13 de abril de 2008

Pêndulo de Foucault (O) - Umberto Eco



Há livros que a gente lê e logo os arrumamos na prateleira para só voltar a pegar neles apenas para lhes limpar o pó. Outros há que os recomendamos e mostramo-los a toda a gente que lá vai a casa, dizendo: "grande livro, aconselho". Outros há ainda que depois de lidos, são feitos vários projectos de releitura e são constantemente afagados, folheados, sempre recordados como um amigo muito especial. Finalmente existem aqueles que nem sabemos que rótulo lhes dar nem como classificá-los.

Este "Pêndulo de Foucault" é um desses livros que nem sei o que dizer.

Para quem conhece ou já leu algum livro de Umberto Eco, decerto saberá que ler o que ele escreve, torna-se, grosso modo, um exercício difícil. Para além de ter o costume de colocar inúmeras citações em latim e outros idiomas, geralmente consegue criar todo um cenário onde o leitor tem que possuir alguns conhecimentos, alguma cultura, para além de alguma paciência.

Extremamente eruditos, o que por si só já tornam os livros algo complicados de acompanhar, Eco gosta também de brincar com as situações que vai criando e sobretudo expor opiniões e conceitos cientifico e filosóficos, sem falar também na forma exaustiva como descreve algumas situações que, várias vezes, não levam a lado nenhum. Ou seja, tal como dizia uma amiga, é por vezes um chato.

Neste "Pêndulo de Foucault" ele não foge a isso, bem pelo contrário.

Três homens, que não são propriamente amigos, acabam por se unir a uma pequena e estranha editora no sentido de escreverem um livro místico com a intenção de o tornarem um best-seller.

Devido a um igualmente estranho acontecimento, esses três homens começam a colectar dados e factos sobre várias sociedades secretas, sobretudo sobre as suas Histórias, os Homens que estiveram por detrás delas, seus rituais, etc. Assim, acabam por descobrir vários elementos comuns, que os levam a considerar a hipótese da existência de um "Plano" secreto cuja mensagem teria sido criada pelos Templários antes da sua oficial extinção, mas que ainda poderia ser posto em prática nos dias de hoje por eventuais sociedades secretas que se consideravam procedentes dos Templários.

A partir daí há todo um desenrolar de acontecimentos que vão tomando um rumo cada vez mais sério e perigoso, até ao ponto desses três homens sentirem as suas vidas em perigo por alguém que julga ser capaz de avançar com esse "Plano".

Numa prosa altamente erudita, é claríssima a intenção de Eco em parodiar com as teses de conspirações atribuídas a essas sociedade secretas, sobretudo no que diz respeito à numerologia - e nisso existem partes deliciosas -, rituais e outras tradições ocultas.

O nome "Pêndulo de Foucault" é apenas uma metáfora utilizada por Eco no sentido de contrapor a experiência de Michel Foucault a esse hipotético Plano dos Templários. Ou seja, ambos oscilam de uma forma regular ao longo da eternidade, esquerdo - direito, verdade - mentira. Depende sempre do julgamento e das crenças de cada um.

É um livro cheio de curiosidades Históricas, científicas e ocultistas, onde Umberto Eco efectua realmente um bom trabalho de escrita, mas que acaba por sair algo extremamente pesado para um leitor comum, até porque é um livro em constante luta com o leitor, não apenas na sua extensa erudição, como também pondo-nos à prova crenças e teorias.

Não desgostei, mas também não gostei.

Até porque várias vezes tive que voltar atrás para reler certos parágrafos, e simplesmente porque chegou a ser entendiante a narração da história e no final, depois de me aperceber do significado de tudo aquilo, acabei por concluir que foi pouco o prazer que o livro me deu.

Já tenho lido que este é um livro similar ao "Código Da Vinci". Não se iludam, está muito longe de ser um livro do mesmo género, pois abordar os Templários e outras sociedades, não os assemelha. Este livro é muito denso e cansativo, possui uma linha e um objectivo completamente diferente, assim como a própria escrita e coerência entre os escritores são diferentes, mas e neste casos Umberto Eco ganha por k.o. ao nível da informação prestada, pese embora perca ao nível do entretenimento.

sábado, 12 de abril de 2008

Contos - Hans Christian Andersen



Hans Christian Andersen nasceu em Copenhague, Dinamarca, no dia 4 de Agosto de 1805. filho de um sapateiro e de uma lavadeira, Hans teve uma infância muito dura, tendo passado inclusivamente fome, no entanto e em sua casa, o amor nunca faltou.

Desde muito cedo sentiu que o seu destino estava ligado às artes, pois a sua paixão pela música e pela dança levaram-no a pensar que o seu futuro estaria numa dessas duas actividades, mas foram precisamente as dificuldades sentidas na infância, combinada com a humilde profissões dos pais, que lhe moldam o carácter e o levam ao mundo da literatura, poesia e teatro.

Christian Andersen era humilde, honesto e de índole boa, dotado de uma enorme capacidade de observação, apaixonou-se pelos contos tradicionais dinamarqueses, sendo daí que lhe veio a inspiração para criar os seus contos, contos esses que desde essa altura, alimentaram os sonhos de adultos e crianças por todo o mundo.

São muitos os registos que chegaram aos nossos dias sobre a vida deste poeta, principalmente devido ao facto de ele ter sido reconhecido e acarinhado ainda em vida, sendo mesmo visto como um herói nacional.

Sabe-se, por exemplo, que o seu aniversário era festejado em toda a Dinamarca e que até o rei se deslocava a casa de Andersen para o cumprimentar pessoalmente.

Não quero aqui entrar em considerações sobre a vida deste ilustre escritor, simplesmente porque existe muitos textos detalhados sobre a sua vida, uma vida rica que se estendeu por vários países (entre os quais Portugal), para quem esteja interessado, sugiro uma visita a este site: http://purl.pt/768/1/, site que faz uma justa homenagem a Hans Christian Andersen.

Esta obra, ”Contos”, traz a grande maioria dos seus contos. Uns conhecidos e levados à cena de várias formas, outros desconhecidos, mas que nada ficam a dever aos outros.

Quero contudo deixar uma ressalva que raramente vejo comentada.

Hans Christian Andersen escreveu estes contos, mas raramente os fez a pensar nas crianças, aliás, ele quando os escreveu tinha como certo que eles se destinavam mais para as crianças, no entanto, ele achava que as crianças tinham que saber que o mundo não era “cor-de-rosa” e a linguagem utilizada e sobretudo a forma do conto, era nua a crua. Os contos de Andersen são essencialmente morais, todos eles têm uma mensagem subjacente e raros são aqueles que acabam bem, inclusivamente a maior parte deles tem um fim violento.

