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sábado, 31 de outubro de 2009

Caim – José Saramago



José Saramago, único Nobel da Literatura português, gera amores e ódios.

Dono de um feitio muito próprio, sem dúvida algo prepotente e pedante, sabe, contudo e como poucos, contar histórias que chocam mentalidades, aproveitando, explorando uma cultura (a portuguesa) provinciana, saloia, anacrónica e supersticiosa.

Saramago é um profundo conhecedor da natureza humana. Dá provas disso em todos os seus romances, exaltando e salientando os vícios, defeitos e virtudes do ser humano.

Assim, sabe como tocar em muitas feridas, pontos sensíveis do ser humano, criando obras polémicas porque simplesmente escreve aquilo que pensa sem receios do politicamente correcto, do “parecer bem” tão tipicamente português e isso choca, cria incómodo, até porque as pessoas se revêem nos seres humanos criados por Saramago.

Em “Caim”, Saramago é apenas e só Saramago na sua melhor forma.

Devido à polémica gerada aquando do lançamento do livro, a expectativa era grande, sobretudo porque tenho no “Evangelho Segundo Jesus Cristo” o seu melhor livro, aquele onde Saramago é mais corrosivo. Fiquei então com a convicção ser este “Caim” do mesmo género. Andei perto, é de facto do mesmo género, mas é mais violento, mordaz, irónico e ostensivamente belicoso.

Quer queiramos quer não, crentes ou não crentes, todos fomos educados à luz da tradição católica/cristã. Estamos imbuídos de valores cristãos que quando os vemos ser colocados em causa pode criar alguma estranheza e algum, ou muito, choque.

Estou convicto que “Caim” tratou-se de uma ajuste de contas entre José Saramago e Deus (com a igreja no pensamento) em que ele, conforme direito que lhe assiste, demonstra toda a sua descrença e asco.

Independentemente das minhas próprias crenças, o certo é que respeito a crença de cada um, a religião de cada um e julgo que em “Caim” José Saramago se excede (ele acabou por admitir precisamente isso), quer na linguagem, quer no propósito.

Eu adorei o livro!

Delirei com a ironia cortante, com a forma como Saramago vai mostrando o ridículo, a insanidade e a impossibilidade da existência de um Deus e dos episódios descritos no Velho Testamento. Mas achei excessivo o ódio impregnado nas palavras.

Há passagens, quase todas, que evidenciam a suprema maldade, a malévola essência do Deus Cristão, que ridicularizam a figura de Deus, porque não obstante o livro conter várias passagens do Velho Testamente (confesso que nunca li a Bíblia, apenas algumas passagens aqui e ali) “Adão e Eva”, “Torre de Babel”, “Moisés quando desce o Monte Sinai”, “O Dilúvio”, entre outros, o que aqui se ressalva é o constante ataque a Deus e o quanto o mesmo não passa de uma mera criação humana ou então de um ser ridículo, fraco, vingativo, maldoso e cheio de defeitos.

O livro é excelente. O diálogo do querubim com Adão e Eva aquando da expulsão destes do Jardim do Paraíso, a narração do Dilúvio, onde Saramago coloca Caim (figura presente em todas as histórias) na barca, é de ir às lágrimas de riso. As conversas de Caim com Deus são soberbas, a forma como o mesmo Caim parte pelo mundo… enfim, um livro que ficará na galeria das grandes obras da literatura portuguesa, mais uma destinada a ser clássico.

A ideia de Deus é, confesso, o único erro que não posso perdoar ao homem” - História de Juliette ou as Prosperidades do Vício", Marquês de Sade


Classificação: 6

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pequenas Memórias (As) - José Saramago


Em as “Pequenas Memórias”, o “nosso” Nobel da Literatura faz desfilar de uma forma séria, mas e ao mesmo tempo humorística, sempre num tom melancólico que é ditado pela saudade e também por alguns fantasmas que, note-se, Saramago vai exorcizando, as suas memórias, mas memórias da sua infância, particularidade que é responsável pelo título da obra: “pequenas”, porque são memórias de quando foi criança.

