segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Duas Irmãs, Um Rei - Philippa Gregory



Iniciado em 1521, este “Duas Irmãs, Um Rei” é o 2º volume da série Tudor, série essa que, obviamente, se pode ler de um modo separado mas que, quanto a mim, tem um sabor mais intenso quando lido respeitando a ordem de volumes que é também a ordem temporal dos acontecimentos narrados por Gragory.

Em “Catarina de Aragão” vimos como Catarina, infanta espanhola, filha dos célebres reis Católicos Fernando e Isabel, se torna Rainha de Inglaterra ao casar com Henrique VIII. Seguimos então a senda de Catarina rumo ao trono.

Em “Duas Irmãs, Um Rei” a acção temporal inicia-se em 1521, 12 anos após o casamento entre Catarina e Henrique.

O Rei continua apaixonado pela sua rainha, mas durante 12 anos Catarina não teve qualquer filho homem, a única criança que sobreviveu às inúmeras gravidezes foi Maria (1516) a enfezada menina que poucos davam alguns anos de vida.

Cientes da importância de um filho varão, a corte enche-se de intrigas e maledicências. A encabeçar essas intrigas está uma família poderosa: Os Bolena/Howard. E é neste círculo de tramas que toda a história deste livro avança.

Ana e Maria Bolena são duas aias da Rainha Catarina. Conforme costume em qualquer corte europeia da época, essas aias são responsáveis por entreter a rainha, jogando-se também em namoricos e mexericos com vários nobres que frequentavam a corte. Entre esses homens, o Rei que, em faustosos banquetes, ele próprio namoriscava com várias aias da rainha diante da beneplacência da mesma.

A descrição destas andanças é extraordinária. Philippa Gregory consegue-nos situar na corte, consegue-nos transmitir as imagens fazendo-nos crer que estamos presentes.

É desta forma que a família Bolena, através do seu seu influente tio, Thomas Howard, imagina uma forma de Maria Bolena ser notada pelo rei e, dessa forma, ir parar à cama do rei. Benefícios: Ganho de influência e poderio da família Bolena/Howard, assim como ganho de propriedades e títulos. Uma rede de influências e interesses nasce assim, originando um trama horrível de enganos, prostituição, sexo e assassínios.

Pessoalmente gostei mais do livro “Catarina de Aragão”, porém achei fenomenal como Gregory constrói e conduz todo o trama, como vai colocando as várias personagens, colando-as aos acontecimentos Históricos.

Ao nível Histórico, o livro é irrepreensível. Brilhante a ordem temporal, até os pequenos pormenores estão explorados. De notar a forma clara, que muito me ensinou, como a autora explica o percurso de simpático rei a tirano de Henrique VIII. É “engraçado” como constatamos que Ana Bolena foi a grande responsável pela mudança de religião, pela forma como Henrique se rebelou contra o Vaticano para, depois, ela própria ser uma das vítimas dessa tirania que, repito, ela construiu.

Um breve olhar sobre Henrique VIII.

Conforme tinha sido descrito em “Catarina de Aragão”, Henrique não passava de um vaidoso, arrogante e mimado menino grande que, vendo-se com todo o poder nas mãos, se transforma num horrível e sanguinário tirano. Nestas obras não se olha muito para o Rei Henrique enquanto político, mas sim enquanto homem e a perspectiva que temos não o favorece muito. Mas o que sobressai é que ele foi aquilo que quiseram que ele fosse, ou seja, foi apenas um produto de pessoas ambiciosas e sem pejo em afastar quem se opusesse aos seus interesses.

Em suma, mais um excelente e aconselhável obra de Philippa Gregory.

Classificação: 5

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Catarina de Aragão, a Princesa Determinada - Philippa Gregory


Factos Históricos

Catarina de Aragão (1485-1536) nasceu nos arredores de Madrid. Filha mais nova dos Reis Católicos (D. Fernando II de Aragão e D. Isabel de Castela), viveu numa época importantíssima para o futuro da Europa que aí começou a construir os alicerces da actual Europa.

Culta, inteligente e muito bonita, Catarina foi educada desde o berço para ser Rainha de Inglaterra, pois desde os 3 anos foi prometida em casamento a Artur Tudor, futuro Rei de Inglaterra, primogénito de Henrique VII.

Teve uma educação esmerada, sobretudo em estratégia militar, ganhando também a consciência da sua importância no tabuleiro estratégico de interesses políticos, interesses esses que visavam colocar a Espanha numa posição de relevo e liderança na Europa.

Consciente disso e do seu papel, assume a sua posição e encara o casamento como uma missão. Lutadora, lança charme sob o povo inglês conforme a mãe lhe havia ensinado. E esse charme oferece-lhe a adoração do povo sendo que, cerca de 500 anos após a sua morte, o seu túmulo em Peterborought nunca está sem flores. Por aí se pode medir a enorme popularidade de Catarina, popularidade que ela soube conquistar a pulso.

Interessante também registar as movimentações políticas de altura.

Em 1469, D. Fernando II de Aragão casa com D. Isabel de Castela, começando aí a definir-se o território espanhol com tal é hoje conhecido.

Altamente católicos, criam a Santa Irmandade e unificam os dois reinados.

Ambos têm um grande projecto: a conquista dos territórios mouros e italianos, no entanto e neste último caso, necessitam de derrotar os franceses. Para isso, e revela bem o espírito destes reis, têm uma série de filhos que, desde cedo, comprometem em casamento com as principais casas reais europeias de forma a criarem alianças e, dessa forma, isolarem França. É assim que Catarina é prometida a Artur Tudor.

Em 1492, após a conquista do reino de Granada aos mouros, é decretada a expulsão destes juntamente com os judeus. Com eles é expulso o saber e a cultura, iniciando-se um dos piores excessos de intolerância de que há memória.


O Livro

Philippa Gregory é genial na forma como narra estes acontecimentos, entrelaçando-os na história de Catarina.

O livro tem início em 1491.

Catarina tem 6 anos e, juntamente com os irmãos, está em campanha contra os terríveis mouros.

Percebemos desde logo o objectivo de ter os filhos no meio de um acampamento militar, correndo o risco de ser atacado. Fomenta-se a mentalidade guerreira, dá calo que só estas dificuldades podem dar. Catarina tem um enorme orgulho e confiança nos seus pais e, desde muito pequena, sabe que aqueles acontecimentos lhe serão muito úteis para quando assumir o trono de Inglaterra.

Em todo o livro Philippa Gragory nunca nos deixa esquecer essa veneração. Catarina vê-se como uma escolhida por Deus, ela tem uma missão e tudo para ela serve como uma lição de aprendizagem.

Algo que é bastante perceptível é a enorme religiosidade de Catarina. Embora admire os mouros, pelo seu saber, cultura, higiene, bom senso e bom gosto, ela vê-os como bárbaros, infiéis que não quiseram reverenciar o Deus Cristão e que, por isso, mereceram ser expulsos de Espanha. Porém, e isso é muito curioso, vicissitudes da sua vida vão, primeiro colocar-lhe dúvidas acerca do barbarismo dos mouros para, depois, colocar em dúvida a própria crença em Deus.

Visão empregue por Philippa Gregory é, como é compreensível, muito feminina. A maioria das personagens são mulheres e, por isso, pouco são exploradas as movimentações políticas (são afloradas) e bélicas (essas passam praticamente despercebidas).

Achei também que Philippa podia e devia ter explorado alguns acontecimentos importantes. Nomeadamente o acontecimento mais importante da época que foi a chegada de Colón à América.

Mas compreendo que Gregory se tenha focado unicamente em Catarina. Ela é a figura principal do trama e, justiça lhe seja feita, Philippa Gregory faz um trabalho notável de investigação histórica, conseguindo-nos transmitir o ambiente da época e o enorme carácter não só de Catarina como também de outras fascinantes personagens que a rodeiam.

Um livro excepcional que me apaixonou. Uma época que me apaixona e que aqui é descrita de uma forma soberba, real e rigorosa.

Por último, adorei também a escrita simples e objectiva de Gregory, assim como a estrutura do livro: capítulos curtos, todos eles deixando-nos em suspanse.


Classificação: 5

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Fio da Navalha (O) - Somerset Maugham


A acção do livro passa-se entre Chicago e Paris nos anos vinte e trinta do século XX.

Somerset Maugham, ele próprio narrador participante, oferece-nos a história de vários personagens que se interligam em torno do personagem central: Larry Darrel, jovem americano que vê o seu melhor amigo morrer para lhe salvar a vida.

Este acontecimento dá o mote para este brilhante romance.

Larry questiona-se acerca do sentido da vida.

Esta questão Maugham coloca-a em contraponto com a futilidade diárias de outros fascinantes personagens que, com as suas histórias, vão-nos dar um fresco da superficialidade e mesquinhez do jet-set europeu e norte-americano, cujas vidas banais são elas próprias representativas da decadência que já se percebia.

Maugham é brilhante na exploração desses dois universos antagónicos. O primeiro um universo místico, onde a busca do sentido da vida, do imaterialismo, do desapego, da tentativa de encontrar um sentido para a existência é explorado através das andanças e descobrimentos de Larry. O outro, um universo materialista, elitista, onde o status é condição sine qua non para ser alguém é também ele brilhantemente explorado pela personagem de Elliot, ela também soberba.

A mediar estes mundos temos o próprio Maugham que, com a sua sensibilidade e experiência de vida, vai colectando informações, conversas e confissões que, ligadas entre si, fazem desta obra algo de verdadeiramente soberbo.

Quem terá sido, na vida real, Larry Darrel?

Sim, questiono quem terá sido, porque, no meu íntimo, não duvido nem um minuto na realidade desta história. Até porque Maugham narra os factos que conhece, deixando-nos adivinhar o resto, deixando sempre no ar possibilidades, conjecturas.

Somerset Maugham é um escritor genial e este livro, não sendo aquele que mais gostei do escritor, é ele, por si só, uma pérola da literatura universal.

Classificação: 6

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Jane Eyre - Charlotte Brontë




Publicado em 1847, com o pseudónimo de Currer Bell, Jane Eyre teve um sucesso fulminante junto do público britânico que ficou, ele próprio, na expectativa de conhecer esse autor desconhecido.

A surpresa foi maior quando se soube que por detrás de Currer Bell estava uma jovem de 29 anos, supostamente sem experiência de vida e incapaz de ter escrito tal obra. A pergunta pairou até aos dias de hoje: como é que uma jovem inexperiente tinha a capacidade de escrever uma obra que exprime a natureza humana?

Charlotte Brontë era a mais velha das famosas irmãs Brontë, todas elas autoras de obras consideradas, hoje em dia, clássicas.