A edição que possuo é a do “Público”, lançada no ano da comemoração dos 200 anos do nascimento do escritor por ocasião do Natal, edição essa que contém os contos na sua forma original e, para medirem o grau dos contos, apenas dois ou três desses contos posso contá-los à minha filha sem estar a medir as palavras.

Pois bem, quem não conhece curiosidades como o ”O Patinho Feio”, “A Princesa e a Ervilha”, “A sereiazinha”, “A vestimenta do Imperador”, “A polegarzinha”, “A rapariguinha dos fósforos”, “O soldadinho de chumbo”. Ao que junto contos fantásticos como ”A gota de água”, “O Elfo da rosa”, “É absolutamente certo” (este conto é fantástico e o preferido da minha filha), ”Os sapatos vermelhos”, entre outros. Contos simples, entre os fantástico e o realista, escrito em tom poético e sempre tendo como motivo principal a pobreza, a humildade, e os necessitados. E é aqui que os seus contos ganham estatura, pois eles levam os pobres a sonhar e a acreditar que não são menos que ninguém, que a humanidade é igual em qualquer extracto social, e que, se calhar, os pobres e os humildes têm mais do que os ricos: Amor, esperança e compaixão.

Pessoalmente gosto muitos dos contos deste fabuloso poeta, que chegou a passar algum tempo em Portugal, nomeadamente em Sintra, numa pequena casa onde actualmente se encontra uma placa a celebrar o facto. Andersen gostava tanto do nosso país e de Sintra que chegou a escrever um livro com o título: “Viagem a Portugal”.

A escrita é simples e fluída. Os contos são todos muito curtos e é fácil descortinar qual a moralidade do conto.

Aconselho os contos deste grande poeta, sobretudo pela forma como nos faz sonhar e nos liga a outros mundos absolutamente mágicos.

domingo, 6 de abril de 2008

Meridiano de Sangue - Cormac McCarthy

“Meridiano de Sangue” baseia-se em factos verídicos ocorridos em meados do séc. XIX na fronteira entre os Estados Unidos da América e o México.

Embora o livro possua várias personagens que interagem entre si, o personagem principal ou pelo menos aquele que serve como condutor da história, é um rapaz que, desiludido com a vida que leva, foge de casa em busca de aventuras.

Numa América violentíssima, acaba por se juntar a um grupo de foras da lei que deixam um rasto de sangue por onde passam.

Neste grupo há um rol de personagens fascinantes, que quanto a mim são uma das mais valias da obra, encabeçados pelo juiz Holden. Um homem monstruoso, assassino implacável, um ser que parece ser a reencarnação do próprio Satanás, sobretudo porque não mostra qualquer tipo de remorsos e tem uma cultura muito acima da média, parecendo dominar qualquer área que se aborde.

Quanto a mim é esta a principal personagem da obra, até porque é nele que Cormac assenta toda a crueldade e violência da época, desmistificando, de facto, o mito da vitimização dos aborígenes.

Neste livro os índios atacam de uma forma impiedosa e implacável pessoas inocentes, não deixando nada vivo à sua passagem.

Do lado oposto os brancos respondem “dente por dente” às atrocidades cometendo semelhantes atrocidades.

É um livro um pouco difícil de ler, não só devido ao horror de muitas descrições como também ao próprio estilo de Cormac. Porém, conforme também é sua imagem de marca, Cormac tem a capacidade de transmitir sensações, parecendo por vezes que a acção se desenrola à frente dos nossos olhos, algo como um filme, só que com cheiros e sabores.

Um romance com uma força brutal que nos atinge de forma violenta através das percepções sentida página a página.

domingo, 30 de março de 2008

Terra Bendita - Pearl S. Buck

”Terra Bendita” é o primeiro livro que leio de Pearl S. Buck, Prémio Nobel da Literatura em 1938.
É também o primeiro volume de uma trilogia que a autora consagra à China, sua segunda pátria, pois com apenas quatro meses foi viver para aquele país.
Americana de nascimento, Buck tinha a alma daquele país milenar, conhecendo os hábitos e a cultura chinesa do princípio do séc. XX, cultura essa assente em tradições fortíssimas onde a mulher tinha, e penso que continua a ter, um papel secundário e totalmente subjugado ao homem.
Assim e nesta trilogia, Buck escreve uma história simples sobre a vivência de uma família tradicional numa qualquer aldeia tradicional, no entanto não se trata de uma simples descrição que podíamos ler e deitar fora, de forma alguma, essa descrição narra o modo de vida de um país culturalmente fechado, sobretudo quando a Revolução chinesa de 1949 ainda não passava de uma utopia.
Wang Lung é um agricultor que se dirige à casa senhorial da aldeia a fim de ir buscar uma mulher daquela casa para a tomar como esposa.
Como era hábito na época onde a história tem lugar, fim da década de 20, início da de 30 do séc. XX, essas grandes casas, propriedades dos senhores ricos que tinham uma série de escravas que serviam para servir, literalmente, o senhor e a sua família, até a nível sexual.
Desde logo é nítido o papel secundário e escravizante da mulher. Ela é vista como escrava, simplesmente.
E lá vai Wang Lung até essa casa onde a sua futura mulher o espera. Ele nunca a viu, nem lhe interessa. O que lhe interessa é que ela saiba cozinhar, tratar da casa e que seja boa parideira.
No entanto e quando conhece essa mulher, O-Lan, fica algo decepcionado com a sua figura algo grotesca, ou sejam ela tem a aparência das mulheres mongóis, e ele, enquanto chinês do Sul, acha-a feia, sobretudo porque não possue os pés pequeninos, conforme uma boa mulher chinesa deve ter.
Mas nem tudo é mau, por outro lado, ele depressa se apercebe que a fealdade de O-Lan teve o mérito de a ter poupado aos avanços dos homens daquela casa, logo, O-Lan é virgem, um luxo para um agricultor pobretana como é Wang Lung.
Leva-a para casa e começa aí uma vida de intenso trabalho no campo, sempre e de uma forma que até surpreende Wang, com a ajuda de O-Lan que, sempre atenta aos seus afazeres domésticos, ainda saí para o campo. Assim, e mesmo sofrendo alguns revés, Wang Lung acaba por enriquecer.
No entanto a riqueza sobe-lhe à cabeça, iniciando então uma vida de esbanjamento, sempre sob o olhar acusador de O-Lan, que nada podia fazer.
Na minha opinião, o centro da história é precisamente o modo de vida tradicional da China rural, da China profunda. Os personagens que Buck cria são apenas o meio.
Mesmo o facto de Wang se transformar num homem rico, que vê o dinheiro como algo que lhe dá posição na aldeia e acesso a lugares proibidos aos pobres, faz com que fiquemos com a percepção que a posição hierárquica foi, e ainda o é, algo de prioritário na China.
Obviamente que podemos dizer que esta história se adaptaria a qualquer nação, principalmente na altura da acção. Em parte concordo, principalmente ao nível do papel da mulher, no entanto há características próprias daquela zona do globo, sobretudo como a mulher era encarada, comprada como se fosse um mero produto, o facto de existir o hábito enraizado de fumar ópio, as casas de chá, as cheias e a própria agricultura tão baseada no arroz, passando também por uma cultura patriarca, onde os idosos eram sagrados.
Todas essas características estão fortemente descritas e é a partir delas que a história circula.
”Terra Bendita” é um livro muito bom e que se lê sem grandes dificuldades.
Porém a mim soube-me a pouco.
O cenário é-nos apresentado e a história arranca, no entanto e embora Buck desenvolva muito bem o trama, o mesmo torna-se algo monótono, pois as cenas repetem-se um pouco. A fixação de Wang pela terra repete-se praticamente página a página. As considerações sobre as mulheres são sempre semelhantes e até a vida descrita leva o livro num rumo modorrento.
Não é nada que incomode ou que tire brilhantismo à obra, mas é um livro triste, escuro, algo aborrecido, mas e atenção, um livro que nos dá a conhecer essa cultura fechada, um relato exemplar da China rural.

