segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Há autores

que, se calhar de uma forma inconsciente, possuímos um sentimento de antipatia derivado de várias factos ocorridos ao longo do tempo, quer sejam entrevistas, posições políticas, de opinião, etc.

Eu, já o admiti em diversos locais, há um autor cuja minha antipatia é imensa, só de olhar para o homem vem-me logo o fel à boca tal a embirração que sinto por tal ser. Aquela postura abestalhada fumante lunático, parecendo, em cada entrevista que lhe vi ou li, estar a gozar com os leitores, a sua postura face aos outros autores que, aqui e ali, vai menorizando como se fosse ele o único escritor de qualidade à face da Terra, é algo que acho asqueroso e, obviamente, isso tem repercussões na minha postura face aos livros desse autor, pois e embora já o tenha tentado por diversas vezes, não consigo ler qualquer obra sua, aliás, nem consigo chegar à página 100.

Nestes últimos dias tentei pela enésima vez.

Peguei o “Cú de Judas” do execrável António Lobo Antunes e não consegui avançar para além da página 50 tal a insanidade de texto. Perdoem-me a imensa legião de fãs do autor, mas acho o homem um péssimo ser humano. Não o conheço de lado nenhum, apenas faço esta constatação pelas entrevistas que já li e vi e pela sua postura face aos outros autores. Aliás, foi o único escritor que um dia vi dizer que tal livro de tal escritor era lixo. Mas a sua escrita densa, feita de descrições vagas, de analogias figurativas e labirínticas que nos enviam de um lado para o outro, por vezes sem grande coerência, é algo que me aborrece. 

No entanto, admito, a minha postura é mais pela embirração que sinto pelo homem.

Até arrepia!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Águia e os Lobos (A) – Simon Scarrow

Neste 4º volume das aventuras de Macro e Cato, série que Simon Scarrow dedica ao império romano na sua Série Águia, a localização da acção situasse nas ilhas britânicas no ano 44 d.C. quando, no segundo verão da campanha para a conquista da Britânia, Cato e Macro vêm-se no papel de comandantes de duas coortes de guerreiros locais aliados de Roma, os Atrébates.

O imperador Cláudio havia nomeado no anterior o General Aulo Pláucio que, com o apoio do rei dos Atrébates, Vérica, conquistasse e pacificasse toda a ilha. Os seus vizinhos, os Catuvelauni comandados por Carátaco, fazem obviamente oposição cerrada, originando daí uma série de batalhas pela conquista da ilha que vão acabar em enormes combates corpo a corpo e as correspondentes chacinas.

De notar que quase todas as personagens são reais. Excluindo Macro e Cato, o autor utiliza os personagens para desenhar a época e narrar os primeiros anos da conquista da Britânia. O resultado são batalhas formidáveis de uma violência inaudita.

Pessoalmente foi o melhor livro que li desta série. Tinha lido os anteriores três e embora tenha gostado, sempre me pareceram um pouco fracos, com situações muito forçadas. Não no aspecto da explanação da situação histórica, mas sempre um pouco sem sal no aspecto da realidade quotidiana, sobretudo na forma como Cato, com apenas 18 anos se desenvencilha de formidáveis oponentes nas batalhas. Mas enfim, confesso que desta vez gostei imenso das descrições e as narrativas das batalhas são bastantes reais, emocionantes e brutais. As páginas finais são de uma impressionante violência, num ritmo alucinante que nos tira o folego face às situações que surgem em catadupa.

Confesso que fiquei mais entusiasmado com em ler o 5º volume do que com este, que há uns dois anos estava na “pilha”.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Crónicas do Sul – Luis Sepúlveda

É sempre um enorme prazer voltar a ler autores que admiramos, não só pela sua qualidade literária como também pelo papel que desempenham em expor ao mundo situações ou estados da sua nação.

Luis Sepúlveda é um desses autores.

Chileno, exilado há muitos anos em Espanha, não hesita em apontar o dedo às mais variadas situações que grassam no Chile, sobretudo nos terríveis anos em que Pinochet governou.

