segunda-feira, 16 de março de 2009

Rapaz Perdido (O) - Dave Pelzer


Neste segundo volume da trilogia que se inicia com o livro “Uma criança chamada coisa”, continuamos a seguir a vida atribulada de Dave Pelzer.

Enquanto no primeiro volume tomamos conhecimento da forma macabra como Dave é maltratado pela mãe, neste “Rapaz perdido” seguimos a libertação de Dave e o seu constante saltitar de família em família de adopção.

Dave tem 12 anos quando o pesadelo dos maus tratos físicos e psicológicos termina. No entanto um duplo problema está prestes a começar: o querer entender e esquecer o seu passado e conseguir integrar uma nova sociedade que se lhe depara.

Através dos olhos de uma criança torturada, assustada e completamente desadaptada socialmente, tomamos parte das tentativas de Dave em receber amor e carinho. Carenciado em vários aspectos, Dave tenta dar nas vistas querendo parecer-se o que não é, iniciando-se assim um caminho tortuoso que, após o tribunal decretar a sua separação da família biológica, o leva numa direcção penosa onde tenta ultrapassar os fantasmas do passado.

Mas não se pense que Dave se livra das garras do seu carrasco. Porque é uma criança deslocada, acaba por se ver constantemente em problemas, sendo que os mesmos são aproveitados de uma forma tétrica pela sua mãe, para voltar a levar o caso a tribunal. Demasiadamente insano e brutal, ela está sempre atrás da sua vítima que é o próprio filho.

Embora a fase das torturas físicas tenha de facto passado, este é um livro que descreve o quanto uma criança vítimas de maus tratos sofre psicologicamente. É dura da sua leitura. Ao longo de todo o livro Dave faz inúmeras vezes a mesma pergunta: “porquê?” e é curioso que essa pergunta fica sem resposta, tornando o caso ainda mais mórbido.

Talvez no 3º volume intitulado “Um homem chamado Dave” ele nos dê explicações para a sua terrível infância, mas e pelo que já li em alguns sites, penso que o próprio Dave Pelzer desconhece as razões.

Não vale a pena escrever muito mais sobre este livro porque este livro simplesmente, e perdoe-se a palavra “simplesmente”, narra a história real de David Pelzer a partir da libertação do seu pesadelo. Os problemas posteriores, as humilhações, mas também a esperança num futuro melhor. Tudo isso faz parte do percurso de uma criança assustada e terrivelmente traumatizada.
Por fim deixem-me dizer-vos que é muito interessante a pequena dissertação que ele efectua no final do livro sobre a adopção, desmestificando totalmente, não só o processo, como também os profissionais a ela ligados; as famílias de adopção, nomeando inclusivamente alguns casos que se tornaram lendários; oficiais de polícia que são, em grande parte, responsáveis pelo desencadear do processo de libertação de crianças maltratadas; as organizações, sobretudo uma que se destaca “Jaycees”, que são voluntários e que realizam um trabalho fantástico em prol de crianças sem lar. Dave defende e louva tudo isso, sendo que é perfeitamente compreensível e louvável fazê-lo depois do seu imenso sofrimento.

Deixo dois excertos que me marcaram. Sobretudo porque ao me envolver tanto com esta tragédia, não deixei de me comover ao ler o seguinte.

Tal como o ‘Jaycees’ e o ‘Arrow Project’, talvez a sociedade possa aliviar algumas das frustrações dos que escolheram esta função. Talvez nós possamos enviar um postal a um professor sem uma razão especial, e dizer-lhe apenas obrigado, ou dar um pequeno ramos de flores a uma assistente social. Talvez na próxima vez que virmos um agente da polícia, nós possamos sorrir e cumprimentá-lo; ou oferecer uma pizza a uma família adoptiva. Se nós podemos tratar figuras do espectáculo e do desporto com se fossem dádivas dos deuses, porque é que nós não podemos mostrar um pouco de gratidão para com aqueles que desempenham um tão inestimável papel na nossa comunidade?”

Em Janeiro de 1994 tive o privilégio de apresentar um programa de orientação em Ottumwa, Iowa, a um grupo de pais adoptivos..., ... durante o curso, dei o exemplo de como eu costumava escapar à dor sonhando como um herói. No exterior, o meu herói não se integrava na sociedade dominante, contudo, no interior, o meu herói sabia quem era, e queria ajudar os necessitados. Eu voava, usava uma capa vermelha, e tinha um “S” no peito. Eu era o Super-Homem. Quando eu disso isto, os pais adoptivos desataram a bater palmas. Enquanto as lágrimas corriam pelo rosto de alguns deles, ergueram um cartaz que dizia: “O SUPER-HOMEM TINHA PAIS ADOPTIVOS

Elucidativo. Leiam esta obra!

Classificação: 5

domingo, 8 de março de 2009

PRÉMIO "66?"


Foi-me simpáticamente atribuído pelos blogs "Conta-me Histórias" e "Floresta das Leituras" este Selo/Prémio. Saravá Homem do Leme.
Associado a este Prémio, existem algumas regras:
1. Linkar a pessoa que o/a indicou;
2. Escrever as regras no blogue;
3. Contar 6 coisas aleatórias sobre si;
4. Indicar mais 6 pessoas e colocar os links respectivos no final do post;
5. Deixe a pessoa saber que a indicou, deixando um comentário para ela;
6. Deixe os indicados saberem quando você publicar seu post.