Jane Eyre é uma obra que, na minha opinião, se destaca pela beleza da escrita, pela prosa quase poética com que a história é narrada.

Mais de 100 anos após a sua escrita, não posso afirmar que achei a história sublime. Essa, e eu sei que pode ter sido precursora do género, é uma simples história da criança órfã que, maltratada pelos familiares que lhe restam, é mandada para um orfanato onde cresce sem carinho e sem amor.

Após a saída do orfanato, entra ao serviço de uma casa rica e aí apaixona-se pelo patrão…

Há depois encontros e desencontros, coincidências, algumas forçadíssimas, numa áurea romântica tão típica das novelas da época.

Uma das características que mais apreciei foi a descrição rural da Inglaterra, sobretudo o quadro que Charlotte pinta do modo de vida, da mentalidade e da forma como as pessoas agiam naquele “mundo” tão fechado de regras sociais, com conceitos tradicionais tão imbuídos ainda dos ares medievais. Esse é, sem dúvida, uma das mais valias do livro.

Uma boa obra, sem dúvida, mas longe de ser, hoje em dia, uma obra que catalogue como “obrigatória”.

Classificação: 3

terça-feira, 21 de julho de 2009

Drácula - Bram Stoker


Publicado em 1897 por Bram Stoker, que tem nesta obra a sua mais importante criação, Drácula depressa se tornou um sucesso literário, verdadeiro embrião de um género que, desde essa altura, teve dezenas de seguidores e milhões de adeptos.

Gostei da estrutura do livro. Em forma de diários escrito por diversos intervenientes, cartas e noticias de jornais. Dessa forma percebemos a percepção, a viva voz, de todos os participantes, excepto da figura principal: Drácula.

Baseado numa figura real, Vlad Tepes, consta-se que Bram Stoker estudou a fundo a História e o folclore da região da Valáquia de modo a criar o seu monstro. Porém nasce aqui a minha decepção, pois e tirando as primeiras páginas, a figura de Drácula é uma figura ténue, quase invisível, pese embora subentenda-se a sua presença ao longo de toda a história. Para além dessa fraca figura, Stoker não consegue, de todo, mostrar ao leitor quem foi ou de onde nasce Drácula, o tal Vlad Tepes. Aqui e ali, já perto do fim, avança com uns lá-mi-rés, no entanto tudo muito insonso, sem grande interessa e nunca lhe dando o carisma que, digo eu, era obrigatório ter dado.

A história até que começa bem, com ritmo, mistério, suspense e algum terror.

O leitor fica com água na boca tal o ritmo que Stoker emprega.

Até à viagem de Drácula, considero que o livro é excelente, porém a partir do momento que Drácula viaja para Inglaterra, parece que deixa ficar na Transilvânia todo o horror que era suposto ter.

A partir daí a história arrasta-se num misto de incoerências, algumas absurdas, factos omitidos, mal explicados ou nem sequer explicados. Reconheço que isso me irritou especialmente, sobretudo pela forma ingénua como me apercebi que Stoker quis levar a história denotando, e isso sou eu a pensar na época em que foi escrito, que a partir de certa altura passou a escrever para um público feminino tipicamente vitoriano.

As personagens também nunca foram capazes de me convencer. De início gostei muito de Jonathan Harker e do próprio Drácula, porém depressa se esvaziaram, se perderam na história. Drácula, conforme já o referi, desaparece, o mesmo acontecendo com Jonathan. Os personagens que depois tomam conta da história jamais conseguem ter o carisma destes dois. E Van Helsing? Faço a pergunta que me fiz desde que ele surge. Quem é Van Helsing? Não sabemos! Á semelhança de tantos outros factos, Bram Stoker não se digna a dar-nos uma explicação. Aliás, Stoker não nos dá nenhuma explicação acerca de nenhum personagem, nunca aprofunda nenhum personagem e há aqueles que surgem, que parecem ter um grande papel na história e depois... nada!
Classificação: 3

domingo, 5 de julho de 2009

Cinzas de Ângela (As) - Frank McCourt



Tal como escrevi há tempos sobre um determinado livro, há títulos que me chegam às mãos não só por mero acaso, como também como uma espécie de dádiva que qualquer ser celestial resolve oferecer-me.

Este “As Cinzas de Ângela”, de Frank McCourt é um desses títulos.

Um livro que, curiosamente, cada vez que ia à Biblioteca me parecia gritar: “Leva-me!”. No entanto a pequena descrição no verso do livro nunca me despertou especial atenção e, não sei dizer porquê, um dia senti-me como que seduzido e resolvi requisitá-lo.

Que obra extraordinária!

As Cinzas de Ângela” narra a infância miserável e decadente de Frank McCourt, ele próprio, o autor do livro que, diga-se, venceu o Prêmio Pulitzer e o National Book Award com este livro.

Por voz própria, McCourt vai-nos descrevendo a sua deplorável infância na sua Irlanda. Uma vida em condições sub-humanas na companhia dos pais e irmãos. Vamos assim conhecendo uma cidade de Limerick dos anos quarenta que ainda vive sob os espectros da guerra civil e das atrocidades centenárias dos ingleses. Atrocidades que cimentam velhos rancores e profundos complexos nos irlandeses.

Numa época em que a Europa e parte do Mundo estão mergulhados na guerra, McCourt, sempre em tom irónico e sem qualquer tipo de medos, descreve a sua comunidade. Uma comunidade profundamente egoísta, marcada por superstições ancestrais, assente numa mentalidade submissa mas, ao mesmo tempo, guerreira, enérgica e muito, muito religiosa.

Uma história de vida trágica, mas onde a dignidade, a coragem e a força de vontade vão vencendo as duras vicissitudes de uma vida negra, dando a cada uma dessas vidas, não um significado (ali poucas vidas têm algum sentido e significado), mas um contributo para um conjunto de memórias que tornam este livro num hino à vida, à coragem e ao próprio povo irlandês.

Classificação: 5

domingo, 28 de junho de 2009

Espada de Átila (A) - Michael Curtis Ford



História

Em 450 DC, o Império Romano do Ocidente estava a perder, de uma forma gradual, o poderio militar assim como o controlo das suas províncias, entre as quais a Gália, a Bretanha, a Lusitânia, entre outras.

De Oeste uma nova e poderosa força, alicerçada em alianças de povos que odiavam os romanos, os Hunos, liderados por Atila, avançam sobre Roma com um exército de 1 milhão de homens, algo nunca visto em toda a Europa.

A liderar o exército romano estava o general Flávio Aécio que, de acordo com documentos da época, comandava um exército de 500.000 homens, exército composto pelas legiões romanas e por povos que se mantinham fiéis a Roma, os Visigodos, os Francos e os Alanos. No entanto deixo aqui a ressalva acerca destes números, pois há historiadores que avançam com cerca de 300.000 homens para cada lado.

Entre Flávio e Atila um pormenor sobressaia: eram amigos de infância.

Flávio, por causa da política da altura do Império Romano, havia sido entregue como refém aos Hunos e aí criado durante 14 anos (409-425). Atila, através da mesma política, esteve entre os romanos pelo menos período. Tornam-se amigos no período (409) onde convivem durante alguns meses.

Esse período, obviamente, irá moldar o carácter desses dois homens. Ambos aprendem a conhecer o povo com quem vivem, mas ambos vão mais longe, ambos aprendem os costumes e tradições desses povos e, sobretudo, aprendem a pensar como um deles. Isso acontece principalmente com Aécio.
Esses factos vão ter uma preponderância sublime nos acontecimentos futuros. Ambos conhecem a mentalidade do inimigo e ambos tiram disso vantagem.


Opinião

O livro está sublime!

Michael Curtis Ford, como nos tem habituado, efectua um trabalho de pesquisa história soberbo.

Os acontecimentos acima narrados são todos escalpelizados.

O livro inicia-se com a infância destes dois homens e aborda o seu crescimento. Centra-se mais em Aécio simplesmente porque de Atila sabe-se pouco, pois os Hunos não deixaram documentos e a sua civilização quase que não deixou vestígios. De Atila conhece-se alguma coisa mas isso deve-se a historiados romanos.

Dessa forma, Curtis Ford, com o pouco que tem, é sublime na forma como retracta os costumes e tradições dos Hunos. Mitos, histórias e modos de vida são-nos dados a conhecer, um povo “bárbaro” que dizimava à sua passagem.

As tricas e alianças, até a justificação de Atila em atacar os romanos, quando entre os romanos e os hunos existia um pacto de não agressão, está bem encaixada e de acordo com a História.

A culminar está a Batalha dos Campos Catalaúnicos ou a Batalha de Chalons.

A descrição da mesma é terrível, de uma violência inolvidável.

Nessa batalha, travada a 20 Junho de 451, pereceram mais de 1/3 do exército de ambos os lados. “Pilhas de Mortos”, “à sua frente, o chão estava coberto de cavalos e de homens, montes de corpos…”, “estavam empilhados casualmente em muralhas improvisadas e contorcidas no local onde tinham caído…”

Durante um dia inteiro e parte da noite, os exércitos digladiam-se de uma forma brutal, insana, para além do racional. Na confusão tudo é permitido, a brutalidade dessa batalha, que irá ter uma importância enorme no futuro da Europa, é soberba e excitantemente bem escrita por Michael Curtis Ford, dando-nos não só uma real percepção dos acontecimentos como, também, nos faz quase participar nessa mesma batalha e nos acontecimentos anteriores à mesma.

Um livro excepcional!

Classificação: 5

domingo, 31 de maio de 2009

Tigre Branco (O) – Aravind Adiga




Ao longo de sete noites, Balram Halwai (ele próprio o Tigre Branco), através de cartas por ele escritas ao Primeiro Ministro chinês Wen Jiabao que se prepara para visitar a Índia, empreende uma narrativa da sociedade indiana, de uma Índia desconhecida, atolada em desigualdades que, como ele refere, se divide em duas: a da Luz e uma outra, denominada de Escuridão.

Assim, num monólogo ou diálogo imaginário, Balram começa por narrar a sua infância marcada pela extrema pobreza e condições verdadeiramente sobre-humanas que lhe começam a moldar o carácter. Nascido numa das castas mais baixas (isso das castas é chocante), expõe de uma forma nua e crua uma Índia violenta, cheia de preconceitos, onde os pobres são sempre pobres, tratados como animais, criados e onde tudo é corrompido, literalmente tudo, sobretudo no campo político.