Situando-se nas décadas de 20 e 30, ora na Azinhaga, a aldeia onde nasceu, ora em Lisboa, para onde veio viver com os pais ainda bebé, vamos conhecendo o lado humano do escritor, as suas raízes e vivências, as suas mais profundas recordações, traumas e até aventuras e desventuras de um menino igual a tantos outros que, ele próprio o admite, teve uma infância feliz.

Mas é inegável o acerto de contas com algumas das suas memórias, sobretudo no que respeita a memórias familiares.

Este é um livro que, admito, deve interessar mais aos “amantes” de José Saramago como é o meu caso. O estilo está lá todo, assim como os jogos de analogias que ele tanto aprecia (eu também), sempre mordaz, irónico, por vezes bruto, mas transpirando amor e uma imensa saudade. Bem pode desmentir isso, mas é notória a saudade por um tempo há muito guardado na sua mente.

Não sei se ele projecta uma continuação, mas e pessoalmente adoraria. Até figo mais, Saramago deveria escrever as suas memórias, todas, ou pelo menos a que entender.


Classificação: 4

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Homem Duplicado (O) - José Saramago

Agora que está prestes a sair um novo romance de José Saramago, lancei-me novamente na (re)leitura deste nobel escritor que, quanto a mim, é o melhor escritor da actualidade.
Este ”Homem Duplicado” foi publicado no final de 2002 e é, talvez, o romance menos conseguido do escritor e pelas razões que apontarei mais adiante.
No universo saramaguiano (acabei de inventar a palavra), um universo que podemos classificar de Realismo Fantástico, temos quase sempre um cenário onde pessoas comuns se deparam com um acontecimento violento que, de algum modo, lhes afectará a vida.
Em “Memorial do Convento”, a construção do convento toma a posição desse violento acontecimento.
No “Evangelho Segundo J.C.”, um homem rude descobre que é, imagine-se, filho de Deus.
No “Ensaio sobre a Cegueira” há o aparecimento de uma cegueira colectiva que irá afectar o normal quotidiano de todo um povo, estratégia seguida dentro dos mesmos moldes em “Ensaio sobre a Lucidez”.
É uma estratégia muito própria de Saramago que, dono de um estilo que destila uma ironia acusadora dos podres da sociedade através de metáforas, consegue sempre construir tramas bem urdidos com princípio, meio e fim (salvo em o “Ensaio sobre a Lucidez”).
Em o ”Homem Duplicado”, Saramago segue essa tal estratégia construtiva, no entanto comete um pecado que desvirtua grande parte da beleza da obra, ele quase que copia o enredo de “Todos os Nomes”, aliás, é completamente indissociável a colagem entre esses dois romances.
O “Homem Duplicado” é construído tendo por base uma questão: ”Será possível existirem pessoas duplicadas?”, ou seja: ”Será possível haver pessoas que têm, algures no mundo, uma outra igualzinha a ela, um duplo?”. Ao fim e ao cabo uma questão que já tem sido levantada por outros escritores, simplesmente um conflito de identidade.
Tertuliano Máximo Afonso é professor de História no ensino superior. Divorciado e esquecido desse casamento, porque um homem esquece-se do que não se quer lembrar e lembrar é próprio daqueles que não se querem esquecer. Vive agora sozinho e aborrecido, desesperadamente à procura do seu Eu, enquanto se relaciona num relacionamento Não-Relação com uma bancária. Só e triste, resolve que está necessitado de uma distração excitante e, a conselho de um amigo da mesma profissão, empreende uma viagem ao louco mundo do vídeo-clube da zona a fim de alugar o tal filme sugerido, sugestão essa que recaí num daqueles filmes cómicos de 3ª categoria produzido por uma produtora desconhecida e só, mas de 4ª categoria. Mas dias não são dias e ala que se faz tarde, eis o nosso, salvo seja, Tertuliano com a cassete na mão, preparando-se para assistir, no conforto do seu lar, a este belo e desconhecido filme. Senta-se confortavelmente e após visionar alguns minutos de filme, constata o surgimento em cerca de 5 cenas de um personagem igualzinho a ele. Sem tirar nem pôr, a sua cara cuspida e escarrada: “Sou eu!”, afirma Tertuliano, de Máximo Afonso no nome.
