sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cidade e as Serras (A) – Eça de Queirós

Publicado em 1901, um ano após a morte do genial autor, a Cidade e as Serras é considerado por muitos como o seu melhor livro, algo que eu discordo.

Este foi o último livro que Eça escreveu, vindo a falecer quando nem a meio ia na sua revisão, no entanto, Eça deixou-nos um relato onde é claro a sua intenção de reconciliação com o país tão duramente criticado nas suas crónicas e nos seus romances que, na altura, deram brado e tiveram contornos de escândalo, e refiro-me ao "Crime do Padre Amaro" e a "Primo Bazílio".

Nesse aspecto, as Cidade e as Serras é um importante romance no universo queirosiano, e nele sobressai também toda a maturidade do autor, a história, não tendo aquele tom cortante de ironia, é toda ela um hino ao nosso Portugal e à arte de bem escrever, pois e isso admito, Eça, quase como se fosse uma despedida, apruma-se e oferece-nos uma prosa exímia.

A obra coloca frente a frente a civilização, preconizada em Paris, cidade luz e símbolo do charme, do luxo e das ideias positivistas que marcavam a época e a Serra, preconizada em Tormes, no Douro, local perdido nos entranhas de Portugal.

Entre as duas, Eça personifica o Homem civilizado em Jacinto de Tormes que vive rodeado de equipamentos científicos que lhe fazem tudo e pouco deixam para pensar e no Homem simples do campo, representado em Zé Fernandes, que acorda cedo e que vive o seu dia-a-dia preocupado com a lavoura e com pequenos pormenores que o Homem civilizado nem se apercebe que existem.
 
Jacinto representa a elite portuguesa. Vive em Paris rodeado de aparelhos científicos que o despojam de autenticidade, numa vida fútil, cheio de máscaras que, saberemos mais à frente no romance, não o deixam feliz e realizado. Necessita de algo que ele próprio não sabe quantificar.

Representando a vida no campo em Portugal, surge-nos Zé Fernandes. Homem culto, mas habituado à vida no campo,e a gerir as terras e o sustento que as mesmas dão à classe trabalhadora. É ele o narrador da história e aquele que vai mostrar a Jacinto que na serra pode estar a felicidade que a civilização não lhe dava.

Esta é uma obra que tem muito para analisar e que eu o fui fazendo à medida que avançava na sua leitura. Não vou aqui referir o fruto dessas análises, porque, em certa medida, iria abrir demasiado o véu deste belo romance e porque, também, uma opinião quer-se simples e não assemelhar-se a uma resensão, no entanto e entre tantos factos, achei especialmente interessante quando Jacinto se põe a criticar o pessimismo de Schopenhauer.

O romance dá-nos um retracto da vida no campo do Portugal profundo do final do séc. XIX, das suas gentes, da vida dura e da singela simplicidade. Em contraste com a vida numa grande cidade, a mais “in” da Europa, onde a frivolidade andava de mãos dadas com dissimulações, risos falsos e uma vacuidade opressora que transformava as pessoas em escravos. Eça é magnífico na forma como faz sobressair esse contraste, conseguindo transmitir-nos o ambiente, a força e vitalidade dos principais personagens, sejam eles positivos ou negativos, pois há personagens cuja antipatia conseguindo sentir.

Em suma, apreciei imenso esta última obra de Eça, mas não a considero a melhor. Pessoalmente gosto mais do estilo da chamada Segunda Fase de Eça, espelhada em obras como “Os Maias”, “Crime do Padre Amaro” e “O Primo Bazílio”. Gosto mais do seu estilo irónico, mordaz, que fazia sobressair os podres da sociedade portuguesa que teimam em se manter. Esta última fase de Eça, é pós-realista, surge-nos um Eça maduro, reconciliado com Portugal e ciente, na minha opinião, do futuro lugar cimeiro do panorama literário português e querendo deixar para a História, obras exaltando a alma portuguesa e o que de bom Portugal tem.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

D. Dinis – Cristina Torrão


Confesso que conhecia alguma da obra que o tornou D. Dinis num dos principais Reis de Portugal. Fundamentalmente sabia que havia sido ele que cimentou a identidade nacional, que definiu as fronteiras de Portugal com o Tratado de Alcanizes, que procurou povoar todo o território, atribuindo inúmeros forais, que institui a língua portuguesa como o idioma oficial, entre tantos factos que tornam o seu longo reinado de uma riqueza impar.

No entanto desconhecia que estava muito longe de conhecer toda a sua imponência e grandeza e isso, confesso, foi para mim uma enorme e grata surpresa.

Mas vamos por partes.

Primeiro e depois da boa surpresa que foi o livro Afonso Henriques, não esperava menos deste e, minha cara Cristina Torrão, as expectativas estão cada vez mais altas.

Embora eu aprecie a descrição da barbárie das batalhas da Idade Medieval, tenho que reconhecer que esta obra é sublime na descrição da época e na forma como “pinta” os seus protagonistas, a maioria dos quais, para não dizer todos, não se faz ideia de como foram no aspecto físico. No entanto a autora descreve-os, de uma forma geral, e traça-lhes o perfil psicológico e moral de uma forma justa e que, em alguns casos, chega a ser comovedora. Ou seja, a autora é mais uma vez exímia na forma como preenche com ficção os factos Históricos, “pegando” no que se sabe da época e dos personagens, a autora vai tecendo um trama magnífico que se transforma num romance histórico brilhante, de uma excelente qualidade literária.

