segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Império de Areia – Robert Ryan


D.E. Lawrence foi uma personagem fascinante na revolta árabe durante a 1ª Grande Guerra. Fascinante e deveras misterioso, pois a sua história ainda hoje não é totalmente conhecida, existindo muitos pormenores e factos por esclarecer, assim como acontecimentos sem quaisquer explicações.

Em todo o caso esta é uma obra de ficção, mas os acontecimentos descritos sucederam mesmo e isso faz com que o presente livro seja, de facto, um romance notável.

Mas a estrutura e a escrita simples do autor ajudam. Uma escrita simples que nos faculta todas as informações necessárias para a percepção da época e do seu contexto, o autor constrói uma narrativa que nos envolve e nos situa na acção e na época.

Aqui presenciamos o nascimento da lenda e do porque de ele ter tido uma importância tão elevada na revolta.

Gostei muito deste romance e da forma como o autor conseguiu situar toda a acção, pois é precisamente isso um dos propósitos do romance histórico: situa e envolver o leitor na época descrita.

Uma obra aconselhável.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Império dos Pardais (O) – João Paulo Oliveira e Costa


Felizmente que dentro do género histórico, a literatura portuguesa tem já alguns títulos de imensa qualidade e autores que já olham para o género sem o olhar de desdém que era usual.

Desde há uns anos para cá o panorama mudou e começou-se a assistir ao surgimento de romances históricos escritos por autores portugueses, tendo como protagonistas momentos e figuras da nossa rica e vasta História.

João Paulo Oliveira e Costa, historiador, lança-se no género com este “O Império dos Pardais” e em boa hora o fez, pois deu à estampa uma obra de eleição.

O título, por si só, é uma homenagem à gesta dos Descobrimentos, sendo também uma metáfora à forma como um pequeno país conseguiu construir um império tão vasto e poderoso, enquanto outras nações bem maiores andavam entretidas a digladiarem-se entre si.

Situando-nos sobretudo no reinado de D. Manuel I, o autor, assente em diversas personagens fictícias, narra com uma clareza impressionante, numa escrita, diria cinematográfica, como foi possível acontecer tal milagre do império.

E facilmente concluímos onde esteve o segredo, sendo inegável o orgulho que sentimos por pertencer a uma nação que soube ser grande e soube-o sendo perspicaz e extremamente inteligente.

Um livro envolvente que se lê num sopro e que tem a capacidade de nos envolver de uma tal forma, que somos transportados para a Lisboa do séc. XVI, onde percorremos as ruas de Alfama, Alcântara e o Cais da Ribeira, sentimos o pulsar das suas gentes, do rei e dos seus amigos.

Em simultâneo, jogos de espionagem e lutas sangrentas contra os Mouros em terras africanas que a coroa portuguesa procurava conquistar, pois era aí que residia o segredo do Império dos Pardais.

Um livro imperdível e inesquecível!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Jogo do Anjo (O) - Carlos Ruiz Záfon


Záfon é um autor de best-sellers vendendo milhões de livros em todo o mundo e criando um conjunto de fãs que o veneram como um Deus, sendo comum lermos considerações que o intitulam como o melhor escritor da actualidade.

Exagero, sem dúvida, face à escrita, que até é agradável, mas sobretudo face ao argumento que o autor se utiliza na criação das suas histórias e, para isso, estou a pensar nos dois títulos emblemáticos: “A Sombra do Vento” e “O Jogo do Anjo”, nitidamente romances escritos para um público alvo mais juvenil, num género que oscila entre a Aventura, policial, fantástico e gótico, sobressaindo claras influências de outros autores como Allan Põe no gótico, Victor Hugo na aventura, e até situações em que nos debatemos em questões de foro psicológico que fazem lembrar Dostoeivsky ou até no absurdo se nota influências de Lovercraft.

Em todo o caso Záfon tem um estilo próprio que o distingue da maioria dos escritores e que faz dele, não só um autor muito lido, como também muito solicitado pela industria do cinema, pois e nisso confesso a minha simpatia, ele consegue transmitir imagens do que escreve, ou seja, tem uma escrita muito cinematográfica e isso é ainda mais surpreendente quando estamos a falar num estilo que tem tanto de policial, como de aventura, fantástico ou terror e gótico.

