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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Não Fomos Nós Dois – Tiago Gonçalves


Júlio e Mafalda, dois seres com personalidades tão diferentes que só é possível o mútuo conhecimento um do outro através da circunstância que os une. Mafalda, jovem terapeuta, vive no sonho idílico de encontrar um homem rico que lhe dê uma vida abastada e despreocupada. Júlio, um jovem sonhador com uma filosofia de vida muito própria  que questiona o que o rodeia. Ambos se conhecem quando, após um episódio reincidente de violência de Júlio no decorrer das suas funções profissionais, o faz começar a frequentar o consultório de Mafalda.

Entre ambos nasce uma ligação que vai além da relação terapeuta-doente. Entre ambos, nasce uma espécie de conhecimento íntimo, uma atracção que os levará a questionar se o destino não os terá determinado um ao outro.

Este livro do jovem Tiago Gonçalves, revela-se uma espécie de conto que nos transporta ao âmago de dois seres humanos cuja diferença é notória logo desde o início mas cuja complementaridade é palpável. 

O livro é muito curto, penso inclusive que Tiago Gonçalves tinha muito mais matéria para explorar, pois ficamos com um sentimento de “saber a pouco” quando a história termina e da forma como termina.

Com uma escrita simples, o autor vai também divagando considerações sobre várias questões sociais e isso, confesso, foi algo que me agradou imenso e que deu à obra e aos personagens mais realismo.

Parece-me estarmos diante de um autor que pode construir uma obra literária, saiba ele começar a desenvolver a sua aptidão, que é inegável que tem, em obras mais longas e mais desenvolvidas, tanto ao nível do argumento, como ao nível da caracterização e desenvolvimento das personagens.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Contos de Agora e de Outrora


Oito autores unidos numa colectânea de contos cujos temas são os mais diversos. Cada um deles apresentam alguns contos muito curtos e concisos mas que espelham muito bem o conteúdo e o contexto abordados, ou seja, cada conto tem um principio, meio e fim e, face à pequenez desses contos, não deve ter sido nada fácil a sua criação e isso é algo que me surpreendeu pela positiva.

De todos os autores sublinho Sílvio Medeiros Kanda, o único não português e cujos contos da sua autoria são de uma grande qualidade e originalidade. Conseguindo criar cenários tenebrosos, Kanda apresenta-nos pequenas histórias onde o sobrenatural e a superstição se aliam ao medo e ao fantástico. Foi o único de quem reli os contos.

Os restantes são interessantes, tornando esta colectânea uma obra muito interessante que se lê num fôlego.

domingo, 14 de março de 2010

Retalhos da Vida de um Médico – 1º Volume - Fernando Namora


Fernando Namora nasceu em 1919, licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, tendo exercido nas regiões da Beira Baixa e Alentejo.

De estilo neo-realista, tem uma obra literária vasta, marcada, quase toda ela, por observações fiéis da realidade (naturalismo) e da sua experiência, e soube explorar algo que me fascina e que está ligado à corrente neo-realista: o indivíduo age conforme o meio que habita e as tradições intrínsecos a esse meio.

Publicado em 1949, este primeiro livro (Fernando Namora publicará um segundo livro em 1963) tem uma estrutura fragmentada (retalhos) onde o narrador e médico efectua um retracto social da primeira metade do séc. XX.

Sem sequência cronológica, uma espécie de contos isolados sem qualquer ligação entre si, estas histórias (verídicas), desenvolvem-se sempre de uma forma dramática em simultâneo irónica e por vezes até surpreendida, em torno da vida de um médico recem formado que se vê colocado numa aldeia no interior do Alentejo, habitado por pessoas desconfiadas e supersticiosas, crentes nas antigas mezinhas medievais e que viam no jovem doutor uma charlatão da cidade com ares de importante.

Sobressai em toda a obra uma espécie de cansaço e desilusão sobre a lorpice do povo e as dificuldades que ele sente em ser aceite e até mesmo a sua adaptação a uma dimensão diferente daquela que está habituado. Por vezes e isso sente-se nas suas palavras, parece que ainda se vive na era medieval e tudo o que é moderno está proibido de entrar. Fernando Namora é assim uma espécie de João Semana que se desloca de burro de terra em terra, socorrendo pessoas que só o chamam em última circunstância e, na maioria das vezes, quando nada há a fazer.

