terça-feira, 29 de novembro de 2011

Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas da História de Portugal – Ricardo Raimundo


Geralmente a História refere a vida e feitos individuais e colectivos que deram origem a acontecimentos que, obviamente, tiveram influência no percurso das sociedades e civilizações, sem que, de uma forma geral, se aborde a morte ou o fim desses indivíduos ou dessas civilizações. Geralmente são tratados de uma forma isolada e não como parte integrante da História, parecendo que a morte não faz parte integrante da vida e da evolução dessas sociedades e civilizações.

A obra presente sintetiza, de uma forma brilhante, a vida de alguns personagens que, de uma forma ou de outra, tiveram grande importância na História de Portugal. Mas o autor vai mais longe. Conforme o título deixa antever, depois de sintetizar a vida, narra a forma como esse personagem faleceu e em que condições, e é aqui que, quanto a mim, reside o fascínio desta obra.

É importante referir que o livro está dividido em três fases: Época Medieval (séculos VI-XV), Época Moderna (séculos XV-XIX) e Época Contemporânea (séculos XIX-XX), e nestas três época é interessante verificar a evolução das mentalidades das épocas em questão.

E em todas estas épocas surgem personagens fascinantes sendo, algumas delas para mim, totalmente desconhecidos. No entanto e independentemente da sua maior ou menor importância na História de Portugal, o que se assinala é que no tempo delas, foram tidas e consideradas e que a sua morte trouxe consternação e até mistérios à forma como pereceram.

Depois é muito curioso constatar a morte horrível e surreal de maior parte dos personagens referidos. Há de tudo, de mortos por ataques de leão, a morto e comido pelos canibais, homicídios ainda por explicar, suicídios encenados, envenenados, acreditem, de tudo e, geralmente, impressiona que depois de vidas tão ricas e algumas igualmente curtas, acabem de forma tão surreal e estranha.

Em suma, um livro extraordinário que me encantou. Para além de me dar a conhecer vários personagens que desconhecia, fascinou-me a forma sintética, no entanto clara e esclarecedora, como o autor narrou a vida e morte.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Deuses Enfurecidos – Renato Fontinha


Confesso que desconhecia este autor e em boa hora decidi empreender a leitura desta obra que se revelou prazeirosa e informativa.

Já tinha lido sobre os Descobrimentos, mas nunca havia lido sobre o modo de vida e de como os portugueses se relacionaram com os indígenas, como efectuaram a mistura de culturas, ou como conseguiram coabitar nativos com europeus e africanos.

Renato Fontinha leva a cabo um trabalho extraordinário de reconstrução desses tempos, dando-nos a imagem de como os portugueses conseguiram controlar os índios e, simultaneamente, amedrontar e “domar” os negros que eram trazidos de África como escravos.

O romance situa-nos em pleno séc. XVI, ano de 1550, numa altura em que portugueses e castelhanos tentavam tomar efectivamente posse das terras que lhes pertenciam, estabelecendo feitorias, erigindo colónias de modo a que os seus domínios se solidificassem, procurando também impor-se aos indígenas locais, não só pela força, como e principalmente, pela religião que tomava contornos de sobrenatural para os ingénuos índios que, dessa forma, eram explorados, sem contudo serem tratados como escravos.

Guiana, Congo, Brasil e a selva Amazónica, são os principais locais deste romance e onde o autor vai explorando e descrevendo a forma como os portugueses procuraram erigir colónias e a forma como se comportavam e relacionavam com os outros povos. Aqui, ressalta a enorme presença de degredados, pessoas violentas, assassinos e até pessoas perseguidas pela igreja, compunham a maioria dos portugueses que estavam a colonizar… imaginem!

O Rei de Portugal decide fundar uma colónia na foz do Amazonas e dá-lhe o nome de Nova Lisboa. Para além do governador que já se encontra nessa colónia em construção, a coroa envia alguns personagens cuja missão será o de compor os cargos de Estado e da Igreja. Dessa forma, desembarcam um tabelião honesto, mas medroso e cobarde e cuja maior ambição é enriquecer e ser amado pela sua jovem esposa que o trata dom desdém. Um padre com citações religiosas na ponta da língua, altamente corrupto e que pela absolvição dos pecados, recebe o pagamento em actos libidinosos.