Logo no início somos colocados diante do acontecimento que vai moldar o carácter de D. Dinis e, a meu ver, ser o principal responsável pela forma como este rei governou e pela sua obra. D. Dinis, então com 5 anos, vai a Toledo conhecer o seu avô, o Rei de Leão e Castela, Afonso X, que ficou conhecido como o “sábio” ou o “astrólogo”, cognomes que denotam a enorme preocupação pela cultura que D. Dinis veio a herdar.

É esse o primeiro capítulo da obra e, com isso, é dado o mote para a acção que a autora vai brilhantemente desenrolando, de uma forma muito cuidada e com todo o vagar, ou seja, ficamos com a sensação de que pouco ou nada ficou por contar, todos os aspectos da vida de D. Dinis são escalpelizados, esmiuçados por vezes de uma forma exaustiva que até se pode tornar um pouco cansativo para quem procura ler de uma forma despreocupada, sem grandes atenções ou cuidados. A meu ver, este é um livro que deve e merece ser lido com muita calma pois a informação é imensa, chega-nos em catadupa e não é fácil assimilar tudo de uma só vez.

Por isso mesmo foi um livro que me demorou mais de um mês a ler. Fui intervalando com outros porque, repito, a informação era muita e achei que este não era apenas mais um livro, mas sim um livro que devia ser apreciado com deleite.

No entanto não foi só aspectos positivos que constatei.

Embora seja um romance histórico no qual a autora pretendeu traçar a vida e a obra de 63 anos de vida e 46 anos de reinado, o livro, em alguns capítulos, torna-se maçudo face às constantes estratégias e interesses políticos. Pessoalmente gosto de mais acção. Conforme referi, gosto das descrições das batalhas. E embora D. Dinis não fosse um rei guerreiro, o certo é que durante o seu reinado houve algumas guerras e muitas quezílias que são aqui aflorados e pouco mais. Por outro lado, confesso que cheguei a achar um pouco enfadonho as descrições das intrigas políticas que, a meu ver, bem exprimidas, eram quase sempre as mesmas, sendo D. Dinis confrontado na maioria das vezes com os mesmos problemas. Aliás, a certa altura o próprio D. Dinis se mostra aborrecido pelas repetidas intrigas. Dessa forma, o livro chega a parecer-se com um compêndio de História, fugindo um pouco do romance histórico. Com isso quero dizer que pode afugentar muitos leitores que procuram mais o entretenimento em prol da informação.

No entanto isso não deslustra a imensa qualidade do romance e a forma honesta e minuciosa como a autora investigou e pesquisou, o que, por si só, é de louvar, pois, com isso, temos a certeza de estar diante de uma história com contornos verídicos de um dos reis mais importantes da História de Portugal.

Um livro que aconselho a todos aqueles que gostam de se deleitar com uma histórias bem contadas e de escrita de qualidade.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Apóstolos da Fénix (Os) – Lynn Sholes e Joe Moore


Uma tradição cristã refere que no caminho de Jesus Cristo para o calvário, uma mulher enxugou o rosto de Cristo num pequeno pano e que a imagem de Jesus teria ficado gravada nesse pano.

Essa tradição, ou relíquia, obviamente que nunca foi comprovada, sendo ao longo dos séculos alvo de várias especulações sobre a sua autenticidade e destino. Hoje em dia, julga-se, ou assim o Vaticano afirma, encontrar-se no santuário do Santo Rosto de Manoppello, a cerca de 200 km de Roma.

Conhecida como o “Véu de Verónica” (deformação do nome “vera ícona”, “verdadeiro ícone”), ou na antiguidade como “a mãe de todos os ícones”, trata-se de um véu ou um fino pano de 17x24 cm, que mostra, de uma forma vaga, a imagem de uma face.

Verdade, mentira? Depende da fé de cada um, em todo o caso, Os Apóstolos da Fénix, gira em torno desta relíquia.

Já o referi em diversas ocasiões, que um dos principais propósitos de um livro é o de entreter. De nada adianta ler um livro erudito, se o mesmo só nos traz longos e intermináveis bocejos e a sua interrupção se revela a melhor parte face a tanto aborrecimento. Ou seja, já li livros, alguns apenas tentei, considerados “obras excepcionais”, “clássicos”, “de leitura imprescindível”, mas que se revelaram enfadonhos, nada prazeirosos e imensamente chatos. Digam o que quiserem os pseudo iluminados intelectuais da nossa praça, mas eu dou muito valor a um livro que me entretém e que me diverte.

Pois bem, Os Apóstolos da Fénix é um desses casos e, confesso, que a sua leitura me deu muito gozo, tornando-se até, em alguns capítulos, viciante.

Aprender, enfim, pouco aprendi, até porque isso é uma das falhas dos autores que podiam explorar um pouco mais o campo que utilizaram, no entanto o livro tem um ritmo alucinante num estilo que nos dá aquela ânsia de querer virar página a página até ao seu epílogo.

Uma equipa de arqueólogos encontra-se a escavar junto ao túmulo de Montezuma II, na Cidade do México, quando se depara com algo muito misterioso no interior do túmulo. Pouco depois, uma violenta explosão mata toda a equipa, excepto uma jornalista que ali estava a acompanhar as escavações.

É o início de uma aventura que nos irá levar a vários pontos do planeta, acompanhando não só essa jornalista, como também um estranho personagem que se intitula o novo Messias e afirma saber como salvar o Mundo da eminente catástrofe prevista para o dia 21 de Dezembro de 2012.

