domingo, 29 de junho de 2008

Perfumista (O) - Joaquim Mestre

O Perfumista tem como pano de fundo a 1ª Guerra Mundial e a Pneumática que devastou milhares de vidas na Península Ibérica após 1918.

Tem também como pano de fundo a arte de perfumista, criador das mais variantes aromas que enlouquecem homens e mulheres. Um artificie que tem tanto de antigo como de misterioso.

Toda a acção passa-se no Alentejo, num Portugal rural, supersticioso, pouco desenvolvido e ainda agarrado aos ideais monárquicos.

Numa determinada região alentejana, um homem apaixona-se por uma mulher. Em busca de uma vida melhor, este homem emigra para a grande cidade no sentido de aprender uma profissão que muito tem a ver com ele: Perfumista.

Anos depois regressa á vila e aí desposa essa mulher ficando ambos a viver, na companhia da mãe dela, numa grande casa onde aí montam um negócio de perfumista que lhes irá trazer fama.

Pouco tempo depois este homem é incorporado no corpo expedicionário português e é enviado a combater em França, na terríveis trincheiras.

Por essa altura surge, tal como um furacão, a Pneumática que arrasa milhares de famílias, ao mesmo tempo que o Corpo Expedicionário é arrasado em La Lys.

Gostei muito deste romance.

É um romance onírico, cheio de magia que se assemelham ao mundo mágico de Marquez. É inegável a semelhança de estilo de Marquez (esta vila faz lembrar a aldeia dos Buéndia), notando-se também fortes semelhanças com o estilo de Saramago não faltando, na história, um descendente de Baltazar Sete-Sóis.

Foi um livro que me deu muito prazer ler. A história é terna, dura e tomada por aromas díspares que se soltam página a página, palavra a palavra.

Considero este livro um dos excelentes livros da nossa literatura dos últimos anos.

domingo, 22 de junho de 2008

Número de Deus (O) - José Luis Corral


José Luis Coral é o autor espanhol de mais êxito no género do romance histórico. Professor de História medieval, é conhecido por ser o autor de várias obras, onde se incluem livros, artigos, guiões para tv e inclusivamente foi assessor histórico do filme “1492 – Cristóvão Colombo”. As suas obras demonstram sempre um grande rigor histórico, não descura pormenores, nem de linguagem nem dos usos e costumes da época e este “Número de Deus” vem mostrar não apenas isso, como também, uma grande capacidade, que nem todos os escritos do género têm, de colocar no mesmo livro, uma época e toda a sua mentalidade, a evolução da mesma, misturado com os acontecimentos que marcaram a época.

Confusos?

O livro inicia-se no séc. XI (1212) com o nascimento em Burgos de Teresa Rendol, filha única do mestre pintor de frescos Arnal Rendol. A história vai-se dividindo entre vários reinos (França, Leão e Castela). Nesses anos reinava em Castela Henrique I e em Leão Afonso IX. Época marcada por constantes desavenças entre estes dois reinos irmãos, irá ser o filho de Afonso IX, Fernando III, que irá reunificar os reinos, sendo também que ficará para a História como um dos Maiores reis de sempre, sendo considerado pela igreja católica como santo e posteriormente canonizado.

A história passa-se maioritariamente no reinado de D. Fernando III, época onde reinava um fervor religioso enorme, mas também uma época onde se respeitava o génio humano e havia espaço para o mesmo ser posto ao serviço de Deus para construir grandes obras, entre as quais, catedrais.

Embora o livro trate em específico desse trabalho, a da construção de catedrais onde trabalhavam grandes Mestres de vários ofícios sempre em busca da perfeição, José Luis Corral vai abordando também a mentalidade e a evolução, em pouquíssimo tempo, da mesma. Uma época cheia de acontecimentos, onde a guerra com os mouros era constante, vamos assistindo à imposição da igreja na sociedade, à perseguição dos Cátaros e ao surgimento de novas teorias acerca do mundo e da sociedade, principalmente no acolhimento, por interesse próprio, das teorias de Aristóteles em prejuízo das de Platão, pois era Aristóteles que defendia que a mulher era inferior ao homem. Vai nascendo assim uma outra concepção da natureza que irá ter repercussões nos séculos vindoiros. E Corral, numa linguagem simples e correcta, explica isso, encaixando de uma forma brilhante na história que é de várias histórias interligadas.

Quanto a mim o livro vale por essa questão. Pessoalmente desconhecia como havia nascido essa mentalidade que jogou a Europa em centenas de anos de obscuridade, assim como achei estupenda a narração da situação geopolítica dos vários Estados, inclusivamente vai-se, aqui e ali, abordando o reino de Portugal. E sobre o reino de Portugal constatei que uma das razões que nunca houve grandes planos para o tomarem, foi de que os reis portugueses sempre foram bastante inteligentes, pois faziam vários acordos com o Papa e casamentos estratégicos com várias casas reais.

É um excelente livro que aborda uma época que me apaixona e que demonstra o quão maléfico foi a igreja católica que atrasou séculos de evolução, tanto espiritual, como intelectual.

domingo, 15 de junho de 2008

Guerra dos Tronos (A) - R.R. Martin


Não sendo um apreciador do género fantástico, opiniões muito favoráveis fizeram-me despertar o interesse por esta saga composta, segundo consta, por 14 volumes (!!!), sendo que metade deles ainda está por escrever.

Obviamente que a extensão desta obra pode ser desajustada, no entanto, dada a subjectividade, o melhor é analisar volume a volume, perceber, ou tentar, a objectividade do autor e o interesse, a chama, que o mesmo despertará nos volumes subsequentes.

Foi pois com alguma expectativa que peguei neste “A Guerra dos Tronos”, livro Um da saga “As Crónicas de Gelo e Fogo”.

Eddard Stark, lorde dos domínios de Winterfell, recebe a inesperada visita do Rei Robert Baratheon, algo como um Rei Supremo, e da sua comitiva.

Desde logo é perfeitamente perceptível a intimidade e amizade que existe entre estes dois homens.

A intenção do Rei Robert é convidar Eddard para ser o seu “Mão-do-Rei”, o cargo mais importante da corte, algo como um Primeiro Ministro.

Desconfiado, mesmo percebendo as razões do rei, Eddard aceita e conjuntamente com duas filhas, uma delas prometida ao filho mais velho de Robert, parte para Sul para os domínio reais.

E aí depara-se com uma corte fustigada pelas intrigas e invejas, onde a maldade impera e onde os inimigos espreitam a cada esquina.

Em simultâneo, outras prestigiadas famílias também com interesses vários, agem num intrincado e promíscuo tabuleiro estratégico de forma a ganharem poder e vantagem sobre as outras, e curioso constatar que todas as famílias estão unidas por casamentos, mas mesmo assim fomentam o mal das outras.

Sendo uma obra classificada como fantástica, pensei que me ia deparar com dragões, duendes, elfos e afins, no entanto e para além de alguns pormenores realmente fantásticos, fiquei agradavelmente surpreendido com a pouca fantasia deste 1º volume.

A acção pode-se classificar como sendo da idade medieval. Em termos geográficos e embora as descrições, os nomes e até o mapa nos faça recordar a Grã-Bretanha, as semelhanças ficam-se apenas por aí, pois a descrição do clima e sobretudo a variante meteorológica de Norte para Sul é tão elevada e radical que fazem-nos perceber que aquele mundo não existe, que de facto foi criado por Martin.

É interessante e deveras agradável a simbiose que o autor efectua entre o género fantástico e o histórico. As descrições dos costumes e usos são, sem dúvidas, os medievais, assim como medievais até a forma dos diálogos e o vestuário, no entanto, aqui e ali, lá vai surgindo pitadas leves de fantasia, seja no surgimento de lobos gigantes, seja na floresta Assombrada que supostamente contém criaturas perigosas e espantosas.

Com vários capítulos, todos eles nomeados com o nome dos vários personagens (é desta forma que acompanhamos todos em simultâneo), o autor consegue criar um trama interessante e que tem tudo para se desenvolver nos volumes sequentes, porém nem tudo é positivo neste volume, neste início de saga.

Talvez porque o autor tem consciência que a dimensão prometida poderá levá-lo a becos sem saída, a história ou, se quiserem, o trama, tem pouco desenvolvimento para as suas 360 páginas. Durante todo esse “tempo”, o período temporal é curto e a descrição do passado, que é sempre um trunfo para a moenga de histórias, é pouco explorado. Tenho consciência que o autor irá explorar precisamente isso ao longo dos volumes, no entanto fiquei com uma sensação de insatisfação acerca da história e sobretudo acerca de alguns personagens que são apenas aflorados e depois abandonados.

Mas não escondo que a obra me agradou e que fiquei interessado no 2º volume: “A Muralha de Gelo”. A escrita é simples, objectiva e eficaz. O autor é claro e parco nas suas descrições, mas, repito, dada o tamanho da obra, temo que o autor vá desenvolvendo a um ritmo lento, correndo o perigo de retirar interesse aos leitores.

Dou o benefício da dúvida e vou continuar a leitura da saga.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Oliver Twist - Charles Dickens

Charles Dickens foi um dos grandes escritores do Séc. XIX e, na minha opinião, um dos mais talentosos escritores de todos os tempos.

Sofrendo na pele as agruras da vida na infância, Dickens cresceu sensível aos problemas da sociedade inglesa, sobretudo sensível com a pobreza e opressão que essa sociedade aplicava aqueles que tinham tido o azar de nascer pobres, ao ostracismo que esses pobres estavam sujeitos, sendo vistos como lixo, como animais.

Escritor diligente , Dickens, que começou a trabalhar numa fábrica aos 12 anos, consegue por mérito próprio aprender estenografia, profissão essa que o leva a entrar no mundo do jornalismo, sendo aí que toma o gosto pela escrita.

Nunca esquecendo as suas raízes e as dificuldades da infância, inclusive sempre teve a preocupação de editar as suas obras em folhetins a preços muito baixos (algumas dessas edições foram pagas pelo seu próprio bolso), mas nunca esquecendo essas dificuldades de infância, Dickens empreende a escrita de uma série de romances marcadamente sociais, romances onde a crítica à hipocrisia da sociedade é constante e facilmente perceptível e onde, em todas as suas histórias, descreve o modo de vida difícil dessa gente pobre e as fracas condições de vida a que essas pessoas estavam sujeitas.

No entanto e mais do que essas descrições, Dickens sempre tomou como “objecto” principal as crianças, eram elas que mais tocavam o coração de Dickens, pois são elas que contém em si, a nobreza, humildade e a inocência.

E são quase sempre as crianças as heroínas dos seus livros. A pobreza, misérias, maus tratos, morte e infelicidade.

Oliver Twist”, escrito em 1837, foi um dos primeiros livros de Dickens e narra a história de uma criança que nasce num orfanato e aí é criado até aos 10 anos de idade, sempre sujeito à fome e maus tratos.