Índios canibais, cuja maior honra, é partir ou partirem a cabeça à paulada e que vêm o sexo como algo muito natural. Negros que se vêm como escravos, mas que descendem da realeza, bandeirantes cujo único objectivo é traficar escravos e matar por vingança.

Um livro de leitura fácil, com capítulos curtos, mas que nos dão uma imagem daqueles conturbados tempos e da forma como Portugal se estabeleceu naquelas terras, ressaltando o enorme esforço que muitos fizeram para consolidar a presença portuguesa.

Uma obra que, para além de nos entreter, nos ensina e mostra o outro lado dos Descobrimentos. Um lado mais cruel e duro, onde se percebe por onde começou a coabitação e do porquê da facilidade da evangelização.

sábado, 19 de novembro de 2011

Bem-Vindo ao Céu… Malandro – João L. Bento


João Diogo, jovem veterinário e recém casado com Joana, que o autor não cansa de elogiar a sua beleza escultural, vive uma vida edílica com a sua esposa, parecendo que tudo é para sempre e a felicidade, a par com a sexualidade activíssima, jamais poderá terminar.

Porém, eis que João sofre um acidente de viação e… perde a vida, deixando na terra muito para fazer e muito para amar.

Este é o acontecimento central que vai marcar o ritmo e o sentido da história.

João, que está muito preso a esta vida, não acredita que morreu e que a mulher escultural que era sua, já não é, e, vai daí, não consegue libertar o espírito. No entanto, eis que surge o guardião, uma espécie de anjo que o vai ajudar a passar para o outro lado, mas será que João quer?

Gostei do livro porque o autor, assente num trama algo banal, conseguiu expor o que, quanto a mim, seria o seu principal objectivo: a vida espiritual.

Ou seja, o autor possui uma teoria e expõe-la nesta obra. Independentemente de crermos, ou não, o certo é que é curioso seguir o percurso de João desde a sua morte. Nessa teoria, o autor percorre a vida após a morte, e inclusivamente a reencarnação. Pessoalmente é algo que tenho opinião diferente, mas achei curioso e até faz algum sentido, ler sobre uma opinião diferente.

Algo que também me agradou, e confesso, até me deu gozo ler, foram os surreais diálogos entre João e Deus, por vezes utilizando linguagem vernácula. Acreditem que chega a ser profundos alguns desses diálogos e transbordam de ironia, mordacidade até.

A escrita é simples e fluida. Lê-se muito bem e entretém, pecando um pouco a forma repetitiva e abusiva como o autor refere a beleza escultural de Joana e o seus encontros lésbicos. Entendo que o autor quis dar algum erotismo à história, mas, a meu ver, peca pelo exagero com que repete as situações e as descrições dos encontros sexuais chegam a roçar o absurdo, tirando o interesse.

Em suma, um livro interessante que podia ir muito alem, pois o autor podia, face ao volume, ter explorado melhor a parte espiritual, em vez de perder tanto tempo com preliminares sexuais lésbicos que nada dão à história.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ladrão de Túmulos (O) – António Cabanas


Extraordinário!

Cerca de 1200 a.C., Ramsés III, o segundo faraó da XX dinastia egípcia e considerado o último grande faraó do Império Novo, reina um imenso e respeitado império que se vê constantemente ameaçado por invasões.

Ficando para a História como um brilhante estratega, foi sob o seu reinado que aconteceram duas importantes e violentas batalhas que trouxeram paz, no entanto, é também no seu reinado que a decadência do império se torna visível face à cada vez maior influência da classe sacerdotal de Amón que acaba por tomar o poder através de Herihor, elevado a faraó no ano 1080 a.C, pouco mais de cem anos após Ramsés III.

A história da obra situa-se no reinado de Ramsés III e o autor leva a cabo uma descrição exaustiva e fascinante da civilização egípcia e, principalmente, do povo, gente comum, pobre, temente aos imensos deuses que povoavam o panteão egípcio.

Só por essa razão o livro teria todo o meu destaque, pois desconheço se algum autor alguma vez teve a coragem de tentar recriar uma sociedade com 3200 anos de antiguidade. No entanto, hoje em dia há um excelente conhecimento sobre o modo de vida, usos e costumes de todas as classes sociais, e o autor utiliza com mestria esses conhecimentos, transportando-nos a uma época nos primórdios da civilização.