Então as seis coisa sobre mim:
  • Sou um um romântico. Gosto de jantares à luz das velas, oferecer flores, etc...;
  • Adorava abrir uma escola/instituição do mesmo Modelo criado pela Oprah Winfrey na África do Sul;
  • Adoro História e um dos meus maiores sonhos era efectuar turismo Histórico pelas zonas onde viveram civilizações antigas;
  • Adoro Perfumes;
  • Odeio a mentira, o oportunismo , a falta de carácter, a deslealdade e os falsos amigos;
  • Toco viola há uns 20 anos e continua a ser um escape a par dos livros.

Nomeio então seis blogs sobre os quais o mundo quer saber mais:

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Uma Criança Chamada Coisa - Dave Pelzer



Nunca li nada tão brutal como este livro. A história é algo que ultrapassa o limiar do chocante, é algo verdadeiramente insano, animalesco, um autêntico pesadelo que dói ler.
Uma Criança Chamada “Coisa” é o relato de um dos casos mais graves de maus tratos infantis na História dos Estados Unidos. Eu até arriscava a dizer do Mundo, mas depois de ler as considerações finais do autor, fico estarrecido ao perceber que milhões de crianças são tratadas como “coisas”.

Esta é a história de Dave Pelzer, a criança que foi brutalmente maltratada durante toda a sua infância pelos próprios pais, sobretudo pela mãe. É verdade, é o próprio que descreve os seus maus tratos e meus caros e caras amigas, nem imaginam a brutalidade do cenário que estamos prestes a conhecer.
Volto a repetir, é insano todo o relato. É de doidos os castigos que a própria mãe inflige ao filho diante da aquiescência do pai que, estranhamente por medo da mulher, nada fazia para alterar a situação.

Num verdadeiro grito de revolta e alerta Dave Pelzer dá conta de todo o seu sofrimento, descrevendo os castigos que lhe eram aplicados, do ambiente degradado onde vivia, pois e obviamente os seus pais andavam quase sempre alcoolizados e isso é algo que está por detrás dos maus tratos, mas acreditem que não justificam absolutamente nada. Curiosamente e por muito que sofra, Dave tem sempre a vã esperança que as coisas se alterem, que da parte da mãe venha um gesto de carinho, que seja tratado como um ser humano, que tenha uma família, um lar.

À medida que vamos lendo as poucas páginas deste livro (li-o em cerca de 3 horas), acabamos até por colocar em causa a veracidade do relato, não só pela insanidade das situações como também por emergirem algumas questões que, neste livro, não são respondidas, e questões como: “porquê se eram 4 irmãos, apenas Dave era maltratado?”, “Que fez ele de tão grave para a mãe o odiar assim tanto?”, “Embora tratado abaixo de animal, o certo é que ele vai sempre à escola e, embora vestido de uma forma andrajosa, ninguém o comparava com os outros irmãos, não achando isso estranho?”. Embora desconfie do porquê do ódio da mãe, existem de facto algumas questões que não batem certo com a narração, mas o certo é que a história é real, absurdamente real.

Para além de este ser o primeiro livro de uma trilogia, é importante ressalvar o profundo significado que este livro pode ter na sociedade. Já no fim, Dave faz uma pequena dissertação sobre os maus tratos a crianças, abordando a questão da projecção desses maus tratos no futuro da vítima e dos que o rodeiam. Pessoas que crescem atormentadas e que no futuro têm comportamentos assassinos, outros que estendem as suas frustrações nos filhos, na família, nos colegas, etc.

Este é um problema sério e de todos nós, pois uma criança maltratada no presente pode vir a ser um grande problema para a sociedade no futuro, e não é só isso, é um dever enquanto seres humanos alertar as autoridades sobre maus tratos que possamos ter conhecimento, defender aqueles que não têm força para o fazer.

Este é um livro, acreditem, assustador, macabro, violento, sádico, demente. Mas é um livro que deve ser lido, que deve ser divulgado em prol não só das crianças, como também por nós mesmos enquanto seres humanos.

Para quem quiser, procurem no YouTube acerca do assunto. Há vários videos dedicados a esta história e inclusivamente uma entrevista da Oprah ao próprio Dave.
E a próxima opinião será a continuação do pesadelo de Dave Pelzer no 2º volume: “O rapaz perdido”.


ALGUNS EXCERTOS
(e não daqueles muito insanos)

“A mãe então acendeu os bicos de gás do fogão da cozinha. Disse-me que lera um artigo acerca de uma mãe que obrigara o filho a deitar-se sobre um fogão a escaldar. Eu fiquei imediatamente aterrorizado. O meu cérebro ficou paralisado, e as minhas pernas vacilaram, eu queria desaparecer. Fechei os olhos, desejando que ela estivesse longe. O meu cérebro fechou-se, quando senti a mão da mãe agarrar-me o braço como se estivesse drogada...

“...eu sabia que a mãe tinha qualquer coisa terrível na cabeça. Logo que eles partiram (o pai e os irmãos), trouxe uma das fraldas sujas do Russel (irmão mais novo e ainda bebé). Esfregou-me a fralda na cara. Eu tentei manter-me sentado, perfeitamente quieto. Sabia que se me mexesse, seria pior. Não olhei para cima..., ela ajoelhou-se ao meu lado e, numa voz sarcástica, disse: “come-a”.... comecei a chorar...esfregou-me a cara na fralda de um lado para o outro...”

Embora a mãe nunca mais me tivesse mandado engolir amoníaco (imaginem), fez-me beber colheres de detergente algumas vezes...”

sozinho na garagem, senti que estava a perder o controlo. Ansiava por comida... queria um mínimo de respeito, um pouco de dignidade. Ali sentado sobre as mãos (era outro dos castigos), ouvia os meus irmãos a abrir o frigorífico para tirar a sobremesa, e sentia ódio. Olhei para mim. A minha pele estava amarelada, e os meus músculos enfraquecidos...”


