quinta-feira, 26 de julho de 2012

Miseráveis (Os) – Victor Hugo



Les Miserábles é a principal obra de Victor Hugo e um dos Grandes Clássicos da literatura Universal. Publicado simultaneamente em 1862 em vários países (dividido em cinco volumes, todos eles temáticos), é uma obra que, desde o início estava destinada a ser um enorme êxito devido, não só ao seu conteúdo histórico e de análise, como também porque obedeceu a uma estratégica de marketing não muito usual naqueles tempos.

O argumento em si não difere muito de um livro de aventuras tão em voga na altura. A história começa em 1814. Um homem é condenado às galés por roubar um pão que serviria para dar de comer aos sobrinhos e, devido a várias tentativas de fuga, vê a sua pena sucessivamente aumentado, ficando preso por longos 19 anos. Sai com o estigma de ladrão e, até ver a “imaculada redenção” que o vai salvar dos maus caminhos, ainda faz algumas patifarias que irão ter alguma repercussão anos mais tarde.

Pelo meio surge a típica jovem inocente abandonada pelo namorado rico e estouvado que a deixa com uma criança nos braços e que, devido à miséria em que cai, se vê obrigada a deixar a filha ao cuidado de uns estranhos que a escravizam até ser salva por esse condenado, à época, transformado em homem de bem.

Depois há as fugas mirabolantes desses dois personagens, o malvado polícia que, obcessivamente, os persegue e um conjunto de personagens que oscilam entre o bem e o mal, tudo num clima, repito, aventuroso, semelhante a outros clássicos da época.

No entanto o que faz de “Os Miseráveis” uma obra imortal e, de facto, um dos melhores livros alguma vez escritos e que alguma vez li?

Primeiro porque Victor Hugo era exímio na arte de contar uma história. Ele sabia criar suspense, situações de cortar a respiração que nos levam a querer virar a página rapidamente numa leitura compulsiva e prazerosa. Depois porque a obra encerra em si uma séria de análises históricas e humanas que abrangem uma época importante e vital, não só para a França, como igualmente para o resto do mundo. Por outro lado, o autor soube analisar os vários comportamentos humanos (o conflito da crise de consciência do principal personagem é brilhante), pintando uma tela onde expressa todas as características socio-culturais da época e onde exibe todos os podres e virtudes da sua sociedade, mostrando também uma Paris há muito desaparecida, algo inclusive que ele, aqui e ali, vai referenciando.

A obra é muito extensa e Victor Hugo não poupa nos detalhes narrativos, por vezes até em excesso. Facilmente captamos as simpatias políticas de Hugo e, através das inúmeras reflexões que pululam no livro, vamos percebendo a História por detrás de importantes acontecimentos como, por exemplo, a batalha de Waterloo ou as barricadas de Paris, amplamente descritas e explicadas. Curiosa também a forma como demonstra que o acaso, ou a sorte e o azar, tiveram papel fundamental no percurso desses acontecimentos e que, se não fosse Deus, a quem ele atribui o acaso, os ingleses não tinham vencido a batalha de Waterloo e, hoje em dia, a Europa seria diferente.

Admito que não é muito encorajador proceder à leitura das suas mais de 1000 páginas. Em todo o caso, podem estar certos que irão ter acesso a uma época muito interessante que muito explica o mundo que hoje temos, assim como, vai-se emocionar com uma imensa galeria de personagens com características e perfis muito dispares entre si, análises profundas ao comportamento humano, ao bem e ao mal e a uma sociedade que, 150 anos depois de ser descrita, demonstra ser tão contemporânea como a actual.

De menos positivo, na minha opinião, é o exagero do estilo descritivo que chega a ser exasperante. Recordo-me da descrição de um convento e do modo de vida das freiras ao longo de muitas dezenas de páginas que peca pelo excesso e que me entediaram. Também considero ser um livro algo erudito que necessita de alguma preparação, por parte do leitor, do contexto histórico. Uma obra que merece ser lido quando o leitor se sinta preparado e motivado para tal e nunca por obrigação, pois assim corre o risco de não o apreciar ou de o ver e sentir apenas como um simples romance de cariz policial e de aventuras.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Resultados do Passatempo “A Brisa do Oriente”



O Blog NLivros e a Saída de Emergência agradecessem a todos os participantes do passatempo “A Brisa do Oriente”, que decorreu do dia 09 de Julho até as 23:59 do dia 23 de Julho.