terça-feira, 25 de março de 2008

Amante de Lady Chatterley (O) - D. H. Lawrence

Quero desde já adiantar que esta opinião irá abordar esta obra numa vertente que visa essencialmente a análise entre a obra, a época em que foi escrita e, sobretudo, as reais intenções do autor. Logo, uma opinião nua e crua, a mesma forma que Lawrence utilizou para descrever as relações sexuais entre Connie Chatterley e Oliver Mellors.

David Herbet Lawrence, nasceu em Eastwood, Inglaterra, no ano de 1885.

Sabe-se que o seu amor pelo erotismo se revelou bem cedo, vindo então a escrever pequenos textos onde o amor e o sexo eram descritos como uma força da natureza, uma expressão natural do sentimento humano. Para Lawrence, as mulheres eram a força motriz da natureza, as mães e esposas de todos os homens e os seres que carregavam no ventre o vaso da semente masculina. A sua importância para os homens vai para além do que a sociedade de Lawrence defendia, ele achava que a existência da mulher era decisiva para a sobrevivência dos homens, eram o bálsamo que alimentavam a existência dos homens. Em suma, Lawrence amava as mulheres.

Mas toda esta obsessão que, a julgar pela sua vida, deverá ter tido início pela profunda adoração que Lawrence sentia pela mãe, iria finalmente explodir em 1914, curiosamente um ano depois da morte de sua mãe, quando, e depois de romper com a sua noiva, foge para a Prússia com uma mulher casada e mãe de 3 crianças. Frieda era um mulherão, de seios fartos que levou Lawrence a afirmar: "Os seus seios são o meu lar".

É a partir desse relacionamento, que posteriormente vem a dar em casamento, que ele começa a desenvolver para romances algumas das suas ideias. Encontra assim um porto de abrigo onde, e segundo as suas próprias palavras, conhece os verdadeiros prazeres sexuais com a mulher, não olhando a falsos pudores nem vergonhas, entregando-se totalmente ao prazer.

Em 1915 é publicado o seu primeiro romance e que vem a ser classificado de obsceno e imundo: O Arco-Irís. É apreendido por ordem do tribunal, havendo mesmo um pedido de desculpas por parte do editor. Lawrence jamais irá esquecer este acontecimento.

Lawrence julgava o sexo como uma manifestação física natural e normal. Ao pensar dessa forma, ele começou a criar uma série de anticorpos na sociedade inglesa, tão agarrada a valores vitorianos e que via o sexo como algo puramente animal, só sendo digno para o efeito de reprodução.

Lawrence declara então uma espécie de guerra a essa sociedade. Nunca fazendo claramente essa declaração, a intenção do autor não será o de chocar o público, mas sim mostrar o génese da sociedade humana, fazer ver que a excitação sexual é algo de normal, que é necessário "matar" a vergonha que aprisionam as pessoas e a sua mente.

Em 1926, e já a viver na Toscana com a sua musa inspiradora, Lawrence escreve aquele que é, ainda hoje, considerado a sua obra máxima e, saliento, considerada como um dos melhores cem livros do séc. XX: "O Amante de Lady Chatterlley".

Esta é a história de Constance Reid (Connie), uma jovem e atraente mulher, que casa com um rico e oficial inglês, Clifford Chatterlley. Após a lua de mel, ele é enviado de volta para as trincheiras da Primeira Grande Guerra, onde, pouco depois, sofre um grave ferimento que o deixa paralisado da cintura para baixo.

De volta a Inglaterra, o jovem casal vai viver para a mansão de Clifford, começando então uma existência fútil, triste e vazia. Eram ambos jovens, no entanto Clifford estava morto da cintura para baixo, enquanto Connie sentia-se arder por dentro, o desejo subia-lhe pelo corpo em vagas sucessivas e via na sua vida futura algo sem nada.

É então que Lawrence faz o primeiro arremesso.

Vendo a situação da sua esposa, Clifford dá-lhe autorização para que ela arranje um amante e, inclusive, tenha um filho deste, desde que ninguém saiba, que o amante seja alguém de boa posição e que a criança seja considerada dele.

Ao princípio periclitante, ela acaba então por se envolver, não com um homem de boa posição, mas com o caseiro da propriedade, Oliver Mellors, um homem feio e rude, mas que incorpora toda o vigor masculino, vigor esse que encanta e enche de prazer Lady Chatterlley.

A partir daí... meus amigos, Lawrence oferece-nos descrições verdadeiramente excitantes dos encontros sexuais entre Connie e Oliver. Uma verdadeira loucura erótica onde as palavras são colocadas de uma forma nua e crua, mas e ao mesmo tempo, de uma forma terna, acabando em climaxes esplendorosamente apoteóticos.

Obviamente que o romance não se resume apenas a esses encontros sexuais. A história continua e sempre com Lawrence a atirar pedras aos conceitos britânicos e cristãos, pois recordo-me que chega mesmo a colocar em causa a existência de Deus.

Neste romance, e por muito que se façam análises sobre outras intenções do autor, nomeadamente intenções de ferir ou de chocar a sociedade, o que é verdade e isso é claro, penso, contudo, que a grande força e beleza deste romance está essencialmente assente em três factores:

- Na forma como Lawrence constrói o romance. O desencadear das situações faz com que tudo o que acontece seja coerente e, isso é importante, com que nós próprios julguemos os personagens, acabando por nos inquirimos: não fazíamos nós o mesmo, dadas as situações?