Gostei da “A Sombra do Vento”! Não tanto pela história, mas sim por esta mistura de estilos e pela forma como o autor vai buscar situações  a outros livros e as encaixa no seu argumento, assim como gostei das várias metáforas criadas e da forma como o autor explora as várias facetas humanas. Numa escrita ora poética, ora objectiva e por vezes bem directo e incisivo, é, acima disso, original como conjuga os estilos e os géneros e, no final, admiti estar na presença de uma belíssima obra que merecia a fama que lhe tinham dado.

No entanto “O Jogo do Anjo” já não é bem assim, revelando-se um livro muito semelhante à “Sombra do Vento”, não bem no seu conteúdo, mas na forma como o autor procura conduzir a história e na forma como vai criando as situações e a encruzilhada que é o enredo.

Gostei de ler sobre a Barcelona dos anos 20 e acho que o início do livro está fantástico. David Martín, um jovem escritor que recebe uma proposta de um estranho editor chamado Andreas Corelli para escrever um estranho livro a troco de uma fortuna. Claramente que aqui se encontra o conceito de “vender a alma ao Diabo” que o autor vai sabiamente explorando ao longo do livro. A livraria Sampere e Hijos e o Cemitério dos livros esquecidos que já connosco coabitaram na Sombra do Vento, e até a relação de amizade que mantém com D. Pedro me fez lembrar Dorian Gray e Basil Hallward no “Retrato de Dorian Gray”, ou seja, um conjunto de personagens extraordinárias que vão espalhando o seu perfume nas letras do autor.

No entanto Záfon envereda por um caminho demasiadamente fantástico, traçando uma teia cheia de mistérios que roçam o absurdo e que, na minha opinião, tiram beleza ao livro e a alma que o escritor cria no primeiro terço, pois, às tantas, o que parece não é e o que não parece vai dar em becos com pouco sentido que desvirtuam a realidade e que dão pouca coerência à história. A parte final então é surpreendente pela forma como o autor não consegue dar um término aceitável, terminando tudo num amontoado de inexplicáveis situações, num labirinto literário que não vai dar a lado algum e que nos deixa deixa com uma sensação de “esperem, acho que perdi qualquer coisa”.

É um bom livro sobretudo para os amantes do género fantástico, mas que está longe do brilhantismo da “A Sombra do Vento”

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres – Isabel Stilwell


Confesso que peguei neste livro sem qualquer expectativa e com apenas duas pretensões: 
1) Lê-lo o mais rápido possível para o tirar da pilha (o que consegui em duas horas); 
2) perceber que género de livro se tratava, pois a autora merece-me o maior respeito devido a outros livros que li e gostei.

E até que é engraçado!

Escrito de uma forma mordaz e cheio de humor, Isabel Stilwell elabora um género de manual onde expressa as tremendas capacidades femininas que tanto baralham e irritam os homens. No entanto vai mais longe, admite que as mulheres são complicadas por natureza e que, mesmo inconscientemente, manipulam os homens a seu belo prazer.

Achei muito curioso constatar situações já vividas por mim próprio, ficando também mais descansado por perceber que o mal nem é tanto meu, mas sim dessa inata capacidade feminina em complicar.

É pois um guia que dá dicas de como o homem agir, do que as mulheres gostam, do que a faz feliz, pelo menos temporariamente, pois a seguir já não serve e voltam a complicar.

O tom é sempre irónico e cheio de humor. A autora vai ao ponto de publicar cartas supostamente escritas por diversos tipos de homens (o charmoso, o macho latino, o gentleman, etc) e a sua resposta “merecida”. É hilariante algumas das cartas em reacção a este livro, acabando em beleza com um sms de um leitor e a resposta de Isabel com um sms merecido.

Uma obra muito curiosa e divertida que proporciona aos homens e se calhar até às próprias mulheres, um bocadinho de conhecimento do intrincado, misterioso e complicado mundo das mulheres.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Física do Futuro (A) – Michio Kaku


Michio Kaku, professor catedrático de Física Teórica, lança-nos uma visão do futuro próximo no que concerne à tecnologia que estará disponível.

Sempre baseado na ciência, aliás, o autor é rigoroso nas suas descrições, não só pela sua formação como também porque entrevistou mais de trezentos cientistas, é-nos aqui apresentados uma série de factos que, mais do que meras hipóteses ou utopias, são já certezas face ao desenvolvimento em vários laboratórios.