Classificação: 5

Eça de Queiroz A Vida Privada - José Calvet Magalhães



Este é um livro destinado sobretudo aos amantes da obra de Eça de Queiroz, embora para o amante da História e da vida cultural e social portuguesa do séc. XIX, tenha também motivos de extremo interesse.

É um livro que aborda a vida de José Maria d’Eça de Queiroz, o José Maria para os amigos e é assim que o autor o denomina durante todo o livro, principalmente porque José Calvet efectua uma divisão clara entre o homem e o escritor, separa-os, e embora tal separação se revele complicada e quase impossível de ser feita, o certo é que este livro narra-nos a vida do homem, do cidadão, que vai muito para além da sua escrita.

Assim o livro, que não é um romance mas sim uma biografia, inicia-se a meio do séc. XIX com o caso que junta os pais de Eça, caso que irá levar a várias confusões, culminando com o registo de José Maria como filho do dr. José Maria Queiroz (ele tinha o nome do pai) e de mãe incógnita.

A juventude de Eça é superficialmente abordada porque simplesmente existem poucos dados e o próprio Eça raramente falava nela. Mas e com o pouco que tem, o autor consegue fazer um pequeno filme da sua infância, chegando à conclusão que teve uma infância feliz. E é com essas raízes que José Maria, já adolescente, vai para Coimbra cursar direito, período esse que já se encontra bem melhor documentado.

E é precisamente por estar excelentemente documentado por cartas de amigos e do próprio Eça, até pela voz própria de testemunhas que conheceram Eça e que foram deixando escrito vários episódios, que o autor descreve a vida do escritor, os seus vícios, virtudes, defeitos, maleitas, medos, dissabores, amores, amizades e inimizades, conhecemos a vida de Eça de Queiroz, o homem, cônsul de profissão e escritor por vocação.

Pessoalmente este livro encantou-me. Eça é um dos meus ídolos, uma das minhas referências, o meu escritor de eleição. Um homem íntegro, sério, mas um homem que, como qualquer ser humano, tinha defeitos, sentia, sofria e amava, possuía uma inteligência e um sentido de humor formidáveis, transpondo para as suas obras a sua visão da sociedade, a melhor herança que podia ter deixado à sua nação.

Desfilando ao lado de personagens igualmente marcantes (Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Rei D. Carlos, Rainha D. Amélia, Emile Zola e tantos outros), sobressaem episódios caricatos da sua vida, uma vida tão cheia e rica, mas uma vida que findou da mesma forma como viveu.Eu adorei e só não o classifico como Obra-Prima porque gostaria de ter lido mais acerca da inspiração para os seus livros, o que estavam por detrás deles, as suas ideias. Aborda isso levemente.


Classificação: 4

Em Demanda da Relíquia - Bernard Cornwell


Há vários anos que sou um profundo admirador de Bernard Cornwell, autor britânico responsável por uma série de romances históricos verdadeiramente excepcionais, destacando contudo a trilogia “Crónicas do senhor da guerra”, simplesmente do melhor que li até à data.

A escrita de Bernard Cornwell não tem nada que possamos classificar como único ou transcendente. O estilo dele é simples, mas é essa simplicidade que torna os seus livros tão empolgantes. Ele não perde muito tempo com descrições desnecessárias. Focalizasse objectivamente na descrição da época abordada e isso é algo que marca inegavelmente o seu estilo, pois ele consegue agarrar o leitor com a escrita, principalmente porque descreve de uma forma nua e crua não só a época, como nunca esconde (até faz gala) a brutalidade da mesma.

Quantos e quantos romances históricos que lemos, alguns até bem interessantes, que mostram a idade medieval cheia de amor e fraternidade, um mar-de-rosas, onde todos são amigos e onde a violência parece algo tão distante...

Com Cornwell vivemos as épocas da forma que elas foram. A brutalidade das guerras, o modo como elas se faziam. As relações humanas, a clara divisão de classes sociais. O modo de uns verem os outros, ou seja, em qualquer romance de Bernard Cornwell entramos nas épocas, quase que os sentimos presentes, quase que entramos no próprio romance. Digo quase porque não pretendo efectuar uma análise mais pormenorizada nem pretendo convencer ninguém, mas eu quando leio Cornwell, sinto-me dentro do romance, vivo as batalhas, consigo até ouvir o relinchar dos cavalos e os gritos dos homens.

Esta trilogia denominada “Em demanda da relíquia” e composta pelos romances “Harlequin”, “Vagabundo” e “O Graal”, situa-nos em plena Guerra dos Cem Anos que opôs a Inglaterra à França por todo o séc. XIV.

Thomas de Hookton é um jovem inglês que vive com os pais numa pequena aldeia piscatória que, subitamente, é invadida por dezenas de soldados franceses que arrasam a aldeia assassinando todos os seus habitantes, exceptuando Thomas que consegue fugir.

Esse episódio, que acaba por ter um objectivo que aqui não revelo, acaba por marcar a vida de Thomas, traçando então o seu destino que o colocará no caminho da maior obsessão de toda a idade medieval, da mais valiosa relíquia da cristandade: O Santo Graal.

Numa época tão marcada pelo surgimento de relíquias que supostamente pertenciam ao próprio Jesus Cristo, Bernard Cornwell retracta brilhantemente todo esse agitado período, onde os acontecimentos se sucedem em catadupa sem qualquer quebra, cheio de entusiasmo, suspense e vitalidade.

Uma trilogia que se lê num só fôlego tal a ânsia de sabermos o que vai acontecer a seguir, qual o desenrolar da batalha ou o destino dos vários personagens, personagens fortes, com alma.

