quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Não Matarás - Júlia Navarro

 

Confesso ser um apreciador dos romances de Júlia Navarro, sobretudo os romances históricos, pois, para além da autora saber criar uma narrativa, consegue sempre construir e transmitir os acontecimentos históricos, situando-nos no contexto e, criando igualmente uma narrativa onde diversos personagens se vão interrelacionando em narrativas separadas mas que têm sempre elos em comum.

Este seu último romance “Não Matarás” vem assim nessa linha e situa-nos no após Guerra Civil Espanhola, onde nos transmite a profunda separação que sucedeu depois do seu término, entre vencedores e vencidos onde, estes últimos, vivam em pânico aguardando, a qualquer altura, ser fuzilados ou ver os “seus” homens fuzilados.

É uma fase muito interessante de uma Espanha destruída, física e moralmente, tentando-se reerguer de uma guerra fratricida que iria deixar marcas profundas na sua sociedade.

Assente, essencialmente, em três personagens, surge um vasto panteão, onde a autora consegue criar perfis psicológicos diversos e é interessante seguir a sua evolução.

A Acção temporal é longa.

Inicia-se pós Guerra Civil Espanhola (1939) e termina cerca de 40 anos depois.

Durante esse tempo, há acontecimentos marcantes do século XX, mas que e essa é a primeira crítica que faço, são pouco ou nada explorados.

Por exemplo, a Guerra de 1939-1945 é vista como algo muito longínqua que pouco ou nada afecta os acontecimentos do livro.

E porquê?

Porque a autora centra a sua história nesses três personagens, sobretudo em dois, colocando-os numa redoma e pouco saindo daí.

A meu ver, falha redondamente, tornando o livro maçudo, demasiado extenso e muito repetitivo.

Não faz sentido 1000 páginas. 500 Páginas seriam mais do que suficientes para narrar aquela história.

Depois há acontecimentos que são tão repetitivos que chegam a roçar o ridículo.

 Há alguém que passa todo o santo livro a perseguir alguém que não quer nada com ela. Foge dela, causa-lhe asco e isso é cansativamente transmitido. Porém, insiste e insiste e insiste. Se a ideia da autora era mostrar que alguém importante é na sua essência um canalha, isso é logo conseguido no início, era escusado tanta insistência. É irritante!

Mas há mais factos sem grande coerência que me vou escusar de mencionar, até porque não me quero alongar sobre a história.

Em suma, um livro interessante que até se lia rapidamente face à simplicidade da escrita, mas que se torna maçudo e aborrecido, prolongando a sua leitura, pois dei por mim a só conseguir ler 3, 4 páginas por dia, por desinteresse.


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A mulher que escreveu a Bíblia – Moacyr Scliar

 

Que livro espectacular!

Livro curto (160 páginas), mas de enorme Qualidade. Arrisco mesmo a dizer que é um dos melhores livros que li este ano, senão mesmo o melhor.

Uma narrativa surpreendente, com uma linguagem simples e muito visual, começa por contar a história de uma jovem mulher que, após uma desilusão, recorre à ajuda de um terapeuta de vidas passadas, descobrindo que, há três mil anos foi uma das centenas de esposas do Rei Salomão. Encerrando-se sobre si mesma, resolve empreender a narração da sua passada vida e é, dessa forma, que conhecemos a sua fascinante aventura que a leva à primeira versão do Antigo Testamento.

Narrada sob o ponto de vista de uma mulher, a nossa heroína, que de tão feia se tornava grotesca, vê nas letras o seu escape para a sua infelicidade e, após casar com o rei Salomão, é incumbida pelo poderoso rei e esposo de empreender a escrita de uma obra que irá perdurar no tempo: o livro sagrado.

Embora o assunto seja algo delicado, o autor consegue criar uma narrativa credível mas impressionantemente irónica e mordaz, com laivos de erotismo, onde a linguagem vernácula abunda mas em que nunca nos sentimos incomodados.


Mas vai muito mais longe.

Não esquecendo que é um livro onde a mulher é personagem principal, o autor tece críticas à importância do aspecto visual em detrimento do intelecto, bem como a uma sociedade marcantemente machista e patriarcal que marca indelevelmente a religião ocidental. Sempre numa perspetiva feminina o que, confesso, me surpreendeu.

A sexualidade feminina também é realçada de uma forma, diria, sem filtros, divertida e descontraída.

Em suma, é uma obra exepcional que toca em vários assuntos, sempre de uma forma irónica, mordaz e muito divertida, mas que nunca choca, antes pelo contrário, leva-nos a dar grandes gargalhadas e a simpatia pela personagem vai em crescendo até ao epílogo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Noite em que o Verão Acabou (O) – João Tordo

 

Thriller…

Um género raramente explorado por escritores portugueses e que tem uma enorme escola nos países nórdicos.


Em todo o caso e como aprecio a escrita de João Tordo, tinha enorme expectativa nesta obra e, adianto que não saíram defraudadas, pese embora considere o livro excessivamente extenso face à história e ao desenvolvimento da mesma. Ou seja, o desenrolar da história, mesmo dividida em três momentos temporais, é extensa e algo desnecessária, caindo por diversas vezes em situações redutoras, por vezes até em círculos que vão dar sempre ao mesmo local.

Mas o interessante é que a narrativa é sempre excitante, numa velocidade estonteante, que se lê num ápice (li as suas 667 páginas em 5 dias), porque a escrita de Tordo tem enorme qualidade, ele consegue criar situações, mesmo redutoras, interessantes, criando uma ilusão sobre a veracidade da história, pois a partir de certa altura, que é mais intensa no fim, o autor deixa-nos na dúvida sobre se a história efectivamente sucedeu, se aquilo tudo não passa afinal de uma narrativa verídica, onde o autor troca apenas os nomes e os locais.

Porém, e não apenas pela desnecessária extensibilidade, o livro não é um thriler. O autor pode ter tido a intenção de escrever um thriller, mas fica um pouco longe disso. O trama em si é algo rebuscado e com pouco ou nenhum suspense.

A fase inicial deixa antever uma história rocambolesca, onde sucede um homicídio com contornos estranhos. Este homicídio liga a principal personagem que se encontra nos Estados Unidos a estudar e, devido a uma velha amizade, se vê envolvido nas investigações. Mas e à medida que a história se vai desenvolvendo, começamos a constatar que se trata mais de uma história de amor não correspondido do que um thriller.

É um excelente livro, com uma história boa e interessante, com laivos de thriller, mas que não é um daqueles thrillers intensos a que nos habituamos por outras paragens. É mais soft, digamos que é uma mescla de géneros, mas onde a escrita do autor brilha intensamente.