Depressa regressa ao vídeo-clube no sentido de alugar mais filmes daquela desconhecida e suspeita produtora e, após horas a visionar esses mesmos filmes, dá de “caras” novamente com ele mesmo, aliás, e perdida a cabeça que já está, pois perdido por um perdido por mil, Máximo Afonso, dá então de “frontispício” com esse actor. Tem então o cuidado de, através das fichas técnicas e depois de excluir alguns factos e pormenores de somenos importância, descobrir o nome desse actor e criar todo um intricado plano para descobrir onde mora. E agora é que é, assim o disse assim o fez, Ala que se faz tarde.
José Saramago, que tem tanto de bom escritor como de pedante, elabora neste livro um género de crónica não muito honesta, pelo menos em relação ao leitor.
Desconheço se houve ou não intenção dele, mas ele usa-se da fórmula do romance “Todos os Nomes” onde um funcionário do Cartório vai em busca de uma pessoa da qual apenas sabe o nome, desconhecendo até se essa pessoa ainda é viva. Assim elabora todo um esquema de busca, não sabendo contudo o significado dessa busca nem a sua reacção quando a completa-se.
Logo, Saramago utiliza-se de um para construir o outro. Varia um bocado a forma, obviamente, mas é indismentível que repete esquemas, situações e inclusivamente, julgo porque não estive para investigar, repete, pelo menos na forma, um monólogo.
Esse é o seu grande pecado e o “pormenor” pelo qual considero este romance como o seu livro menos conseguido, aquele onde ele revela uma grande falta de inspiração que em nada revela o seu génio.
Mas o estilo está lá.
Os pensamentos íntimos do personagem, embora e por vezes se perca em demasiados eufemismos. Os diálogos imaginários com o Bom Senso são divertidíssimos, mas também pecam um pouco pelo exagero com que ele os utiliza. O tom mordaz com que vai descrevendo as situações, sempre assente em metáforas alusivas aos males da sociedade, o constante jogo cúmplice entre o escritor e o leitor, enfim, uma escrita com o cunho de Saramago.
Longe de possuir a mesma beleza estética e a força narrativa dos seus outros livros, este “Homem Duplicado” lê-se muito bem e diverte-nos com as suas constantes “bocas”. No entanto Saramago parece brincar demasiadamente com o leitor, parece querer dar-se ao luxo de fazer crer que este é um romance original. Não é, longe disso, porque e repito, segue a mesma linha de “Todos os Nomes”, inclusivamente as “mensagens” subjacentes repetem-se e esse é o seu maior pecado.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Ensaio sobre a Lucidez - José Saramago

José Saramago, aquando do anúncio deste novo título afirmou ser este um livro capaz de provocar um escândalo dos diabos e que teria o condão de provocar mais celeuma que o "Evangelho Segundo J.C." e mais, que se o livro não provocasse um abanão na opinião pública, significaria que os portugueses estariam a dormir. O que ele decerto se esqueceu é que grande parte dos portugueses não têm qualquer hábito de leitura nem querem saber nada de política, logo e por muito que ele escreva, há muita gente que nem sabe quem é José Saramago (claro que exagero...).

Muito honestamente, penso que a pedrada lançada não tem o poder de fazer qualquer mossa. E afirmo isso porque e após ter efectuado uma análise à obra no seu conjunto, acho que as críticas irónicas lançadas pelo escritor aos podres do nosso sistemas política e social não me surpreenderam em nada, ou seja, quem estiver minimamente atento à nossa realidade da nossa sociedade em todas as suas vertentes, não precisa que venha nenhum Saramago, qual iluminado apontar o dedo, e quem se estiver a borrifar por essa realidade, também não se estará ralando por perceber aonde o escritor quer chegar com as metáforas que vai criando.