Não sendo o melhor que li de Bernard Cornwell, esta trilogia apresenta-se como uma obra Histórica de eleição e altamente aconselhável para aqueles que escolheram o género histórico como o seu predilecto.


Classificação: 5

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Prémios Atribuidos

Embora o tenha referido em diversas ocasiões e em vários Blogs, nunca aceitei nenhum prémio porque, muito honestamente, nunca vi que utilidade prática que esses prémios pudessem ter, aliás, considerava e considero, que a proliferação de prémios que se assiste actualmente, retira aos bloguistas o foco nos seus blogs.

No entanto, nos últimos dias têm sido vários os prémios que têm atribuído a este blog com o pormenor do que também agora fui convidado, e aceitei, por uma revista para colaborar através de opiniões que aqui vou colocando.

Posto isto alterei a minha postura. Continuo sem valorizar muito esses prémios, no entanto valorizo aqueles que mos atribuem, pois a esses agradeço e demonstro aqui o meu apreço e sensibilidade à vossa amizade, nem imaginam o quanto valorizo a vossa amizade e saber que este meu cantinho é digno das vossas ilustres visitas.

Um bem haja a todos com a garantia que têm aqui também um amigo para TODAS as ocasiões.

Coloquei no lado direito, no fim, as imagens dos prémios e os agradecimentos a quem mos atribuiu.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami



A história é narrada por K., um jovem professor primário.

K. vive apaixonado por Sumire, uma jovem mulher que vive na perspectiva de vir a ser escritora de renome, porém Sumire não escreve nada de palpável criando uma ilusão ou um sonho.

K. ama Sumire, mas Sumire vê em K. apenas um amigo, porém, entre os dois nasce uma intimidade cheia de inconfidências, segredos próprios de amantes.

Entre os dois intromete-se Miu, uma mulher madura, frígida assumida, que contrata Sumire como secretária pessoal.

Sumire apaixona-se perdidamente por Miu, uma paixão entre o platónico e o puramente sexual, tornando K. confidente desse amor.

É neste estranho triângulo que, numa viagem à Grécia de Miu e Sumire, esta última desaparece. Miu, assustada, chama K. para ajudar nas investigações e é a partir daí que se começa a desvendar o mundo destas três personagens.

Adorei este romance, diria mesmo que foi dos poucos que me comoveu e que me tocou bem fundo.

Neste livro Murakami traça de uma forma magistral e ao mesmo tempo nua e crua, um retacto da solidão, uma reflexão apurada sobre o ser humano e essa solidão que insiste em o envolver.

São brilhantes as dissertações acerca dos sonhos e das necessidades que temos em pertencer, em ser, viver, sentir, amar e ser amado.

Murakami constrói três personagens que se interligam em todas essas vertentes. Constrói um mundo onírico, uma espécie de 2ª Dimensão, um outro lado do espelho em que estas três personagens se complementam.

Revi-me em muitos momentos desta narração.

Em vários momentos comoveu-me o pensar de K., os sonhos e desejos de Sumire e o sofrimento de Miu.

As reflexões de K., quando na Grécia, mostram-nos um mundo das fragilidades humanas.

O Melhor livro de Murakami e um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

“Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta gente, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?”

Um livro espantoso que me apaixonou.

Classificação: 5

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Filha de Deus (A) - Lewis Perdue



Na capa deste livro pode ser: “O grande impulsionador do género que 10 anos mais tarde celebrizou Dan Brown”.

Ou seja, logo aqui, esta premissa lança-nos num género thriller/policial histórico, neste caso supostamente histórico pois a o assunto base do livro gira em volta de uma jovem mulher chamada Sophia que terá sido ou considerado como um 2º Messias e que a igreja, na altura, tratou de eliminar aquando do célebre concílio de Niceia.

Pois bem, foi mediante essa premissa que me lancei entusiasticamente na leitura deste livro e, após 172 páginas e 15 capítulos, posso afirmar que o mesmo se revelou uma tremenda desilusão.

Primeiro que tudo admito que estou um pouco cansado deste género de livros. Thrillers históricos onde um acaso qualquer dá origem a um mistérios histórico cheio de conspirações ao longo dos séculos, onde a igreja está metida nessas conspirações até ao tutano, é algo que, sinceramente, já me aborrece, pois geralmente cai-se nos mesmos clichés e lugares comuns. Porém este atraiu-me porque julguei de facto que no séc. III tivesse existido essa Sophia e não é que esse facto é tão só falso?

Ou seja, o meu principal interesse pela história logo se revelou falso, frágil, pois o autor pretende de facto construir um trama onde o foco gira em volta de várias questões: arte roubada pelos nazis que se interliga com um terrível segredo da igreja cristã, a suposta existência da tal Sophia.

Ao longo dos 15 capítulos que li, a acção pouco ou nada se desenrola.

Um professor, ex-polícia, que constata que a sua jovem mulher desaparece de uma forma muito estranha. Essa mulher, que era simplesmente uma avaliadora de arte que horas antes havia estado na casa de um velho nazi a avaliar obras de arte tidas como desaparecidas...

A partir daí o costume.

Perseguições, assassinatos, fugas e alguns factos históricos interessantes, mas já lidos em outras obras, que tentam dar à história um quê de realismo sem, na minha opinião, o conseguir.

O livro é fraco. O autor pouco desenvolve. Usa e abusa de clichés, acções e situações já lidas noutras obras.

Obviamente que até posso admitir que este livro foi o fundador deste género, mas a partir de certa altura começou a ser penoso continuar, um arrastar página a página, frase a frase. No último dia, numa viagem de comboio, li 10 páginas e, no final, não me recordava rigorosamente nada do que havia lido.

