quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Portugal Burlesco I

Nada tem a ver com livros ou mera literatura, mas, aqui e ali, vou fotografando factos com que me deparo e que demonstram o quanto burlesca pode ser a nossa sociedade.




quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Afonso Henriques – O Homem – Cristina Torrão


Simplesmente admirável!

O que dizer de um romance histórico que me fez vibrar como poucos o conseguiram?

O que dizer de diferente do que foi dito por outros ilustres bloguistas que, com as suas opiniões, conseguiram espicaçar o meu interesse pela obra?

D. Afonso Henriques é, arriscava, a personalidade portuguesa mais conhecida de todos os portugueses, ou seja, qualquer português sabe quem foi o primeiro rei de Portugal.

Porém poucos sabem mais do que isso e aqueles que o sabem, transmitem uma figura lendária personificada em estátuas espalhadas em, pelo menos, dois dos seus castelos. Uma personagem mística, transformada em lenda e rodeada de laivos fantásticos que a tradição cristã construiu ao longo dos séculos, diria que um mito e um ícone da História.

Nesta obra, Cristina Torrão tem a capacidade de transformar a lenda num ser humano que sonhou, amou, errou, sofreu e cujo caminho foi espinhoso e cheio de reveses.

Mas a autora não se foca apenas na figura de Afonso Henriques; vai muito mais além. Assente numa escrita cinematográfica, é exímia na caracterização e na capacidade de humanizar todas as outras personagens que foram contemporâneas de Afonso.

D. Teresa, que a História transformou na horrível mãe, é sim uma mulher do seu tempo que tinha uma força de carácter imenso e que teve, posteriormente, o apreço do filho. De notar algo que é importante que percebamos: a mentalidade da época e o contexto onde se inserem as acções de Afonso Henriques e de quem o rodeava. Isso é algo que Cristina Torrão vai explanando ao longo da obra e é algo que também pode ser alvo de uma análise prévia ou posterior. D. Teresa age como age porque se considera Rainha e uma Rainha deve proteger o que é seu e efectuar os acordos que lhe sejam mais vantajosos.

D. Mafalda que irá ter uma importância enorme na vida de Afonso, D. João Peculiar, arcebispo que teve uma enorme influência no reconhecimento pelo Vaticano do título de rei de Afonso Henriques, D. Fernando, Egas Moniz e tantos outros que são aqui colocados como simples mortais e de uma forma credível. E isso é algo que me fascinou, pois sabe-se da dificuldade em efectuar uma estruturação da época e a autora efectua isso de uma forma magistral, demonstrando ser uma profunda conhecedora da época medieval.

Achei espantoso também a forma como a autora consegue inserir os acontecimentos lendários, fantásticos diria, de uma forma natural, dando-lhes verosimilhança.

Num trabalho extraordinário de reconstrução da época, a autora é minuciosa e exacta nos factos históricos, nunca os adultera e sabe colocá-los na vida do dia a dia, construindo um percurso longo que culmina com o reconhecimento pelo Papa Alexandre III do título de Rei através da bula Manifestis Probatum.

É, repito, uma obra brilhante, admirável na forma como constrói uma época e as suas mentalidades, escrita com mestria, que se lê com prazer, num folêgo e que, ao chegar ao fim, nos oferece a sensação de termos deixado amigos tal a vivacidade e a humanidade das suas personagens. Aliás, conforme foi dito numa outra opinião, penso que de facto um dos segredos da qualidade deste livro reside na sensibilidade para compreender e descrever a alma humana.

Como senão, e isso é meramente uma opinião pessoal, achei que as batalhas poderiam ter sido mais vivas, mais violentas.

