domingo, 3 de junho de 2018

História de um Canalha – Júlia Navarro


Júlia Navarro faz parte da minha galeria de autores preferidos, daqueles autores cuja edição anual (quando sucede) é sempre motivo de regozijo e que procuro ler logo assim que o novo livro sai. Não são muitos os escritores por quem tenho este apreço e simplesmente tenho-o porque sei, antemão, que o “novo” livro me vai agradar e promover horas de puro deleite literário.

Este “História de um Canalha” estava para ser lido há cerca de um ano, não o tendo feito porque, neste último ano, estive dedicado profissionalmente a um projecto e o tempo para me dedicar à literatura teria sido curto e porque, desconfiei que se o começasse a ler, não descansaria enquanto não o terminasse, e sempre são mais de 800 páginas.

E assim foi, li-o em 4 dias.

Já li centenas de livros, para não dizer milhares, e poucos foram aqueles cujas personagens me marcaram. Sejam personagens boas ou más, mas, geralmente, o que me encanta é o trama ou a qualidade literária do escritor, porém, tem havido obviamente livros cujos personagens se sobrepõem há história e a “História de Um Canalha” é um exemplo disso.

A personagem central, Thomas Spencer é o mais puro pulha que podem imaginar. Alias, não imaginam, estou certo!

Sinceramente Thomas Spencer vai directamente para uma galeria de personagens cuja ruindade fazem todo o trama do livro, comparo-o a Patrick Bateman de “Psicopata Americano”, ou a Heathcliff dos “Monte dos Vendavais” ou até ao Juiz Holden do “Meridianode Sangue”, verdadeiros anti-heróis que nos conseguem ser repugnantes e odiosos pelas suas (más) acções.

O livro, dividido em quatro partes: Infância – Juventude – Maturidade – Declínio, narra todo o percurso de vida de Thomas Spencer na primeira pessoa, ou seja, é ele mesmo que nos vai narrando toda a sua vida e é do mais atroz que se possa imaginar.

No entanto, não se julgue que Thomas é um assassino e que anda por aí a matar pessoas, nada disso, ele é simplesmente um puro canalha, sem qualquer tipo de sentimentos de afectos, sem amor por ninguém, sem consideração e que tira prazer em fazer sofrer os outros, levando, em alguns casos, à morte desses pela angústia provocada por ele próprio. Ele mente, manipula, atraiçoa, engana, difama, destrói sonhos e reputações, vigariza, sei lá, tudo o que de mais malvado um ser humano pode ser. E o mais curioso é que à medida que ele vai narrando as suas “aventuras”, tem laivos de consciência e coloca a hipótese de e se tivesse feito as coisas de uma forma diferente, imaginando mesmo o cenário, no entanto e logo de seguida, afirma: “mas não foi assim e não me arrependo”.

Segundo Júlia Navarro, que demorou três anos a escrever este livro, a história e o personagem tem a intenção de abordar o que actualmente se passa com a nossa sociedade, um retrato da actual sociedade. Ela afirma que o livro tem três bases. A Primeira é uma viagem ao mais recôndito do ser humano, a Segunda é uma reflexão sobre a sociedade da comunicação e a terceira uma reflexão sobre o poder.

E de facto enquanto é claro que a segunda e a terceira reflexão são escalpelizadas na forma de actuar de Thomas Spencer, é a primeira base que mais nos incomoda, pois Navarro põe o dedo na ferida por diversas vezes e cria um personagem que tem tanta maldade que acabamos nós mesmo por perceber que todos temos, nem que seja um pouco, alguma coisa de Thomas.

Ou seja, o perfil monstruoso que ela traça de Thomas Spencer vai acabar, aqui e ali, por entroncar em algo que nós próprios somos, pois ninguém, absolutamente ninguém é santo, e todos nós constatamos que aquilo com nos deparamos em alguma altura é um pouco o nosso espelho e isso, meus caros e caras, torna-se incomodativo, pois e acredito mesmo que possa até ser de uma forma inconsciente, nós próprios já tivemos acções que vemos ali descritas e que são abomináveis.

Não me vou alongar muito mais, no entanto e não considerando o melhor livro de Navarro, este é uma obra incomodativa, que de facto nos obriga a uma reflexão das nossas acções, percebendo também, e isso dá algum medo, que deve existir por aí muitos Thomas Spencer cuja misericórdia e consideração são nulas.

Um livro de leitura obrigatória!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Hipnotista (O) – Lars Kepler


Pessoalmente não sou um grande fã de policiais, pese embora já tenha lido, aqui e ali, várias dezenas de romances policiais, sendo que e até hoje nada consegue bater o charme e a classe de Conan Doyle que, com o seu Sharlock Holmes, iniciou uma era na literatura que “virou” género e que teve em Agatha Christie uma digna sucessora.