Assim, resolvi desistir.

Não leio por ler. Conforme tenho referido, leio porque me dá prazer saber a história e o desenvolvimento da mesma caso contrário considero uma perda de tempo insistir em algo que não me está a dar esse prazer.

Se for amante do género thrillwe histórico celebrizado pelo Código Da Vinci, então talvez vá gostar deste livro.

Dou-lhe pontuação mínima precisamente pelas razões assim descritas.

Classificação: 0 (Não Terminado)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Águia do Império (A)


Apaixonado pela Cultura Romana e por vários autores do género histórico, entre os quais Bernard Cornwell que é, quanto a mim o melhor escritor do género, Simon Scarrow resolveu escrever aquilo que mais gostava de ler e que, digo eu, era difícil de encontrar e decerto preencher a sua necessidade: romances históricos passados no seio das míticas legiões romanas.

Obviamente para quem conhece Bernard Cornwell, acaba por encontrar semelhanças muito fortes, ou se quiserem, nota-se perfeitamente o estilo de Cornwell neste livro que me proponho a comentar, sobretudo no realismo visual como ambos narram as batalhas e a expressão da violência da época descrita.

Mas vamos por parte.

Este “Águia do Império” é o 1º volume da “Série da Águia”.

Germânia, 42 d.C., seio da 2ª legião, a mais afamada e dura dos exércitos de Roma.

Como protagonista principal, o jovem Quintus Cato, Liberto (antigo escravo) graças aos serviços do seu falecido pai ao Imperador Cláudio, no entanto com a condição, como qualquer cidadão romano, de servir a legião romana pelo período obrigatório, 25 anos.

Nascido e criado no palácio imperial em Roma, Cato vê-se incorporado na 2ª Legião no meio de homens abrutalhados, quase todos analfabetos e sobretudo que o desprezam por constatarem que graças às boas graças do imperador, Cato receberá um posto superior ao deles.

A vida de Cato não se antevê fácil. Dado a poesias e às coisas doces da vida, depressa constata que a realidade da corte é completamente diferente da do exército, mas será que vai dar parte fraca?

Este primeiro volume acompanha assim o início da vida militar de Cato, das suas dificuldades, das suas primeiras amizades e amores. Acompanha também a invasão à mítica Bretanha, ilha povoada, segundo as lendas, por monstros e guerreiros selvagens.

No meio de toda a trama, que evidentemente tem também uma dose q.b. de intriga política, está Cato e o seu mentor, o Centurião Macro que, juntos, nos proporcionarão momentos de excitante acção.

Embora tenha adorado ler este 1º volume, não posso de registar e mencionar alguns pormenores que considero um pouco forçados e até algo absurdos.

A incorporação de Cato é realizada de uma forma normal, no entanto e para além de ser logo nomeado como oficial, verifica-se logo que ele não tem qualquer treino militar e nem sequer sabe pegar numa espada. Começam a teinar com uma espada de madeira, o que era normal, mas achei forçado que, pouco tempo depois de estar a recruta e sem sequer ter pegado numa espada a sério, é enviado, por acaso é certo, mas é enviado numa missão que se ante vinha simples. Porém aquilo desencadeia numa terrível e brutal batalha e vê-se Cato a combater com as hordas germânicas e inclusivamente a matar guerreiros supostamente bem treinados e cheios de ódios pelos soldados romanos.

Em todo o caso gostei imenso da escrita de Scarrow. Simples, objectiva e muito visual, diria mesmo cinematográfica. As descrições das batalhas são violentas e pormenorizadas, prometendo mais ricas e excitantes aventuras para os subsequentes volumes.

Classificação: 4 (Muito Bom)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Memórias do Livros (As) - Geraldine Brooks


1996, Hanna Heath, conservadora e especialista em livros raros, é convidada para se deslocar a Sarajevo a fim de analisar um livro muito raro e valioso, salvo dos bombardeamentos e concebido numa época em que a fé judaica se opunha veementemente a qualquer tipo de ilustração. Criado na Espanha medieval, a Hagadá de Saravejo.

Mediante medidas excepcionais, Hanna empreende uma minuciosa análise ao livro, descobrindo minúsculos artefactos que nos irão lançar numa aventura ao longo de 500 anos.

Essa aventura irá levar-nos a 1480, 1492, 1609 e 1940, épocas dispares, diferentes cenários por onde a Hagadá passa. Histórias individuais que tecem uma teia única que explicará esses tais minúsculos artefactos que Hanna descobre. Nessas histórias conhecemos vários e fascinantes personagens que servirão de base à narração dos acontecimentos das épocas abordadas que ajudam também a narrar e a situar-nos das condições do povo judeu.

E não será esse o verdadeiro propósito do livro?

Não diria que é um livro fascinante. Diria antes que é um livro que nos proporciona vários momentos de êxtase tal a beleza de certas histórias e a grande capacidade narrativa da autora.

Gostei imenso do estilo: simples, objectivo, sem grandes descrições e muito cinematográfico. Assente num grande rigor histórico, tal os ricos e interessantes pormenores históricos que abundam em toda a narrativa, as “Memórias do Livro” torna-se um excelente romance histórico que tem a capacidade de interligar épocas distintas demonstrando também que, pese embora as épocas e as mentalidades das mesmas, o ser humano não consegue aprender com a História.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Canção de Tróia (A) - Colleen Mccullough


Baseada em várias fontes, nomeadamente em obras de Virgílio, Sófocles, Heródoto, Píndaro e, claro, na Iliada de Homero, a Canção de Tróia é de facto um excelente livro e uma obra excepcional para a cultura universal.