Intencionalmente foram efectuadas questões com alguma dificuldade que necessitavam de uma leitura atenta do excerto, até porque uma das questões continha uma rasteira.

Em todo o quase face à qualidade do prémio, penso que a complexidade das questões se adequava.


As Vencedoras são:

Inês Rodrigues – Lisboa
Mónica Pinho Silva – Leça da Palmeira

Parabéns às vencedoras e continuação de boas leituras.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Cada Dia é um Milagre – Yasmina Khadra




Yasmina Khadra é, para mim, a grande revelação de 2012.

Embora já tivesse ouvido falar de alguns dos seus romances, sobretudo as “Andorinhas de Cabul”, confesso que pouco interesse me havia despertado os livros deste autor argelino, até que me deparei com a obra “O que o Dia Deve à Noite” e fiquei rendido à sua escrita sublime e, principalmente, à sua capacidade de enlevo que apenas os Grandes Escritores, aqueles que nasceram com o Dom da escrita, possuem.

Cada Dia é Um Milagre (no original “L'équation africaine”), é o seu mais recente romance e tem a mão do génio, o enlevo que nos embala por uma narrativa belíssima, mas igualmente crua e nua que mostra a essência do Continente africano, a violência do quotidiano que o mestre Yasmina vai pincelando numa tela que os nossos olhos vão apreciando com horror, hipnotizados pela magia que cada palavra encerra.

E o principal personagem é mesmo África.

A África de Yasmina Khadra que nos entra alma dentro ávida de ser ouvida, é como um grito lancinante de sonhos perdidos, projectos inacabados, de contrastes infames, um futuro adiado cujos responsáveis são aqueles que juraram governar em nome do povo mas que fecham os olhos e até contribuem no selvático despojo diário a que a gente simples, rude do povo está sujeita sem poder reagir, sem qualquer tipo de defesa do que aquelas ajudas humanitárias que diariamente assistimos pela televisão no conforto do nosso lar. Uma África onde a vida humana vale tanto como um grão de areia de qualquer deserto inóspito.

E é isso que Yasmina nos mostra de uma forma quase surrealista.

Tudo se inicia com um suicídio que eu considero a própria contra-metáfora do que a partir daí se vai desenrolar. Mais à frente, o autor cogita sobre o assunto e refere, como é possível, alguém que tudo tem, um bom marido, dinheiro na conta bancária, saúde, amigos e família, suicidar-se por uma questão supérflua?

Kurt Krausmann vê-se num turbilhão de emoções e desgostos. Sem saber bem o que fazer da sua vida, resolve aceitar o convite do seu amigo de longa data, o milionário e benfeitor Hans, numa viagem humanitária às Comores.

No entanto e já em águas internacionais, o veleiro é atacado por piratas e inicia-se aí um trajecto feito de humilhações e violência, mas igualmente um trajecto de descoberta de uma África completamente desconhecida, mas também um processo de autodescoberta que irá mudar para sempre a vida de Kurt.

Embora seja África o centro do livro, todo o livro acaba por ser também uma intensa reflexão sobre a natureza humana e a forma como o local e as circunstâncias moldam essa natureza, a forma impressionante como o ser humano se adapta a qualquer condição. Ou seja, sobressai que cada ser humano só é diferente entre si pelo seu passado que lhe moldou as características, pelo meio onde vive e o que observa. Por outro lado, o livro é também um hino à vida e à importância que pequenas coisas, que não damos valor, podem ter na nossa vida e o quão importante se tornam quando não as temos. Isso sente-se de uma forma muito violenta aquando do suicídio que marca o início do livro e que se vai sentindo ao longo de toda a obra.

São estes os dois principais pilares da obra que o autor nunca deixa cair.

No entanto, em contraposto, o autor também desenvolve uma mensagem de esperança, não só para África, como também para o género humano que, no fundo, sabe ser generoso, sabe perdoar e fazer o bem ao seu semelhante. Há um personagem que é a síntese desse paradigma e, mesmo sendo apresentado aos nossos olhos como o monstro que exemplifica a violência em África, acaba por se tornar, ele próprio, o exemplo da moldagem humana segundo as circunstâncias.