Hoje em dia esse género de policiais estão completamente fora de moda e o que se assiste, sempre anunciados como “inovadores”, “revelação”, “exepcional”, são thrilers policiais que, grosso modo, giram todos à volta do mesmo argumento, um ou mais assassinatos brutais e um conjunto de detectives num jogo de rato e do gato com o psicopata ou psicopatas que estão por detrás desse(s) crime(s).

Este Hipnotista marca a estreia de uma dupla de escritores suecos, também eles actualmente na moda dentro do género, que criaram esse pseudónimo para se darem a conhecer ao publico.

Já com vários livros publicados, foi com interesse e, confesso, com expectativa que iniciei a leitura deste thriiler, mesmo, repito, não sendo um fã do género, no entanto, gosto de ler policiais de vez em quando e, pareceu-me, após ler a sinopse, estar diante de algo que valia a pena.

Puro engano!

Respeito quem traçou inúmeros elogios ao livro, mas, enfim, este é daqueles que desde o inicio teve uma marca de inverosimilhança que nunca conseguiu sequer atenuar.

A história começa com a descoberta de uma família brutalmente assassinada, cuja única testemunha e sobrevivente é um adolescente de 15 anos que se encontra no hospital entre a vida e a morte. O cenário do crime é atroz. As vítimas, para além de terem sido assassinadas, tiveram os seus corpos profanados após a morte, sofrendo inclusivamente terríveis mutilações que deixam os polícias muito abalados.

Até aqui tudo bem, mas eis que o principal suspeito é nada mais, na menos, que esse adolescente que, descobre os investigadores com a ajuda do hipnotista, cometeu os crimes e se mutilou a ele próprio… e mais não digo!

Agora, achei toda a história uma completa parvoíce porquê?

Não que os crimes possam ter sido efectuados por um adolescente de 15 anos, mas por tudo o que serve de justificação e das acções que começamos a ver a partir dos crimes.

No hospital, e mesmo tendo os órgãos em falência, alguns deles quase que não trabalham, o miúdo consegue recuperar e, pasme-se, a custo, fugir do hospital, matando uma enfermeira e passando por tudo e todos.

Depois, e repito que só tem 15 anos, consegue agir como uma pessoa experimentada e extremamente inteligente,  fintando detectives com anos de experiência, e mais um porradão de factos que não vou aqui narrar porque, repito, respeito quem possa gostar deste género de trama.

Para quem foi anunciado como a “grande revelação do policial nórdico”, na minha opinião, deixa muito a desejar, para além da própria construção narrativa ser fraca, aliás, há factos que nem se entende muito bem porque é que ali estão, factos completamente desfasados da narrativa, um pouco para encher chouriços e que em nada são uma mais valia, pelo contrário.

Em todo o caso gostei da revelação final e de facto teve o condão de me surpreender, no entanto, nessa altura já havia perdido o interesse pela obra e este não é daqueles livros e autores que aconselhe vivamente.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Vento dos Khazares (O) – Marek Halter


Que livro fantástico!

Há livros que se tornam viciantes à medida que avançamos na sua leitura e este é um dos casos. Não apenas pela sua belíssima história, um misto de romance histórico e thriller, como também pela arte literária do autor que tem o condão de transformar em “poesia” qualquer frase que escreve.

Este é um dos muitos livros que tinha na “pilha” de livros para ler há muito tempo. Sabia que era unânime a sua Qualidade, pois basta navegar um pouco pela net para perceber que todos os que o leram, o adoraram. No entanto, confesso, nunca me espicaçou a curiosidade porque me parecia um livro que assentaria sobretudo na questão judaica e, embora nada tenha contra, antes pelo contrário, é algo que nunca me despertou a curiosidade por aí além, sobretudo neste caso quando versava acerca de uma civilização que estranhamente teria tido como religião a judaica.

Bom, mas vamos por partes, pese embora não pretenda escrever muito.

Quem foram os Khazares?

Sabe-se hoje em dia que foram um povo de origem turcomana que dominou a região centro-asiática entre os séculos VII e X. Desconhece-se com exactidão do porquê de se terem convertido ao judaísmo, no entanto, e isso sucedeu, converteram-se mesmo ao judaísmo sensivelmente no século VIII e porque é que escolheram essa religião?

É precisamente a questão Marek Halter lança e que, na minha opinião, explica de uma forma lógica, num romance, a todos os níveis notável.

Saltando entre o ano 950 e 2000, o autor é exímio em construir todo um trama extremamente convincente que nos apaixona desde o seu início.

Na época actual, ano 2000, temos o escritor Marc Sofer, também ele judeu, que se vê envolvido nesse enigma e que é convidado a investigar a questão. Nessa investigação, que o leva a Baku, capital do Azerbeijão, Sofer vê-se envolvido numa intriga que envolve passado e presente e é quando se depara com um problema que faz ressalvar a maleficência e a ganância humana em todo o seu esplendor, ganância essa não olha a meios para atingir os seus fins.

