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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Agincourt – Bernard Cornwell



Eis que depois de vários anos, volto a ler um livro empolgante de Bernard Cornwell, um daqueles livros que me fizeram considerar este autor como o meu preferido e um livro onde é a rara a página em que não existam descrições de sangrentas batalhas.

Agincourt ou Azincourt foi uma batalha, travada em 1415 entre os franceses e os ingleses e onde, reza a lenda, surgiu o símbolo do V da Vitória, feito com os dedos indicador e médio. Mais do que uma batalha, Azincourt tornou-se para os franceses símbolo de humilhação (tirando a época de Napoleão, a História francesa está cheia de humilhações) e para os ingleses símbolo de uma batalha mítica que tornou Henrique V rei de Inglaterra e França.

Conforme é seu apanágio, Bernard Cornwell é exímio na explanação de toda a época medieval e dos acontecimentos que antecederam esta batalha, salpicando, como é normal, pois trata-se de um romance, de vários acontecimentos ficcionais. No entanto poucos são esses acontecimentos ficcionais, pois até as personagens, na sua grande maioria, são reais e Cornwell é mestre em lhe dar vida e voz.

Seguimos assim as peripécias de Nicholas Hook, jovem arqueiro, que a contas com uma inimizade familiar ancestral se vê fugido para França, iniciando-se aí o seu périplo o irá levar ao serviço de um poderoso senhor e à presença do Rei de Inglaterra. Inserido no exercito que ataca França em 1415, Hook toma parte nesta brutal batalha e é face ao seu discurso que somos levados a conhecer o que sucedeu nesse dia, uma batalha que foi uma das mais importantes e sangrentas da Europa medieval.

Em todo o caso e após já ter lido quase todas as obras de Bernard Cornwell, não considero esta livro como um dos melhores e explico porquê. Pese embora seja brutal na sua narrativa, quanto a mim deixa algo a desejar em alguns aspectos. Primeiro, achei-o muito repetitivo. A constante inimizade de Hook com outros personagens vai-se desenrolando ao longo do livro com quase nenhuma evolução, salpicada aqui e ali por episódios quase caricatos e pouco consistentes. Depois, as cenas de batalha são muito semelhantes entre elas: ventres estripados, golfadas de sangue, elmos amolgados, albardas afiadas espetadas nos olhos até ao cérebro, machados esmagando armaduras e é sempre o mesmo. São páginas atrás de páginas com descrições muito semelhantes, de uma brutalidade inaudita que de certo irá impressionar aqueles que não estão habituados ao estilo de Cornwell. Finalmente, e não sendo apenas mais esse pormenor, penso que o autor poderia ter trabalhado mais na história afectiva de Hook que até começa bem, mas que depressa perde fôlego até se tornar numa mão cheia de nada.

Ou seja, gostei do livro, deu para voltar a sentir aquela adrenalina e intensidade apenas sentidas nos romances de Bernard Cornwell, mas, a meu ver, este “Agincourt” fica aquém de outros do autor, sobretudo no excepcional “Crónicas do Senhor da Guerra”, uma trilogia poderosa, brutal e muito bem narrada e recriada.

Finalmente sinal negativo para a revisão da obra efectuada pela Planeta Editora. Possui várias gralhas, palavras com letras trocadas e inclusive incompletas. Mas enfim, é um pormenor menor.


domingo, 15 de maio de 2016

Fogo Cruzado – Bernard Cornwell



É do conhecimento comum que os Estados Unidos foram uma colónia britânica durante muito tempo e que só em 1783 os Estados Unidos conseguiram a sua independência, numa Guerra que durou 8 anos (1775-1783), guerra essa conhecida por: Guerra de Independência dos Estados Unidos, Guerra Revolucionária Americana, Guerra Americana da Independência, ou simplesmente Guerra Revolucionária.

Confesso que antes de ler este livro, a minha ignorância sobre o tema era altíssima, pois julgava que se havia tratado de uma guerra entre soldados britânicos e americanos, no entanto fui percebendo que houve implicações mais profundas e com a participação de outras nações, casos da França, Holanda e Espanha, ou seja, praticamente todas as potências militares da altura entraram ao barulho, tornando assim este conflito uma espécie de Guerra Mundial.

Em todo o caso esta opinião versa sobre este livro que tem como pano de fundo a Guerra da Independência.