Afirmo isto porque simplesmente, num só livro, Colleen McCullough conseguiu reunir e unificar, de uma forma muito simples, todo um conjunto de obras de vários autores, elaborando o melhor texto que li sobre a Guerra de Tróiae sobre o relacionamento entre personagens lendárias como Agamémnon, Ulisses, Aquiles, Heitor, Helena, Patrocles, Príamo, Páris, Ájax, Peleu, Briseida, Nestor, Menelau, Eneias e até Hercules, que aparece no início do livro e que, indirectamente, está por detrás da génese da Guerra de Tróia.

Colleen McCullough faz assim um trabalho notável de recriação histórica e mitológica, arrancando do fundo da memória colectiva personagens íntegros, dando-lhes vida, onde a beleza está associada à coragem e à bravura, onde o erotismo anda de mãos dadas com a violência, sim, violência, porque este livro tem tanto de belo como de brutal. E é nessa conjugação que McCullough humaniza os personagens.

A Canção de Tróia começa muito antes da Guerra de Tróia. Começa na véspera do nascimento de Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. Nesses dias um acontecimento singular se dá em Tróia que mais tarde estará pode detrás do sucedido com Páris que levará à causa da Guerra.

Num espaço de 30 anos vamos acompanhando o nascimento de personagens e a vida quotidiana de outras e é assim que chegamos a Helena, irmã de Clitemenestra que é, por sua vez, esposa de Agamémnon, rei supremo da Grécia.

Ora bem, Agamémnon casa o seu irmão, Menelau, com Helena, que era, embora ainda muito jovem, uma mulher marcada por aventuras de cariz sexual, num tempo, aliás, onde o relacionamento sexual era visto como profundamente natural e onde os relacionamentos homossexuais não eram escondidos.

Helena era no entanto uma mulher promíscua que não fugia, antes pelo contrário, a aventuras extra-matrimoniais, sendo assim que acaba por se envolver com Páris, quando este está de visita ao reino de Menelau.

E o resto leiam por vós mesmo.

A narrativa é empolgante, sendo curiosa a forma como Colleen narra cada capítulo: todos eles são contados a partir do ponto de vista de vários personagens, logo, tanto ficamos com a perspectiva de A, B ou C, entendem? Isso é muito interessante e dota o livro de um constante refrescar da observação dos acontecimentos.

Depois consegue humanizar todos os personagens. Tirando as batalhas (são violentíssimas), surge-nos um Ulisses extremamente inteligente mas cheio de vícios e defeitos, sobretudo ao nível da ética. Isso é curioso, ainda mais porque se conhece que a ética na guerra era uma das maiores virtudes das civilizações antigas. Aquiles, e é impossível não se gostar de Aquiles, é descrito como um homem atormentado, quase paranóico, mas que se revela o mais feroz dos guerreiros, e nessa conjugação de virtudes e defeitos, acabamos por nos identificar com Aquiles como sendo ele um modelo para nós mesmos. Isso é curioso! E sem querer entrar noutras considerações, pois efectuei uma análise a quase todos os personagens e achei “engraçado” as conclusões que ia retirando, quero apenas referir Ájax, primo de Aquiles, que transpira poder, integridade, lealdade e coragem. Foi o personagem que mais gostei e aquele que considero a minha referência, com que mais me identifico.

Esta é verdadeiramente uma Epopeia. Não tenho pejo nenhum em a considerar, pelos acontecimentos que aborda, superior à Ilíada.

A Ilíada é bela pela forma como está escrita (se puderem leiam-na na sua forma original, ou seja, em poema. Mas eu sou daqueles que considero que a Ilíada não foi escrita por apenas um homem), mas esta Canção de Tróia é um documento histórico que entra nos personagens, revelando-nos a sua mentalidade, o seu dia-a-dia.

Pessoalmente acredito que Ulisses, Aquiles, Ájax, Heitor e todos os outros heróis existiram. Deuses não eram, apenas homens. Mas no livro Aquiles profere uma frase que, quanto a mim, descreve a imortalidade dos heróis que, à medida que os séculos passam, se vão misturando com deuses, tornando-se assim lendas e mitos. ”Se nos lábios das gerações futuras eu puder combater contra Heitor um milhão de vezes, então é porque de facto, nunca terei morrido”. E um milhão de vezes se tem narrado esse combate, um milhão de vezes esta guerra, estes guerreiros que fazem parte do imaginário da raça humana.

domingo, 30 de novembro de 2008

Máscaras de Salazar - Fernando Dacosta




Para quem se interesse por História, nomeadamente pela nossa História, eis um livro fabuloso que aborda, como o nome deixa adivinhar, todo o Estado Novo na figura do seu Presidente do Conselho: António de Oliveira Salazar.

Antes de abordar o livro, quero realçar a enorme surpresa que foi para mim a escrita de Fernando Dacosta, romancista, dramaturgo e jornalista, autor de várias obras, mas que nunca me despertou o interesse. No entanto surpreendeu-me a enorme simplicidade e objectividade da sua escrita, a clareza de raciocínio, a forma poética que emprega ao texto, ainda por mais sendo este uma narrativa e o tom neutro como aborda toda a obra, nunca julgando, nunca comentado, apresentando apenas factos.

Em as “Máscaras de Salazar”, Dacosta apresenta-nos o homem por detrás do político, aquela figura austera que ficou para a História. Salazar enquanto jovem estudante, a forma como entra na política, os seus anseios e desejos, o que o move, as suas ideologias, a forma de estar e ver a vida.

