quarta-feira, 22 de julho de 2020

Há muito tempo!


Há muito, muito tempo, era eu uma criança, quando tive a oportunidade de ler uma obra que mudou a minha vida e, sobretudo, que fez de mim um leitor ávido.

A partir dessa altura, para além de ter lido (quase) tudo desse autor, li centenas, talvez uns dois milhares, de livros. Uns excepcionais, outros médios e, poucos, maus, pois porque há efectivamente maus livros, daqueles que nem valem a tinta.

Porém, e talvez pelo avançar da idade e da pouca paciência para conhecer novos autores, recordando as palavras de Sophia de Mello Breyner proferidas ao seu filho, resolvi voltar a esse autor, pois ai tenho a certeza da qualidade da escrita, da história e do entretenimento.

E, como há tanto tempo atrás, voltei a sentir a adrenalina, a excitação, o empolgamento de uma boa história, de um argumento verosímil que me leva a sentir na acção, a conviver e estar com uma galeria de personagens impressionante. 

E aí sim, voltei a sentir o prazer da leitura!


sábado, 16 de maio de 2020

Autobiografia - José Luís Peixoto

José Luís Peixoto é um escritor do qual nutro uma enorme simpatia, pese embora não seja um escritor cujas obras anseio ler, pois, as que li até à data, revelaram-se sempre leituras difíceis, embora muito prazerosas.

Dessa forma, na minha opinião, JLP “exige”, dos seus leitores, uma leitura apurada e atenta, pois os seus romances não são meros romances de entretenimento, revelando-se sim, romances onde as diversas realidades se fundem, onde a ficção se funde com a realidade num puzzle que se vai construindo a pouco e pouco, através de diversos jogos, onde a linguagem ocupa, sempre, lugar primeiro.

Neste seu último romance, o autor propõem-nos uma organização estrutural onde o cruzamento entre o realismo e a ficção se apoiam no autor e em José Saramago.

Dois Josés, étimos narrativos que se encontram e onde, um deles, se propõe a escrever a biografia do outro que, aos poucos, se vai revelando uma autobiografia.

È neste jogo, espécie efetiva de puzzle filosófico, que personagens reais se misturam com personagens ficticias retirados da obra de Saramago. Pilar, Bartolomeu de Gusmão, Lídia e os dois Josés, compõem assim um quinteto que chega a ser surrealista face às voltas e ao rumo que o romance toma.

E, à medida que a narrativa se vai desenvolvendo, eis que um segredo nos é atirado de chofre à cara, segredo esse que, na minha opinião, é subentendido a meio do livro face à interligação das personagens, porém, e não querendo desvendar qual o segredo, torna-se difícil compreender quais os objectivos de todos os pormenores, pelo menos torna-se difícil saber se estamos a interpretar corretamente.

Em suma, é um livro que exige a melhor atenção do leitor. Não é um daqueles livros para consumo imediato. É um livro que requer atenção. Quero crer que estamos na presença de um dos grandes livros da literatura portuguesa.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Annabelle 3: O Regresso a Casa (2019)


De longe o meu género preferido, os filmes de terror são algo que, hoje em dia, dificilmente me agradam e simplesmente porque, em qualquer filme, o realizador não resiste em colocar em cena vários dos clichés clássicos.

Este Annabelle 3, ao contrário dos seus dois antecedentes, revela-se um filme fraco, cheio dos tais clichés, que começa numa áurea efectivamente interessante e sombria, mas que rapidamente perde essa áurea, transformando-se num filme a roçar a comédia devido ao facto repetitivo e, por vezes, ridícula, como o filme é dirigido.

Ou seja, este filme tem a clara intenção de distribuir entretenimento a todo o público e não só ao publico dos filmes de horror, aproveitando a vaga dos filmes antecessores e, sobretudo, da reputação do casal Warren, casal esse tornado famoso pelos casos de Annabelle, Caso da Freira, família Perron, caso Amityville, entre outros.

Porém e a principal decepção é quando compreendemos que Annabelle dá nome ao filme e pouco mais, pois raras são a aparições dela e as que se sucedem, não assustam ninguém.

O filme acaba por valer um pouco pela atmosfera sombria, mas e como argumento, é muito pobre e não atinge aquilo que os fãs do terror buscam: adrenalina e sustos.

terça-feira, 9 de julho de 2019

10 Bons Livros para Ler num dia


Até há bem pouco tempo, gostava de ler apenas livros cuja quantidade de páginas fosse considerável. Ou seja, quanto mais extenso fosse o livro, mais eu o apreciava, pois adorava aquela sensação da “douração da pílula” e passar longas temporadas na companhia “daquela” obra.


