segunda-feira, 14 de junho de 2010

Aventuras de Huckleberry Finn (As) – Mark Twain


Considerado por muitos como uma das obras primas da literatura americana (Hemingway afirmava: “Toda a literatura moderna americana adveio de um único livro de Mark Twain chamado "Huckleberry Finn" (…) Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então.”), As Aventuras de Huckleberry Finn, segundo o próprio Twain, são uma espécie de continuação das Aventuras de Tom Sawyer, obra emblemática do autor, talvez a mais conhecida nos dias de hoje.

E de facto o livro inicia-se pouco depois dessas aventuras (confesso que nunca as li), altura em que Huck Finn vive adoptado por uma senhora que insiste em lhe ensinar boas maneiras assim como o levar a frequentar a escola.

Depressa Huck se aborrece e um pouco até contragosto se vê a morar com o pai, um homem violento, que passa a vida bêbado.

Farto de ser sovado e ameaçado de morte, Huckleberry Finn simula o seu assassinato, empreendendo assim uma viagem Mississípi fora, iniciando um rol de aventuras que nos vão lançar na América dos finais do séc. XIX.

E a América que Twain retracta, é um país que vive ainda sob os efeitos da Guerra Civil, um povo ignorante, a maioria analfabeto, um pouco como vemos em filmes de faroeste ou em obras como, por exemplo, “Meridiano de Sangue” de Cormac MacCarthy.

Outra característica desta obra e talvez aquela que mais salta à vista, é o racismo que nos envolve página a página.

Na pele do escravo Jim, Mark Twain, que é tido como anti-escravatura, explana toda uma mentalidade imperialista que se começava a enraizar na sociedade americana. É chocante perceber que a diferença entre um animal e um negro era nula.

Sei que Twain elaborou esta obra precisamente para demonstrar o racismo que existia. A linguagem utilizada choca pela sua frieza das expressões que eram utilizadas de uma forma natural, e a certa altura Huck Finn conta a alguém que num barco explodiu alguns barris. A outra pessoa questiona se alguém ficou ferido ao que Huck responde: “Não! Apenas morreu um preto!” e a outra pessoa diz: “Ah, que sorte!”.

Este é pois um livro para adultos. Não entendo porque continua associado a literatura juvenil quando até as próprias aventuras demonstram a mentira, morte, desonestidade, racismo, ganância, deslealdade e violência.

Sendo mais um manual das várias facetas da sua sociedade, “As Aventuras de Huckleberry Finn” merecem ocupar um lugar de destaque na literatura mundial e, quanto a mim, é uma leitura imprescindível para entender a mentalidade imperialista norte-americana.

5 comentários:

Paula disse...

Olá Iceman,
Comecei a ler este livro e deixei-o a meio. Porquê não sei :( talvez não fosse a altura própria para continuar. Li até metade de um folego só, depois parei. Talvez tivesse sido devido a tantas fugas de Huck (rio acima, rio abaixo)...

Huck é um bom menino e tanta a sua adaptação. No entanto foge devido ao seu pai. Farto de ser sovado como referiste.
Apesar de Huck estar tão perto da condição de jim (Fugitivo) sente-se sempre superior, pois jim é negro. Há uma pensamento que me chamou a atenção que acho caracteriza o pensamento da sociedade da altura "Dá um dedo a um preto e ele pegará na mão".
Achei "engraçada" a referência ao Juiz tatcher, que deveria dar o exemplo e proteger e que afinal é tão aldrabão como todos os outros. Não pensou duas vezes e ficou logo com o dinheiro de huck.
Achei fantásticas as descrições das fugas no rio e da simulação da morte de Huck.
Bem, tenho de pegar no livro para acabar :P
Abraço

Pedro disse...

Iceman, já li este livro há tanto tempo... Estava no 5.º ano. Foi um dos meus primeiros "romances" se é que podemos chamar-lhe isso. Agora que vejo bem... Pergunto-me se não foi mesmo o meu primeiro "literatura estrangeira". Do que me lembro, foi mesmo!

Já li também "As Aventuras de Tom Sawyer". Tenho a dizer que Huck Finn é para mim, de longe, melhor do que Tom Sawyer (mesmo sendo este mais conhecido, para mim Huck Finn reflectiu mais profundamente um espírito e a mentalidade americana que tu próprio apontaste).

Dizer, então, que é um dos meus livros preferidos de sempre torna-se, então, dispensável. Fiquei totalmente rendido a esta obra, e ainda hoje preservo esse gosto. Ver que também o leste exaltou-me!

Agora é ler "AS Aventuras de Tom Sawyer" então! Li os dois num intervalo de tempo bastante espaçado, mas ainda assim notei as diferenças, como já disse. Espero por mais essa leitura, a ver o que dizes!

Abraços

Iceman disse...

Olá Paula!

Penso que compreendo porque deixaste o livro a meio. Até uma certa altura o livro parece, de facto, um mero livro de aventuras e é impossível a gente não se recordar dos desenhos animados da nossa infância.

Porém aquilo é um engano, a partir de certa altura começamos a entender o verdadeiro significado do livro e torna-se, então, muito mais interessante.

Iceman disse...

Viva Pedro!

Leste-o muito novo.

Já tenho comigo as "Aventuras de Tom Sawyer" e penso lê-lo nos próximos tempos.

Gostei muito de Huck Finn. Tom Sawyer, por esta obra, é mais espertalhão, mais infantil e mais sonhador. Huck Finn, também pelas agruras da vida, é mais realista e paradigmático. Curioso que Tom Sawyer acaba sempre por ser o líder, mas pensava que era precisamente o contrário.

Um abraço!

Paula disse...

Tens razão Iceman :)
Quando estava a ler parecia que conseguia ouvir os personagens dos desenhos animados.
Quando terminar "Olhai os Lírios do Campo", o que estou a ler no momento, vou pegar nele outra vez :)
Um abraço