Bernard Cornwell situa-nos em 1777 na cidade e arredores de Filadélfia. Os britânicos ganham terreno e obrigam à fuga dos americanos. Na cidade ficam apenas os lealistas e alguns patriotas que, embora não escondendo as suas opções, convivem lado a lado com o inimigo em constantes tertúlias de uma hipocrisia atroz. Obviamente que esse convívio fomenta traições e jogos políticos cujo o autor é exímio na construção de toda uma narrativa que nos prende do principio ao fim do livro.

Como em todos os seus livros, ele vai construindo personagens de vários tipos de carácter.

Temos o herói, o vilão, os amigos do vilão, os amigos do herói, enfim, uma panóplia de personagens fortíssimos que ajudam, e muito, a que nos mantenhamos agarrados ao livro, pois nunca sabemos o que vai surgir a seguir.

Outra imagem de marca de Cornwell, que faz com que o considere o meu autor preferido no género do romance histórico, é a brutalidade e a forma viva como narra as batalhas. Uma vez mais, sentimo-nos no campo de batalha, onde homens morrem de forma atroz. São violentíssimas as descrições e, como em todos os seus livros, dei por mim a ouvir as explosões, os gritos, os toques da corneta e os relinchar dos cavalos. Confesso que é algo que muito me atrai neste autor, pois ele não se limita a ser quase fiel aos factos históricos, consegue embelezar os seus romances com descrições de batalhas como julgo terem sido, ferozes e brutais.

Em suma, já tinha saudades de um romance deste género e, pese embora não me tenha preenchido de uma forma plena, sobretudo porque é uma época que não me sinto especialmente atraído (prefiro romances históricos na Idade medieval), acabei por o ler num ápice.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Herói - Crónicas de Starbuck (IV) - Bernard Cornwell

Neste 4º volume das Crónicas de Starbuck, Bernard Cornwell continua na senda de Nathaniel Starbuck, jovem nortista que combate na guerra civil americana pelo lado dos rebeldes.

E, quanto a mim, é o livro mais brutal dos quatro.

As peripécias de Nate levam-no ao comando de um batalhão denominado “pernas amarelas”, nome pejorativo que simboliza a cobardia demonstrada por esse batalhão numa batalha anterior. Para além do enorme trabalho que vai ter em educar e motivar esses homens, vai-se deparar com oficiais pouco ou nada interessados em combater e mais em ganhar com a guerra.

No entanto, e obviamente, Nate lá consegue educar esse batalhão e apresenta-se na famosa batalha de Antietam e é a descrição dessa terrível batalha, onde pereceram num só dia mais de 23.000 homens, que Cornwell se ocupa durante dezenas de páginas, descrevendo-a de uma forma viva e intensa, descrevendo situações brutais e as condições onde milhares de homens combateram a pé e em muitos casos corpo a corpo.

Pessoalmente o livro valeu por isso. Já tinha ouvido falar dessa batalha que tem algumas cenas horripilantes no filme de 1989, Glory (http://www.youtube.com/watch?v=4Ix61Fn_3Es), e de facto são cenas brutais, mas Cornwell intensifica, ou se quisermos, dá-nos uma ideia clara da natureza e da realidade dessa batalha e, enfim, deixa-nos a pensar na imensa coragem daqueles homens.

Lamento que Bernard Cornwell não tenha continuado esta saga. Ele afirma que tem planos para continuar, No entanto este 4º volume já tem vários anos e não me parece que a vá continuar nos próximos tempos. Em todo o caso vale a pena ler estes 4 volumes.

Achei este brilhante documentário que retracta muito bem a brutalidade desta batalha: http://www.youtube.com/watch?v=NG0Jg3sulls

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Inimigo – Crónicas de Starbuck (III) - Bernard Cornwell

Neste 3º volume, Bernard Cornwell continua-nos a descrever a Guerra de Secessão (1861-1865) e a movimentação do exército confederado do Sul e do exército dos Estados Unidos do Norte e a devastação que ambos provocam um no outro.


Situando-nos no Verão de 1862 e no típico estilo de Cornwell, que muito admiro, o autor vai-nos narrando o dia a dia dos dois exércitos e sobretudo de Nathaniel Starbuck que combate pelo Sul. Cheio de intrigas e de situações verdadeiramente horripilantes, são aqui referidas situações reais de uma guerra civil que abalou os fundamentos dos Estados Unidos da América, situações brutais de uma violência inolvidável que colocou irmão contra irmão, pai contra filho.


E o autor é exímio na forma como dirige a narrativa.