Salazar surge no comando do governo sem que ele saiba bem como e vê nisso um género de demanda, um sinal. É ele a salvação do país, por isso resolve consagrar e sacrificar a sua vida pessoal em prol de uma nação, de um império.

Surge-nos assim um homem com defeitos e virtudes, um homem que acredita no esoterismo, na astrologia, pouco religioso (achei isso curiosíssimo) embora tenha em Cerejeira um dos seus amigos e confidentes mais próximos, um homem que não apreciava jantares, ajuntamentos, que apreciava coisas simples e que, inclusive, pagava a renda de S.Bento com o seu próprio dinheiro. Uma figura muito distante do Salazar figura do regime.

Importa aqui referir que conheço pouco de Salazar e da sua obra. Ele é sempre apresentado como um ditador que, escondido em S.Bento, construiu toda uma rede tal Big Brother que a todos vigiava.

Isso até pode ter muito de verdade e Dacosta não o sonega, mas há de realçar que existiu também o homem Salazar, que tinha sentimentos, gostos, humores. Um ser humano e este livro não só o faz como ainda vai mais longe, ouve, osculta aqueles que mais próximo estiveram de Salazar: amigos de infância, políticos, simples pessoas que o conheceram e sobretudo D. Maria, a governanta que sempre o acompanhou.

Dacosta aborda assim os cerca de 40 anos do seu governo, as guerras que assolaram esse período, os interesses com as outras nações, a P.I.D.E., a oposição e a forma como sempre procurou defender os interesses de Portugal, indo até contra os interesses do Vaticano. Sobre o Vaticano é interessante o desvendar do 3º segredo de Fátima, segredo esse que provavelmente até tem a ver com Portugal. A forma como se relacionava com outros políticos e figuras que se cruzaram com ele, tanto política, como cultural e socialmente: Júlio Dantas, Gen. Costa Gomes, Ge, Humberto Delgado, Amélia Rey Colaço, Natália Correia, Salgado Zenha, Mário Soares, Aquilino Ribeiro, Duarte Pacheco e tantos outros.

E, entre várias curiosidades, ouve uma que me chamou especial atenção. Salazar, que tinha na sua governanta uma amiga e uma confidente (más línguas diziam que até algo mais), confidencia-lhe por várias vezes do porquê da necessidade de defender os territórios ultramarinos. Ele achava que Portugal sem esses territórios ficaria um país minúsculo e sem qualquer tipo de influência, um país que ficava assim sujeito a outras nações acabando por morrer. Ele tinha esse receio e, digo eu, era um visionário.

Um homem que não gostava do comunismo nem dos americanos que, dizia ele serem apologistas de uma política que visava o domínio das outras nações, muito pior que o próprio comunismo... e isso proferia ele na década de 60.

Em suma, um pequeno livro que se revelou numa obra de uma enorme extensão sobre Salazar, o seu regime e Portugal.

Rubicão - Steven Saylor


Embora seja uma amante de História e um grande apreciador de romances históricos, confesso que possuo uma relação de amor-ódio com o império romano e tudo o que lhe diga respeito, ou seja, sei perfeitamente da sua importância e influência nas sociedades ocidentais, que foi o império que mais durou, mas cada vez que leio alguma coisa sobre eles... enfim, é cá um fastio.

No entanto há ocasiões em que me apetece ler algo sobre eles e, devido a isso, lá acabo por me deparar com alguns “livrecos” interessantes e outros nem tanto, sendo que e neste caso, acabei por me deparar com algo que, enfim, lê-se.

Steven Saylor é licenciado em História e perito em política e cultura romanas.

Penso que isso é um excelente cartão de visita, ainda mais quando se junta o facto de ele ser fascinado por culturas clássicas, logo podemos estar certos que o descrito nas suas obras está de acordo com a época em causa.

Ora bem, não belisco minimamente a veracidade dos pormenores da época, até porque este “Rubicão” é o segundo livro do autor que leio e o outro, “Sangue Romano”, até me agradou, but este “Rubicão” é assim o sexto livro de uma série iniciada com o tal “Sangue Romano”, intitulada, a série, de “Roma Sub-Rosa”, Saylor, servindo-se do personagem Giordiano, que é um género de detective independente, aborda a vida social, cultural e política de Roma com todos os seus jogos de interesses políticos, cujas vidas dependiam de quem estava no poder e de quem apoiasse quem, tudo o que me aborrece.

Este livro descreve quando Júlio César resolve tomar o poder e guiar as suas tropas de volta a Roma, fazendo Pompeu, o seu rival e imperador, fugir com as suas tropas leias rumo ao sul, deixando Roma mergulhada no caos.

É neste contexto que Numérico Pompeu, sobrinho do imperador, é assassinado no jardim de Giordano que, face à terrivel situação e exigência de Pompeu, empreende uma investigação do crime.

Obviamente que as situações vão ocorrendo e no fim temos o nome do assassino e o porquê do acto. Mas, e honestamente, como policial não me convenceu, sobretudo porque fui capaz de descobrir o assassino muito cedo, porém, como documento histórico, é de facto um bom livro.

Todos os acontecimentos que levaram Júlio César ao poder estão descritos no livro, os jogos políticos e a forma como as peças se iam movendo faz-nos sentir o ambiente de Roma e a tensão que se sentia.

O livro, quanto a mim, vale por isso e para quem tem curiosidade sobre este grande império, então aconselho o livro.

domingo, 16 de novembro de 2008

A Profissão de Carrasco - Jacques Delarue



Há livros que nos vêm parar às mãos um pouco por acaso, sem que estejamos à procura deles ou mesmo que o conheçamos, eis que de repente nos deparamos com esse tal livros nas mãos, a creditando tratar-se de um achado.

