sábado, 24 de fevereiro de 2018

Espia (A) – Paulo Coelho



Escrever romances históricos não é, de todo, um exercício nada fácil e para se conseguir um bom romance histórico, um romance contendo factos verídicos e criveis, há que efectuar uma vasta análise e pesquisa não apenas da personagem que se pretende abordar como igualmente da época. Dessa forma, penso, ser o romance histórico um género que requer uma abordagem minuciosa tal a dificuldade desse trabalho de investigação e uma seriedade intelectual por parte do autor e isso, considero, numa época onde os livros se vendem por atacado e onde os autores têm prazos contatuais estabelecidos com as suas editoras, é algo que não é para todos, excepto aqueles que têm uma enorme facilidade em estabelecer linhas de pesquisa e, tenho a certeza, têm uma máquina tão bem montada e oleada que pagam a dezenas de pessoas que efectuem essa pesquisa por ele.

Dito isto, a minha opinião sobre este romance é de alguma desilusão face à fragilidade deste romance.

Não me vou alongar na história de Mata Hari, pois para isso poderá sempre pesquisar na internet sobre a sua vida, mas o meu interesse por este livro despertou no dia em que vi uma entrevista com Paulo Coelho sobre o lançamento deste livro. Achei interessante a forma como o autor falou da personagem e pensei que de facto era uma personagem riquíssima e que “facilmente” poderia originar um excelente e vasto romance histórico, visto a vida que teve e a forma como morreu.

Pura desilusão!

O autor assenta o conteúdo do romance, basicamente, em carta supostamente de Mata Hari, para assim traçar, de uma forma muito ténue, um pouco o percurso da sua vida, abordando-a sempre superficialmente. A preocupação do autor é, a meu ver, apenas uma, tentar ilibar, de uma vez por todas, a acusação de espiã a Mata Hari, desenhando um perfil de uma mulher vítima das circunstâncias e que se deixou levar pelo dinheiro, para assim se enlear num imbróglio tal que acabou por ditar a sua sentença.

Pese embora até compreenda que o autor tivesse pretendido cingir-se a essa sua intenção, julgo que poderia, e tinha muito campo para isso, ir mais longe, explorando vários factores, atitudes e relacionamentos que Mata Hari teve, ofuscando pormenores de somenos importância mas que, somados, se foram revelando vitais para a vida desta mulher que, cem anos depois, continua a ser um mistério.

As minhas questões iniciais ficaram em aberto: Quem de facto foi Mata Hari e foi efectivamente espiã?

Paulo Coelho defende que não. Ela jamais pretendeu entrar nesse mundo, ou pelo menos, jamais o fez de forma consciente, no entanto factos são factos, e o que se sabe, é que Mata Hari foi uma bela dançarina que exercia a prostituição a troco de dinheiro e que não escondia a sua vaidade por se “dar” com homens poderosos. Isso de facto demonstra uma enorme ingenuidade por parte dela, parecendo que estaria mais preocupado na ascensão social e material do que propriamente noutras actividades, nomeadamente, de espiã. Porém, era sabido que ela “dormiu” com inúmeros oficiais dos dois lados na 1ª Grande Guerra e há de facto provas que foi abordada pelos alemães e que com eles teve várias reuniões. Paulo Coelho neste livro diz que não, que ela apenas pretendia riquezas, mas não é de escurar a hipótese de efectivamente ter desempenhado o papel de espião duplo, acusão essa que a levou à sua morte.

Gostei da escrita do autor, mas quanto à história, esperava mais, muito mais.


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Que Faria Eu Se Estivesse No Meu Lugar (O)? – Celso Filipe



Quem me conhece ou quem acompanha ou acompanhou este blog, sabe que detesto a escrita de António Lobo Antunes assim como não tenho qualquer simpatia pela pessoa em si devido ao facto de, era a minha opinião, acha-lo um tipo vaidoso, arrogante, que não tem qualquer problema em catalogar outros autores como “merda”, achando que ele sim, é o melhor escritor de todos os tempos.

Tempos houve que tentei ler livros dele. Sinceramente nunca consegui chegar à página 100 de qualquer da sua obra, pois penso que os livros dele são muito confusos, cheios de vozes que misturam o passado e o presente de uma forma ilógica, um pouco como se o autor escrevesse ao “sabor do vento”, sem qualquer ideia na cabeça. Ou seja, sempre considerei que Lobo Antunes goza com os leitores e sempre o vi a rir a bandeiras despregadas ao ler e ouvir criticas tão favoráveis de livros que são uma autêntica merda, até para ele.

Em todo o caso uma pergunta se levanta: se não gostas do homem, porque empreendeste a leitura deste livro?

Pois bem, de facto não gosto da sua literatura mas há uma coisa que me atrai sempre, que é perveber ou tentar perceber o autor por detrás das obras e o seu método de escrita e foi por isso que resolvi ler esta livro de 10 entrevistas a António Lobo Antunes efectuado pelo jornalista Celso Filipe.