- Na forma como Lawrence glorifica a virtude do sexo e os movimentos dos corpos, as descrições dele são divinais.

E algo que detectei pelas descrições, mediante o que sei do autor:

- Este é um romance que homenageia a sua mulher: Frieda. Até digo mais, tenho poucas dúvidas que parte das descrições de Lawrence, são dele próprio com a mulher.

Mas porquê dar uma conotação tão erótica a um livro, cujas descrições ostensivamente sexuais, ocupam apenas 15% do seu todo?

Simplesmente porque essas cenas de sexo transmitem toda a força do sexo. Nessas descrições, homem e mulher entregam-se um ao outro de uma forma muito quente, sem qualquer tipo de pudores. A linguagem que usam é vernácula, todo o ambiente criado é excitante. No entanto todo esse erotismo não acaba quando acaba os movimentos corporais, esse erotismo continua no resto da narrativa, no amor que sentem um pelo outro, nos seus pensamentos e nos carinhos. Um erotismo que nos leva a encarar o sexo como fazendo parte do lado efectivo e não do lado animal como era defendido pelos moralistas. E isso não foi compreendido na época, tanto é que o livro foi apreendido, impedida a sua venda durante alguns anos e Lawrence acusado de atentado ao pudor.

Depois há todo um conflito moral que nos é lançado e cuja resolução depende um pouco de nós próprios. Depende da forma como encaramos aquele quadro, depende da nossa forma de ver o sexo e o amor entre um homem e uma mulher.

Um romance brilhante, perfeito, cheio de mensagens num jogo de sentimentos soberbo, longe portanto de ser um simples romance erótico, muito longe mesmo.

Um romance obrigatório para entendermos o pensamento e moral da sociedade britânica e europeia da primeira metade do século XX e para que possamos entender um pouco do lado efectivo do ser humano.

domingo, 23 de março de 2008

Filho de Deus - Cormac McCarthy

Lester Ballard, vagabundo solitário, vive de expedientes à parte da sociedade, sobrevivendo de uma forma selvagem, cometendo diversos crimes macabros a fim de satisfazer desejos e taras sexuais.

Visto como Ser menor e com tolerância pelos habitantes do lugarejo, Lester desconhece a amizade, fraternidade a solidariedade, vivendo uma existência despovoada, completamente alienada.

Vivendo numa casa abandonada, Lester comete uma série de crimes que colocam em polvorosa toda a vila. No local, embora todos desconfiem da culpabilidade de Lester, ninguém tem a certeza pois, simplesmente, os corpos desaparecem, escondidos algures...

Uma das curiosidades desta obra (tem muitas), é o facto de à medida que o romance avança, pese embora a violência das descrições dos assassinatos e até na forma como Lester se comporta, irmos criando uma crescente simpatia pelo personagem. Mesmo sendo um homem asqueroso, mau, violento e indigno, vamos percebendo que o mundo de Lester não podia ser outro face à sua própria realidade, um fruto da sociedade que agora paga todos os anos de formação.

À semelhança de outros livros que li de Cormac, o autor consegue passar-nos sensações dispares, demonstrando também até quando um homem que se vê privado de amor e educação, obedece a necessidades naturais usando instintos primitivos. Ou seja, no personagem Lester, Cormac espelha qualquer ser humano. A diferença entre Lester e qualquer um de nós, é apenas as realidades de cada um que fazem com que o desenvolvimento faça-nos tomar rumos diferentes, ou não, pois Lester há por ai aos milhões.

Este livro é, quanto a mim, uma excelente metáfora acerca da “Alegoria da Caverna” de Platão.

domingo, 9 de março de 2008

1001 Livros para Ler antes de Morrer – Editado por Peter Boxall



Segundo o prefácio à Edição portuguesa, editada pela Lisma, este livro tem como intenção proporcionar aos fãs do género Romance um conjunto, neste caso 1001, de livros considerados como imprescindíveis, aqueles que eventualmente sejam de leitura obrigatória para os amantes deste género literário.

Esta Edição Internacional foi conseguida através de uma união entre várias editoras de todo o mundo que, por sua vez, reuniram várias centenas de colaboradores (escritores, críticos, jornalistas, etc) chegando assim a um conjunto de obras consideradas como as mais importantes nos cânones literários, algo que a meu ver é inteiramente conseguido tal a excepcionalidade das obras expostas.

Com 960 páginas, dividido por “Antes de 1800”, “Século XIX”, “Século XX” e “Século XXI”, este é um Manual riquíssimo e muito útil aos amantes dos livros (não só para os apreciadores do género), pois de facto contem todas as obras de relevância da literatura universal, assim como outras que, de certo, serão consideradas clássicos no futuro.

Embora afirmar que estes 1001 são mesmo os melhores seja algo muito subjectivo, sem dúvida que o é e eu até penso que falta ali uma obra impar mas que muitos consideram não pertencer aos romances, o certo é que cada livro ali exposto tem uma ficha associada com vários dados muito interessantes onde sobressai um resumo da historia e da sua importância na literatura, bem como, em vários casos, imagens de capas e cartazes das primeiras edições.

Um livro que me delicia e que me tem indicado vários livros que não conhecia, sendo certo que é também um livro que irá tornar realidade um sonho da maioria dos leitores.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Retrato de Dorian Gray (O) - Oscar Wilde