Este livro que me proponho aqui comentar foi um desses casos que achei há uns anos numa daquelas feiras do livro manhosas dos hipermercados. Havia um receptáculo de plástico com centenas de livros a 0,50€ e, no meio de tanta palha, surge-me este livro rosa choque com este título sugestivo.

Li a sinopse e logo me dei conta que não se tratava de nenhum romance, mas sim de um estudo Histórico deste tema tão desprezível mas que, quer queiramos quer não, tem uma História e que, por acaso, até achei que podia ser interessante.

O autor, Jacques Delarue, nascido em 1919, desconheço se possuiu alguma actividade académica, mas sei que o mesmo foi polícia e comparticipou na resistência francesa. Dessa vivência acabou por escrever “História da Gestapo” e “Tráficos e crimes durante a ocupação”, títulos que desconheço, mas que tendo em conta o livro “Profissão de Carrasco”, devem ser muito interessantes.

Ora bem, enquanto polícia, Delarue foi colectando material histórico sobre a pena de morte e o trabalho daqueles que tinham que levar a cabo a condenação: os carrascos.

Obviamente que Delarue incide sobretudo na história dos carrascos franceses, até porque a profissão ainda estava no activo no século XX e ainda estão vivos os últimos da espécie, mas ele vai narrando como é que a profissão nasceu, da forma maldita como eles eram vistos, rejeitados pela sociedade que se esquecia que por detrás do carrasco havia um homem com família que apenas tinha tido a má sorte de sujar as mãos com sangue dos condenados que essa mesma sociedade mandara sangrar.

Aborda também o contexto psicológico e humano. O testemunho de vários deles assim como a linhagem dos carrascos mais famosos, pois era uma profissão que passava de pais para filhos, um filho de carrasco não era bem aceite, tinha imensa dificuldades para arranjar casamento, o mesmo se passava com as filhas.

O livro segue sempre a um bom ritmo, cheio de interesse, embora existam muitas descrições horríveis, macabras. Os objectos e máquinas de tortura e execução são descritos, a sua criação e como actuavam... macabro.

Um excelente documento histórico que admito não ser fácil encontrar no mercado. Após uma breve investigação, constatei apenas o site da livraria Byblos possuir tal livro, embora a editora em Portugal seja a Livros do Brasil.

domingo, 9 de novembro de 2008

Vida num Sopro (A) - José Rodrigues dos Santos



A acção temporal tem apenas dez anos, mas dez anos onde acontecimentos determinantes sucederam tendo do um impacto determinante a nível nacional e internacional.

1929-1939, dez anos.

Dez anos onde ventos de mudança sopram. Assiste-se ao nascimento do Estado Novo num Portugal assustado, rude, inseguro, só o facto desse regime trazer ordem e segurança foi o bastante para o mesmo originar a simpatia pela larga maioria do povo.

1929-1939, dez anos onde nasce, decorre e finda a Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Uma guerra entre Nacionalistas e a Frente Popular, apelidados de blancos e Rojos, estes compostos pela esquerda (comunistas, anarquistas e também o governo eleito liberal-democrático). Uma guerra onde atrocidades são cometidas de uma forma arbitrária, sendo este conflito um laboratório de experiências para o conflito mundial que estava prestes a rebentar. Curioso o que está por detrás da ajuda camuflada do regime português aos nacionalistas.

1929-1939, dez anos onde o regime do Estado Novo ganha força e cria um sistema de informação acerca dos cidadãos tidos como ameaça para a nação (regime) e, mais grave, um sistema onde qualquer pessoa podia ser informador, bufo, e assim atraiçoar o melhor amigo ou qualquer familiar que tivesse a ousadia de proferir qualquer frase contra o regime. Ou seja, a imposição do regime do medo que, até hoje, nunca nos conseguimos apartar. Por detrás desse sistema a PVDE (Polícia de Vigilância Do Estado) ou a Pevide, como era conhecida pelo povo.

Neste livro são estes os três pontos principais da narrativa.

Como pano de fundo, interligando estes acontecimentos que nos colocam no cerne desses três pontos, uma história de amor. Uma simples, singela e trágica história de amor entre Luís Afonso e Amélia Rodrigues.

Passado entre Bragança-Lisboa-Penafiel-Vinhais, esta história é o elo condutor entre a vida e mentalidade rural e citadina. A mudança de mentalidades e a forma como se sente a diferença das mesmas de local para local não passa aqui despercebida.

Um livro apaixonante que narra acontecimentos importantes que estiveram por detrás da longevidade desse regime. Facilmente entendemos do porquê do surgimento do regime, do porquê de tão facilmente ter sido acolhido e do porquê de ter durado tantos anos. Quanto a mim o livro vale por isso.

A escrita é simples.

Aflorada por frases poéticas, José Rodrigues dos Santos não se perde em devaneios tão comum na maioria dos autores portugueses. Os diálogos são simples e directos, caracterizando a época com termos locais não faltando mesmo o castelhano e o galego.

É um livro na mesma linha da “Filha do Capitão”. Na minha opinião não se podem comparar devido aos temas que um e outro trata, no entanto o estilo é o mesmo mas confesso que este “A Vida num Sopro” apaixonou-me menos, no entanto sublinho que considero a “Filha do Capitão” um dos grandes livros da literatura universal, logo, será extremamente difícil JRS fazer melhor.

Este “A Vida num Sopro” é muito bom. Lê-se num fôlego, num sopro e facilmente nos apaixonamos pelos personagens, até porque, como é costume nos seus livros, JRS tem a capacidade de criar personagens do povo, gente como nós que facilmente incorporam se não nós mesmos, pelo menos, nossos antepassados.