Partindo do pressuposto de como se sucederá a evolução até ao ano 2010, o autor vai explorando a evolução dos automóveis, dos computadores, do lazer, tv, internet, etc. As naves espaciais usarão a propulsão a laser e serão normais as viagens espaciais. O autor vai dando exemplos de como estava o mundo no início do séc. XX e como está agora, da forma como a evolução foi acontecendo há medida que a própria ciência ia evoluindo, ou sejam ciência e criação são indissociáveis.

Uma excelente obra que nos dá uma visão excitante do que vamos ter à nossa disposição dentro de poucos anos.

Como senão, o autor, por vezes, utiliza linguagem científica que torna os capítulos algo enfadonhos. Achei também que o autor simplesmente desconhece a História dos Descobrimentos portugueses. No capítulo onde ele explica o porquê dos europeus terem dominado o mundo nos últimos 500 anos, ele simplesmente ignora o papel dos portugueses porque o desconhece.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Fio do Tempo (O) – João Paulo Oliveira e Costa


Que livro maravilhoso!

Adquiri esta obra conjuntamente com o best-seller “O Império dos Pardais” e, pese embora este “Fio do Tempo” seja o segundo romance do autor, resolvi começar por ler este primeiro porque a maioria dos acontecimentos narrados são anteriores aos acontecimentos narrados no “Império dos Pardais”.

Antes de tecer as minhas considerações, sinto-me feliz por constatar que há escritores de excelência que estão a escrever sobre a História de Portugal. Uma História riquíssima, longa e que tem muito para explorar, haja quem o saiba fazer com qualidade que, decerto, terá leitores.

Abrangendo 100 anos da História de Portugal, talvez das épocas mais importantes e venturosas da nação, o autor cria D. Álvaro de Ataíde que, no alto dos seus 101 anos de idade, contempla a cidade de Lisboa enquanto a sua mente divaga nas suas recordações.

E é através dessas recordações que nos vamos inteirar de factos que marcaram a História de Portugal e do mundo.

Tudo começa em 1414 quando o jovem Álvaro, que sonhava ser cavaleiro, se inicia no master dos prazeres carnais com Filipa de Andrade, mulher de pouca castidade e de vícios perversos.

A partir daí, a espaços entre o presente (ano de 1500) e o passado, D. Álvaro vai recordando a sua vida e as suas proezas.

Em 1414 reinava D. João I e é já em 1415 que D. Álvaro de Ataíde toma parte na tomada de Ceuta, iniciando-se aí a expansão portuguesa que está na génese dos Descobrimentos.

Agora imagine-se a riqueza dos acontecimentos narrados por D. Álvaro, personagem fictícia é certo, mas cujos episódios são reais e atestam a magnificência e influência que este pequeno país soube alcançar no séc. XIII.

Pertencendo à Casa de Viseu, cujo senhor em 1415 era o Infante D. Henrique, D. Álvaro torna-se um cavaleiro temido e respeitado no reino, conselheiro do próprio infante, ele dá-nos uma visão clara da política da casa real, dos interesses que colocaram duques no trono em simultâneo que salpica a história com um pozinhos de misticismo, introduzindo assim a cultura trazida pelos escravos de África.

Um romance histórico excepcional que nos cativa pela simplicidade da escrita, da estrutura e pela objectividade da narrativa, não se perdendo em considerações ou teses, simplesmente ele narra os factos conforme a História os conhece, dando-lhes sim um tom algo aventureiro digno das façanhas dos seu narrador.

Confesso ser esta uma das épocas que mais me fascina e a Dinastia de Avis aquela que mais aprecio. Talvez isso tenha ajudado a ter gostado tanto do romance, porém é inegável a imensa qualidade do texto.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Aconteceu uma coisa engraçada a caminho do futuro… - Michael J. Fox


Este pequeno livro (literalmente no formato, li-o numa hora), é um livro que nos fala das pedras numa garrafa e da sua importância na nossa vida.

A metáfora das pedras na garrafa está na base da mensagem que Michael J. Fox pretende passar.