Nathaniel Starbuck serve como referência, o habitual herói que “vira” grande guerreiro e que a tudo sobrevive, vivenciando factos violentíssimos, muito bem descritos e de uma realidade que nunca me deixa de surpreender.


Os relatos das batalhas são assim vivos, intensos e muito reais. Os gritos dos homens confundem-se com as explosões e o som cavo das balas a perfurar a carne. Os cheiros a pólvora misturam-se com os cheiros de corpos de homens e animais em decomposição, e os actos de heroísmo e de loucura se misturam numa confusa imagem que nos dão uma verdadeira perspectiva das batalhas. Muito interessante também a forma como o autor nos vai situando acerca do modo de vida dos soldados. Nas batalhas são muitas as descrições do processo de carregamentos dos rifles, no entanto o que mais admirei foi a descrição das precárias condições em que viviam os soldados. Homens que roubavam roupa e botas dos mortos para substituir pelas suas que ou estavam completamente rotas ou sem sequer existiam, a comida que era má e insuficiente e uma constante luta pela sobrevivência.


Em todo o caso gostei mais do anterior volume.


Neste volume actual a acção passa-se sempre por detrás das linhas, ou do Sul ou do Norte, o autor vai-nos dando as duas perspectivas, e vamos assistindo à ascensão de Nathaniel na escala hierárquica do batalhão. A meu ver falta neste volume o condimento de suspense que tão bem foi explorado no anterior volume quando Nathaniel Starbuck teve de se deslocar para as linhas do Norte. Aí ficámos sempre na expectativa que podia ser descoberto a qualquer momento, enquanto que neste actual volume é centrado quase em exclusivo nas várias batalhas.


Em todo o caso gostei bastante e fico expectante para a continuação das aventuras de Nathaniel Starbuck que, como o volume “Herói” tem o seu 4º e último volume até à data, pois Cornwell, pelo que sei, deixou esta série pendente, um pouco ao estilo do seu Sharpe.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Traidor – Bernard Cornwell

Traidor é o segundo volume das Crónicas de Nathaniel Starbuck, uma série que Bernard Cornwell “pega” de vez em quando e que descreve a Guerra Civil Americana. Não tendo apreciado por aí além o primeiro volume,  este 2º volume já me senti transportando para o melhor estilo de Bernard Cornwell que muito admiro, criando toda uma narrativa brutal e cheia de aventuras.

Nathaniel Starbuck, capitão da Companhia K dos Confederados, vê-se numa luta pela sua idoneidade e, como forma de salvar a sua honra, empreende uma viagem às linhas do exército do Norte onde irá encontrar o seu beato irmão e todo um conjunto de lendárias personagens. Em toda esta aventura, cheia de situações violentas, Nathaniel assumirá a sua vontade de lutar por uma causa que abraçou por mero acaso mas que, agora, tem como sua.

Baseado em factos reais, Bernard Cornwell, com este segundo volume, traz-nos de volta um registo à sua imagem: violento, brutal, cheio de descrições de batalhas minuciosas onde os factos são escalpelizados, “Traidor” é um livro que simplesmente adorei, mais um a juntar a enormíssimo leque das obras de Bernard Cornwell.

Situado em 1862 e narrando os acontecimentos da Guerra Civil Americana, o autor cria um romance histórico baseado em factos e personagens reais. Os acontecimentos não são inventados. Nathaniel Starbuck é um personagem que serve para criar o contexto, no entanto a maioria dos personagens são reais assim como os acontecimentos. A batalha de Ball’s Bluff que resultou numa enorme derrota para o Norte, as intrigas políticas e militares e até pequenos pormenores que tiveram influência no desenrolar do sangrento conflito, são aqui referidos de uma forma excitante e meticulosa, dando uma visão clara do rumo da guerra e da sua brutalidade.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Rebelde – Crónicas de Starbuck (I) – Bernard Cornwell


Mais um livro que me levou uma eternidade a ler, não só porque o meu tempo para dedicar à leitura já não é o mesmo e porque, também e estranhamente, este livro, ou pelo menos este primeiro volume desta trilogia, não me cativou, aborreceu-me mesmo.

Muitos sabem o quanto admiro a escrita de Bernard Cornwell. Exceptuando os inúmeros livros da saga Sharpe, penso que já li tudo o que ele escreveu e, embora tenha gostado mais de uns do que de outros, fascina-me sempre a forma viva como Cornwell “pinta” os cenários históricos que cria, a forma realista como descreve batalhas e quotidianos há muito perdidos na História.