Bem sei que na época as batalhas eram levadas a cabo por poucas centenas de homens e que eram relativamente curtas. Porém eram efectuadas corpo a corpo e com certeza seriam duras e violentas. Cristina Torrão dá-nos um pouco dessa imagem mas penso que as podia ter explorado melhor, até no ponto de vista das suas tácticas que são abordadas, sim, mas de uma forma algo superficial. Isso é algo que me fascina em alguns autores de romances históricos que, não demonstrando essa sensibilidade para exprimir a alma humana, têm nas suas descrições as suas mais valias e penso que é isso que falta a este romance que, sem dúvida, é um dos melhores que li até hoje e, sem dúvida, o melhor que li escrito por um(a) autor(a) português(a).

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Indesejado (O) – Sarah Waters


Pós guerra, a zona rural de Warwickshire vive ventos de mudança sob o olhar desconfiado de algumas famílias antigas que habitam em mansões seculares, ainda agarrados às tradições do passado.

Um médico é chamado a uma dessas mansões onde vive a família Ayres. Dessa forma, o dr. Faraday reentra em Hundreds Halls que lhe traz memórias de infância quando, em criança, ali acompanhava a sua mãe que servia como criada.

Nostálgico, depressa se apega aquela estranha família composta por mãe, filha e filho e rapidamente se torna numa visita regular, chegando ao ponto de possuir as chaves da casa.

No entanto a mansão encontra-se em rápido declínio, assim como a própria família que, sem dinheiro para sustentar a propriedade, vai fazendo o que pode para viver em condições dignas.

A partir de certa altura estranhos acontecimentos começam a ocorrer, trazendo a tragédia ao seio da família Ayres.

Confesso que pela sinopse esperava bem mais do livro.

Não conhecia a autora, mas pensei tratar-se de um excitante thriller/terror.

Pura ilusão!

Dá-nos uma visão do pós-guerra e das mudanças que ocorreram no seio rural britânico tão marcado por essa guerra e que atingiu muitas velhas famílias, uma sociedade em mudança que foi difícil aceitar.

Essas mudanças são de facto o que está por detrás desses acontecimentos que assombram os Ayres, eles próprios muito agarrados ao seu glorioso passado e melindrados com as mudanças que, lá fora, tinham lugar.

Entendi a metáfora da autora, porém, o desenvolvimento da história é lento e pastoso, sem grandes motivos de excitação e muito menos terríficos.

Gostei da escrita da autora e o romance até se lê bem, mas confesso que estive sempre à espera de algo que me assusta-se, mas isso levou-o o vento e nunca passou de sussurros saídos de mentes presas ao passado.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Opereta dos Vadios (A) - Francisco Moita Flores


Que seca de livro!

Confesso que gosto do trabalho de Francisco Moita Flores. Vi quase todas as suas séries, sendo a “Ferreirinha” um exemplo de grande qualidade a todos os níveis, tanto na representação, nos cenários, realização e, principalmente, da história que nos narra a vida de uma figura da nossa História.

Posteriormente vi essa qualidade espelhada no excelente “A Fúria das Vinhas” e também apreciei bastante Não Há Lugar Para Divorciadas”. Sendo diferentes, ambas são histórias de uma qualidade narrativa óptima e em “A Fúrias das Vinhas”, sentimos novamente o ambiente visto em a “Ferreirinha”.

Foi assim com bastante curiosidade e interesse que empreendi a leitura do seu novo livro “A Opereta dos Vadios”, livro que, segundo a sinopse, se propõe a efectuar uma espécie de paródia à política nacional, criando um cenário onde o Presidente da República demite o governo, abrindo assim espaço para novas eleições legislativas.

Se por um lado temos um governo corrupto, viciado, cheio de tiques abusivos e com telhados de vidro, por outro, um partido de oposição que não desfaz em nada o partido do governo, ou seja, mais do mesmo conforme é usual na nossa praça.

Está assim criado o cenário para o surgimento de um novo partido composto por pessoas desiludidas com o estado do país e que são convidadas por um anarquista milionário exilado em Paris, que vê na Criação do P.U.N., a oportunidade de dar um safanão no marasmo político e social onde o país se encontra atolado.

