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quinta-feira, 19 de julho de 2018

Cebola Crua com Sal e Broa – Miguel Sousa Tavares


Miguel Sousa Tavares é alguém que não gera consensos. Há quem goste da sua postura e frontalidade e há quem não goste e refira que essa frontalidade é sim má educação. Pessoalmente estou do “lado” daqueles que gosto da sua postura algo irreverente, sem papas na língua e capaz de dizer na cara, a quem quer que seja, o que ele pensa, pois tento ser assim na minha vida e admiro aqueles que, sem querer saber do politicamente correcto, dizem o que pensam, fazendo do acto o que de mais precioso tem a liberdade.

Nascido em 1950, ele sabe bem o que é o fascismo, pois viveu-o na sua juventude e mais, é filho de duas personagens que foram conhecidos anti-fascistas, a sua mãe, a poetisa Sophia de Mello Breyner e o seu pai, Francisco Sousa Tavares, conhecido advogado que muito lutou contra o regime de Salazar.

Dessa forma, Miguel Sousa Tavares, nascido no Porto, narra neste seu livro de memórias, parte da sua vida, desde a sua infância até à fase adulta, onde, já licenciado em direito, mandou a profissão às malvas, para se dedicar a tempo inteiro ao jornalismo e, sobretudo, à escrita e pensamento, algo que, admite, o realiza e que ainda por cima lhe pagam.

E são várias as histórias que vão de 1960 a 2010, que perfilam durante quase 400 páginas.
Desde a sua estadia, que muito influenciou a sua vida e que vem dar origem ao título desta obra, numa quinta do Marão, onde passou alguns anos da sua infância. Ele, sem qualquer pejo, refere que os pais tinham imensas dificuldades económicas e que, por causa disso, tiveram de colocar alguns dos filhos a morar com amigos. Foi o caso dele.

O seu regresso a Lisboa (nasceu no Porto mas veio para Lisboa com 1 ano de idade, salvo erro), onde, no “meu” bairro da Graça, passou ali a sua infância e juventude. A estadia numa escola religiosa que ele odiou e que critica sem pudor, contando o que ali se passava. A Lisboa, desaparecida, dos anos sessenta, uma Lisboa que ele descreve como lúgubre, suja, mal iluminada, mesquinha, medrosa, fechada para o mundo, bafienta. A Faculdade de Direito, o jovem Marcelo Rebelo de Sousa, a madrugada do 25 de Abril de 1974 e os anos posteriores, onde, já licenciado, se deparou com ficheiros da PIDE que muito o incomodaram, deixando antever que continua a ser um assunto não resolvido, e posteriormente a sua entrada no jornalismo e várias histórias do meio com vários políticos, sobretudo Mário Soares a quem ele chama o pai da liberdade e a quem o país deve, explicando porquê, de não termos caído numa guerra civil após o 25 de Abril.

Muitas histórias que achei deliciosas, muitas das quais me revi, pois quando ele começa a contra as histórias das suas estadias no Algarve, nas noites de pesca à lula, revi-me no que lia, pois também eu tenho memórias lindíssimas desse tipo de pesca no Algarve.

Em suma, um livro para quem quer conhecer a opinião de quem viveu momentos impares da nossa História recente e, quer se goste, quer não, um livro honesto de alguém que soube e sabe viver a vida como quer e nunca foi politicamente correcto, demonstrando, que a honestidade intelectual e moral é algo que, acima de tudo, nos traz benefícios.

“Pode um homem viver impunemente começando a sua infância numa aldeia do Marão, comendo cebola crua com sal todas as merendas? E daí saltar para o mundo cinzento e as manhãs submersas da vida salazarenta da Lisboa dos anos sessenta? Acordar na manhã luminosa do 25 de Abril e descobrir que, afinal, éramos todos antifascistas e revolucionários e, logo depois, ir ao encontro do mundo e descobrir-se a si mesmo como uma testemunha privilegiada de tempos incríveis que, não os narrando, teria sepultado para sempre na cinza dos dias inúteis? Declaro que vi. E, por isso, conto. Antes que a água tudo lave e tudo apague”.


domingo, 15 de julho de 2018

Uma Longa Caminhada: Memórias de um menino soldado - Ishmael Beah


Em 1991 estala a guerra civil na Serra Leoa que só terminaria em 2002.

