quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Desistir ou persistir num livro que não nos agarra?


Entre várias temáticas que os leitores abordam entre si quando não estão a gostar de um livro, é a de desistir ou de continuar até ao fim.

Embora tenha conhecimento que muitos não consideram livros como maus, ou seja, toda a literatura é boa dependendo da expectativa e perspetiva do leitor, tese que até compreendo e aceito em parte, pois há livros que nos parecem maus num contexto e que, lidos mais tarde, nos maravilham, mas, na minha opinião, há livros que são mesmo maus. 

E maus porquê?

Porque são mal estruturados, mal pesquisados, contêm erros factuais que revelam pouca dedicação do autor ou até mesmo ignorância. Ou seja, nunca considero um livro mau porque não gostei do enredo, do modo de escrita, enfim, isso são circunstâncias normais e que, por vezes, até diferem autores.

Mas a questão que me coloco muitas vezes quando o livro não me está a agarrar, é: desisto ou continuo?

Pessoalmente é raro continuar um livro que não estou a gostar. Dou até determinadas páginas, se quando lá chegar continuo a não gostar, coloco de parte. Já me aconteceu continuar porque tive curiosidade em ver até onde o escritor chega, mas há tanto para ler que acho um desperdício de tempo continuar algo sem prazer.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Bird Box (2018)


Bird Box, título original que em português daria ou dará qualquer coisa como “Caixa de Pássaros”, é um thriller de 2018 realizado por Susanne Bier, baseado num romance de Josh Malerman que em Portugal se intitula “Às Cegas”, livro que tem tido uma excelente aceitação por parte do público.

Confesso que ouvi falar deste livro muito antes do filme ter saído e era um dos casos que pretendia ler antes de ver o filme, porém, não resisti a visionar o filme face às imensas opiniões positivas que o filme tem tido.

Este filme trata de um género que aprecio, um thriller pós-apocaliptico e é óbvio que em qualquer título que visionemos achemos semelhanças entre eles. É o caso de “Blindness” (2008) e “A Estrada” (2009), filmes que apreciei e que encontro enormes semelhantes com “Bird Box”.

De uma forma muito concisa, o enredo gira em torno de Malorie, protagonizada por Sandra Bullock, que arrisca a sua vida e a dos filhos navegando durante dois dias num rio e completamente vendados.

A questão que se coloca é, porquê vendado? O que sucedeu para que essas três pessoas estejam com tanto medo de ver? Para onde se dirigem?

A explicação vem logo a seguir e, intervalando por dois períodos de tempo com uma distância de 5 anos, compreendemos que a razão é devido ao facto de, sem ninguém saber porquê, as pessoas, em todo o mundo se começarem a suicidar por verem alguma coisa que os transforma numa espécie de zombies. No entanto nem todos são atacados por essa ameaça invisível, os loucos conseguem sobreviver e encetam uma caça a todos aqueles que se escondem, uma espécie de evangelização para obrigar todos aqueles que não querem ver.

Na minha óptica isso é uma espécie de metáfora à actual intolerância religiosa que grassa por todo o planeta e uma óbvia piada à intolerância nas redes sociais, onde se atacam todos aqueles que não querem ver e onde se obriga a todos seguir pela mesma diapasão, mas isso são outras considerações que derivam da minha perspectiva e que vai muito de encontro à semelhança com Blindness (Ensaio Sobre a Cegueira).



Na fase inicial Malorie não sabe o que se passa e dá consigo encerrada numa casa com várias outras pessoas. Desses actores, destaco o consagrado John Malkovich, que, a meu ver, tem uma interpretação brilhante.

Todas as janelas são tapadas e tenta-se levar uma vida onde não é permitido que se saia de casa, nem pelo menos, que se olhe para o seu exterior. No entanto, é óbvio que, um a um, esses personagens vão desaparecendo, até ficar apenas Malorie com duas crianças no meio de um rio. Como e porquê, vão ter de assistir.

Embora seja um livro que continuo a querer ler, pois tenho a certeza que encerra outro tipo de informações que o filme não mostra, o principal motivo pelo qual gostei do filme é do enorme suspense que o filme proporciona do início ao fim. Desde o seu início o tom angustiante que nos causa desconforto à medida que o tempo vai passando, pois nunca entendemos que criaturas ou ameaça é essa que causa aquele terrível massacre nem de onde surgiu. No entanto ela está sempre omnipresente em todos os segundos e damos por nós a considerar ser um cenário verossímil e isso incomoda-nos, sobretudo porque mete crianças e quando assim é, o desconforto é sempre maior.