Nesta brutal obra, Aravind foca os grandes e eternos problemas da Índia. Sob o manto fictício da modernidade, do milagre económico, pinta-nos um retracto assombroso e medonho de um país profundamente desigual, dividido por tradições xenófobas que ninguém sabe a sua origem e por um sistema político corrupto que pisa tudo e todos, que não age em defesa do povo mas sim dos seus interesses pessoais.

É um livro corrosivo. A realidade é-nos disposta à frente sem dó nem piedade. Acham que a Índia é aquele país dos filmes de Bollywood? Essa Índia existe de facto, mas a Índia profunda, a Índia onde vive e sobrevive a maioria do seu povo, é uma Índia monstruosa, assustadoramente monstruosa.

Até o Rio Ganges é aqui desmistificado “sr. Jiabao, eu aconselho-o a não mergulhar no Ganges, a menos que queira ficar com a boca cheia de fezes, de palha, de bocados encharcados de cadáveres humanos, de carne putrefacta de búfalo, para além de sete tipos diferentes de ácidos industriais”.

O tom irónico, mordaz e corrosivo como toda a narrativa é conduzida, demonstra um profundo desencanto e desilusão de Aravind. Diria que este livro é quase um grito de desespero ao mundo e note-se que não é por acaso que é referido inúmeras vezes, de uma forma lírica, Mahatma Gandhi, homem que procurou lutar contra um sistema que, ao contrário que muitos defendem, não mudou em nada.

Um livro que me chocou dada a brutalidade daquela sociedade desigual. Desconhecia essa realidade, porém, confesso que me senti incomodado quando me deparei com o sistema corrupto, pois e pelo que sabemos da sociedade portuguesa, sobretudo ao nível dos meandros do futebol, se calhar “somos” mais parecidos com os indianos do que propriamente com os europeus.

Um livro soberbo, poderoso, a par de "A Estrada", é o melhor que li nesta década e que, afirmo eu, está destinado a ser um clássico da literatura.

Um livro que a par do filme “Slumdog Millionaire” deve ser um incómodo para o governo e outras estruturas políticas e sociais da Índia.


Classificação: 6

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Saga de um Pensador (A) – Augusto Cury




Um livro belíssimo, fascinante.

Na sala de anatomia, um grupo de caloiros fica chocado quando, na sua primeira aula, se depara com um conjunto de corpos sem identificação prontos para serem estudados por esses futuros médicos. Estes corpos são de ninguém, sem abrigos, indigentes da sociedade, corpos sem história, corpos sem interesse.

Mas será mesmo assim?

Um dos estudantes, Marco Pólo, questiona, sob gozo geral, inclusive dos professores, a identidade daquelas pessoas que ali jazem no mármore. Quem são essas pessoas, que histórias têm para contar, quem amaram, tiveram família?

Esta é a premissa para uma saga fascinante que nos faz reflectir sobre a simplicidade da vida e das relações humanas sempre tão pouco valorizadas, mas que nos permitem uma riqueza interior muito mais valiosa do qualquer riqueza material.

Um jovem sonhador que se torna um pensador, um “vendedor de sonhos”. Marco Pólo vai dissertando sobre saúde mental, acerca dos normais e anormais da sociedade, solidariedade, compreensão, amor, fé e tolerância. O livro é atravessado, do início ao fim, por uma corrente positiva que nos faz acreditar, aliás, que nos faz ter a certeza da capacidade do ser humano e no porquê de grande parte das pessoas não viverem felizes.

Uma obra que questiona o sentido da vida e a sua qualidade, que questiona e demonstra a hipocrisia da sociedade e a insistência desta em criar máscaras sociais que aprisionam as pessoas, impedindo-as de serem elas.

Um hino à sabedoria que está inserida em todos os seres humanos, mas que, infelizmente, poucos se apercebem.

Todos somos caminhantes da vida, todos temos um caminho a percorrer.

Curioso o Princípio da Co-Responsabilidade Inevitável que faz todo o sentido. Cada ser humano influencia e é influenciado… descubra este principio, é genial, maravilhoso.

Um livro que considero de leitura obrigatória.

Se não brincares com a vida, a vida zangar-se-à contigo”.

Um dia a maioria das pessoas têm de juntar os seus pedaços e reescrever a sua história. Pois muitos passam pela existência sem nunca percorrer as avenidas do seu próprio ser

A maioria das pessoas vive porque respira. Já não perguntam quem são e o que são. Estão entorpecidas pelo sistema”.



Classificação: 5

Fantástica Aventura dos Anões da Lua (A) – Catarina Coelho



Uma vez mais confesso que o género fantasia não é, de todo, o meu género predilecto, nem sequer é um género que procure ler. E digo mais, geralmente só pelo facto de o livro ser de fantasia, é o bastante para não lhe tocar.

Este “A Fantástica Aventura dos Anões da Lua” foi-me simpaticamente oferecido pela sua autora, ilustre Membro do Fórum “Estante de Livros”, fórum onde orgulhosamente participo.

Posto isto, por respeito e consideração à autora, empreendi a leitura do livro com toda a boa vontade, tentando, dessa forma, apreciar a leitura, a escrita e, sem simultâneo, efectuar a análise da obra.

Era uma vez uma comunidade de anões que viviam em harmonia. Desconhecendo o mundo que os rodeava, essa comunidade vivia num micro mundo que foi violentamente invadido por alguns homens com o sentido de raptarem o feiticeiro da comunidade a fim de obterem a magia dos anões.

Aterrados por tal ataque e, sobretudo, pela visão de estranhos objectos que tinham o poder de magoar (armas), os anões nem se defendem, deixando assim o seu feiticeiro ser sequestrado.

Decidem então nomear um conjunto de anões a fim de libertar o seu feiticeiro, iniciando-se uma perigosa viagem que os irá colocar frente a curiosos e grotescos seres, assim como, por situações radicais.

Na minha opinião, são claras as semelhanças e influências, ao longo de todo o livro, de alguns autores que conheço: A viagem e até a comunidade fez-me recordar a saga do “Senhor dos Anéis” e, muitos factos, “Harry Potter”. No entanto, à parte dessas influências, este livro é nitidamente uma obra de índole juvenil, pois é mais um género de conto de fadas, cheio de seres fantásticos.

A eterna luta entre o bem e o mal, a suprema certeza ou, diria, a insistência em demonstrar aspectos morais acerca da verdade, da amizade, companheirismo, coragem e amor. Tudo isso é perceptível, penso mesmo que a intenção da autora foi essa, demonstrar ao seu público alvo que, mesmo diante do mal, das dificuldades, há sempre lugar para valores éticos e morais onde, obviamente, o bem acaba por vencer.

Algo de muito positivo que destaco é o mundo criado pela Catarina. Quase de raiz. A maior parte dos seres, a alimentação e até alguma linguagem (expressões). Aí o trabalho criativo é excelente.

Como aspectos negativos, sobressaem os monstros. Corpo de Urso, Cabeça de Crocodilo e Cauda de Escorpião… e ainda por cima com o cérebro de um dos anões… enfim, pode ser que os amantes do género apreciem, mas eu não consigo visualizar semelhantes monstros, não lhes consigo dar credibilidade. Outro aspecto é a escrita por vezes ingénua, um pouco superficial, parecendo preocupada em explicar, á luz das nossas expressões e cultura, o significado de expressões criadas. Compreendo essa escrita face ao publico a quem se destina, no entanto não deixa de ser estranho.

Em suma, este é um livro destinado a um público juvenil, mas que se lê bem, porém admito que os amantes do género fantástico possam apreciá-lo melhor do que eu, pois, uma vez mais, não é sequer um género que leie amiúdas vezes, razão pela qual, também, atribuo uma nota de apenas Razoável.

Classificação: 3

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pequenas Memórias (As) - José Saramago


Em as “Pequenas Memórias”, o “nosso” Nobel da Literatura faz desfilar de uma forma séria, mas e ao mesmo tempo humorística, sempre num tom melancólico que é ditado pela saudade e também por alguns fantasmas que, note-se, Saramago vai exorcizando, as suas memórias, mas memórias da sua infância, particularidade que é responsável pelo título da obra: “pequenas”, porque são memórias de quando foi criança.

Situando-se nas décadas de 20 e 30, ora na Azinhaga, a aldeia onde nasceu, ora em Lisboa, para onde veio viver com os pais ainda bebé, vamos conhecendo o lado humano do escritor, as suas raízes e vivências, as suas mais profundas recordações, traumas e até aventuras e desventuras de um menino igual a tantos outros que, ele próprio o admite, teve uma infância feliz.

Mas é inegável o acerto de contas com algumas das suas memórias, sobretudo no que respeita a memórias familiares.

Este é um livro que, admito, deve interessar mais aos “amantes” de José Saramago como é o meu caso. O estilo está lá todo, assim como os jogos de analogias que ele tanto aprecia (eu também), sempre mordaz, irónico, por vezes bruto, mas transpirando amor e uma imensa saudade. Bem pode desmentir isso, mas é notória a saudade por um tempo há muito guardado na sua mente.

Não sei se ele projecta uma continuação, mas e pessoalmente adoraria. Até figo mais, Saramago deveria escrever as suas memórias, todas, ou pelo menos a que entender.


Classificação: 4

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Mulheres de Mozart (As) - Stephanie Cowell



Este romance baseia-se em acontecimentos reais da juventude de Mozart.

1842, Salzburgo, Vincent Novello visita Sofia Weber para lhe fazer uma série de entrevista a fim de puder escrever uma biografia sobre Mozart. Sofia era a mais nova das irmãs Weber e a única que estava ainda viva.

“As mulheres de Mozart” é um belíssimo romance histórico que apresenta um conjunto de mulheres que, dada a sua íntima ligação com Mozart, foram peças importantes, servindo mesmo de inspiração para várias composições e óperas do maior compositor de todos os tempos, para além dessa inspiração, são igualmente conhecidas várias peças escritas por ele para serem cantadas por Aloisa e Josefa, que foram conhecidas cantoras líricas da altura e também várias peças onde ele brincava com o nome de Constanza e Sofia, as duas irmãs que mais conviveram com ele.

Os Weber eram uma família da média/baixa classe que viviam em Mannheim, Alemanha, cujo pai, Fridolin Weber era um músico com alguma qualidade, dando educação musical às suas quatro filhas que, assim, cresceram num ambiente onde diversos músicos faziam parte das suas relações.

E é precisamente nesse circulo que, certo dia, surge um jovem austríaco desconhecido, mas já tido como sendo um grande talento, chamado Wolfgang Amadeus Mozart, que depressa entra no íntimo circulo de amigos da família, começando também a relacionar-se com todas as jovens, sempre de uma forma muito respeitosa.