Depois o autor vai intervalando com o ano 950 e aí conhecemos o Khagan José, rei dos Khazares, a bela Atex, sua irmã e um punhado de personagens que nos ficarão na memória. Percebemos então porque escolheram a religião judaica e todas as questões geo-políticas da região que levaram inclusivamente ao desaparecimento dessa civilização e à tentativa, por parte dos russos, em fazer desaparecer todos os vestígios da civilização Khazar.

Em suma, um livro excepcional de um autor cuja escrita me encantou.

Actualmente tenho mais dois livros dele nessa tal “pilha” e que estou mortinho para lhe deitar a mão, pois é daqueles escritores que sabem aliar a genial escrita ao de contador de histórias, algo que não é assim tão comum.

Altamente aconselhável!


sábado, 14 de abril de 2018

Submissão – Michel Houellebecq


Há já algum tempo que tinha curiosidade em ler este livro e, sobretudo, em ler algum livro de Michel Houellebecq, um autor que é uma espécie de “enfant terrible” da literatura francesa, mas que tem visto muitas das suas obras premiadas com diversos prémios.

Ao ler este “Submissão”, entendi esse epíteto de “enfant terrible”, pois é notório a intenção de Houellebecq em provocar, uma espécie de ser politicamente incorrecto, estando-se completamente nas tintas para a opinião pública. O que ele pretende é abanar convicções, apontando claramente o dedo à sua sociedade.

Logo à partida a sua linguagem é crua, sem grandes floreados linguísticos ou literários, Houellebecq chega a usar vocábulos vernáculos, sobretudo de cariz sexual. Nesse ponto, é clara a intenção do autor em chocar, no entanto o que ele faz é simplesmente desenhar retractos do dia-a-dia de qualquer ser humano que não envereda por colocar máscaras sociais, logo e utilizando essa dialéctica, é normal que muitos leitores se identifiquem, nem que seja em segredo, com as suas personagens e com os retractos que ele vai pintando.

Dessa forma o livro torna-se, acima de tudo, divertido, face à constante provocação do autor que, por diversas vezes, parece que nos está a dizer: “sim, é de si que estou a falar”.

Neste título concreto, Houellebecq idealiza todo um contexto provável em que o partido político Fraternidade Muçulmana conquista o poder em França. O ano é de 2022 e, de repente, a sociedade francesa, por sua inteira culpa, vê o islão açambarcar o seu modo de vida e alterar tudo, tornando a França num país islâmico onde, obviamente, a lei islâmica terá de ser respeitada.

Agora imaginem o que é um país católico, no meio da Europa, tornar-se, de repente islâmico?

Só lendo!

 oda esta perspectiva é-nos narrada por um professor universitário, já quarentão, que vai saltando de casos amorosos em casos amorosos, quase todos com ex-alunas e prostitutas, e que nos vai narrando toda essa transformação.

Achei o livro muito interessante, sobretudo devido ao facto de existir diversos diálogos onde é efectuada reflexões sobre os valores da liberdade e da democracia e de como a religião, desde sempre, tem o condão de influenciar essa liberdade, sufocando-a e, na maioria dos casos, matando-a.

Livro que antecipa um cenário muito provável, se calhar mais provável do que a maioria das pessoas julga, julgo que Houellebecq poderia e deveria ter feito muito melhor e irei tentar explicar porquê.

A ideia é boa, bem como e como já referi, as várias explanações filosóficas e políticas sobre a importância da liberdade e da democracia, no entanto desde as primeiras páginas a sua principal personagem nunca me conseguiu cativar, quiçá mesmo, teve o condão de me criar até repulsa. Sendo um professor universitário, sempre esperei que a sua cultura fosse mais elevada do que a que vai demonstrando. Nesses diálogos, a atitude de François é quase sempre apática, parecendo sempre estar mais preocupado e virado para a sua satisfação sexual do que propriamente com o que o rodeia. A viagem que ele faz, sinceramente, não a entendi bem nem os cenários que ele vai observando. Francamente fiquei sem perceber do porquê dessa viagem e o posterior regresso a Paris. Depois são as constantes referências literárias, que admito ser interessantes, mas que não levam a lado nenhum, ou seja, fora de contexto, sem grande sentido, bem como com pouco sentido as insistentes alusões a Huysmans.

Sendo efectivamente um bom livro, um daqueles livros desafiantes que decerto não irá ser do agrado de leitores soft, sempre me pareceu que Houellebecq poderia, e tinha perfeitamente campo para isso, desenvolver mais, edificando provavelmente um romance épico mas que, como ficou, peca muito por essas falhas que apontei e que se torna um pouco decepcionante.

Ou seja, gostei mas não adorei.