Um livro fascinante que me comoveu pelos seus contrastes e pela forma como me fez meditar no bem e no mal, no supérfluo e no essencial, na alegria e riqueza de estar vivo e de saúde num local aprazível que me fornece estabilidade e condições para viver com dignidade.

Mais uma obra belíssima e envolvente de um escritor que muito aprecio.


Vive cada manhã como se fosse a primeira
E deixa ao passado os remorsos e as más acções,
Vive cada noite como se fosse a última
Porque ninguém sabe de que será feito o amanhã

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Citações (III)

Vive cada manhã como se fosse a primeira
E deixa ao passado os remorsos e as más acções,
Vive cada noite como se fosse a última
Porque ninguém sabe de que será feito o amanha.

  In "Cada Dia é Um Milagre", Yasmina Khadra, Pág. 299

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Passatempo “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo”


O blog NLivros, em colaboração com a editora A Esfera dos Livros, tem para oferecer 1 (um) exemplar do livro " Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo” de João Ferreira.

Título: Histórias bizarras de um mundo absurdo
Colecção: História Divulgativa
Nr de páginas: 304 + 8 Extratextos
PVP /c Iva: 20 €
ISBN: 978-989-626-370-6

Sinopse
A história de Portugal e do mundo está cheia de episódios fantásticos, brutais, manhosos, picantes ou mesmo bizarros, capazes de atrair as atenções e de ajudar a perceber como nos tornámos – nós e os nossos sete mil milhões de vizinhos – naquilo que somos. Depois do sucesso de Histórias Rocambolescas da História de Portugal, em 8.ª edição, o jornalista João Ferreira regressa à escrita para nos contar estas histórias surpreendentes. Reis, tiranos, traidores, bandidos e espiões, gente de carne e osso que foi protagonista de alguns episódios decisivos no curso da história de Portugal e da humanidade. Ao longo destas páginas, ficamos a conhecer como foi traçado o caminho marítimo para a Índia graças à intervenção de espiões ao serviço de D. João II, como foram forjadas falsificações odiosas por si mesmas e pelas atrocidades a que deram origem, como os venenosos Protocolos dos Sábios de Sião, e outras mais inofensivas mas espectaculares, como o caso dos falsos diários de Hitler; desmontam-se mitos como a Papisa Joana ou os que foram construídos à volta de D. Afonso Henriques; contam-se mortes misteriosas, como a de Sá Carneiro; fala-se de enigmas que, ao longo dos séculos, têm fascinado a humanidade, como as pirâmides do Egipto.

Um livro surpreendente e divertido.


REGRAS DE PARTICIPAÇÃO:

1) O passatempo decorre a partir de hoje até às 23h59 do dia 08 de Agosto,

2) Só é aceite uma participação por pessoa. Participações duplicadas serão desqualificadas sem aviso.

3) O vencedor será sorteado aleatoriamente, sendo o anúncio do vencedor efectuado por e-mail e publicado no blog.

4) Por motivos logísticos só serão aceites participações de residentes em Portugal.

5) Só serão aceites participações de Seguidores do blog NLivros.


PASSATEMPO ENCERRADO

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Nero – Vincent Cronin


Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus nasceu em Dezembro de 37 d.C. e foi imperador do Império Romano durante 14 anos, tendo sucedido ao seu tio Cláudio aquando da sua morte por envenenamento.

Figura controversa, até pela forma como subiu ao poder, está associada a inúmeras acções de uma barbaridade extrema a fim de satisfazer o seu enorme ego. A ele é atribuída a ordem de assassinato da sua mãe, a famosa Agripina, ela própria implacável e a principal responsável da subida de Nero ao poder. A sua primeira esposa, Cláudia Octávia, filha do imperador Cláudio, também ela assassinada, assim como o irmão desta, Britânico, também estão associados a Nero, assim como a sua segunda esposa, Popeia Sabina, esta morta a pontapé pelo próprio Nero. O devastador incêndio que deflagrou em Roma durante três dias ou a brutal perseguição aos cristãos que serviam de entretenimento nas arenas e tantos outros eventos terríveis que deixaram para a História uma imagem de crueldade e tirania.

Em todo o caso, a questão que poderemos colocar é: foi realmente assim? Deve-se a Nero todas essas acusações, esteve de facto Nero por detrás desses horríveis actos?

Este livro, de uma forma muito cuidada e coerente, responde a todas essas questões.