Um livro muito interessante, cheio de ficção a até alguns clichés, é certo, mas que entretém bastante e coloca no mesmo campo de acção o passado da civilização Asteca com a clonagem humana e a tão desejada imortalidade que o Homem sempre buscou, a eterna busca da Fonte da Juventude.

Gostei do livro, pese embora a ficção da imortalidade seja algo difícil de digerir, porém, os autores souberam colar muito bem a história e, julgo, construir todo um trama que daria um belíssimo filme.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Felicidade Conjugal (A) - Leon Tolstói


Para 2012 prometi a mesmo mim voltar aos clássicos. Não ler unicamente clássicos, mas ler clássicos que ainda não li e, quiçá, reler alguns que me marcaram e que há muito tenciono reler.

Dessa forma, foi propositado que o primeiro livro lido em 2012 fosse precisamente de um dos meus escritores preferidos, alguém que tão bem soube caracterizar a sua sociedade e o próprio ser humano, alguém que pouco oiço mencionar pelos vários blogs que frequento e muito menos leio opiniões sobre as suas obras. Um escritor impar, para mim, um escritor que irá figurar sempre nos melhores escritores de sempre: Leon Tolstói.

A Felicidade Conjugal, escrito em 1858, é o livro que podemos considerar que prefigura o portentoso “Ana Karenina” ou, se quisermos e pessoalmente assim o considero, o livro que serve de preparação a Karenina, uma espécie de ensaio a uma das obras maiores da literatura universal.

Refiro isso porque são perfeitamente perceptíveis as semelhanças entre as duas obras. Não só no aspecto narrativo, o que é normal, mas e principalmente, no aspecto de análise e do próprio contexto e da abordagem temática.

María Alexandrovna acaba de ficar órfã e vê entrar na sua vida, Serguei Mikhailovitch, o administrador da família que havia sido um grande amigo do seu pai e que a tinha visto crescer. Vivendo com Kátia, sua perceptora e Sónia sua irmã mais nova, as três levam uma vida isolada numa enorme casa algures numa aldeia russa, longe da civilização, longe de tudo.

É nesse contexto que entra nas suas vidas Serguei que, como administrador, toma conta dos negócios da família e começa a visitá-las amiúde. De início apenas para as colocar a par do estado do património da família, para depois começar a visitá-las como outro interesse: Maria.

Neste ponto Tolstói mostra o seu génio. Não esqueçamos o contexto, uma Rússia rural em finais da década de 50 do século XIX. Um país a lamber as feridas da Guerra da Crimeia que iriam manter-se por muitas décadas e que estariam no embrião da Revolução Russa. Longe de pensar na Revolução, Tolstoi consegue transmitir a imensa tristeza de um país que tentava erguer-se. Como? Utilizando um cenário macambúzio, cheio de imagens cinzentas, iniciando o romance com uma morte e com duas órfãs que ficam um pouco por sua conta, um género de metáfora à Mãe Russa que ficou mortalmente ferida na Guerra da Crimeia.

Mas o romance persegue.

Maria Alexandrovna vive numa espécie de Alegoria da Caverna que Tolstói persegue e tenta explorar.

Serguei Mikhailovitch é o único homem que Maria conhece e por ele começa a ter sentimentos que uma jovem é normal ter. Apaixona-se e sonha por uma vida edílica, cheia de amor ao lado de Serguei. No entanto, ele é bem mais velho e, ao se aperceber dos sentimentos de Maria, tem algumas reservas porque, sendo mais experiente, se apercebe que aquela pode ser um sentimento nascido da solidão e por não conhecer mais homem nenhum. Em todo o caso acabam-se por casar e inicia-se aí a segunda parte da obra.

A história é curta mas muita rica em termos narrativos e na abordagem a várias temáticas que, hoje em dia, são perfeitamente actuais.

O amor inicial, que se tem por fogoso, intenso e até feroz, vai-se transformando num amor mais sólido, mais pacífico e suave, muitas vezes até confundido com amizade. Tolstói explora isso e acerta na mouche. À medida que o romance avança, vamos observando que Seguei se transforma mais num pai do que num amante, e principalmente isso é visível, quando Tolstoi lança uma das suas atordoadas a um dos seus objectos preferidos: A Sociedade, pois é essa sociedade, hipócrita, que vive de aparências, supérflua, que vai ameaçar e transformar o casamento de Maria e Serguei. Nesse aspecto ficou claro para mim a intenção do autor em explorar a Alegoria da Caverna, pois Maria ao conhecer a sociedade de São Petersburgo, sai da caverna e conhece o mundo e a natureza, percebendo assim que a sua realidade estava longe da realidade dos outros.

Um romance genial de um autor genial que, quase 200 anos depois da sua escrita, não perdeu a actualidade e que nos ajuda a perceber o ser humano e o que o move. Um romance que li num ápice e me trouxe a alegria dos grandes clássicos e uma visão que o Tempo passa, mas o ser humano não muda, nem um milímetro.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Balanço Pessoal de 2011

À semelhança do efectuado nos dois últimos anos, esta é a altura de todos os balanços e, como este é um blog dedicado à literatura, vou fazê-lo em relação aos livros que li em 2011.

Este ano li menos do que o ano passado. Confesso que não dediquei tanto tempo à leitura como o fiz no passado, mas enfim, sempre fui lendo e acabei por ler livros interessantes e outros menos, alguns, que nem os considero como leitura, desisti a meio ou pouco depois de os começar. De observar que este foi um ano algo pobre em livros que me empolgassem, daqueles que deixam saudades, que planeamos reler algum tempo depois. Um pouco por culpa própria, pois insisti muito em obras novas em prejuízo de alguns clássicos que continuam na pilha, algo que penso modificar em 2012.