Um Bom filme dentro da sua categoria.

Classificação: 3 Estrelas em 5





quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Unfriended: Dark Web


Pese embora seja uma amante do cinema, confesso até que tenho dificuldades em dizer se gosto mais de livros ou de filmes, mas criei o blog para divagar sobre alguns livros que leio, não recensões, mas mais divagações sobre as minhas considerações literárias, porém resolvi abrir um parêntese, mais de dez anos depois de ter criado o blog, para iniciar um novo capítulo precisamente abordar vários dos filmes que vejo.

Não tenho qualquer pretensão de efectuar grandes considerações, mas sim abordar o que vejo e o que achei, ou seja, se gostei ou não, se me marcou, se considero o assunto importante, sei lá, sobre o que me apetecer.

É o caso do filme que inicia esta rubrica que vou chamar “Cinema”.
Unfriended: Dark Web

O filme é considerado de terror, tema que, confesso, é o meu preferido, mas o que me fez ver o filme é o interesse que o Lado Negro da Internet me proporciona.

Tenho lido que a Internet é como um iceberg, ou seja, o que é visível na internet corresponde a 20% os outros 80% está no lado negro, ou seja, o que se passa nesses 80% quando se sabe que páginas como a dos Anonymous, o  Reddit's, o surgimento da Bitcoin, fóruns de hackers, vendas de drogas ilícitas, enfim, um universo gigantesco e misterioso. E isso é algo que me foi despertando algum fascínio, pois já percebi que muitos dos crimes cibernéticos que por vezes ouvimos falar, nascem nesse lado negro.

O filme aborda essa temática e foi isso que me despertou a atenção.

De uma forma muito concisa, este filme norte-americano de 2018, realizado por Stephen Susco, é uma espécie de continuação de um outro de 2014 e segue um grupo de amigos que, em casa, se ligam uns aos outros através de várias redes sociais.

De início o filme é um pouco confuso e algo parvo, com aquelas piadas tipicamente adolescentes, mas começamos a perceber que o principal protagonista começa a abrir ficheiros no seu computador que lhe mostra uns filmes de raparigas a serem raptadas. Ou seja, ele admite que achou o computador em questão e que achou estranho que o disco de 1TB estivesse praticamente cheio. Abrindo essa pasta, dá com uma série interminável de arquivos obscuros e, mais, uma aplicação que o convida a entrar num programa que lhe permite a entrada no lado Negro da Net, uma espécie de vírus.

Ele resolve partilhar a sua tela com os amigos, e todos eles começam a perceber que estão a ser observados por alguém que começa a enviar mensagens afirmando que o computador em questão é dele e que o quer devolvido, se não… assassina a namorada no protagonista.

A partir daí um imenso clima de suspense se instala e o terror acontece.
Não vou afirmar que o filme é excelente, não é, longe disso, mas aborda uma temática muito interessante e demonstra que brincar com o fogo é extremamente perigoso e pode acarretar danos muito graves. É uma espécie de aviso à navegação sobre algo que, estou certo, tem sido motivo de apuradas investigações de todas as entidades policiais do mundo, mas que arranja sempre subterfúgios e basta ver, por exemplo, a temática do roubo da correspondência privada ao Benfica que surge precisamente no anto da Dark Web com um hacker já identificado que tem ligações intimas à Football Leaks.
Um filme interessante!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao (A)


Prémio Pulitzer em 2008, a Breve e Assombrosa vida de oscar Wao é o primeiro romance do autor dominicano Junot Diaz que efectua, acima de tudo um retrato da Rep. Dominicana assente sobretudo no período da ditadura de Trujillo.

Na minha opinião é aqui que reside o interesse do livro, pois confesso que conhecia Trujillo apenas pelo nome mas estava longe de imaginar o inferno e brutalidade que foi o período de ditadura (1930-1961), uma Era marcada por um culto á personagem tão habitual nas ditaduras indo ao ponto de rebatizar cidades com o seu nome e dando-se ao luxo de considerar como propriedade própria qualquer cidadão.

Extremamente narcisista, o seu ego era do tamanho do mundo e a repressão aos cidadãos era violentíssima e isso está muito bem descrito nesta obra de Junot Diaz.

É este o principal tema de interesse, pese embora a história assente na figura de Oscar, um rapaz gordo, feio, com poucos amigos e que não consegue despertar qualquer interesse de nenhuma mulher, sendo que isso se torna uma obsessão e um trauma e um assunto que serve para que sofra de bulling diariamente, pois as suas paixões são de “caixão à cova” e motivo de gozo por parte dos seus colegas e conhecidos.

