domingo, 5 de setembro de 2010

As Serviçais (The Help) – Kathryn Stockett


Maior sucesso de vendas em 2009 nos Estados Unidos, mais de 50 semanas no 1º e 2º lugar do New York Times e já com os direitos adquiridos pela Dreamworks para uma mega produção prevista para o verão de 2011, “The Help” é uma obra que versa essencialmente sobre a segregação racial no Estado do Mississípi durante os anos 60.

William Faulkner, que nasceu no Estado do Mississípi, disse que ali era o lugar “onde o passado nunca morre”, aludindo ao racismo que sempre foi uma bandeira da região. Note-se que é o único estado, ainda por mais decidido pelos próprios habitantes, que mantém um símbolo da luta separatista na sua bandeira o que, por si só, demonstra que é um estado que mantém uma atitude racista, não fosse também aí o berço dessa célebre e triste organização Ku-Klux-Klan.

1962, Jackson, Mississípi, a cidade vive dividida. Brancos para um lado, pretos para outro. Todas as famílias brancas têm uma criada negra que, para além de limpar e cozinhar, cria os filhos das senhoras brancas demasiadamente ocupadas em jogos de bridge, idas ao cabeleireiro, reuniões no clube e conversas fúteis.

Sabendo que é uma história fortemente baseada em factos verídicos, a autora lança aqui uma primeira crítica a uma sociedade fútil que se julga superior mas que não demonstra as características básicas do ser humano.

Neste contexto, tomamos conhecimento com Aibileen e Minny. Ambas negras e criadas, no entanto têm personalidades diferentes e é com essas personalidades que Skeeter, a jovem branca que havia sido criada por uma negra, irá encetar um trabalho importante e que irá colocar Jackson em pé de guerra e a questão racial como tema quente nos Estados Unidos.

Gostei muito deste livro!

Não posso dizer que toda a história que está por detrás do argumento me tenha surpreendido. Basicamente porque conheço um pouco o que esteve por detrás da Guerra da Secessão (1861-1865), assim como da segregação racial que ainda hoje existe, pese embora ninguém a refira, em todo o caso é sempre diferente quando o relato é de quem sofreu na pele em vez de meros historiadores que se limitam a apresentar factos.

Nas histórias de Aibileen, Minny, Constantine, Yule May ou Pascagoula, podemos ler a vida de milhares de mulheres negras que foram educadas para servir o branco. Sofriam em silêncio, muitas vítimas de maus tratos, humilhações e injustiças que atingiam, em muitos casos, os seus familiares.

Obviamente que nem todas as famílias brancas tratavam mal as suas criadas negras. No livro Hilly Holbrook representa esse lado mais negro, o lado maldoso, extremamente racista, porém muitas famílias brancas viam as suas criadas como sendo de família, tinham por elas um carinho muito especial, no entanto o que sobressai é que a relação criada-patroa nunca é colocada em causa, sobretudo essa segregação quer era vista como natural, pois atente-se às leis de Jim Crow que vigoraram de 1876 a 1965, leis essas que ditavam que em locais públicos as instalações fossem separadas entre brancos e pretos.

Referências a questões sociais há várias ao longo do livro. Para além das leis de Crow, Martin Luther King é aqui mencionado assim como o atentado bombista que em 15 de Setembro de 1963 vitimizou 4 crianças e feriu mais de 20 pessoas negras, claro. O livro de Harper Lee “Favor Não Matem a Cotovia“ e outros acontecimentos que marcaram os anos aqui tratados.

Um livro impregnado de História que de certo envergonhará não só parte dos Estados Unidos assim como quem ainda usa da intolerância e do preconceito. No entanto, mais importante, é o ser humano aprender com a História de forma a não repetir os erros do passado. Bem sei que é uma perfeita utopia e que o ser humano, como tem amiúdes vezes demonstrado, não consegue aprender com esse passado, porém que estes livros sejam lidos e divulgados como forma de demonstrar que o ser humano é apenas uma espécie, sejam brancos, amarelos, negros ou vermelhos.

Aquando da leitura desta obra não deixei de pensar em duas personalidades negras (afro-americanas) que fizeram e fazem furor em todo o mundo e que muito prezo: Muhammad Ali, conhecido pelas suas atitudes provocatórias e Oprah Winfrey, nascida em Kosciuski, Mississípi… que gozo devem ter e continuar a sentir por quem são.

Última referência para a tradução de Fernanda Serrano. Sendo um livro escrito por uma sulista sobre o seu estado, de certo é um livro, no original, cheio de expressões assim como referências a certos factos históricos. Pareceu-me sempre excelente. Muito cuidada e regular. Pena é a tradução respeitar o acordo ortográfico, mas isso é gosto pessoal.

1 comentário:

tonsdeazul disse...

Aguardava por esta tua opinião, para poder confirmar as minhas expectativas! Vai continuar na minha lista de livros a comprar. ;)
Só não gostei de saber que já está escrito com o novo acordo ortográfico!