Visto assim até pode parecer muito interessante e foi com essa premissa que eu fui enganado, até porque comprei o livro e já choro o dinheiro.

A escrita é boa, isso é inegável. Ou seja, lê-se bem, mas apenas isso.

A história é aborrecida, o autor nunca consegue dar qualquer plausibilidade à mesma. Bem sei que se trata de um romance de ficção, mas é perfeitamente perceptível que há por ali muitas mensagens destinadas, muitas piadas com destino e o governo caído em desgraça, todo ele chafurdando alegremente na lama sob a supervisão alemã e do FMI, faz efectivamente lembrar qualquer coisa.

Depois a criação do partido, até se chegar à sua criação, é longa. Se não estou em erro e se estou, erro por uma página ou outra, o partido só nasce na pág. 140, quase a meio do livro, e só nessa altura consegui esboçar uma gargalhada, a única, quando os elementos fundadores se entretém em parodiar a sigla P.U.N. com arrotos intestinais. Até lá, são diálogos enfadonhos, reuniões de amigos ao estilo dos “Amigos de Alex”, que por acaso até é focado na obra, mais parecendo encontros de velhos compinchas quase a chegar à velhice e frustrados com as suas vidas.

O autor tenta de facto criar um cenário comicamente absurdo, porém, não estaremos todos nós fartos do absurdo da política e já nem sequer nos conseguimos rir da sua incongruência?

Por várias vezes parava e pensava nisso. Provavelmente não apreciei a obra porque, simplesmente, já nem tenho paciência para ler paródias sobre o governo e sobre o estado miserável onde os sucessivos governos colocaram o país.

Não diria que é um mau romance. Muitos irão apreciar e rir à brava com tanta trafulhice, estupidez e despropositada politica em prol de interesses, mas a mim aborreceu-me, não retirei qualquer prazer e nem foi de qualquer utilidade, por isso, não gostei.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Cruz de Portugal – José Sequeira Gonçalves


O romance inicia-se pouco depois de 1910 e da Implementação da Republica.

Silves, Algarve, um menino, filho único, vive com os pais numa casa de média classe. O seu pai, dono de uma quinta e de uma mercearia, tem rendimentos suficientes para que a família viva com algum conforto.

Pouco depois dá-se a implementação da república e o pai torna-se republicano fanático, aderindo ao partido e acabando mesmo por conseguir um lugar como membro da comissão concelhia do partido republicano.

Tempos difíceis e confusos em que o povo se encontrava dividido entre os apoiantes da monarquia e os da republica, havendo mesmo confrontos em todo o território.

É assim neste contexto que a história tem início e onde o autor desenvolve as alterações politicas ocorridas nessa altura. Às mudanças geopolíticas que deram origem à 1ª Grande Guerra (1914-1918).

E é nesse período que o autor mais se centra.

O nosso rapaz, agora já estudante da escola comercial em Lisboa, vê-se incorporado no exército português com guia de marcha para a Frente.

Nesta fase é clara a intenção do escritor em mostrar o embuste que foi passado aos soldados que se exercitavam em Lisboa e Tancos com vista a defesa da pátria e da humanidade.

Chegados a França, depressa os soldados portugueses viam que aquilo não era nada como tinha sido pintado pelos comandantes e, sempre de bom humor (isso é algo que de facto sucedeu), foram encarando a guerra como algo que não lhes pertencia, onde nunca viram a sua utilidade e muito menos percebendo que sentido fazia estarem ali.

Toda a 2ª parte do livro narra episódios de conflito e das tropas portuguesas.

É depois do ataque de La Lys, em Abril de 1918, que o livro entra noutra fase e, quanto a mim, aquela que melhor exemplifica a monstruosidade da guerra e do quanto sofreram milhares de soldados.