Nascido em Dublin no dia 16 de Outubro de 1854, Oscar Wilde teve uma educação esmerada, vindo a formar-se na famosa Universidade de Oxford cerca de 20 anos depois.
Reconhecido como um excepcional poeta e ensaísta, Wilde era também um homem que tinha consciência da sua inteligência e do fascínio que provocava no público, ao ponto de ter afirmado na alfândega, aquando da sua chegada a Nova Iorque, ”Nada tenho a declarar, excepto o meu génio”.
Levando uma vida relativamente calma, chegando mesmo entre 1887 e 1889 e dirigir uma revista feminina, foi precisamente nesse espaço de tempo que escreve os poucos contos que produziu e o seu único romance, justamente o ”Retrato de Dorian Gray”, e é curioso porque é devido a esse seu único romance que a sua vida se irá alterar de uma forma trágica, levando-o mesmo á sua ruína.
Por altura de 1893, época onde Wilde estreia algumas peças de teatro, conhece Lord Alfred Douglas, que havia ficado fascinado com o romance de Wilde. Dessa amizade nasce uma relação amorosa que levaria o pai de Alfred Douglas, o marquês de Queenberry, a condenar aquela relação, insultando Wilde e um processo que acabaria com a acusação e condenação de Oscar Wilde à prisão pelo crime de homossexualidade.
Aí ficou preso durante dois anos, altura em que escreve uma longa carta de amor a Lord Alfred, que viria a ser publicada em 1905 com o título de ”De Profundis”.
Sendo libertado em 1897, viu-se completamente arruinado. Abandonado pela família, com a reputação completamente destruída, viveu da caridade dos seus poucos amigos até falecer em 1900 em Paris, de meningite, num quarto de hotel, completamente só. Morria assim, um dos grandes génios da literatura que o mundo já teve.
Conhecido e assumido como homossexual, numa época onde isso era tido como um desvio de personalidade, uma anormalidade, Wilde cria uma grande escândalo com a publicação de o ”Retrato de Dorian Gray”, sendo acusado pela opinião pública de ”expor uma ambígua personalidade na figura do seu protagonista”, ou seja, este livro foi visto e foi tido, penso que ainda o é, como um dos ícones da “cultura” homossexual.
Pessoalmente penso que Oscar Wilde pretendeu de facto criar um conjunto de relações entre os personagens que leva a uma leve percepção que, aquelas relações de amizade, são mais do que isso, pois ele, de uma forma muito inteligente, efectua todo um jogo de palavras, de frases que indiciam precisamente relações de maior intimidade entre os personagens.
No entanto este livro parece-me mais um exame à consciência humana e principalmente um romance onde Wilde exorta a plenitude das suas ideias e opiniões acerca da sociedade e do espírito humano.
O ambiente da obra está assim imbuído de homossexualidade. Todos os personagens principais são homens e é num trio deles que o romance se irá desenvolver.
Dorian Gray é um jovem de 20 anos que possui uma beleza desmedida, cuja é retratada por um amigo, o pintor Basil Hallward, que tem por ele uma paixão tal, que pinta o quadro de uma forma tão transcendente que todos ficam estupefactos com a exactidão da pintura, parecendo mesmo que Basil conseguiu captar a própria alma de Dorian.
No dia em que termina o quadro, encontra-se presente Lorde Wolton, homem extremamente inteligente e dono de uma ironia tão vasta, que irá influenciar de uma forma crucial Dorian Gray. Refiro que, quanto a mim, Lorde Wolton personifica o próprio Oscar Wilde. É assombrosamente semelhante o carácter de Wolton com o de Wilde e não é por acaso que é precisamente Wolton que disserta sobre vários assuntos.
Todos ficam estarrecidos com o trabalho de Basil, principalmente por ele ter conseguido captar a extrema beleza de Gray e, nessa altura em que fitava o quadro, Dorian articula um desejo: ”este quadro manterá o meu rosto jovem para sempre, enquanto eu irei envelhecer. Quem me dera que fosse o contrário”.
O livro segue então um rumo assente na promiscuidade entre esses homens, rodeados de opulência num desvario moral que já nos dá a perceber a nociva influência de Lord Wolton em Dorian Gray, que se começa a aperceber que, estranhamente, o quadro apresenta algumas alterações...
Começa dessa forma uma história excepcional, repleta de diálogos extraordinários e de várias alegorias.
É claro a intenção de Wilde em retratar o cinismo e a hipocrisia da aristocracia da época. Há toda uma série de alegorias que pretendem expor toda uma sociedade que se movia por interesses e com pouco ou nenhum respeito pelo próximo, apenas preocupados com as aparências e na ostentação social. Até o facto de o retrato envelhecer, mantendo-se Dorian Gray eternamente jovem, não é nada mais nada menos do que uma alegoria à decadência moral e espiritual dessa mesma sociedade, sempre tão sorridente e bonita, mas suja e podre por dentro.
Wilde brinca assim com toda a sociedade. Penso que foi precisamente por isso que a opinião pública ficou chocada com o romance e não com a insignificante alusão à homossexualidade.
Wilde atira ideias e teorias completamente irónicas, nota-se o sentido de espicaçar, de mostrar o ridículo, de denunciar.
Logo e devido ao desenvolvimento dessas ideias, este acaba por ser um livro não muito fácil de ler, pois é visível que cada diálogo tem um objectivo definido, uma intenção que ultrapassa um mero diálogo.
Muitos vêm este romance como uma elogio à beleza e à vaidade.
Eu admito que sim, mas afirmo que essa apologia é à própria sociedade e ao carácter da mesma, sobretudo ao carácter da burguesia do qual Wilde fazia parte.
O ”Retrato de Dorian Gray” é assim mais um estudo camuflado de romance, cheio de intenções e alegorias à sua sociedade e ao seu próprio circulo. Um romance que é injustamente um ícone da “cultura” homossexual, quando, e na realidade, pouco indicia sobre essa “cultura”.
Um romance soberbo que deve ser lido e analisado à luz da época em que foi escrito, sobretudo ao nível social.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pecado de Darwin (O) - John Darnton


O Pecado de Darwin é um título que tem tanto de ambicioso como de decepcionante. Um título que, ao contrário do original do livro, deixa logo antever um pecado de Darwin e foi precisamente com esse interesse que me propus a ler este livro.

Darwin é, inquestionavelmente, um dos Grandes Nomes da Ciência. Assim, quanto a mim, é necessário uma grande dose de coragem para se elaborar um trama cujo principal tema é algo que Darwin “fez” e que esteve por detrás da origem da célebre teoria da Selecção Natural.

Este livro é uma obra de ficção. Não me recordo de ter lido uma referência clara à ficção, mas o percurso que o autor desenha é obrigatoriamente ficcional tal a diminuta referências existentes em relação à vida familiar de Darwin.

No entanto, para dar maior credibilidade à história, o autor tenta desmontar um embuste que estaria por detrás da teoria de Darwin. Não vou aqui referir qual, mas para isso a história é descrita em três perspectivas. A do próprio Darwin enquanto jovem a bordo do Beagle, diários de Elizabeth (uma das filhas de Darwin) e de dois investigadores que, na actualidade, compreendem estarem no rasto de um terrível segredo que irá colocar em causa a credibilidade de Darwin.
O trama está bem construído, saltitando entre essas três perspectivas de uma forma coerente e equilibrada. No entanto não posso deixar de registar o imenso incómodo que o livro me proporcionou. Não que Darwin seja uma figura para mim fascinante, mas sim porque o autor coloca em causa a reputação desse homem. Mesmo sendo ficção, acredito que muitos do que irão ler o livro ficarão com a ideia que Darwin não é aquilo que sempre se disse que era e isso, a meu ver, é algo que, independentemente da obra ficcional e história, deveria ser defendida pelo editor e pelo autor, algo que não fazem, criando sim a ideia que a história narrada tem fundamento.