Vagueando entre várias épocas temporais, o autor vai-nos descrevendo a história de Oscar e da sua família, história essa que está intimamente interligada com o regime desumano de Trujillo. Na prática este livro é mais uma exposição Histórica da Rep. Dominicana da ditadura e, simultaneamente, o autor vai tecendo várias críticas implícitas que nos levam a crer que a actual Rep. Dominicana ainda continua a sofrer com laivos de ditadura, ou seja, aqueles trinta anos deixaram uma mossa tão grande, que ainda hoje é visível e perceptivel sinais do regime de Trujillo.

A escrita de Junot Diaz é muito interessante e efectivamente consegue-nos prender numa narrativa sempre cheia de curiosos episódios, porém este não foi um livro que achasse como exepcional, tornando-se por vezes até enfadonho e curiosamente quando o autor se prendia na narração da vida, sem grande interesse, de Oscar Wao.

Em todo o caso, achei o livro muito interessante e digno de registo, até porque me despertou a curiosidade em ler mais sobre Trujillo e voltar a um autor que muito admiro e que Junot refere várias vezes, Vargas Llosa, aliás, aqui e ali é visível a influência de Llosa na escrita de Junot Diaz.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O Homem do Castelo Alto - Philip K. Dick


Considerado, quase unanimemente, como um dos gurus da ficção científica distópica, ou seja, um misto de ficção científica e distopia, Philip K. Dick foi um autor controverso que escreveu dezenas de obras num tom provocador, criando, em quase todas elas, uma realidade alternativa e misturando factos científicos que, há data, eram únicos no contexto literário.
Pessoalmente era um autor que há muito tinha referenciado e este “O Homem do Castelo Alto” um livro, considerado por muitos como uma das suas maiores obras, que estava na minha lista e, honestamente, fiquei com um misto de sensações que dificilmente consigo exprimir.
Ou seja, não vou aqui dizer que adorei o livro, não, não adorei. No entanto também não desgostei e prova disso é que não desisti da sua leitura, empreendendo essa tarefa até ao fim, sendo que o seu epílogo me deixou com uma sensação de vazio por estar à espera de uma obra melhor.
Primeiro, a edição que possuo, conta um extenso ensaio de Nuno Rogeiro (é logo um terço do volume) sobre o autor e a sua obra. Dessa forma, situa-nos e consegue dar-nos uma perspetiva da obra geral do autor e mais importante, da sua intenção e densidade psicológica e social. Assim, compreendemos que o autor teve sempre um objectivo bem definido em cada obra escrita, em simultâneo, percebemos que a presente obra não é de todo a mais representativa do autor.
Em o “Homem do Castelo Alto”, obra efectivamente distópica que chega a roçar a sátira, os Estados Unidos e seus aliados perderam a 2ª Guerra Mundial e os nazis dividiram o planeta com os japoneses. Se por um lado isso é-nos logo dito, ficamos também a saber que logo depois do fim da guerra, os nazis trataram de dizimar os povos em África, transformando aquele continente num deserto. Mas vai muito mais longe, explica, até de forma muito coerente, ou seja, é uma “realidade” que poderia ter sido perfeitamente possível, do porquê dos aliados terem perdido a guerra, do porquê da URSS ter ruido em 1941 e da exterminação dos povos. Ou seja, uma realidade alternativa que poderia ter sido a real caso os alemães tivessem vencido o conflito de 1939-1945.
Em todo este cenário arrepiante, eis que um livro, escrito pelo Homem do castelo Alto, uma personagem misteriosa e solitária, descreve um mundo onde quem venceu foi os aliados e de como o mundo poderia ser e somos assim confrontados com duas realidades diametralmente opostas.
Achei a obra muito interessante pela forma realista como o autor conseguiu criar essa realidade paralela e que, se não fossem alguns “acasos”, poderia ser mesmo a nossa realidade, mas confesso que o livro me foi aborrecendo à medida que ia desbravando a suas folhas sem que, mesmo assim, tivesse desistido porque queria saber como tudo iria acabar.
Não desgostei mas também não foi daquelas distopias que me fascinaram e que um dia irei reler.
Aconselhável para quem gosta do género e quem tenha curiosidade em conhecer uma alternativa muito bem criada, à nossa realidade que, efetivamente, só foi possível devido à vitória dos aliados na 2ª Guerra Mundial.



sábado, 1 de dezembro de 2018

História de uma Serva (A) - Margaret Atwood


Pessoalmente gosto muito de ler romances distópicos, livros que encenam uma realidade futura que, dado o curso que a Humanidade toma e a sua essência (da humanidade), não é de todo impossível de alguma vez acontecer.