“Crónicas do Sul”, é um conjunto de crónicas escritos em 2005 e 2006, em que Supúlveda se debruça sobre uma enorme galeria de acontecimentos que marcaram os anos de horror de Pinochet.

Exercício de liberdade, grito de revolta, uma espécie de autor incómodo para os neoliberais de todo o mundo, o autor vai dissertando sobre vários episódios do seu Chile e também um pouco do resto do mundo. É inegável o seu asco ao neoliberalismo que demonstra, com exemplos claros, funcionar sempre contra o povo em prol das classes mais ricas.

E, mesmo sabendo que a intenção de Sepúlveda é o de narrar e expor as vis políticas e accões de Pinochet e dos seus compinchas, é arrepiante ver na situações descritas exemplos do que está a acontecer em Portugal.

Veja-se este exemplo: “Enquanto as bases da economia, da cultura e da história social do Chile eram destruídas através de privatizações dos bens nacionais que incluíram a saúde e a educação, qualquer tentativa de oposição era esmagada por meio de assassínios, tortura e desaparecimentos ou exílio. Isto é tudo o que Pinochet deixa, um país falido e sem futuro, um país onde os direitos elementares , como o contrato de trabalho, a informação, a saúde publica e a educação, são quimeras mais difíceis de alcançar.” Ou ainda “… que aceitaram sem contestar as tropelias impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial, interessados em fazer parte dessa «realidade económica global» que apenas consegue miséria e êxodos maciços de população

Pois é, a política neoliberal segue um pensamento ideológico bem organizado que opera sempre da mesma forma em beneficio da alta finança e que traz a reboque a corrupção e o trafego de influências e, em muitos casos, como no Chile, governos ditatoriais ao serviço desses interesses.

Isto não vos soa a algo familiar?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Há casos que me fascinam!

Alguns pelo mistério que encerram, outros pelos factos que estão por detrás desses casos, as atitudes que levaram ao surgimento desses casos, aos motivos.

Um desses é o caso do Assassino do Aqueduto, um caso ocorrido em Lisboa na década de 30 do século XIX. Nessa altura várias pessoas foram assassinadas por um misterioso que, no escuro do Aqueduto das Águas Livres, se aproximava sorrateiramente por detrás e, depois as assaltar e para ninguém o denunciar, as atirava de cima do Aqueduto. Eram 65 metros em queda livre e, de manhã, aparecia o corpo estilhaçado no Vale de Alcântara, hoje zona da Av. Ceuta.



Muito se falou na época sobre esse desconhecido que, embora não oficialmente, fez mais de setenta vítimas.

A agitação causada na cidade foi tão grande, que as autoridades encerraram o Aqueduto o que obrigou o assassino a mudar de esquema, tendo sido finalmente apanhado por outros crimes e condenado à morte em 1841, pondo fim à sua enorme carreira criminosa. Para além dos crimes do Aqueduto, o que torna este caso mais relevante é o facto do criminoso, Diogo Alves, ter sido o último condenado à morte em Portugal e com o pormenor da sua cabeça ter sido conservada em formol na Faculdade de Medicina de Lisboa, onde se encontra até hoje.



Eis que agora surge uma obra que me cativou e que se predispõe a narrar, sobre a forma de romance histórico, este caso que aterrorizou Lisboa: “O Assassino do Aqueduto”, escrito por Anabela Natário, sob a chancela da Esfera dos Livros.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Se Isto é um Homem – Primo Levi

Eu: “Terrível. Depois de ter lido a Segunda Guerra Mundial de Martin Gilbert, quis reler "Se Isto é Um Homem" de Primo Levi, autor que esteve em Auschwitz desde Janeiro de 1944 até Janeiro de 1945, altura em que os russos chegam ao campo.”

O Outro: “Já ouvi falar desse livro. É mais um relato de um prisioneiro nos campos de extermínio nazi”

Eu: “Mas não é MAIS UM! Não é justo considera-lo dessa forma, pois o livro é, acima de tudo, ou pelo menos é o que sobressai desde as primeiras páginas, uma reflexão sobre a condição humana”.

