sábado, 30 de julho de 2011

Sétimo Selo (O) – José Rodrigues dos Santos


José Rodrigues dos Santos é, indiscutivelmente, o campeão de vendas em Portugal. Sendo jornalista, sabe como investigar os assuntos dos seus livros, ajudando-o também as deslocações que faz e expressas nas obras. Uma escrita muito simples, fluída, tipicamente ao jeito de uma notícia, o próprio autor professa que ler deve ser prazer e não um exercício doloroso. Para além disso tem o condão de prender o público com um género apelativo de mistério, policial e histórico.

Penso que esta é a receita das suas obras e, goste-se ou não se goste, a razão de ter tantos leitores, algo que custa muito a engolir a pseudo intelectuais que se julgam grandes escritores ou leitores de grandes escritores que poucos lêem.

Neste seu 5º romance, Tomás Noronha é novamente o herói numa aventura que o irá levar a quatro continentes em busca da resolução de um mistério que tem o seu início quando dois cientistas são assassinados no mesmo dia em dois continentes diferentes. Em comum com esses homicídios, uma folha de papel deixada junto aos corpos onde está gravado: 666.

A Interpol contacta Tomás Noronha a fim de ele resolver este mistério, levando-o, obviamente ao inicio de uma louca aventura que vai meter interesses petrolíferos, assassinos, perseguições no deserto, entre outros.

O interesse do livro, quanto a mim, está todo centrado nos dados científicos que JRS vai expondo com o sentido de alertar para o aquecimento global e para a necessidade de descobrir outras fontes de energia.

No entanto e como história, penso que este é o seu livro mais fraco.

Toda a história é rebuscada, cheia de clichés brownianos, deficientemente explicada e até, bastas vezes, apressada. Há acontecimentos sem grande lógica e a explicação final é muito sensaborona e até algo infantil.

Mas isso não impede de um considerar um livro que se lê bem, não só devido à mensagem de fundo, como também pelo entretenimento que nos oferece.

Não considero JRS um grande escritor mas, e em conversas que já tive com ele onde lhe disse precisamente isso, ele próprio afirmou que não tem pretensões a ser um grande escritor e a qualquer prémio. O que ele pretende é dar prazer, entreter quem o lê e isso ele consegue na perfeição, pois as suas histórias são atraentes e entretêm. Para além disso os seus livros estão recheados de informações verídicas e com isso aprendemos, e não é precisamente isso que procuramos nos livros?

terça-feira, 26 de julho de 2011

25ª Hora (A) – C. Virgil Gheorghiu


A 25ª Hora de C. Virgil Gheorghiu é uma espécie de documento humano sobre a maldade da espécie humana, algo que considero como um tirar de máscara que a civilização humana teima em colocar.

A história, para além das andanças de Johann Moritz, é sim um documento sobre os graves atentados à condição humana na 2ª Guerra Mundial.

Mas não se pense que Gheorghiu ataca estes ou aqueles. O que impressiona e surpreende nesta fabulosa obra é a denúncia, através da acção de personagens marcantes, o drama dos prisioneiros; no entanto encaixa esse drama em todas as perspectivas. Ou seja, aqui não há os bons e os maus como vulgarmente vemos retractados em obras sobre o tema. Aqui todos são iguais, literalmente.

Através de vários personagens, deparamo-nos com a tenebrosidade da guerra. Não há invasores nem invadidos. Há seres humanos que se mostram conforme são e agem conforme as circunstâncias. Sem a pele da civilização, sejam nazis, judeus, romenos, húngaros, franceses ou americanos, todos, mas mesmo todos, são animais que, a dado momento, mostram um total desprezo pelo próximo num frenesim de humilhações e dor.

A 25ª Hora expressa assim a verdadeira essência humana e isso é chocante. Chocante porque nos apercebemos que a essência do Homem é maléfica, tem gosto em subjugar e manter o próximo sob a sua alçada, de preferência na escravidão, em humilhar e infligir dor física e psíquica.