São vários os títulos que abordam cenários distópicos , todos eles obviamente descrições ficcionais que promovem utopias, no entanto, em todos eles é claro perceber a intenção do autor, quer seja na caracterização de regimes totalitarista, opressivos, ou mesmo, uma sátira ao uso excessivo de tecnologias e a prisão que representam para o Ser Humano. 

Pessoalmente já li vários desses títulos, alguns dos quais recordo com especial prazer, dada a Qualidade da escrita e da previsão de uma realidade perfeitamente possível, exemplos como “1984”, “Admirável Mundo Novo”, “Ensaio sobre a cegueira”, “12 macacos”, são títulos que me marcaram sobremaneira pela forma realista como foram escritos e apresentados, ou seja, são mais do que distopias, são previsões claras para onde a Humanidade caminha.

“A História de uma Serva”, não entra, de todo, nesse circunscrito lote de obras que me agradaram, sobretudo e principalmente, porque desde o principio não o achei verosímil o suficiente, ou seja, pese embora seja uma história “engraçada” e muito bem escrita, o enredo e a explicação de todo aquele cenário, nunca me fez acreditar ser possível acontecer.

Claro que sei que se trata de um romance, mas não é por acaso que nunca leio livros de fantasia, quando leio algum romance, gosto de crer naquilo que estou a ler e pensar que um dia poderá suceder ou que tenha sucedido. Não leio porque sim, leio obviamente para me entreter, mas leio igualmente para crer naquilo que estou a ler, não sei se me faço entender, mas também pouco importa.

Gostei do livro, mas não o considero uma obra-prima como muitos apregoam, até porque, para além da pouca plausibilidade, a acção da principal personagem fica muito aquém do que eu julgo que poderia suceder, vivendo uma vida de recordações do passado em que vivia em liberdade, mas pouco ou nada fazendo para se libertar das grilhetas actuais. 

Depois, há uma fraca conexão argumentativa dado, não apenas pelo que referi no parágrafo anterior, como também da fraca explicação, ou, se quiserem, da deficiente explicação, como e porquê tudo sucedeu para aquele cenário. 

Podem sempre alegar que é uma obra que aborda, de forma figurativa, temas como repressão, anti-semitismo, preconceito, violência sexual, violação, liberdade de expressão, etc, etc, mas, honestamente, não o considero uma daquelas obras de “encher o olho” e que fique na memória. É sim uma das obras que pretendia ler e que, agora que terminei, não aconselho a quem procure uma Distopia coerente e credível.


sábado, 24 de novembro de 2018

Herança de Eszter (A) – Sandor Marai


Este era um daqueles livros, e ainda possuo muitos, que andava pelas estantes há alguns anos à espera de ser lido. Tinha conhecimento da qualidade literária de Sandor Marai, mas, confesso, a sinopse nunca me cativou por aí além, julgando sempre estar na presença de uma obra menor do autor. Puro engano!

Antes de qualquer consideração, reconheço que fiquei atordoado pela qualidade da escrita de Marai. Possui uma forma simples de escrever, mas, ao mesmo tempo, dura, directa, objectiva e, simultaneamente, poética, fazendo com que a conjugação das palavras seja uma sinfonia no seu todo, quase como algo que nos vai afagando a alma com pedaços crus de realidade. Ou seja, à medida que nos vai narrando, de forma soberba, a história, é capaz de descrever, em poucas palavras, o intimo da personagem e os seus pensamentos, colocando-nos na “sua pele” e fazendo-nos viver essa existência. 

Achei fenomenal como o autor conseguiu com que eu “sentisse” as dores e angustia de todas as personagens deste livro, tanto as personagens maiores como menores, consegui com que compreendesse o ponto de vista de cada um deles, e isso é algo que só alguém que possui o dom da palavra na escrita.

O livro é curto. São menos de 200 páginas, em letra considerável, com capítulos muito curtos, mas desengane-se que o autor fica aquém do pretendido. Não! Penso ser este um livro que tem as palavras certas, pois não são necessárias muitas para, um escritor com qualidade, contar uma história.

Tem um ritmo alucinante, perturbador e inquieto. A força das principais personagens extravasa o próprio livro, pois dei por mim a visualizar, em pessoas que conheço, as descrições que ia lendo num misto de emoção e afecção. E mais curioso é ir percebendo que o desenrolar de todo o enigma é perturbadoramente simples, pois a verosimilitude é tão real que até arrepia.

Em suma, um livro altamente aconselhável para quem aprecia efectivamente boa literatura.