Pessoalmente o que me apaixonou foi a narração daquele Portugal que existia (e ainda existe) escondido, uma espécie de 5ª dimensão, perdido da civilização, onde se vivia de uma forma agreste, com honradez, mas agreste.

Uma grande obra da nossa literatura.

Classificação: 5

quinta-feira, 4 de março de 2010

Entre os Assassinatos – Aravind Adiga


Booker Prize em 2008 com o excepcional “Tigre Branco”, Aravind Adiga tem com este novo título o seu segundo livro que, uma vez mais se revela uma obra digna de figurar, certamente, nos melhores livros de 2010.

“Entre os Assassinatos” não é um romance, mas sim um conjunto de contos onde o elo, o fio condutor é a cidade imaginária de Kittur, situada na costa sudoeste da Índia, algures entre Goa e Calecute.

Para quem leu o “Tigre Branco” vai aqui achar os problemas e as questões que Aravind aponta na sua obra de estreia.

É-nos mostrada uma Índia profundamente desigual, dividida por um sem número de castas que tornam a sua sociedade altamente xenófoba e extremamente desigual. Ou seja, é uma Índia atolada em problemas sociais e religiosos que a enleiam numa teia complexa, ainda por mais atolada num sistema altamente corrupto.

Aravind é, uma vez mais, corrosivo e irónico na forma como nos vais mostrando a realidade sob ficção. O quanto estúpido e insano é o sistema há muito enraizado que apenas protege os mais ricos, os de melhor casta, tornando todos os outros nuns escravos, em lixo.

A questão das castas é simplesmente ridícula, carecendo de uma explicação que nem os indianos são capazes de dar. Obviamente que Adiga é mordaz e emprega essa mordacidade ao criar situações verdadeiramente hilariantes que nos mostram a estupidez dessa tradição. Imagine-se um sistema de castas de A a Z onde A é a casta mais alta e Z a casta mais baixa. As pessoas da casta A são arrogantes e não querem misturas com as pessoas da casta B. é tudo tão ridículo que, às tantas, deparamo-nos com um indivíduo da casta Y (apenas uma casta acima da casta Z) que é rebaixado, humilhado por todas as outras pessoas das castas mais altas. Queixa-se, amaldiçoa, etc. no entanto, logo a seguir, ele próprio humilha um individuo ou tem com ele atitudes de superioridade só porque este é da casta Z. Ridículo, mas pelos vistos representa a realidade da sociedade indiana.

Não tem o condão de surpreender nem criar o impacto do “Tigre Branco”, mas é um relato que nos mostra a verdadeira Índia, um país ancestral, que por detrás do potencial económico, é uma nação cheia de tradições estranhas, com um sistema e mentalidade altamente corrupta e onde, essas mesmas tradições, incentivam crimes contra a humanidade, mas que não vê nisso nada de anormal, sendo que a anormalidade é precisamente essa.

sábado, 30 de agosto de 2008

Fábula de La Fontaine - Jean de La Fontaine


Jean de La Fontaine nasceu em Château-Thierry, França, em 1621. Estudante de Teologia e Direito, depressa se apercebe que a sua vocação não estava direccionada para nenhum daqueles cursos, pelo que e após ter andado pelos negócios paterno, acabou por se dedicar às artes literárias, estreando-se como autor dramaturgo em 1654 com a comédia “L’Eunuque”.

Amigo pessoal de grande vultos da cultura francesa como Moliére e Racine, La Fontaine acaba por conseguir a protecção de Fouquet, poderoso ministro de Luís XIV (Rei Sol). No entanto, e desconhecem-se as razões, acaba por cair em desgraça alguns anos depois, sendo mesmo preso pelos mosqueteiros que tinham a capitaneá-los um tal de D’Artagnan, pelo menos é o que consta na História.