Passado em grande parte num hospital, o autor consegue criar uma metáfora sobre o absurdo do conflito e da capacidade maléfica do ser humano, em simultâneo que vai dando exemplos da extrema humanidade que se verificava quando menos se esperava.

O dilema entre o amor à vida e o amor à pátria, também é explorado pelo autor, assim como achei muito curioso a exploração ou o brincar com o efeito borboleta que o autor leva a cabo.

Um excelente romance histórico que nos dá uma outra perspectiva dos tumultuosos tempos que antecederam a 1ª Grande Guerra e uma outra visão, talvez mais realista, mais crua, das sensações e reacções humanas num conflito militar.

sábado, 30 de julho de 2011

Sétimo Selo (O) – José Rodrigues dos Santos


José Rodrigues dos Santos é, indiscutivelmente, o campeão de vendas em Portugal. Sendo jornalista, sabe como investigar os assuntos dos seus livros, ajudando-o também as deslocações que faz e expressas nas obras. Uma escrita muito simples, fluída, tipicamente ao jeito de uma notícia, o próprio autor professa que ler deve ser prazer e não um exercício doloroso. Para além disso tem o condão de prender o público com um género apelativo de mistério, policial e histórico.

Penso que esta é a receita das suas obras e, goste-se ou não se goste, a razão de ter tantos leitores, algo que custa muito a engolir a pseudo intelectuais que se julgam grandes escritores ou leitores de grandes escritores que poucos lêem.

Neste seu 5º romance, Tomás Noronha é novamente o herói numa aventura que o irá levar a quatro continentes em busca da resolução de um mistério que tem o seu início quando dois cientistas são assassinados no mesmo dia em dois continentes diferentes. Em comum com esses homicídios, uma folha de papel deixada junto aos corpos onde está gravado: 666.

A Interpol contacta Tomás Noronha a fim de ele resolver este mistério, levando-o, obviamente ao inicio de uma louca aventura que vai meter interesses petrolíferos, assassinos, perseguições no deserto, entre outros.

O interesse do livro, quanto a mim, está todo centrado nos dados científicos que JRS vai expondo com o sentido de alertar para o aquecimento global e para a necessidade de descobrir outras fontes de energia.

No entanto e como história, penso que este é o seu livro mais fraco.

Toda a história é rebuscada, cheia de clichés brownianos, deficientemente explicada e até, bastas vezes, apressada. Há acontecimentos sem grande lógica e a explicação final é muito sensaborona e até algo infantil.

Mas isso não impede de um considerar um livro que se lê bem, não só devido à mensagem de fundo, como também pelo entretenimento que nos oferece.

Não considero JRS um grande escritor mas, e em conversas que já tive com ele onde lhe disse precisamente isso, ele próprio afirmou que não tem pretensões a ser um grande escritor e a qualquer prémio. O que ele pretende é dar prazer, entreter quem o lê e isso ele consegue na perfeição, pois as suas histórias são atraentes e entretêm. Para além disso os seus livros estão recheados de informações verídicas e com isso aprendemos, e não é precisamente isso que procuramos nos livros?

terça-feira, 26 de julho de 2011

25ª Hora (A) – C. Virgil Gheorghiu


A 25ª Hora de C. Virgil Gheorghiu é uma espécie de documento humano sobre a maldade da espécie humana, algo que considero como um tirar de máscara que a civilização humana teima em colocar.

A história, para além das andanças de Johann Moritz, é sim um documento sobre os graves atentados à condição humana na 2ª Guerra Mundial.

Mas não se pense que Gheorghiu ataca estes ou aqueles. O que impressiona e surpreende nesta fabulosa obra é a denúncia, através da acção de personagens marcantes, o drama dos prisioneiros; no entanto encaixa esse drama em todas as perspectivas. Ou seja, aqui não há os bons e os maus como vulgarmente vemos retractados em obras sobre o tema. Aqui todos são iguais, literalmente.