Sem qualquer curso superior, sem sequer ter terminado o liceu, Fox apresenta-nos um breve relato da sua vida e da sua ascensão na indústria do cinema. Emigrado para o Estados Unidos em busca de um sonho, Michael passou fome mas nunca desistiu. Quando estava no apogeu da sua carreira é-lhe diagnosticado a doença de Parkinson que se torna o ponto de viragem da sua vida e, segundo o próprio, a bênção que o fez ver a luz.

É assim uma obra que transmite esperança. Engane-se quem julga tratar-se de um livro onde o autor se vitimiza. Longe disso, fala-nos sim de sonhos e da forma como podemos e devemos viver o dia-a-dia em busca desses sonhos acreditando no melhor e não pensar nas dificuldades antes de elas chegarem.

E curioso a forma como ele insere estas mensagens.

Admitindo não ter tido uma educação que a sociedade tem como conveniente (curso superior, etc), Michael divide o livro por capítulos, nomeando-os com designações de ciências. É por si só uma metáfora à escola da vida que ele, superando as dificuldades, teve que percorrer e vencer.

Em suma, um livro delicioso que me transmite que devemos aceitar o presente como ele é, pois a vida não é linear, há desvios no percurso da vida, estradas que não contávamos percorrer, mas enfim, é a nossa vida e há que sorrir.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

De Ourique a Aljubarrota – Miguel Gomes Martins


O autor, mestre em História da Idade Média, propõe-se aqui efectuar uma análise aos vários teatros de operações militares da História Medieval Portuguesa entre os meados do Séc. XII e finais da centúria de trezentos. E são quinze episódios que são analisados com um rigor que desde já realço.

Face à escassez de fontes que chegaram aos nossos dias, o autor, para conseguir reconstruir todos os passos, utiliza-se, não só dos seus conhecimentos, como também de uma grande dose de conjectura baseado nos costumes e mentalidade das épocas.

Dessa forma é-nos possível acompanhar, quase passo a passo, não só as razões das várias operações abordadas, como também as estratégias e a descrição das próprias batalhas e isso foi algo que achei fabuloso.

Iniciando com um enquadramento do tema da Guerra na Idade Média em Portugal e dos seus variadíssimos elementos que constituíam a forma como se fazia a guerra, inicia-se então uma viagem por 250 anos da História militar que tem por ponto de partida a Batalha de Ourique (1139) e por meta a Batalha de Aljubarrota (1385).

Em todas as batalhas, cercos e expedições, o autor explica a razão, contextualizando os motivos que estariam por detrás, a descrição e as consequências.

Uma excelente obra que nos permite conhecer um pouco mais e melhor da nossa História e do imenso custo que foi preservar a independência de Portugal.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Impacto – Douglas Preston


Douglas Preston é um conhecido autor norte-americano, cujos livros têm atingido um enorme sucesso ao ponto de vários deles terem-se tornado best-sellers. Misturando thriller com ciência, este seu novo título, “Impacto”, faz jus à fama alcançada e traz à baila um tema tão em voga nos nossos dias: o fim do mundo que está próximo.

Costa de Maine, duas jovens estão a observar o céu nocturno quando vêm um meteorito cair numa pequena ilha. Excitadas com tamanha visão, partem em busca do objecto que caiu algures na ilha.

Noutra parte dos Estados Unidos, o ex-agente da CIA, Wyman Ford, é contratado para se deslocar, com todo o secretismo, a uma mina no Camboja de onde eram originárias umas estranhas pedras cheias de radioactividade.

No National Propulsion Facility um professor é despedido. Com ele leva um disco externo contendo um enorme segredo que irá colocar em causa a segurança do planeta e, quiçá, condená-lo à sua extinção.

Três histórias paralelas que se vão interligando até se unirem num propósito: Um segredo oriundo do espaço com origem extraterrestre.

Gostei do livro mas é um livro que entretém apenas.

A história, como facto científico, pouco tem de verosímil. O acontecimento inicial, pese embora seja interessante, torna-se algo sensaborão quando percebemos o que de facto sucedeu. Mas adiante. Tratando-se de um romance thriller/suspense, é por esse prisma que deve ser lido e apreciado.

E nessa vertente, de facto entretém e faz-nos passar momentos agradáveis. Até digo mais, é um livro que se for adaptado ao cinema, me fará ver o filme, pois tem acção, suspense e efeitos visuais excepcionais.