Mas tirando a sua vida pessoal que muito ainda tem para referir, La Fontaine ganhou notoriedade no seu tempo e fama para a posteridade devido às fábulas que escreveu.

Os primeiro livros de fábulas surgem em 1668 inspiradas nos textos de Esopo e Fedro, pois as fábulas remontam à antiguidade grega e até indiana, e é um tipo de narrativa alegórica em verso – ou quase sempre – que põe em evidência certas características humanas, tais como a vaidade, a arrogância, a ganância, a violência, o egoísmo, hipocrisia, etc. assim, as fábulas “pegando” nessas tais características, dão-nos uma lição moral muito simples mas cheia de significado.

E La Fontaine teve a inteligência e o bom senso de as introduzir na literatura ocidental, adaptando alguns contos populares franceses e situações correntes, ele adaptou de uma forma crítica, não raras vezes irónica mas sempre de uma forma inteligente e irreverente, irreverência essa que, curiosamente, lhe valeu o apreço de todas as classes sociais e que ainda hoje são dignas desses apreço. E é curioso analisar-se o porquê desse apreço.

Independentemente de existirem muitas outras informações, entre as quais, e é importante referir, as primeiras fábulas são escritas propositadamente para o Delfim e para as restantes crianças da côrte, La Fontaine serviu-se sempre dos animais para mostrar aos Homens a imagem da virtude, da tolice e outros “vícios” ridículos, assim como vários aspectos da própria sociedade francesa da altura, pois é facilmente perceptível algumas denúncias às misérias e abissais injustiças que pululavam na época.

Mas La Fontaine escreveu muitas fábulas. Algumas delas são bem conhecidas e ainda hoje ocupam um lugar muito especial no imaginário Humano, não apenas pela mensagem moral, como também porque facilmente as podemos empregar no nosso dia-a-dia.: ”O lobo e a raposa”; “A galinha dos ovos de ouro”; “A cigarra e a formiga”; “O leão e o rato”; “A água e a coruja”; “A rã invejosa”; “A vendedora de leite”, entre tantas outras.

Verdadeiro manancial educativo, as Fábulas de La Fontaine, que inclusivamente chegaram a ser traduzidas por Bocage, representam uma forma de sabedoria e conhecimento principalmente para os mais novos que, através de um universo aparentemente idílico, começam a conhecer o mundo e a pérfida natureza humana.

Em todas as suas fábulas podemos tirar conclusões e descobrir o que cada animal representa e o que significa cada acção e cada lógica.

É uma obra que recomendo a todos, principalmente que tiver filhos(as), sobrinhos(as), irmãos, irmãs, netos ou netas, pois assim e de uma forma simples e fácil, as crianças poderão ganhar consciência do mundo e da civilização.”

CITAÇÕES DE LA FONTAINE

”a avareza perde tudo ao pretender tudo ganhar”. “Arriscamo-nos a perder tudo quando queremos ganhar demais”.

“Quem julga caçar é caçado”.

“É um prazer dobrado enganar quem engana”.

“Paciência e tempo dão mais resultado do que força e raiva”.

“Correr não adianta. É preciso partir a tempo”.

“Todo o adulador vive à custa de quem o escuta”.

“Não julguem ninguém apenas pelas aparências”.

Umas das grandes obras literárias de sempre.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll


Considerado como uma obra prima da literatura universal, esta obra, escrita por Lweis Carroll, pseudónimo do diácono da igreja angelicana, Charles Lutwidge Dodgson, é um aglomerado imenso de jogos de palavras e linguagem inventiva que recriam um mundo fantasioso e absurdo, situações e aspectos da época vitoriana difíceis hoje em dia de entender e analisar em toda a sua plenitude, pois os significados, as metáforas e analogias são aparentemente tantas que tornam esta obra complicada de ser analisada.

Sabe-se que Carroll quando escreveu “Alice no País das Maravilhas”, o fez com a intenção de ser uma obra de facto dirigida às crianças e em homenagem a Alice Liddell, filha de um amigo. Curioso constatar ser Carroll um muito provável pedófilo, pois sabe-se que adorava fotografar crianças, além de as desenhar nuas cm o consentimento dos pais. É um comportamento bizarro, assim como bizarro é o mundo criado por ele em homenagens a Alice Liddell.