Essa fase da vida de Oliver é descrito de uma forma nua e crua. Dickens pretende, e consegue, evidenciar as más condições dos orfanatos ingleses, sobretudo a forma sobre-humana como as crianças órfãs eram tratadas.

Quando Oliver tem 10 anos, é vendido a um cangalheiro que o leva para a sua oficina de modo a aprender essa mórbida profissão. No entanto e como o menino não tinha ninguém no mundo, os maus tratos continuam, agora, para além de levar porrada e de ser injuriado, é alimentado com a comida que os cães declinam.

Farto de tanto sofrimento, Oliver, que tem um coração bondoso e um carácter nobre, empreende uma fuga a pé até Londre, cidade onde conhece um outro menino da sua idade que o faz entrar no mundo do crime quando o apresenta a Fagin, o Judeu, homem espúrio que comanda um bando de crianças que roubam para ele.

Começa então aí um novo capítulo da vida de Oliver que o leva a conhecer o mundo do crime e, também, o lado bom do ser humano...

Oliver Twist” é uma história belíssima sobre a capacidade do ser humano em suprimir as dificuldades da vida, no entanto é também uma história que demonstra as piores facetas do ser mesmo e o quão maléfico pode ser feito para prejudicar o próximo.

Por outro lado, e talvez porque esta foi uma obra escrita na fase inicial da sua carreira, a história, embora demonstre uma grande consistência e solidez, falha nos últimos capítulos no aspecto estrutural, ou seja, existem demasiadas coincidência que tiram alguma da coerência, tudo encaixa muito facilmente. Porém é necessário não esquecer que este livro foi escrito em 1837 e destinava-se a esse tal público oprimido, um público que certamente se revia na personagem de Oliver e que, certamente, lhe agradou imenso o fim e a forma como é construído.

Dickens foi um génio da literatura. Para além de escrever muito bem, tem uma forma de descrever paisagens e situações que roça a poesia e, mais importante, é exímio na forma como transmite sensações, pois e num mesmo parágrafo, é capaz de nos comover como, de seguida, nos fazer rir.

Um clássico riquíssimo que deve ser saboreado.












domingo, 1 de junho de 2008

Processo das Bruxas de Salem (O) - Ann Rinaldi



FACTOS HISTÓRICOS

Em Janeiro de 1692, na comunidade puritana de Salém, Nova Inglaterra, Elisabeth Parris de nove anos e Abigail Williams de onze, começaram a exibir comportamentos menos próprios. Numa comunidade onde às crianças não era permitido ter infância, onde os problemas próprios da adolescência não era tolerado nem compreendido, estas duas crianças, de um momento para o outro, começaram a apresentar desvios comportamentais preocupantes e chocantes. Blasfemavam, tinham ataques apoplécticos convulsivos, gritavam histericamente e, aparentemente, entravam em estados de transe profundos, tendo também visões de seres diabólicos. Logo, uma série de meninas, com idades diferentes mas todas com menos de vinte anos, começaram a apresentar comportamentos semelhantes, deixando aquela estranha e fechada comunidade em pânico.

Não me cabe aqui apresentar explicações para esses comportamentos, mas é importante referir que Salém, enquanto comunidade puritana com uma série de costumes que faz lembrar os Mórmons, deixava um papel social aos jovens muito diminuto, pois e imagine-se, nem era permitido às crianças brincar, uma criança que brincasse com bonecas era alvo de suspeita de praticar artes proibidas.

No entanto e na altura esse comportamento não foi alvo de qualquer estudo sociológico, aliás, apercebi-me que esse problema mal saiu daquele circulo de Salém, então, incapazes de determinar qualquer causa física para os sintomas e comportamentos das crianças, os médicos concluíram que as crianças estavam sob a influência de Satanás, estavam possessas.

Os puritanos acreditavam em poderes místicos e, de facto, a explicação mais plausível na altura, era que os ataques vinham do próprio demónio que, e eles acreditavam piamente nisso, errava pelos campos tentando encontrar forma de corromper as puras almas cristãs e o reino de Deus.

Muito importante também registar os enormes problemas sociais que lavrava nesse tempo. Os vizinhos suspeitavam-se mutuamente, havia famílias inteiras a ódio com antigas rixas por resolver, enfim, um ambiente propício para criar um clima de medo e terror que nasceu em Janeiro de 1692.

Assim, e como era tradição, orações e jejuns foram organizados pelo Reverendo Samuel Parris, pai de Betty e tio de Abigail. Para descobrir a identidade das bruxas as crianças foram pressionadas para dizer nomes, e assim começaram por nomear três mulheres: Títuba, escrava do Reverendo Parris, Sarah Good e Sarah Osborne, todas elas mulheres pobres e mal vistas na comunidade.

E então essas meninas tomaram o gosto pelas denúncias.

A princípio apenas as mulheres desprotegidas eram nomeadas, mas a partir de um determinado momento, a escalada de loucura ficou descontrolada, atingindo qualquer pessoa, quer seja mulher ou homem, no entanto, é curioso verificar que, de todos os acusados, pelo menos aqueles que foram executados, todos eles tinham um factor comum com as suas acusadoras…

LIVRO

Ann Rinaldi, escritora norte-americana, efectuou um brilhante trabalho de investigação para tentar recriar todo aquele ambiente e cenário de Salém de 1692.

E é brilhante essa recriação.

De todos os personagens criados, apenas dois ou três são fictícios e todos eles sem expressão na história.

O personagem central é Susanna English, filha mais nova de Philip English, homem rico e importante de Salém, que não vivia propriamente em Salém Village, mas sim nos arredores, numa casa grande, luxuosa e cheia de criados.

É esta a personagem que nos vai narrar o que aconteceu naquele estranho ano. Como começaram as acusações, o que estava por detrás dessas acusações, estariam essas crianças realmente possuídas ou tudo não passou de uma invenção?

Assente em dados históricos rigorosamente investigados e verídicos, Rinaldi consegue transmitir-nos muitas das percepções e do clima da altura, sendo fácil perceber a enorme tensão social e religiosa que devastava aquela comunidade.

Pessoalmente, gostei imenso do livro e foi também uma agradável surpresa.

Isso porque o tema nunca me havia despertado o interesse e depois porque o próprio livro é curto e muito fácil de ler. Pensei assim que a história seria muito abreviada, porém está lá tudo, inclusivamente as últimas páginas são notas da escritora a fundamentar o romance.

Mais do que um simples romance histórico, este livro é um manual sobre a onda de intolerância e fanatismo religioso que conduziram a uma autêntica caça às bruxas em 1692 em Salém.

Quem se interessar pelo tema, e embora existam alguns livros que analisam o caso, este ”Processo das Bruxas de Salém”, revela-se um instrumento útil e simples sobre o caso e os interesses ou questões que estiveram por detrás dessas terríveis acusações.

Uma Campanha Alegre - Eça de Queirós

Em 1871, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão formavam uma dupla que “arremessava” farpas a vários sectores da sociedade portuguesa, estas eram publicadas em jornais e em jeito de folhetins.

Durante dois anos, e segundo o próprio Eça, decidiram ”farpear até à morte a alimária pesada e temerosa”, no auge da juventude, das suas capacidades e cientes do seu já importante papel no meio intelectual, não cessaram de escrever textos irónicos e alegres sobre o estado de Portugal.

Esses textos, levados e tomados por uma campanha alegre, pretendiam mostrar o quão ridículo era o comportamento de certos sectores, assim como servir a justiça e a verdade, demolindo a acerba, má educação, má formação e interesses instalados.

Honestamente desconheço se esses irónicos textos tiveram algum impacto ou algum papel preponderante, ou mesmo se os alvos escolhidos se sentiram, no entanto o que sei é que esta campanha alegre é um riquíssimo fresco da sociedade portuguesa da 2ª metade do século XIX, servindo para o actual leitor se aperceber o estado do país e, curioso, constatar as imensas semelhanças entre essa sociedade e a actual, ou seja, não se aprende rigorosamente nada.

Eça de Queirós resolveu publicar essas farpas vinte anos depois. E fê-lo porque o seu camarada Ortigão publicou a sua obra “Farpas”, incentivando Eça a fazê-lo também, pois e segundo Ortigão, umas complementavam as outras.

E é assim, numa intrépida alegria, num riso que peleja contra a Tolice e a ignorância, que Eça desata a “bater” nos males da douta e fastidiosa sociedade portuguesa, cheia de bem e tradições falsas de cavalheirismo bacoco e manhoso.

Dividido em dois volumes, pelo menos a edição que possuo, o primeiro volume tem 34 “farpas” e o segundo possui 35.

De toda esta parafernália de textos cáusticos, poderia aqui destacar uns tantos que assentam como uma luva na nossa podre sociedade, no entanto não o farei porque e embora sejam crónicas soltas, todas elas têm uma lógica e uma interligação que faz com que esta ”Campanha Alegre” seja um género de edifício em que cada farpa significa um tijolo.

Alguns dirão que alguns destes textos carecem de actualidade. É um facto! Mas para se perceber do porquê do actual estado do país, seria bom as pessoas se debruçarem sobre o passado e deixarem, de uma vez por todas, a imbecilidade e obtusismo que graça em todos os sectores da vida portuguesa, pois e acreditem, até ler sobre o estado do exército português de 1871 tem interesse.

Porém, se estiver a borrifar para a História, se se interessar apenas pelo dia de hoje, então esqueça esta obra, pois é uma tremenda perca de tempo e qualquer joguito de futebol ou uma qualquer novela com actores fanhosos, é muito mais interessante.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Memória das Minhas Putas Tristes - Gabiel Garcia Marquez


Não sei qual foi a intenção de Garcia Marquez ao escrever este conto, no entanto e longe de ter ido investigar se houve alguma intenção do escritor, não deixarei de tecer algumas considerações sobre este pequeno livro que é algo polémico.

Era uma vez um velho jornalista que, por ocasião dos seus 90 anos, pretende comemorar essa efeméride indo para a cama com uma virgem.

Homem vivido, tendo e até aos 40 anos tantas mulheres que lhe perdeu a conta na 5ª centena, mulheres a que sempre pagou para ter sexo, este homem pretende provar a si mesmo que, mesmo com esta idade, ainda aí está para as curvas, embora o seu aspecto não engane a idade que tem.

Contactando uma velha amiga dona de um bordel que ele muito frequentou, ele solicita uma virgem para essa noite de modo a satisfazer-lhe esse capricho. Curiosa a resposta dela: ”ai, meu sábio triste, desapareces vinte anos e só voltas para pedir impossíveis.”, a veia irónica de Marquez.

No entanto essa velha amiga lá lhe consegue arranjar uma jovem de 14 anos, combinando a hora e por onde ele deveria entrar sem ser visto no bordel.