Com capítulos curtos, ao estilo dos thrillers, a história passa-se num curto espaço de tempo, num ritmo alucinante com os habituais bons-que-procuram-salvar-o-mundo contra os maus-que-procuram-lixar-aqueles-que-querem-salvar-o-mundo, numa autêntica corrida contra o tempo onde não faltam, para além dos clichés anteriormente subentendidos, as incoerências e pontas soltas.

Mas e passe a ironia, trata-se de um livro que se lê com agrado e que não aborrece. Ou seja, lê-se muito bem e como se trata de uma história com um ritmo elevado, depressa damos por nós no seu epílogo e com um gosto de missão cumprida.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Máfia no Futebol – Declan Hill

Sendo eu um apaixonado pelo futebol, confesso que desde os anos 90 deixei de acreditar na honestidade da maioria dos torneios que acompanho, perguntando a mim mesmo porque ainda sigo esses torneios se não acredito na justiça dos seus resultados?

É esse o fascínio do futebol. Por muito factos estranhos que eu tenha assistido à descarada, o certo é que gosto de acompanhar e assistir quando posso, pese embora não vá a um estádio de futebol há uns 15 anos e nem penso em lá voltar.

Declan Hill, jornalista, tornou-se num dos maiores investigadores do mundo sobre a viciação de resultados e corrupção no desporto e, em “Máfia no Futebol”, ele descreve a investigação que levou a cabo e que lhe deu a conhecer o mundo paralelo do futebol, um mundo da batota e de corrupção.

E, mesmo não me surpreendendo por aí além, o resultados dessas investigações, são de facto surpreendentes face à dimensão e o que abrange ou até onde abrange: tudo, literalmente tudo.

Fenómeno surgido na Ásia, grupos de arranjadores ligados a organizações criminosas, que arranjam jogos nos maiores torneios desportivos do mundo (não apenas no futebol), transformaram o futebol numa industria atolado em criminosos e batoteiros, onde o lucro e outros interesses financeiros, influenciam os resultados dos jogos e das competições.

Aposta ilegais à escala mundial, esses arranjadores são como um polvo cujos tentáculos tudo alcançam, pois o dinheiro fala mais alto. E ninguém escapa: jogadores corruptos que se deixam corromper para facilitar dentro de campo, dirigentes que usam das suas influências para corromper, árbitros que são “obrigados” a facilitar depois de uma noite bem acompanhado ou então “obrigados” a facilitar depois de prendinhas pequeninas em ouro e afins, treinadores que “erram” nas substituições a fim de facilitar a outra equipa, enfim, há de tudo e não se pense que é só na Ásia que isso sucede, não!

Pasmem-se, é na Europa onde reside a maior corrupção!

São aqui mencionados muitos clubes de nomeada na Europa. Alguns conhecidos que desceram de divisão e tardam em recompor-se. Outros que continuam a ganhar pese embora todos lhes conhecerem os vícios, haver nomes de envolvidos e até provas (basta ir ao Youtube). É aqui mencionado ao de leve, pois não fosse Portugal o país periférico com pouca expressão mas cujo o autor afirma “… o futebol português sempre este sob alvo de suspeitas de corrupção. Alegações de envolvimentos mafiosos são quase rotineiras…” , no Capítulo intitulado “O Sexo e os Homens de Negro”. Mas e embora tudo isso não me surpreende-se, o que de facto me espantou é quando o autor aborda a viciação de resultados no Campeonato do Mundo de Futebol.

Fiquei, confesso, siderado com o que li e não é que depois fui ver ao Youtube as imagens dos jogos mencionados e, vendo por esse prisma, é de facto muito estranho como é que essas equipas sofrem certos golos, alguns deles perfeitamente infantis. E aí sim, senti-me triste pela quantidade de milhões de pessoas que acreditam na honestidade do jogo, naqueles milhares que pagam fortunas para ir aos estádios, naqueles que pagam canais televisivos, naqueles que poupam durante quatro anos para depois acompanharem as suas selecções ao Campeonato do Mundo e sobretudo, fiquei triste pelas pessoas que nada têm e cujo futebol, é um escape que dura hora e meia e onde eles se esquecem da dureza da vida. Tudo em prol do lucro, destrui-se o jogo.