O Outro: “Ok, mas o livro não narra o dia-a-dia dos prisioneiros durante esse ano?”

Eu: “Sim, mas é mais profundo. Escrito logo depois de ter sido libertado, Levi narra a forma como foi apanhado e extraditado para Auschwitz que, na altura, era um nome como qualquer outro, sem qualquer tipo de conotação. Com ele ia milhares de pessoas que, um ano depois, apenas duas dezenas estavam vivas. Logo à chegada ele narra a selecção e o desaparecimento das mulheres, crianças e doentes.”

O Outro: “Mas na altura eles sabiam para onde iam essas mulheres e crianças?”

Eu: “Não… quer dizer, logo desconfiaram, embora e isso é algo intrínseco à condição humana, quiseram acreditar que essas mulheres e crianças estavam bem.”

O Outro: “sim... continua…”

Eu: “Bom, logo aí ele descreve os primeiros aviltamentos. Todos se despiam e ficavam nus à espera de coisa nenhuma. E a partir desse dia, era apenas fome, maus tratos, trabalho violento e a sombra da morte que pairava constantemente”

O Outro: “E como é o dia-a-dia desses prisioneiros?”

Eu: “Como deves calcular, uma miséria humana. A luta pela sobrevivência aguçava o engenho e ele descreve a forma como a pouca comida tinha cotação. Ou seja, roubava-se e trocava-se vários instrumentos pelo pouco pão que tinham direito. As doenças minavam o campo e, de vez em quando, lá vinha a selecção. É brutal a forma como ele explica o processo. Bastava o simples gesto do oficial das SS para que centenas de homens fossem parar ao gás, e eles sabiam que era esse o seu derradeiro destino.”

O Outro: “Sim, deve ser impressionante. Sobretudo tentar perceber como foi possível homens terem sujeitado outros homens a tão cruel e vil destino”

Eu: “Exacto e essa questão está latente em toda a obra. Levi questiona-se constantemente sobre isso, sobre os aspectos da alma humana, até que ponto um homem deixa de ser um homem diante de outros homens. O mal absoluto sem piedade pela condição humana. É assustador ver que o ser humano pode perder facilmente a sua consciência, tornando-se numa besta maléfica. E curioso perceber que, ao longo de toda a obra, ele vai colando alguns dos episódios, ou efectuando analogias, ao Inferno de Dante”

O Outro: “De facto. A História da Humanidade está cheia de episódios macabros em que a condição humana é esquecida, onde a natureza humana acaba por se mostrar como é violenta e sádica”

Eu: “E curioso constatar que, depois de ele escrever o livro, o mesmo foi recusado pelas grandes editoras italianas.

O Outro: “Estás a brincar!”

Eu: “Não, a sério! Devia ser ainda resquícios da ideologia fascista que inundou a Itália e que levou o país a unir-se aos nazis na Guerra Mundial. Mas o certo é que o seu relato pungente, objectivo e sereno sobre o dia-a-dia em Auschwitz, foi considerado sem interesse.

O Outro: “Poderá um homem sobreviver depois de sobreviver a Auschwitz?”

Eu: “Bela questão, pessoalmente acho que não!”

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um Homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios olhos e frio o regaço
Como uma rã de inverno.

Meditai que isto aconteceu.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Homem de Constantinopla (O) – José Rodrigues dos Santos

Já aqui referi que gosto de ler os livros de José Rodrigues dos Santos. Longe, muito longe, de serem grandes obras literárias, decerto jamais irá vencer ou perto disso o Nobel da Literatura, o certo é que os seus livros me entretém e têm a capacidade de me despertarem a atenção para outros assuntos que, por diversas vezes, me têm levado a descobrir outros autores e outras obras muito boas.