Confesso que a História de Roma sempre me aborreceu. Nunca fui um grande entusiasta desse magnífico império. Já li muito sobre o império romano e, embora admita o meu fascínio pelo seu legado, as suas intrincadas teias e influências políticas sempre me aborreceram, sobretudo os obscuros jogos políticos e de interesses que o Senado mantinha, das conspirações e demais excessos.

Esta obra não escapa a essa teia.

Agripina toma desde o início a preponderância que a História lhe atribui. É ela a principal protagonista a desbastar o caminho da subida ao poder do seu jovem filho Nero.

A história é-nos narrada por um irmão de Lúcio Séneca, célebre pensador e filósofo romano que foi o tutor de Nero.

É através das suas memórias que o trama de Nero se vai desenrolando e o autor, de facto, faz um trabalho notável de pesquisa e posterior escrita romanceada da época e dos acontecimentos.

Não esquecendo que se trata de ficção, Cronin, não descura o mínimo pormenor.

Desde a infância de Nero até à sua morte, toda a vida de Nero é aqui escalpelizada, não se omitindo nenhum facto. No entanto o autor não se limita a narrar o que a História refere. Ele, à luz da mentalidade e do contexto da época, emprega uma congruência que me surpreendeu e que dá ao texto verosimilhança que nos transporta e faz crer que Nero agiu daquela forma e não, se calhar, como a História apregoa.

Exemplo disso é os acontecimentos que dão origem ao incêndio de Roma. Durante muito tempo a História defendeu ser o mesmo da responsabilidade de Nero, depois que Nero tocava harpa enquanto observava a devastação da cidade. No entanto, provavelmente, não foi bem assim. E porquê? Simplesmente porque Nero agiu antes e posteriormente de determinada forma, o que impede que ele tivesse procedido de forma insana que a História refere.

Em suma, um livro algo denso devido à imensa informação nele contida, que nos mostra um Nero algo diferente daquele que a História apregoa. De sublinhar a imensa importância e influência de alguns personagens na vida de Nero e o quanto ele foi responsável pelo futuro desse grande império que, nessa altura, já demonstrava muitos sinais de decadência.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Citações (II)

"Quando encontrei o amor, disse para comigo, é isso, passo da existência à vida, e prometi a mim mesmo zelar para que a alegria nunca me abandonasse. A minha presença na terra descobria um sentido e uma vocação, e eu uma singularidade. "


In "Cada Dia é Um Milagre", Yasmina Khadra, pág. 9

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Passatempo "A Brisa do Oriente"




O blog NLivros, em colaboração com a editora Saída de Emergência, tem para oferecer 2 exemplares da excepcional obra (2 volumes) "A Brisa do Oriente” de Paloma Sanchez-Garnica.

Título: A Brisa do Oriente (Vol 1 e Vol. 2)
Autor: Paloma Sanchez-Garnica
ISBN: 9789896374112 + 9789896374235
Págs.: 384 (Vol. 1) + 384 (Vol. 2)
Preço: 17,08€ + 17,08€
Género: Romance Histórico


Podem ler as opiniões do Volume I e Volume II.


Sinopse

Em 1204, acompanhando o seu abade, Umberto de Quéribus, um jovem monge de Cister, inicia uma viagem que o levará a Constantinopla. A partir desse momento, arrastado para perigos e situações extremas, em que perde a candura infantil, a sua vida muda completamente. Durante a viagem de regresso ao mosteiro, conhece a insensatez da guerra, a violência desmedida e a imoralidade da avareza. Toma igualmente consciência das verdadeiras consequências da obediência cega e da enorme incerteza na destrinça do que está bem e do que está mal, imerso numa luta constante entre o que lhe ensinaram e o que de facto sente. É atingido pela flecha do amor indomável e adolescente e descobre o desassossego provocado pelo sentimento de culpa, o ferrão do ressentimento e, sobretudo, o sentido mais profundo da amizade, encarnada no cavaleiro Esteban de Clary e no monge Roger, com quem aprenderá o significado da cultura, a importância do que se escreve e a influência e o poder do copista ao manejar, alterar ou mudar completamente o texto escrito. A sua aproximação inconsciente à heresia acaba por colocá-lo em perigo, ao ponto de se ver obrigado a abandonar o mosteiro depois de ver a catástrofe semeada à sua volta.