Uma obra marcante.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Contos de Agora e de Outrora


Oito autores unidos numa colectânea de contos cujos temas são os mais diversos. Cada um deles apresentam alguns contos muito curtos e concisos mas que espelham muito bem o conteúdo e o contexto abordados, ou seja, cada conto tem um principio, meio e fim e, face à pequenez desses contos, não deve ter sido nada fácil a sua criação e isso é algo que me surpreendeu pela positiva.

De todos os autores sublinho Sílvio Medeiros Kanda, o único não português e cujos contos da sua autoria são de uma grande qualidade e originalidade. Conseguindo criar cenários tenebrosos, Kanda apresenta-nos pequenas histórias onde o sobrenatural e a superstição se aliam ao medo e ao fantástico. Foi o único de quem reli os contos.

Os restantes são interessantes, tornando esta colectânea uma obra muito interessante que se lê num fôlego.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Por Ti Resistirei – Júlio Magalhães



Confesso que aquando da edição do primeiro livro de Júlio Magalhães, “Os retornados”, não fiquei minimamente interessado na sua leitura. No entanto, e a conselho, li o seu segundo livro “Um amor em tempos de guerra”, e fiquei bastante surpreendido com a boa qualidade da narrativa. A história era boa, bem escrita e o contexto histórico bem situado e explicado.

Dessa forma foi com entusiasmo que há um ano li o seu terceiro título “Longe do meu coração” e, simplesmente, achei o livro mau. De qualidade inferior, uma narrativa apressada e quase vazia de conteúdo, confesso a minha admiração na altura face a tão fraco livro só compreensível, pensei eu na altura, face a um compromisso editorial assumido.

Ou seja, tendo como meio de comparação dois romances, dei o benefício da dúvida ao autor e foi até com algumas expectativas que empreendi a leitura deste novo romance “Por ti resistirei”.

O que expectativas eram essas?

Um livro semelhante, quanto à qualidade da narrativa, a “Um amor em tempos de guerra”, uma história interessante num contexto que muito tem por explorar.

Enfim…

Debalde!

Não posso dizer que foi uma grande decepção porque essa tive-a no ano passado, mas não é que este consegue ser pior do que o anterior?

Não vou aqui atormentar-me a mim próprio referindo a história, isso é algo que podem ler em dezenas de blogs e no site da editora, mas que posso dizer sobre tamanha pobreza?

Conteúdo Histórico… nickles, batatóides e o autor até assume (vi no youtube) que fez pesquisa.

Estrutura narrativa, enfim, capítulos curtíssimos que terminam sempre em suspense, ou tentam terminar, pois a partir de certa altura, ou seja quase de inicio, aquilo é tão enfadonho e sem interesse, que tem tanto de suspense como qualquer episódio do Noddy.

Eu até percebo a ideia do autor, mas ele falha redondamente e porquê?

Porque, a meu ver, tenta construir uma história de amor entre um português e uma judia francesa. No entanto as bases são muito fracas e muito mal explicadas, omitidas até, pois há situações tão ingénuas que tornam os diálogos e o trama verdadeiramente inverosímil.

O contexto é excelente e considero ter o autor um enorme manancial que podia explorar (2ª Guerra Mundial. Perseguição aos Judeus. Trabalho de Aristides de Sousa Mendes. Os interesses do Estado Português. O circulo de espionagem em Lisboa, etc, etc. Tantos), no entanto nada disto é explorado. No máximo aflorado, pois a história centra-se de uma forma muito intensa e exclusiva entre os dois principais protagonistas e tudo o resto é secundário. Já percebi que é o estilo do autor, pois faz o mesmo no romance anterior, mas a mim não me cativa, aborrece-me, irrita-me.

Este é pois um mau romance. Cheio de situações que nunca convencem, de diálogos bacocos, sem gás, sem interesse, que facilmente nos permite longos bocejos tal a fragilidade de todo o enredo e das situações criadas para descrever uma mera e inverosímil história de amor.

Nota final para a capa. Nunca dou grande importância a capas, mas penso que as mesmas devem ser o mais precisas possível quanto ao conteúdo. Neste caso a capa mostra um soldado britânico e uma jovem senhorita. Que erro, pois o mister em questão não é soldado, nem sequer britânico.

sábado, 16 de julho de 2011

Solitude - Transiberiano – A Estação do Frio

Esta viagem inicia-se em São Petersburgo.