Livros Lidos: 52
Páginas lidas: 17406
Média diária (páginas): 48
Média Livros mês: 4
Média Página/Livro: 334



Meu Top:


1 - A Selva










O Mais Prazeroso:

A SelvaFerreira de Castro: 2011 foi o ano que descobri Ferreira de Castro, autor que foi durante muitos anos o autor português mais traduzido e aquele que esteve muito perto do Nobel, ou pelo menos falava-se sempre nele como possível vencedor. Esta obra é excepcional, é um grito de revolta sobre a vida escrava dos seringueiros, mas é simultaneamente um documento sobre o Ser Humano e uma autobiografia do autor. Uma obra de leitura obrigatória para quem se considera um leitor.


Mais Divertido:

Opereta dos VadiosFrancisco Moita Flores: Entre a seca e a diversão, foi um livro que me aborreceu mas que, de entre os 52 lidos, o que mais me fez rir. Uma obra que diria actual, mas vale a pena ironizar com a javardice governamental quando já nem o povo lhe acha piada?


Trabalho a Ler:

A insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera: Um livro denso, profundo, onde demorei bastante tempo a entrar na escrita e no universo do escritor. Muito bem escrito, mas que me decepcionou face à imensa fama que tem, mas que não me despertou grande interesse. Nem me apeteceu escrever a opinião.



Decepção:

As cruzadas vistas pelos Árabes - Amin Maalouf: Outro livro muito afamado de um autor que é sempre mencionado para o Nobel da literatura, mas que se trata unicamente de um amontoado de informação histórica pinçalgado por ficção. Não gostei. Para além disso encontrei várias inverdades Históricas no livro, o que, por si só, é grave. Outro livro que nem me dei ao trabalho de pensar e escrever uma opinião.


Não consegui acabar:

Não vou referir nenhum, porque não me recordo de nenhum título em especial.


O Pior:

Por ti ResistireiJúlio Magalhães: Uma fraude, sem interesse, sem ritmo, sem nada. Uma nulidade, um autor construído pela sua imagem pública que não consegue cativar e que demonstra não saber pesquisar. O assunto deste livro dava “pano para mangas”, mas deparamo-nos com uma história de amor simplista, mal escrita, cheio de clichés. O ano passado considerei o livro “Longe do Meu Coração” como a decepção. Este ano considero a pior leitura de 2011.


A Revelação:

João Paulo Oliveira e Costa e Cristina Torrão: A literatura portuguesa tem óptimos autores e este ano constatei estes dois nomes que me empolgaram. São dois estilos diferentes, mas semelhantes na forma excelente como construem os romances Históricos e como nos situam no contexto e na época.


Em relação ao blog, quero agradecer as visitas diárias e as mensagens de apoio e trocas de ideias sobre livros. É para isso que eu iniciei esta aventura na blogosfera, e, embora possa por vezes parecer que estou ausente ou desinteressado, a realidade é que todos os dias dou uma espreitadela e sempre que posso, escrevo opiniões e outros artigos. Um bem haja a todos.

Como devem também ter notado, acabei com os passatempos e com as promoções a novos livros. Sem me dar conta, estava a transformar o meu blog num espaço quase gratuito para as editoras promoverem os seus livros. Para além do trabalho que tinha em estruturar essas promoções, ainda tinha de aturar certas exigências, sobretudo no que respeita aos passatempos. Para além disso, e respeitando quem o faça, não aprecio tantos passatempos que inundam a blogosfera e, constatei também, que surgiram muitos blogs apenas com o intuito de sacar livros às editoras. O meu blog é um espaço pessoal, onde escrevo, filosofo e divago sobre as obras que leio, um espaço de trocas de opiniões e, decidi, que não pode ser tomado por alguém que tem como intenção o lucro comercial, esquecendo muitas vezes os leitores.

Para todos os ilustres amigos e amigas que ajudam a crescer o NLivros, um forte abraço e:



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Marquesa de Alorna – Maria João Lopo de Carvalho


Antes de mais, é sempre um enorme prazer ler bons romances históricos, o meu género preferido. Num bom romance histórico, para além de nos ser dado a conhecer a época abordada, o autor consegue-nos situar e quase que interagir com os personagens, uma espécie de relacionamento à distância, como se de facto conhecêssemos as pessoas, fossem nossas amigas e só a distância física nos impede de estarmos e falarmos com eles.

Pois bem, Maria João Lopo de Carvalho, consegue, com este seu primeiro romance histórico, precisamente isso, conseguindo mais, empolga-nos na forma como descreve, não só a vida fascinante de Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, como consegue também, através de pormenores e imensas curiosidades, trazer os séculos XVIII e XIX para o nosso seio, tornando-os vivos.

Ou seja, resumindo tudo o que vou adiante escrever, estamos na presença de um romance histórico fabuloso, um dos melhores que li nos últimos anos.

Leonor de Almeida Portugal, 4ª Marquesa de Alorna, 8ª Condessa de Assumar, foi uma mulher fascinante assim como fascinante foi a sua vida.

Nasce em 1750, neta de dos Marqueses de Távora que em 1758 iriam ser alvos de um processo que levou à ruína da família, tem no terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, a sua primeira recordação que irá marcar a sua vida. Não só pelo acontecimento em si, como também porque, quase no seguimento, vê os seus avós Távoras encarcerados e mortos no cadafalso. No seguimento desse célebre processo movido pelo Marquês de Pombal, um dos ódios de estimação da Marquesa, que ordena a prisão de toda a sua família. As mulheres no convento de Chelas e seu pai, na Torre de Belém e posteriormente no forte da Junqueira.