Alice vê passar por si um coelho branco a falar. Segue-o, acabando por entrar numa toca onde cai no vazio, surgindo então numa sala. Começa aí a aventura de Alice no País das Maravilhas onde, para além de várias situações absurdas, conhece personagens bizarras e estranhas.

É claro que Lewis pretendeu criar uma gigantesca metáfora ao mundo dos adultos. Ao mesmo tempo são várias as analogias à infância e sobretudo à fase da adolescência. Por outro lado é claro também a similaridade que existe em algumas personagens com figuras públicas da época vitoriana.

É uma obra com uma forte simbologia. Grande parte dessa simbologia escapou-me claramente, pois é perceptível que o absurdo das situações e das personagens tem algum significado mas, honestamente, desconheço.

Era uma obra que tinha curiosidade em ler, mas que admito, não gostei dada a pouca coerência e irracionalidade que a invadem. Não lhe retiro minimamente o mérito e a importância que teve e tem na literatura, mas enfim, não retirei prazer na leitura nem me ensinou nada de especial.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Meus Problemas (Os) - Miguel Esteves Cardoso



Miguel Esteves Cardoso foi um jornalista que durante os anos 80 e início dos anos 90, teve uma voz activa na vida social portuguesa, quer enquanto simples cronista do “Expresso” e “Público”, quer mesmo, enquanto membro permanente na “Noite da Má Lingua”, onde ele e uns tantos batiam e evidenciam vários “podres” da nossa sociedade.

Dono de uma forma de se expressar extremamente mordaz mas bem objectiva, Esteves Cardoso era bastante corrosivo na forma como elaborava as suas análises, quer aquelas proferidas no programa de tv, quer as outras que foi escrevendo para os jornais.

E são precisamente algumas dessas crónicas, nomeadamente algumas publicadas no “Expresso” entre 1986 e 1987, numa coluna chamada “Os meus problemas”, que compõe este livro que tem tanto de brilhante como de hilariante.

Assim, este livro é simplesmente um conjunto de crónicas onde Esteves Cardoso opina sobre a forma de estar, ver e agir do povo português, evidenciando as suas mais carismáticas manias e fobias, sempre num tom irónico e mordaz.

Começando por “Cartas portuguesas”, as “classes automóveis”, “libertação dos maridos”, “a fogueira do ciúme”, “adeus, ó tchau, vai-te embora”, enfim, acreditem é dos livros mais hilariantes que já li e ao mesmo tempo, um livro que toca em vários defeitos do povo português. Pese embora as distâncias, um género de Woody Allen.

E é curioso constatar que não é necessário escrever-se livros sérios, estudos filosóficos do “ser português”, pois qualquer um em a capacidade de análise e de formar opinião, no entanto, Miguel Esteves Cardoso demonstra uma capacidade de análise que vai além dessa simplicidade, ele, para além de evidenciar alguns dos “nossos” defeitos, demonstra o quão ridículo e caricata são muitas das situações que se sucedem dia após dia e, mais importante, a gravidade e importância que se dão a essas situações.

Não sei se me fiz entender…

Demonstrando que não é necessário ser um génio despótico para se imitir qualquer tipo de análises, Esteves Cardoso lega-nos um conjunto de crónicas extremamente bem elaboradas e com alvos bem definidos.

Grandes gargalhadas que se soltam daquelas páginas.

sábado, 12 de abril de 2008

Contos - Hans Christian Andersen



Hans Christian Andersen nasceu em Copenhague, Dinamarca, no dia 4 de Agosto de 1805. filho de um sapateiro e de uma lavadeira, Hans teve uma infância muito dura, tendo passado inclusivamente fome, no entanto e em sua casa, o amor nunca faltou.

Desde muito cedo sentiu que o seu destino estava ligado às artes, pois a sua paixão pela música e pela dança levaram-no a pensar que o seu futuro estaria numa dessas duas actividades, mas foram precisamente as dificuldades sentidas na infância, combinada com a humilde profissões dos pais, que lhe moldam o carácter e o levam ao mundo da literatura, poesia e teatro.