O autor prepara-se para apanha o famoso e lendário transiberianio.

Descreve um pouco a cidade enquanto aborda um pouco da sua rica História e da influência e importância da cidade no passado.

A próxima paragem: Moscovo.

Embora a viagem tenha sido penosa, parte à descoberta da capital russa.

De salientar a enorme beleza de Moscovo que extravasa das suas palavras.

O espanto pela beleza das estações de Metro, “… cada estação, parece que estamos dentro de museus”. Sendo a maior cidade europeia, a Praça Vermelha, como não podia deixar de ser, ocupa grande parte da visita e as considerações pelo que vai observando e o contexto histórico, são bem relevadas.

O autor continua a viagem sabendo que irá ser “quatro noites e milhares de quilómetros…”

O que sobressai na descrição da viagem, e que dá também a perspectiva da imensa área que é a Rússia, é a imensidão em contraste com o marasmo da paisagem. O ambiente é alegre e por vezes surreal, no entanto o sentimento de imensidade predomina ao ponto do autor se sentir algo perdido “dia qualquer coisa…”, “… todas as convenções temporais desapareceram e nem sei bem quantos fusos horários já terei passado. Sei apenas que o Sol e a Lua me acompanham”.

Nesta sua caminhada, o autor chega à Mongólia, um país tão distante quanto misterioso.

Na China, onde termina a viagem, o autor confessa que tem uma impressão semelhante à tida quando chegou ao Japão.

Hilariante o episodio descrito com o taxista.

A beleza descrita no que vai observando na China deixa-nos com a sensação de ser o país aquilo que a literatura romântica descreve. Mesmo não entendendo ninguém nem se fazer entendido, não o impede de vaguear por locais que ele considera lindíssimos. Mas é curioso que estando numa ânsia por não se fazer entender, o autor nunca se deixa abater pelo desanimo.

Não é uma viagem simpática (palavras do autor), mas é um marco que irá perdurar pela vida.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Solitude – Japão – O Estranho Império


Nesta primeira crónica, o autor dá a conhecer o seu estilo narrativo e a estrutura da obra.

A visita ao Japão inicia-se pela sua capital: Tóquio. Centrando-se nas percepções do próprio sobre o que vai observando, a História, Cultura e a Religião vão ser as componentes que vão servir como base para este capítulo.

Confesso que esse estilo desde logo me cativou. Mais do que narrar o que se vai observando, gostei especialmente das considerações pessoais e, sobretudo, das pequenas curiosidades que aqui e ali nos vai salpicando como pequenas gotículas de chuva.

De uma forma muito objectiva, por vezes até demasiado objectiva, Sérgio Brota começa logo por tecer considerações sobre a grande área urbana que é Tóquio e os seus doze milhões de habitantes.

Curioso Tóquio ser uma metrópole constituída por vários bairros, quase pequenas cidades. Alta e obcecadamente organizados, “é uma visão aterradora para um português habituado à confusão”, os japoneses, de Tóquio, são logo aqui caracterizados como “vaidosos, consumistas e sobretudo extravagantes”. Iremos constatar não ser Tóquio o exemplo da tradição japonesa, mas sim um caso cosmopolita, uma espécie de cidade ocidentalizada.

Essas idiossincrasias são mencionadas, porém o autor continua a sua viagem em direcção ao Japão profundo e aí que nos deparamos com a tradição milenar dos samurais, das gueishas, da manga e dos códigos de honra tantas vezes ouvidos no Ocidente.

Do Museu do Studio Ghibli, a Quioto, aos vários templos, a pequenas cidades onde os habitantes não estão habituados a ver ocidentais, o autor não deixa de mencionar a cultura e a História a estes locais associados. Sublinho a descrição da visita a Hiroshima. As suas palavras são pungentes, assim como comovedoras e impressionantes as imagens expressas do Sino da Paz e do Memorial das Crianças. O autor, depois de uma breve abordagem ao sucedido no dia 6 de Agosto de 1945, traça a história da cidade e é impossível não nos sentirmos incomodados com tamanha barbárie que Hiroshima preserva.