REGRAS DE PARTICIPAÇÃO:

1) O passatempo decorre a partir de hoje até às 23h59 do dia 23 de Julho.

2) Só é aceite uma participação por pessoa. Participações duplicadas serão desqualificadas sem aviso.

3) Os vencedores serão sorteado aleatoriamente pela editora, sendo o anúncio dos vencedores efectuado por e-mail e publicado no blog.

4) Por motivos logísticos só serão aceites participações de residentes em Portugal.

MUITO IMPORTANTE: As Respostas para as questões APENAS podem ser encontradas neste excerto


PASSATEMPO ENCERRADO

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Estejam Atentos!



Nos próximos dias, em parceira com a Saída de Emergência, o Blog NLivros irá abrir um passatempo que contempla a oferta dos dois volumes da excepcional obra “A Brisa do Oriente” de Paloma Sanchez-Garnica.

Já li os dois volumes e considero ser um dos melhores romances históricos que alguma vez li.

Podem ler as opiniões do Volume I e Volume II.

Aconselho também a leitura do Excerto da Obra, pois as questões vão sair daqui.

Fiquem Atentos!

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Aventuras Extraordinárias do sr. Pickwick – Charles Dickens


Publicado mensalmente em folhetins a partir de 1836, as aventuras extraordinárias do sr. Pickwick (Pickwick Papers) tornaram-se num evento extremamente popular em Inglaterra, chegando ao ponto do jornal se esgotar poucas horas depois de ter saído.

Os contos, quase todos eles autónomos entre si, narram as aventuras e desventuras de quatro membros do clube Pickwick que é criado com a intensão de investigar e observar o quotidiano da Inglaterra do séc. XIX, resultando numa série de contos onde a comédia, a par da sátira, se sente na forma como essas aventuras, e desventuras, vão sucedendo.

Esses quatro membro, o sr. Pickwick (o presidente), o sr. Tupman, o sr. Snograss e o sr. Winkle, vagueiam assim por uma Inglaterra bem diferente daquela que habitualmente vêmos representada na Londres vitoriana. Viajam pelo interior do país, observando os seus costumes e a forma como as pessoas se comportam, e é aí que está o grande interesse desta primeira obra de Charles Dickens.

Iniciada a sua escrita quando Dickens tinha 24 anos, esta obra, escrita sob o pseudónimo de Boz, supostamente narra as aventuras reais de quatro homens que pertencem ao clube Pickwick. Foi assim que a obra foi lançada e foi assim que os seus fãs a viam, pois julgava-se que eram de facto histórias reais retiradas de um suposto diário pertencente ao sr. Pickwick. Por si só foi uma genial jogada de marketing de Dickens que, dessa forma, ganhou nome e se lançou numa carreira de sucesso.

Nestes contos, podemos já constar das várias características que traçaram o estilo de Dickens. A análise ao comportamento do ser humano é aquela que mais se evidencia, pois, para mim, é a grande marca de Dickens. Porém, a sátira declarada, uma espécie de critica social que mais tarde e noutras obras seria mais evidente, também lá estão. A religião, a classe política, a magistradura, os burgueses (um dos alvos de sempre de Dickens), o sistema de justiça que apenas protegia os poderosos, enfim, são aqui satirizados de uma forma humorística, colocando a nú e evidenciando as falhas do sistema da época. É compreensível que os fãs de Pickwick fossem maioritariamente da classe média, pois viam nesses contos uma espécie de revolta aos poderes instituídos e à sua impotência para mudar esse mesmo sistema (tão actual que ainda é). Mas há mais críticas e, nas aventuras desse grupo de quatro, não podemos de rir de várias situações verdadeiramente hilariantes e absurdas, face também ao espírito da época.

No entanto não posso dizer que apreciei tanto o livro ao ponto de o considerar uma grande obra. É um clássico, sem dúvida, e é a primeira grande obra de Dickens. Pessoalmente, e já li a maior parte da sua obra, este é o menos conseguido. Sim, claro que Dickens pode expressar a sua sociedade, pode representar uma Inglaterra há muito desaparecida e tão diferente da Inglaterra de Londres, mas, e embora os primeiros capítulos os tenha lido com muito agrado, sensivelmente a partir do meio do livro foi-me algo penoso continuar, pois as situações arrastam-se, são algo repetitivas e torna-se monótono o humor e a sátira. 