Nesta presente saga, Bernard Cornwell situa a acção em 1861 em pleno início da Guerra Civil Americana. De um lado os Estados Confederados do Sul e do outro, os Estados Unidos do Norte. De notar ser este o contexto, no entanto e neste primeiro volume, Cornwell nunca se debruça sobre questões políticas, ou seja, quem não souber do porquê deste conflito, nada vai ficar a saber.

O herói dá pelo nome de Nathaniel Starbuck. Nascido no norte, filho de um pregador anti esclavagista, foge para o Sul atrás de uma prostituta por quem se apaixona, no entanto, vê-se nas mãos de um bando de sulistas que o querem linchar. É salvo pelo excêntrico Washington Faulconer que o convida a incorporar um regimento de tropas para combater os yankees. Starbuck vê-se assim diante de um dilema: ao alistar-se nas tropas do sul, vai combater as tropas do seu país, arriscando-se a encarar no campo de batalha o seu irmão e amigos.

Pese embora o estilo de Cornwell esteja lá. A forma objectiva, directa e realista, o certo é que ele perde-se na descrição da composição do regimento Faulconer, assim como em pormenores da excentricidade desse personagem. De princípio ao fim, a personagem de Nathaniel não é muito credível. Ou seja, jamais consegue ter aquele carisma que os principais personagens de Cornwell têm. Não é muito coerente a sua forma de agir, nem lógico as causas que o levam a tomar parte de um lado que não é o seu. Depois, um dos principais pormenores das obras de Cornwell, é ter sempre um personagem forte que combate como um leão e que inspira nos seus inimigos temor. Com Nathaniel isso não acontece. Pouco mais do que um miúdo, ele próprio não sabe bem o que anda ali a fazer e, na única batalha que este volume descreve, Nathaniel assume uma postura e age de uma forma estranha.

Algo que também não apreciei, foi a quase ausência de cenas de violência militar. Ou seja, qualquer livro de Cornwell é semeado abundantemente de cenas de batalhas ou de conflitos extremamente violentos e reais. Aqui isso não se passa. Exceptuando uma ou outra escaramuça, apenas nas últimas páginas surge uma batalha entre os dois exércitos. Claro que escorre então muito sangue, homens e cavalos esventrados, etc e tal, mas o certo é que não chega para elevar este livro a um dos melhores deste autor que, pessoalmente, é um dos melhores do gênero histórico.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Senhores do Norte (Os) – Bernard Cornwell


“Os Senhores do Norte” é o 3º volume da saga “Saxónica” e, à semelhança dos antecessores, o autor desenha-nos todo um cenário violento e cruel onde a lei se fazia pela espada e pela honra.

Embora romanceado, sabemos que esta história é fortemente baseada em factos verídicos, aliás, o segredo de Cornwell é precisamente o de saber conjugar ficção com realidade, fundindo-a, confundindo o leitor que fica sem saber onde começa uma e acaba outra tal o realismo das suas narrativas.

Mas convenhamos, não é nada fácil escrever uma obra destas. Sendo eu um leitor de quase todas as suas obras, constato que ele sabe descrever épocas e acontecimentos através dos poucos documentos, sabe pesquisar, procurar na arqueologia dados que fundamentem as obras, dando vida a épocas cuja memória se perdeu no tempo, reconstrói essas épocas e é sublime na forma como transporta o leitor para esses cenários fazendo-os parte integrante. Bernard Cornwell é mestre nessa fusão, um exímio contador de histórias que utiliza um estilo cinematográfico que emociona, cativa e excita.

Neste 3º volume, Uhtred continua o seu caminho para recuperar as suas terras usurpadas pelo seu tio e vingar a morte do seu pai adoptivo. Nascido saxão, Uhtred foi criado por vikings e encontra-se quase sempre dividido entre a lealdade ao seu rei saxão e a lealdade a um povo que ele tanto gosta, os dinamarqueses. Nessa perspectiva, Bernard Cornwell dá-nos a conhecer o modo de vida dos saxões e dos dinamarqueses.

Parte integrante da obra e como não podia deixar de ser dada a sua influência, a igreja ou o sistema cristão que na época já estendia os seus corruptos tentáculos por toda a ilha,

Cornwell explora esse facto muitíssimo bem, dando-nos uma perspectiva da influência cristã e da sua asfixia ao paganismo que, curiosamente, foi beber tantas das suas crenças sendo isso já perceptível.