Este romance descreve sobretudo a vida dessa família, dando especial enfoque à vida das quatro raparigas – Josefa, Aloisia, Constanza e Sofia – e o “contributo” que elas deram na obra de Mozart.

Mozart é aqui também peça chave, revelando-se um jovem ciente do seu valor e, ao mesmo tempo, zangado com a sociedade que teimava em não lhe atribuir o valor que ele batalhava por merecer. É também esse percurso que nos é dado a conhecer. As ânsias do jovem Mozart sempre em luta consigo próprio e com aqueles que o rodeavam. As suas excentricidade, sendo que numa delas chega mesmo a ser expulso fisicamente da mansão do Arcebispo Colloredo de Salzburgo, só porque foi lá em pessoa dizer ao arcebispo para meter os favores no cú.

Obviamente para quem conheça um pouco da vida de Mozart, ou mesmo para quem viu o filme “Amadeus”, recordar-se-á que Constanza Weber foi sua mulher e mãe dos seus filhos. Só por aí se poderá medir um pouco da enorme importância que teve esta família na obra de Mozart. Mas não foi, de entre as quatro, a única paixão de Mozart, no entanto isso deixo para que descubram por vós próprios.

Foi um romance que me deu um enorme prazer ler sobretudo porque admiro imenso a obra de Mozart, considerando-o não apenas um génio, como também um ser humano que estava desfasado no seu tempo, alguém que mesmo hoje em dia iria sobressair pelas suas qualidades.


Classificação: 4

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Shalimar o Palhaço - Salman Rushdie



1993, no dia do 24º aniversário da sua filha, Max Ophuls é assassinado de uma forma monstruosa pelo seu motorista, Shalimar, parecendo tratar-se de um assassinato por razões políticas, pois Ophuls havia sido embaixador americano na India e dono também de um passado ligado à resistência francesa e responsável pela morte de vários oficiais alemães.

Em estado de choque, pois o crime é cometido praticamente à sua frente, India Ophuls, a filha, não entende como é que um homem tão bom como era o seu pai pode ter sido assassinado daquela forma bárbara. O que India desconhece é que o passado do pai está ensombrado por acontecimentos escandalosos que estão interligados com o seu próprio passado, nomeadamente o caso que o seu pai teve como a sua mãe, que ela nunca conheceu, aquando do mandato do pai na Índia.

Essa é a premissa para uma narrativa algo complexa sobre o passado de Max Ophuls, passado esse que, por ser longo, abrange seis décadas do século XX, logo acontecimentos muito importantes como a 2ª Grande Guerra, a guerra da Caxemira entre a India e o Paquistão, centralizando uma ideia base que acaba por se sentir em todos esses adventos, o radicalismo.

Sendo o primeiro livro que leio de Salman Rushdie, não posso afirmar que a escrita dele me encantou, até porque, e isso é uma ressalva que faço, achei essa escrita algo parecida com a de Garcia Marquez, e mesmo o estilo, esse realismo fantástico está presente em toda a narrativa, dando-lhe efectivamente um tom mágico e até algo épico, pois Rushdie, para além de abordar uma série de eventos históricos, é useiro em dados e curiosidades históricas e culturais, mencionado outras obras literárias.

No entanto o livro também não me desagradou e houve capítulos, diga-se de passagem que todos os capítulos são muito extensos, que me agradaram imenso. Por outro lado e não sendo eu um curioso sobre a História da India, a abordagem de Rushdie à cultura e religião Indu, aborreceram-me. A forma como Rushdie traça o trama também é bastante interessante. O primeiro capítulo é bastante motivador, ficando nós com a ideia que esse crime é por motivos políticos. Rushdie deixa-nos ir pensando nisso até certo ponto para, de repente, traçar uma outra linha condutora, misturando então tudo e, digamos, voltar a dar.
Pode parecer algo confuso, mas a história segue-se bem e com interesse, no entanto e na minha opinião, há períodos aborrecidos mas que não chegam para deslustrar um bom livro.

Classificação: 3

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Viriato - O Filho Rebelde - Sónia Louro


Que livro horrível!

É com livros destes que questiono: como é possível editarem-se textos de tão fraca qualidade, como é possível uma editora, embora neste caso seja uma editora desconhecida, deixar passar um livro tão mau, tão mal escrito?

A história em si até è apelativa. Parece ser um romance histórico sobre Viriato, sobre uma das raizes do nosso povo, os lusitanos.

No entanto a autora - uma tal de Sónia Louro que tem neste livro a sua primeira experiência, simplesmente não consegue encadear a história. Pouca coisa faz sentido, o trama está tão mal formado que depressa o interesse se esvai, até porque nota-se que dos vários episódios que a autora deve ter lido em vários manuais de História, são colocados de uma forma desconexa, tentando com isso construir o trajecto de Viriato, ou algo parecido. Mas fica muito, mas mesmo muito longe de o conseguir, pois ela nem sequer consegue efectuar uma clara descrição do ambiente da época, e note-se que a época em causa é o séc. II A.C.. Nem ambiente, nem usos, costumes, etc. Uma nulidade enquanto romance histórico.

E depois sucedem-se “coisas” hilariantes de tão ridículas que são. O Beltane, que na realidade era o Sabbat Beltane e que era uma festa pagã realizada no primeiro dia de Maio, também conhecida como a “Festa da Primavera” e que celebrava a união da Deusa, sendo também um festival da fertilidade. E o Semhain que, por sua vez, era realizado no Solstício de Inverno e que hoje é conhecido pelo Halloween ou Dia das Bruxas que era também uma festa pagã, como até era natural na altura, mas, para além de ela simplesmente não explicar que acontecimentos eram aqueles, o porquê dos mesmos, que alimentos utilizados, etc, ainda tem o descaramento de os abordar como se fossem uma coisa corriqueira, tipo uma festa de pijamas realizados com meia dúzia de bons compinchas, todos eles em busca de sexo leviano e desenfreado. E curioso também a forma como salta de festa para festa em meia dúzia de páginas. Aliás, basta ver que a certa altura Viriato vai de viagem com uns primos, viagem essa que demora 3 anos mas que em páginas decorre em cerca de 3 ou 4 páginas.

E mais, há tanta coisa sem sentido que tornam o livro numa amálgama putrefacta (eis uma das suas palavras preferidas), sem qualidade nenhuma, quer seja literária, Histórica ou até como simples romance de cordel.

A história?

A história começa com o casamento de Aurelur e Silara, que devia ter sido conforme os hábitos lusitanos. Não sei como eram os casamentos entre os lusitanos, nem fiquei a saber. Depois piram-se os dois e têm uma noite de sexo que é descrito num parágrafo de 3 ou 4 linhas. Depois de manhã, Aurelur, que é um simples pastor, vai para a guerra onde combate ferozmente e fica gravemente ferido. Enquanto está inconsciente, tem a visão de uma bela moçoila que lhe dá uma coisa qualquer para beber e, pasme-se, o tipo possui-a ali mesmo, ganda maluco. E depois acorda. Após a batalha, e tendo ficado com graves perturbações psicológicas, não consegue ter relações com a sua jovem e bonita mulher (não se riam) e anda nisto seis anos que são descritos numa página. E ó depois aparece-lhe uma deusa que lhe diz que essa tal moçoila que lhe havia surgido quando estava ferido, era, ao fim e ao cabo, uma deusa que estava prometida a Cernunnos, o Senhor da Floresta e dos animais, que por causa de ter perdido a virgindade, a moçoila e não o Cernunnos, e ainda por cima ter ficado grávida, irá agora, o Cernunnos, possuir a mulher de Aurelur, sendo que nessa altura seria concebido um bebé... zzzzzzzz, e ó depois Viriato nasce e já é grande.

Antes deste livro sabia pouco sobre os lusitanos e Viriato. Depois desta trampa, fiquei a saber exactamente o mesmo que sabia com a mais valia de saber, agora, que Sónia Louro nunca mais.

Classificação: 1

quarta-feira, 18 de março de 2009

Vendedor de Sonhos (O) - Augusto Cury


No topo do imponente edifício da maior companhia empresarial, um homem, desde logo chamado suicida, 40 anos, está prestes a pôr termo à sua vida.

Mas quem é este homem, porque se quer suicidar?

Será que a suas erudições, exímios conhecimentos linguísticos e de idiomas, boa aparência, saúde financeira, não lhe permitem ter uma vida completa e realizada?

Enquanto se desenrola este acontecimento, um homem no meio da multidão, que entretanto se juntou para ver triste espectáculo, pede passagem. Mas vestido, parecendo mais um vagabundo, um desprivilegiado da sociedade, consegue através da persuasão e de um estranho magnetismo, chegar ao topo do edifício e à companhia do suicida.

Ali apresenta-se como “Vendedor de Sonhos”.

É esta a premissa para entrarmos numa aventura onde a vida é-nos mostrada na sua simplicidade e plenitude como a mais importante dádiva ao ser humano. Esse homem, mais parecido como um vagabundo, vai revelando o significado de “vendedor de sonhos”, dissertando acerca de várias questões das sociedades e do intimo da alma humana, demonstrando que a consciência do individuo é fundamental para perceber o mundo e se libertar das grilhetas que, por culpa própria, o sufocam e lhe retiram essa mesma consciência e a liberdade de observar, sentir, sonhar, considerar, pensar, de viver.

É um livro que fala de emoções humanas, das perdas e ganhos, da nossa mente que teima em arranjar subterfúgios politica e socialmente correctos para mentir a ela própria, do que é tão óbvio e simples mas que porfiamos em menosprezar, dos ditos “sérios” da sociedade e dessa mesma sociedade que segue, impávida, serena e sem reagir, normas estereotipadas que transformam as pessoas em fantoches num imenso manicómio social.

Em suma, um livro que descomplica o complicado, que demonstra que o importante da vida são coisas simples que estão ao alcance de qualquer ser humano, entre pequeninas coisas, a mais importante e tantas vezes depreciada: O Amor.


Frases chaves:

“Eu tento vender coragem aos inseguros, ousadia aos medrosos, alegria aos que perderam o encanto pela vida, sensatez aos incautos, criticas aos pensadores”.

“Deus, quem és tu? Porque te calas diante das loucuras de alguns religiosos e não abrandas o mar de dúvidas dos cépticos? Porque disfarças os teus movimentos atrás das leis da física e escondes a tua assinatura nos eventos que ocorrem ao acaso?”

“É possível encontrar um grande amor. Só não se esqueça que poderá ter o melhor parceiro (a) ao seu lado, mas continuará infeliz se não tiver um romance com a própria vida. Contudo para a alcançar terá de deixar se ser escrava (o).”