Quer-me parecer que Dickens quando se apercebeu do sucesso da obra, e como era publicada periodicamente e por capítulos, quis espremer até dar, o que resultou numa obra extensa e que,  partir de determinada altura, pouco traz de novo e pouco prazer dá a ler. Mas isso são suposições, pois não tenho dados concretos para defender essa tese.

Em todo o caso é um livro que se lê muito bem e onde constamos do nascimento desse peso pesado da literatura mundial que dá pelo nome de Charles Dickens.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

6 Anos de Blogosfera


Fez ontem precisamente 6 anos que iniciei este blog. Sem grandes pretensões nem planos, a minha ideia era ter um local onde pudesse explanar publicamente as várias opiniões que já tinha escrito e editado em vários sites e até em algumas publicações. Um pouco no seguimento do que já fazia num célebre site de opiniões, onde, inclusive, tínhamos uma espécie de fórum onde se opinava sobre tudo.

Na altura a blogosfera era algo ainda muito indefinida. Blogues literários não existiam na quantidade que se verifica hoje em dia e a maioria dos bloggers eram apenas uns meros curiosos que viam os blogues como uma espécie de passatempo, longe de imaginar o quão trabalhoso dá ter e manter um blogue.

Essa foi a principal razão do rápido desaparecimento desses blogues, alguns continham meia dúzia de posts e acabavam por esmorecer até ao seu desaparecimento. Em todo o caso, fui mantendo o NLivros, editando mais de 400 posts ao longo destes 6 anos, 284 opiniões de livros, postando de forma regular e mantendo-me fiel ao meu propósito inicial: transmitir as minhas percepções das obras que vou lendo.

Hoje em dia sou dos bloggers mais “antigos”. Não me vanglorio por isso, mas é curioso verificar o quanto a blogosfera evoluiu e ganhou importância e respeito junto das editoras, e o quanto, hoje em dia, é expectável evoluir, quiçá para um nível profissional. A ver vamos.

Um bem-haja a todos os que seguem e visitam o NLivros.

sábado, 23 de junho de 2012

D. Maria II, Tudo por Um Reino – Isabel Stilwell


Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança, nasceu no Rio de Janeiro no dia 04 de Abril de 1819. Filha primogénita do Imperador D. Pedro I (D. Pedro IV de Portugal) e da Arquiduquesa D. Leopoldina da Áustria, Maria nasceu para ocupar um trono: Rainha de Portugal.

Cognominada de “A Educadora” ou “A Boa Mãe”, Maria foi uma criança meiga cuja educação fugiu ao padrões convencionais (entre a realeza) da altura. Sendo educada no Brasil, Maria cresceu em liberdade e com uma mentalidade que a tornou uma rainha diferente daquela que a tradição exigia. Em todo o caso, são as suas infantis observações da conturbada relação dos seus pais, que irão criar a sua forte personalidade. Rainha de Portugal aos 7 anos, Maria desde muito cedo  compreende do papel que lhe está destinado por Deus. Com a ajuda da sua amada mãe, que vem a falecer muito precocemente, e com aqueles que estão nomeadas para a educar, ela vai desenvolvendo uma sagacidade muito pouco comum, diria até, extraordinária, face à sua tenra idade. Embarcando para a Europa em 1828, com pouco mais de 9 anos, a rainha, que recorde-se é ainda uma criança, sabe que tem um longo caminho a percorrer até ser reconhecida como Rainha de Portugal.

O país, em 1828, envolve-se numa fratricida guerra civil entre os apoiantes de D. Miguel, tio de Maria que se havia proclamado rei absoluto de Portugal no dia 25 de Junho e os apoiantes de D. Maria, encabeçados pelo próprio imperador do Brasil. Começavam aí as Guerras Liberais entre D. Miguel e D. Pedro, que se prolongariam até 1834, ano em que Maria foi recolocada no trono e o seu tio ser exilado para a Alemanha.

Inicia-se aí o reinado de D. Maria II até ao ano de 1853, quando Maria, com apenas 34 anos, expira após longas treze horas de parto, deixando para trás 19 anos de reinado e 8 filhos, entre os quais o seu primogénito e futuro rei, D. Pedro V e D. Luis, rei após a morte do irmão e pai de D. Carlos.

