terça-feira, 29 de março de 2016

Meu ano mágico (O) – Nina Sankovitch



No final de cada ano, quando é costume postarmos os melhores e piores leituras desse ano, há bloggers que afirmam ler uma média de 1 livro por dia, ou seja, há quem afirme que leu 365 livros ou até mais. Honestamente sempre achei isso muito difícil, para não dizer impossível, a menos que a pessoa faça da leitura profissão e dedique a ela, 7, 8 ou 9 horas por dia, aí sim, é possível ler um livro por dia com umas 350 páginas ou mais. Em todo o caso, pessoalmente, faço da leitura momentos de prazer e de vazão do meu dia-a-dia, podendo ler mais ou menos por dia ou, simplesmente, nem sequer ler, pois é algo que adoro mas não o faço enquanto obrigação/dever, nem para mim e muito menos para ninguém. 

Há uns anos, muito anos antes do surgimento dos blogues (sensivelmente em 1995), aprendi que gostava de falar com outras pessoas do que havia lido e do que elas liam e, mesmo nos primórdios da internet, achei um site onde uma comunidade colocava opiniões sobre diversos produtos, inclusivamente livros, comunidade essa que, como tudo na vida, acabou por definhar e morrer tempos depois. Depois surgiram os blogues, mas e a meu ver não é a mesma coisa, pois torna-se algo “muito” nosso e com pouca interacção com outros leitores, mas enfim, acaba também por ser uma catarse de cada um, um pequeno mundo onde se conhecem algumas pessoas e suas preferências literárias.

E é como um escape a forma como olho para os blogues. Uma forma de narrar para o universo aquilo que pensamos sobre determinadas situações. Mesmo que ninguém nos leia, que importa isso? O que importa é o acto de escape que o blogue permite.

Nina Sankovitch tem um choque traumático na sua vida e como qualquer mortal, tenta combater esse choque alienando-se um pouco da realidade, entregando-se tão febrilmente à família, casa, trabalho, que não tem tempo, e é isso que ela pretende, de combater a dor do falecimento da sua irmã mais velha. No entanto três anos depois sente que a dor é mais profunda, que em nada amainou e chega à conclusão que necessita de um escape, algo que a faça reencontrar com a vida.

E, simplesmente, decide ler um livro por dia e escrever sobre ele (sim, há um blogue da própria com todas as recensões). Para quê?

Diz ela: “Quando decidi ler um livro por dia e escrever sobre ele, parara finalmente de fugir. Sentei-me, imóvel e comecei. Todos os dias lia e devorava e reflectia sobre todos os livros…”, “… mergulhava no mundo que os autores tinham criado e testemunhava novas formas de enfrentar as reviravoltas da vida…”, “… através da minha leitura, atingi o ponto de compreender isso.

Na minha opinião, ela diz tudo o que este livro simboliza.

Ela começa por explicar como é o seu projecto. Ou seja, continua a ter tempo para a família, amigos, casa, mas decide dar um ano a ela própria e faz da leitura a sua profissão, dedicando largas horas por dia à mesma. Desta forma consegue ler um livro por dia onde a premissa é apenas não ler livros que já tivesse lido e não repetir autores. Dessa forma vai avançando, livro a livro, enquanto nos dá várias reflexões do mesmo. No entanto não se julgue que se trata de um livro que fala de outros livros. Nada disso, é a catarse de Nina que nos é dado a ler e vamos observando como ela vai vencendo, através da leitura, o trauma e a dor da perda de alguém muito querido. Por outro lado ela aborda em várias ocasiões o passado traumático da sua família e a forma como o mesmo serviu de alicerce para a pessoa que é e para a educação que dá aos filhos.

Em suma, um livro que gostei muito de ler e que me fez reflectir sobre muitos factores da nossa vida, chegando a conclusão que de facto pode ser na leitura que exista explicação para muitas das questões que colocamos a nós próprios e que a mesma pode ser um veiculo de prazer, sabedoria, paz e amizade.

Nota final para algo que sinceramente acho que podia ter tido um trabalho melhor por parte do tradutor. No fim do livro Nina coloca o nome e autor de todos os livros que leu, no entanto tirando três ou quatro livros, todos eles vêm no seu nome original. Nada que transcenda a nossa inteligência, pois pelo autor depressa descobrimos que livro se trata, mas penso que teria sido um trabalho de excelência por parte do tradutor se essa lista estivesse traduzida para português e já nem refiro na importância de colocaram a editora, mas isso até compreendo a publicidade.



sábado, 26 de março de 2016

Wayward Pines – Blake Crouch


Confesso que o género fantástico não é de todo o género que mais me atrai, sendo que já tenho lido alguns livros dentro deste género sem que, até à data, possa afirmar que tenha gostado especialmente de algum. Mesmo o Senhor dos Anéis, que li vários anos antes do boom criado pelo filme de Peter Jackson ou até mesmo a saga Harry Potter que li excepto o último livro, são aqueles que posso afirmar que gostei mas que não me fizeram olhar para este género como um género que me cativasse no futuro, pese embora o respeite e em nada o critique, é apenas gosto pessoal.