A obra em si está longe de ser o melhor de Saramago. Claro que o estilo está lá, inclusive penso até que este é dos mais irónicos e mordaz trabalhos do escritor, mas e na minha opinião, ele comete um pecado que me surpreendeu. Ele simplesmente utiliza a mesma fórmula que utilizou em "Ensaio sobre a Cegueira", aliás, existem tantos pontos em comum que este quase que acaba por ser um género de continuação do anterior, pelo que e quem quiser ler este livro, é quase obrigatório ler o outro.

Quanto à história, Saramago situa-nos numa cidade qualquer (diz ele, mas as semelhanças com Lisboa são mais que muitas) em dia de eleições autárquicas. O meio político é composto apenas por três partidos: o da Direita, que está no poder, o do Centro e o da Esquerda (são em tudo semelhantes ao PSD, PS e PCP), e logo aí é notório que algo de anómalo se passa, pois apenas às 16:00 em ponto as pessoas começam a afluir às urnas. No final do dia, sabe-se o resultado e, para grande espanto do país, 75% dos votos são em branco. Assim e como prevê a constituição, as eleições são repetidas 8 dias depois. Desta vez, debalde, 83% dos votos anunciam brancura total, isto é, apenas uma repetição e confirmação dos resultados anteriores.

A partir daí assistimos ao desconcerto do governo e do próprio presidente da Republica que chega a culpar o povo pelo estado calamitoso em que se encontra o país e que, coitados dos políticos, que sempre foram tão fiéis e que jamais mereceram isto... Mas o governo, através do Primeiro Ministro, anuncia uma investigação profunda às causas ou aos causadores desta anormalidade e posteriormente, como tudo sai furado, acabam por debandar, em alegre caravana, a cidade. Aí verifica-se uma manifestação de satisfação do povo ao ver o governo fugir e é engraçado a forma como Saramago brinca com o acontecimento. Curioso também quando e durante a investigação, todos aqueles que são questionado sem votaram em branco, afirmarem negativamente. Faz lembrar as pouquíssimas pessoas que admitem ter votado PSD nas últimas eleições...

Adiante.

Mas e sem querer entrar mais profundamente na história, posso dizer que temos um Ministro da Defesa altamente radical, mesmo a roçar o fascismo (Paulo Portas escarrago); um Ministro do Interior que faz o que o Primeiro Ministro não quer; um Presidente da República que gosta de atirar uns bitaites mas que anda a reboque do Primeiro Ministro; um estado de sítio que suspende os direitos dos cidadãos mas como também ninguém tem o saudável direito de exigir o regular cumprimento dos direitos que a constituição lhes outorga, nem reparam que foram suspensos; numa cidade que se transforma numa prisão onde ninguém pode sair.

Depois e numa reunião de Ministros, alguém se lembra de comparar esta epidemia à epidemia ocorrida 4 anos antes e é aqui que a colagem com o "Ensaio sobre a Cegueira" acontece. O voto em branco pode ser uma manifestação de lucidez, um contraponto com a cegueira que grassa por todo o lado? Saramago revela assim a sua mensagem: "Atenção, tudo está mal, a nossa democracia está viciada, o voto em branco é uma arma democrática que possuímos para impedir os políticos de continuarem a brincar connosco...". Terá esta mensagem efeitos práticos?

Partindo de uma denúncia, entram na acção as personagens do "Ensaio sobre a Cegueira" e é o próprio governo que tenta fazer da mulher do médico o bode expiatório desta epidemia, o líder dos brancosos, a chefe desse grupo de terroristas que põem em causa o sistema democrático. Essa tentativa de criar um bode expiatório, parece-me uma indirecta ao facto de quem está no poder (independentemente do partido), procurar culpabilizar sempre os antecedentes de tudo o que corre mal.