Mas Cabanas consegue ir mais longe; para além de traçar um brilhante trama que mistura policial, drama e aventura, ainda nos brinda com um infindável número de informações acerca das crenças, dos deuses e da vida militar que explicam como Ramsés III conseguiu debelar perigosas invasões.

O único senão que achei na obra, mas que não impediu que eu devorasse o livro em dois dias, é a inverosímil relação de amizade entre um dos príncipes e um dos protagonistas da história.

Numa escrita cativante, o autor delineia um fresco do grande Império egípcio quando já se sentiam alguns ventos de mudança assentes em sinais de decadência. Até isso é explorado, fazendo-nos entender do porquê da progressiva queda.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Último Segredo (O) – José Rodrigues dos Santos


Neste seu novo romance, JRS traz de volta esse personagem que já começa a ser mítico, pelo menos entre os apreciadores dos livros de JRS, o historiador e criptanalista tuga chamado Tomás Noronha.

E, permitam-me já dizer, que é um regresso em grande forma.

Conforme acontece nos seus romances thrillers/policiais que muitos continuam a teimar em comparar aos de Dan Brown sem saberem bem o que estão a dizer, mas como acontece nos livros de JRS desse género, a história inicia-se com uma série de estranhos crimes, sendo que, para além do modus operandi do assassino, o que torna os factos mais estranhos são as estranhas “pistas” ou “mensagens” que esse assassino deixa nos locais do crime.

Ora bem, até aqui tem de facto muito de browniano. De facto! No entanto é apenas no início que podemos efectuar comparações. Bem sei que depois há a perseguição ao assassino, a descodificação dessas pistas, etc, etc. No entanto, a principal razão que gosto bastante dos romances de JRS é porque o homem sabe colocar acontecimentos verídicos à medida que vai urdindo um trama todo ele, ou quase, coerente. Ou seja, os romances de JRS ensinam-me, divertem-me e entretêm-me.

Já o disse em diversas alturas que a principal objectivo de um livro é o de entreter, divertir, levar-nos a viajar, fazer companhia e, se possível, ensinarem. Que adianta ler um livro considerado um portento da literatura, se essa leitura for penosa, aborrecida e enfadonha?

Posto isto, e voltando à obra, lá é chamado o Tomás a fim de resolver todos esses crimes. A acompanhá-lo, obviamente, uma beldade, nomeadamente uma agente policial italiana.

No desenrolar das investigações, Tomás Noronha apercebe-se que os enigmas deixados nos locais do crime aludem à própria Bíblia e à construção narrativa da mesma que teve como intenção crer em alguém que, se calhar, não foi bem aquilo que se quis e quer pintar.

E lá começam eles uma demanda por vários países da Europa que finda em Israel, a Terra Prometida, o local onde Jesus nasceu, foi criado e morreu.

Numa reconstituição de factos históricos que considero notável, JRS interpreta várias fases da Bíblia e demonstra que a mesma esconde muitas falsidades, a maioria, intencionais, que foram sendo criadas ao longo dos séculos. À medida que vai construindo esse “edifício”, vai demonstrando a verdadeira imagem de Jesus e não o faz de uma forma leviana, sem provas. O que ele efectua não é nenhuma novidade e não foi ele que inventou ou pensou nisso, o que ele faz é aplicar os conhecimentos Históricos à época e interpretar o que está escrito à luz desses conhecimentos.

Posso até admitir que algumas das análises são de facto algo simplistas como li algures. Porém, qualquer pessoa com os mínimos de conhecimentos Históricos e um pouco informada, não pode ficar surpreendida com os episódios narrados e a análise efectuada aos mesmos. Hoje em dia, é mais do que óbvio, que a Bíblia ou qualquer outro livro sagrado, foi escrito não pelos apóstolos, profetas ou a quem se atribui os textos sagrados, foi sim escrito por outros com a intenção de convencer.

Em suma, um bom livro em que o principal tema é, claramente, a demonstração que Jesus foi um homem comum e que a sua deusificação foi construída muito posteriormente e assente em inverdades e interpretações erróneas, que se lê com prazer e que nos faz pensar e ver o quanto ignóbeis foram e continuam a ser tantos. No entanto isso vale o que vale, penso que não vai alterar em nada a fé de cada um.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Império de Areia – Robert Ryan


D.E. Lawrence foi uma personagem fascinante na revolta árabe durante a 1ª Grande Guerra. Fascinante e deveras misterioso, pois a sua história ainda hoje não é totalmente conhecida, existindo muitos pormenores e factos por esclarecer, assim como acontecimentos sem quaisquer explicações.