É lá que Leonor irá passar 18 anos. Imaginem o que quase duas décadas de prisão, por um crime que nem sequer existiu, fizeram na mente daquela família.

No entanto, é no cárcere que Leonor constrói a sua personalidade. Começa desde muito nova a escrever ao seu pai e, como ele gostava de poesia, Leonor entretém-se a escrever poemas que os envia ao pai. Curiosa e muito inteligente, entrega-se ao estudo das obras de Rousseau, Voltaire, Diderot, Bayle, entre outros. É o início de uma actividade que lhe irá trazer fama no futuro e o cognome de Alcipe.

Tudo isto e a restante da sua vida fascinante, Maria João Lopo de Carvalho narra brilhantemente. A liberdade e reencontro da família, a luta por limpar o nome dos Távoras, o seu casamento, o nascimento dos filhos, a estadia na corte de Viena onde conheceu Mozart, Salieri, o arquiduque da Áustria José II, entre tantos episódios e acontecimentos que fizeram de Leonor uma mulher do seu tempo mas com uma mentalidade muito além do seu tempo.

Um livro volumoso, mas que se lê num sopro, face à qualidade da escrita, simples e objectiva, e à forma estruturada como a autora coloca os acontecimentos. Sem qualquer pressa, sem pular épocas, tudo está devidamente organizado e facilmente seguimos o percurso da marquesa desde a sua infância até à sua morte em 1839.

Um livro altamente aconselhável, que me deu imenso gozo a ler e que me permitiu ter um conhecimento algo diferente desses dois séculos, sobretudo a segunda metade do século XVIII. Uma época marcada pela Revolução francesa que teve um impacto decisivo no rumo das sociedades.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Solitude, Pequenas Histórias de Grandes Viagens – Sérgio Brota


Confesso que quando iniciei este livro de Viagens, pretendia efectuar uma pequena análise etapa a etapa das viagens descrita. Assim o fiz nos primeiros capítulos, nomeadamente em “Japão – O Estranho Império” e “Transberiano – A Estação do Frio”. Depois, acabei por deixar um pouco de lado o livro e, quando dei por mim, havia-o terminado sem que tivesse voltado a escrever.

Desta forma, vou optar por efectuar uma pequena análise ao conjunto da obra.

Conforme referi nas duas análises anteriores, gostei do estilo de Sérgio Brota. É objectivo e narra, não só o que vai observando, como tem a capacidade de efectuar considerações que nos dão uma imagem pessoal do observado. Ou seja, o autor à medida que se vai deslocando, visitando locais, vai-nos dizendo o que vê, no entanto dá-nos também a sua opinião pessoal em simultâneo que nos enquadra, não só nem termos de espaço-tempo, como também em relação à História do local e do país em questão. Importante realçar a interacção com os locais e a vontade e curiosidade nos costumes e na alimentação.

Diria, no sentido de perceberem o que quero dizer, que Sérgio Brota utiliza uma linguagem cinematográfica. A descrição é efectuada dessa forma, pingada aqui e ali com as tais considerações pessoais que, a meu ver, enriquecem muito a obra porque nos dão uma imagem mais realista do local visitado. E por falar em imagens, nota para as várias fotografias, do autor, a preto e branco que nos ajudam a situar e a visualizar aquilo que o autor observa.

Nota final para a edição da chancela da Papiro Editora. Passe o paleio da editora no seu site, a qualidade desta edição, que deduzo seja daquelas que o autor suporta a maioria das despesas, e refiro-me à encadernação, é talvez o pior que vi até hoje. Folhas individuais, cortadas e coladas a quente. Quando iniciei a leitura, umas 20 páginas depois, já todas estavam soltas. Imaginem como ficou no final. Uma salganhada incrível de folhas soltas. Tive de utilizar cola de encadernador para que o livro ficasse digno de figurar na estante, no entanto e numa análise mais detalhada, este é um exemplar que dificilmente poderá ser lido sem que a mesma cena se repita. Publiquem barato, mas não abusem, pois há aí tanta bosta a ser publicada com encadernações de luxo, que obras de facto com o valor que Solitude tem, merecia uma melhor atenção.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Amigas para Sempre – Fátima Lopes


Quatro amigas encontram-se num restaurante para festejar os anos de uma delas.

À medida que o jantar vai avançando, começam as revelações pessoais de cada uma e onde são revelados segredos guardados nos seus íntimos que muito surpreenderão as restantes.

Cada uma delas acaba por ser um pouco o espelho da nossa sociedade, no aspecto em que revelam o medo da vergonha, o medo de ser julgada ou criticada, de mostrar que o que temos não é bem aquilo que mostramos, ou seja, as falsas aparências.

São mulheres com habilitações superiores, bem sucedidas profissionalmente mas que, porém, no aspecto pessoal, têm uma vida vazia, vivem das aparências, vivem para a sociedade.

As revelações são surpreendentes e, através do desabafo que vão tendo, onde exprimem as suas dificuldades, complexos e problemas, assistimos a um transformar da vida de cada uma delas, demonstrando que a verdadeira amizade pode transformar vidas.

De uma escrita muito simples e directa, o livro é curto e face ao tamanho das letras diria que, bem exprimido, faria um livro de umas 100 páginas, Fátima Lopes escreve uma história banal e sem qualquer necessidade de pesquisa, ou seja, para escrever uma história destas, bastou sentar-se e narrar um casual encontro de amigas onde mencionados os dramas de cada uma, tipo numa conversa enquanto é servido um chazinho com bolinhos.

