Mostrar mensagens com a etiqueta David Soares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta David Soares. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Homem Corvo (O) – David Soares


Era uma vez uma menina que chorava porque perdera o peixe caprichoso que era o seu melhor amigo. Eis que o Homem Corvo lhe entra pela janela e lhe propõe: “Eu dou-te um peixinho, se tu me deres um coração”. A menina, sabendo que o coração era vermelho vai à cozinha e traz-lhe um objecto vermelho, uma maçã. O corvo, feliz e contente, engana a menina, dando-lhe um peixinho de plástico… Chico esperto!

Uma história muito curta, bem ao estilo de David Soares, sombria e misteriosa que se acentua mais nas páginas negras bem decoradas pelos desenhos fantásticos de Ana Bossa. Aliás, se fôssemos considerar o livro apenas pelo seu aspecto gráfico tridimensional, seria algo que descreveria como arte, pois os cenários criados por Ana Bossa, a luz e a delicadeza das figuras, transportam-nos para um cenário misterioso que reforçam ou, se quiserem, dão mais força à metáfora de David Soares.

Esta história e tão somente uma metáfora sobre a amizade.

Um Homem Corvo, que há por aí aos pontapés,  engana em proveito próprio o ingénuo, o inocente que cai na cantiga do bandido e dá algo em troca de nada. No entanto esse Homem Corvo ainda questiona: “Mas porque é que não gostam de mim?”. Sem sequer reparar que para ter uma amizade verdadeira, há que conquistar.

No final, eis que o feitiço se vira contra o feiticeiro e o Homem Corvo tem o retorno daquilo que semeou.

Conforme referi, este pequeno livro, tipo banda desenhada, é um álbum que encerra uma metáfora sobre a necessidade de se semear as verdadeiras amizades e não fazer favores para ter amigos. Simples e chocante como o Homem Corvo acaba, como podemos acabar qualquer um de nós se nos comportamos como o Homem Corvo que, diga-se, é apenas a imagem actual da nossa sociedade.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Luz Miserável (A) – David Soares


David Soares é, quanto a mim, um dos melhores escritores portugueses.

Dono de uma forma de escrever que combina História com ficção e fantasia, ele sabe construir mundos e planos completamente antagónicos com a realidade, colocando os seus personagens a agirem nesses planos como se da realidade se tratasse.

Foi assim no excelente “O Evangelho do Enforcado” e na “Conspiração dos Antepassados”, obra na qual, diga-se, David Soares expressa todo o seu génio criativo e, não sendo o livro que mais gostei, é provavelmente o seu melhor livro.

“A Luz Miserável” é um conjunto de três contos, todos sem ligações, que nos situam em ambientes exóticos, profundamente negros e até sádicos e violentos.

Diferente dos registos dos seus romances, estes contos estão cheios de imagens insanas e provocadoras, resultando em sensações de náuseas e nojo, algo que apenas havia sentido na obra do Marquês de Sade.

Difícil dizer se gostei ou não.

Dos três contos, a Luz Miserável foi o que mais gostei. Senti-me atraído pelo ambiente macabro e gótico, pelos três estranhos personagens alucinados, no entanto não gostei dos laivos de fantasia com que todas as histórias terminam. Nesse aspecto achei que o autor deita a perder o que vai construindo. É algo como uma espécie de construção de um plano baseado na realidade que é posteriormente destruído por factos fantasistas. No entanto, questiono, qual o plano real?

Penso que é uma obra destinada a um certo grupo de leitores. Pessoalmente não aprecio o estilo.

Destaco por último a edição. Páginas negras com letras brancas que realcem o tema.


terça-feira, 13 de abril de 2010

Evangelho do Enforcado (O) – David Soares


Espantoso, grandioso, eloquente, belo, misterioso, poético, encantador, viciante, bem escrito, mágico, extraordinário. Um dos melhores livros que li até hoje e um sério candidato a melhor livro de 2010.

Muitos são os sinónimos que podem caracterizar o “Evangelho do Enforcado”, no entanto, não obstante os acima referidos, parece-me que “Obra Prima” classifica na perfeição esta portentosa obra da literatura e tornam David Soares num dos meus escritores predilectos, diria até e é se já não é, um dos nomes grandes da literatura portuguesa.

Para além da história narrada, David Soares escreve muito bem, é exímio na arte narrativa e excepcional a cruzar e interligar vários estilos literários tão distintos mas que ele prova serem perfeitamente compatíveis. Nesta obra, assim como já havia constado em “A Conspiração dos Antepasados”, ele faz uso do romance histórico num estilo gótico, passando pelo fantástico com laivos de poesia à mistura. A forma como constrói o trama, como constrói essa Lisboa medieval, aplicando-lhe doses q.b. de magia e fantasia é genial, dando-lhe por variadas vezes, um tom surrealista.

A escrita de David Soares é fortemente cinematográfica (se me é permitido assim a caracterizar), as imagens criadas e que descrevem personagens, locais e acontecimentos, são extremamente potentes assim como a capacidade de criar situações chocantes e grotescas, muitas delas tendo como intervenientes directos personagens históricas, convicto, dá-nos quase a certeza da probabilidade de ter sido assim como ele narra e isso, por si só, é altamente dignificante para um autor.