Obviamente que tracei de uma forma muito simplista e directa, uma vida cheia e preenchida de uma mulher que, confesso, conhecia apenas pelo nome, mas que estava muito longe de conhecer a sua obra e, principalmente a sua personalidade.

E apaixonou-me o relato, uma vez mais, vivo, de  Isabel Stilwell.

Este é o terceiro romance histórico que leio de Stilwell. Li “Filipa de Lencastre” e “D. Amélia”, e , após a leitura deste, só posso desejar que Stilwell continue a sua saga pelas rainhas de Portugal, pois, para além de nos dar a conhecer a vida e obra dessas mulheres que muito contribuíram para a Nossa História, é um prazer ler as suas prosas, pois ela sabe escrever, envolvendo-nos, como por magia, na vida dessas personagens e daquelas que giravam em volta delas.

Obviamente que aqui as principais personagens são femininas. Em D. Maria II é possível percebermos a força mas também a desilusão que foi D. Pedro I do Brasil, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, o seu amado marido que erigiu o meu amado Palácio da Pena, e vários outros personagens masculinos que, existiram de facto, e que demonstraram e tiveram uma imensa influencia na conduta da rainha. Em todo o caso, são femininas as personagens que mais sobressaem na personalidade de D. Leopoldina: a amada mamãe, Lurdinhas, Rosa, a sua Florica, mana Xica, Leonor da Câmara, Marquesa de Aguiar e, principalmente, a poderosa rainha do império britânico, a Rainha D. Vitória, prima e amiga de D. Maria, que com ela terá uma imensa e intensa amizade, alicerçada em centenas de cartas entre ambas que são o pilar deste fabuloso romance histórico.


Ou seja, Stilwell faz um trabalho exemplar de pesquisa e investigação ao basear este romance nas cartas trocadas entre as primas. Nelas, vai traçando, não só o quotidiano das famílias britânicas e portuguesas (Maria e Vitória eram primas, assim como Fernando e Alberto primos eram), como também a situação política do país. E é através dessas missivas, que vamos seguindo o estado do país e a forma como Maria reinava.

Um romance extraordinário que nos permite conhecer uma época conturbada em toda a Europa e onde é possível perceber os ventos que já sopravam e que seriam os responsáveis pela queda de várias monarquias, entre elas a Portuguesa que se daria com o regicídio do neto de D. Maria II. Para além disso, e face aos documentos que a autora pesquisou, é possível conhecer a mentalidade da época e uma Lisboa muito diferente daquela que hoje em dia conhecemos, pese embora haja, e ainda bem, vários locais e monumentos que se mantêm, como, por exemplo, o Palácio das Necessidades, onde D. Maria II viveu, teve os seus filhos e faleceu. Local onde passo todos os dias e que tem actualmente outro significado para mim.

Uma leitura altamente aconselhável.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Hora da Liberdade (A) – Joana Pontes, Rodrigo de Sousa e Castro, Aniceto Afonso


Emitido pela SIC em 1999, para comemorar os 25 anos da queda da ditadura, “A Hora da Liberdade” é um filme-documentário que retracta os diversos acontecimentos horas antes e após o golpe militar de 25 de Abril de 1974.

Por detrás deste filme, Joana Pontes efectuou dezenas de entrevistas aos envolvidos no golpe militar de forma a puderem recriar os acontecimentos de forma realista. Essas entrevistas foram registadas em fita e a transcrição dessas entrevistas que é composto a presente obra o que, a torna, um documento importante e valioso desse dia que repôs a democracia em Portugal.

E é pela voz dos próprios protagonistas que vemos como nasceu e desenvolveu os eventos que desencadearam na revolução dos cravos. Impressionante perceber o quanto aqueles homens arriscaram. Não apenas por si, como e principalmente pelas suas famílias caso o golpe militar falha-se.

Um documento único que me comoveu, pois passando Portugal presentemente por uma crise sem precedentes, quando se percebe que o país foi “vendido” aos interesses económicos por essa gentalha que se denominam políticos, é comovente perceber que o esforço dos homens que pensaram e agiram para fazer cair a ditadura, veio apenas dar lugar a uma cambada de pulhas que não respeitam a História do país, nem o esforço e memória de quem por ele combateu, desde sempre.