Aí chegado, muito nervoso, depara-se com uma criança nua a dormir. Deita-se, também nu, junto da rapariga e acaba por adormecer.

A partir dessa noite uma estranha relação se inicia entre o personagem narrador e essa menina a quem ele chama de Delgadina, pois os encontros sucedem-se, mas nunca acontece nada. Ela está sempre a dormir e ele limita-se a acariciá-la e a adormecer ao pé dela. No entanto este estranho cenário tem o condão de fazer crescer nele afecto. Afecto que ele nunca sentiu por nenhuma mulher, limitava-se sempre a encontros sexuais. Neste caso, e com 90 anos, acaba por descobrir o amor.

Penso que Garcia Marquez tenta abordar duas questões:

A sensibilidade e sexualidade na velhice e, e isso foi o que me pareceu, uma outra perspectiva sobre a sexualidade na infância, ou se quisermos, uma perspectiva sobre o amadurecimento humano, até aonde vai a criança e onde começa o adulto. Atenção, pareceu-me. Penso mesmo que Marquez aflora a temática pedofília, no entanto e como eles nunca têm relações sexuais, não poderei afirmar que essa tenha sido a intenção dele. Assim, que sentido faz os dois principais personagens terem 90 anos e 14? Saliento que para além nunca haver nada entre eles, Delgadina encontra-se sempre em estado adormecido, ele apenas afaga, no entanto e perto do fim, é claro que o amor é reciproco.

Depois a sexualidade na velhice. O homem tem 90 anos, mas sente-se jovem por dentro. Aparentemente, e ele nunca é claro nesse sentido, o instrumento ainda funciona e mais, acaba de descobrir o amor.

Sei que o livro foi e será polémico e propício a várias interpretações. No entanto Marquez descreve algo que é muito normal em todo o mundo: desde sempre que os homens vão às “putas”, simplesmente para ter sexo, há então homens que a única forma de terem sexo é recorrer a essas mulheres.

Agora a relação com a menina de 14 é que me deixou pensativo sobre a intenção de Marquez, qual o objectivo dele?

É um conto bonito sobre o amor e a alegria de viver.

O narrador, sábio pela experiência de vida, desfila recordações da sua vida em diversas idades, tudo servindo para abarcar a possível evolução da sociedade corroída por preconceitos e vícios antigos. No entanto e é precisamente através dessas lembranças que o narrador se apercebe, embora conheça muito do mundo e das mulheres, que jamais conheceu o amor.

Sobre a escrita, enfim, Garcia Marquez não é dos meus escritores predilectos, mas tenho que admitir, ele escreve muito bem, há partes no texto que parecem poesia.

domingo, 11 de maio de 2008

Jack, o Estripador - Patricia Cornwell


O dia 6 de Agosto de 1888 era feriado oficial em Londres. A cidade entregava-se a festejos em que as pessoas podiam fazer coisas extraordinárias por pouco dinheiro, se pudessem, é evidente, dispor de algum”.

É assim que começa este ensaio de Patricia Cornewll. Situa-nos logo na época do seu estudo, num dia de festa onde o assassino mais famoso de todos os tempos se preparava para iniciar a sua longa carreira, pelo menos na opinião de Cornwell.

Quem foi esse assassino que matava de uma forma animalesca e ainda se dava ao luxo de enviar cartas à polícia a gozar com o facto de não ser apanhado?

Patricia Cornwell começa por traçar, de acordo com a ciência actual, o retrato psicológico de “Jack, o Estripador”, acabando por apontar explicitamente um nome, fazendo então uma exaustiva análise à sua vida, dando-nos, e isso para mim foi a mais valia do livro, uma visão clara do modo de vida, de agir, pensamento e costumes daquele tempos, sobretudo efectua uma descrição pura e dura da pobreza daquele local de Londres e não se cansa de focar o pouco profissionalismo dos detectives que investigaram os crimes, no entanto, não se pense que os detectives não descobriram o assassino porque eram incompetentes, o caso é que, para além da ciência forense estar pouco ou nada desenvolvida, houve provas que não foram tidas como tal (por exemplo as roupas das vítimas eram mandadas fora ou dadas a outros pobres; os corpos eram lavados antes de serem vistos, etc), que fizeram com que “Jack” nunca fosse apanhado.

Mas Patricia Cornwell desde o início afirma, sem ter dúvidas, que “Jack, o Estripador” foi pintor Walter Richard Sickert, nascido em 1860 e falecido em 1942.

E desde o início do livro ela começa a expor a sua teoria, teoria essa sobretudo assente em variadíssimos factos que muitos podem considerar coincidências.

Pegando nas provas que resistiram até aos nossos dias, e Cornwell foca por variadas vezes a enormidade de provas que desapareceram, ela começa a construir uma teia envolvendo o personagem Sickert, analisando a sua vida, onde ele estava nos dias dos crimes, os seus hábitos, as cartas que ele escrevia, os seus relacionamentos, enfim, ela “descasca” completamente a vida de Walter Sickert, fazendo-nos realmente crer que foi ele o psicopata que aterrorizou o East End em finais da década de 80 do séc. XIX.

Passe isso, o que não é pouco, que de facto achei muito interessante mas que, quanto a mim nada consegue provar pois ela apenas joga com suposições intercaladas com opiniões pessoais e situações imaginadas. Este livro deu-me uma outra perspectiva desse assassino. Primeiro desconhecia que tivesse havido mais, muito mais crimes que os que oficialmente consta. Ou seja, até à data sempre li que a primeira vítima havia sido Mary Anne Nichols e a última, num total de seis, Mary Kelly, dois meses depois.

No entanto e tal como eu sempre havia desconfiado, Cornwell aborda outros crimes que, devido às cartas e ao modus-operandus, tudo aponta para que tivessem sido cometidos por Jack.

Será?

Certamente nunca o saberemos, mas o facto é que a autora apresenta dados concretos e muito curiosos que nos leva a crer que um psicopata nunca pára só com meia dúzia de crimes no curriculum, ainda mais um que tinha um imenso sangue frio e mostrava ser mais esperto que a polícia.

Enfim, o livro vale pelas descrições dos assassinatos vs. modo actual de investigar, sendo curioso que mesmo com poucos conhecimentos das circunstância reais, a autora tenta recriar os crimes.

Vale também pela descrição do infeliz modo de vida daquela gente e pelo modo largo como Cornwell conduz a investigação.

Uma investigação rigorosa e honesta sobre Walter Sickert, que nos leva ao assassino mais famoso de todos os tempos. Porém e por muito que a gente queira acreditar no que Cornwell escreve, ela nunca apresenta provas palpáveis, e de facto era difícil dada a distância dos crimes, mas fica a coragem da escritora e, no final a dúvida mantém-se: Quem foi “Jack, o Estripador”?

Por último quero referir o modo pormenorizado e ao mesmo tempo grotesco como Patricia Cornwell descreve o estado das vítimas… houve altura em que me senti agoniado, e eu conheço as fotos que ela descreve.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Messias (O) - Boris Starling

Londres, Maio de 1998, enquanto a cidade sufoca numa onda de calor como há muito não se sentia, um misterioso e sui-géneris assassino inicia o seu périplo de crimes diante de uma assombrada polícia que não consegue descobrir qualquer pista nem nenhuma relação entre esses crimes.

Pouco mais de cem anos após Jack, o Estripador atemorizar a sociedade londrina, eis que a cidade se vê agora diante de um assassino furtivo que mata sem piedade e de uma forma extremamente violenta e com uma particularidade que aponta para um mesmo assassino, deixa sempre uma colher de prata na boca dos cadáveres.

A comandar a investigação está o superintendente Red Metcalfe , investigador de conhecidos e apreciados méritos que tem neste caso o seu maior desafio que o vai levar também de volta ao seu passado, passado esse cheio de segredos...

Embora não seja apreciador de policiais, este livro é, sem quaisquer dúvidas, não só uma obra-prima do género, como também um livro capaz de nos proporcionar momentos de suspense e terror.

Penso até que “Messias” não é um mero policial, mas sim um verdadeiro thriller empolgante, violento, audaz, assombroso e entusiasmante.

Entre várias particularidades, o escritor vai-nos narrando o desenrolar da investigação na primeira e segunda pessoa... a primeira pessoa passa do superintendente Red para o próprio assassino... sem falar das descrições das cenas dos assassinatos, algo verdadeiramente horroroso de ler.

A escrita é fluida. Starling, sem dúvida por ter sido jornalista, usa um estilo directo, sem rodeios e floreados. Cada capítulo, sempre curto, acaba sempre em suspense, fazendo-nos continuar na ânsia de saber o que vem a seguir.

Leitura de um só fôlego, num trama bem urdido e com um ritmo elevado onde no final todo o puzzle se encaixa. Interessante também o motivo construído em volta dos homicídios. Embora simples (quando o descobrimos), está bem construído, tem coerência e serve na perfeição a intenção do autor, sobretudo porque, repito, tudo se encaixa e acontece o que já antes havia acontecido...

Um livro indispensável não só para os amantes do género (a esses é obrigatório), como também para quem gosta de alternar leituras.






domingo, 4 de maio de 2008

Conde de Monte Cristo (O) - Alexandre Dumas



Alexandre Dumas nasceu em Villers-Cotterêts em 1802, filho de um general napoleónico que descendia de uma escrava haitiana, Marie-Céssette Dumas, Dumas era assim mulato, algo que o iria perseguir durante toda a vida. Perdendo o pai com apenas 4 anos, Alexandre Dumas é então criado apenas pela mãe e, aos 15 anos, enquanto dava os primeiro passos como aprendiz de notário, influenciado pelos livros de Walter Scott, sente despertar nele uma vocação literária que, em 1823, o leva a Paris em busca do sonho e de fortuna.

A partir daí a carreira de Dumas tem uma ascensão vertiginosa.

A sua chegada fica marcada pela felicidade de ter como patrão o Duque de Orleães que, em 1830, iria ascender ao trono de França com o nome de Luís Filipe, o Rei Cidadão. Dumas ocupa os seus tempos livres no estudo das literaturas estrangeiras, tendo a intenção de beber as técnicas e o estilo desses escritores, começava aí a sua preparação para a profissão de escritor.

Apenas 6 anos depois da sua chegada a Paris, Dumas produz a sua primeira peça "Henrique III e a sua corte", e desde logo o sucesso é arrebatador.

No ano seguinte e embalado pelas críticas positivas à peça do ano anterior, apresenta nova peça: "Christine", e o sucesso foi tão grande que, de repente, Dumas viu-se nas bocas do mundo e cheio de dinheiro. E foi assim que pôde concretizar o seu sonho: ser escritor a tempo inteiro.