O final é em beleza. Assiste-se à tentativa de assassinar os opositores e é claramente uma abordagem às variadas tentativas de acabar com os adversários políticos... (não quero entrar em mais pormenores.) Perdoem-me se contei demais!

Em suma e embora sejam possíveis várias ilações, penso que Saramago não descobriu a pólvora. Se o objectivo dele era alertar consciências face ao estado deplorável do nosso sistema democrático, penso que não vai muito longe. Há muito que as pessoas se divorciaram da política e dos políticos, há muito que esses são vistos como oportunistas, mentirosos e charlatães, há muito que os mesmos "baixam as calças" nas campanhas eleitorais para depois nos tratarem com desprezo e também, porque em o "Ensaio sobre a Cegueira" Saramago é mais corrosivo na forma como critica a sociedade em geral.

Depois de ter acabado o livro, fiquei com uma sensação de desconforto e porque senti-me um pouco desprezado pelo próprio Saramago e afirmo-o porque ele cai no erro de agir de acordo com o que critica, ou seja, ele joga connosco e depois larga-nos desemparados... note-se que ele cria alguns cenários muito interessantes e que depois não explora, pura e simplesmente deixa-os cair sem se preocupar em explicá-los, se quiserem, ele tece uma teia sendo depois incapaz de se disvencilhar dela. Fica assim no ar algumas questões que ele cria e que depois não responde.

Gostei muito do final e da forma como dois cegos perguntam um ao outro se ouviu alguma coisa (não é nada comigo, estou aqui para ver a bola, percebem?). Esta é a minha análise, como disse anteriormente, este livro tem a faculdade de se poder tirar várias ilações e aceito, acredito e é natural que muitos as tenham e que discordem comigo, no entanto, estava à espera de mais e melhor e, depois de tantas entrevistas, não escondo que fiquei decepcionado.

domingo, 15 de julho de 2007

Ano da Morte de Ricardo Reis (O) - José Saramago

Este é, para muitos, o melhor romance de José Saramago. O próprio Saramago admite que tem um carinho muito especial por ele e é um dos que mais trabalho lhe deu a nível da pesquisa histórica.
Para mim e embora seja um romance excepcional, não está ao nível do "Memorial do Convento", do "Evangelho Segundo Jesus Cristo" ou do "Ensaio sobre a Cegueira" e simplesmente porque em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", Saramago não atinge o brilhantismo da ironia ou da hilaridade que atingiu em o "Evangelho", não atinge a genialidade do épico "Memorial" e também não atinge a corrosiva crítica social que consegue em "O Ensaio sobre a Cegueira".
Porém e sendo ou podendo ser considerado um romance histórico, Saramago conta-nos uma estória passada em Lisboa no ano de 1936 e em que o principal personagem é Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernado Pessoa.
Regressado do Brasil onde se havia refugiado por motivos políticos, Ricardo Reis desembarca em Lisboa em Dezembro de 1935. Instala-se então no famoso Hotel Bragança, alugando posteriormente um apartamento. Penso que ainda seja no Hotel (já li o livro à uns 3 anos) que e numa noite fria e chuvosa, dá de caras com o fantasma de Fernando Pessoa, fantasma que lhe irá fazer visitas regulares até à sua derradeira hora de vida.
Em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", Saramago utiliza vários elementos da atmosfera do "Livro do Desassossego", misturando-os com informações concretas e reais: As ruas, os restaurantes ou as casas de pasto, o café Royal que ficava ao pé do Hotel Bragança e que hoje, salvo erro, é um Banco.
No entanto e embora acompanhemos todo o percurso de Ricardo Reis, o verdadeiro protagonista da estória é o próprio ano de 1936. Um ano onde ocorrem importantes acontecimentos: A guerra civil espanhola, a ascensão do nazismo, a consolidação do fascismo em Portugal, a vitória da Frente Popular em França, o desenlace da guerra na Etiópia. Todos esses acontecimentos dividem Ricardo Reis e até aí Saramago mostra-se atento, pois sabe-se que Fernando Pessoa era anticomunista e percebe-se que Ricardo Reis também o é.
Em suma: através de uma já conhecida capacidade de efabulação, Saramago transporta-nos a uma Lisboa sombria, prendendo-nos à personagem e levando-nos a assistir a espantosas e curiosas conversas entre Fernando Pessoa e Ricardo Reis ou, se quiserem, entre Fernando Pessoa e ele próprio.
Um livro onde se nota, uma vez mais, uma clara intenção de Saramago em, através de metáforas, falar da nossa sociedade e dos problemas a ela inerentes.