“Que espectáculo vamos ver nós? Espectáculo? Cada dia é uma festa e cada dia um espectáculo. Só não o descobre quem está mortalmente ferido pelo tédio. O drama e a comédia estão no nosso cérebro. Basta despertá-los”.

“O intervalo de tempo entre a juventude e a velhice é mais breve do que se imagina. Quem não tem prazer ao penetrar no mundo dos idosos não é digno da sua juventude. Não se enganem, o ser humano morre não quando o seu coração deixa de bater, mas quando de alguma forma, deixa de se sentir importante.
Encontramos muitos “mortos” que estavam vivos pelos caminhos. Praticamos uma eutanásia psicológica. Sepultamos admiráveis seres humanos até quando lhe damos suportes para que sobrevivam.”

“Dêem e recebam. Não dominem as pessoas, não defendam a vossa crença, não imponham as vossas ideias, exaltem a vossa humanidade. Perguntem a quem encontrarem pelo caminho no que é que vocês lhes podem ser úteis. Dialoguem com as pessoas, conheçam páginas secretas, desvendem seres humanos deslumbrantes entre os anónimos. Não os enxerguem com os vossos olhos mas com os olhos deles. Não invadam a sua privacidade, não a controlem, vão até onde lhes permitirem. Ouçam-nos humildemente, mesmo os que pensam desistir da vida e estimulem-nos a ouvirem-se a si mesmos. Lembrem-se de que o reino da sabedoria pertence aos humildes.

Classificação: 5

segunda-feira, 16 de março de 2009

Rapaz Perdido (O) - Dave Pelzer


Neste segundo volume da trilogia que se inicia com o livro “Uma criança chamada coisa”, continuamos a seguir a vida atribulada de Dave Pelzer.

Enquanto no primeiro volume tomamos conhecimento da forma macabra como Dave é maltratado pela mãe, neste “Rapaz perdido” seguimos a libertação de Dave e o seu constante saltitar de família em família de adopção.

Dave tem 12 anos quando o pesadelo dos maus tratos físicos e psicológicos termina. No entanto um duplo problema está prestes a começar: o querer entender e esquecer o seu passado e conseguir integrar uma nova sociedade que se lhe depara.

Através dos olhos de uma criança torturada, assustada e completamente desadaptada socialmente, tomamos parte das tentativas de Dave em receber amor e carinho. Carenciado em vários aspectos, Dave tenta dar nas vistas querendo parecer-se o que não é, iniciando-se assim um caminho tortuoso que, após o tribunal decretar a sua separação da família biológica, o leva numa direcção penosa onde tenta ultrapassar os fantasmas do passado.

Mas não se pense que Dave se livra das garras do seu carrasco. Porque é uma criança deslocada, acaba por se ver constantemente em problemas, sendo que os mesmos são aproveitados de uma forma tétrica pela sua mãe, para voltar a levar o caso a tribunal. Demasiadamente insano e brutal, ela está sempre atrás da sua vítima que é o próprio filho.

Embora a fase das torturas físicas tenha de facto passado, este é um livro que descreve o quanto uma criança vítimas de maus tratos sofre psicologicamente. É dura da sua leitura. Ao longo de todo o livro Dave faz inúmeras vezes a mesma pergunta: “porquê?” e é curioso que essa pergunta fica sem resposta, tornando o caso ainda mais mórbido.

Talvez no 3º volume intitulado “Um homem chamado Dave” ele nos dê explicações para a sua terrível infância, mas e pelo que já li em alguns sites, penso que o próprio Dave Pelzer desconhece as razões.

Não vale a pena escrever muito mais sobre este livro porque este livro simplesmente, e perdoe-se a palavra “simplesmente”, narra a história real de David Pelzer a partir da libertação do seu pesadelo. Os problemas posteriores, as humilhações, mas também a esperança num futuro melhor. Tudo isso faz parte do percurso de uma criança assustada e terrivelmente traumatizada.
Por fim deixem-me dizer-vos que é muito interessante a pequena dissertação que ele efectua no final do livro sobre a adopção, desmestificando totalmente, não só o processo, como também os profissionais a ela ligados; as famílias de adopção, nomeando inclusivamente alguns casos que se tornaram lendários; oficiais de polícia que são, em grande parte, responsáveis pelo desencadear do processo de libertação de crianças maltratadas; as organizações, sobretudo uma que se destaca “Jaycees”, que são voluntários e que realizam um trabalho fantástico em prol de crianças sem lar. Dave defende e louva tudo isso, sendo que é perfeitamente compreensível e louvável fazê-lo depois do seu imenso sofrimento.

Deixo dois excertos que me marcaram. Sobretudo porque ao me envolver tanto com esta tragédia, não deixei de me comover ao ler o seguinte.

Tal como o ‘Jaycees’ e o ‘Arrow Project’, talvez a sociedade possa aliviar algumas das frustrações dos que escolheram esta função. Talvez nós possamos enviar um postal a um professor sem uma razão especial, e dizer-lhe apenas obrigado, ou dar um pequeno ramos de flores a uma assistente social. Talvez na próxima vez que virmos um agente da polícia, nós possamos sorrir e cumprimentá-lo; ou oferecer uma pizza a uma família adoptiva. Se nós podemos tratar figuras do espectáculo e do desporto com se fossem dádivas dos deuses, porque é que nós não podemos mostrar um pouco de gratidão para com aqueles que desempenham um tão inestimável papel na nossa comunidade?”

Em Janeiro de 1994 tive o privilégio de apresentar um programa de orientação em Ottumwa, Iowa, a um grupo de pais adoptivos..., ... durante o curso, dei o exemplo de como eu costumava escapar à dor sonhando como um herói. No exterior, o meu herói não se integrava na sociedade dominante, contudo, no interior, o meu herói sabia quem era, e queria ajudar os necessitados. Eu voava, usava uma capa vermelha, e tinha um “S” no peito. Eu era o Super-Homem. Quando eu disso isto, os pais adoptivos desataram a bater palmas. Enquanto as lágrimas corriam pelo rosto de alguns deles, ergueram um cartaz que dizia: “O SUPER-HOMEM TINHA PAIS ADOPTIVOS

Elucidativo. Leiam esta obra!

Classificação: 5

domingo, 8 de março de 2009

PRÉMIO "66?"


Foi-me simpáticamente atribuído pelos blogs "Conta-me Histórias" e "Floresta das Leituras" este Selo/Prémio. Saravá Homem do Leme.
Associado a este Prémio, existem algumas regras:
1. Linkar a pessoa que o/a indicou;
2. Escrever as regras no blogue;
3. Contar 6 coisas aleatórias sobre si;
4. Indicar mais 6 pessoas e colocar os links respectivos no final do post;
5. Deixe a pessoa saber que a indicou, deixando um comentário para ela;
6. Deixe os indicados saberem quando você publicar seu post.

Então as seis coisa sobre mim:
  • Sou um um romântico. Gosto de jantares à luz das velas, oferecer flores, etc...;
  • Adorava abrir uma escola/instituição do mesmo Modelo criado pela Oprah Winfrey na África do Sul;
  • Adoro História e um dos meus maiores sonhos era efectuar turismo Histórico pelas zonas onde viveram civilizações antigas;
  • Adoro Perfumes;
  • Odeio a mentira, o oportunismo , a falta de carácter, a deslealdade e os falsos amigos;
  • Toco viola há uns 20 anos e continua a ser um escape a par dos livros.

Nomeio então seis blogs sobre os quais o mundo quer saber mais:

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Uma Criança Chamada Coisa - Dave Pelzer



Nunca li nada tão brutal como este livro. A história é algo que ultrapassa o limiar do chocante, é algo verdadeiramente insano, animalesco, um autêntico pesadelo que dói ler.
Uma Criança Chamada “Coisa” é o relato de um dos casos mais graves de maus tratos infantis na História dos Estados Unidos. Eu até arriscava a dizer do Mundo, mas depois de ler as considerações finais do autor, fico estarrecido ao perceber que milhões de crianças são tratadas como “coisas”.

Esta é a história de Dave Pelzer, a criança que foi brutalmente maltratada durante toda a sua infância pelos próprios pais, sobretudo pela mãe. É verdade, é o próprio que descreve os seus maus tratos e meus caros e caras amigas, nem imaginam a brutalidade do cenário que estamos prestes a conhecer.
Volto a repetir, é insano todo o relato. É de doidos os castigos que a própria mãe inflige ao filho diante da aquiescência do pai que, estranhamente por medo da mulher, nada fazia para alterar a situação.

Num verdadeiro grito de revolta e alerta Dave Pelzer dá conta de todo o seu sofrimento, descrevendo os castigos que lhe eram aplicados, do ambiente degradado onde vivia, pois e obviamente os seus pais andavam quase sempre alcoolizados e isso é algo que está por detrás dos maus tratos, mas acreditem que não justificam absolutamente nada. Curiosamente e por muito que sofra, Dave tem sempre a vã esperança que as coisas se alterem, que da parte da mãe venha um gesto de carinho, que seja tratado como um ser humano, que tenha uma família, um lar.

À medida que vamos lendo as poucas páginas deste livro (li-o em cerca de 3 horas), acabamos até por colocar em causa a veracidade do relato, não só pela insanidade das situações como também por emergirem algumas questões que, neste livro, não são respondidas, e questões como: “porquê se eram 4 irmãos, apenas Dave era maltratado?”, “Que fez ele de tão grave para a mãe o odiar assim tanto?”, “Embora tratado abaixo de animal, o certo é que ele vai sempre à escola e, embora vestido de uma forma andrajosa, ninguém o comparava com os outros irmãos, não achando isso estranho?”. Embora desconfie do porquê do ódio da mãe, existem de facto algumas questões que não batem certo com a narração, mas o certo é que a história é real, absurdamente real.

Para além de este ser o primeiro livro de uma trilogia, é importante ressalvar o profundo significado que este livro pode ter na sociedade. Já no fim, Dave faz uma pequena dissertação sobre os maus tratos a crianças, abordando a questão da projecção desses maus tratos no futuro da vítima e dos que o rodeiam. Pessoas que crescem atormentadas e que no futuro têm comportamentos assassinos, outros que estendem as suas frustrações nos filhos, na família, nos colegas, etc.

Este é um problema sério e de todos nós, pois uma criança maltratada no presente pode vir a ser um grande problema para a sociedade no futuro, e não é só isso, é um dever enquanto seres humanos alertar as autoridades sobre maus tratos que possamos ter conhecimento, defender aqueles que não têm força para o fazer.

Este é um livro, acreditem, assustador, macabro, violento, sádico, demente. Mas é um livro que deve ser lido, que deve ser divulgado em prol não só das crianças, como também por nós mesmos enquanto seres humanos.

