terça-feira, 13 de abril de 2010

Evangelho do Enforcado (O) – David Soares


Espantoso, grandioso, eloquente, belo, misterioso, poético, encantador, viciante, bem escrito, mágico, extraordinário. Um dos melhores livros que li até hoje e um sério candidato a melhor livro de 2010.

Muitos são os sinónimos que podem caracterizar o “Evangelho do Enforcado”, no entanto, não obstante os acima referidos, parece-me que “Obra Prima” classifica na perfeição esta portentosa obra da literatura e tornam David Soares num dos meus escritores predilectos, diria até e é se já não é, um dos nomes grandes da literatura portuguesa.

Para além da história narrada, David Soares escreve muito bem, é exímio na arte narrativa e excepcional a cruzar e interligar vários estilos literários tão distintos mas que ele prova serem perfeitamente compatíveis. Nesta obra, assim como já havia constado em “A Conspiração dos Antepasados”, ele faz uso do romance histórico num estilo gótico, passando pelo fantástico com laivos de poesia à mistura. A forma como constrói o trama, como constrói essa Lisboa medieval, aplicando-lhe doses q.b. de magia e fantasia é genial, dando-lhe por variadas vezes, um tom surrealista.

A escrita de David Soares é fortemente cinematográfica (se me é permitido assim a caracterizar), as imagens criadas e que descrevem personagens, locais e acontecimentos, são extremamente potentes assim como a capacidade de criar situações chocantes e grotescas, muitas delas tendo como intervenientes directos personagens históricas, convicto, dá-nos quase a certeza da probabilidade de ter sido assim como ele narra e isso, por si só, é altamente dignificante para um autor.

Esta obra fala de Lisboa, de um reino que, no séc. XV via a ínclita geração iniciar um movimento que daria origem à Época Maior da História de Portugal. Muitas e famosas personagens aqui desfilam, várias delas com as suas virtudes e os seus defeitos, algumas com paranóias, vícios clandestinos e lados negros que, a ser verdade, viriam desvirtuar a imagem que delas ficou, no entanto esta é uma obra de ficção, embora seja importante referir que, como qualquer ser humano, estas personagens não foram perfeitas…

Ao contrário do que é referido na sinopse, este romance não é sobre os Painéis de S.Vicente (até porque o autor refere nos Apontamentos nada se saber de concreto sobre eles, excepto a data provável da sua realização e a origem da madeira sobre o qual foram pintados, pág. 342). Obviamente que se fala deles e descreve como supostamente podem ter sido criados por Nuno Gonçalves, mas, na minha óptica, este é um romance que pretende mostrar a época, a conjuntura onde a loucura, a alienação e o crime eram comuns a todas as classes sociais e onde o necrofilismo se faz sentir. Note-se, por exemplo, o caso do cárcere de D.Fernando, e percebe-se a loucura e a alienação.

O trama do livro é sustentado, em parte, pelas diversas interpretações e teses aos Painéis e do que está, ou pode estar, por detrás deles. Muito interessante a teoria do autor sobre os surtos de Peste Negra, assim como da origem de monstros que foram parte importante do imaginário português (Adamastor, por exemplo) e que aqui é simbolizado na relação grotesca entre Nuno Gonçalves e Geronte, criatura fantástica que aterroriza o pintor.

Uma nota para o imenso trabalho de investigação do autor que passou por ler e analisar livros de História medieval, psicopatia, anatomia humana, ciência forense e criminalista e sexualidade medieval.

Sendo apenas um livro de ficção, o autor é genial na forma como constrói um fresco histórico, não apenas na forma como trabalha os personagens, como conseguindo transportá-los à nossa presença conjuntamente com a sua época, invadindo-nos numa áurea mágica e misteriosa como só David Soares consegue criar.

Um livro genial de um autor genial.

6 comentários:

tonsdeazul disse...

Esta opinião reflecte na perfeição o quanto "O Evangelho do Enforcado" é uma obra a não perder!
Do autor li "Os Ossos do Arco-Íris". Uma pequena obra, que engloba três contos e me mostrou o quanto a sua escrita é realmente diferente!

Iceman disse...

De David Soares li de facto este "Evangelho" e a "Conspiração" e em ambos fiquei deslumbrado com a sua escrita e com a forma poderosa como narra, como conta a história e como nos envolve.

Longe de mim menosprezar qualquer escritor, mas, para mim, David Soares é um dos melhores escritores nacionais.

Tatiana disse...

Bem, já tinha intenções de ler este autor o quanto antes, depois de ler esta opinião só me apetece correr para a livraria... :O
Bem, vim também para dar uma sugestão: procure este livro, é mesmo uma pérola! "Terra de Ninguém", de Eduardo Antonio Monterroso (é da colecção Ovelha Negra, Oficina do Livro) acredite, é uma boa aposta ;) (assim como o livro "A Prisão" de Jesús Zárate, que é mesmo fantástico!)

Alice disse...

Bem, bem, bem... não sei se a minha carteira gosta disto. Já tinha este livro debaixo de olho há uns tempos mas agora... Normalmente identifico-me bastante nas tuas críticas e depois de ler esta a vontade de me lançar nesta leitura cresceu ainda mais. Lá terá que ser...

Iceman disse...

Olá Tatiana.

Eu já louvei o livro o bastante para, quem aprecia os géneros abordados, ter a certeza que se trata de uma pérola, um livro excepcional.

Já estive a pesquisar na net os títulos que me sugeres e ambos me parecem ser de facto apelativos.

Ficam na extensa lista de livros a "daquirir" na próxima Feira do Livro.

Obrigado!

Iceman disse...

Olá Alice.

Eh, eh. Entendo-te perfeitamente pois comigo e penso que com a maioria das pessoas acontece o mesmo, ficamos empolgados e com a certeza tratar-se daquele livro que nos enche as medidas.

Em todo o caso espera pela Feira do Livro. Certamente será o Livro de um dos dias e é muito provável que nesse dia o David Soares estará na Feira e acredito com um desconto de uns 40%.

Mas que se trata de um livro que vale o dinheiro, isso não tenho dúvidas.