Evangelho Segundo Jesus Cristo (O) - José Saramago

O Evangelho Segundo Jesus Cristo nasce, segundo o próprio Saramago, de uma visão tida em Sevilha, onde o autor julga ver escrito numa capa de revista o título "Evangelho Segundo Jesus Cristo", posteriormente tem o "tal" click em Bolonha, cidade onde ele escreve os primeiros apontamentos.

Saramago assume-se como ateu!

Assim e de uma forma racionalista que desde logo vai de encontro à filosofia catalólica, porque essa filosofia não se pode dizer que seja racionalista, ele tem a coragem de escrever sobre a vida de Jesus Cristo, mais, ele aborda o Evangelho bíblico de um ponto de vista humano, ou seja, ele aparta-se daquele ser divino para o tornar num simples ser humano que tem a sorte ou o azar de se encontrar com Deus e o Diabo. E o homem tem mesmo azar porque senão veja-se: Ele é o mais velho de 8 filhos de José e Maria (eram doidos para a brincadeira) e com tantos filhos logo tinha que ser ele a andar nas "bocas" do mundo?

E Saramago não recua: O anjo passa a mendigo, os reis magos são apenas pastores e até Maria Madalena (uma das heroínas de Saramago) é uma mulher com uma antiga profissão e que adora "ensinar" os prazeres carnais a Jesus.

Encontros e desencontros com um Deus feroz, vingativo, maldoso e que tem uma vasta colecção de mártires que morreram atrozmente em seu nome. Aí percebe-se claramente a aversão de Saramago à Igreja e tem um quê de Nietzsche (digo eu!). Um Diabo que veste a pele de um pastor cuja maior diversão e, precisamente, "divertir-se" com as suas ovelhas, mas que até dá bons conselhos a J.C.

Em suma: com Deus, J.C. conhece a fúria e a miséria, com Maria Madalena conhece os prazeres do corpo e o prazer da paixão, com o Diabo, aprende a conhecer o mundo que o rodeia.

Um romance que só escandaliza os fracos de espírito. Independentemente de sermos crentes ou não, isso não impede de pensar, interpretar e avaliar esta obra notável. 

É por causa deste romance que Sousa Lara retira o nome de Saramago da lista de concorrentes ao Prémio Literário Europeu... Hipócrita!

Cada um faça o seu próprio juízo, no entanto, penso que Portugal se deve orgulhar deste grande escritor e da sua obra.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago

Embora tenha sido o seu romance "Evangelho Segundo J.C." aquele que tanto escandalizou e incomodou tanta gente santa e que tanto imbróglio criou, foi com o "Ensaio sobre a Cegueira" que Saramago mais mexeu com a consciência colectiva, a diferença é que este romance não toca em crenças ou na Madre Igreja (Amém) e, agora, Saramago também já era um escritor consagrado e era certo a asneirola que Lara havia feito quando correu com ele.

Pois quem ler este romance, de certo se sentirá incomodado, pelo menos irá pensar um bocadinho.

Assim e no seu estilo, aliás, no seu melhor estilo, Saramago põe a nu a porcaria que é a nossa sociedade, cheia de invejas, hipocrisias e cinismo, onde nem os políticos são poupados.