Em todo o caso é um documento que deve ser lido e analisado, pois, quiçá, pode estar aí a raiz da próxima revolução tão necessária.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Carl Sagan Vida e Obra – Keay Davidson


Como qualquer biografia, a presente tem como objectivo traçar a vida pessoal e profissional de um homem que foi um dos maiores cientistas de sempre e alguém que esteve por detrás, um visionário da Era Espacial.

Escrito três anos após a sua prematura morte, esta obra é extensa e analisa muitíssimo bem a vida profissional de Sagan.

Desde o seu nascimento em 1934 até à sua morte em 1996, o autor começa por narrar factos da vida dos pais de Sagan. Desde a sua ida para os Estados Unidos, até ao seu casamento. Sagan, desde muito cedo se interessa pelo espaço e logo com 5 anos questiona a mãe do que eram aquelas luzinhas no céu. É o início de uma mente brilhante, várias vezes controversa, arrogante mas genial, que elevou a Física e a Astronomia a patamares nunca dantes próximos quando os tornou palpáveis ao público com o seu mega sucesso Cosmos.

Pelo facto de eu ser da geração desse brilhante programa, empreendi a leitura atenta desta biografia correndo o risco de me desiludir com um cientista que mais me fascinou e que continua a viver no meu imaginário.

E dificilmente isso sucederia porque o autor foi muito inteligente na forma como construiu esta obra. Teve o cuidado de abordar a vida de Carl Sagan de uma forma muito delicada. Assentando o seu texto em entrevistas com as ex-mulheres, viúva, filhos e amigos, mostrou-nos um homem viciado no trabalho, com a consciência que o seu tempo na Terra seria muito curto para o que queria fazer o que, percebe-se, veio a influenciar negativamente a sua vida pessoal. Porém e isso é um ponto negativo que dou a esta obra, a vida pessoal de Sagan foi pouco aflorada e, depois de terminado o livro, enquanto fiquei com a visão clara da sua importância no campo da exploração espacial, essa visão ficou quase na mesma no aspecto da sua vida pessoal.

Em todo o caso, gostei de perceber da sua fixação em vida no universo que se preocupava em demonstrar a sua probabilidade. Um homem de contradições e paixões que sabia apimentar discussões e que não tinha qualquer problema em exprimir o seu ponto de vista. Muito eloquente e apaixonado desde criança por ficção cientifica, foi também um grande escritor, deixando-nos obras de cariz cientifica e filosófica que pretenderam atingir a consciência dos leitores para o incomensurável universo que nos rodeia.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Arte de Álvaro Costa na Sement'eira


Há dias, deambulando por Alfama no meio da fumarada da sardinha assada, coiratos e bifanas, ouvindo uma explosão musical de estilo brejeira, popular e fado, desviando-me de turistas curiosos e jovens com a sua litrosa na mão, eis que me deparo com uma lojinha que, confesso, desconhecia completamente e apenas um acaso ma fez descobrir.

Situada em pleno bairro de Alfama, a “Sement’eira” é um espaço cultural que passa completamente despercebido, sobretudo num ambiente de festa popular onde o nosso interesse está centrado num polo quase oposto ao da cultura. Em todo o caso, repito, o acaso me fez lá entrar e dei de caras com uma expressão artística que me fascinou e que quero aqui dar conhecimento, ou alertar para que seja visitada, ainda por mais quando o artista em questão é português.

A “Sement’eira” é um espaço aberto a todos os que fazem a sua arte sem pressas, com o seu tempo e sabedoria particular de forma autêntica. Ali, é possível adquirir doces, licores, vinhos, queijos, conservas e pinturas, esculturas, livros, etc. Um espaço onde há exposições de variadíssimas expressões artísticas, onde se pode beber um café e provar um dos licores, enfim, um espaço que me apaixonou.


E foi na “Sement’eira” que vi a exposição de Álvaro Costa. Depois de a apreciar, mais surpreendido fiquei ao constatar que o próprio artista se encontrava presente e dei início a uma conversa que levou o talentoso artífice a contar-me o início da sua arte, como a descobriu, como a efectua, onde já expôs e o tema e o sentido de cada um dos quadros expostos. Simplesmente fabuloso, Álvaro Costa descobriu a sua própria arte, uma nova forma de arte.

Fica aqui o endereço do site de Álvaro Costa: http://www.alcosta.pt.vu/ e aqui podem ler uma breve entrevista: alcosta.web44.net/entrevistas/Criador%20Arte.pdf