Através de vários personagens, deparamo-nos com a tenebrosidade da guerra. Não há invasores nem invadidos. Há seres humanos que se mostram conforme são e agem conforme as circunstâncias. Sem a pele da civilização, sejam nazis, judeus, romenos, húngaros, franceses ou americanos, todos, mas mesmo todos, são animais que, a dado momento, mostram um total desprezo pelo próximo num frenesim de humilhações e dor.

A 25ª Hora expressa assim a verdadeira essência humana e isso é chocante. Chocante porque nos apercebemos que a essência do Homem é maléfica, tem gosto em subjugar e manter o próximo sob a sua alçada, de preferência na escravidão, em humilhar e infligir dor física e psíquica.

Uma obra marcante.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Contos de Agora e de Outrora


Oito autores unidos numa colectânea de contos cujos temas são os mais diversos. Cada um deles apresentam alguns contos muito curtos e concisos mas que espelham muito bem o conteúdo e o contexto abordados, ou seja, cada conto tem um principio, meio e fim e, face à pequenez desses contos, não deve ter sido nada fácil a sua criação e isso é algo que me surpreendeu pela positiva.

De todos os autores sublinho Sílvio Medeiros Kanda, o único não português e cujos contos da sua autoria são de uma grande qualidade e originalidade. Conseguindo criar cenários tenebrosos, Kanda apresenta-nos pequenas histórias onde o sobrenatural e a superstição se aliam ao medo e ao fantástico. Foi o único de quem reli os contos.

Os restantes são interessantes, tornando esta colectânea uma obra muito interessante que se lê num fôlego.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Por Ti Resistirei – Júlio Magalhães



Confesso que aquando da edição do primeiro livro de Júlio Magalhães, “Os retornados”, não fiquei minimamente interessado na sua leitura. No entanto, e a conselho, li o seu segundo livro “Um amor em tempos de guerra”, e fiquei bastante surpreendido com a boa qualidade da narrativa. A história era boa, bem escrita e o contexto histórico bem situado e explicado.

Dessa forma foi com entusiasmo que há um ano li o seu terceiro título “Longe do meu coração” e, simplesmente, achei o livro mau. De qualidade inferior, uma narrativa apressada e quase vazia de conteúdo, confesso a minha admiração na altura face a tão fraco livro só compreensível, pensei eu na altura, face a um compromisso editorial assumido.

Ou seja, tendo como meio de comparação dois romances, dei o benefício da dúvida ao autor e foi até com algumas expectativas que empreendi a leitura deste novo romance “Por ti resistirei”.

O que expectativas eram essas?

Um livro semelhante, quanto à qualidade da narrativa, a “Um amor em tempos de guerra”, uma história interessante num contexto que muito tem por explorar.

Enfim…

Debalde!

Não posso dizer que foi uma grande decepção porque essa tive-a no ano passado, mas não é que este consegue ser pior do que o anterior?

Não vou aqui atormentar-me a mim próprio referindo a história, isso é algo que podem ler em dezenas de blogs e no site da editora, mas que posso dizer sobre tamanha pobreza?

Conteúdo Histórico… nickles, batatóides e o autor até assume (vi no youtube) que fez pesquisa.

Estrutura narrativa, enfim, capítulos curtíssimos que terminam sempre em suspense, ou tentam terminar, pois a partir de certa altura, ou seja quase de inicio, aquilo é tão enfadonho e sem interesse, que tem tanto de suspense como qualquer episódio do Noddy.

Eu até percebo a ideia do autor, mas ele falha redondamente e porquê?

Porque, a meu ver, tenta construir uma história de amor entre um português e uma judia francesa. No entanto as bases são muito fracas e muito mal explicadas, omitidas até, pois há situações tão ingénuas que tornam os diálogos e o trama verdadeiramente inverosímil.