Uma narrativa brilhante, num estilo cinematográfico que até não surpreende visto ser o autor também fotografo, habituado a contar histórias por meio de imagens. Aliás, as fotos que são utilizadas para mostrar um pouco do que é narrado, ou se quisermos, nos situar, são todas elas a preto e branco e isso considero algo sui generis, pois torna esta obra uma espécie de mini-album de fotografias.

Nota final para o imenso respeito que o autor demonstra por este estranho império.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Solitude – Pequenas Histórias de Grandes Viagens


Literatura de viagens foi um género literário que desfrutei durante um período da minha vida. Nesse período, li alguns livros que me foram bastante úteis, pois considerava assim como continuo a considerar, ser este um género que deve ser tido com algo que nos é útil num sentido lato, ou seja, pelos olhos do autor, vai-nos desfilando um caminho pelo desconhecido que nos fornece informação sobre o local ou locais descritos e abordados.

Dessa forma foi com prazer que iniciei a leitura desta obra “Solitude – Pequenas Histórias de Grandes Viagens”.

Escrito por Sérgio Brota, este é um livro onde o autor se propõe narrar algumas das suas viagens por locais tão distintos como o Japão, Rússia, Médio Oriente ou no Fim do Mundo. E, muito interessante, um livro embelezado por fotografias do próprio autor que ilustram os locais mencionados.

Vou assim abordar esta obra de outra forma do que aquela que costumo fazer.

Elaborarei um post para cada local descrito (capítulo), abordando o conteúdo e a minha percepção.

No final, uma opinião global sobre toda a obra e a sua utilidade para quem pretenda se aventurar pelos locais descritos.

Parece-me uma forma bem mais interessante de abordar uma obra deste género.

Enquanto não sai o primeiro post (sobre o Japão), podem consultar o site do próprio autor: http://www.sergiobrota.com

"A viagem é uma forma privilegiada de acesso ao conhecimento; possibilita a reflexão e o crescimento pessoal.”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Citações (I)

..."Que raio de terra esta onde as pessoas se inibem, se submetem a regras contra a natureza? Não usufruem, não amam o prazer. É um país de gente frustrada. Por isso dirigem os impulsos para as raivinhas, as invejazinhas, as maledicências. Reina a hipocrisia!...; ...Gente mal-amada!"

In "Os Mal-Amados", Luísa Beltrão,  pág. 139

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Meu Testemunho Perante o Mundo (O) – Jan Karski


Agosto de 1939, Jan Karski, jovem recem licenciado, recebe uma ordem de mobilização para o exercito polaco. Nada impressionado, pois era opinião que os alemães não fariam nada de mal à Polónia face à ameaça francesa e britânica, Jan Karski responde a essa ordem dirigindo-se para a estação e é aí que se depara com milhares de homens na gare e percebe que algo de grave se está a passar.

A partir desse dia, Jan Karski encetará um percurso sinuoso que o levará a tomar contacto com as atrocidades da guerra e ao seio da resistência polaca, organização onde se centra este testemunho.

Preso pelos russos, que tinham um acordo com os alemães, Jan Karski acaba por conseguir evadir-se do campo dos prisioneiros, conseguindo regressar à Polónia, onde o move uma vontade férrea de combater o invasor, ou seja, fazer aquilo para o qual foi mobilizado. Porém o exercito polaco oficialmente está desfeito e é na resistência que Jan encontra o seu espaço levando-o a actos de sabotagem e espionagem. Vivendo clandestinamente sob várias identificações , Jan Karski dá-nos o seu testemunho daquele período de uma forma realista, dantesca até a forma como ele narra as atrocidades nazis.

Entroncando um pouco na obra que li recentemente “Mein Kempf -  História” , este testemunho quando foi escrito e publicado (1944), tinha como objectivo denunciar ao mundo as atrocidades nazis, julgando ele que o mundo desconhecia tais actos.

Mas desenganem-se. O mundo sabia quais as ideias de Hitler e o se estava a passar nos países ocupados. A intenção de Karski foi boa, mas a obra foi acolhida com frieza acabando por cair no esquecimento.