A fórmula de Cornwell é a do costume: o narrador, que velho se propõe a narrar os importantes acontecimentos que tomou parte. Muita violência, dados que são lançados nos finais dos capítulos e um ritmo narrativo brutal que, diga-se, é algo que me encanta em Bernard Cornwell.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Cavaleiro da Morte (O) – Bernard Cornwell


Há uma lenda britânica que afirma que o Cavalo Branco de Westbury foi esculpido em 1770 em substituição de um cavalo mito mais antigo que foi gravado na encosta da colina após a batalha de Ethandun em 878 d.C. Esse cavalo comemorava uma grande vitória dos saxões que possibilitou a sobrevivência da Bretanha e é sobre esses acontecimentos que se debruça este livro, Vol.II da “Saga Saxónica”.

Uhtred é agora um jovem guerreiro arrogante e convencido que é invencível e decidido a recuperar as terras que foram do seu pai e que lhe pertencem por direito.

Dividido entre o seu próprio povo e o povo invasor que o criou e onde fez amigos, Uhtred decide acatar o conselho de Alfredo e desposa uma jovem saxã. Assim se vê confinado às suas novas posses levando uma vida chata de agricultor em simultâneo que Alfredo concorda numa trégua com os dinamarqueses.

Uma vez mais assente em factos Históricos verídicos, misturados com contos tradicionais, Bernard Cornwell traça um fresco do Séx.IX, época bárbara conhecida como a Idade das Trevas.

À semelhança do primeiro volume, e adivinha-se ao longo de toda a série pois é uma das marcas de Cornwell, a maioria dos personagens existiram realmente e tomaram parte dos acontecimentos narrados.

Obviamente que tal época tem variadíssimas falhas documentais, ou seja, dessa época há muitos períodos vazios, no entanto a mestria de Cornweel consegue preencher esses espaços criando uma narrativa poderosa que emociona pela descrição do modo de vida, excita pelas descrições das batalhas e entusiasma pela forma viva, exultante e real como o autor mistura todos esses factos, criando na nossa mente um quadro vivo, diria cinematográfico da acção.

Quatro séculos após a invasão da Bretanha pelos Saxões (a acção temporal de “Crónicas do Senhor da Guerra”), eis os antigos invasores a defenderem agora as suas terras de terríveis inimigos que ali se encontravam apenas para matar, violar e saquear.

É disso que narra este volume II, a forma como um reino sobreviveu.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Último Reino (O) – Bernard Cornwell


Este é o primeiro volume de uma série intitulada “Crónicas Saxónicas” e que em Portugal vai no quarto volume estando previsto, para este ano, a edição do quinto volume da série.

Baseado em factos verídicos, o que é apanágio de Bernard Cornwell, que para mim é o melhor escritor do género Romance Histórico, este primeiro volume, para além de conter várias personagens reais dos quais destaco Alfredo pela sua importância, baseia-se em vários documentos da época, entre outros, uma biografia de Alfredo pelo bispo Asser e as Crónicas Anlgo-Saxónicas.

A técnica narrativa de Cornwell é a verificada nas suas outras séries. Aqui existe um rapazinho, Uhtred Uhtredson, que assume a posição de narrador presente (autodiegético). Personagem ficcional, ocupa a principal posição na obra e é através dele que vamos tomando conhecimento dos terríveis acontecimentos no tempo e no espaço.

Ilhas Britânicas, ano de 866 d.C., uma época dominada pela violência onde o ser humano não podia fazer grandes planos para o futuro, pois a morte podia surgir a qualquer altura. É nesta existência que os saxões dominam o território que futuramente se chamará Englaland (Terra dos Anglos). Dividido em quatro reinos, não há um Rei Supremo como tinham os Bretões, antigos senhores do território (ler Crónicas do Senhor da Guerra).

É nesse ano que os dinamarqueses, os célebres vikings, invadem as ilhas e é numa das primeiras batalhas que Uhtred é capturado aos 10 anos pelos dinamarqueses.

Particularidades fazem com que o jovem seja poupado à morte sendo alvo da simpatia de Ragnar, o seu captor e um dos chefes dinamarqueses. E é assim que Uhtred é criado no seio daquele povo, não só se afeiçoando a este povo invasor como e principalmente aprende a combater como eles.