Com dinheiro e o tempo por sua conta, Dumas começa a desenvolver um estilo de vida extravagante que se pode caracterizar como gastando mais do que aquilo que ganhava, levando-o aos poucos a somar dividas que ia pagando à medida que ganhava dinheiro com as suas novelas.

Esta vida, não a da opulência que se iria manter até ao final da sua vida, mas sim as constantes dívidas, fizeram com que Dumas sentisse a necessidade de compor mais novelas. Assim acaba por ter uma ideia que se revelaria como uma autêntica mina: Em 1838 cria um estúdio de produção de novelas, contendo alguns colaboradores/escritores, todas as histórias que saíam desse estúdio eram assinadas por Dumas e, sabe-se, efectivamente todas as histórias estavam sujeitas à sua aprovação.

Pode-se afirmar que Dumas deu origem a um modo totalmente profissional de editar novelas, no entanto e todo este processo veio suscitar uma série de desconfianças que ainda hoje se mantêm: até que ponto foi Alexandre Dumas o único responsável pelas novelas assinadas por si? Não terão sido outros a criar essas novelas?

Mas passe esta questão, o facto é que Dumas, a meio do século XIX, era o escritor com mais sucesso em França e apenas rivalizando com Charles Dickens no resto da Europa.

Assim e já com a sua produtora a lançar novelas em série, Dumas dá à estampa obras que ficarão como marcas da literatura universal: Em 1844 , "Os três Mosqueteiros"; e "O Quebra Nozes", que Tchaikovsky adaptaria posteriormente para ballet; em 1845, "Vinte Anos Depois" e "A Rainha Margot" e em 1846, o famoso "Conde de Monte Cristo", entre outras.

Alexandre Dumas era astuto e compreendeu o enorme alcance dos seus livros. Multimilionário, apreciador do luxo, festas e mulheres, Dumas acabou por levar uma vida que teve alguns imponderáveis, levando-o ao exílio para a Rússia, acabando contudo, por regressar a Paris em 1864.

Até à sua morte, em 1870, Alexandre Dumas frequentou a alta sociedade e era tido como um monárquico convicto, mas senhor de uma grande sensibilidade para as questões políticas e sociais. Sepultado no cemitério de Villers-Cotterêts, Alexandre Dumas ficou para sempre na galeria dos imortais, um escritor do qual Robert Louis Stevenson disse um dia: "Não acredito que alguém escreva um livro onde se possa respirar a mesma atmosfera respirada em "O Conde de Monte Cristo".

E é precisamente sobre "O Conde de Monte Cristo" que me proponho a emitir esta singela opinião.

Escrito entre 1845 e 1846 e tido por muitos como um romance de aventuras e ou de literatura infantil, posso apenas afirmar que essas considerações são erróneas e ofensivas à memória de Alexandre Dumas.

A acção temporal situa-se entre 1814 e 1838. Dumas coloca assim a história em pilares bem sólidos ao nível Histórico e dá-nos a perspectiva desse tempo. Em 1814 Napoleão estava exilado na Ilha de Elba e preparava o seu regresso a França. Reinava Luís XVIII e as lutas entre monárquicos e republicanos estavam no auge. Todos aqueles que fossem considerados bonapartistas eram tidos como traidores do reino, sendo então presos e muitos deles assassinados.

É portanto neste cenário que se inicia o livro.

Edmond Dantés, imediato do navio de mercadorias Pharaon, regressa de uma longe viagem ao serviço do seu patrão, o sr. Morrel.

Nessa longa viagem, um infeliz incidente leva Dantés a assumir o comando do navio, o capitão sucumbe a uma febre, falecendo alguns dias antes do regresso a Marselha.

Feliz por ter o navio de volta, o sr. Morrel, que muito apreciava a honestidade e valentia de Dantés, oferece o posto de comandante do Pharaon a Dantés, facto que o deixa felecíssimo, pois com o ordenado e as comissões, poderia tomar como esposa a bela catalã Mercedes e proporcionar ao seu pai uma vida mais confortável.

É neste cenário idílico que o trama tem início e, pouco depois, é comovente o encontro entre Dantés e o seu pai, assim como comovente o encontro entre ele e Mercedes.

Tudo se vai desenrolando num ritmo alegre. Dantés tem apenas 20 anos, está de bem com a vida e tem um futuro promissor. Assim, feliz, Dantés pede Mercedes em casamento e, como esta aceita, resolvem festejar esse noivado num banquete para o qual convida todos os seus amigos. Porém, quando todos estavam sentados à mesa, eis que irrompem pela festa quatro soldados e um cabo com ordem de prisão a Edmond Dantés.

O assombro dos convidados é total.

Dantés havia chegado há poucos dias, eram demasiado jovem para ter cometido algum crime, não se lhe conheciam inimigos, que tipo de crime seria acusado?

Despreocupado e julgando-se tratar de um engano, Dantés acompanha os soldados à presença do Procurador Régio que, e por uma vicissitude anómala, acabou por ser representado por mr. Villeford, homem de ambição desmedida que via naquela detenção a sua oportunidade de reconhecimento.

É então que nesse interrogatório, Dantés sabe que é acusado de conspirar contra o reino de França, devido à circunstância de ser possuidor de uma carta do próprio Napoleão, que se destinava a uma outra pessoa em Paris, carta essa que havia sido levantada numa curta paragem na Ilha de Elba, aquando do regresso do Pharaon. Dantés não desmente tal carta, no entanto afirma não ser conhecedor do teor da mesma e ter apenas cumprido o último desejo do seu moribundo comandante.

Tal desculpa, proferida de uma forma sincera, convence Villeford que lê então a carta e o nome do seu destinatário, nome esse apenas conhecido por Dantés. E é então que a face de Villeford fica rubra, o destinatário dava pelo nome de Noitier, simplesmente o pai de Villeford.

Agora imaginem.

Um homem ambicioso, monárquico convicto, que de repente vê o seu pai metido numa conspiração que lhe poderá arruinar o futuro. Como agir?

Simples.

Queima a carta e joga Dantés numa prisão de alta segurança, com o rótulo de perigoso preso político.

E é assim que o infeliz Dantés se vê numa cela, sem ver a luz do dia e sem saber que mal fez ao mundo para ser preso sem qualquer julgamento. E tudo, sabemos nós, por causa de uma falsa denúncia de dois homens que o invejavam. Um invejava o amor de Mercedes e o outro o seu lugar de comandante. A juntar a isso, a ambição de mr. Villefort. Uma mistura fatal para o jovem Dantés.

Condenado à solidão numa escura e húmida masmorra situada na prisão do Castelo de If, Dantés amaldiçoa a sua sorte, sentido-se perto da loucura. No entanto um feixe de esperança vem iluminar a sua miserável vida, quando e através de um túnel secreto, conhece um outro preso: o abade Faria.

Inicia-se aí uma longa e sólida amizade que irá proporcionar a Dantés toda uma transformação intelectual e mental, pois Faria revela-se um autêntico sábio e nesses anos de convívio, ensina História, Ciência e Política a Dantés, conhecimentos esses que servirão no futuro e que transformarão Dantés num outro homem.

E os anos passam. Dantés, através da ajuda de Faria, acaba por se aperceber do ignóbil trama que foi sujeito, vendo então desenvolver nele um sentimento de vingança contra aqueles que o colocaram na prisão.

Até que certa altura, e vendo que a sua vida estaria perto do seu término, o abade Faria conta um segredo a Dantés que remontava ao tempo dos Bórgia. Faria era dono de um imenso tesouro escondido numa caverna na Ilha de Monte Cristo, obrigando-o a memorizar um mapa do local, o abade Faria oferece esse tesouro a Dantés. Um dia quando saísse em liberdade, Dantés seria um homem muito rico. No entanto ambos sabiam que essa hipótese era remota.

Mas um acontecimento irá dar origem à fuga de Dantés e ao seu regresso à civilização. Então, possuidor de uma imensa fortuna, Dantés sob a capa de Conde de Monte Cristo, irá encetar um minucioso plano de vingança contra aqueles que o traíram, vingança essa acima da imaginação humana e acima do poder de Deus. Uma vingança diabólica.

Esta obra, que tem cerca de 1200 páginas, pode-se considerar um romance histórico assente numa intrincada estratégia que o desvia também para um romance de aventuras.

Para além da situação política da França, Dumas aborda toda a mentalidade e sobretudo a forma como ela se vai alterando à medida que se vai alterando o cenário político.

Depois e a forma como Dumas descreve o luxo e a opulência da classe alta, parece-me que Dumas acaba por tecer também um cenário biográfico da sua paixão pelas coisas boas.

O fio condutor da história não tem qualquer falha. Todo ele é coerente. O intrincado jogo de vingança, embora pareça não fazer sentido ou não ter ligações entre as várias personagens, vai-se interligando sob a forma de um puzzle, acabando por encaixar todas as peças.

A vingança é mesmo terrível. Chegamos a sentir pena das vítimas, no entanto Dumas faz questão de mostrar que mesmo num coração duro, morto pelo sofrimento, há ainda esperança e sentimento fraternal.

"O Conde de Monte Cristo" foi durante muito tempo o livro da minha vida.

Actualmente já não entro nesse género de considerações porque já li grandes livros, no entanto este é um dos mais belos romances que li até à data , já o tendo relido pelo menos três vezes.

É uma obra que tem de tudo: amor, ódio, traição, jogos políticos, História e vingança.

A história está muito bem contada. Dumas não precipita os acontecimentos. Tudo tem um sentido. A sua forma narrativa é cativante, todos os capítulos acabam, em suspense, deixando o leitor ansioso para saber o que vai acontecer. Imaginem na altura em que ele o publicou por capítulos em folhetins, imagino o suspense que deve ter criado.

Como curiosidade, após o retumbante êxito da obra em praticamente toda a Europa, Alexandre Dumas adquiriu uma magnífica residência nos arredores de Paris a qual baptizou como Castelo de Monte Cristo, residência essa que se encontra actualmente aberta ao público como casa-museu do escritor.

Em 2002, Alexandre Dumas teve o reconhecimento que lhe era devido pele França. Cerca de 130 anos depois da sua morte, os restos mortais de Dumas foram exumados e transportados para o Panteão Nacional.

O seu caixão, transportado por quatro homens vestidos como os mosqueteiros Athos, Porthos, Aramos e D'Artagnan, colocaram a sua urna ao lado de distintos personagens franceses como Rosseau, Voltaire e Victor Hugo.

Este "Conde de Monte Cristo" é a obra maior de Alexandre Dumas e um dos melhores livros de toda a literatura.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Voz da Terra (A) - Miguel Real


Que grande, grande, grande livro.

Excelente, soberbo, espantoso!

”A Voz a Terra” do prof. Miguel Real (pseudónimo do professor e escritor Luís Martins), é um dos melhores livros que li até à data e, considero, um dos livros mais importantes da literatura portuguesa.