Christian Andersen era humilde, honesto e de índole boa, dotado de uma enorme capacidade de observação, apaixonou-se pelos contos tradicionais dinamarqueses, sendo daí que lhe veio a inspiração para criar os seus contos, contos esses que desde essa altura, alimentaram os sonhos de adultos e crianças por todo o mundo.

São muitos os registos que chegaram aos nossos dias sobre a vida deste poeta, principalmente devido ao facto de ele ter sido reconhecido e acarinhado ainda em vida, sendo mesmo visto como um herói nacional.

Sabe-se, por exemplo, que o seu aniversário era festejado em toda a Dinamarca e que até o rei se deslocava a casa de Andersen para o cumprimentar pessoalmente.

Não quero aqui entrar em considerações sobre a vida deste ilustre escritor, simplesmente porque existe muitos textos detalhados sobre a sua vida, uma vida rica que se estendeu por vários países (entre os quais Portugal), para quem esteja interessado, sugiro uma visita a este site: http://purl.pt/768/1/, site que faz uma justa homenagem a Hans Christian Andersen.

Esta obra, ”Contos”, traz a grande maioria dos seus contos. Uns conhecidos e levados à cena de várias formas, outros desconhecidos, mas que nada ficam a dever aos outros.

Quero contudo deixar uma ressalva que raramente vejo comentada.

Hans Christian Andersen escreveu estes contos, mas raramente os fez a pensar nas crianças, aliás, ele quando os escreveu tinha como certo que eles se destinavam mais para as crianças, no entanto, ele achava que as crianças tinham que saber que o mundo não era “cor-de-rosa” e a linguagem utilizada e sobretudo a forma do conto, era nua a crua. Os contos de Andersen são essencialmente morais, todos eles têm uma mensagem subjacente e raros são aqueles que acabam bem, inclusivamente a maior parte deles tem um fim violento.

A edição que possuo é a do “Público”, lançada no ano da comemoração dos 200 anos do nascimento do escritor por ocasião do Natal, edição essa que contém os contos na sua forma original e, para medirem o grau dos contos, apenas dois ou três desses contos posso contá-los à minha filha sem estar a medir as palavras.

Pois bem, quem não conhece curiosidades como o ”O Patinho Feio”, “A Princesa e a Ervilha”, “A sereiazinha”, “A vestimenta do Imperador”, “A polegarzinha”, “A rapariguinha dos fósforos”, “O soldadinho de chumbo”. Ao que junto contos fantásticos como ”A gota de água”, “O Elfo da rosa”, “É absolutamente certo” (este conto é fantástico e o preferido da minha filha), ”Os sapatos vermelhos”, entre outros. Contos simples, entre os fantástico e o realista, escrito em tom poético e sempre tendo como motivo principal a pobreza, a humildade, e os necessitados. E é aqui que os seus contos ganham estatura, pois eles levam os pobres a sonhar e a acreditar que não são menos que ninguém, que a humanidade é igual em qualquer extracto social, e que, se calhar, os pobres e os humildes têm mais do que os ricos: Amor, esperança e compaixão.

Pessoalmente gosto muitos dos contos deste fabuloso poeta, que chegou a passar algum tempo em Portugal, nomeadamente em Sintra, numa pequena casa onde actualmente se encontra uma placa a celebrar o facto. Andersen gostava tanto do nosso país e de Sintra que chegou a escrever um livro com o título: “Viagem a Portugal”.

A escrita é simples e fluída. Os contos são todos muito curtos e é fácil descortinar qual a moralidade do conto.