Para quem quiser, procurem no YouTube acerca do assunto. Há vários videos dedicados a esta história e inclusivamente uma entrevista da Oprah ao próprio Dave.
E a próxima opinião será a continuação do pesadelo de Dave Pelzer no 2º volume: “O rapaz perdido”.


ALGUNS EXCERTOS
(e não daqueles muito insanos)

“A mãe então acendeu os bicos de gás do fogão da cozinha. Disse-me que lera um artigo acerca de uma mãe que obrigara o filho a deitar-se sobre um fogão a escaldar. Eu fiquei imediatamente aterrorizado. O meu cérebro ficou paralisado, e as minhas pernas vacilaram, eu queria desaparecer. Fechei os olhos, desejando que ela estivesse longe. O meu cérebro fechou-se, quando senti a mão da mãe agarrar-me o braço como se estivesse drogada...

“...eu sabia que a mãe tinha qualquer coisa terrível na cabeça. Logo que eles partiram (o pai e os irmãos), trouxe uma das fraldas sujas do Russel (irmão mais novo e ainda bebé). Esfregou-me a fralda na cara. Eu tentei manter-me sentado, perfeitamente quieto. Sabia que se me mexesse, seria pior. Não olhei para cima..., ela ajoelhou-se ao meu lado e, numa voz sarcástica, disse: “come-a”.... comecei a chorar...esfregou-me a cara na fralda de um lado para o outro...”

Embora a mãe nunca mais me tivesse mandado engolir amoníaco (imaginem), fez-me beber colheres de detergente algumas vezes...”

sozinho na garagem, senti que estava a perder o controlo. Ansiava por comida... queria um mínimo de respeito, um pouco de dignidade. Ali sentado sobre as mãos (era outro dos castigos), ouvia os meus irmãos a abrir o frigorífico para tirar a sobremesa, e sentia ódio. Olhei para mim. A minha pele estava amarelada, e os meus músculos enfraquecidos...”


Classificação: 5

Eça de Queiroz A Vida Privada - José Calvet Magalhães



Este é um livro destinado sobretudo aos amantes da obra de Eça de Queiroz, embora para o amante da História e da vida cultural e social portuguesa do séc. XIX, tenha também motivos de extremo interesse.

É um livro que aborda a vida de José Maria d’Eça de Queiroz, o José Maria para os amigos e é assim que o autor o denomina durante todo o livro, principalmente porque José Calvet efectua uma divisão clara entre o homem e o escritor, separa-os, e embora tal separação se revele complicada e quase impossível de ser feita, o certo é que este livro narra-nos a vida do homem, do cidadão, que vai muito para além da sua escrita.

Assim o livro, que não é um romance mas sim uma biografia, inicia-se a meio do séc. XIX com o caso que junta os pais de Eça, caso que irá levar a várias confusões, culminando com o registo de José Maria como filho do dr. José Maria Queiroz (ele tinha o nome do pai) e de mãe incógnita.

A juventude de Eça é superficialmente abordada porque simplesmente existem poucos dados e o próprio Eça raramente falava nela. Mas e com o pouco que tem, o autor consegue fazer um pequeno filme da sua infância, chegando à conclusão que teve uma infância feliz. E é com essas raízes que José Maria, já adolescente, vai para Coimbra cursar direito, período esse que já se encontra bem melhor documentado.

E é precisamente por estar excelentemente documentado por cartas de amigos e do próprio Eça, até pela voz própria de testemunhas que conheceram Eça e que foram deixando escrito vários episódios, que o autor descreve a vida do escritor, os seus vícios, virtudes, defeitos, maleitas, medos, dissabores, amores, amizades e inimizades, conhecemos a vida de Eça de Queiroz, o homem, cônsul de profissão e escritor por vocação.

Pessoalmente este livro encantou-me. Eça é um dos meus ídolos, uma das minhas referências, o meu escritor de eleição. Um homem íntegro, sério, mas um homem que, como qualquer ser humano, tinha defeitos, sentia, sofria e amava, possuía uma inteligência e um sentido de humor formidáveis, transpondo para as suas obras a sua visão da sociedade, a melhor herança que podia ter deixado à sua nação.

Desfilando ao lado de personagens igualmente marcantes (Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Rei D. Carlos, Rainha D. Amélia, Emile Zola e tantos outros), sobressaem episódios caricatos da sua vida, uma vida tão cheia e rica, mas uma vida que findou da mesma forma como viveu.Eu adorei e só não o classifico como Obra-Prima porque gostaria de ter lido mais acerca da inspiração para os seus livros, o que estavam por detrás deles, as suas ideias. Aborda isso levemente.


Classificação: 4

Em Demanda da Relíquia - Bernard Cornwell


Há vários anos que sou um profundo admirador de Bernard Cornwell, autor britânico responsável por uma série de romances históricos verdadeiramente excepcionais, destacando contudo a trilogia “Crónicas do senhor da guerra”, simplesmente do melhor que li até à data.

A escrita de Bernard Cornwell não tem nada que possamos classificar como único ou transcendente. O estilo dele é simples, mas é essa simplicidade que torna os seus livros tão empolgantes. Ele não perde muito tempo com descrições desnecessárias. Focalizasse objectivamente na descrição da época abordada e isso é algo que marca inegavelmente o seu estilo, pois ele consegue agarrar o leitor com a escrita, principalmente porque descreve de uma forma nua e crua não só a época, como nunca esconde (até faz gala) a brutalidade da mesma.

Quantos e quantos romances históricos que lemos, alguns até bem interessantes, que mostram a idade medieval cheia de amor e fraternidade, um mar-de-rosas, onde todos são amigos e onde a violência parece algo tão distante...

Com Cornwell vivemos as épocas da forma que elas foram. A brutalidade das guerras, o modo como elas se faziam. As relações humanas, a clara divisão de classes sociais. O modo de uns verem os outros, ou seja, em qualquer romance de Bernard Cornwell entramos nas épocas, quase que os sentimos presentes, quase que entramos no próprio romance. Digo quase porque não pretendo efectuar uma análise mais pormenorizada nem pretendo convencer ninguém, mas eu quando leio Cornwell, sinto-me dentro do romance, vivo as batalhas, consigo até ouvir o relinchar dos cavalos e os gritos dos homens.

Esta trilogia denominada “Em demanda da relíquia” e composta pelos romances “Harlequin”, “Vagabundo” e “O Graal”, situa-nos em plena Guerra dos Cem Anos que opôs a Inglaterra à França por todo o séc. XIV.

Thomas de Hookton é um jovem inglês que vive com os pais numa pequena aldeia piscatória que, subitamente, é invadida por dezenas de soldados franceses que arrasam a aldeia assassinando todos os seus habitantes, exceptuando Thomas que consegue fugir.

Esse episódio, que acaba por ter um objectivo que aqui não revelo, acaba por marcar a vida de Thomas, traçando então o seu destino que o colocará no caminho da maior obsessão de toda a idade medieval, da mais valiosa relíquia da cristandade: O Santo Graal.

Numa época tão marcada pelo surgimento de relíquias que supostamente pertenciam ao próprio Jesus Cristo, Bernard Cornwell retracta brilhantemente todo esse agitado período, onde os acontecimentos se sucedem em catadupa sem qualquer quebra, cheio de entusiasmo, suspense e vitalidade.

Uma trilogia que se lê num só fôlego tal a ânsia de sabermos o que vai acontecer a seguir, qual o desenrolar da batalha ou o destino dos vários personagens, personagens fortes, com alma.

Não sendo o melhor que li de Bernard Cornwell, esta trilogia apresenta-se como uma obra Histórica de eleição e altamente aconselhável para aqueles que escolheram o género histórico como o seu predilecto.


Classificação: 5

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Prémios Atribuidos

Embora o tenha referido em diversas ocasiões e em vários Blogs, nunca aceitei nenhum prémio porque, muito honestamente, nunca vi que utilidade prática que esses prémios pudessem ter, aliás, considerava e considero, que a proliferação de prémios que se assiste actualmente, retira aos bloguistas o foco nos seus blogs.

No entanto, nos últimos dias têm sido vários os prémios que têm atribuído a este blog com o pormenor do que também agora fui convidado, e aceitei, por uma revista para colaborar através de opiniões que aqui vou colocando.

Posto isto alterei a minha postura. Continuo sem valorizar muito esses prémios, no entanto valorizo aqueles que mos atribuem, pois a esses agradeço e demonstro aqui o meu apreço e sensibilidade à vossa amizade, nem imaginam o quanto valorizo a vossa amizade e saber que este meu cantinho é digno das vossas ilustres visitas.

Um bem haja a todos com a garantia que têm aqui também um amigo para TODAS as ocasiões.

Coloquei no lado direito, no fim, as imagens dos prémios e os agradecimentos a quem mos atribuiu.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami



A história é narrada por K., um jovem professor primário.

K. vive apaixonado por Sumire, uma jovem mulher que vive na perspectiva de vir a ser escritora de renome, porém Sumire não escreve nada de palpável criando uma ilusão ou um sonho.

K. ama Sumire, mas Sumire vê em K. apenas um amigo, porém, entre os dois nasce uma intimidade cheia de inconfidências, segredos próprios de amantes.

Entre os dois intromete-se Miu, uma mulher madura, frígida assumida, que contrata Sumire como secretária pessoal.

Sumire apaixona-se perdidamente por Miu, uma paixão entre o platónico e o puramente sexual, tornando K. confidente desse amor.

É neste estranho triângulo que, numa viagem à Grécia de Miu e Sumire, esta última desaparece. Miu, assustada, chama K. para ajudar nas investigações e é a partir daí que se começa a desvendar o mundo destas três personagens.

Adorei este romance, diria mesmo que foi dos poucos que me comoveu e que me tocou bem fundo.

Neste livro Murakami traça de uma forma magistral e ao mesmo tempo nua e crua, um retacto da solidão, uma reflexão apurada sobre o ser humano e essa solidão que insiste em o envolver.

São brilhantes as dissertações acerca dos sonhos e das necessidades que temos em pertencer, em ser, viver, sentir, amar e ser amado.

Murakami constrói três personagens que se interligam em todas essas vertentes. Constrói um mundo onírico, uma espécie de 2ª Dimensão, um outro lado do espelho em que estas três personagens se complementam.

Revi-me em muitos momentos desta narração.

Em vários momentos comoveu-me o pensar de K., os sonhos e desejos de Sumire e o sofrimento de Miu.

As reflexões de K., quando na Grécia, mostram-nos um mundo das fragilidades humanas.

O Melhor livro de Murakami e um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

“Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta gente, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?”

Um livro espantoso que me apaixonou.