Assente em estudos profundos, o prof. Miguel Real oferece-nos uma obra importantíssima que nos ajuda a compreender, não só a actual mentalidade portuguesa, como também compreender todo um período que marcou a História da Europa, sobretudo uma época onde sucessivos acontecimentos serviram de fronteira entre mentalidades.

Júlio Telles Fernandes, português emigrado no Brasil, regressa a Lisboa tendo em mente duas missões: entregar à judia Violante Dias, prima da sua falecida mulher, um anel que vem passando de geração em geração e, segundo, interceder junto do ministro Sebastião José de Carvalho e Mello (Marquês de Pombal) pela independência de Pernambuco.

O livro começa assim com a entrada do navio na barra de Lisboa e, logo ali, surge-nos um fresco da velha Lisboa oitocentista, no entanto uma visão de alguém que há muito está longe e que vê a cidade de uma forma suja, estrangulada sobre si mesma.

Recebido como um herói, sobretudo porque é tido como um homem rico, sendo viúvo, logo um bom partido, Júlio Telles Fernandes irá iniciar um périplo por toda a cidade de Lisboa, inundando-nos de pormenores e curiosidades deliciosas, descrevendo lugares, modos de vida e mentalidades. Tudo isso nos é narrado até ao surgimento inesperado da Voz da Terra, o terramoto de 02 de Novembro de 1755.

E é precisamente o terramoto o centro da narrativa, o acontecimento para o qual convergem o antes e após, ou seja, o terramoto marca de uma forma inegável a transição de mentalidades, uma oportunidade do governo português para lançar o país rumo ao progresso, ao futuro.

Isso é claro, pois é explorado o antes do terramoto. Um país amorfo, rude, fanático, onde existia mais de 200.000 monges, freiras e padres. Mais de um terço de Portugal pertencia-lhes. 500 conventos, igrejas, capelas, ermidas, mosteiros, nem um vintém de impostos pago para o bem comum, era só receber, sacar subsídios, doações e privilégios. A burguesia e o clero ocupavam os lugares chave no governo e demais instituições e era este o Portugal que existia antes do terramoto e foi este Portugal que desaba com a cidade de Lisboa em 1755, acontecimento que, diga-se, está descrito de uma forma magistral.

Ou seja, se quisermos, e eu fui por aí, o terramoto foi bem real mas é também uma gigantesca metáfora da mudança.

É descrito também a condenação e martírio dos Távoras, duque de Aveiro e do Padre Malagrida. É arrepiante a descrição das torturas e execuções, no entanto é notório o propósito de tais execuções. Não foram meras perseguições. A brutalidade das execuções foram um aviso a quem ousasse criticar a nova política do estado português. Antes que o clero e a nobreza pensasse em qualquer tipo de rebeliões (algo normalíssimo na altura), o estado aproveita uma conspiração mal explicada e urdida para executar duas das famílias mais influentes e executa o padre Malagrida que possuía também um alto grau de influência.

O terramoto é assim o clique para uma mudança que já germinava na cabeça do Marquês do Pombal, sobretudo ao nível das mentalidades, marcando também o surgimento do ensino público, o fim da escolástica em favor da filosofia natural, o experimentalismo e o racionalismo, até pelo facto dos títulos serem agora atribuídos ao esforço e não pelo direito familiar, ou seja, a própria renovação da aristocracia.

Um livro impressionante que, recorde-se, venceu o Prémio Fernando Pessoa 2006.

Acreditem, um romance histórico de valor incalculável no panorama cultural português.

Uma nota também para as várias estampas e gravuras do séc. XVIII relacionadas com o terramoto e com vários episódios que permitiram a Miguel Real efectuar várias das suas descrições.

Por fim deixo esta citação de Júlio já perto do fim que, quanto a mim, marca o livro: ”... Lisboa é uma cidade sitiada, ontem uma febre do Império, da Fé, do Evangelho, hoje é a febre da Europa, do Progresso, do Comércio, da Indústria, tudo é esmagado cruelmente em nome da nova missão de Portugal, ser europeu, quanto Paris, como se o nosso modo de ser não fosse também europeu, e, irado, acrescentou, era preciso esmagar as oito canas dos membros do duque de Aveiro e do marquês de Távora pai?, era preciso martelar-lhes o ventre em vez da arcada do peito, para lhes prolongar a agonia?..., será que o Portugal que Sebastião José de Carvalho e Mello quer vingar é assim tão diferente do Portugal de d. João V), não será o mesmo, as atitudes extremadas, a mesma infinita capacidade de fanatização, o mesmo sentido missionário, antes do Império, hoje na Europa? ..., será que a adoração pelo comércio e pela indústria não vieram substituir a adoração pelas ordens religiosas, Jesuítas e Franciscanos

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Lixo - Irvine Welsh


Imaginem um tipo que é corrupto, violento, sádico, machista, racista, misantropo, alcoólico, consumidor de drogas, apreciador de fast-food (principalmente peixe frito e caril), consumidor dos serviços de prostitutas sem usar protecção, pulha com os amigos que, para além de os enganar, ainda tenta engatar as mulheres deles, adúltero e promíscuo (tudo o que vem à rede é peixe e não tem o mínimo respeito pelas mulheres, todas elas servem para as suas necessidades) e, finalmente, vive atormentado com a puta da lombriga que lhe lixa a porra da vida e que, imagine-se, até tem direito a pensar... a lombriga.

E se vos disser que este tipo, que de certo acharão como um ser repugnante, é um agente da autoridade de Edimburgo, graduado e que até goza do estatuto de excelente pessoa em toda a comunidade, inclusive até entre os colegas?

Lindo, não é?

Pois bem, "Lixo" é o livro mais hilariante que já li e, ao mesmo tempo, um dos livros mais repugnantes, sobretudo por causa de seu personagem principal: O sargento Detective Bruce Robertson.

Irvine Welsh nasceu em Edimburgo, Escócia, em 1961. Autor de pequenos textos que foram sendo declinados por algumas editoras, vê o seu nome catapultado para a fama quando em 1994 consegue publicar o seu primeiro livro: "Trainspotting" que, e como muitos conhecem, narrava as aventuras e principalmente as desventuras de um grupo de amigos que estavam enterrados na droga.

É este o livro que torna então conhecido Welsh, a crítica louvou-lhe a forma irónica e mordaz da sua escrita, sem medos ele denunciava o submundo de Edimburgo, submundo esse, aliás, tão semelhante a tantos outros.

O seu segundo livro, "Ectasy", escrito em 1995, é um conjunto de 3 contos que se vão interligar no fim, no entanto e neste caso, Welsh assume um estilo mais duro, mais sádico e mais radical. Os contos são extremamente violentos, nojentos mesmo, e a sensação que fica é que Welsh terá ficado deslumbrado com o enorme sucesso de "Trainspotting", correndo mesmo o risco de ficar conhecido apenas por esse livro.

Até que em 1998, Irvine Welsh dá a conhecer este "Lixo", livro que, segundo a minha opinião e já li todos os livros dele, é o melhor. A escrita é fluida, parece ser um daqueles livros que nascem num momento de verdadeira inspiração. A história é mordaz, irónica, sádica e constitui uma autêntica pedrada no sistema policial escocês, pois na pele de Bruce Robertson, Welsh caracteriza, não só a sua ideia do polícia escocês, como também de todo o sistema.

Ele então desenha-nos um polícia com todos aqueles defeitos que descrevi no início, um polícia que despreza tudo e todos, negligente com o serviço e até consigo próprio, um homem que não tem qualquer respeito por ninguém.

Bruce Robertson é esse homem. Importunado por uma grande e feliz lombriga, que até nos contempla com pensamentos profundos, Bruce está preocupado com uma promoção que, aparentemente, se destina a ele. No entanto há a hipótese de ser um outro colega, então, nada melhor que lançar maldosos boatos desse colega.

Entretanto, que chatice, sucede um assassinato de um negro, em condições extremamente violenta e sádica, que vai levar com que Bruce tenha, se calhar, de adiar as suas mini férias que já havia marcado para a época natalícia, umas férias de arromba em Amesterdão, cheias de álcool, drogas e sexo.

Que se lixe o gajo assassinado, e lá vai o nosso amigo Bruce, acompanhado de um amigalhaço tótó, para Amesterdão, para uma semana de completa depravação. Todo o livro é irónico e divertido, mas nessa semana, Bruce mostra o quanto asqueroso é pois tudo faz para lixar o amigo: desde roubar-lhe dinheiro e depois emprestar-lhe esse dinheiro; parte-lhe os óculos; faz telefonemas obscenos para a mulher deste; enfim, um animal.

E entretanto quando regressa, já saciado de drogas e semi saciado de sexo...

E não conto mais!

Este é o melhor livro de Welsh, aquele onde ele exprime todo o seu especial talento.

Digo especial porque consegue colocar num só personagem todas as más facetas que um ser humano pode ter, construindo contudo, uma forma de agir que desencadeia em nós toda uma simpatia pelo personagem. Para além disso, é exímio na forma mordaz e irónica como descreve as situações e como vai narrando a história, sempre na primeira pessoa. Sente-se que a história está totalmente controlada, é coerente, tem um princípio, meio e fim, que se encaixam na perfeição.

O personagem Bruce Robertson é repugnante, desafia a própria vida, é malicioso e inteligente, maníaco pelo sexo, drogas e rock-and-roll e, sobretudo, tem imensa piada. Um homem que espelha em si próprio todos os males das sociedades contemporâneas.

Aconselho todos os livros de Irvine Welsh, sobretudo este "lixo" e "Porno" que, muitos desconhecem, é a continuação, dez anos depois, de "Trainspotting".

Penso que este livro não deverá ser muito do agrado das senhoras, dada a forma como Bruce as trata e o modo como ele as vê, mas e apartando-se disso, penso que Welsh é um dos melhores escritores da actualidade.

Meus Problemas (Os) - Miguel Esteves Cardoso



Miguel Esteves Cardoso foi um jornalista que durante os anos 80 e início dos anos 90, teve uma voz activa na vida social portuguesa, quer enquanto simples cronista do “Expresso” e “Público”, quer mesmo, enquanto membro permanente na “Noite da Má Lingua”, onde ele e uns tantos batiam e evidenciam vários “podres” da nossa sociedade.

Dono de uma forma de se expressar extremamente mordaz mas bem objectiva, Esteves Cardoso era bastante corrosivo na forma como elaborava as suas análises, quer aquelas proferidas no programa de tv, quer as outras que foi escrevendo para os jornais.

E são precisamente algumas dessas crónicas, nomeadamente algumas publicadas no “Expresso” entre 1986 e 1987, numa coluna chamada “Os meus problemas”, que compõe este livro que tem tanto de brilhante como de hilariante.

Assim, este livro é simplesmente um conjunto de crónicas onde Esteves Cardoso opina sobre a forma de estar, ver e agir do povo português, evidenciando as suas mais carismáticas manias e fobias, sempre num tom irónico e mordaz.