Sinceramente não desgostei e confesso que até a minha ideia sobre o autor mudou um pouco.

Primeiro, constatei que ele de facto se julga o melhor escritor de todos os tempos e o resto, é pouco mais que bosta (exceptuando alguns casos).

Depois porque de facto percebi que ele escreve sem qualquer roteiro, aos repelões e de acordo com as “vozes” que vai ouvindo e que o chamam para fazer os livros.

No entanto descobri também um homem que nada tem de arrogante ou vaidoso, um homem muito humilde e que acima de tudo ama a família e os amigos e que não se considera uma celebridade. Nesta 10 entrevistas, pese embora se repita muito, sobretudo nas lembranças da guerra cujo trauma é notório, Lobo Antunes revela um pouco o seu método de escrita, um pouco porque ele própria afirma que não tem nenhum. Escreve à mão, em blocos médicos e em letra miudinha e afirma carradas de vezes que o segredo de um bom escritor é a correcção. Ou seja, escreve e corrige tantas vezes que, por vezes, da página original só sobra uma palavra.

Depois vai falando da mesma forma como escreve: ao sabor do vento. Tanto fala de guerra como de políticos, passando pelo futebol e acabando nos amigos, sempre cheio de referências a frases de grandes escritores e poetas, aliás, Lobo Antunes demonstra uma enormíssima cultura.

Em todo o caso fiquei com pena que o autor não tivesse coragem de ter ido um pouco mais além. Ou seja, Lobo Antunes cataloga grandes autores portugueses como, por exemplo, Eça de Queirós ou Virgílio Ferreira, como mediocres , no entanto nunca explora essas afirmações e sobretudo nunca explora essa “inimizade” que existia em entre ele e Saramago e da possível inveja que Lobo Antunes sentiu aquando do Nobel de Saramago. Só um parágrafo sobre o Nobel para ele dizer que Saramago não sabia escrever e que era sim uma excelente máquina de marketing.

Mas enfim, desmestificou um pouco a imagem que eu tinha de António Lobo Antunes sem que, no entanto, ficasse com vontade de ler algum dos seus livros.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Suite Francesa - Irène Némirovsky



Num tempo onde tanta porcaria é editada, onde medíocres autores são aplaudidos e venerados e até comparados a “Monstros sagrados” da literatura universal, é sempre bom descobrir algum desses “monstros” que, por qualquer acaso, era desconhecido e, sem dúvida, que um desses autores que hoje em dia ninguém lê, mas que merecia ser lido, é, sem dúvida, Irène Némirovsky.

Némirovsky foi uma escritora de sucesso até 1942, altura em que foi morta, aos 39 anos, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Para a posterioridade, deixou poucas obras mas, sobretudo, legou ao mundo esta sublime obra intitulada “Suite Francesa” que só chegou aos nossos dias porque o destino assim o quis.

De uma forma muito resumida, Irène pretendia edificar uma obra em cinco partes (com base na estrutura da Quinta Sinfonia de Beethoven), no entanto só conseguiu completar as duas primeiras partes que intitulou “Tempestade em Junho” e “Dolce”, até ser detida e morta pelos nazis em Auschwitz. O manuscrito, que as filhas pensaram tratar-se inicialmente de um diário da mãe, andou numa mala à medida que as filhas iam sendo salvas pela perseguição dos nazis. Anos depois, já adultas, uma das suas filhas ganhou coragem para ler o manuscrito e deparou-se com um monumental documento sobre a 2ª Guerra, essencialmente, um documento onde narrava o estado da população francesa e de como reagiram face à ocupação nazi. Resolveu então editar tão preciosa obra em 2004 e o mundo das letras agradece-lhe.

Comparado por vários críticos como um Guerra e Paz da Segunda Guerra Mundial, o que a meu ver é manifestamente exagerado porque sendo de facto uma excelente obra, não atinge o brilhantismo da obra de Tolstoi, mas de facto deparamo-nos com um relato assombroso, de uma lucidez extraordinária, dos acontecimentos logo a seguir à derrota dos franceses e da consequente invasão nazi.

Assente em vários personagens e famílias, Irène vai desbravando o que de mais miserável e em simultâneo melhor o que o Ser Humano possui. Face à chegada dos alemães, milhares de franceses, assustados, fogem das suas casas. E é aí que assistimos a relatos assombrosos que demonstram a perversão do Ser Humano e do quanto animal irracional ele consegue ser face ao desconhecido. 