Nada de especial, é agradável, lê-se bem e num ápice (qualquer coisa como umas 4 horas e com intervalos), e faz-nos ver que por muito que as coisas estejam, podem sempre melhorar, basta a gente querer. No entanto é por livros destes que muitos leitores recusam ler livros escritos por jornalistas num aparente aproveitamento da sua figura pública. Há autores e autores. Fátima Lopes é banal na forma como escreve. Nada nos ensina, apenas nos entretém e de notar que esta história de interesse tem pouco, mas enfim, comparar este livro mo qualquer livro de José Rodrigues dos Santos ou Miguel Sousa Tavares, é a mesma coisa em comparar Lagosta com berbigão. Nada a ver!

Um livro que pode até ser de leitura importante para quem esteja por baixo e com pouca esperança na sua vida pessoal.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas da História de Portugal – Ricardo Raimundo


Geralmente a História refere a vida e feitos individuais e colectivos que deram origem a acontecimentos que, obviamente, tiveram influência no percurso das sociedades e civilizações, sem que, de uma forma geral, se aborde a morte ou o fim desses indivíduos ou dessas civilizações. Geralmente são tratados de uma forma isolada e não como parte integrante da História, parecendo que a morte não faz parte integrante da vida e da evolução dessas sociedades e civilizações.

A obra presente sintetiza, de uma forma brilhante, a vida de alguns personagens que, de uma forma ou de outra, tiveram grande importância na História de Portugal. Mas o autor vai mais longe. Conforme o título deixa antever, depois de sintetizar a vida, narra a forma como esse personagem faleceu e em que condições, e é aqui que, quanto a mim, reside o fascínio desta obra.

É importante referir que o livro está dividido em três fases: Época Medieval (séculos VI-XV), Época Moderna (séculos XV-XIX) e Época Contemporânea (séculos XIX-XX), e nestas três época é interessante verificar a evolução das mentalidades das épocas em questão.

E em todas estas épocas surgem personagens fascinantes sendo, algumas delas para mim, totalmente desconhecidos. No entanto e independentemente da sua maior ou menor importância na História de Portugal, o que se assinala é que no tempo delas, foram tidas e consideradas e que a sua morte trouxe consternação e até mistérios à forma como pereceram.

Depois é muito curioso constatar a morte horrível e surreal de maior parte dos personagens referidos. Há de tudo, de mortos por ataques de leão, a morto e comido pelos canibais, homicídios ainda por explicar, suicídios encenados, envenenados, acreditem, de tudo e, geralmente, impressiona que depois de vidas tão ricas e algumas igualmente curtas, acabem de forma tão surreal e estranha.

Em suma, um livro extraordinário que me encantou. Para além de me dar a conhecer vários personagens que desconhecia, fascinou-me a forma sintética, no entanto clara e esclarecedora, como o autor narrou a vida e morte.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Deuses Enfurecidos – Renato Fontinha


Confesso que desconhecia este autor e em boa hora decidi empreender a leitura desta obra que se revelou prazeirosa e informativa.

Já tinha lido sobre os Descobrimentos, mas nunca havia lido sobre o modo de vida e de como os portugueses se relacionaram com os indígenas, como efectuaram a mistura de culturas, ou como conseguiram coabitar nativos com europeus e africanos.

Renato Fontinha leva a cabo um trabalho extraordinário de reconstrução desses tempos, dando-nos a imagem de como os portugueses conseguiram controlar os índios e, simultaneamente, amedrontar e “domar” os negros que eram trazidos de África como escravos.

O romance situa-nos em pleno séc. XVI, ano de 1550, numa altura em que portugueses e castelhanos tentavam tomar efectivamente posse das terras que lhes pertenciam, estabelecendo feitorias, erigindo colónias de modo a que os seus domínios se solidificassem, procurando também impor-se aos indígenas locais, não só pela força, como e principalmente, pela religião que tomava contornos de sobrenatural para os ingénuos índios que, dessa forma, eram explorados, sem contudo serem tratados como escravos.

Guiana, Congo, Brasil e a selva Amazónica, são os principais locais deste romance e onde o autor vai explorando e descrevendo a forma como os portugueses procuraram erigir colónias e a forma como se comportavam e relacionavam com os outros povos. Aqui, ressalta a enorme presença de degredados, pessoas violentas, assassinos e até pessoas perseguidas pela igreja, compunham a maioria dos portugueses que estavam a colonizar… imaginem!

O Rei de Portugal decide fundar uma colónia na foz do Amazonas e dá-lhe o nome de Nova Lisboa. Para além do governador que já se encontra nessa colónia em construção, a coroa envia alguns personagens cuja missão será o de compor os cargos de Estado e da Igreja. Dessa forma, desembarcam um tabelião honesto, mas medroso e cobarde e cuja maior ambição é enriquecer e ser amado pela sua jovem esposa que o trata dom desdém. Um padre com citações religiosas na ponta da língua, altamente corrupto e que pela absolvição dos pecados, recebe o pagamento em actos libidinosos.

Índios canibais, cuja maior honra, é partir ou partirem a cabeça à paulada e que vêm o sexo como algo muito natural. Negros que se vêm como escravos, mas que descendem da realeza, bandeirantes cujo único objectivo é traficar escravos e matar por vingança.