Para quem já leu as obras de Bernard Cornwell, não ficará surpreendido diante da narrativa que se segue. Extraordinariamente viva, brilhantemente pesquisada, os acontecimentos, sobretudo as batalhas, são extremamente violentas e visuais ao ponto de sentirmos todo o fragor das contendas e dos homens em agonia. São poderosas as descrições, que de factos aconteceram, horríveis as chacinas e selváticas a forma como se mata e morre em guerras sustentadas corpo a corpo.

Curiosa a forma como ele descreve os dinamarqueses. Actualmente conhecidos como vikings ou Lobos do Mar, ficaram com uma reputação de bárbaros que invadiam para matar e roubar. Embora de facto haja um fundo de verdade, Bernard Cornwell desmistifica esses factos e designações assim como outros factos lendários associados a esse povo. O autor escreve de acordo com a realidade e essa é a verdadeira essência do Romance Histórico onde Bernard Cornwell é mestre.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Em Demanda da Relíquia - Bernard Cornwell


Há vários anos que sou um profundo admirador de Bernard Cornwell, autor britânico responsável por uma série de romances históricos verdadeiramente excepcionais, destacando contudo a trilogia “Crónicas do senhor da guerra”, simplesmente do melhor que li até à data.

A escrita de Bernard Cornwell não tem nada que possamos classificar como único ou transcendente. O estilo dele é simples, mas é essa simplicidade que torna os seus livros tão empolgantes. Ele não perde muito tempo com descrições desnecessárias. Focalizasse objectivamente na descrição da época abordada e isso é algo que marca inegavelmente o seu estilo, pois ele consegue agarrar o leitor com a escrita, principalmente porque descreve de uma forma nua e crua não só a época, como nunca esconde (até faz gala) a brutalidade da mesma.

Quantos e quantos romances históricos que lemos, alguns até bem interessantes, que mostram a idade medieval cheia de amor e fraternidade, um mar-de-rosas, onde todos são amigos e onde a violência parece algo tão distante...

Com Cornwell vivemos as épocas da forma que elas foram. A brutalidade das guerras, o modo como elas se faziam. As relações humanas, a clara divisão de classes sociais. O modo de uns verem os outros, ou seja, em qualquer romance de Bernard Cornwell entramos nas épocas, quase que os sentimos presentes, quase que entramos no próprio romance. Digo quase porque não pretendo efectuar uma análise mais pormenorizada nem pretendo convencer ninguém, mas eu quando leio Cornwell, sinto-me dentro do romance, vivo as batalhas, consigo até ouvir o relinchar dos cavalos e os gritos dos homens.

Esta trilogia denominada “Em demanda da relíquia” e composta pelos romances “Harlequin”, “Vagabundo” e “O Graal”, situa-nos em plena Guerra dos Cem Anos que opôs a Inglaterra à França por todo o séc. XIV.

Thomas de Hookton é um jovem inglês que vive com os pais numa pequena aldeia piscatória que, subitamente, é invadida por dezenas de soldados franceses que arrasam a aldeia assassinando todos os seus habitantes, exceptuando Thomas que consegue fugir.

Esse episódio, que acaba por ter um objectivo que aqui não revelo, acaba por marcar a vida de Thomas, traçando então o seu destino que o colocará no caminho da maior obsessão de toda a idade medieval, da mais valiosa relíquia da cristandade: O Santo Graal.

Numa época tão marcada pelo surgimento de relíquias que supostamente pertenciam ao próprio Jesus Cristo, Bernard Cornwell retracta brilhantemente todo esse agitado período, onde os acontecimentos se sucedem em catadupa sem qualquer quebra, cheio de entusiasmo, suspense e vitalidade.

Uma trilogia que se lê num só fôlego tal a ânsia de sabermos o que vai acontecer a seguir, qual o desenrolar da batalha ou o destino dos vários personagens, personagens fortes, com alma.

Não sendo o melhor que li de Bernard Cornwell, esta trilogia apresenta-se como uma obra Histórica de eleição e altamente aconselhável para aqueles que escolheram o género histórico como o seu predilecto.