O mundo sabia!

Este é um relato assombroso da forma como a resistência polaca combateu o invasor, de como tentou chamar a atenção dos governos mundiais sobre o que se passava. Mas eles sabiam!           

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vizinho (O) – Lisa Gardner


Já aqui referi não ser o género policial um género que me entusiasme por aí além.

Tenho lido vários ao longo dos anos e fico sempre com uma sensação de insatisfação face à pobreza do argumento e até uma certa nostalgia de algo que me leva a insistir nos policiais: Sherlock Holmes e Alfred Hitchcok, referências da minha infância.

Ou seja, Sherlock Holmes foi uma das minhas primeiras referências literárias e, confesso, que continuo a insistir no género porque tenho sempre esperança de encontrar algo semelhante.

Debalde!

Este “Vizinho” prometia pela sinopse e, não sendo um mau livro, é algo sensaborão, ficando nós com a sensação de vazio porque as expectativas saem algo goradas face ao desenrolar da história.

Uma jovem mulher desaparece misteriosamente de sua casa durante a noite. O marido chega a casa de madrugada e, só algumas horas depois, se resolve a dar parte desse desaparecimento. Em cena entram os detectives que se deparam com um cenário calmo, sem qualquer tipo de rasto e com apenas uma suposta testemunha. A filha de 4 anos que estava em casa e que, aparentemente, ouvi algo. O comportamento do marido é estranho; alheado do sucedido, desde logo é tido como suspeito, porém, nem tudo o que parece é…

Ora bem, não posso afirmar que não gostei. Gostei, mas ficou aquém das minhas expectativas iniciais.

A escrita é simples e objectiva. A autora vai desvendando a vida pessoal dos principais protagonistas de forma a se interligarem. A estrutura da obra também é agradável e até algo inovadora, no entanto e à semelhança da maioria dos policiais, o ritmo da narrativa é vagaroso e isso é algo que me incomoda nos policiais. Penso que na sua maioria a história seria perfeitamente narrada em metade das páginas. Geralmente a história arrasta-se em situações semelhantes, clichés e factos sem ou com pouca objectividade, sendo o epilogo até surpreendente e que tornam esses policiais agradáveis.

Aqui passa-se um pouco isso, no entanto achei o epilogo deveras interessante e deu sentido a factos que até considerei pouco relevantes.

Um bom policial que vai de certeza agradar aos amantes do género.

domingo, 22 de maio de 2011

Portas de Fogo - Steven Pressfield

Em 480 a.C., no estreito das Termópilas, Grécia, segundo o historiador Heródoto de Halicarnasso, um destacamento de trezentos espartanos, sob o comando do seu rei Leónidas, tendo como aliados pouco mais de 7.000 homens de outras cidades estado helénicas, tentaram impedir o colossal exército persa composto, segundo a tradição, por mais de um milhão de homens vindos de todos os cantos do vasto império Persa que tentavam, desse modo, invadir e conquistar a Grécia.

Na altura, Esparta era tida como modelo militar, sendo os seus guerreiros temíveis em todo o lado devido à sua disciplina militar que lhe era incutida desde criança. Ou seja, eram homens cuja única profissão era ser militar e, para além de estarem muito bem preparados ao nível físico, eram também preparados a nível mental. Homens cujo destino era de combater e morrer por Esparta.

Sabe-se que o Rei Persa, Xerxes, organizou um vasto exército com a finalidade de invadir a Grécia. Ele sabia do valor de Esparta, por isso tentou reconstruir um exército monstruoso que lhe garantisse, por muitas baixas que pudesse vir a ter, a conquista da Grécia.

“Portas de Fogo” narra esses acontecimentos e a forma feroz e heróica como os espartanos e os seus aliados resistiram às hordas persas.

Sabendo da intenção persa, o Rei Leónidas decide convocar 300 homens da elite de Esparta com o sentido de impedir o avanço dessa força persa.

Estando sob o festival religioso de Carneia, que impedia os gregos de pegar em armas, Leónidas percebe que esperar pelo fim desses festival acarreta uma aproximação perigosa dos persas. É necessário atrasá-los até ao fim do festival e contra os mandamentos do concelho, convoca 300 soldados da elite espartana e, com alguns aliados, decide pôr-se a caminho, marchando até ao estreito de Termópilas, local onde, sabia, o exército persa desembarcaria.