Aconselho os contos deste grande poeta, sobretudo pela forma como nos faz sonhar e nos liga a outros mundos absolutamente mágicos.

sábado, 6 de outubro de 2007

Natal do sr. Scrooge (O) - Charles Dickens

Scrooge. – Disparate! Feliz Natal? Que razões tens para te sentires feliz? És pobre!..."
Há muitos anos que esta passagem me acompanha assim como a obra de Charles Dickens. Não que tenha alguma beleza literária, mas apenas porque, para mim, significa a beleza do Natal e o imenso significado que ele tem. Independentemente do consumismo e da hipocrisia que reina nessa época, o Natal, na sua génese, antecede a era cristã em cerca de 2.000 anos. Claro que não se festejava como actualmente, mas na época em causa, na antiga Mesopotâmia, realizavam-se festejos populares onde se comemorava o solísticio de inverno e, nessas festas pagãs, já existia o ritual das árvores iluminadas por muitas velas e ofereciam-se objectos uns aos outros como sinal de amizade e paz.
Claro que o cristianismo usurpou toda esta tradição, sendo, hoje em dia o Natal uma festa cristã onde se celebra o nascimento de Cristo e as prendas um ritual que celebra os reis magos.
Assim o Natal, originalmente, representava a época onde se festejava a natureza e a paz com a família e os amigos, e é assim que fui educado e é assim que educo e que gosto de ver e sentir o Natal, talvez a época do ano mais importante para mim. Desde criança que a minha família cultivou esse amor e não é por acaso que grande parte das minhas recordações de infância têm em comum o Natal.
Mas tudo isto porque pretendo exprimir o fascínio que para mim representa essa época: os sons, as cores, os cheiros, tudo característico e que me transporta à minha infância e que me traz doces recordações familiares.
Em 1843, o Natal era visto, em todo o mundo cristão, como uma festa religiosa com muito pouca festividade, pelo menos sem a festividade que hoje se conhece. Até que nesse ano, um senhor chamado Charles Dickens, publica um conto, pago inteiramente do seu bolso, intitulado O Natal do sr. Scrooge, publicado na semana anterior ao Natal de 1843. E não é que é devido a esse conto que surge o conceito de Natal que o mundo ocidental tem hoje?
Sabe-se que Charles Dickens gostava muito da época de Natal e que se entristecia por ver os seus conterrâneos darem pouco ou nenhum valor à época. Pai de cinco filhos e profundamente dedicado à família, Dickens escreve um conto de Natal que resolve publicar estrategicamente na semana anterior e é precisamente devido a essa publicação que o Natal se começou a impor.
O Natal do sr. Scrooge narra a história de um velho sovina que acha que o Natal é um monte de disparates. Homem solitário, tem uma firma onde emprega o seu jovem sobrinho, pobre de recursos mas rico em sentimentos, a quem trata e julga como um miserável. Na véspera de Natal e estando sozinho em sua casa, recebe a visita do fantasma do seu antigo sócio Marley, que lhe comunica que nessa mesma noite irá receber a visita de três espíritos: O do Natal Passado, O do Natal Presente e o do Natal Futuro. Mesmo falando com o fantasma de Marley, Scrooge escarnece do assunto e, após a partida do fantasma, decide voltar a adormecer. Até que quando bate a uma hora da manhã, Scrooge é acordado por terríveis pancadas que anunciam o espírito do Natal Passado. Sucessivamente e nessa noite, surgem-lhe os três fantasmas anunciados que o levam a visitar algo ou alguém, provocando assim uma completa transformação da personalidade de Scrooge, transformando-o num homem bom, generoso e honesto.
A mensagem é simples mas bonita: Bondade, amizade, união familiar e generosidade. São estes, talvez, os quatro pilares do Natal e, não deixa de ser tocante e marcante a transformação que é operada em Scrooge, fazendo-o ver o quanto é errado o seu comportamento e que ainda há pessoas que o amam.

sábado, 18 de agosto de 2007

Mil e Uma Noites (As) - Vários

As Mil e Uma Noite era daquelas obra que há muito constavam na minha lista de clássicos. No entanto e aproveitando a recente edição do Jornal de Notícias, só agora é que me lancei neste aventura de a ler, porque acreditem que é mesmo uma grande aventura ler este conjunto de contos.

As Mil e Uma Noite é pois um conjunto de contos que estão elaborados de forma a contemplarem-se entre si, no entanto estes mesmos contos podem ser lidos de uma forma independente, pois cada um é uma metáfora, uma alegoria a algo.