Achei rebuscada a forma como, principalmente os investigadores tinham a acesso a cartas e diários do próprio Darwin e filha. Sempre por acaso e por vezes até sabiam onde se dirigir, as informações vinham cair-lhes à mãos, informações essas, por vezes, bombásticas. Pessoalmente penso que esses factos ajudam a dar uma áurea de “faz de conta”, porém é notório também a intenção do autor em criar um clima de “teoria da conspiração”, clima esse que nunca convence.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Filha do Capitão (A) - José Rodrigues dos Santos

Este GRANDE ROMANCE procura reproduzir factos históricos ocorridos na Flandres entre 1917 e 1918. As personagens são fictícias, no entanto, os acontecimentos e episódios por eles vividos aconteceram.
Há 3 anos, Feira do Livro de Lisboa, tive o prazer e a felicidade de conhecer e estar à conversa cerca de 10 min. com José Rodrigues dos Santos. Assim e aproveitando a sua enorme simpatia e disponibilidade, coloquei-lhe algumas questões sobre o livro, questões essas que me elucidaram sobre alguns dos factos e que originaram um deslumbramento ainda maior por este magnífico romance. Nesta opinião tentarei então abordar a obra segundo as minhas percepções e também segundo aquilo que me foi transmitido pelo próprio autor do livro: José Rodrigues dos Santos.
O livro tem o seu início temporal em 1890, ano do nascimento de Afonso Brandão, personagem principal da obra.
De origem humilde mas com uma inteligência e curiosidade apurada, é-nos relatada a vida pobre daquela humilde família de seis filhos no meio ribatejano.
Nessa mesma altura em Lille, França, nasce Agnés de Chevallier, filha de um abastado enólogo e comerciante de vinhos. Nascida em berço de ouro, Agnés tem de tudo. Uma educação esmerada, dinheiro, comida da melhor, acesso à cultura e inclusive chega a visitar em 1900 a Exposição Universal de Paris onde sobe, diliciada, a Torre Eifiel.
Aqui Rodrigues dos Santos mostra-nos bem a diferença que havia entre o interior francês e o português, universos muito distantes, completamente opostos. Ao mesmo tempos aproveita para descrever a célebre exposição de Paris.
Nos primeiros capítulos acompanhamos assim a infância de Afonso e Agnés, sendo fácil de adivinhar que, mais tarde ou mais cedo, as vidas deles se vão interligar.
De salientar que o facto de o livro começar em 1890 não ter sido por acaso. Rodrigues dos Santos pretendeu narrar alguns dos factos que surgem por essa altura e que tanta importância irão ter no futuro.
É assim descrito a vinda a Lisboa da família de Afonso e o fascínio que demonstram pela cidade e pelas novidades, algumas delas demasiado futuristas. De notar o pormenor de eles andarem descalços e de ficarem admirados por verem as pessoas no Rocio (Rossio) a passearem-se calçados. Curioso também a descrição do surgimento do futebol enquanto jogo do povo em Portugal e dos primeiros jogos entre o Carcavelos e o Fotball Club Lisbonense, desporto esse que, para além de rivalizar já com a tourada, adquiria, para essa gente do Ribatejo, o nome de fubôu. Curioso também ser nessa altura que surgem as “fotografias vivas” passadas no Real Colyseu e no Teatro D. Amélia, que era nada mais nada menos que exibições do animatógrafo, logo os primórdios do cinema. E mais, o livro está cheio de curiosidades históricas.
Quando Afonso atinge os 14, 15 anos (1904-1905), começam-se a dar em Portugal acontecimentos que irão ficar gravados num lugar de destaque da nossa História. E aqui Rodrigues dos Santos é exímio na narração desses acontecimentos, conseguindo interligar as personagens, a história do livro com os factos históricos.
O assassinato do rei D. Carlos e do seu filho, o príncipe D. Luiz Filipe no dia 1 de Fevereiro de 1910 em plena Praça do Commércio. Os tempos agitados que se seguiram até à implantação da república no dia 5 de Outubro de 1910. Acreditem, é empolgante, delicioso, excepcional.
Até que numa manhã de Agosto de 1914, já Afonso era tenente num quartel em Braga, inicia-se um novo capítulo do romance e o seu principal motivo de interesse A Grande Guerra.
Devido a interesses que envolvia um acordo secreto entre a Alemanha e a Inglaterra, acordo esse que definia em segredo as possessões ultramarinas portuguesas, o governo português apercebeu-se que a sua velha aliada estava a fazer jogo duplo. Por outro lado, a aproximação anglo-espanhola e a frieza com que os dois países, ambos monárquicos, viam a implantação da república em Portugal, indiciavam que a Inglaterra fecharia os olhos a uma possível anexação de Portugal por parte da Espanha, chegando mesmo o governo britânico a avisar o governo português que as obrigação da aliança Portugal-Inglaterra visava apenas a garantia da defesa da costa marítima e não das fronteiras terrestres… Assim e devido a todos esses acordos que punham em perigo a nossa integridade e independência, o governo português não teve outra alternativa do que provocar a Alemanha no sentido de esta nos declarar guerra, para assim tomarmos a posição das forças aliadas e podermos ocupar a mesa das negociações no pós-guerra, defendendo assim as colónias e as fronteiras do continente e ilhas. Para quem quiser saber mais sobre estes jogos, aconselho a leitura de “Crónicas de Guerra” do mesmo autor.