Um livro de leitura fácil, com capítulos curtos, mas que nos dão uma imagem daqueles conturbados tempos e da forma como Portugal se estabeleceu naquelas terras, ressaltando o enorme esforço que muitos fizeram para consolidar a presença portuguesa.

Uma obra que, para além de nos entreter, nos ensina e mostra o outro lado dos Descobrimentos. Um lado mais cruel e duro, onde se percebe por onde começou a coabitação e do porquê da facilidade da evangelização.

sábado, 19 de novembro de 2011

Bem-Vindo ao Céu… Malandro – João L. Bento


João Diogo, jovem veterinário e recém casado com Joana, que o autor não cansa de elogiar a sua beleza escultural, vive uma vida edílica com a sua esposa, parecendo que tudo é para sempre e a felicidade, a par com a sexualidade activíssima, jamais poderá terminar.

Porém, eis que João sofre um acidente de viação e… perde a vida, deixando na terra muito para fazer e muito para amar.

Este é o acontecimento central que vai marcar o ritmo e o sentido da história.

João, que está muito preso a esta vida, não acredita que morreu e que a mulher escultural que era sua, já não é, e, vai daí, não consegue libertar o espírito. No entanto, eis que surge o guardião, uma espécie de anjo que o vai ajudar a passar para o outro lado, mas será que João quer?

Gostei do livro porque o autor, assente num trama algo banal, conseguiu expor o que, quanto a mim, seria o seu principal objectivo: a vida espiritual.

Ou seja, o autor possui uma teoria e expõe-la nesta obra. Independentemente de crermos, ou não, o certo é que é curioso seguir o percurso de João desde a sua morte. Nessa teoria, o autor percorre a vida após a morte, e inclusivamente a reencarnação. Pessoalmente é algo que tenho opinião diferente, mas achei curioso e até faz algum sentido, ler sobre uma opinião diferente.

Algo que também me agradou, e confesso, até me deu gozo ler, foram os surreais diálogos entre João e Deus, por vezes utilizando linguagem vernácula. Acreditem que chega a ser profundos alguns desses diálogos e transbordam de ironia, mordacidade até.

A escrita é simples e fluida. Lê-se muito bem e entretém, pecando um pouco a forma repetitiva e abusiva como o autor refere a beleza escultural de Joana e o seus encontros lésbicos. Entendo que o autor quis dar algum erotismo à história, mas, a meu ver, peca pelo exagero com que repete as situações e as descrições dos encontros sexuais chegam a roçar o absurdo, tirando o interesse.

Em suma, um livro interessante que podia ir muito alem, pois o autor podia, face ao volume, ter explorado melhor a parte espiritual, em vez de perder tanto tempo com preliminares sexuais lésbicos que nada dão à história.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ladrão de Túmulos (O) – António Cabanas


Extraordinário!

Cerca de 1200 a.C., Ramsés III, o segundo faraó da XX dinastia egípcia e considerado o último grande faraó do Império Novo, reina um imenso e respeitado império que se vê constantemente ameaçado por invasões.

Ficando para a História como um brilhante estratega, foi sob o seu reinado que aconteceram duas importantes e violentas batalhas que trouxeram paz, no entanto, é também no seu reinado que a decadência do império se torna visível face à cada vez maior influência da classe sacerdotal de Amón que acaba por tomar o poder através de Herihor, elevado a faraó no ano 1080 a.C, pouco mais de cem anos após Ramsés III.

A história da obra situa-se no reinado de Ramsés III e o autor leva a cabo uma descrição exaustiva e fascinante da civilização egípcia e, principalmente, do povo, gente comum, pobre, temente aos imensos deuses que povoavam o panteão egípcio.

Só por essa razão o livro teria todo o meu destaque, pois desconheço se algum autor alguma vez teve a coragem de tentar recriar uma sociedade com 3200 anos de antiguidade. No entanto, hoje em dia há um excelente conhecimento sobre o modo de vida, usos e costumes de todas as classes sociais, e o autor utiliza com mestria esses conhecimentos, transportando-nos a uma época nos primórdios da civilização.

Mas Cabanas consegue ir mais longe; para além de traçar um brilhante trama que mistura policial, drama e aventura, ainda nos brinda com um infindável número de informações acerca das crenças, dos deuses e da vida militar que explicam como Ramsés III conseguiu debelar perigosas invasões.

O único senão que achei na obra, mas que não impediu que eu devorasse o livro em dois dias, é a inverosímil relação de amizade entre um dos príncipes e um dos protagonistas da história.

Numa escrita cativante, o autor delineia um fresco do grande Império egípcio quando já se sentiam alguns ventos de mudança assentes em sinais de decadência. Até isso é explorado, fazendo-nos entender do porquê da progressiva queda.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Último Segredo (O) – José Rodrigues dos Santos


Neste seu novo romance, JRS traz de volta esse personagem que já começa a ser mítico, pelo menos entre os apreciadores dos livros de JRS, o historiador e criptanalista tuga chamado Tomás Noronha.

E, permitam-me já dizer, que é um regresso em grande forma.

Conforme acontece nos seus romances thrillers/policiais que muitos continuam a teimar em comparar aos de Dan Brown sem saberem bem o que estão a dizer, mas como acontece nos livros de JRS desse género, a história inicia-se com uma série de estranhos crimes, sendo que, para além do modus operandi do assassino, o que torna os factos mais estranhos são as estranhas “pistas” ou “mensagens” que esse assassino deixa nos locais do crime.

