terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quando os Lobos Uivam – Aquilino Ribeiro


Publicado em 1958, “Quando os Lobos Uivam” é talvez o romance mais conhecido de Aquilino Ribeiro e um dos últimos que escreveu. Já anteriormente “marcado” pelo regime salazarista, esta obra valeu-lhe um mandato de captura e a apreensão de todos os exemplares editados.

E o que faz deste romance algo “digno” de censura e o seu autor “persona non grata” para o regime?

Serra dos Milhafres, finais dos anos 40, o Estado Novo resolve impor aos beirões uma nove lei: Os terrenos baldios que sempre tinham sido utilizados para bem comunitário e onde essa comunidade retirava parte vital do seu sustento, seriam agora “expropriados” e esses terrenos utilizados para plantar pinheiros. Assim, sem mais nem menos, o Estado chega e diz que, a partir daquele momento, acabou.

Implanta-se um clima de medo nas gentes e é esse clima que Manuel Louvadeus, que havia emigrado para o Brasil anos antes, vem encontrar quando regressa à aldeia.

Homem vivido e culto devido, segundo o próprio, aos muitos livros que por lá havia lido, Manuel tem uma visão para os dois lados e um sentido de justiça que rapidamente o fazem cair nas boas graças das gentes do povo.

Toma então parte da sua gente, homens honestos e humildes que trabalham de Sol a Sol mas que não deixam de viver em condições miseráveis.

A revolta acaba por suceder e entre mortos e feridos tudo acaba numa caçada aos homens por parte da polícia que leva muitos homens à prisão acusados de serem instigadores e cérebros da revolta. O Estado mostra então todo o seu esplendoroso poder.

Obviamente que mais de 50 anos após a sua publicação muitos não entendem o porquê da censura, no entanto não é necessário grandes pesquisas para entender, até porque Aquilino Ribeiro é directo, não se refugia em metáforas ou alegorias.

Aqui representado está a saga dos beirões na defesa dos terrenos baldios perante a ditadura do Estado Novo.

Representado também, ou se quiserem, brilhantemente retractado, a miséria em que vivia o povo beirão que é apenas a mostra da maioria da população portuguesa da altura, assim como a sua ignorância que, sobretudo, grassava no interior de Portugal.

É normal que o romance tivesse enfurecido o regime. Aquilino Ribeiro é demolidor na forma como denuncia a natureza, prepotência e arrogância do Estado, mas vai mais longe, descreve o funcionamento dos Tribunais Plenários fascistas e a ligação do sistema judicial às classes dominantes do país. Estes tribunais que funcionaram de 1945 a 24 Abril 1974, foram um dos mais tenebrosos mecanismos repressivos. Aquilino denuncia a podridão desse mecanismo e da cumplicidade entre magistrados e polícia política.

Algo que me fascinou em Aquilino Ribeiro foi a sua escrita. Poética a forma como constrói a narrativa, utilizando expressões beirãs (confesso que muitas dessas expressões me eram totalmente desconhecidas) que nos situam temporalmente em simultâneo com uma descrição sublime das gentes, transmitindo-nos a sua humildade e a sua natureza que, no fundo, é a natureza, a raiz do povo português.

Enlevante nas palavras, na graça e ironia que coloca, na arte do saber escrever.

Um livro belíssimo, uma pérola da literatura portuguesa, um verdadeiro mestre da arte da escrita.

Compreendo agora porque José Saramago afirmou, quando ganhou o Prémio Nobel da Literatura, que se Aquilino Ribeiro estivesse vivo seria ele a receber o Nobel.

9 comentários:

Pedro disse...

Já li "O Romance da Raposa", do mesmo autor, e gostei imenso.
Sem dúvida, Aquilino Ribeiro consegue ser bastante poético.

Nunca li mais nada dele, apenas umas espreitadelas pel'"O Malhadinhas", na bibioteca da escola.



Comecei a ler "O Conde de Monte-Cristo". Promete.

Iceman disse...

Viva Pedro!

Confesso que nunca havia lido nada de Aquilo e confesso até algum preconceito em relação ao autor, pois dos poucos textos que li sobre o mesmo pareceu-me sempre ser um daqueles autores "chatos".

No entanto estava enganado. Aquilino Ribeiro foi um escritor excepcional, sem dúvida ao nível dos grandes escritores nacionais.

"Conde de Monte Cristo" nunca tinhas lido?

Tenho a certeza absoluta que vais adorar. Depois has-de ler os "Miseráveis".

Pedro disse...

Nunca tinha lido Dumas. Bem, acho que ainda vou a tempo. Quanto a "Os Miseráveis", também estão de lado (mas já pertence à biblioteca da minha mãe).

domingos costa disse...

é pena aquilino ser tão pouco divulgado.quando os lobos uivam,terras do demo volfrãmio ou malhadinhas entre outros é do melhor que se escreveu em português.

mario disse...

Aquilino ribeiro e uma pessoa muito rico empalavras caras como por exemplo:construções frásicas de raiz popular

Miguel Custódio disse...

Talvez por ser também eu do distrito de Viseu, porque na minha juventude muito ouvia falar de Aquilino Ribeiro.É ele para mim o Romancista preferido não só porque o enredos dos seus romances retratam fielmente o viver das gentes a que se refere, mas também pelo seu vocabulário de um português vernáculo e puro.

UFO disse...

Num registo mais recente o 'Mia Couto' é o meu autor preferido.
O Aquilino é um expoente da literatura portuguesa.
Como o li já depois do término da ditadura não me apercebi da crítica ao regime e dos riscos pessoais que ele enfrentou.
Vou reler de certeza.
Ele tem registos de escrita muito variados. Uns mais simples de decifrar, como este romance ou o Malhadinhas até ao difícil 'Casa grande de Romarigães' . Este li por mais de uma vez não pela história em si mas pela beleza da sua escrita. Infelizmente, mesmo sendo eu meio beirão e já antigo eu não conseguia intuir boas partes da sua escrita. No desafio de tentar perceber estava o meu prazer.

Unknown disse...

Fantástico, vou ler outro.

Monteiro disse...

Comecei por ler "Casa Grande de Romarigães" e custou-me um bocado entrar nas palavras graníticas mas vencidas as primeiras dificuldades foi apaixonante ler o livro. Tive a mesma dificuldade com Augustina Beça Luís mas dessa escritora nunca consegui entrar no âmago das suas obras. Falta-lhe o calor da solidariedade.