E é precisamente esse desconhecido que, a meu ver, marca esta obra, pois o retrato que Némirovsky faz dos alemães é um retrato bondoso, longe da imagem de monstros que hoje conhecemos. Ou seja, é claríssimo que Irène desconhecia a existência dos campos de concentração e dos riscos que corria, ou se tinha ouvido falar, simplesmente não deveria ter acreditado nele, pois pinta os alemães como “seres” correctos, bonitos, jovens e que só ali estavam porque, enfim, porque sim e que não tinham qualquer intenção de infligir dor ou humilhação. Tanto na primeira parte, onde efectivamente assistimos ao êxodo de várias famílias que, em aflição, fogem desse inimigo desconhecido, como na segunda parte, mais centrada já em vários personagens alemães, a escritora traça retrato benignos.

Nota final para as anotações pessoais da autora e a correspondência, não apenas da autora, mas também relacionado com ela, que findam esta edição. Vêm simplesmente abrilhantar esta sublime obra que merece ser lida e aclamada, não apenas pelo relato em sim, mas e sobretudo pelo brilhantismo da escrita de Irène Némirovsky.




domingo, 11 de fevereiro de 2018

O que é ser leitor? Bom, Mau leitor? Ser escritor? Bom, mau escritor?



Sou leitor inveterado há muitos anos. Li centenas de livros, não sei precisar exactamente quantos, mas poderia avançar com um número de 2.000 livros que, decerto, não estaria a exagerar, aliás, efectuando um exercício simples à razão de 60 livros/ano a multiplicar por 30 anos (comecei a ler intensamente a partir dos 14, 15 anos), daria um valor de 1800, no entanto durante muitos anos li mais do que 60 livros por ano, porém desde há uns 4 anos que esta soma desceu para uns míseros 15 livros/ano por razões que não importa agora escalpelizar.


Mas a razão deste post é apenas divagar sobre uma questão quase metafisica que me assalta constantemente, sobretudo quando navego pelas sinopses de novos títulos, ou quando me desloco à biblioteca ou até quando navego por vários blogues literários, questão essa que entroca muito num livro que estou agora a ler, livro esse composto por uma série de entrevistas a um dos grandes escritores da actualidade, que é: Como se considera um bom ou mau livro? Como nos consideramos bons ou maus leitores?


Foi sempre uma dúvida que se me colocou e penso que foi por isso que, até à data, nunca me lancei na escrita a sério de um livro, pese embora já tenha vários rascunhos na gaveta e muitas ideias na cabeça. Em todo o caso, sempre procurei perceber o que é isso de ser um bom leitor, um bom escritor, um bom livro Vs. Tudo mau.


Antes dos 30 anos já tinha lido a maioria dos grandes clássicos da literatura a fim de entender a estrutura das obras e qual o trajecto que os tinha levado aquele patamar.

Debalde! 


A verdade é que gostei imenso de muitos desses clássicos, no entanto outros houve que me aborreceram de morte mas que compreendi que ainda não tinha aquela maturidade para compreender o alcance da obra. No entanto li outros livros considerado menores que gostei imenso e fiquei sempre sem perceber onde começa acaba a boa literatura e se sou um bom ou mau leitor.


Até que um dia, há uns anos, resolvi acabar com isso e comecei a considerar livros como livros e ponto final, sem considerar que haja livros e escritores que sejam melhores ou piores. Há apenas livros e pessoas que os escrevem, desde que alguém os leia, então tudo bem. Se é se me faço entender!


Desde essa altura que deixei de dar importância aquelas considerações de determinada obra ou autor ser mau, o que me veio trazer alguma tranquilidade em simultâneo que ocasionou um fenómeno interessante: deixei de ler tanto e compreendi que aquela ânsia que tinha era derivado ao facto de querer compreender ou encontrar resposta à minha questão. Porém há medida que o tempo foi passando também compreendi algo que já havia lido em vários autores: para ser escritor é necessário, acima de tudo, ler muito! Pois é!


No entanto onde começa a acaba a razão?


Vários autores afirmam que escrevem 10, 12 horas/dia e que têm, desde o início, uma espécie de roteiro com principio, meio e fim, com notas sobre as suas personagens onde as mesmas estão descritas ao pormenor, com estudos exaustivos dos lugares retratados e tudo o mais.


Outros autores, e vários dos quais que ganharam o Nobel, sempre disseram que escreviam 2, 3 horas/dia, 1 ou 2 folhas A4/dia e que não tinham roteiro. Limitavam-se a sentar e era a própria história que se construía por ela, ou seja, a história ia nascendo à medida que escreviam.


Outros autores afirmam que escrevem de uma forma fácil e conseguem escrever 20 páginas por dia, o que até acredito porque são escritores que lançam 1 livro por ano com mais de 700 páginas.


E há autores que afirma que os seus livros, todos eles com cerca de 300 páginas, levaram uns 5 anos (cada) a ser escritos.


Por isso como ficamos?


Não ficamos!


Não há bons e maus escritores assim como não há bons e maus livros!


E a questão mantém-se inalterada na minha mente!