Um livro excelente. Narra como se procede aos arranjos, como se formam os esquemas, os interesses das apostas ilegais, os interesses nos arranjos de jogos com equipas mais pequenas. Jogos que supostamente são fáceis de ganhar mas que interessa ter já como garantido para impedir lesões que impeçam os jogadores de jogar o jogo seguinte, esse sim, muito mais importante. Dá para compreender porque é que certas equipas jogam de determinada forma com uma equipa A e depois dão tudo quando jogam com uma outra equipa B, rival da equipa A.

Em suma, arrepiante o que é descrito no livro e algo que pode fazer com que muitos adeptos se desliguem desse jogo que é de facto maravilhoso.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Portugal Burlesco I

Nada tem a ver com livros ou mera literatura, mas, aqui e ali, vou fotografando factos com que me deparo e que demonstram o quanto burlesca pode ser a nossa sociedade.




quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Afonso Henriques – O Homem – Cristina Torrão


Simplesmente admirável!

O que dizer de um romance histórico que me fez vibrar como poucos o conseguiram?

O que dizer de diferente do que foi dito por outros ilustres bloguistas que, com as suas opiniões, conseguiram espicaçar o meu interesse pela obra?

D. Afonso Henriques é, arriscava, a personalidade portuguesa mais conhecida de todos os portugueses, ou seja, qualquer português sabe quem foi o primeiro rei de Portugal.

Porém poucos sabem mais do que isso e aqueles que o sabem, transmitem uma figura lendária personificada em estátuas espalhadas em, pelo menos, dois dos seus castelos. Uma personagem mística, transformada em lenda e rodeada de laivos fantásticos que a tradição cristã construiu ao longo dos séculos, diria que um mito e um ícone da História.

Nesta obra, Cristina Torrão tem a capacidade de transformar a lenda num ser humano que sonhou, amou, errou, sofreu e cujo caminho foi espinhoso e cheio de reveses.

Mas a autora não se foca apenas na figura de Afonso Henriques; vai muito mais além. Assente numa escrita cinematográfica, é exímia na caracterização e na capacidade de humanizar todas as outras personagens que foram contemporâneas de Afonso.

D. Teresa, que a História transformou na horrível mãe, é sim uma mulher do seu tempo que tinha uma força de carácter imenso e que teve, posteriormente, o apreço do filho. De notar algo que é importante que percebamos: a mentalidade da época e o contexto onde se inserem as acções de Afonso Henriques e de quem o rodeava. Isso é algo que Cristina Torrão vai explanando ao longo da obra e é algo que também pode ser alvo de uma análise prévia ou posterior. D. Teresa age como age porque se considera Rainha e uma Rainha deve proteger o que é seu e efectuar os acordos que lhe sejam mais vantajosos.

D. Mafalda que irá ter uma importância enorme na vida de Afonso, D. João Peculiar, arcebispo que teve uma enorme influência no reconhecimento pelo Vaticano do título de rei de Afonso Henriques, D. Fernando, Egas Moniz e tantos outros que são aqui colocados como simples mortais e de uma forma credível. E isso é algo que me fascinou, pois sabe-se da dificuldade em efectuar uma estruturação da época e a autora efectua isso de uma forma magistral, demonstrando ser uma profunda conhecedora da época medieval.

Achei espantoso também a forma como a autora consegue inserir os acontecimentos lendários, fantásticos diria, de uma forma natural, dando-lhes verosimilhança.

Num trabalho extraordinário de reconstrução da época, a autora é minuciosa e exacta nos factos históricos, nunca os adultera e sabe colocá-los na vida do dia a dia, construindo um percurso longo que culmina com o reconhecimento pelo Papa Alexandre III do título de Rei através da bula Manifestis Probatum.

É, repito, uma obra brilhante, admirável na forma como constrói uma época e as suas mentalidades, escrita com mestria, que se lê com prazer, num folêgo e que, ao chegar ao fim, nos oferece a sensação de termos deixado amigos tal a vivacidade e a humanidade das suas personagens. Aliás, conforme foi dito numa outra opinião, penso que de facto um dos segredos da qualidade deste livro reside na sensibilidade para compreender e descrever a alma humana.

Como senão, e isso é meramente uma opinião pessoal, achei que as batalhas poderiam ter sido mais vivas, mais violentas.