Exemplar e genial são as referências que Saramago vai usando ao longo do romance sem que demos conta disso. Apenas sobressaem quando paramos para pensar no alcance da obra e é aí que facilmente identificamos alusões aos campos de concentração nazis, à visão bíblica sobre os cegos conduzindo outros cegos, à obra "Peste" de Eramus e também presente está a obra de Homero "Ilíada" aquando das constantes referências à mulher do médico, pondo-a na pele de Eneias. E é precisamente na figura da mulher do médico que sobressai a grande heroína de Saramago, poderosa cuja identidade com Blimunda ou Maria Madalena é clara e onde Saramago completa o seu trio de heroínas.

Por fim gostaria de referir uma frase de José Leon Machado que caracteriza na perfeição o romance: "O livro marca de tal forma o leitor que difícil será para este livrar-se da visão e do cheiro de tanta miséria e de tanta merda que, no fundo, caracterizam este mundo. Mundo que, para não a ver e para não a cheirar, constrói tapumes de cartão e espalha perfumes à volta".

Ilucidativo!

Memorial do Convento - José Saramago

José Saramago, enquanto pessoa, gera amores e ódios. De uma personalidade irascível, alia a sua experiência de vida ao seu pedantismo o que, com o status adquirido, o torna uma das maiores personalidade do panorama português dos sécs. XX e XXI.

Esse pedantismo a roçar por vezes o exagero, é transportada para a maioria das suas obras, onde e com uma mestria que lhe granjeia invejas, alia o seu dom de contador de estórias à de crítico de toda uma sociedade (fundamentalmente a portuguesa) e também ao da escrita ou, se quisermos, uma construção do texto e da narração inovadora e difícil de acompanhar.

Pessoalmente gosto e muito do Saramago crítico, não me identifico com a sua ideologia política nem compreendo, por vezes, as suas observações, mas e mesmo vivendo em Espanha, não se contenta com o rumo do nosso país e gosto especialmente quando ele resolve arrasar nos seus romances, como são os casos do "Ensaio sobre a cegueira" e "Evangelho segundo J.C.".

No entanto e desta vez, proponho-me opinar sobre o Memorial do Convento que é, quanto a mim, uma das Grandes Obras da literatura portuguesa do séc. XX, um portento de inspiração e de uma beleza artística apenas ao alcance dos Maiores.

Ler Saramago, como anteriormente referi, não é fácil. Porém à medida que começamos a compreender o seu estilo, a leitura torna-se fluída e todo aquele aglomerado de letras, aparentemente sem pontuação, deixa de ter importância, porque a pontuação está lá e o homem tem mesmo jeito para contar estórias.

Quanto ao livro:

Temos duas personagens principais que já correram mundo: Blimunda e Baltasar. Ela "Sete Luas" e ele "Sete Sóis", ela uma mulher que consegue ver os corpos à transparência quando em jejum e ele, um ex-soldado que regressa da guerra sem uma mão e quase sem alma, apenas o seu corpo lhe dá a aparência de ser humano.

Numa época dominada pela inquisição, um padre constrói ume estranho artefacto a que lhe chama Passarola e tenta convencer o rei que aquilo pode voar, esse rei (D. João V) bem tenta que a sua mulher, a rainha D. Maria Josefa, engravide, no entanto "se quiseres um infante, manda construir um convento" diz-lhe um monge e o rei, temente a Deus, faz nascer a principal figura do livro: O Convento de Mafra.

Acompanhamos então toda a construção e ao mesmo tempo as aventuras e desventuras dos personagens antes mencionados, para, no fim, ficarmos estupidificados com a surpresa que Saramago nos guarda. Já li o livro três vezes e fico sempre com um nó na garganta com as páginas finais.

Um livro que já deu uma ópera que e pelo que tenho lido, deve ser arrepiante, pois no fim existe um coro de padecimento e martírios...

Um romance extraordinário!