Em todo o caso esta é uma obra de ficção, mas os acontecimentos descritos sucederam mesmo e isso faz com que o presente livro seja, de facto, um romance notável.

Mas a estrutura e a escrita simples do autor ajudam. Uma escrita simples que nos faculta todas as informações necessárias para a percepção da época e do seu contexto, o autor constrói uma narrativa que nos envolve e nos situa na acção e na época.

Aqui presenciamos o nascimento da lenda e do porque de ele ter tido uma importância tão elevada na revolta.

Gostei muito deste romance e da forma como o autor conseguiu situar toda a acção, pois é precisamente isso um dos propósitos do romance histórico: situa e envolver o leitor na época descrita.

Uma obra aconselhável.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Império dos Pardais (O) – João Paulo Oliveira e Costa


Felizmente que dentro do género histórico, a literatura portuguesa tem já alguns títulos de imensa qualidade e autores que já olham para o género sem o olhar de desdém que era usual.

Desde há uns anos para cá o panorama mudou e começou-se a assistir ao surgimento de romances históricos escritos por autores portugueses, tendo como protagonistas momentos e figuras da nossa rica e vasta História.

João Paulo Oliveira e Costa, historiador, lança-se no género com este “O Império dos Pardais” e em boa hora o fez, pois deu à estampa uma obra de eleição.

O título, por si só, é uma homenagem à gesta dos Descobrimentos, sendo também uma metáfora à forma como um pequeno país conseguiu construir um império tão vasto e poderoso, enquanto outras nações bem maiores andavam entretidas a digladiarem-se entre si.

Situando-nos sobretudo no reinado de D. Manuel I, o autor, assente em diversas personagens fictícias, narra com uma clareza impressionante, numa escrita, diria cinematográfica, como foi possível acontecer tal milagre do império.

E facilmente concluímos onde esteve o segredo, sendo inegável o orgulho que sentimos por pertencer a uma nação que soube ser grande e soube-o sendo perspicaz e extremamente inteligente.

Um livro envolvente que se lê num sopro e que tem a capacidade de nos envolver de uma tal forma, que somos transportados para a Lisboa do séc. XVI, onde percorremos as ruas de Alfama, Alcântara e o Cais da Ribeira, sentimos o pulsar das suas gentes, do rei e dos seus amigos.

Em simultâneo, jogos de espionagem e lutas sangrentas contra os Mouros em terras africanas que a coroa portuguesa procurava conquistar, pois era aí que residia o segredo do Império dos Pardais.

Um livro imperdível e inesquecível!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Jogo do Anjo (O) - Carlos Ruiz Záfon


Záfon é um autor de best-sellers vendendo milhões de livros em todo o mundo e criando um conjunto de fãs que o veneram como um Deus, sendo comum lermos considerações que o intitulam como o melhor escritor da actualidade.

Exagero, sem dúvida, face à escrita, que até é agradável, mas sobretudo face ao argumento que o autor se utiliza na criação das suas histórias e, para isso, estou a pensar nos dois títulos emblemáticos: “A Sombra do Vento” e “O Jogo do Anjo”, nitidamente romances escritos para um público alvo mais juvenil, num género que oscila entre a Aventura, policial, fantástico e gótico, sobressaindo claras influências de outros autores como Allan Põe no gótico, Victor Hugo na aventura, e até situações em que nos debatemos em questões de foro psicológico que fazem lembrar Dostoeivsky ou até no absurdo se nota influências de Lovercraft.

Em todo o caso Záfon tem um estilo próprio que o distingue da maioria dos escritores e que faz dele, não só um autor muito lido, como também muito solicitado pela industria do cinema, pois e nisso confesso a minha simpatia, ele consegue transmitir imagens do que escreve, ou seja, tem uma escrita muito cinematográfica e isso é ainda mais surpreendente quando estamos a falar num estilo que tem tanto de policial, como de aventura, fantástico ou terror e gótico.

Gostei da “A Sombra do Vento”! Não tanto pela história, mas sim por esta mistura de estilos e pela forma como o autor vai buscar situações  a outros livros e as encaixa no seu argumento, assim como gostei das várias metáforas criadas e da forma como o autor explora as várias facetas humanas. Numa escrita ora poética, ora objectiva e por vezes bem directo e incisivo, é, acima disso, original como conjuga os estilos e os géneros e, no final, admiti estar na presença de uma belíssima obra que merecia a fama que lhe tinham dado.