O contexto é excelente e considero ter o autor um enorme manancial que podia explorar (2ª Guerra Mundial. Perseguição aos Judeus. Trabalho de Aristides de Sousa Mendes. Os interesses do Estado Português. O circulo de espionagem em Lisboa, etc, etc. Tantos), no entanto nada disto é explorado. No máximo aflorado, pois a história centra-se de uma forma muito intensa e exclusiva entre os dois principais protagonistas e tudo o resto é secundário. Já percebi que é o estilo do autor, pois faz o mesmo no romance anterior, mas a mim não me cativa, aborrece-me, irrita-me.

Este é pois um mau romance. Cheio de situações que nunca convencem, de diálogos bacocos, sem gás, sem interesse, que facilmente nos permite longos bocejos tal a fragilidade de todo o enredo e das situações criadas para descrever uma mera e inverosímil história de amor.

Nota final para a capa. Nunca dou grande importância a capas, mas penso que as mesmas devem ser o mais precisas possível quanto ao conteúdo. Neste caso a capa mostra um soldado britânico e uma jovem senhorita. Que erro, pois o mister em questão não é soldado, nem sequer britânico.

sábado, 16 de julho de 2011

Solitude - Transiberiano – A Estação do Frio

Esta viagem inicia-se em São Petersburgo.

O autor prepara-se para apanha o famoso e lendário transiberianio.

Descreve um pouco a cidade enquanto aborda um pouco da sua rica História e da influência e importância da cidade no passado.

A próxima paragem: Moscovo.

Embora a viagem tenha sido penosa, parte à descoberta da capital russa.

De salientar a enorme beleza de Moscovo que extravasa das suas palavras.

O espanto pela beleza das estações de Metro, “… cada estação, parece que estamos dentro de museus”. Sendo a maior cidade europeia, a Praça Vermelha, como não podia deixar de ser, ocupa grande parte da visita e as considerações pelo que vai observando e o contexto histórico, são bem relevadas.

O autor continua a viagem sabendo que irá ser “quatro noites e milhares de quilómetros…”

O que sobressai na descrição da viagem, e que dá também a perspectiva da imensa área que é a Rússia, é a imensidão em contraste com o marasmo da paisagem. O ambiente é alegre e por vezes surreal, no entanto o sentimento de imensidade predomina ao ponto do autor se sentir algo perdido “dia qualquer coisa…”, “… todas as convenções temporais desapareceram e nem sei bem quantos fusos horários já terei passado. Sei apenas que o Sol e a Lua me acompanham”.

Nesta sua caminhada, o autor chega à Mongólia, um país tão distante quanto misterioso.

Na China, onde termina a viagem, o autor confessa que tem uma impressão semelhante à tida quando chegou ao Japão.

Hilariante o episodio descrito com o taxista.

A beleza descrita no que vai observando na China deixa-nos com a sensação de ser o país aquilo que a literatura romântica descreve. Mesmo não entendendo ninguém nem se fazer entendido, não o impede de vaguear por locais que ele considera lindíssimos. Mas é curioso que estando numa ânsia por não se fazer entender, o autor nunca se deixa abater pelo desanimo.

Não é uma viagem simpática (palavras do autor), mas é um marco que irá perdurar pela vida.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Solitude – Japão – O Estranho Império


Nesta primeira crónica, o autor dá a conhecer o seu estilo narrativo e a estrutura da obra.

A visita ao Japão inicia-se pela sua capital: Tóquio. Centrando-se nas percepções do próprio sobre o que vai observando, a História, Cultura e a Religião vão ser as componentes que vão servir como base para este capítulo.

Confesso que esse estilo desde logo me cativou. Mais do que narrar o que se vai observando, gostei especialmente das considerações pessoais e, sobretudo, das pequenas curiosidades que aqui e ali nos vai salpicando como pequenas gotículas de chuva.

De uma forma muito objectiva, por vezes até demasiado objectiva, Sérgio Brota começa logo por tecer considerações sobre a grande área urbana que é Tóquio e os seus doze milhões de habitantes.