De uma forma muito geral, a guerra civil inicia-se por um grupo extremista denominado RUF (Frente Revolucionária Unida), também conhecida por rebeldes. Obviamente que por detrás dessa guerra, existia vários interesse de cariz económico, pois se a Serra Leoa fosse um país de fracos recursos, de certeza que não iria aparecer alguém contra o poder estabelecido e disponível para encetar uma terrível guerra que iria causar a morte a milhares de pessoas.

Independentemente das razões desse conflito, que qualquer pessoa pode pesquisar na internet, este livro aborda algo que sempre foi e sempre será muito usual, que é a utilização de crianças como soldados e a forma como se tornam inumanas à medida que o sofrimento e a sensação de perda invade as suas vidas.
Ishmael Beah foi assim uma dessas crianças que viu a sua infância perdida em prol de uma guerra que não entendia.

Obrigado a fugir da sua aldeia, Ishmael perde toda a família, assassinada pelos rebeldes, e, mais tarde, vê-se incorporado no exército nacional em que a sua missão seria combater e matar rebeldes.

De uma forma gradual, vamos assistindo a transformação de Ishmael de criança para um terrível assassino que mata sem piedade, drogando-se diariamente e fazendo dessa vida um vício, pois, mais tarde quando é salvo daquele inferno pela UNICEF, ele tem imensa dificuldade para reaprender a viver como um Ser Humano.

Este é pois um relato pungente do percurso de Ishmael e a forma como ele foi recrutado e como se transformou numa máquina de guerra com apenas 15 anos. Relatos atrozes do que ele fez, como matou e viu morrer, relatos dignos de qualquer filme de terror e que é difícil imaginarmos, pois são factos que vamos lendo por aí mas que julgamos sempre não suceder.

Mais impressionante é perceber que Ishmael foi apenas mais um. Não daquele conflito, mas de inúmeros. Hoje em dia, nos vários conflitos que existem no planeta, sabemos que existem crianças soldados e é impressionante perceber o que elas são obrigadas a fazer e a assistir e ficamos com a ideia que é completamente impossível voltarem a ser “normais”, pois depois de terem assistido e cometido tantas atrocidades, é impossível um Ser Humano ficar normal.

“A matança tinha se tornado uma atividade diária. Eu não tinha pena de ninguém. Minha infância tinha passado sem que eu soubesse e parecia que meu coração havia congelado.”

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Meu Testemunho Perante o Mundo (O) – Jan Karski


Agosto de 1939, Jan Karski, jovem recem licenciado, recebe uma ordem de mobilização para o exercito polaco. Nada impressionado, pois era opinião que os alemães não fariam nada de mal à Polónia face à ameaça francesa e britânica, Jan Karski responde a essa ordem dirigindo-se para a estação e é aí que se depara com milhares de homens na gare e percebe que algo de grave se está a passar.

A partir desse dia, Jan Karski encetará um percurso sinuoso que o levará a tomar contacto com as atrocidades da guerra e ao seio da resistência polaca, organização onde se centra este testemunho.

Preso pelos russos, que tinham um acordo com os alemães, Jan Karski acaba por conseguir evadir-se do campo dos prisioneiros, conseguindo regressar à Polónia, onde o move uma vontade férrea de combater o invasor, ou seja, fazer aquilo para o qual foi mobilizado. Porém o exercito polaco oficialmente está desfeito e é na resistência que Jan encontra o seu espaço levando-o a actos de sabotagem e espionagem. Vivendo clandestinamente sob várias identificações , Jan Karski dá-nos o seu testemunho daquele período de uma forma realista, dantesca até a forma como ele narra as atrocidades nazis.