A presente obra que, vá lá, direi o primeiro volume de dois em que o autor se propõe a narrar a vida de Kaloust Gulbenkian, é pois mais um dessas obras de puro entretenimento, um pouco num estilo cinematográfico, que explana a narrativa de uma forma muito simples e com capítulos muito curtos de uma forma de takes cinematográficos e que nos vai traçando o percurso de Gulbenkian desde quase o seu nascimento até 1913, altura em que se inicia a Primeira Grande Guerra.

No entanto e de todos os livros que já li do autor, e posso dizer que já os li efectivamente todos, este é o mais fraco em todos os aspectos.

A narrativa é muito fraca e algo incoerente. Parece que o autor escreveu o livro imaginando um roteiro de um filme. As situações surgem um pouco desligadas e há outras, que a meu ver mereciam uma maior profundidade, que são narradas de uma forma muito simplista, como e por exemplo a perseguição turca aos arménios. Depois, há situações que são explicadas ou resolvidas de uma forma muito tosca. Ou seja, o autor aborda de facto essa e outras questões mas pouco ou nada a explica, deixando-nos a ideia de um trajecto feito de facilidade quando, sei, não foi bem isso que sucedeu. Para além disso, não gostei igualmente da forma que o autor encontrou para começar a história nem do encadeamento dos episódios da sua vida. Obviamente que sei que se trata de um romance, mas, a meu ver, o autor tem obrigação de fazer um trabalho mais apurado, nem que seja apenas e só devido á sua formação académica.

Tenho já o segundo volume para ler mas, face à enormidade volumosa da obra e ao tempo que demorou a escrever, não acredito que melhore, pois esta é uma obra escrita algo a “martelo” e deve ser mais do mesmo. No entanto nem tudo é mau. Entretém e dá-nos um aspecto, frágil é certo, da vida de Gulbenkian e da forma como granjeou fortuna e fama. Vou ler decerto.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Balanço Pessoal de 2013

Há muitos anos que não lia tão pouco livros como em 2013. Razões são várias, mas as principais foram porque, para além de ter lido livros com muitas páginas (pelo menos dez deles tinham mais de quinhentas páginas e cheguei a ler dois livros que excediam as mil páginas), confesso que foram muito os livros que deixei ainda antes de ter atingido as cem páginas, livros esses que, obviamente, não contabilizo.

Livros Lidos: 41
Páginas lidas: 16892   
Média diária (páginas): 46 
Média Livros mês: 3,4
Média Página/Livro: 412

Em todo o caso li alguns bons livros mas confesso que tive dificuldade em selecionar dez que merecessem constar num top, pelo que me decidi a fazer um top de apenas cinco livros, ei-lo:









O Mais Prazeroso: - "Os Anjos Morrem das NossasFeridas” e “Diz-me Quem Sou

Conforme referi no início da minha opinião do “Os Anjos Morrem das Nossas Feridas”, é sempre um bálsamo, uma bênção de puro deleite literário os livros de Yasmina. Descobri este autor em 2012 e, desde essa altura, já li vários dos seus títulos e há outros ainda por ler. É sempre uma alegria voltar a esse autor e foi o que sucedeu com este título que, considero, a melhor leitura de 2013.

“Diz-me Quem Sou” foi o primeiro romance histórico de Júlia Navarro e também o primeiro título que li desta autora. Fiquei muito surpreendido pela qualidade da sua escrita e pelo trama desenvolvido. Pese embora não seja uma obra extraordinária, li as suas mais de mil páginas num ápice e fiquei deveras agradado com as histórias que a autora me foi dando.

  
Mais Divertido: - "Cordeiro, Evangelho de Biff"

Este é um livro algo apatetado mas que, aqui e ali, vai falando sério. A premissa é a infância de Jesus Cristo e a sua vida é-nos narrada pelo suposto melhor amigo de Jesus, Biff, e a narrativa tem períodos de paródia que, de facto, nos leva às lágrimas de tanto rir. Num tom hilariante, o autor traça-nos os primeiros anos de Jesus e os milagres que já fazia, no entanto cai muitas vezes num absurdo algo aborrecido, mas que não deslustra toda a narrativa.