Classificação: 5

sábado, 6 de outubro de 2007

Stonehenge - Bernard Cornwell

Stonehenge situa-se na zona de Wiltshire, zona rica em ruínas pré-históricas com mais de 350 sepulturas que servem de testemunhas a uma intensa actividade que, outroura, dominou a planície de Salisbury.
Constituído actualmente por um anel de monólitos de arenito ligados por inúmeros lintéis e com uma altura de 5 metros, Stonehenge é apenas uma sombra do monumento/construção que um dia foi. Conhecido pelos saxões por Pedras Erectas "Stonehenge" ou "Hanging Stones" (Pedras Suspensas), enquanto que na época medieval eram conhecidas por "Dança de Gigantes", Stonehenge foi, provavelmente, construída há cerca de 5.000 anos, sendo então constituído por uma formação circular em torno da qual se dispunham 56 fossas formando assim um anel. Investigações efectuadas na segunda metade do séc. XX, colocaram a descoberto evidências claras de uma avenida de monólitos que ligavam o monumento ao rio Avalon, a cerca de 3,2 km de distância. Esses monólitos, assim como aqueles utilizados para edificarem Stonehenge, foram extraídos e transportados desde a zona Sul do País de Gales, a cerca de 320 km de distância. Todo este cuidado e preciosismo dá-nos uma clara ideia da grande importância que Stonehenge constituiu para os seus construtores. Sabe-se também que o monumento teve várias etapas de construção, pois cerca de 1500 após o início da edificação, ainda se procedia a arranjos finais.
Stonehenge é um assunto extraordinário que levanta muitas e pertinentes questões:
Quem a construiu? Qual a sua finalidade? Porquê a necessidade daquele tipo de pedras (pedra-lipes e arenito do País de Gales)? E mais extraordinário fica este mistério quando se sabe que ali foram celebrados ritos funerários; que Stonehenge constituía um sofisticado meio de observação do céu; que se podia tratar de um poderoso templo cósmico dedicado aos doze deuses do zodíaco; que o monumento aponta o exacto momento do nascer do Sol quando os dias são mais longos e, mais extraordinário, como foi possível transportar enorme blocos de pedra de arenito a uma distância tão grande (há uns anos tentou-se recriar esse transporte apenas com as ferramentas da altura e, essa experiência constituiu-se como um autêntico fracasso).
E mais há para dizer. Bernard Cornwell teve a coragem de abordar de frente este mistério e essa coragem é de salientar e louvar.
Famoso pela forma realista e excitante como descreve mundo antigos, Cornwell é, na minha opinião, um dos melhores escritores de romances históricos, sendo autor de uma das melhores obras que alguma vez li: "Crónicas do Senhor da Guerra", e precisamente por ter aquele dom da escrita, de Bernard Cornwell espera-se sempre uma grande narrativa e, afirmo aqui, ele também tem essa responsabilidade.
Neste livro e embora seja impossível não fazermos comparações com a obra acima referida, Cornwell não foge às expectativas, criando um romance excitante, com acção e bastante realista de uma época distante onde existem poucas evidências dos seus habitantes, quanto mais da forma de eles pensarem e agirem.
Na base do livro, embora o seu objectivo seja a construção de Stonehenge, estão três irmãos filhos do chefe de Ratharry, cujos feitios e ambições são completamente distintas. Nessa trilogia de amizades, interesses e conflitos, os mitos, crenças e medos vão interagindo de uma forma convincente com o povo e com o leitor, dando assim origem ao desenvolvimento de uma obra que porá em evidência a supremacia da sua tribo no seio dos Deuses, um importante legado para que jamais esqueçam aquele povo: Stonehenge. E assim Cornwell, assente em profundas pesquisas sobre o tema, dá-nos a sua visão e teoria sobre o assunto: Foi um monumento construído para efeitos religiosos. Talvez!, digo eu.
Uma obra que me apaixonou, sobretudo pela forma como Cornwell dá vida aos personagens, pela forma como consegue tornar real as suas descrições e, principalmente, volto a repetir, pela sua enorme coragem em, através do romance histórico, abordar um assunto que mais ninguém abordou.
Uma narrativa excelente, mas que perde um bocado, pelo menos em relação a "Crónicas do Senhor da Guerra", pela quase ausência de suspense, ou seja, Cornwell não tem muito para explorar em relação a batalhas e acontecimentos sangrentos, facto que fazem de "Crónicas do Senhor da Guerra" uma obra monumental.
Um livro que aconselho e que consegue dar uma visão realista desses tempos tao longínquos e desconhecido.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Crónicas do Senhor da Guerra - Bernard Cornwell

Esta opinião visa toda a obra no seu conjunto não especificando nenhum dos volumes em particular.

Esta é uma obra que já reli por diversas vezes.. Na minha primeira leitura, há uns 10 anos, fui levado por um entusiasmo e um fascínio tão grande que e durante muito tempo, considerei esta obra como a da minha vida, aquela que recomendava sempre que me solicitavam alguma opinião sobre bons livros (ainda recomendo).