No entanto “O Jogo do Anjo” já não é bem assim, revelando-se um livro muito semelhante à “Sombra do Vento”, não bem no seu conteúdo, mas na forma como o autor procura conduzir a história e na forma como vai criando as situações e a encruzilhada que é o enredo.

Gostei de ler sobre a Barcelona dos anos 20 e acho que o início do livro está fantástico. David Martín, um jovem escritor que recebe uma proposta de um estranho editor chamado Andreas Corelli para escrever um estranho livro a troco de uma fortuna. Claramente que aqui se encontra o conceito de “vender a alma ao Diabo” que o autor vai sabiamente explorando ao longo do livro. A livraria Sampere e Hijos e o Cemitério dos livros esquecidos que já connosco coabitaram na Sombra do Vento, e até a relação de amizade que mantém com D. Pedro me fez lembrar Dorian Gray e Basil Hallward no “Retrato de Dorian Gray”, ou seja, um conjunto de personagens extraordinárias que vão espalhando o seu perfume nas letras do autor.

No entanto Záfon envereda por um caminho demasiadamente fantástico, traçando uma teia cheia de mistérios que roçam o absurdo e que, na minha opinião, tiram beleza ao livro e a alma que o escritor cria no primeiro terço, pois, às tantas, o que parece não é e o que não parece vai dar em becos com pouco sentido que desvirtuam a realidade e que dão pouca coerência à história. A parte final então é surpreendente pela forma como o autor não consegue dar um término aceitável, terminando tudo num amontoado de inexplicáveis situações, num labirinto literário que não vai dar a lado algum e que nos deixa deixa com uma sensação de “esperem, acho que perdi qualquer coisa”.

É um bom livro sobretudo para os amantes do género fantástico, mas que está longe do brilhantismo da “A Sombra do Vento”

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Guia para ficar a saber ainda menos sobre as mulheres – Isabel Stilwell


Confesso que peguei neste livro sem qualquer expectativa e com apenas duas pretensões: 
1) Lê-lo o mais rápido possível para o tirar da pilha (o que consegui em duas horas); 
2) perceber que género de livro se tratava, pois a autora merece-me o maior respeito devido a outros livros que li e gostei.

E até que é engraçado!

Escrito de uma forma mordaz e cheio de humor, Isabel Stilwell elabora um género de manual onde expressa as tremendas capacidades femininas que tanto baralham e irritam os homens. No entanto vai mais longe, admite que as mulheres são complicadas por natureza e que, mesmo inconscientemente, manipulam os homens a seu belo prazer.

Achei muito curioso constatar situações já vividas por mim próprio, ficando também mais descansado por perceber que o mal nem é tanto meu, mas sim dessa inata capacidade feminina em complicar.

É pois um guia que dá dicas de como o homem agir, do que as mulheres gostam, do que a faz feliz, pelo menos temporariamente, pois a seguir já não serve e voltam a complicar.

O tom é sempre irónico e cheio de humor. A autora vai ao ponto de publicar cartas supostamente escritas por diversos tipos de homens (o charmoso, o macho latino, o gentleman, etc) e a sua resposta “merecida”. É hilariante algumas das cartas em reacção a este livro, acabando em beleza com um sms de um leitor e a resposta de Isabel com um sms merecido.

Uma obra muito curiosa e divertida que proporciona aos homens e se calhar até às próprias mulheres, um bocadinho de conhecimento do intrincado, misterioso e complicado mundo das mulheres.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Física do Futuro (A) – Michio Kaku


Michio Kaku, professor catedrático de Física Teórica, lança-nos uma visão do futuro próximo no que concerne à tecnologia que estará disponível.

Sempre baseado na ciência, aliás, o autor é rigoroso nas suas descrições, não só pela sua formação como também porque entrevistou mais de trezentos cientistas, é-nos aqui apresentados uma série de factos que, mais do que meras hipóteses ou utopias, são já certezas face ao desenvolvimento em vários laboratórios.

Partindo do pressuposto de como se sucederá a evolução até ao ano 2010, o autor vai explorando a evolução dos automóveis, dos computadores, do lazer, tv, internet, etc. As naves espaciais usarão a propulsão a laser e serão normais as viagens espaciais. O autor vai dando exemplos de como estava o mundo no início do séc. XX e como está agora, da forma como a evolução foi acontecendo há medida que a própria ciência ia evoluindo, ou sejam ciência e criação são indissociáveis.

