domingo, 9 de novembro de 2008

Vida num Sopro (A) - José Rodrigues dos Santos



A acção temporal tem apenas dez anos, mas dez anos onde acontecimentos determinantes sucederam tendo do um impacto determinante a nível nacional e internacional.

1929-1939, dez anos.

Dez anos onde ventos de mudança sopram. Assiste-se ao nascimento do Estado Novo num Portugal assustado, rude, inseguro, só o facto desse regime trazer ordem e segurança foi o bastante para o mesmo originar a simpatia pela larga maioria do povo.

1929-1939, dez anos onde nasce, decorre e finda a Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Uma guerra entre Nacionalistas e a Frente Popular, apelidados de blancos e Rojos, estes compostos pela esquerda (comunistas, anarquistas e também o governo eleito liberal-democrático). Uma guerra onde atrocidades são cometidas de uma forma arbitrária, sendo este conflito um laboratório de experiências para o conflito mundial que estava prestes a rebentar. Curioso o que está por detrás da ajuda camuflada do regime português aos nacionalistas.

1929-1939, dez anos onde o regime do Estado Novo ganha força e cria um sistema de informação acerca dos cidadãos tidos como ameaça para a nação (regime) e, mais grave, um sistema onde qualquer pessoa podia ser informador, bufo, e assim atraiçoar o melhor amigo ou qualquer familiar que tivesse a ousadia de proferir qualquer frase contra o regime. Ou seja, a imposição do regime do medo que, até hoje, nunca nos conseguimos apartar. Por detrás desse sistema a PVDE (Polícia de Vigilância Do Estado) ou a Pevide, como era conhecida pelo povo.

Neste livro são estes os três pontos principais da narrativa.

Como pano de fundo, interligando estes acontecimentos que nos colocam no cerne desses três pontos, uma história de amor. Uma simples, singela e trágica história de amor entre Luís Afonso e Amélia Rodrigues.

Passado entre Bragança-Lisboa-Penafiel-Vinhais, esta história é o elo condutor entre a vida e mentalidade rural e citadina. A mudança de mentalidades e a forma como se sente a diferença das mesmas de local para local não passa aqui despercebida.

Um livro apaixonante que narra acontecimentos importantes que estiveram por detrás da longevidade desse regime. Facilmente entendemos do porquê do surgimento do regime, do porquê de tão facilmente ter sido acolhido e do porquê de ter durado tantos anos. Quanto a mim o livro vale por isso.

A escrita é simples.

Aflorada por frases poéticas, José Rodrigues dos Santos não se perde em devaneios tão comum na maioria dos autores portugueses. Os diálogos são simples e directos, caracterizando a época com termos locais não faltando mesmo o castelhano e o galego.

É um livro na mesma linha da “Filha do Capitão”. Na minha opinião não se podem comparar devido aos temas que um e outro trata, no entanto o estilo é o mesmo mas confesso que este “A Vida num Sopro” apaixonou-me menos, no entanto sublinho que considero a “Filha do Capitão” um dos grandes livros da literatura universal, logo, será extremamente difícil JRS fazer melhor.

Este “A Vida num Sopro” é muito bom. Lê-se num fôlego, num sopro e facilmente nos apaixonamos pelos personagens, até porque, como é costume nos seus livros, JRS tem a capacidade de criar personagens do povo, gente como nós que facilmente incorporam se não nós mesmos, pelo menos, nossos antepassados.

10 comentários:

Mónica Colaço disse...

Este deve de ser uma das minhas próximas aquisições. Gosto muito do estilo da escrita do JRS, fluída, sem grandes devaneios como é costume dos escritores portugueses (o que leva a que alguns livros sejam do mais enfadonho que possa haver).
Relativamente a este livro li uma notícia em que António Lobo Antunes o classificava como uma m****. Achei do mais triste este tipo de atitude mas confesso que o desagrado dele ainda aumentou mais a minha curiosidade acerca do livro (minha e muitos outros portugueses com certeza).

WhiteLady3 disse...

Já passei tantas vezes por ele, a suspirar, a pensar se o compro ou não. Depois desta crítica devo mesmo adquiri-lo. Ainda tenho A Filha do Capitão cá em casa por ler, mas devo dizer que apreciei bastante O Códex 632.

Iceman disse...

Olá Mónica.

Eu também gosto muito da escrita de JRS. Já li todos os seus livros e, repito, a Filha do Capitão é dos melhores livros que alguma vez li.

Acerca do Lobo Antunes, alguém liga a esse tipo?

Esse considera-se o único escritor que deve ser lido, vive num egocentrismo obtuso cheio de mofo que transpira podridão por todo o lado.

Esse pseudo-escritor enoja-me. Não ligo pévia ao que profere e ele dizer que este livro é m*** significa então uma brutal dor de cotovelo por alguém que só no dia de lançamento deste livro vendeu mais do que esse "tem-a-mania-que-é-escritor" em toda a vida.

Por mim esse borolento pode ir morrer longe.

Iceman disse...

Olá WhiteLady3.

Ainda não leste a Filha do Capitão"?

Oh fatal ultraje, nem sabes o que estás a perder.

A Filha do Capitão, assim como este A Vida num Sopro, são livros diferentes dos da saga de Tomás Noronha. Enquanto esses poderão ser considerados thriller's históricos, estes A Filha do Capitão e a Vida num sopro, são romances históricos onde são focados acontecimentos importantes da História de Portugal.

Livros em 2ª Mão disse...

Bem, depois desta crítica fiquei com um pouco mais de vontade por ler este livro. No entanto, não será brevemente.
Quanto "A Filha do Capitão", ainda fiquei mais entusiasmada...
Outro livro que também foca alguns aspectos deste (Guerra Civil Espanhola, "pevide", etc.) é o "Rio das Flores" de Miguel Sousa Tavares. :)

Canochinha disse...

Iceman, quero muito ler este livro e fiquei entusiasmada com a tua opinião. Por enquanto, fica em standby por motivos de €€€, mas eventualmente há-de ir parar a minha casa :)

Iceman disse...

Ora viva "Livros em 2ª mão" e "Canochinhas".

Bom, tudo o que possa dizer mais acerca deste livro é contar mais sobre o mesmo e isso não quero fazer.

Para os apreciadores do JRS este livro será apaixonante, no entanto também não elevem demasiadamente as expectativas.

Não li o "Rio das Flores". Achei-o demasiado caro e a sinopse não me cativou. Mas é apenas uma questão de tempo.

Pedro disse...

Já estou a lê-lo! =DD

Espero vir a gostar do livro como tu gostaste ;) É realmente muito fácil de ler!

Iceman disse...

Viva Pedro.

Tenho a certeza que vais gostar do livro. Nós dois somos fãs de JRS, logo, é difícil ele escrever um livro que não nos agrade porque sobretudo apreciamos o estilo e a técnica dele.

;D

Pedro disse...

Acabei acabei! ;)