Senti-me novamente maravilhado e, embora agora não a considere como a obra da minha vida (Guerra e Paz é inultrapassável... acho!), tenho-a como uma daquelas que guardo gratas recordações pelos excelentes momentos que me proporcionou.

Quanto ao conteúdo:

A lenda arturiana, tal como ela hoje é conhecida, jamais foi comprovada, aliás, a existência de Artur é ainda uma incógnita havendo várias incongruência factuais à roda do nome e da real existência da personagem. No entanto, Bernard Cornwell efectua uma brilhante investigação histórica do tema, abordando frontalmente a questão e, em todos os três volumes, ele tece considerações sobre a época e os factos em que ele se baseia. Classifica documentos e nomes e não tem qualquer problema em desmistifcar essa lenda, nunca escondendo porém ele próprio ser um fã da mesma.

Assim Cornwell cria uma personagem fictícia para narrar a história de Artur. Século Quinto, Derferl Cardan, agora monge e já com uma idade avançada, escreve em língua saxã, a pedido da Rainha Igraine, as suas memórias de Artur, o Rei que Nunca Existiu, o Inimigo de Deus. Somos então levados pelas palavras de Derfel num caminho que se vai interligando com o de Artur e de outras personagens também míticas.

Um dos factos que mais me apaixonou, é o sentido violento e real que Cornwell imprime na narrativa e a quase ausência de magia. Embora a magia esteja quase sempre presente, nem que seja pelas imensas superstições, Cornwell dá-lhe sempre um tom soft, dando inclusivamente explicações a muitas manifestações ou brincando mesmo com elas.

Assente numa escrita simples e fluída, ele descreve minuciosa e detalhadamente as crenças, os usos e costumes daquelas gentes, da sua forma de pensar e de agir e, fundamentalmente das batalhas. Confrontos violentos e sangrentos, transporta-nos ao local de uma forma sublime onde, por vezes, parece que tudo aquilo está realmente a acontecer, todos aqueles gritos, os escudos que embatem violentamente uns nos outros, os cavalos que, assustados, espezinham homens em agonia que sufocam no seu próprio sangue, vomitado e excrementos. Até os cheiros nos faz sentir; a própria sensação de medo que os soldados sentem antes da batalha (quase todos se encharcavam em hidromel para ganharem coragem) e é arrepiante aquelas descrições daqueles momentos de ânsia, aquele compasso de espera onde os guerreiros se preparam para entrar na batalha, onde um homem pode estar a viver os seus últimos minutos ou um dia de glória. Onde a canção de Beli Mawr é cantada em uníssono pelos guerreiros bretães que e com a ajuda dos seus deuses, reúnem coragem para enfrentar o exército oponente.

Fabuloso!

Aqui a távola redonda não passa de uma mera mesa de madeira suja de comida e vomitado (palavras de Derfel); Excalibur jamais esteve cravada numa pedra; Guinevere é uma mulher ambiciosa que leva demasiado longe essa ambição; Lancelot... bom, Lancelot não passa de um reizinho arrogante, que se revela um cobarde, um mentiroso e um traidor; Merlin passa grande parte do tempo ausente, tendo aparições fulminantes e empolgantes, embora tenha também um papel determinante; Morgana... não é nada semelhante aquela Morgana que a lenda refere.

Uma história que aborda tempos violentos varridos por guerras e indefinições religiosas, sendo nítido os ventos de mudança que se faziam sentir, onde o fim do paganismo e o surgimento do cristianismo é uma realidade. É curioso também verificar uma constante crítica que o autor vai fazendo ao cristianismo em grande parte da obra. É notório o papel desestabelizador dessa religião na região e, grande parte dos conflitos, são gerados por interesses cristãos. Ou seja, é claro que o papel do cristianismo foi o de dividir para reinar, o de impor e obrigar a seguir uma ordem, o de matar qualquer oposição ou qualquer Deus ou religião que fizesse sombra ao cristianismo.

Em suma: Uma história fantástica que recria uma época longínqua onde a espada era a lei mas onde ainda existia lugar para a verdadeira amizade. Uma obra que aconselho a todos e que no fim nos deixa tristes por acabar e que também acaba por saber a pouco, pois Derfel deixa por contar como e onde acabaram certos personagens. Mas o certo é que estamos tão dentro da história, tão compenetrados que é-nos difícil acreditar e aceitar que já acabou.

Um romance histórico que me levou a adoptar este estilo como o meu preferido.