Esta obra fala de Lisboa, de um reino que, no séc. XV via a ínclita geração iniciar um movimento que daria origem à Época Maior da História de Portugal. Muitas e famosas personagens aqui desfilam, várias delas com as suas virtudes e os seus defeitos, algumas com paranóias, vícios clandestinos e lados negros que, a ser verdade, viriam desvirtuar a imagem que delas ficou, no entanto esta é uma obra de ficção, embora seja importante referir que, como qualquer ser humano, estas personagens não foram perfeitas…

Ao contrário do que é referido na sinopse, este romance não é sobre os Painéis de S.Vicente (até porque o autor refere nos Apontamentos nada se saber de concreto sobre eles, excepto a data provável da sua realização e a origem da madeira sobre o qual foram pintados, pág. 342). Obviamente que se fala deles e descreve como supostamente podem ter sido criados por Nuno Gonçalves, mas, na minha óptica, este é um romance que pretende mostrar a época, a conjuntura onde a loucura, a alienação e o crime eram comuns a todas as classes sociais e onde o necrofilismo se faz sentir. Note-se, por exemplo, o caso do cárcere de D.Fernando, e percebe-se a loucura e a alienação.

O trama do livro é sustentado, em parte, pelas diversas interpretações e teses aos Painéis e do que está, ou pode estar, por detrás deles. Muito interessante a teoria do autor sobre os surtos de Peste Negra, assim como da origem de monstros que foram parte importante do imaginário português (Adamastor, por exemplo) e que aqui é simbolizado na relação grotesca entre Nuno Gonçalves e Geronte, criatura fantástica que aterroriza o pintor.

Uma nota para o imenso trabalho de investigação do autor que passou por ler e analisar livros de História medieval, psicopatia, anatomia humana, ciência forense e criminalista e sexualidade medieval.

Sendo apenas um livro de ficção, o autor é genial na forma como constrói um fresco histórico, não apenas na forma como trabalha os personagens, como conseguindo transportá-los à nossa presença conjuntamente com a sua época, invadindo-nos numa áurea mágica e misteriosa como só David Soares consegue criar.

Um livro genial de um autor genial.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Conspiração dos Antepassados (A) – David Soares


Classificar o género literário de um livro não é, grosso modo, tarefa complicada de ser efectuada, no entanto há aqueles que podem pender para diversos géneros ou, se quiserem, terem elementos de diversos géneros que fazem dele uma espécie mesclada sendo esse o caso desta obra.

A escrita de David Soares é sublime e, confesso, iniciei a leitura desta obra com alguns preconceitos dada a colagem do autor ao género fantástico. Porém, poucas páginas lidas, sentia-me completamente rendido à sua escrita e ao humor que transpira, completamente inserido no contexto, sentindo que fazia parte da narração, pois umas das características da sua escrita é a forma credível e cinematográfica como consegue “pintar” os personagens.

Contendo elementos de romance histórico, horror, thriller e fantástico, este é um romance que se vai dividindo em capítulos fragmentários entre dois personagens com acções temporais diferentes mas que se irão unir no mesmo local e com um assunto em comum: o Mito Sebático.

Fernando Pessoa e Aleister Crowley foram dois personagens com características e personalidades muito diferentes. Fernando Pessoa, vivendo uma existência algo utópica onde os seus heterónimos eram braços da sua entidade. Espantosa a forma como David Soares humaniza o poeta, colocando-o, por exemplo e entre outras imagens, a masturbar-se ou a ter sexo furtivo com a “sua” Ophélia.

Aleister Crowley, mágico famoso, fanfarrão, é um bon vivant que tem uma vida sexual orgástica em nome da magia. O interesse pela magia irá unir estes dois homens numa Lisboa, ela própria misteriosa, mágica, povoada por lugares iniciáticos e herméticos.

E é Lisboa que ocupa um dos lugares mais destacados do livro. David Soares pinta-a num fresco admirável, colando-a com a bela e encantada vila de Sintra que, conjuntamente com a sua Quinta da Regaleira, brilha intensamente por toda a obra.

Todo o trabalho narrativo é envolvente. Confesso que não apreciei alguns elementos de fantasia pura, sobretudo os referidos à Irmandade dos 300 ou a Francisco de Ollanda, no entanto e embora o autor assuma a obra como pura ficção, ela é um mimo biográfico no que respeita a estes dois personagens, no que nos diz respeito, a Fernando Pessoa.

Por último achei espantosa a secção final onde o autor explica a lógica do romance ilustrando com imagens reais. Num livro riquíssimo, a secção final é algo de diferente, uma espécie de meiguice com o leitor, impossível não nos sentirmos recompensados.

De leitura compulsiva e viciante, este é um romance que pode em alguns momentos aborrecer o leitor dada as informações alquímicas que servem de base para construir o puzzle, assim como causar estranheza algumas das imagens que o autor nos lança (por exemplo quando ele refere a coprofagia de Crowley), mas é sem dúvida um romance que nos envolve, que nos embala, delicioso.