É então que em Abril de 1917, o Corpo Expedicionário Português (CEP), composto por algumas dezenas de batalhões, é enviado para a frente de combate, as temíveis trincheiras da Flandres. Como comandante da Infantaria 8 ia o tenente Afonso Brandão.
Começa nessa altura a terrível odisseia de milhares de homens que, praticamente sem qualquer tipo de treino militar, se vêm nas trincheiras atolados em “merda”, em condições sub-humanas, a servirem, literalmente, de carne para canhão.
Estes acontecimentos são assim o grande objectivo de Rodrigues dos Santos. Narra episódios reais da estadia do CEP nas trincheiras que se estendiam por Fauquissart, Neuve Chapelle e Ferme du Bois.
E é angustiante ler as terríveis provações que os nossos soldados passaram. Eles foram enviados para as trincheiras simplesmente para morrerem, porque quantas mais baixas houvessem, mais apreciado era Portugal pela comunidade internacional. O governo de Lisboa não tinha qualquer interesse e consideração pelas tropas. A partir do momento que chegavam a França, o contigente português jamais era substituído e o regresso dos soldados apenas se dava em sacos mortuários, quando havia alguma coisa para colocar nesses sacos…
ai minha rica mãezinha, não me deixem morrer!” Afirmava m homem cujo rosto era uma massa ensanguentada... Um retracto do inferno.
As outras tropas aliadas e alemãs eram substituídas regularmente, os portugueses mantinham-se nas suas posições até morrer, definhando, apodrecendo atolados em lama tendo por companhia o zunir das balas e as ratazanas. Passaram fome e frio, andavam rotos com fardas fornecidas pelo exército britânico, logo, grandes para os soldados portugueses. Ao mesmo tempo a maior parte dos oficiais, que estavam contra a guerra, faziam de tudo para se afastarem da frente, inclusivamente até se faziam de doentes para serem enviados para Lisboa, ficando o CEP quase sem oficiais. Por isso imaginem o moral das praças, homens simples, a maior parte deles analfabetos que passavam o dia na lama, a cheirar e a pressentir a morte, vendo os oficiais fugir como as ratazanas que lhes passavam por cima.
Mas a fé mantinha-se, a coragem e os sonhos faziam com que aqueles homens acreditassem que o seu esforço tinha um objectivo e que o dia do regresso a casa estaria para breve…
É neste contexto que José Rodrigues dos Santos nos dá uma verdadeira aula de História de Portugal na Grande Guerra e do enorme e heróico esforço que os nossos soldados realizaram.
Quanto a mim o romance vale por isso.
Mas a história continua com Afonso e Agnés até ao seu encontro…
Que posso dizer mais sobre este soberbo, fenomenal, excepcional e grandioso romance?
Antes de mais asseguro que é dos melhores livros de sempre da literatura portuguesa.
Depois, fez-me sentir muito orgulhoso dos meus compatriotas que lutaram tão heroicamente naquela guerra. Deliciei-me igualmente com a escrita fluida e com a forma narrativa de Rodrigues dos Santos. A descrição da ofensiva alemão em Abril de 1918 ao contigente português (La Lys) é terrivelmente real e angustiante. Está tão bem descrito que parece que ouvimos o troar dos canhões, o matraquear das metralhadoras, o zunir das granadas e das balas, os gritos de raiva, medo e angustia de milhares de soldados que lutavam por uma nação e pela sua vida.
La Lys foi um episódio marcante da nossa história e este livro presta homenagem a todos aqueles que lá combateram. Segundo o autor, um dos objectivos do livro é precisamente o de exorcizar velhos fantasmas, o de prestar homenagem ao Corpo Expedicionário Português e a milhares de homens que tão garbosamente combateram nas trincheiras da Flandres.
A história de Afonso e Agnés passa assim para segundo plano. Não que Rodrigues dos Santos o tenha feito premeditadamente, não! A história está sempre presente e é narrada como tema principal, sendo a guerra o pano de fundo, mas sei que o valor do livro está nos factos históricos.
Não pretendo alongar-me mais, no entanto este é daqueles livros que gostaria de escrever, escrever, sem, contudo, conseguir expressar o enorme fascínio que o mesmo me provocou.
Com ele percebi o porquê do desastre português em La Lys e do sofrimento de todos aqueles homens que lutaram por uma causa que desconheciam.
Foi um romance que me comoveu imenso. Em três, quatro ocasiões, tive que fechar o livro porque simplesmente a comoção era enorme.
Foi também, e que me lembre, o único livro em que depois de lida a última página, voltei à primeira.
Sabe meu capitão, descobri que o mais duro não é fazer guerra, o mais difícil é sobreviver a ela, é viver com ela depois de ter vivido nela, percebe o que quero dizer?”.
E esta deixou-me de rastos:
Marianne ficou a estudá-lo, hesitante, receando acreditar. Deu um passo em frente, a medo, depois outro e outro ainda, começou a andar e o andar transformou-se em corrida, correu para ele como se sempre o tivesse conhecido, ninguém lhe disse que era ele mas ela soube-o, talvez fosse desejo, talvez fantasia…”; “… daquele murmúrio da voz embargada que lhe brotava dos lábios e era repetidamente soprado aos ouvidos da menina que o enlaçava pelo pescoço. Ma petite fille”.
Um romance excepcionalmente admirável. Aconselho vivamente, rogo-vos que o leiam, exijo que o façam, pois estamos perante um dos grandes romances de sempre da nossa literatura.