Uma excelente obra que nos dá uma visão excitante do que vamos ter à nossa disposição dentro de poucos anos.

Como senão, o autor, por vezes, utiliza linguagem científica que torna os capítulos algo enfadonhos. Achei também que o autor simplesmente desconhece a História dos Descobrimentos portugueses. No capítulo onde ele explica o porquê dos europeus terem dominado o mundo nos últimos 500 anos, ele simplesmente ignora o papel dos portugueses porque o desconhece.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Fio do Tempo (O) – João Paulo Oliveira e Costa


Que livro maravilhoso!

Adquiri esta obra conjuntamente com o best-seller “O Império dos Pardais” e, pese embora este “Fio do Tempo” seja o segundo romance do autor, resolvi começar por ler este primeiro porque a maioria dos acontecimentos narrados são anteriores aos acontecimentos narrados no “Império dos Pardais”.

Antes de tecer as minhas considerações, sinto-me feliz por constatar que há escritores de excelência que estão a escrever sobre a História de Portugal. Uma História riquíssima, longa e que tem muito para explorar, haja quem o saiba fazer com qualidade que, decerto, terá leitores.

Abrangendo 100 anos da História de Portugal, talvez das épocas mais importantes e venturosas da nação, o autor cria D. Álvaro de Ataíde que, no alto dos seus 101 anos de idade, contempla a cidade de Lisboa enquanto a sua mente divaga nas suas recordações.

E é através dessas recordações que nos vamos inteirar de factos que marcaram a História de Portugal e do mundo.

Tudo começa em 1414 quando o jovem Álvaro, que sonhava ser cavaleiro, se inicia no master dos prazeres carnais com Filipa de Andrade, mulher de pouca castidade e de vícios perversos.

A partir daí, a espaços entre o presente (ano de 1500) e o passado, D. Álvaro vai recordando a sua vida e as suas proezas.

Em 1414 reinava D. João I e é já em 1415 que D. Álvaro de Ataíde toma parte na tomada de Ceuta, iniciando-se aí a expansão portuguesa que está na génese dos Descobrimentos.

Agora imagine-se a riqueza dos acontecimentos narrados por D. Álvaro, personagem fictícia é certo, mas cujos episódios são reais e atestam a magnificência e influência que este pequeno país soube alcançar no séc. XIII.

Pertencendo à Casa de Viseu, cujo senhor em 1415 era o Infante D. Henrique, D. Álvaro torna-se um cavaleiro temido e respeitado no reino, conselheiro do próprio infante, ele dá-nos uma visão clara da política da casa real, dos interesses que colocaram duques no trono em simultâneo que salpica a história com um pozinhos de misticismo, introduzindo assim a cultura trazida pelos escravos de África.

Um romance histórico excepcional que nos cativa pela simplicidade da escrita, da estrutura e pela objectividade da narrativa, não se perdendo em considerações ou teses, simplesmente ele narra os factos conforme a História os conhece, dando-lhes sim um tom algo aventureiro digno das façanhas dos seu narrador.

Confesso ser esta uma das épocas que mais me fascina e a Dinastia de Avis aquela que mais aprecio. Talvez isso tenha ajudado a ter gostado tanto do romance, porém é inegável a imensa qualidade do texto.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Aconteceu uma coisa engraçada a caminho do futuro… - Michael J. Fox


Este pequeno livro (literalmente no formato, li-o numa hora), é um livro que nos fala das pedras numa garrafa e da sua importância na nossa vida.

A metáfora das pedras na garrafa está na base da mensagem que Michael J. Fox pretende passar.

Sem qualquer curso superior, sem sequer ter terminado o liceu, Fox apresenta-nos um breve relato da sua vida e da sua ascensão na indústria do cinema. Emigrado para o Estados Unidos em busca de um sonho, Michael passou fome mas nunca desistiu. Quando estava no apogeu da sua carreira é-lhe diagnosticado a doença de Parkinson que se torna o ponto de viragem da sua vida e, segundo o próprio, a bênção que o fez ver a luz.