Ora bem, até aqui tem de facto muito de browniano. De facto! No entanto é apenas no início que podemos efectuar comparações. Bem sei que depois há a perseguição ao assassino, a descodificação dessas pistas, etc, etc. No entanto, a principal razão que gosto bastante dos romances de JRS é porque o homem sabe colocar acontecimentos verídicos à medida que vai urdindo um trama todo ele, ou quase, coerente. Ou seja, os romances de JRS ensinam-me, divertem-me e entretêm-me.

Já o disse em diversas alturas que a principal objectivo de um livro é o de entreter, divertir, levar-nos a viajar, fazer companhia e, se possível, ensinarem. Que adianta ler um livro considerado um portento da literatura, se essa leitura for penosa, aborrecida e enfadonha?

Posto isto, e voltando à obra, lá é chamado o Tomás a fim de resolver todos esses crimes. A acompanhá-lo, obviamente, uma beldade, nomeadamente uma agente policial italiana.

No desenrolar das investigações, Tomás Noronha apercebe-se que os enigmas deixados nos locais do crime aludem à própria Bíblia e à construção narrativa da mesma que teve como intenção crer em alguém que, se calhar, não foi bem aquilo que se quis e quer pintar.

E lá começam eles uma demanda por vários países da Europa que finda em Israel, a Terra Prometida, o local onde Jesus nasceu, foi criado e morreu.

Numa reconstituição de factos históricos que considero notável, JRS interpreta várias fases da Bíblia e demonstra que a mesma esconde muitas falsidades, a maioria, intencionais, que foram sendo criadas ao longo dos séculos. À medida que vai construindo esse “edifício”, vai demonstrando a verdadeira imagem de Jesus e não o faz de uma forma leviana, sem provas. O que ele efectua não é nenhuma novidade e não foi ele que inventou ou pensou nisso, o que ele faz é aplicar os conhecimentos Históricos à época e interpretar o que está escrito à luz desses conhecimentos.

Posso até admitir que algumas das análises são de facto algo simplistas como li algures. Porém, qualquer pessoa com os mínimos de conhecimentos Históricos e um pouco informada, não pode ficar surpreendida com os episódios narrados e a análise efectuada aos mesmos. Hoje em dia, é mais do que óbvio, que a Bíblia ou qualquer outro livro sagrado, foi escrito não pelos apóstolos, profetas ou a quem se atribui os textos sagrados, foi sim escrito por outros com a intenção de convencer.

Em suma, um bom livro em que o principal tema é, claramente, a demonstração que Jesus foi um homem comum e que a sua deusificação foi construída muito posteriormente e assente em inverdades e interpretações erróneas, que se lê com prazer e que nos faz pensar e ver o quanto ignóbeis foram e continuam a ser tantos. No entanto isso vale o que vale, penso que não vai alterar em nada a fé de cada um.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Império de Areia – Robert Ryan


D.E. Lawrence foi uma personagem fascinante na revolta árabe durante a 1ª Grande Guerra. Fascinante e deveras misterioso, pois a sua história ainda hoje não é totalmente conhecida, existindo muitos pormenores e factos por esclarecer, assim como acontecimentos sem quaisquer explicações.

Em todo o caso esta é uma obra de ficção, mas os acontecimentos descritos sucederam mesmo e isso faz com que o presente livro seja, de facto, um romance notável.

Mas a estrutura e a escrita simples do autor ajudam. Uma escrita simples que nos faculta todas as informações necessárias para a percepção da época e do seu contexto, o autor constrói uma narrativa que nos envolve e nos situa na acção e na época.

Aqui presenciamos o nascimento da lenda e do porque de ele ter tido uma importância tão elevada na revolta.

Gostei muito deste romance e da forma como o autor conseguiu situar toda a acção, pois é precisamente isso um dos propósitos do romance histórico: situa e envolver o leitor na época descrita.

Uma obra aconselhável.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Império dos Pardais (O) – João Paulo Oliveira e Costa


Felizmente que dentro do género histórico, a literatura portuguesa tem já alguns títulos de imensa qualidade e autores que já olham para o género sem o olhar de desdém que era usual.

Desde há uns anos para cá o panorama mudou e começou-se a assistir ao surgimento de romances históricos escritos por autores portugueses, tendo como protagonistas momentos e figuras da nossa rica e vasta História.

João Paulo Oliveira e Costa, historiador, lança-se no género com este “O Império dos Pardais” e em boa hora o fez, pois deu à estampa uma obra de eleição.

O título, por si só, é uma homenagem à gesta dos Descobrimentos, sendo também uma metáfora à forma como um pequeno país conseguiu construir um império tão vasto e poderoso, enquanto outras nações bem maiores andavam entretidas a digladiarem-se entre si.

Situando-nos sobretudo no reinado de D. Manuel I, o autor, assente em diversas personagens fictícias, narra com uma clareza impressionante, numa escrita, diria cinematográfica, como foi possível acontecer tal milagre do império.

E facilmente concluímos onde esteve o segredo, sendo inegável o orgulho que sentimos por pertencer a uma nação que soube ser grande e soube-o sendo perspicaz e extremamente inteligente.

Um livro envolvente que se lê num sopro e que tem a capacidade de nos envolver de uma tal forma, que somos transportados para a Lisboa do séc. XVI, onde percorremos as ruas de Alfama, Alcântara e o Cais da Ribeira, sentimos o pulsar das suas gentes, do rei e dos seus amigos.

Em simultâneo, jogos de espionagem e lutas sangrentas contra os Mouros em terras africanas que a coroa portuguesa procurava conquistar, pois era aí que residia o segredo do Império dos Pardais.

Um livro imperdível e inesquecível!