Bem sei que na época as batalhas eram levadas a cabo por poucas centenas de homens e que eram relativamente curtas. Porém eram efectuadas corpo a corpo e com certeza seriam duras e violentas. Cristina Torrão dá-nos um pouco dessa imagem mas penso que as podia ter explorado melhor, até no ponto de vista das suas tácticas que são abordadas, sim, mas de uma forma algo superficial. Isso é algo que me fascina em alguns autores de romances históricos que, não demonstrando essa sensibilidade para exprimir a alma humana, têm nas suas descrições as suas mais valias e penso que é isso que falta a este romance que, sem dúvida, é um dos melhores que li até hoje e, sem dúvida, o melhor que li escrito por um(a) autor(a) português(a).

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Indesejado (O) – Sarah Waters


Pós guerra, a zona rural de Warwickshire vive ventos de mudança sob o olhar desconfiado de algumas famílias antigas que habitam em mansões seculares, ainda agarrados às tradições do passado.

Um médico é chamado a uma dessas mansões onde vive a família Ayres. Dessa forma, o dr. Faraday reentra em Hundreds Halls que lhe traz memórias de infância quando, em criança, ali acompanhava a sua mãe que servia como criada.

Nostálgico, depressa se apega aquela estranha família composta por mãe, filha e filho e rapidamente se torna numa visita regular, chegando ao ponto de possuir as chaves da casa.

No entanto a mansão encontra-se em rápido declínio, assim como a própria família que, sem dinheiro para sustentar a propriedade, vai fazendo o que pode para viver em condições dignas.

A partir de certa altura estranhos acontecimentos começam a ocorrer, trazendo a tragédia ao seio da família Ayres.

Confesso que pela sinopse esperava bem mais do livro.

Não conhecia a autora, mas pensei tratar-se de um excitante thriller/terror.

Pura ilusão!

Dá-nos uma visão do pós-guerra e das mudanças que ocorreram no seio rural britânico tão marcado por essa guerra e que atingiu muitas velhas famílias, uma sociedade em mudança que foi difícil aceitar.

Essas mudanças são de facto o que está por detrás desses acontecimentos que assombram os Ayres, eles próprios muito agarrados ao seu glorioso passado e melindrados com as mudanças que, lá fora, tinham lugar.

Entendi a metáfora da autora, porém, o desenvolvimento da história é lento e pastoso, sem grandes motivos de excitação e muito menos terríficos.

Gostei da escrita da autora e o romance até se lê bem, mas confesso que estive sempre à espera de algo que me assusta-se, mas isso levou-o o vento e nunca passou de sussurros saídos de mentes presas ao passado.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Opereta dos Vadios (A) - Francisco Moita Flores


Que seca de livro!

Confesso que gosto do trabalho de Francisco Moita Flores. Vi quase todas as suas séries, sendo a “Ferreirinha” um exemplo de grande qualidade a todos os níveis, tanto na representação, nos cenários, realização e, principalmente, da história que nos narra a vida de uma figura da nossa História.

Posteriormente vi essa qualidade espelhada no excelente “A Fúria das Vinhas” e também apreciei bastante Não Há Lugar Para Divorciadas”. Sendo diferentes, ambas são histórias de uma qualidade narrativa óptima e em “A Fúrias das Vinhas”, sentimos novamente o ambiente visto em a “Ferreirinha”.

Foi assim com bastante curiosidade e interesse que empreendi a leitura do seu novo livro “A Opereta dos Vadios”, livro que, segundo a sinopse, se propõe a efectuar uma espécie de paródia à política nacional, criando um cenário onde o Presidente da República demite o governo, abrindo assim espaço para novas eleições legislativas.

Se por um lado temos um governo corrupto, viciado, cheio de tiques abusivos e com telhados de vidro, por outro, um partido de oposição que não desfaz em nada o partido do governo, ou seja, mais do mesmo conforme é usual na nossa praça.

Está assim criado o cenário para o surgimento de um novo partido composto por pessoas desiludidas com o estado do país e que são convidadas por um anarquista milionário exilado em Paris, que vê na Criação do P.U.N., a oportunidade de dar um safanão no marasmo político e social onde o país se encontra atolado.

Visto assim até pode parecer muito interessante e foi com essa premissa que eu fui enganado, até porque comprei o livro e já choro o dinheiro.