Homem Duplicado (O) - José Saramago

Agora que está prestes a sair um novo romance de José Saramago, lancei-me novamente na (re)leitura deste nobel escritor que, quanto a mim, é o melhor escritor da actualidade.
Este ”Homem Duplicado” foi publicado no final de 2002 e é, talvez, o romance menos conseguido do escritor e pelas razões que apontarei mais adiante.
No universo saramaguiano (acabei de inventar a palavra), um universo que podemos classificar de Realismo Fantástico, temos quase sempre um cenário onde pessoas comuns se deparam com um acontecimento violento que, de algum modo, lhes afectará a vida.
Em “Memorial do Convento”, a construção do convento toma a posição desse violento acontecimento.
No “Evangelho Segundo J.C.”, um homem rude descobre que é, imagine-se, filho de Deus.
No “Ensaio sobre a Cegueira” há o aparecimento de uma cegueira colectiva que irá afectar o normal quotidiano de todo um povo, estratégia seguida dentro dos mesmos moldes em “Ensaio sobre a Lucidez”.
É uma estratégia muito própria de Saramago que, dono de um estilo que destila uma ironia acusadora dos podres da sociedade através de metáforas, consegue sempre construir tramas bem urdidos com princípio, meio e fim (salvo em o “Ensaio sobre a Lucidez”).
Em o ”Homem Duplicado”, Saramago segue essa tal estratégia construtiva, no entanto comete um pecado que desvirtua grande parte da beleza da obra, ele quase que copia o enredo de “Todos os Nomes”, aliás, é completamente indissociável a colagem entre esses dois romances.
O “Homem Duplicado” é construído tendo por base uma questão: ”Será possível existirem pessoas duplicadas?”, ou seja: ”Será possível haver pessoas que têm, algures no mundo, uma outra igualzinha a ela, um duplo?”. Ao fim e ao cabo uma questão que já tem sido levantada por outros escritores, simplesmente um conflito de identidade.
Tertuliano Máximo Afonso é professor de História no ensino superior. Divorciado e esquecido desse casamento, porque um homem esquece-se do que não se quer lembrar e lembrar é próprio daqueles que não se querem esquecer. Vive agora sozinho e aborrecido, desesperadamente à procura do seu Eu, enquanto se relaciona num relacionamento Não-Relação com uma bancária. Só e triste, resolve que está necessitado de uma distração excitante e, a conselho de um amigo da mesma profissão, empreende uma viagem ao louco mundo do vídeo-clube da zona a fim de alugar o tal filme sugerido, sugestão essa que recaí num daqueles filmes cómicos de 3ª categoria produzido por uma produtora desconhecida e só, mas de 4ª categoria. Mas dias não são dias e ala que se faz tarde, eis o nosso, salvo seja, Tertuliano com a cassete na mão, preparando-se para assistir, no conforto do seu lar, a este belo e desconhecido filme. Senta-se confortavelmente e após visionar alguns minutos de filme, constata o surgimento em cerca de 5 cenas de um personagem igualzinho a ele. Sem tirar nem pôr, a sua cara cuspida e escarrada: “Sou eu!”, afirma Tertuliano, de Máximo Afonso no nome.
Depressa regressa ao vídeo-clube no sentido de alugar mais filmes daquela desconhecida e suspeita produtora e, após horas a visionar esses mesmos filmes, dá de “caras” novamente com ele mesmo, aliás, e perdida a cabeça que já está, pois perdido por um perdido por mil, Máximo Afonso, dá então de “frontispício” com esse actor. Tem então o cuidado de, através das fichas técnicas e depois de excluir alguns factos e pormenores de somenos importância, descobrir o nome desse actor e criar todo um intricado plano para descobrir onde mora. E agora é que é, assim o disse assim o fez, Ala que se faz tarde.
José Saramago, que tem tanto de bom escritor como de pedante, elabora neste livro um género de crónica não muito honesta, pelo menos em relação ao leitor.
Desconheço se houve ou não intenção dele, mas ele usa-se da fórmula do romance “Todos os Nomes” onde um funcionário do Cartório vai em busca de uma pessoa da qual apenas sabe o nome, desconhecendo até se essa pessoa ainda é viva. Assim elabora todo um esquema de busca, não sabendo contudo o significado dessa busca nem a sua reacção quando a completa-se.
Logo, Saramago utiliza-se de um para construir o outro. Varia um bocado a forma, obviamente, mas é indismentível que repete esquemas, situações e inclusivamente, julgo porque não estive para investigar, repete, pelo menos na forma, um monólogo.
Esse é o seu grande pecado e o “pormenor” pelo qual considero este romance como o seu livro menos conseguido, aquele onde ele revela uma grande falta de inspiração que em nada revela o seu génio.
Mas o estilo está lá.
Os pensamentos íntimos do personagem, embora e por vezes se perca em demasiados eufemismos. Os diálogos imaginários com o Bom Senso são divertidíssimos, mas também pecam um pouco pelo exagero com que ele os utiliza. O tom mordaz com que vai descrevendo as situações, sempre assente em metáforas alusivas aos males da sociedade, o constante jogo cúmplice entre o escritor e o leitor, enfim, uma escrita com o cunho de Saramago.
Longe de possuir a mesma beleza estética e a força narrativa dos seus outros livros, este “Homem Duplicado” lê-se muito bem e diverte-nos com as suas constantes “bocas”. No entanto Saramago parece brincar demasiadamente com o leitor, parece querer dar-se ao luxo de fazer crer que este é um romance original. Não é, longe disso, porque e repito, segue a mesma linha de “Todos os Nomes”, inclusivamente as “mensagens” subjacentes repetem-se e esse é o seu maior pecado.

Rei Lear - William Shakespeare

Escrito entre 1603 e 1606, sendo levado pela primeira vez à cena em Dezembro de 1606, o Rei Lear é considerado uma das obras mais importantes de Shakespeare e é aquela que é mais lida e representada na Grã-Bretanha, até a 1ª fase da série “Black Adder” é inspirada nesta obra.
Poder, traição, vingança e amores, são os temas principais desta obra, focada num velho rei que faz doações de todos os seus domínios às suas 3 filhas tendo, contudo, como condição que todas elas no momento de receber essa doação, dissessem palavras bajuladoras ao rei. Porém uma delas recusa-se a ser hipócrita e, num acesso de fúria e loucura, Lear renega essa filha (Cordélia), deserdando-a e dividindo então o reino pelas outras duas.
Os conselheiros de Lear tentam alertá-lo para a terrível injustiça que ele acaba de cometer mas, e à boa maneira medieval, Lear não lhes dá ouvidos e com o orgulho ferido expulsa Cordélia do seu reino.
Uma vez na posse das terras, as duas filhas (Goreil e Regane) logo encetam uma série de contactos a fim de usurpar o reino de Lear e é neste contexto de vilanias e traições, de combinações secretas e de vis acções que se desenvolve toda esta famosa peça de Shakespeare.
Tal como sucedeu em praticamente todas as suas obras, para não dizer mesmo em todas, Shakespeare não foi o criador do trama de Rei Lear. Obras como “Romeu e Julieta”, “Hamlet”, “Mcbeth”, já eram bem conhecidas na época de Shakespeare, no entanto o que Shakespeare fez não se tratou de plágio. Shakespeare teve o génio de “pegar” nessas histórias e de as tirar do circulo do folclore local, empregando a sua pena para escrever ou rescrever obras fenomenais. Ou seja, ele “pegou” em historiazecas e rescreveu-as mantendo, contudo, o fulcro original.
A história do Rei Lear surge pela primeira vez em latim na “História Britonum de Geoffrey os Monmouth” em 1135. daí para a frente, são várias as versões de “Lear”, sempre tendo como trama principal o rei louco e as suas filhas. Assim constata-se que Shakespeare teve acesso a uma enorme bibliografia que o ajudou a elaborar a sua obra, no entanto e pelos textos anteriores, Shakespeare deu-lhe nova forma, e porquê? Simplesmente porque deixou o fulcro da história intocável mas introduziu velhas lendas britânicas, colocou o seu ideal de justiça e inclusive narrou factos astronómicos verificados naquela época (1603-1606).
Este Rei Lear torna-se assim mais de que uma mera peça teatral. Para além de expor muito do pensamento da Renascença, esta, assim como todas as peças de Shakespeare, é um retracto da Inglaterra medieval com todos os tramas que caracterizavam aquelas épocas.
Pessoalmente e tendo já lido praticamente toda a obra de Shakespeare, que considero o primeiro mestre da literatura moderna, aquele que serviu e serve de escola para muitos escritores, esta peça não é das que mais aprecio.
Não tem a força e o carácter de Macbeth, Othello ou Hamlet. Não tem a ternura e o tom trágico de Romeu e Julieta. Os tramas das peças mencionadas empolgam, fazem-nos vibrar, deliciam-nos. Este Rei Lear, embora seja marcado por traições e encontros conspiratórios, não tem a força dos diálogos de outras peças e parece-me também que faltam excertos que interliguem alguns dos actos, pois há acontecimentos que se sucedem um pouco sem nexo e de uma forma precipitada.
Esta não é das melhores obras de Shakespeare, pessoalmente prefiro Mcbeth, Hamlet e Othello.