Esse local, que significa “Portas Quentes”, era, e é, um local inóspito, encravado entre as cadeias montanhosas do Eta e do Calídromo que, obrigatoriamente, impediria o movimento de muitos homens, ou seja, por muito grande que fosse o exército persa, não lhes era possível ter uma grande frente de batalha.

Toda a descrição do antes, durante e depois, é-nos narrada brilhantemente por Steven Pressfield que tem nesta obra mais um excelente tributo à Antiguidade e sobretudo à coragem e ao carácter de Esparta que, como civilização, não deixou monumentos grandiosos, nem obras de arte vistosas, mas deixou histórias de coragem e bravura.

As descrições das batalhas são terríveis. A barbaridade e insanidade que transforma os homens em bestas, é descrita de uma forma nua e crua, quase que ouvimos os gritos e o odor do sangue.

Um livro fantástico e de uma utilidade extrema para quem quer conhecer a Antiguidade e um dos seus principais episódios.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Filhos e Amantes – D.H. Lawrence


Escrito em 1913, Filhos e Amantes é um dos romances mais famosos de D.H. Lawrence, autor britânico que, com a sua conduta pessoal que expressava nas suas obras, escandalizou a tradicionalista sociedade britânica, ao tempo ainda tão apegada aos valores vitorianos.

A vida de D.H. Lawrence dava ela própria um romance digno da sua autoria. Bastante controverso, Lawrence, que casa com a mulher de um seu antigo professor e depois foge com ela para a Alemanha onde ela era natural, constrói uma obra considerada obscena na época mas que teve o mérito de abordar assuntos tabus.

Filhos e Amantes é pois uma obra escrita no período de maior aventura do autor e tece uma apurada reflexão sobre as relações humanas, o impacto das industrialização e, sobretudo, é um exercício apuradíssimo sobre o complexo de Édipo em contraponto com o complexo de Jocasta.

Não vou tecer considerações sobre a forma como Lawrence o faz, mas para além desta obra ser autobiográfica, é exímia a forma como o autor vai jogando com todos estes assuntos, construindo todo um painel de personagens que interagem e que nos permitem ficar com a clara noção de como era viver no seio da classe operária, como também foi a infância do próprio autor e da sua obsessão pela mãe.

A história é-nos narrada desde o casamento dos Morel.

Desde o início que percebemos que entre o casal há um total desencontro, causando alguma estranheza como é que pessoas tão diferentes se casam. Enquanto Mr. Morel gostava de ir para o pub depois do trabalho na mina, Mrs. Morel era uma pessoa culta, destinada a uma vida numa escala social onde se vê cair.

Depressa o ódio vai nascendo em Mrs. Morel e é no nascimento dos filhos que a mesma começa a ter alguma fé no seu futuro, pois julga que os mesmos estão destinados a altos voos.

É um livro poderoso, de uma intensidade psicológica muito elevada onde transborda um imenso amor entre mãe e filho; As últimas páginas são pungentes e expressam, de uma forma violenta, esse sentimento. Não esquecer que o complexo de Édipo é aqui explorado e é nele que o autor se segura nas últimas páginas.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Caixa (A) – Richard Matheson

A Caixa é uma colectânea de contos de Richard Matheson, nome maior da literatura de terror e fantástico e que tanto tem inspirado outros autores com destaque para Stephen King (ele próprio o admite).

E de facto, após ter empreendido a leitura desta colectânea, reconheci semelhanças entre Matheson e King. Porém o que me despertou maior interesse foi, e logo no primeiro conto que dá o título à colectânea “A Caixa”, perceber que o estilo dos contos era o estilo que me era dado a ver na célebre série “A 5ª Dimensão”.

Todos os contos são uma espécie de metáfora a várias questões da sociedade. Ou seja, o autor não se limita a criar cenários fantásticos ou sobrenaturais. Por detrás de cada conto há uma moral que nos faz meditar e, no meu caso, sorrir diante do absurdo que se transforma em algo que qualquer um de nós uma dia se pode debater.