Estes contos não têm autor ou autores conhecidos, desconhecendo-se mesmo as suas origens e em que altura surgiram reunidos em volume, embora se saiba que estes contos derivam das tradições populares que foram sendo transmitidos de forma oral de geração em geração. Porém existem registos que já mencionam a existência deste volume no séc. VII, pelo menos grande parte dos textos. Mas o que se sabe com certeza, é que esta obra é um retracto magnífico das antigas culturas orientais, grande parte das tradições árabes são aqui mencionadas, sendo muito usual nome como Bagdad, Cairo, Pérsia, Constantinopla, Damasco, etc.

Esta obra chega á Europa no séc. XVIII, através de Antoine Galland, arqueólogo e diplomata francês que, apaixonado por uma cultura em que esteve inserido durante grande parte da sua vida, acabou por efectuar a primeira tradução desta obra para o francês, oferecendo assim ao Ocidente uma descrição do pensamento, modo de vida e cultura popular de um povo tão desconhecido.

Quanto à obra:

Há muito, muito, mas mesmo muito tempo, em terras do Oriente, existia um poderoso sultão que era muito amado pelo seu povo devido à sua generosidade e justiça que demonstrava. Esse sultão tinha uma esposa, tão jovem e casta, que amava muito e que cuja presença davam aos seus dias uma luz só comparável à luz do divino. Porém, a sua doce e bela sultana era-lhe infiel e quando o poderoso sultão descobriu a traição de que era constantemente alvo (e logo em flagrante), uma onda de violência varreu o palácio, acabando o sultão por assassinar a sua esposa e decretando que a partir daquele dia, todos os dias desposaria uma jovem de entre as jovens do povo, assassinando-a quando o Sol nasce-se, impedindo assim qualquer traição. Surge então Xerazade, filha do vizir (espécie de primeiro-ministro) que, mesmo indo contra a vontade do pai, disponibiliza-se a contrair matrimónio com o sultão. Assim, graças à sua inteligência, beleza e cultura, ela consegue adiar a sua morte noite após noite, devido às histórias que vai contando, deixando sempre as mesmas em situação de suspense quando o Sol nasce. O sultão, ansioso por saber o fim dessas histórias, acaba sempre por adiar a execução.

É desta forma que, através de Xerazade, vamos tomando conhecimento de dezenas de fábulas que nos narram as tradições culturais do povo oriental, de personagens que actualmente pululam no nosso imaginário: Aladino, Ali Bábá, Sindbad, Zobeida e a própria Xerazade. Todas estas histórias das quais destaco aquelas que mais apreciei: ”O Mercador e o Génio”; ”História do jovem Rei das ilhas negras”; ”História do Invejoso e do Invejado”; ”História de Zobeida”; ”Sindbad o Marinheiro”; ”Nuredine”; ”Aladino”; ”O Princípe Ahmed”, acabam por ser metáforas didácticas, sendo também e na minha opinião, pelo menos gosto de pensar assim, histórias que caricaturam situações reais.

De notar que e segundo a tradição oriental em relação a estes contos, os mesmos, na sua génese, tinham um forte cariz erótico, alguns eram mesmo ostensivamente sexuais, no entanto, Galland retirou ou omitiu todas essas alusões, o que na minha opinião é uma pena, pois para além de podermos perceber o aforismo dessa cultura nesse aspecto, o ambiente e as situações descritas são, sem dúvida, propícias ao erotismo.

Em suma: embora contenha alguns contos pouco interessantes e repetitivos (existem sempre mercadores, sultões e vizires), esta obra, no seu todo, dá-nos realmente uma visão da cultura oriental e do seu modo de vida. As paisagens descritas são exóticas e a componente mágica está quase sempre presente (muitos génios e outras situações irreais).

Assim e para os curiosos desta cultura, será uma obra para ser lida e analisada com calma. Para os outros (onde me insiro), é uma obra curiosa, cheia de contos sobre a moral, com muitas princesas, sultanas, sultões, vizires, mercadores e génios, que entretém e que nos transporta a um mundo e uma cultura muito diferente da nossa.