Começando por “Cartas portuguesas”, as “classes automóveis”, “libertação dos maridos”, “a fogueira do ciúme”, “adeus, ó tchau, vai-te embora”, enfim, acreditem é dos livros mais hilariantes que já li e ao mesmo tempo, um livro que toca em vários defeitos do povo português. Pese embora as distâncias, um género de Woody Allen.

E é curioso constatar que não é necessário escrever-se livros sérios, estudos filosóficos do “ser português”, pois qualquer um em a capacidade de análise e de formar opinião, no entanto, Miguel Esteves Cardoso demonstra uma capacidade de análise que vai além dessa simplicidade, ele, para além de evidenciar alguns dos “nossos” defeitos, demonstra o quão ridículo e caricata são muitas das situações que se sucedem dia após dia e, mais importante, a gravidade e importância que se dão a essas situações.

Não sei se me fiz entender…

Demonstrando que não é necessário ser um génio despótico para se imitir qualquer tipo de análises, Esteves Cardoso lega-nos um conjunto de crónicas extremamente bem elaboradas e com alvos bem definidos.

Grandes gargalhadas que se soltam daquelas páginas.

domingo, 13 de abril de 2008

Pêndulo de Foucault (O) - Umberto Eco



Há livros que a gente lê e logo os arrumamos na prateleira para só voltar a pegar neles apenas para lhes limpar o pó. Outros há que os recomendamos e mostramo-los a toda a gente que lá vai a casa, dizendo: "grande livro, aconselho". Outros há ainda que depois de lidos, são feitos vários projectos de releitura e são constantemente afagados, folheados, sempre recordados como um amigo muito especial. Finalmente existem aqueles que nem sabemos que rótulo lhes dar nem como classificá-los.

Este "Pêndulo de Foucault" é um desses livros que nem sei o que dizer.

Para quem conhece ou já leu algum livro de Umberto Eco, decerto saberá que ler o que ele escreve, torna-se, grosso modo, um exercício difícil. Para além de ter o costume de colocar inúmeras citações em latim e outros idiomas, geralmente consegue criar todo um cenário onde o leitor tem que possuir alguns conhecimentos, alguma cultura, para além de alguma paciência.

Extremamente eruditos, o que por si só já tornam os livros algo complicados de acompanhar, Eco gosta também de brincar com as situações que vai criando e sobretudo expor opiniões e conceitos cientifico e filosóficos, sem falar também na forma exaustiva como descreve algumas situações que, várias vezes, não levam a lado nenhum. Ou seja, tal como dizia uma amiga, é por vezes um chato.

Neste "Pêndulo de Foucault" ele não foge a isso, bem pelo contrário.

Três homens, que não são propriamente amigos, acabam por se unir a uma pequena e estranha editora no sentido de escreverem um livro místico com a intenção de o tornarem um best-seller.

Devido a um igualmente estranho acontecimento, esses três homens começam a colectar dados e factos sobre várias sociedades secretas, sobretudo sobre as suas Histórias, os Homens que estiveram por detrás delas, seus rituais, etc. Assim, acabam por descobrir vários elementos comuns, que os levam a considerar a hipótese da existência de um "Plano" secreto cuja mensagem teria sido criada pelos Templários antes da sua oficial extinção, mas que ainda poderia ser posto em prática nos dias de hoje por eventuais sociedades secretas que se consideravam procedentes dos Templários.

A partir daí há todo um desenrolar de acontecimentos que vão tomando um rumo cada vez mais sério e perigoso, até ao ponto desses três homens sentirem as suas vidas em perigo por alguém que julga ser capaz de avançar com esse "Plano".

Numa prosa altamente erudita, é claríssima a intenção de Eco em parodiar com as teses de conspirações atribuídas a essas sociedade secretas, sobretudo no que diz respeito à numerologia - e nisso existem partes deliciosas -, rituais e outras tradições ocultas.

O nome "Pêndulo de Foucault" é apenas uma metáfora utilizada por Eco no sentido de contrapor a experiência de Michel Foucault a esse hipotético Plano dos Templários. Ou seja, ambos oscilam de uma forma regular ao longo da eternidade, esquerdo - direito, verdade - mentira. Depende sempre do julgamento e das crenças de cada um.

É um livro cheio de curiosidades Históricas, científicas e ocultistas, onde Umberto Eco efectua realmente um bom trabalho de escrita, mas que acaba por sair algo extremamente pesado para um leitor comum, até porque é um livro em constante luta com o leitor, não apenas na sua extensa erudição, como também pondo-nos à prova crenças e teorias.

Não desgostei, mas também não gostei.

Até porque várias vezes tive que voltar atrás para reler certos parágrafos, e simplesmente porque chegou a ser entendiante a narração da história e no final, depois de me aperceber do significado de tudo aquilo, acabei por concluir que foi pouco o prazer que o livro me deu.

Já tenho lido que este é um livro similar ao "Código Da Vinci". Não se iludam, está muito longe de ser um livro do mesmo género, pois abordar os Templários e outras sociedades, não os assemelha. Este livro é muito denso e cansativo, possui uma linha e um objectivo completamente diferente, assim como a própria escrita e coerência entre os escritores são diferentes, mas e neste casos Umberto Eco ganha por k.o. ao nível da informação prestada, pese embora perca ao nível do entretenimento.

sábado, 12 de abril de 2008

Contos - Hans Christian Andersen



Hans Christian Andersen nasceu em Copenhague, Dinamarca, no dia 4 de Agosto de 1805. filho de um sapateiro e de uma lavadeira, Hans teve uma infância muito dura, tendo passado inclusivamente fome, no entanto e em sua casa, o amor nunca faltou.

Desde muito cedo sentiu que o seu destino estava ligado às artes, pois a sua paixão pela música e pela dança levaram-no a pensar que o seu futuro estaria numa dessas duas actividades, mas foram precisamente as dificuldades sentidas na infância, combinada com a humilde profissões dos pais, que lhe moldam o carácter e o levam ao mundo da literatura, poesia e teatro.

Christian Andersen era humilde, honesto e de índole boa, dotado de uma enorme capacidade de observação, apaixonou-se pelos contos tradicionais dinamarqueses, sendo daí que lhe veio a inspiração para criar os seus contos, contos esses que desde essa altura, alimentaram os sonhos de adultos e crianças por todo o mundo.

São muitos os registos que chegaram aos nossos dias sobre a vida deste poeta, principalmente devido ao facto de ele ter sido reconhecido e acarinhado ainda em vida, sendo mesmo visto como um herói nacional.

Sabe-se, por exemplo, que o seu aniversário era festejado em toda a Dinamarca e que até o rei se deslocava a casa de Andersen para o cumprimentar pessoalmente.

Não quero aqui entrar em considerações sobre a vida deste ilustre escritor, simplesmente porque existe muitos textos detalhados sobre a sua vida, uma vida rica que se estendeu por vários países (entre os quais Portugal), para quem esteja interessado, sugiro uma visita a este site: http://purl.pt/768/1/, site que faz uma justa homenagem a Hans Christian Andersen.

Esta obra, ”Contos”, traz a grande maioria dos seus contos. Uns conhecidos e levados à cena de várias formas, outros desconhecidos, mas que nada ficam a dever aos outros.

Quero contudo deixar uma ressalva que raramente vejo comentada.

Hans Christian Andersen escreveu estes contos, mas raramente os fez a pensar nas crianças, aliás, ele quando os escreveu tinha como certo que eles se destinavam mais para as crianças, no entanto, ele achava que as crianças tinham que saber que o mundo não era “cor-de-rosa” e a linguagem utilizada e sobretudo a forma do conto, era nua a crua. Os contos de Andersen são essencialmente morais, todos eles têm uma mensagem subjacente e raros são aqueles que acabam bem, inclusivamente a maior parte deles tem um fim violento.

A edição que possuo é a do “Público”, lançada no ano da comemoração dos 200 anos do nascimento do escritor por ocasião do Natal, edição essa que contém os contos na sua forma original e, para medirem o grau dos contos, apenas dois ou três desses contos posso contá-los à minha filha sem estar a medir as palavras.

Pois bem, quem não conhece curiosidades como o ”O Patinho Feio”, “A Princesa e a Ervilha”, “A sereiazinha”, “A vestimenta do Imperador”, “A polegarzinha”, “A rapariguinha dos fósforos”, “O soldadinho de chumbo”. Ao que junto contos fantásticos como ”A gota de água”, “O Elfo da rosa”, “É absolutamente certo” (este conto é fantástico e o preferido da minha filha), ”Os sapatos vermelhos”, entre outros. Contos simples, entre os fantástico e o realista, escrito em tom poético e sempre tendo como motivo principal a pobreza, a humildade, e os necessitados. E é aqui que os seus contos ganham estatura, pois eles levam os pobres a sonhar e a acreditar que não são menos que ninguém, que a humanidade é igual em qualquer extracto social, e que, se calhar, os pobres e os humildes têm mais do que os ricos: Amor, esperança e compaixão.

Pessoalmente gosto muitos dos contos deste fabuloso poeta, que chegou a passar algum tempo em Portugal, nomeadamente em Sintra, numa pequena casa onde actualmente se encontra uma placa a celebrar o facto. Andersen gostava tanto do nosso país e de Sintra que chegou a escrever um livro com o título: “Viagem a Portugal”.

A escrita é simples e fluída. Os contos são todos muito curtos e é fácil descortinar qual a moralidade do conto.

Aconselho os contos deste grande poeta, sobretudo pela forma como nos faz sonhar e nos liga a outros mundos absolutamente mágicos.

domingo, 6 de abril de 2008

Meridiano de Sangue - Cormac McCarthy

“Meridiano de Sangue” baseia-se em factos verídicos ocorridos em meados do séc. XIX na fronteira entre os Estados Unidos da América e o México.

Embora o livro possua várias personagens que interagem entre si, o personagem principal ou pelo menos aquele que serve como condutor da história, é um rapaz que, desiludido com a vida que leva, foge de casa em busca de aventuras.

Numa América violentíssima, acaba por se juntar a um grupo de foras da lei que deixam um rasto de sangue por onde passam.

Neste grupo há um rol de personagens fascinantes, que quanto a mim são uma das mais valias da obra, encabeçados pelo juiz Holden. Um homem monstruoso, assassino implacável, um ser que parece ser a reencarnação do próprio Satanás, sobretudo porque não mostra qualquer tipo de remorsos e tem uma cultura muito acima da média, parecendo dominar qualquer área que se aborde.

Quanto a mim é esta a principal personagem da obra, até porque é nele que Cormac assenta toda a crueldade e violência da época, desmistificando, de facto, o mito da vitimização dos aborígenes.