Trabalho a Ler: -  "Segunda Guerra Mundial"

Este foi um livro que me demorou cerca de três meses a ler. Martin Gilbert faz um trabalho notável, traçando-nos passo-a-passo e de uma forma muito minuciosa, a guerra desde o seu início até ao seu epílogo e os anos consequentes. Foi também um livro cansativo face às imensas descrições de atrocidades cometidas por todos os lados. Muitas vezes parei porque não tinha estomago para continuar e vivi dias, acreditem, atormentado por tanta bestialidade humana.

  


Decepção: - "Grandes Esperanças"

Já li muitas obras de Charles Dickens e confesso a minha imensa admiração pelo autor e pelas suas obras. No entanto “Grandes Esperanças” revelou-se um tormento, sobretudo a segunda parte, tal o aborrecimento que me foi provocando. Pessoalmente este é o livro mais desinteressante de Dickens e aquele, que de certeza, jamais vou voltar.



Não consegui acabar: -  "O Hobbit" de Tolkien

Foram muitos os livros que iniciei e que nem à página cem consegui chegar, no entanto tentei, juro que tentei com todas as minhas forças ler o Hobbit de Tolkien, até porque o queria colocar no desafio Book Bingo, mas, debalde, não consegui nem consigo ler fantasia. Tinha jurado a mim mesmo nunca mais ler qualquer livro de fantasia e, uma vez mais, vi que não vale a pena, pois não consigo inserir-me naqueles universos e o enfado é tão grande que sou capaz de ler dez páginas sem me lembrar sequer do parágrafo anterior. Respeito quem elege a fantasia como o seu género preferido, mas eu não consigo achar o mínimo interesse.




O Pior: "O Fenómeno Ovni - Factos, Fantasia e Desinformação"

Já li muita literatura sobre ovnis e seres extraterrestres a ponto de eu próprio ter uma tese sobre a hipotética vida, inteligente, fora do planeta Terra. Este foi apenas mais um. Cheio de histórias conhecidas, com as habituais fotos difusas, foi um livro sem chama e que não trouxe rigorosamente nada de novo a este fenómeno. Aliás, é uma espécie de livro que mais parece um conjunto de artigos tirados da internet e ali colocados.

  

A Revelação:

Para mim, Júlia Navarro. Nunca tinha lido nada dela e gostei bastante do estilo em “Diz-me Quem Sou”. Fico a aguardar o novo romance histórico que já saiu em Espanha e que aqui deve estar por dias.


Um Bom Ano a todos!


domingo, 29 de dezembro de 2013

Cerco de Leninegrado (O) – Michael Jones

Iniciei o ano de 2013 a ler sobre a 2ª Guerra Mundial e acabo o ano a ler sobre um dos piores e mais terríveis episódios deste conflito: O cerco de Leninegrado.

Aquando da leitura da obra de Martin Gilbert, um dado sobressaiu: de todos os países envolvidos no conflito, a União Soviética foi aquele que mais perdas humanas teves. Entre civis e militares calcula-se que morreram vinte milhões de pessoas!

Nesta presente obra, esta evidência ressalta com toda a força e percebemos também a causa de tanto morticínio. O autor refere, por variadíssimas vezes que muitos factos só foram conhecidos publicamente após o fim da União Soviética e que muitos dados ainda estão por conhecer. Ou seja, é claro que muitas dessas vitimas se deveram a incúria de políticos e chefias militares que demonstraram uma total desprezo pela vida humana. São aqui relatados, não só as causas que colocaram à frente do exército chefias vaidosas e incompetentes, como também da instabilidade dos seus líderes, inclusivamente Estaline, que não só mandavam os soldados para a morte como também foram um dos grandes responsáveis pelo cerco de Leninegrado.

E é assustador o que este livro revela, mais assustador quando sabemos que o que aconteceu pode vir a acontecer outra vez, pois a essência do Ser Humano é maldosa e a História repete-se vezes sem conta, pois este cerco pode ser a que melhor está documentado, mas não é caso único na História onde uma força sitiadora tenta conquistar pela fome uma cidade.