Há dias atrás, numa deambulação pela biblioteca da cidade onde vivo, dou de caras com um livro que, não sei dizer porque, me despertou curiosidade. Tratava-se do terceiro volume de uma trilogia, do género fantástica, que colocava o protagonista numa estranha cidade sem puder sair da mesma e onde os seus habitantes seriam vigiados por alguém. Confesso que gostei da premissa e logo procurei o primeiro volume, acabando, dado perceber que todos eles não eram muito volumosos, por requisitar toda a trilogia de uma assentada.


E em boa a hora o fiz porque, confesso, gostei e as horas em que passei em Wayward Pines foram de puro prazer literário.


A história inicia-se com o principal protagonista, Ethan Burke, a acordar num hospital sem que tivesse a menor ideia de como tinha ido ali parar. Aos poucos vai-se lembrando que é um agente dos serviços secretos e que teria ido a uma pequena cidade na região de Idaho investigar o desaparecimento de dois colegas. Até aí nada de especial, mas depressa Ethan começa a perceber que a cidade onde se encontra, Wayward Pines, não é aquilo que aparenta e que esconde um terrível segredo que, aparentemente, é do conhecimento dos seus assustados habitantes.


Não vou referir mais nada da história, até porque quem não quiser ler a trilogia, pode ver a série em 10 episódios. Eu já os vi e fiquei um pouco desiludido, porque não só não faz juz à qualidade do argumento criado por Blake Crouch como troca vários pormenores que, a meu ver fazem toda a diferença, mas enfim.


Em todo o caso e voltando a esta trilogia que, note-se, tem como inspiração uma famosa série dos anos 90, gostei do desenrolar da história até ao epílogo, sendo que há algo que sobressai e é terrivelmente assustador, que é o fim da História da raça Humana no planeta…


Pode parecer algo confuso mas acreditem que se lê um ápice pois a acção nunca para e somos  constantemente “bombardeados” por novas revelações que nos fazem virar página a página até obtermos o fim da história que surpreende mas que, a meu ver, era um pouco esperada dada a condução que o autor efectua em toda a série. Em todo o caso parece que não vai haver continuação, mas a forma como termina deixa todo um caminho para que Blake Crouch o faça ou então, daqui a uns bons, alguém o faça por ele.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Quando Nietzsche Chorou – Irvin D. Yalom



Conforme venho defendendo há muito tempo, há livros que devem ser lidos na altura certa, livros que na nossa infância/juventude nos marcam mas que não o fazem quando adultos e outros, de maior ou menor profundidade em diversas alturas da nossa vida ou maturidade. Ganhei consciência disso com algumas obras que tentei ler quando era adolescente e que não consegui, anos depois adorei esses livros e outros há que adorei enquanto adolescente e que agora, pelo menos o estilo dessas obras, não consigo passar da página 100.

Este “Quando Nietzsche Chorou” é um desses livros.

É um livro que deve ser lido por alguém que, primeiro tenha alguma “bagagem” literária e depois por alguém que ou tenha ou, pelo menos, ande lá perto, dos 40 anos, pois a sua mensagem vai-o atingir como um relâmpago e responder a muitas das questões que se fazem nessa altura. Pelo menos assim o penso porque este livro foi de encontro às minhas aflições/questões que há algum tempo ando a colocar, sobretudo uma questão que sobressai de toda a obra: “fomos nós que escolhemos a vida que temos?” ou, “Foi a nossa vida que nos escolheu?”

Confuso?

Durante toda a leitura deparamo-nos com várias inquietações de dois cérebros que, em amena cavaqueira, debatem várias questões filosóficas que têm o pendão de nos atingir em cheio e fazer pensar no quanto a nossa vida não é aquilo, afinal, que um dia sonhámos. Há anos alguém chamava a “crise dos quarenta”, mas é uma forma fácil de colocar o problema que, tenho a certeza, todos sentem quando atingem essa idade, pelo menos aqueles que olham para o seu passado e futuro em perspectiva. 

É um dos melhores livros que li até hoje e um dos que mais me fez pensar e parar de ler, ou seja, várias vezes (sessões) em que não consegui continuar porque sentia que tinha de meditar sobre as palavras lidas e as mensagem que, em supetão, me chegavam.

Não vou mencionar qualquer tipo de sinopse porque isso facilmente qualquer um pode pesquisar, mas garanto que este é um livro genial que coloca um dos grandes filósofos de sempre Friedrich Nietzsche em conversas com um médico também ele conhecido e importante numa área da medicina,  Josef Breuer, em simultâneo que um outro, não menos importante, faz algumas aparições: Sigmund Freud.