Neste livro os índios atacam de uma forma impiedosa e implacável pessoas inocentes, não deixando nada vivo à sua passagem.

Do lado oposto os brancos respondem “dente por dente” às atrocidades cometendo semelhantes atrocidades.

É um livro um pouco difícil de ler, não só devido ao horror de muitas descrições como também ao próprio estilo de Cormac. Porém, conforme também é sua imagem de marca, Cormac tem a capacidade de transmitir sensações, parecendo por vezes que a acção se desenrola à frente dos nossos olhos, algo como um filme, só que com cheiros e sabores.

Um romance com uma força brutal que nos atinge de forma violenta através das percepções sentida página a página.

domingo, 30 de março de 2008

Terra Bendita - Pearl S. Buck

”Terra Bendita” é o primeiro livro que leio de Pearl S. Buck, Prémio Nobel da Literatura em 1938.
É também o primeiro volume de uma trilogia que a autora consagra à China, sua segunda pátria, pois com apenas quatro meses foi viver para aquele país.
Americana de nascimento, Buck tinha a alma daquele país milenar, conhecendo os hábitos e a cultura chinesa do princípio do séc. XX, cultura essa assente em tradições fortíssimas onde a mulher tinha, e penso que continua a ter, um papel secundário e totalmente subjugado ao homem.
Assim e nesta trilogia, Buck escreve uma história simples sobre a vivência de uma família tradicional numa qualquer aldeia tradicional, no entanto não se trata de uma simples descrição que podíamos ler e deitar fora, de forma alguma, essa descrição narra o modo de vida de um país culturalmente fechado, sobretudo quando a Revolução chinesa de 1949 ainda não passava de uma utopia.
Wang Lung é um agricultor que se dirige à casa senhorial da aldeia a fim de ir buscar uma mulher daquela casa para a tomar como esposa.
Como era hábito na época onde a história tem lugar, fim da década de 20, início da de 30 do séc. XX, essas grandes casas, propriedades dos senhores ricos que tinham uma série de escravas que serviam para servir, literalmente, o senhor e a sua família, até a nível sexual.
Desde logo é nítido o papel secundário e escravizante da mulher. Ela é vista como escrava, simplesmente.
E lá vai Wang Lung até essa casa onde a sua futura mulher o espera. Ele nunca a viu, nem lhe interessa. O que lhe interessa é que ela saiba cozinhar, tratar da casa e que seja boa parideira.
No entanto e quando conhece essa mulher, O-Lan, fica algo decepcionado com a sua figura algo grotesca, ou sejam ela tem a aparência das mulheres mongóis, e ele, enquanto chinês do Sul, acha-a feia, sobretudo porque não possue os pés pequeninos, conforme uma boa mulher chinesa deve ter.
Mas nem tudo é mau, por outro lado, ele depressa se apercebe que a fealdade de O-Lan teve o mérito de a ter poupado aos avanços dos homens daquela casa, logo, O-Lan é virgem, um luxo para um agricultor pobretana como é Wang Lung.
Leva-a para casa e começa aí uma vida de intenso trabalho no campo, sempre e de uma forma que até surpreende Wang, com a ajuda de O-Lan que, sempre atenta aos seus afazeres domésticos, ainda saí para o campo. Assim, e mesmo sofrendo alguns revés, Wang Lung acaba por enriquecer.
No entanto a riqueza sobe-lhe à cabeça, iniciando então uma vida de esbanjamento, sempre sob o olhar acusador de O-Lan, que nada podia fazer.
Na minha opinião, o centro da história é precisamente o modo de vida tradicional da China rural, da China profunda. Os personagens que Buck cria são apenas o meio.
Mesmo o facto de Wang se transformar num homem rico, que vê o dinheiro como algo que lhe dá posição na aldeia e acesso a lugares proibidos aos pobres, faz com que fiquemos com a percepção que a posição hierárquica foi, e ainda o é, algo de prioritário na China.
Obviamente que podemos dizer que esta história se adaptaria a qualquer nação, principalmente na altura da acção. Em parte concordo, principalmente ao nível do papel da mulher, no entanto há características próprias daquela zona do globo, sobretudo como a mulher era encarada, comprada como se fosse um mero produto, o facto de existir o hábito enraizado de fumar ópio, as casas de chá, as cheias e a própria agricultura tão baseada no arroz, passando também por uma cultura patriarca, onde os idosos eram sagrados.
Todas essas características estão fortemente descritas e é a partir delas que a história circula.
”Terra Bendita” é um livro muito bom e que se lê sem grandes dificuldades.
Porém a mim soube-me a pouco.
O cenário é-nos apresentado e a história arranca, no entanto e embora Buck desenvolva muito bem o trama, o mesmo torna-se algo monótono, pois as cenas repetem-se um pouco. A fixação de Wang pela terra repete-se praticamente página a página. As considerações sobre as mulheres são sempre semelhantes e até a vida descrita leva o livro num rumo modorrento.
Não é nada que incomode ou que tire brilhantismo à obra, mas é um livro triste, escuro, algo aborrecido, mas e atenção, um livro que nos dá a conhecer essa cultura fechada, um relato exemplar da China rural.

terça-feira, 25 de março de 2008

Amante de Lady Chatterley (O) - D. H. Lawrence

Quero desde já adiantar que esta opinião irá abordar esta obra numa vertente que visa essencialmente a análise entre a obra, a época em que foi escrita e, sobretudo, as reais intenções do autor. Logo, uma opinião nua e crua, a mesma forma que Lawrence utilizou para descrever as relações sexuais entre Connie Chatterley e Oliver Mellors.

David Herbet Lawrence, nasceu em Eastwood, Inglaterra, no ano de 1885.

Sabe-se que o seu amor pelo erotismo se revelou bem cedo, vindo então a escrever pequenos textos onde o amor e o sexo eram descritos como uma força da natureza, uma expressão natural do sentimento humano. Para Lawrence, as mulheres eram a força motriz da natureza, as mães e esposas de todos os homens e os seres que carregavam no ventre o vaso da semente masculina. A sua importância para os homens vai para além do que a sociedade de Lawrence defendia, ele achava que a existência da mulher era decisiva para a sobrevivência dos homens, eram o bálsamo que alimentavam a existência dos homens. Em suma, Lawrence amava as mulheres.

Mas toda esta obsessão que, a julgar pela sua vida, deverá ter tido início pela profunda adoração que Lawrence sentia pela mãe, iria finalmente explodir em 1914, curiosamente um ano depois da morte de sua mãe, quando, e depois de romper com a sua noiva, foge para a Prússia com uma mulher casada e mãe de 3 crianças. Frieda era um mulherão, de seios fartos que levou Lawrence a afirmar: "Os seus seios são o meu lar".

É a partir desse relacionamento, que posteriormente vem a dar em casamento, que ele começa a desenvolver para romances algumas das suas ideias. Encontra assim um porto de abrigo onde, e segundo as suas próprias palavras, conhece os verdadeiros prazeres sexuais com a mulher, não olhando a falsos pudores nem vergonhas, entregando-se totalmente ao prazer.

Em 1915 é publicado o seu primeiro romance e que vem a ser classificado de obsceno e imundo: O Arco-Irís. É apreendido por ordem do tribunal, havendo mesmo um pedido de desculpas por parte do editor. Lawrence jamais irá esquecer este acontecimento.

Lawrence julgava o sexo como uma manifestação física natural e normal. Ao pensar dessa forma, ele começou a criar uma série de anticorpos na sociedade inglesa, tão agarrada a valores vitorianos e que via o sexo como algo puramente animal, só sendo digno para o efeito de reprodução.

Lawrence declara então uma espécie de guerra a essa sociedade. Nunca fazendo claramente essa declaração, a intenção do autor não será o de chocar o público, mas sim mostrar o génese da sociedade humana, fazer ver que a excitação sexual é algo de normal, que é necessário "matar" a vergonha que aprisionam as pessoas e a sua mente.

Em 1926, e já a viver na Toscana com a sua musa inspiradora, Lawrence escreve aquele que é, ainda hoje, considerado a sua obra máxima e, saliento, considerada como um dos melhores cem livros do séc. XX: "O Amante de Lady Chatterlley".

Esta é a história de Constance Reid (Connie), uma jovem e atraente mulher, que casa com um rico e oficial inglês, Clifford Chatterlley. Após a lua de mel, ele é enviado de volta para as trincheiras da Primeira Grande Guerra, onde, pouco depois, sofre um grave ferimento que o deixa paralisado da cintura para baixo.

De volta a Inglaterra, o jovem casal vai viver para a mansão de Clifford, começando então uma existência fútil, triste e vazia. Eram ambos jovens, no entanto Clifford estava morto da cintura para baixo, enquanto Connie sentia-se arder por dentro, o desejo subia-lhe pelo corpo em vagas sucessivas e via na sua vida futura algo sem nada.

É então que Lawrence faz o primeiro arremesso.

Vendo a situação da sua esposa, Clifford dá-lhe autorização para que ela arranje um amante e, inclusive, tenha um filho deste, desde que ninguém saiba, que o amante seja alguém de boa posição e que a criança seja considerada dele.

Ao princípio periclitante, ela acaba então por se envolver, não com um homem de boa posição, mas com o caseiro da propriedade, Oliver Mellors, um homem feio e rude, mas que incorpora toda o vigor masculino, vigor esse que encanta e enche de prazer Lady Chatterlley.

A partir daí... meus amigos, Lawrence oferece-nos descrições verdadeiramente excitantes dos encontros sexuais entre Connie e Oliver. Uma verdadeira loucura erótica onde as palavras são colocadas de uma forma nua e crua, mas e ao mesmo tempo, de uma forma terna, acabando em climaxes esplendorosamente apoteóticos.

Obviamente que o romance não se resume apenas a esses encontros sexuais. A história continua e sempre com Lawrence a atirar pedras aos conceitos britânicos e cristãos, pois recordo-me que chega mesmo a colocar em causa a existência de Deus.

Neste romance, e por muito que se façam análises sobre outras intenções do autor, nomeadamente intenções de ferir ou de chocar a sociedade, o que é verdade e isso é claro, penso, contudo, que a grande força e beleza deste romance está essencialmente assente em três factores:

- Na forma como Lawrence constrói o romance. O desencadear das situações faz com que tudo o que acontece seja coerente e, isso é importante, com que nós próprios julguemos os personagens, acabando por nos inquirimos: não fazíamos nós o mesmo, dadas as situações?

- Na forma como Lawrence glorifica a virtude do sexo e os movimentos dos corpos, as descrições dele são divinais.

E algo que detectei pelas descrições, mediante o que sei do autor:

- Este é um romance que homenageia a sua mulher: Frieda. Até digo mais, tenho poucas dúvidas que parte das descrições de Lawrence, são dele próprio com a mulher.