Durante 872 dias (entre 1941 e 1944) as forças alemãs sitiaram a cidade condenando à fome milhões de civis. Foi uma atitude propositada, os próprios soldados alemães tinham disso consciência e há inúmeras provas que o atestam.  E é baseado em relatos dos próprios sitiados, a maioria escritos em diários agora em exposição num museu dedicado ao cerco, que o autor vai construindo um cenário monstruoso e terrífico do quotidiano dos cidadãos e pelo que passaram.

Confesso que em muitas alturas tive de parar de ler tal a agonia que me metia. Casos de canibalismo de virar o estomago são narrados de uma forma crua, tornando este episódio ainda mais brutal, pois num conflito armado até podemos perceber os combates, mas é inimaginável conceber a angústia da fome ao ponto de fazer seres humanos matar outros para os comerem. De bandos de canibais organizados que fomentaram mercados negros de carne humana e isso com o beneplácito indirecto dos dirigentes da própria cidade. Declaradamente foram 1.400 pessoas presas por actos de canibalismo e 300 executadas, no entanto facilmente se percebe que foram muito, mas mesmo muitos mais casos, assustadoramente muitos mais.

Não conhecia esse lado, propositadamente escondido da opinião pública e que inclusive Martin Gilbert omite, não sei se propositadamente ou não, na sua obra “Segunda Guerra Mundial”, mas confesso que foi o aspecto que mais me enojou mas que acabou por não me surpreender, pois e, repito, a História está cheia de factos desses.

Um livro brutal que revela, uma vez mais, a essência do Ser Humano e do que o mesmo é capaz de fazer ao seu congénere (para o bem e para o mal), no entanto é uma obra que revela também a enorme capacidade de resistência e de adaptação que o Ser Humano revela quando confrontado com situações extremas.

Uma leitura perturbadora, nada aconselhável a estômagos fracos.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Há dias comecei a colectar as minhas leituras de 2013

para poder efectuar o último post do ano onde, mais para mim mesmo, refiro o número de livros que li, total páginas, etc e cheguei à conclusão que nunca li tão pouco como este ano.

Independentemente de alguns motivos intrínsecos, dei por mim ou dou por mim com pouca ou nenhuma razão motivacional para pegar em qualquer livro e, quando o faço, em numerosas ocasiões custa-me avançar tal o desinteresse que o mesmo me motiva.

A razão principal é a falta de qualidade dos livros que me chegam às mãos. Mesmo tendo acabado com as parcerias há mais de um ano, são ainda dezenas de livros que me foram enviados por diversas editoras que tenho em fila de espera e, parece-me, que por lá vão continuar, pois por ocasião da escolha do próximo, dou uma leitura pelas sinopses e o entusiamo é nulo.

Outras das razões é que, hoje em dia, poucos são os escritores que me entusiasmam, poucos são aqueles que me motivam a comprar assim que editam (este ano comprei apenas três livros, algo impressionante), logo e espremendo todo o ano, há apenas dois ou três livros em que isso aconteceu e aí, de facto, foram leituras prazerosas.

Este ano, pese embora o número de posts estejam dentro da média, foi também o ano em que menos tempo dediquei ao blog e à leitura de outros blogues. Sem referir nenhum em especial, até porque continuo a admirar um rol deles e as pessoas que estão por detrás, mas confesso que há muito tempo acho a blogosfera literária aborrecida, repetitiva, focada mais na promoção de editoras e pouco na elaboração de textos opinativos de qualidade que me despertem a curiosidade para alguma obra literária. Não lhes aponto o dedo, nem sequer acho que tenho o direito de achar o que quer que seja, mas é impressionante a quantidade de blogues que se limitam praticamente a “vomitar” passatempos e notícias de editoras, sem que tenham opiniões, ou então aquelas que elaboram, são fracas, praticamente sinopses melhoradas que denotam pouco conhecimento do que leram e até mesmo criando-me a dúvida se de facto leram mesmo o(s) livro(s). Ou seja, são blogues desinteressantes, aborrecidos, que estão apenas ao serviço de um conjunto de editoras que pretendem publicidade constante e gratuita. Mas enfim, isso é algo que eu já expressei em alguns locais e a tendência é até para isso aumentar.