Entroncando um pouco na obra que li recentemente “Mein Kempf -  História” , este testemunho quando foi escrito e publicado (1944), tinha como objectivo denunciar ao mundo as atrocidades nazis, julgando ele que o mundo desconhecia tais actos.

Mas desenganem-se. O mundo sabia quais as ideias de Hitler e o se estava a passar nos países ocupados. A intenção de Karski foi boa, mas a obra foi acolhida com frieza acabando por cair no esquecimento.

O mundo sabia!

Este é um relato assombroso da forma como a resistência polaca combateu o invasor, de como tentou chamar a atenção dos governos mundiais sobre o que se passava. Mas eles sabiam!           

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pequenas Memórias (As) - José Saramago


Em as “Pequenas Memórias”, o “nosso” Nobel da Literatura faz desfilar de uma forma séria, mas e ao mesmo tempo humorística, sempre num tom melancólico que é ditado pela saudade e também por alguns fantasmas que, note-se, Saramago vai exorcizando, as suas memórias, mas memórias da sua infância, particularidade que é responsável pelo título da obra: “pequenas”, porque são memórias de quando foi criança.

Situando-se nas décadas de 20 e 30, ora na Azinhaga, a aldeia onde nasceu, ora em Lisboa, para onde veio viver com os pais ainda bebé, vamos conhecendo o lado humano do escritor, as suas raízes e vivências, as suas mais profundas recordações, traumas e até aventuras e desventuras de um menino igual a tantos outros que, ele próprio o admite, teve uma infância feliz.

Mas é inegável o acerto de contas com algumas das suas memórias, sobretudo no que respeita a memórias familiares.

Este é um livro que, admito, deve interessar mais aos “amantes” de José Saramago como é o meu caso. O estilo está lá todo, assim como os jogos de analogias que ele tanto aprecia (eu também), sempre mordaz, irónico, por vezes bruto, mas transpirando amor e uma imensa saudade. Bem pode desmentir isso, mas é notória a saudade por um tempo há muito guardado na sua mente.

Não sei se ele projecta uma continuação, mas e pessoalmente adoraria. Até figo mais, Saramago deveria escrever as suas memórias, todas, ou pelo menos a que entender.


Classificação: 4

sábado, 3 de novembro de 2007

Longa Caminhada (A) - Slavomir Rawicz



No dia 17 de Setembro de 1939, o exército da URSS invadiu a Polónia. Cerca de um mês antes, mais propriamente no dia 23 de Agosto, a Alemanha nazi, através de Hitler, firma um acordo de Não-Agressão com a URSS de Joseph Estalin. Esse acordo previa a divisão da Polónia entre a Alemanha e a URSS no final da guerra. No dia 1 de Setembro, os alemães invadem a Polónia pelo Ocidente, enquanto que a 17, a URSS invade o país através das suas fronteiras do Oriente. Nessa invasão muitos inocentes perecem às mãos das tropas nazis e russas, no entanto, são as acusações de traição e espionagem que são hoje alvo de relatos e investigações. E é precisamente por uma acusação de ser espião, que o tenente da cavalaria do exército polaco, Slavomir Rawicz, se vê no meio do inferno.

Esta é uma história real. Narrada pelo próprio e escrita pela primeira vez em 1956, este é um relato pungente de homens que se viram acusados e privados da liberdade sem que nada tenham feito. O único mal que fizeram foi de terem estado no local errado aquando da passagem da maré fascista, numa autêntica "caça às bruxas" na União Soviética. Este é um relato, um grito de alerta ao mundo contra os malefícios do comunismo, da fanatismo político, do fascismo e, principalmente um grito a favor da liberdade e da vida, pois e conforme o próprio Rawicz afirma: "A liberdade é como o oxigénio".

Mas Slavomir Rawicz vê-se, sem saber porquê, aprisionado pelos russos que, sob enormes e variadas torturas, insistem para que ela assine um papel onde admite a sua culpabilidade. Recusando-se sempre a assinar tal documento, acaba por ir a julgamento sendo então condenado a 25 anos de trabalhos forçados num campo de trabalho na Sibéria. Já nesse campo (campo 303), Rawicz narra todas as privações e principalmente a forma como os próprios presos se organizavam. Até que derivado de alguns acontecimentos, toma consciência que a fuga é possível, no entanto ele sabe que a percentagem de êxito é baixa, mas ela existe.