A escrita é boa, isso é inegável. Ou seja, lê-se bem, mas apenas isso.

A história é aborrecida, o autor nunca consegue dar qualquer plausibilidade à mesma. Bem sei que se trata de um romance de ficção, mas é perfeitamente perceptível que há por ali muitas mensagens destinadas, muitas piadas com destino e o governo caído em desgraça, todo ele chafurdando alegremente na lama sob a supervisão alemã e do FMI, faz efectivamente lembrar qualquer coisa.

Depois a criação do partido, até se chegar à sua criação, é longa. Se não estou em erro e se estou, erro por uma página ou outra, o partido só nasce na pág. 140, quase a meio do livro, e só nessa altura consegui esboçar uma gargalhada, a única, quando os elementos fundadores se entretém em parodiar a sigla P.U.N. com arrotos intestinais. Até lá, são diálogos enfadonhos, reuniões de amigos ao estilo dos “Amigos de Alex”, que por acaso até é focado na obra, mais parecendo encontros de velhos compinchas quase a chegar à velhice e frustrados com as suas vidas.

O autor tenta de facto criar um cenário comicamente absurdo, porém, não estaremos todos nós fartos do absurdo da política e já nem sequer nos conseguimos rir da sua incongruência?

Por várias vezes parava e pensava nisso. Provavelmente não apreciei a obra porque, simplesmente, já nem tenho paciência para ler paródias sobre o governo e sobre o estado miserável onde os sucessivos governos colocaram o país.

Não diria que é um mau romance. Muitos irão apreciar e rir à brava com tanta trafulhice, estupidez e despropositada politica em prol de interesses, mas a mim aborreceu-me, não retirei qualquer prazer e nem foi de qualquer utilidade, por isso, não gostei.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Cruz de Portugal – José Sequeira Gonçalves


O romance inicia-se pouco depois de 1910 e da Implementação da Republica.

Silves, Algarve, um menino, filho único, vive com os pais numa casa de média classe. O seu pai, dono de uma quinta e de uma mercearia, tem rendimentos suficientes para que a família viva com algum conforto.

Pouco depois dá-se a implementação da república e o pai torna-se republicano fanático, aderindo ao partido e acabando mesmo por conseguir um lugar como membro da comissão concelhia do partido republicano.

Tempos difíceis e confusos em que o povo se encontrava dividido entre os apoiantes da monarquia e os da republica, havendo mesmo confrontos em todo o território.

É assim neste contexto que a história tem início e onde o autor desenvolve as alterações politicas ocorridas nessa altura. Às mudanças geopolíticas que deram origem à 1ª Grande Guerra (1914-1918).

E é nesse período que o autor mais se centra.

O nosso rapaz, agora já estudante da escola comercial em Lisboa, vê-se incorporado no exército português com guia de marcha para a Frente.

Nesta fase é clara a intenção do escritor em mostrar o embuste que foi passado aos soldados que se exercitavam em Lisboa e Tancos com vista a defesa da pátria e da humanidade.

Chegados a França, depressa os soldados portugueses viam que aquilo não era nada como tinha sido pintado pelos comandantes e, sempre de bom humor (isso é algo que de facto sucedeu), foram encarando a guerra como algo que não lhes pertencia, onde nunca viram a sua utilidade e muito menos percebendo que sentido fazia estarem ali.

Toda a 2ª parte do livro narra episódios de conflito e das tropas portuguesas.

É depois do ataque de La Lys, em Abril de 1918, que o livro entra noutra fase e, quanto a mim, aquela que melhor exemplifica a monstruosidade da guerra e do quanto sofreram milhares de soldados.

Passado em grande parte num hospital, o autor consegue criar uma metáfora sobre o absurdo do conflito e da capacidade maléfica do ser humano, em simultâneo que vai dando exemplos da extrema humanidade que se verificava quando menos se esperava.

O dilema entre o amor à vida e o amor à pátria, também é explorado pelo autor, assim como achei muito curioso a exploração ou o brincar com o efeito borboleta que o autor leva a cabo.

Um excelente romance histórico que nos dá uma outra perspectiva dos tumultuosos tempos que antecederam a 1ª Grande Guerra e uma outra visão, talvez mais realista, mais crua, das sensações e reacções humanas num conflito militar.