Iniciei este blog em Junho de 2007, são mais de seis anos e, confesso, que há bastante tempo me passa pela cabeça fechá-lo, pois e como tudo na vida, tudo tem um fim e a apetência para escrever cada vez é menor, cada vez a satisfação é mais reduzida e acredito que isso se sinta nas próprias opiniões que escrevo. Longe vão os tempos onde escrever uma opinião me levava horas, lia e revia o que escrevia, voltava atrás, muitas vezes mandava fora e escrevia de novo. Agora, conforme está a acontecer com este texto, é tudo de enfiada, sem grandes preocupações estéticas ou de salientar “isto” ou “aquilo”. Escrevo praticamente após o término da leitura e sobre o que penso. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um bom natal!

Independentemente da crise que assolam alguns, deixo aqui os meus sinceros votos a todos os amigos e amigas que me acompanharam ao longo do ano.

Bem haja e muita saúde!


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Herói - Crónicas de Starbuck (IV) - Bernard Cornwell

Neste 4º volume das Crónicas de Starbuck, Bernard Cornwell continua na senda de Nathaniel Starbuck, jovem nortista que combate na guerra civil americana pelo lado dos rebeldes.

E, quanto a mim, é o livro mais brutal dos quatro.

As peripécias de Nate levam-no ao comando de um batalhão denominado “pernas amarelas”, nome pejorativo que simboliza a cobardia demonstrada por esse batalhão numa batalha anterior. Para além do enorme trabalho que vai ter em educar e motivar esses homens, vai-se deparar com oficiais pouco ou nada interessados em combater e mais em ganhar com a guerra.

No entanto, e obviamente, Nate lá consegue educar esse batalhão e apresenta-se na famosa batalha de Antietam e é a descrição dessa terrível batalha, onde pereceram num só dia mais de 23.000 homens, que Cornwell se ocupa durante dezenas de páginas, descrevendo-a de uma forma viva e intensa, descrevendo situações brutais e as condições onde milhares de homens combateram a pé e em muitos casos corpo a corpo.

Pessoalmente o livro valeu por isso. Já tinha ouvido falar dessa batalha que tem algumas cenas horripilantes no filme de 1989, Glory (http://www.youtube.com/watch?v=4Ix61Fn_3Es), e de facto são cenas brutais, mas Cornwell intensifica, ou se quisermos, dá-nos uma ideia clara da natureza e da realidade dessa batalha e, enfim, deixa-nos a pensar na imensa coragem daqueles homens.

Lamento que Bernard Cornwell não tenha continuado esta saga. Ele afirma que tem planos para continuar, No entanto este 4º volume já tem vários anos e não me parece que a vá continuar nos próximos tempos. Em todo o caso vale a pena ler estes 4 volumes.

Achei este brilhante documentário que retracta muito bem a brutalidade desta batalha: http://www.youtube.com/watch?v=NG0Jg3sulls

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Anjos Morrem das Nossas Feridas (Os) – Yasmina Khadra

Um livro maravilhoso!

Cada livro que leio de Yasmina é, para mim, um bálsamo, uma bênção de puro deleite literário, um fascínio face à arte que é a sua escrita, um eterno gozo que me faz ler, saborear o livro muito devagar, pois eu não o leio, aprecio, degusto frase a frase, letra a letra, como, presentemente, não o faço com mais nenhum autor.

Neste seu mais recente romance, Yasmina situa, conforme aconteceu com os outros que li, na sua Argélia e a acção, inicia-se nos primeiros anos da década de 20 do século XX logo após o final da Grande Guerra. Logo aí, Yasmina aborda o tema dos antigos combatentes que, após regressarem das trincheiras, se depararam com um país que não lhes dá mérito pelo que passaram e, mais grave, pelos traumas que trazem e que os reduzem a sombras dos homens que antes foram.