Classificação: 5

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Filha de Deus (A) - Lewis Perdue



Na capa deste livro pode ser: “O grande impulsionador do género que 10 anos mais tarde celebrizou Dan Brown”.

Ou seja, logo aqui, esta premissa lança-nos num género thriller/policial histórico, neste caso supostamente histórico pois a o assunto base do livro gira em volta de uma jovem mulher chamada Sophia que terá sido ou considerado como um 2º Messias e que a igreja, na altura, tratou de eliminar aquando do célebre concílio de Niceia.

Pois bem, foi mediante essa premissa que me lancei entusiasticamente na leitura deste livro e, após 172 páginas e 15 capítulos, posso afirmar que o mesmo se revelou uma tremenda desilusão.

Primeiro que tudo admito que estou um pouco cansado deste género de livros. Thrillers históricos onde um acaso qualquer dá origem a um mistérios histórico cheio de conspirações ao longo dos séculos, onde a igreja está metida nessas conspirações até ao tutano, é algo que, sinceramente, já me aborrece, pois geralmente cai-se nos mesmos clichés e lugares comuns. Porém este atraiu-me porque julguei de facto que no séc. III tivesse existido essa Sophia e não é que esse facto é tão só falso?

Ou seja, o meu principal interesse pela história logo se revelou falso, frágil, pois o autor pretende de facto construir um trama onde o foco gira em volta de várias questões: arte roubada pelos nazis que se interliga com um terrível segredo da igreja cristã, a suposta existência da tal Sophia.

Ao longo dos 15 capítulos que li, a acção pouco ou nada se desenrola.

Um professor, ex-polícia, que constata que a sua jovem mulher desaparece de uma forma muito estranha. Essa mulher, que era simplesmente uma avaliadora de arte que horas antes havia estado na casa de um velho nazi a avaliar obras de arte tidas como desaparecidas...

A partir daí o costume.

Perseguições, assassinatos, fugas e alguns factos históricos interessantes, mas já lidos em outras obras, que tentam dar à história um quê de realismo sem, na minha opinião, o conseguir.

O livro é fraco. O autor pouco desenvolve. Usa e abusa de clichés, acções e situações já lidas noutras obras.

Obviamente que até posso admitir que este livro foi o fundador deste género, mas a partir de certa altura começou a ser penoso continuar, um arrastar página a página, frase a frase. No último dia, numa viagem de comboio, li 10 páginas e, no final, não me recordava rigorosamente nada do que havia lido.

Assim, resolvi desistir.

Não leio por ler. Conforme tenho referido, leio porque me dá prazer saber a história e o desenvolvimento da mesma caso contrário considero uma perda de tempo insistir em algo que não me está a dar esse prazer.

Se for amante do género thrillwe histórico celebrizado pelo Código Da Vinci, então talvez vá gostar deste livro.

Dou-lhe pontuação mínima precisamente pelas razões assim descritas.

Classificação: 0 (Não Terminado)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Águia do Império (A)


Apaixonado pela Cultura Romana e por vários autores do género histórico, entre os quais Bernard Cornwell que é, quanto a mim o melhor escritor do género, Simon Scarrow resolveu escrever aquilo que mais gostava de ler e que, digo eu, era difícil de encontrar e decerto preencher a sua necessidade: romances históricos passados no seio das míticas legiões romanas.

Obviamente para quem conhece Bernard Cornwell, acaba por encontrar semelhanças muito fortes, ou se quiserem, nota-se perfeitamente o estilo de Cornwell neste livro que me proponho a comentar, sobretudo no realismo visual como ambos narram as batalhas e a expressão da violência da época descrita.

Mas vamos por parte.

Este “Águia do Império” é o 1º volume da “Série da Águia”.

Germânia, 42 d.C., seio da 2ª legião, a mais afamada e dura dos exércitos de Roma.

Como protagonista principal, o jovem Quintus Cato, Liberto (antigo escravo) graças aos serviços do seu falecido pai ao Imperador Cláudio, no entanto com a condição, como qualquer cidadão romano, de servir a legião romana pelo período obrigatório, 25 anos.

Nascido e criado no palácio imperial em Roma, Cato vê-se incorporado na 2ª Legião no meio de homens abrutalhados, quase todos analfabetos e sobretudo que o desprezam por constatarem que graças às boas graças do imperador, Cato receberá um posto superior ao deles.

A vida de Cato não se antevê fácil. Dado a poesias e às coisas doces da vida, depressa constata que a realidade da corte é completamente diferente da do exército, mas será que vai dar parte fraca?

Este primeiro volume acompanha assim o início da vida militar de Cato, das suas dificuldades, das suas primeiras amizades e amores. Acompanha também a invasão à mítica Bretanha, ilha povoada, segundo as lendas, por monstros e guerreiros selvagens.

No meio de toda a trama, que evidentemente tem também uma dose q.b. de intriga política, está Cato e o seu mentor, o Centurião Macro que, juntos, nos proporcionarão momentos de excitante acção.

Embora tenha adorado ler este 1º volume, não posso de registar e mencionar alguns pormenores que considero um pouco forçados e até algo absurdos.

A incorporação de Cato é realizada de uma forma normal, no entanto e para além de ser logo nomeado como oficial, verifica-se logo que ele não tem qualquer treino militar e nem sequer sabe pegar numa espada. Começam a teinar com uma espada de madeira, o que era normal, mas achei forçado que, pouco tempo depois de estar a recruta e sem sequer ter pegado numa espada a sério, é enviado, por acaso é certo, mas é enviado numa missão que se ante vinha simples. Porém aquilo desencadeia numa terrível e brutal batalha e vê-se Cato a combater com as hordas germânicas e inclusivamente a matar guerreiros supostamente bem treinados e cheios de ódios pelos soldados romanos.

Em todo o caso gostei imenso da escrita de Scarrow. Simples, objectiva e muito visual, diria mesmo cinematográfica. As descrições das batalhas são violentas e pormenorizadas, prometendo mais ricas e excitantes aventuras para os subsequentes volumes.

Classificação: 4 (Muito Bom)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Memórias do Livros (As) - Geraldine Brooks


1996, Hanna Heath, conservadora e especialista em livros raros, é convidada para se deslocar a Sarajevo a fim de analisar um livro muito raro e valioso, salvo dos bombardeamentos e concebido numa época em que a fé judaica se opunha veementemente a qualquer tipo de ilustração. Criado na Espanha medieval, a Hagadá de Saravejo.

Mediante medidas excepcionais, Hanna empreende uma minuciosa análise ao livro, descobrindo minúsculos artefactos que nos irão lançar numa aventura ao longo de 500 anos.

Essa aventura irá levar-nos a 1480, 1492, 1609 e 1940, épocas dispares, diferentes cenários por onde a Hagadá passa. Histórias individuais que tecem uma teia única que explicará esses tais minúsculos artefactos que Hanna descobre. Nessas histórias conhecemos vários e fascinantes personagens que servirão de base à narração dos acontecimentos das épocas abordadas que ajudam também a narrar e a situar-nos das condições do povo judeu.

E não será esse o verdadeiro propósito do livro?

Não diria que é um livro fascinante. Diria antes que é um livro que nos proporciona vários momentos de êxtase tal a beleza de certas histórias e a grande capacidade narrativa da autora.

Gostei imenso do estilo: simples, objectivo, sem grandes descrições e muito cinematográfico. Assente num grande rigor histórico, tal os ricos e interessantes pormenores históricos que abundam em toda a narrativa, as “Memórias do Livro” torna-se um excelente romance histórico que tem a capacidade de interligar épocas distintas demonstrando também que, pese embora as épocas e as mentalidades das mesmas, o ser humano não consegue aprender com a História.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Canção de Tróia (A) - Colleen Mccullough


Baseada em várias fontes, nomeadamente em obras de Virgílio, Sófocles, Heródoto, Píndaro e, claro, na Iliada de Homero, a Canção de Tróia é de facto um excelente livro e uma obra excepcional para a cultura universal.

Afirmo isto porque simplesmente, num só livro, Colleen McCullough conseguiu reunir e unificar, de uma forma muito simples, todo um conjunto de obras de vários autores, elaborando o melhor texto que li sobre a Guerra de Tróiae sobre o relacionamento entre personagens lendárias como Agamémnon, Ulisses, Aquiles, Heitor, Helena, Patrocles, Príamo, Páris, Ájax, Peleu, Briseida, Nestor, Menelau, Eneias e até Hercules, que aparece no início do livro e que, indirectamente, está por detrás da génese da Guerra de Tróia.

Colleen McCullough faz assim um trabalho notável de recriação histórica e mitológica, arrancando do fundo da memória colectiva personagens íntegros, dando-lhes vida, onde a beleza está associada à coragem e à bravura, onde o erotismo anda de mãos dadas com a violência, sim, violência, porque este livro tem tanto de belo como de brutal. E é nessa conjugação que McCullough humaniza os personagens.

A Canção de Tróia começa muito antes da Guerra de Tróia. Começa na véspera do nascimento de Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. Nesses dias um acontecimento singular se dá em Tróia que mais tarde estará pode detrás do sucedido com Páris que levará à causa da Guerra.

Num espaço de 30 anos vamos acompanhando o nascimento de personagens e a vida quotidiana de outras e é assim que chegamos a Helena, irmã de Clitemenestra que é, por sua vez, esposa de Agamémnon, rei supremo da Grécia.

Ora bem, Agamémnon casa o seu irmão, Menelau, com Helena, que era, embora ainda muito jovem, uma mulher marcada por aventuras de cariz sexual, num tempo, aliás, onde o relacionamento sexual era visto como profundamente natural e onde os relacionamentos homossexuais não eram escondidos.

Helena era no entanto uma mulher promíscua que não fugia, antes pelo contrário, a aventuras extra-matrimoniais, sendo assim que acaba por se envolver com Páris, quando este está de visita ao reino de Menelau.

E o resto leiam por vós mesmo.

A narrativa é empolgante, sendo curiosa a forma como Colleen narra cada capítulo: todos eles são contados a partir do ponto de vista de vários personagens, logo, tanto ficamos com a perspectiva de A, B ou C, entendem? Isso é muito interessante e dota o livro de um constante refrescar da observação dos acontecimentos.