Juntando-se a um grupo de 7 homens, no qual se inclui um engenheiro americano que se irá revelar um elo fundamental, estes homens iniciam uma fuga de 8.000 km, atravessando toda a Sibéria, Mongólia, Tibete, Himalaias, chegando por fim à Índia, onde são acolhidos pelo exército britânico.

Essa travessia dura cerca de um ano e é inimaginável o que aqueles homens sofrem.

Como devem supor, atravessar a Sibéria torna-se um tormento, ainda mais não tendo praticamente quaisquer víveres, dormindo de dia escondidos pelo gelo e caminhando de noite. Agora imaginem atravessar o deserto de Gobi (Mongólia) em pleno Verão e sem água. As descrições são tão reais e fortes, damos connosco a sentir o sufoco do calor, a lingua inchada, as pernas inchadas e os pés em chagas de tanto andarem.

Toda esta jornada se desenrola a pé. Trata-se de uma fuga e mesmo fora dos territórios da URSS, eles não estão seguros, pois os países que atravessam mantém laços de amizade com a URSS, logo, é sempre possível serem capturados.

Rawicz escreve este livro muitos anos depois. A edição actual é de 2000, revisada pelo próprio. Há muitos acontecimentos que o próprio afirma não se lembrar ou de ter uma ténue lembrança, no entanto e é talvez onde encontre algo a apontar a este relato, nota-se, aliás, sente-se e até se pode ler nas entrelinhas, que muita coisa ficou por contar. Embora ele afirme variadas vezes que não se recorda ou que não sabe bem como aconteceu, fiquei com a clara sensação, para não dizer a certeza, que ele omite propositadamente certos factos. A história da mulher do comandante do campo que o ajuda na fuga, está muito mal contada e claramente inacabada. Não sei se se passou algo entre eles, sinceramente não me pereceu, mas sente-se que ele a menciona porque ela foi importante na História, mas há algo que ele omite.

Depois também achei, e continuo-o a achar, muito estranho que, depois daquela fuga, não se terem iniciado buscas ou perseguições para capturar os fugitivos. Eles fogem e jamais relatam qualquer visão de qualquer perseguição. Mesmo com aquelas temperaturas, a nevar toda a noite, o que apagaria qualquer rasto que eles tivessem deixado, achei no mínimo estranho. Depois é também a aparente "facilidade" com que eles vão caminhando. Encontram sempre gente acolhedora que raramente lhes fazem perguntas. Enfim, não ponho em causa nada do relato, mas apercebi-me que existiram acontecimentos que Rawicz achou por bem não mencionar ao mundo.

Mas e mesmo com estes pequenos pormenores, esta é de facto uma viagem fantástica. Eles percorrem sítios recônditos de países longínquos, vêm gentes e seres estranhos (achei fabuloso o estranho encontro que ele têm em pleno Himalaias com duas estranhas criaturas que, segundo opinião de Rawicz, só podiam ser esse ser chamado Abominável Homem das Neves), passam fome, frio, sempre agarrados à esperança de alcançar a liberdade, sempre apoiados uns nos outros, todos como sendo um único corpo. Este é um relato comovente de amizade, coragem, dor, solidão, solidariedade, amor e fraternidade. Uma história que de certo incomoda todas aqueles que defendem e fomentam o comunismo e o fascismo e até para a própria História da Rússia, uma história que merece ser divulgada pelo mundo inteiro.

A todos que gostam de ler bons livros, a todos aqueles que gostam de fazer parte desta "família" chamada ser-humano, a todos aqueles que fomentam o amor e a solidariedade ao próximo, apenas posso aconselhar a leitura urgente deste magnífico livro. No entanto, para aquele que me incentivou a ler esta obra, deixo aqui o meu obrigado, assim como à restante comunidade livriana pelas suas excelentes dicas.