É assim uma obra que transmite esperança. Engane-se quem julga tratar-se de um livro onde o autor se vitimiza. Longe disso, fala-nos sim de sonhos e da forma como podemos e devemos viver o dia-a-dia em busca desses sonhos acreditando no melhor e não pensar nas dificuldades antes de elas chegarem.

E curioso a forma como ele insere estas mensagens.

Admitindo não ter tido uma educação que a sociedade tem como conveniente (curso superior, etc), Michael divide o livro por capítulos, nomeando-os com designações de ciências. É por si só uma metáfora à escola da vida que ele, superando as dificuldades, teve que percorrer e vencer.

Em suma, um livro delicioso que me transmite que devemos aceitar o presente como ele é, pois a vida não é linear, há desvios no percurso da vida, estradas que não contávamos percorrer, mas enfim, é a nossa vida e há que sorrir.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

De Ourique a Aljubarrota – Miguel Gomes Martins


O autor, mestre em História da Idade Média, propõe-se aqui efectuar uma análise aos vários teatros de operações militares da História Medieval Portuguesa entre os meados do Séc. XII e finais da centúria de trezentos. E são quinze episódios que são analisados com um rigor que desde já realço.

Face à escassez de fontes que chegaram aos nossos dias, o autor, para conseguir reconstruir todos os passos, utiliza-se, não só dos seus conhecimentos, como também de uma grande dose de conjectura baseado nos costumes e mentalidade das épocas.

Dessa forma é-nos possível acompanhar, quase passo a passo, não só as razões das várias operações abordadas, como também as estratégias e a descrição das próprias batalhas e isso foi algo que achei fabuloso.

Iniciando com um enquadramento do tema da Guerra na Idade Média em Portugal e dos seus variadíssimos elementos que constituíam a forma como se fazia a guerra, inicia-se então uma viagem por 250 anos da História militar que tem por ponto de partida a Batalha de Ourique (1139) e por meta a Batalha de Aljubarrota (1385).

Em todas as batalhas, cercos e expedições, o autor explica a razão, contextualizando os motivos que estariam por detrás, a descrição e as consequências.

Uma excelente obra que nos permite conhecer um pouco mais e melhor da nossa História e do imenso custo que foi preservar a independência de Portugal.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Impacto – Douglas Preston


Douglas Preston é um conhecido autor norte-americano, cujos livros têm atingido um enorme sucesso ao ponto de vários deles terem-se tornado best-sellers. Misturando thriller com ciência, este seu novo título, “Impacto”, faz jus à fama alcançada e traz à baila um tema tão em voga nos nossos dias: o fim do mundo que está próximo.

Costa de Maine, duas jovens estão a observar o céu nocturno quando vêm um meteorito cair numa pequena ilha. Excitadas com tamanha visão, partem em busca do objecto que caiu algures na ilha.

Noutra parte dos Estados Unidos, o ex-agente da CIA, Wyman Ford, é contratado para se deslocar, com todo o secretismo, a uma mina no Camboja de onde eram originárias umas estranhas pedras cheias de radioactividade.

No National Propulsion Facility um professor é despedido. Com ele leva um disco externo contendo um enorme segredo que irá colocar em causa a segurança do planeta e, quiçá, condená-lo à sua extinção.

Três histórias paralelas que se vão interligando até se unirem num propósito: Um segredo oriundo do espaço com origem extraterrestre.

Gostei do livro mas é um livro que entretém apenas.

A história, como facto científico, pouco tem de verosímil. O acontecimento inicial, pese embora seja interessante, torna-se algo sensaborão quando percebemos o que de facto sucedeu. Mas adiante. Tratando-se de um romance thriller/suspense, é por esse prisma que deve ser lido e apreciado.

E nessa vertente, de facto entretém e faz-nos passar momentos agradáveis. Até digo mais, é um livro que se for adaptado ao cinema, me fará ver o filme, pois tem acção, suspense e efeitos visuais excepcionais.

Com capítulos curtos, ao estilo dos thrillers, a história passa-se num curto espaço de tempo, num ritmo alucinante com os habituais bons-que-procuram-salvar-o-mundo contra os maus-que-procuram-lixar-aqueles-que-querem-salvar-o-mundo, numa autêntica corrida contra o tempo onde não faltam, para além dos clichés anteriormente subentendidos, as incoerências e pontas soltas.