Curioso Tóquio ser uma metrópole constituída por vários bairros, quase pequenas cidades. Alta e obcecadamente organizados, “é uma visão aterradora para um português habituado à confusão”, os japoneses, de Tóquio, são logo aqui caracterizados como “vaidosos, consumistas e sobretudo extravagantes”. Iremos constatar não ser Tóquio o exemplo da tradição japonesa, mas sim um caso cosmopolita, uma espécie de cidade ocidentalizada.

Essas idiossincrasias são mencionadas, porém o autor continua a sua viagem em direcção ao Japão profundo e aí que nos deparamos com a tradição milenar dos samurais, das gueishas, da manga e dos códigos de honra tantas vezes ouvidos no Ocidente.

Do Museu do Studio Ghibli, a Quioto, aos vários templos, a pequenas cidades onde os habitantes não estão habituados a ver ocidentais, o autor não deixa de mencionar a cultura e a História a estes locais associados. Sublinho a descrição da visita a Hiroshima. As suas palavras são pungentes, assim como comovedoras e impressionantes as imagens expressas do Sino da Paz e do Memorial das Crianças. O autor, depois de uma breve abordagem ao sucedido no dia 6 de Agosto de 1945, traça a história da cidade e é impossível não nos sentirmos incomodados com tamanha barbárie que Hiroshima preserva.

Uma narrativa brilhante, num estilo cinematográfico que até não surpreende visto ser o autor também fotografo, habituado a contar histórias por meio de imagens. Aliás, as fotos que são utilizadas para mostrar um pouco do que é narrado, ou se quisermos, nos situar, são todas elas a preto e branco e isso considero algo sui generis, pois torna esta obra uma espécie de mini-album de fotografias.

Nota final para o imenso respeito que o autor demonstra por este estranho império.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Solitude – Pequenas Histórias de Grandes Viagens


Literatura de viagens foi um género literário que desfrutei durante um período da minha vida. Nesse período, li alguns livros que me foram bastante úteis, pois considerava assim como continuo a considerar, ser este um género que deve ser tido com algo que nos é útil num sentido lato, ou seja, pelos olhos do autor, vai-nos desfilando um caminho pelo desconhecido que nos fornece informação sobre o local ou locais descritos e abordados.

Dessa forma foi com prazer que iniciei a leitura desta obra “Solitude – Pequenas Histórias de Grandes Viagens”.

Escrito por Sérgio Brota, este é um livro onde o autor se propõe narrar algumas das suas viagens por locais tão distintos como o Japão, Rússia, Médio Oriente ou no Fim do Mundo. E, muito interessante, um livro embelezado por fotografias do próprio autor que ilustram os locais mencionados.

Vou assim abordar esta obra de outra forma do que aquela que costumo fazer.

Elaborarei um post para cada local descrito (capítulo), abordando o conteúdo e a minha percepção.

No final, uma opinião global sobre toda a obra e a sua utilidade para quem pretenda se aventurar pelos locais descritos.

Parece-me uma forma bem mais interessante de abordar uma obra deste género.

Enquanto não sai o primeiro post (sobre o Japão), podem consultar o site do próprio autor: http://www.sergiobrota.com

"A viagem é uma forma privilegiada de acesso ao conhecimento; possibilita a reflexão e o crescimento pessoal.”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Citações (I)

..."Que raio de terra esta onde as pessoas se inibem, se submetem a regras contra a natureza? Não usufruem, não amam o prazer. É um país de gente frustrada. Por isso dirigem os impulsos para as raivinhas, as invejazinhas, as maledicências. Reina a hipocrisia!...; ...Gente mal-amada!"

In "Os Mal-Amados", Luísa Beltrão,  pág. 139

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Meu Testemunho Perante o Mundo (O) – Jan Karski


Agosto de 1939, Jan Karski, jovem recem licenciado, recebe uma ordem de mobilização para o exercito polaco. Nada impressionado, pois era opinião que os alemães não fariam nada de mal à Polónia face à ameaça francesa e britânica, Jan Karski responde a essa ordem dirigindo-se para a estação e é aí que se depara com milhares de homens na gare e percebe que algo de grave se está a passar.