Depois consegue humanizar todos os personagens. Tirando as batalhas (são violentíssimas), surge-nos um Ulisses extremamente inteligente mas cheio de vícios e defeitos, sobretudo ao nível da ética. Isso é curioso, ainda mais porque se conhece que a ética na guerra era uma das maiores virtudes das civilizações antigas. Aquiles, e é impossível não se gostar de Aquiles, é descrito como um homem atormentado, quase paranóico, mas que se revela o mais feroz dos guerreiros, e nessa conjugação de virtudes e defeitos, acabamos por nos identificar com Aquiles como sendo ele um modelo para nós mesmos. Isso é curioso! E sem querer entrar noutras considerações, pois efectuei uma análise a quase todos os personagens e achei “engraçado” as conclusões que ia retirando, quero apenas referir Ájax, primo de Aquiles, que transpira poder, integridade, lealdade e coragem. Foi o personagem que mais gostei e aquele que considero a minha referência, com que mais me identifico.

Esta é verdadeiramente uma Epopeia. Não tenho pejo nenhum em a considerar, pelos acontecimentos que aborda, superior à Ilíada.

A Ilíada é bela pela forma como está escrita (se puderem leiam-na na sua forma original, ou seja, em poema. Mas eu sou daqueles que considero que a Ilíada não foi escrita por apenas um homem), mas esta Canção de Tróia é um documento histórico que entra nos personagens, revelando-nos a sua mentalidade, o seu dia-a-dia.

Pessoalmente acredito que Ulisses, Aquiles, Ájax, Heitor e todos os outros heróis existiram. Deuses não eram, apenas homens. Mas no livro Aquiles profere uma frase que, quanto a mim, descreve a imortalidade dos heróis que, à medida que os séculos passam, se vão misturando com deuses, tornando-se assim lendas e mitos. ”Se nos lábios das gerações futuras eu puder combater contra Heitor um milhão de vezes, então é porque de facto, nunca terei morrido”. E um milhão de vezes se tem narrado esse combate, um milhão de vezes esta guerra, estes guerreiros que fazem parte do imaginário da raça humana.

domingo, 30 de novembro de 2008

Máscaras de Salazar - Fernando Dacosta




Para quem se interesse por História, nomeadamente pela nossa História, eis um livro fabuloso que aborda, como o nome deixa adivinhar, todo o Estado Novo na figura do seu Presidente do Conselho: António de Oliveira Salazar.

Antes de abordar o livro, quero realçar a enorme surpresa que foi para mim a escrita de Fernando Dacosta, romancista, dramaturgo e jornalista, autor de várias obras, mas que nunca me despertou o interesse. No entanto surpreendeu-me a enorme simplicidade e objectividade da sua escrita, a clareza de raciocínio, a forma poética que emprega ao texto, ainda por mais sendo este uma narrativa e o tom neutro como aborda toda a obra, nunca julgando, nunca comentado, apresentando apenas factos.

Em as “Máscaras de Salazar”, Dacosta apresenta-nos o homem por detrás do político, aquela figura austera que ficou para a História. Salazar enquanto jovem estudante, a forma como entra na política, os seus anseios e desejos, o que o move, as suas ideologias, a forma de estar e ver a vida.

Salazar surge no comando do governo sem que ele saiba bem como e vê nisso um género de demanda, um sinal. É ele a salvação do país, por isso resolve consagrar e sacrificar a sua vida pessoal em prol de uma nação, de um império.

Surge-nos assim um homem com defeitos e virtudes, um homem que acredita no esoterismo, na astrologia, pouco religioso (achei isso curiosíssimo) embora tenha em Cerejeira um dos seus amigos e confidentes mais próximos, um homem que não apreciava jantares, ajuntamentos, que apreciava coisas simples e que, inclusive, pagava a renda de S.Bento com o seu próprio dinheiro. Uma figura muito distante do Salazar figura do regime.

Importa aqui referir que conheço pouco de Salazar e da sua obra. Ele é sempre apresentado como um ditador que, escondido em S.Bento, construiu toda uma rede tal Big Brother que a todos vigiava.

Isso até pode ter muito de verdade e Dacosta não o sonega, mas há de realçar que existiu também o homem Salazar, que tinha sentimentos, gostos, humores. Um ser humano e este livro não só o faz como ainda vai mais longe, ouve, osculta aqueles que mais próximo estiveram de Salazar: amigos de infância, políticos, simples pessoas que o conheceram e sobretudo D. Maria, a governanta que sempre o acompanhou.

Dacosta aborda assim os cerca de 40 anos do seu governo, as guerras que assolaram esse período, os interesses com as outras nações, a P.I.D.E., a oposição e a forma como sempre procurou defender os interesses de Portugal, indo até contra os interesses do Vaticano. Sobre o Vaticano é interessante o desvendar do 3º segredo de Fátima, segredo esse que provavelmente até tem a ver com Portugal. A forma como se relacionava com outros políticos e figuras que se cruzaram com ele, tanto política, como cultural e socialmente: Júlio Dantas, Gen. Costa Gomes, Ge, Humberto Delgado, Amélia Rey Colaço, Natália Correia, Salgado Zenha, Mário Soares, Aquilino Ribeiro, Duarte Pacheco e tantos outros.

E, entre várias curiosidades, ouve uma que me chamou especial atenção. Salazar, que tinha na sua governanta uma amiga e uma confidente (más línguas diziam que até algo mais), confidencia-lhe por várias vezes do porquê da necessidade de defender os territórios ultramarinos. Ele achava que Portugal sem esses territórios ficaria um país minúsculo e sem qualquer tipo de influência, um país que ficava assim sujeito a outras nações acabando por morrer. Ele tinha esse receio e, digo eu, era um visionário.

Um homem que não gostava do comunismo nem dos americanos que, dizia ele serem apologistas de uma política que visava o domínio das outras nações, muito pior que o próprio comunismo... e isso proferia ele na década de 60.

Em suma, um pequeno livro que se revelou numa obra de uma enorme extensão sobre Salazar, o seu regime e Portugal.

Rubicão - Steven Saylor


Embora seja uma amante de História e um grande apreciador de romances históricos, confesso que possuo uma relação de amor-ódio com o império romano e tudo o que lhe diga respeito, ou seja, sei perfeitamente da sua importância e influência nas sociedades ocidentais, que foi o império que mais durou, mas cada vez que leio alguma coisa sobre eles... enfim, é cá um fastio.

No entanto há ocasiões em que me apetece ler algo sobre eles e, devido a isso, lá acabo por me deparar com alguns “livrecos” interessantes e outros nem tanto, sendo que e neste caso, acabei por me deparar com algo que, enfim, lê-se.

Steven Saylor é licenciado em História e perito em política e cultura romanas.

Penso que isso é um excelente cartão de visita, ainda mais quando se junta o facto de ele ser fascinado por culturas clássicas, logo podemos estar certos que o descrito nas suas obras está de acordo com a época em causa.

Ora bem, não belisco minimamente a veracidade dos pormenores da época, até porque este “Rubicão” é o segundo livro do autor que leio e o outro, “Sangue Romano”, até me agradou, but este “Rubicão” é assim o sexto livro de uma série iniciada com o tal “Sangue Romano”, intitulada, a série, de “Roma Sub-Rosa”, Saylor, servindo-se do personagem Giordiano, que é um género de detective independente, aborda a vida social, cultural e política de Roma com todos os seus jogos de interesses políticos, cujas vidas dependiam de quem estava no poder e de quem apoiasse quem, tudo o que me aborrece.

Este livro descreve quando Júlio César resolve tomar o poder e guiar as suas tropas de volta a Roma, fazendo Pompeu, o seu rival e imperador, fugir com as suas tropas leias rumo ao sul, deixando Roma mergulhada no caos.

É neste contexto que Numérico Pompeu, sobrinho do imperador, é assassinado no jardim de Giordano que, face à terrivel situação e exigência de Pompeu, empreende uma investigação do crime.

Obviamente que as situações vão ocorrendo e no fim temos o nome do assassino e o porquê do acto. Mas, e honestamente, como policial não me convenceu, sobretudo porque fui capaz de descobrir o assassino muito cedo, porém, como documento histórico, é de facto um bom livro.

Todos os acontecimentos que levaram Júlio César ao poder estão descritos no livro, os jogos políticos e a forma como as peças se iam movendo faz-nos sentir o ambiente de Roma e a tensão que se sentia.

O livro, quanto a mim, vale por isso e para quem tem curiosidade sobre este grande império, então aconselho o livro.

domingo, 16 de novembro de 2008

A Profissão de Carrasco - Jacques Delarue



Há livros que nos vêm parar às mãos um pouco por acaso, sem que estejamos à procura deles ou mesmo que o conheçamos, eis que de repente nos deparamos com esse tal livros nas mãos, a creditando tratar-se de um achado.

Este livro que me proponho aqui comentar foi um desses casos que achei há uns anos numa daquelas feiras do livro manhosas dos hipermercados. Havia um receptáculo de plástico com centenas de livros a 0,50€ e, no meio de tanta palha, surge-me este livro rosa choque com este título sugestivo.

Li a sinopse e logo me dei conta que não se tratava de nenhum romance, mas sim de um estudo Histórico deste tema tão desprezível mas que, quer queiramos quer não, tem uma História e que, por acaso, até achei que podia ser interessante.

O autor, Jacques Delarue, nascido em 1919, desconheço se possuiu alguma actividade académica, mas sei que o mesmo foi polícia e comparticipou na resistência francesa. Dessa vivência acabou por escrever “História da Gestapo” e “Tráficos e crimes durante a ocupação”, títulos que desconheço, mas que tendo em conta o livro “Profissão de Carrasco”, devem ser muito interessantes.

Ora bem, enquanto polícia, Delarue foi colectando material histórico sobre a pena de morte e o trabalho daqueles que tinham que levar a cabo a condenação: os carrascos.

Obviamente que Delarue incide sobretudo na história dos carrascos franceses, até porque a profissão ainda estava no activo no século XX e ainda estão vivos os últimos da espécie, mas ele vai narrando como é que a profissão nasceu, da forma maldita como eles eram vistos, rejeitados pela sociedade que se esquecia que por detrás do carrasco havia um homem com família que apenas tinha tido a má sorte de sujar as mãos com sangue dos condenados que essa mesma sociedade mandara sangrar.

Aborda também o contexto psicológico e humano. O testemunho de vários deles assim como a linhagem dos carrascos mais famosos, pois era uma profissão que passava de pais para filhos, um filho de carrasco não era bem aceite, tinha imensa dificuldades para arranjar casamento, o mesmo se passava com as filhas.

O livro segue sempre a um bom ritmo, cheio de interesse, embora existam muitas descrições horríveis, macabras. Os objectos e máquinas de tortura e execução são descritos, a sua criação e como actuavam... macabro.

Um excelente documento histórico que admito não ser fácil encontrar no mercado. Após uma breve investigação, constatei apenas o site da livraria Byblos possuir tal livro, embora a editora em Portugal seja a Livros do Brasil.