Mas e passe a ironia, trata-se de um livro que se lê com agrado e que não aborrece. Ou seja, lê-se muito bem e como se trata de uma história com um ritmo elevado, depressa damos por nós no seu epílogo e com um gosto de missão cumprida.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Máfia no Futebol – Declan Hill

Sendo eu um apaixonado pelo futebol, confesso que desde os anos 90 deixei de acreditar na honestidade da maioria dos torneios que acompanho, perguntando a mim mesmo porque ainda sigo esses torneios se não acredito na justiça dos seus resultados?

É esse o fascínio do futebol. Por muito factos estranhos que eu tenha assistido à descarada, o certo é que gosto de acompanhar e assistir quando posso, pese embora não vá a um estádio de futebol há uns 15 anos e nem penso em lá voltar.

Declan Hill, jornalista, tornou-se num dos maiores investigadores do mundo sobre a viciação de resultados e corrupção no desporto e, em “Máfia no Futebol”, ele descreve a investigação que levou a cabo e que lhe deu a conhecer o mundo paralelo do futebol, um mundo da batota e de corrupção.

E, mesmo não me surpreendendo por aí além, o resultados dessas investigações, são de facto surpreendentes face à dimensão e o que abrange ou até onde abrange: tudo, literalmente tudo.

Fenómeno surgido na Ásia, grupos de arranjadores ligados a organizações criminosas, que arranjam jogos nos maiores torneios desportivos do mundo (não apenas no futebol), transformaram o futebol numa industria atolado em criminosos e batoteiros, onde o lucro e outros interesses financeiros, influenciam os resultados dos jogos e das competições.

Aposta ilegais à escala mundial, esses arranjadores são como um polvo cujos tentáculos tudo alcançam, pois o dinheiro fala mais alto. E ninguém escapa: jogadores corruptos que se deixam corromper para facilitar dentro de campo, dirigentes que usam das suas influências para corromper, árbitros que são “obrigados” a facilitar depois de uma noite bem acompanhado ou então “obrigados” a facilitar depois de prendinhas pequeninas em ouro e afins, treinadores que “erram” nas substituições a fim de facilitar a outra equipa, enfim, há de tudo e não se pense que é só na Ásia que isso sucede, não!

Pasmem-se, é na Europa onde reside a maior corrupção!

São aqui mencionados muitos clubes de nomeada na Europa. Alguns conhecidos que desceram de divisão e tardam em recompor-se. Outros que continuam a ganhar pese embora todos lhes conhecerem os vícios, haver nomes de envolvidos e até provas (basta ir ao Youtube). É aqui mencionado ao de leve, pois não fosse Portugal o país periférico com pouca expressão mas cujo o autor afirma “… o futebol português sempre este sob alvo de suspeitas de corrupção. Alegações de envolvimentos mafiosos são quase rotineiras…” , no Capítulo intitulado “O Sexo e os Homens de Negro”. Mas e embora tudo isso não me surpreende-se, o que de facto me espantou é quando o autor aborda a viciação de resultados no Campeonato do Mundo de Futebol.

Fiquei, confesso, siderado com o que li e não é que depois fui ver ao Youtube as imagens dos jogos mencionados e, vendo por esse prisma, é de facto muito estranho como é que essas equipas sofrem certos golos, alguns deles perfeitamente infantis. E aí sim, senti-me triste pela quantidade de milhões de pessoas que acreditam na honestidade do jogo, naqueles milhares que pagam fortunas para ir aos estádios, naqueles que pagam canais televisivos, naqueles que poupam durante quatro anos para depois acompanharem as suas selecções ao Campeonato do Mundo e sobretudo, fiquei triste pelas pessoas que nada têm e cujo futebol, é um escape que dura hora e meia e onde eles se esquecem da dureza da vida. Tudo em prol do lucro, destrui-se o jogo.

Um livro excelente. Narra como se procede aos arranjos, como se formam os esquemas, os interesses das apostas ilegais, os interesses nos arranjos de jogos com equipas mais pequenas. Jogos que supostamente são fáceis de ganhar mas que interessa ter já como garantido para impedir lesões que impeçam os jogadores de jogar o jogo seguinte, esse sim, muito mais importante. Dá para compreender porque é que certas equipas jogam de determinada forma com uma equipa A e depois dão tudo quando jogam com uma outra equipa B, rival da equipa A.

Em suma, arrepiante o que é descrito no livro e algo que pode fazer com que muitos adeptos se desliguem desse jogo que é de facto maravilhoso.