No entanto, é o percurso obstinado de um jovem que marca toda a narrativa. Turambo, nome de guerra, criança com pai ausente, que se vê, á força dos seus punhos, envolvido no mundo do boxe que o catapulta para a fama e o que, de melhor e pior, daí advém.

No entanto Turambo, no alto das suas virtudes, é um ser humano com altos princípios morais e são esses princípios que estão por detrás da sua queda. É a sua história que, pela sua voz, que nos propomos a ler, e a viagem é belíssima.

E é impossível ficar-se impassível pela narrativa. Indepentemente das condições políticas, religiosas e raciais que Yasmina nos vai situando, na minha opinião, o que marca o livro são as fortíssimas frases que nos assaltam quase folha a folha. São imensas citações que poderia aqui colocar, frases reflectivas que mexem com o nosso ser, que nos fazem meditar na vida e no que aqui andamos a fazer.

Uma narrativa intensa, maravilhosamente trabalhada e que é, para já, a melhor deste ano.

sábado, 30 de novembro de 2013

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Inimigo – Crónicas de Starbuck (III) - Bernard Cornwell

Neste 3º volume, Bernard Cornwell continua-nos a descrever a Guerra de Secessão (1861-1865) e a movimentação do exército confederado do Sul e do exército dos Estados Unidos do Norte e a devastação que ambos provocam um no outro.


Situando-nos no Verão de 1862 e no típico estilo de Cornwell, que muito admiro, o autor vai-nos narrando o dia a dia dos dois exércitos e sobretudo de Nathaniel Starbuck que combate pelo Sul. Cheio de intrigas e de situações verdadeiramente horripilantes, são aqui referidas situações reais de uma guerra civil que abalou os fundamentos dos Estados Unidos da América, situações brutais de uma violência inolvidável que colocou irmão contra irmão, pai contra filho.


E o autor é exímio na forma como dirige a narrativa.


Nathaniel Starbuck serve como referência, o habitual herói que “vira” grande guerreiro e que a tudo sobrevive, vivenciando factos violentíssimos, muito bem descritos e de uma realidade que nunca me deixa de surpreender.


Os relatos das batalhas são assim vivos, intensos e muito reais. Os gritos dos homens confundem-se com as explosões e o som cavo das balas a perfurar a carne. Os cheiros a pólvora misturam-se com os cheiros de corpos de homens e animais em decomposição, e os actos de heroísmo e de loucura se misturam numa confusa imagem que nos dão uma verdadeira perspectiva das batalhas. Muito interessante também a forma como o autor nos vai situando acerca do modo de vida dos soldados. Nas batalhas são muitas as descrições do processo de carregamentos dos rifles, no entanto o que mais admirei foi a descrição das precárias condições em que viviam os soldados. Homens que roubavam roupa e botas dos mortos para substituir pelas suas que ou estavam completamente rotas ou sem sequer existiam, a comida que era má e insuficiente e uma constante luta pela sobrevivência.


Em todo o caso gostei mais do anterior volume.


Neste volume actual a acção passa-se sempre por detrás das linhas, ou do Sul ou do Norte, o autor vai-nos dando as duas perspectivas, e vamos assistindo à ascensão de Nathaniel na escala hierárquica do batalhão. A meu ver falta neste volume o condimento de suspense que tão bem foi explorado no anterior volume quando Nathaniel Starbuck teve de se deslocar para as linhas do Norte. Aí ficámos sempre na expectativa que podia ser descoberto a qualquer momento, enquanto que neste actual volume é centrado quase em exclusivo nas várias batalhas.


Em todo o caso gostei bastante e fico expectante para a continuação das aventuras de Nathaniel Starbuck que, como o volume “Herói” tem o seu 4º e último volume até à data, pois Cornwell, pelo que sei, deixou esta série pendente, um pouco ao estilo do seu Sharpe.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

E eis que soube

hoje que vai ser editado o novo livro de Yasmina Khadra.

Poucos autores me entusiasmam actualmente como Yasmina me entusiasma.

Oba!