Aos poucos isso foi mudando porque mudando foi também a minha paciência para ler histórias extensas, até porque comecei a aperceber-me que havia muita “palha”, situações desnecessárias com a intenção de prolongar o livro e que, bem espremido, não lhe acrescentavam nada.


E vai daí, comecei a descobrir pequenas obras que se revelaram Grandes e que se liam em poucas horas.


Escolho então 10 obras que se leem em poucas horas, perfeitamente possível num dia.





Cântico de Natal – Charles Dickens (184 Págs)


“Disparate! Feliz Natal? Que razões tens para te sentires feliz? És pobre!...".


Já muito se disse e escreveu sobre esta tocante e portentosa obra literária do mestre Dickens.

A obra nasceu na mente de Dickens com a intenção de valorizar a época natalícia que Dickens adorava. Tinha 5 filhos e era profundamente dedicada à família e a época, considera Dickens, era sinónimo de família, paz e fraternidade.

Assim, decidiu escrever este conto e publicá-lo a expensas próprias, vendendo-o posteriormente nas ruas a um preço simbólico.

O sucesso foi tão grande, que é a partir daí que a tradição do Natal se volta a impor, primeiro em Inglaterra, alastrando-se depois por toda a Europa e mundo ocidental.

É um livro que se lê em meia dúzia de horas. É um conto extraordinário que nos encanta e demonstra o verdadeiro espírito do natal.






A Morte de Ivan Ilitch – Léon Tolstoi (84 Págs)


Tolstoi é um dos maiores escritores de todos os tempos. Conhecido essencialmente pela sua fenomenal obra “Guerra e Paz”, Tolstoi foi um escritor com uma obra extensa, cujos títulos são, hoje em dia, motivo de exaustivos estudos.

Uma dessas obras é a Morte de Ivan Ilitch que aborda o tema da morte e o sentido da vida.

Percebendo que a morte se aproxima, Ivan Ilitch efectua uma retrospectiva da sua vida e principalmente questiona e reflecte sobre a vida e seu desígnio. Nasce assim um vasto exercício sobre o porquê da vida e qual o seu sentido.

É daqueles livros que aconselho quando me questionam de qual a melhor obra para se iniciar nos clássicos russos. Lê-se em poucas horas e o impacto é enorme.






A Metamorfose – Franz Kafka (96 Págs)


Mais um clássico da literatura.

O que dizer desta portentosa de Kafka?

Kafka cria uma metáfora sobre a escravatura do ser humano face ao trabalho, a sua alienação em prol de um mundo cada vez mais capitalista e egoísta, onde as relações humanas estão assentes em interesses mútuos, fazendo com que as relações humanas sejam cada vez mais supérfluas e vazias. Nessa metáfora, Kafka analisa e critica igualmente as relações familiares deixando antever a enorme injustiça que é não termos qualquer culpa da família no qual nascemos.

Como protagonista, Kafka cria Gregor Samsa que, um dia de manhã, ao acordar, constata que se tinha metamorfoseado em Barata, um ser que para os humanos, representa a imundice, o nojo, a impureza, o lixo.

Impressionante como em tão poucas páginas se constrói algo tão grandioso. É a tal questão essencial: O pouco é mais.

Mesmo sendo uma leitura que se deva fazer devagar, umas 3, 4 horas chegam para ler e entender esta pérola da literatura universal.






As Dez Figuras Negras - Agatha Christie (192 págs)


Pese embora não seja um grande fã de policiais, li muitos livros de Agatha Christie e aquele que mais me entusiasmou foi, sem dúvida, As Dez Figuras Negras.

E porquê?

Primeiro porque é um dos poucos livros de Christie em que não há um daqueles detectives que, embora perspicazes, tornam as histórias um pouco semelhantes. E depois, porque existe muitos laivos de terror.

Dez desconhecidos são convidados para passar uns dias numa mansão numa ilha. O convite parte do proprietário da mansão e os convidados, aparentemente, não têm qualquer relacionamento entre si. Aos poucos, todos eles se vão apercebendo que há um facto comum a todos: Ninguém conhece pessoalmente o proprietário que, curiosamente, não se encontra presente.

Durante o jantar, ouve-se a voz do anfitrião que acusa todos eles de esconderem um acto criminoso…

É um excelente livro que se lê de rajada, face também ao clima de tensão crescente e à forma clara a concisa como Agatha Christie escrevia.