São 12 curtas histórias. O autor consegue criar cenários surreais mas criveis e, no fundo, pouco sobrenaturais; no entanto à medida que a história avança, vai colocando a história e os acontecimentos noutra dimensão, brincando com as mesmas, entrando e saindo de dimensão. Muito interessante e inovador.

Gostei bastante desta leitura e de constatar que, passados tantos anos, a 5ª Dimensão, ou histórias a ela associados, ainda provocam em mim um estranho fascínio.

domingo, 1 de maio de 2011

Expiação – Ian McEwan


1935, Briony Tallis, de 13 anos, é uma menina com uma imaginação muito fértil cuja maior ambição é ser escritora. Vivendo no campo, Briony faz dos seus contos o seu mundo, construindo várias realidades que se confundem com a própria realidade.

No dia mais quente naquele verão, Briony assiste da janela do seu quarto a uma aparente discussão entre a sua irmã Cecília e Robbie Turner, amigo de infância e regressado há pouco tempo de Cambridge.

A sua fértil imaginação leva-a a ver naquela cena algo que pouco se assemelha à realidade, constituindo isso um factor que irá influenciar para sempre a vida de todos, não só de Robbie e Cecília, como de toda a família.

Expiação é considerada a obra-prima de Ian McEwan, autor britânico considerado hoje em dia como um dos melhores escritores.

Pessoalmente foi a primeira obra que li de McEwan e não posso dizer que me tenha agradado por aí além, embora, e mentiria se afirmasse o contrário, considero a sua escrita muito apelativa, melodiosa e extremamente ternurenta.

No entanto dou sempre mais valor à história e, honestamente, não achei a história tão bela como muitos a pintam e muito menos achei violento os acontecimentos narrados em relação á 2ª Guerra Mundial.

A literatura universal está cheia de livros sobre vários acontecimentos bélicos, sendo a 2ª Guerra, talvez, o acontecimento que melhor está documentado. Pessoalmente já li outros livros muito mais violentos e creio que este “Expiação”nada vem acrescentar.

É um livro que se lê bem, mas que está longe de ser um grande livro. A história é até um pouco banal, chegando mesmo a cair na monotonia, pois não raras vezes os acontecimentos narrados levam a coisa alguma.

Gostei da escrita de Ian McEwan, mas não o considero um escritor de top, sobretudo porque jamais me agarrou, oferecendo-se sim longos períodos de aborrecimento.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Labirinto Perdido – Kate Mosse


Julho de 2005, Alice Tanner, arqueóloga nos tempos livres, no seu último dia de escavações numa montanha na zona de Carcassonne, descobre uma estranha grura. No seu interior, dois esqueletos e uma terrível sensação de maldade e déjá-vú.

Assustada, sente que o acontecido naquela gruta há muito tempo atrás está ligado ao seu passado, mas um passado antes do seu nascimento…

Este é o mote para uma história engraçada e que tem o condão de trazer de volta as tricas e perseguições habituais da busca do santo Graal.

O trama até está bem urdido.

Passado entre o séc. XXI e o séc. XIII, vamos acompanhando Alice Tanner e a sua estranha ligação à não menos estranha e macabra descoberta. Em simultâneo, ficamos a conhecer a história de Alais, uma rapariga de 17 anos, que recebe do pai um livro que ele afirma conter o segredo do verdadeiro Graal.

Porém, entre aventuras e desventuras destas heroínas, a grande e mais valia do livro, na minha opinião, é a descrição da perseguição aos cátaros pelos cruzados ordenada pela Papa.

Situada nos Pirinéus, a autora consegue recriar os tempos do catarismo. Montségur, Carcassone, Languedoc, hoje lugares míticos e ligados aos cátaros e aos templários, são aqui ressuscitados, ganham cores e vida.

Duas histórias paralelas que têm em comum um labirinto perdido na memória da História. Um inesperado Graal e uma história repleta de intriga, amor e violência que nos levam ao seio de uma comunidade que tinha uma filosofia religiosa diferente e que foi barbaramente chacinada pelos cruzados.