A partir desse dia, Jan Karski encetará um percurso sinuoso que o levará a tomar contacto com as atrocidades da guerra e ao seio da resistência polaca, organização onde se centra este testemunho.

Preso pelos russos, que tinham um acordo com os alemães, Jan Karski acaba por conseguir evadir-se do campo dos prisioneiros, conseguindo regressar à Polónia, onde o move uma vontade férrea de combater o invasor, ou seja, fazer aquilo para o qual foi mobilizado. Porém o exercito polaco oficialmente está desfeito e é na resistência que Jan encontra o seu espaço levando-o a actos de sabotagem e espionagem. Vivendo clandestinamente sob várias identificações , Jan Karski dá-nos o seu testemunho daquele período de uma forma realista, dantesca até a forma como ele narra as atrocidades nazis.

Entroncando um pouco na obra que li recentemente “Mein Kempf -  História” , este testemunho quando foi escrito e publicado (1944), tinha como objectivo denunciar ao mundo as atrocidades nazis, julgando ele que o mundo desconhecia tais actos.

Mas desenganem-se. O mundo sabia quais as ideias de Hitler e o se estava a passar nos países ocupados. A intenção de Karski foi boa, mas a obra foi acolhida com frieza acabando por cair no esquecimento.

O mundo sabia!

Este é um relato assombroso da forma como a resistência polaca combateu o invasor, de como tentou chamar a atenção dos governos mundiais sobre o que se passava. Mas eles sabiam!           

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vizinho (O) – Lisa Gardner


Já aqui referi não ser o género policial um género que me entusiasme por aí além.

Tenho lido vários ao longo dos anos e fico sempre com uma sensação de insatisfação face à pobreza do argumento e até uma certa nostalgia de algo que me leva a insistir nos policiais: Sherlock Holmes e Alfred Hitchcok, referências da minha infância.

Ou seja, Sherlock Holmes foi uma das minhas primeiras referências literárias e, confesso, que continuo a insistir no género porque tenho sempre esperança de encontrar algo semelhante.

Debalde!

Este “Vizinho” prometia pela sinopse e, não sendo um mau livro, é algo sensaborão, ficando nós com a sensação de vazio porque as expectativas saem algo goradas face ao desenrolar da história.

Uma jovem mulher desaparece misteriosamente de sua casa durante a noite. O marido chega a casa de madrugada e, só algumas horas depois, se resolve a dar parte desse desaparecimento. Em cena entram os detectives que se deparam com um cenário calmo, sem qualquer tipo de rasto e com apenas uma suposta testemunha. A filha de 4 anos que estava em casa e que, aparentemente, ouvi algo. O comportamento do marido é estranho; alheado do sucedido, desde logo é tido como suspeito, porém, nem tudo o que parece é…

Ora bem, não posso afirmar que não gostei. Gostei, mas ficou aquém das minhas expectativas iniciais.

A escrita é simples e objectiva. A autora vai desvendando a vida pessoal dos principais protagonistas de forma a se interligarem. A estrutura da obra também é agradável e até algo inovadora, no entanto e à semelhança da maioria dos policiais, o ritmo da narrativa é vagaroso e isso é algo que me incomoda nos policiais. Penso que na sua maioria a história seria perfeitamente narrada em metade das páginas. Geralmente a história arrasta-se em situações semelhantes, clichés e factos sem ou com pouca objectividade, sendo o epilogo até surpreendente e que tornam esses policiais agradáveis.

Aqui passa-se um pouco isso, no entanto achei o epilogo deveras interessante e deu sentido a factos que até considerei pouco relevantes.

Um bom policial que vai de certeza agradar aos amantes do género.