As Rosas de Atacama - Luis Sepúlveda (144 Págs)


O título deste pequeno/grande livro, nasce da visita de Sepúlveda ao campo de concentração de Bergen Belsen (Alemanha), quando se deparou com a inscrição numa pedra: “Eu estive aqui e ninguém contará a minha história”.

Essa frase trouxe-lhe à memória muitas pessoas que havia conhecido que mereciam que a sua história fosse conhecida. Dessa forma, nasce um livro com histórias isoladas, onde a defesa da dignidade humana tem um papel fortíssimo.

É um livro encantador que se lê em poucas horas.






Memória das Minhas Putas Tristes - Gabriel García Márquez (107 Págs)


Garcia Marquez é, reconhecidamente, um dos maiores génios da literatura.

Conhecido principalmente pelo seu romance “Cem Anos de Solidão”, é autor de uma vasta obra, desde romances, contos, peças de teatro, crónicas, etc.

Uma das suas últimas obras, é este “Memória das Minhas Putas Tristes”, pequeno livro onde se pode desfrutar de todo o génio de Marquez.

Essencialmente o livro representa uma reflexão sobre a velhice e sente-se que é também uma espécie de autobiografia de Garcia Marquez.

É um livro que se lê facilmente num par de horas.






O Rapaz do Pijama às Riscas – John Boyne (192 Págs)
 

Este foi um dos livros que mais me tocou.

Explora, de uma forma magistral, a inocência infantil face à estupidez dos adultos.

Todo o livro é narrado do ponto de vista de uma criança que não compreende porquê que se tem de mudar da sua confortável mansão para uma casa localizada em nenhures. Mais estranho é o facto de ali não existirem crianças com quem ele possa brincar, excepto um menino que ele conhece que vive do outro lado da vedação de arame farpado. Estranhamente, esse menino, bem como todas as outras pessoas que vivem desse lado da vedação, usam um pijama às riscas.

É uma história comovente e tocante que tem um epílogo desconcertante que nos demonstra o quão terrível, cruel e absurdo foram os campos de concentração nazis.

Um livro que li numa manhã, pois é de leitura compulsiva.






O Rei de Havana – Pedro Juan Gutiérrez (200 Págs)


Um dos meus autores preferidos é o cubano Pedro Juan Gutiérrez. Dono de uma narrativa crua e extremamente visual, Pedro Juan não se coíbe em descrever a realidade de Cuba e principalmente a “sua” Havana durante a ditadura de Fidel Castro

Dessa forma escreveu um conjunto de romances que, na minha opinião, têm o auge da Qualidade através do livro “Trilogia Suja de Havana”.

Neste “O Rei de Havana”, que é uma espécie de continuação da “Trilogia”, o autor apresenta-nos páginas cruas, por vezes violentas, do quotidiano dos cubanos, onde a fome a miséria andam de mãos dadas. Pedro Juan narra o dia-a-dia de Reynaldo, que depois de assistir à morte da família, é encerrado numa instituição onde aprende a desenrascar-se, algo que para os cubanos, é um desporto nacional.

É um livro delicioso que se lê perfeitamente num dia, pois é escrito numa linguagem simples e directa e os episódios narrados têm o condão de agarrar o leitor.







A Noite dos Mortos-Vivos – John Russo (136 Págs)


Decidi colocar este livro nesta lista pela razão de ter sido um dos primeiros livros de terror que li e porque o mesmo está na origem dessa moda do género "apocalipse zumbie" que há décadas invadiram o mundo ocidental.

Este pequeno livro, intenso, terrorífico e cheio de sangue, é o livro que posteriormente é adaptado ao cinema por George Romero em 1968 e que hoje é considerado um clássico do género. No entanto por detrás do filme, está a obra de John Russo que, sabe-se, foi escrita precisamente já a pensar no filme, longe estando eles de pensar que estariam a criar um clássico da literatura e do cinema.

Intenso e assustador, é um livro que se lê em poucas horas, pese embora seja um livro cheio de situações fortes, absurdas e altamente sangrentas.







A Herança de Eszter – Sandor Marai


A minha primeira experiência na literatura de Sandor Marai foi este “A Herança de Eszter” e confesso que adorei o livro que li em poucas horas.

A estrutura do livro é simples e muito objectiva.

Eszter viveu durante anos uma existência pacífica e monótona. Até que um dia recebe um telegrama de Lajos, o seu grande amor, que a informa que dentro de dias chegará a sua casa para a visitar.

A partir daí desenrola-se uma série de acontecimentos que irão evidenciar a personalidade manipuladora e canalha de Lajos, simultaneamente que são narrados factos do passado.

É um livro inquietante e perturbador que se lê em duas, três horas sem qualquer esforço.