Mas porquê dar uma conotação tão erótica a um livro, cujas descrições ostensivamente sexuais, ocupam apenas 15% do seu todo?

Simplesmente porque essas cenas de sexo transmitem toda a força do sexo. Nessas descrições, homem e mulher entregam-se um ao outro de uma forma muito quente, sem qualquer tipo de pudores. A linguagem que usam é vernácula, todo o ambiente criado é excitante. No entanto todo esse erotismo não acaba quando acaba os movimentos corporais, esse erotismo continua no resto da narrativa, no amor que sentem um pelo outro, nos seus pensamentos e nos carinhos. Um erotismo que nos leva a encarar o sexo como fazendo parte do lado efectivo e não do lado animal como era defendido pelos moralistas. E isso não foi compreendido na época, tanto é que o livro foi apreendido, impedida a sua venda durante alguns anos e Lawrence acusado de atentado ao pudor.

Depois há todo um conflito moral que nos é lançado e cuja resolução depende um pouco de nós próprios. Depende da forma como encaramos aquele quadro, depende da nossa forma de ver o sexo e o amor entre um homem e uma mulher.

Um romance brilhante, perfeito, cheio de mensagens num jogo de sentimentos soberbo, longe portanto de ser um simples romance erótico, muito longe mesmo.

Um romance obrigatório para entendermos o pensamento e moral da sociedade britânica e europeia da primeira metade do século XX e para que possamos entender um pouco do lado efectivo do ser humano.

domingo, 23 de março de 2008

Filho de Deus - Cormac McCarthy

Lester Ballard, vagabundo solitário, vive de expedientes à parte da sociedade, sobrevivendo de uma forma selvagem, cometendo diversos crimes macabros a fim de satisfazer desejos e taras sexuais.

Visto como Ser menor e com tolerância pelos habitantes do lugarejo, Lester desconhece a amizade, fraternidade a solidariedade, vivendo uma existência despovoada, completamente alienada.

Vivendo numa casa abandonada, Lester comete uma série de crimes que colocam em polvorosa toda a vila. No local, embora todos desconfiem da culpabilidade de Lester, ninguém tem a certeza pois, simplesmente, os corpos desaparecem, escondidos algures...

Uma das curiosidades desta obra (tem muitas), é o facto de à medida que o romance avança, pese embora a violência das descrições dos assassinatos e até na forma como Lester se comporta, irmos criando uma crescente simpatia pelo personagem. Mesmo sendo um homem asqueroso, mau, violento e indigno, vamos percebendo que o mundo de Lester não podia ser outro face à sua própria realidade, um fruto da sociedade que agora paga todos os anos de formação.

À semelhança de outros livros que li de Cormac, o autor consegue passar-nos sensações dispares, demonstrando também até quando um homem que se vê privado de amor e educação, obedece a necessidades naturais usando instintos primitivos. Ou seja, no personagem Lester, Cormac espelha qualquer ser humano. A diferença entre Lester e qualquer um de nós, é apenas as realidades de cada um que fazem com que o desenvolvimento faça-nos tomar rumos diferentes, ou não, pois Lester há por ai aos milhões.

Este livro é, quanto a mim, uma excelente metáfora acerca da “Alegoria da Caverna” de Platão.

domingo, 9 de março de 2008

1001 Livros para Ler antes de Morrer – Editado por Peter Boxall



Segundo o prefácio à Edição portuguesa, editada pela Lisma, este livro tem como intenção proporcionar aos fãs do género Romance um conjunto, neste caso 1001, de livros considerados como imprescindíveis, aqueles que eventualmente sejam de leitura obrigatória para os amantes deste género literário.

Esta Edição Internacional foi conseguida através de uma união entre várias editoras de todo o mundo que, por sua vez, reuniram várias centenas de colaboradores (escritores, críticos, jornalistas, etc) chegando assim a um conjunto de obras consideradas como as mais importantes nos cânones literários, algo que a meu ver é inteiramente conseguido tal a excepcionalidade das obras expostas.

Com 960 páginas, dividido por “Antes de 1800”, “Século XIX”, “Século XX” e “Século XXI”, este é um Manual riquíssimo e muito útil aos amantes dos livros (não só para os apreciadores do género), pois de facto contem todas as obras de relevância da literatura universal, assim como outras que, de certo, serão consideradas clássicos no futuro.

Embora afirmar que estes 1001 são mesmo os melhores seja algo muito subjectivo, sem dúvida que o é e eu até penso que falta ali uma obra impar mas que muitos consideram não pertencer aos romances, o certo é que cada livro ali exposto tem uma ficha associada com vários dados muito interessantes onde sobressai um resumo da historia e da sua importância na literatura, bem como, em vários casos, imagens de capas e cartazes das primeiras edições.

Um livro que me delicia e que me tem indicado vários livros que não conhecia, sendo certo que é também um livro que irá tornar realidade um sonho da maioria dos leitores.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Retrato de Dorian Gray (O) - Oscar Wilde



Nascido em Dublin no dia 16 de Outubro de 1854, Oscar Wilde teve uma educação esmerada, vindo a formar-se na famosa Universidade de Oxford cerca de 20 anos depois.
Reconhecido como um excepcional poeta e ensaísta, Wilde era também um homem que tinha consciência da sua inteligência e do fascínio que provocava no público, ao ponto de ter afirmado na alfândega, aquando da sua chegada a Nova Iorque, ”Nada tenho a declarar, excepto o meu génio”.
Levando uma vida relativamente calma, chegando mesmo entre 1887 e 1889 e dirigir uma revista feminina, foi precisamente nesse espaço de tempo que escreve os poucos contos que produziu e o seu único romance, justamente o ”Retrato de Dorian Gray”, e é curioso porque é devido a esse seu único romance que a sua vida se irá alterar de uma forma trágica, levando-o mesmo á sua ruína.
Por altura de 1893, época onde Wilde estreia algumas peças de teatro, conhece Lord Alfred Douglas, que havia ficado fascinado com o romance de Wilde. Dessa amizade nasce uma relação amorosa que levaria o pai de Alfred Douglas, o marquês de Queenberry, a condenar aquela relação, insultando Wilde e um processo que acabaria com a acusação e condenação de Oscar Wilde à prisão pelo crime de homossexualidade.
Aí ficou preso durante dois anos, altura em que escreve uma longa carta de amor a Lord Alfred, que viria a ser publicada em 1905 com o título de ”De Profundis”.
Sendo libertado em 1897, viu-se completamente arruinado. Abandonado pela família, com a reputação completamente destruída, viveu da caridade dos seus poucos amigos até falecer em 1900 em Paris, de meningite, num quarto de hotel, completamente só. Morria assim, um dos grandes génios da literatura que o mundo já teve.
Conhecido e assumido como homossexual, numa época onde isso era tido como um desvio de personalidade, uma anormalidade, Wilde cria uma grande escândalo com a publicação de o ”Retrato de Dorian Gray”, sendo acusado pela opinião pública de ”expor uma ambígua personalidade na figura do seu protagonista”, ou seja, este livro foi visto e foi tido, penso que ainda o é, como um dos ícones da “cultura” homossexual.
Pessoalmente penso que Oscar Wilde pretendeu de facto criar um conjunto de relações entre os personagens que leva a uma leve percepção que, aquelas relações de amizade, são mais do que isso, pois ele, de uma forma muito inteligente, efectua todo um jogo de palavras, de frases que indiciam precisamente relações de maior intimidade entre os personagens.
No entanto este livro parece-me mais um exame à consciência humana e principalmente um romance onde Wilde exorta a plenitude das suas ideias e opiniões acerca da sociedade e do espírito humano.
O ambiente da obra está assim imbuído de homossexualidade. Todos os personagens principais são homens e é num trio deles que o romance se irá desenvolver.
Dorian Gray é um jovem de 20 anos que possui uma beleza desmedida, cuja é retratada por um amigo, o pintor Basil Hallward, que tem por ele uma paixão tal, que pinta o quadro de uma forma tão transcendente que todos ficam estupefactos com a exactidão da pintura, parecendo mesmo que Basil conseguiu captar a própria alma de Dorian.
No dia em que termina o quadro, encontra-se presente Lorde Wolton, homem extremamente inteligente e dono de uma ironia tão vasta, que irá influenciar de uma forma crucial Dorian Gray. Refiro que, quanto a mim, Lorde Wolton personifica o próprio Oscar Wilde. É assombrosamente semelhante o carácter de Wolton com o de Wilde e não é por acaso que é precisamente Wolton que disserta sobre vários assuntos.
Todos ficam estarrecidos com o trabalho de Basil, principalmente por ele ter conseguido captar a extrema beleza de Gray e, nessa altura em que fitava o quadro, Dorian articula um desejo: ”este quadro manterá o meu rosto jovem para sempre, enquanto eu irei envelhecer. Quem me dera que fosse o contrário”.
O livro segue então um rumo assente na promiscuidade entre esses homens, rodeados de opulência num desvario moral que já nos dá a perceber a nociva influência de Lord Wolton em Dorian Gray, que se começa a aperceber que, estranhamente, o quadro apresenta algumas alterações...
Começa dessa forma uma história excepcional, repleta de diálogos extraordinários e de várias alegorias.
É claro a intenção de Wilde em retratar o cinismo e a hipocrisia da aristocracia da época. Há toda uma série de alegorias que pretendem expor toda uma sociedade que se movia por interesses e com pouco ou nenhum respeito pelo próximo, apenas preocupados com as aparências e na ostentação social. Até o facto de o retrato envelhecer, mantendo-se Dorian Gray eternamente jovem, não é nada mais nada menos do que uma alegoria à decadência moral e espiritual dessa mesma sociedade, sempre tão sorridente e bonita, mas suja e podre por dentro.
Wilde brinca assim com toda a sociedade. Penso que foi precisamente por isso que a opinião pública ficou chocada com o romance e não com a insignificante alusão à homossexualidade.
Wilde atira ideias e teorias completamente irónicas, nota-se o sentido de espicaçar, de mostrar o ridículo, de denunciar.
Logo e devido ao desenvolvimento dessas ideias, este acaba por ser um livro não muito fácil de ler, pois é visível que cada diálogo tem um objectivo definido, uma intenção que ultrapassa um mero diálogo.
Muitos vêm este romance como uma elogio à beleza e à vaidade.
Eu admito que sim, mas afirmo que essa apologia é à própria sociedade e ao carácter da mesma, sobretudo ao carácter da burguesia do qual Wilde fazia parte.
O ”Retrato de Dorian Gray” é assim mais um estudo camuflado de romance, cheio de intenções e alegorias à sua sociedade e ao seu próprio circulo. Um romance que é injustamente um ícone da “cultura” homossexual, quando, e na realidade, pouco indicia sobre essa “cultura”.
Um romance soberbo que deve ser lido e analisado à luz da época em que foi escrito, sobretudo ao nível social.