Um livro genial que me complementou e me levou a perceber algumas das minhas inquietações.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Segredos Obscuros – Hjorth & Rosenfeldt



Não sou um grande apreciador de policiais e a razão é simples, depois de ter lido inúmeros livros do género, apercebi-me que a receita é sempre a mesma só mudando a forma como os autores usam a imaginação para baralhar os leitores com pequenas pistas falsas e verdadeiras que, no final, vão dar sempre na mesma conclusão: o criminoso é… e nós: ohhhhh, que surpresa, nunca pensei (isso nos bons policiais) e , eh, que novidade (nos maus policiais). Ou seja, há sempre um crime, muito ou pouco violento, investigações levadas a cabo por alguém cheio de idiossincrasias, ou não, personagens e pistas que nos são servidas para baralhar e no final descobre-se o criminoso ou criminosa de uma forma, na maioria das vezes, surrealista. É uma escola onde Conan Doyle foi o grande mestre seguido de Agatha Christie. O resto, e perdoem-me aqueles que adoram este género, é quase sempre mais do mesmo, sendo a novidade quando surge um livro que difere.

Em todo o caso já tenho lido policiais muito bons que me surpreenderam e que fugiram um pouco a esta “escola”, mas não é de todo o caso deste “Segredos Obscuros”.

Volta a ter um crime, desta vez o crime macabro de um jovem de 16 anos que aparece morto sem parte do coração. Uma equipa de investigadores que andam num virote para descobrir pistas e o principal personagem cheio de manias, desta vez nem sequer é detective, mas sim psicólogo, Sebastian Bergman e a novidade, para mim, é que o livro vale inteiramente por ele, porque de resto é mais do mesmo.

A acção situa-se Vasteras, uma pequena cidade sueca. Um jovem de 16 anos desaparece de forma misteriosa. Dois dias depois a mãe faz parte desse desaparecimento e é organizado uma busca sendo o jovem encontrado, ou o corpo, num bosque. A cena do crime é macabra e tudo aponta para que o jovem tenha sido morto à facada, no entanto nem tudo o que parece é. Rapidamente se organiza uma equipa para investigar o caso, sendo ajudada pelo psicólogo Sebastian Bergman que só se encontra naquela cidade por acaso, no entanto dá-se conta que há um passado pouco amigável entre este e alguns membros da investigação.

É um policial bonzinho cuja linha condutora me fez recordar outros que li e cujo culpado do crime não me surpreendeu, pois é semelhante a tantos outros e desde o início parti do principio que o que parece, de certeza que não é, e acertei na mouche.

Respeito quem goste de policiais, mas decerto há outros livros, dentro do género, bem mais interessantes e excitantes que este “Segredos Obscuros”.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Rapariga Dinamarquesa (A) – FILME



Baseado no livro de David Ebershoff, A Rapariga Dinamarquesa narra a história do pintor Einar Wegener que, após começar a posar como modelo feminino para a sua mulher, a também pintora Gerda Wegener, se apercebe que tem “dentro dele” uma mulher. Ou seja, o que começa por uma brincadeira com a criação de uma personagem chamada Lili Elbe, depressa descamba numa profunda batalha interior e numa certeza que ele que nasceu homem é, afinal, mulher.

A história na sua essência é verídica e o livro foi feito a partir dos diários deixados por Lili Elbe (ou Einar) e mais impressionante é verificar que tal acontecimento sucedeu nos anos 20 do século passado, sendo que Einar foi considerado um desviado pela maioria dos médicos que o viram, inclusivamente um doente mental.

Como filme tem inúmeros erros históricos e factuais que provavelmente o devem impedir de arrecadar muitos prémios, no entanto e na minha opinião, o trabalho de Eddie Redmayne (Einar) é verdadeiramente brutal e não me vou admirar nada que leve para casa, pelo segundo ano consecutivo, o Óscar de Melhor Actor. O mesmo sucede com Alicia Vikander (Gerda). Pese embora o filme gire à volta de Lili, o certo é que Alicia brilha e será injusto que não seja, pelo menos, nomeada para o Óscar de Melhor Actriz.

De resto gostei do filme, mas depois de uma análise á vida de Einar e Gerda, apercebi-me que o filme omite demasiados factos, deixando uma ideia algo errada de quem foram estas duas pessoas e da obra que deixaram. Inclusivamente os sinais deixados nos quadros de Gerda são imensos e nem isso foi explorado de forma satisfatória. Ou seja, o filme podia ser levado por um outro caminho mais interessante que o elevassem para um nível superior, mas centrou-se demasiado na mudança de sexo e na relação de “falsos amigos” entre os dois quando foi muito mais do que isso.

Em todo o caso, penso que a nomeação para o Óscar de Melhor Actor está garantida, assim como Melhor Actriz, Filme, Argumento Adaptado e Guarda-Roupa. No entanto e a meu ver Eddie Redmayne tem altas hipóteses de vencer pelo segundo ano consecutivo o principal Óscar de Actor.