quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Queda dos Gigantes (A) – Ken Follett


Trata-se de um romance, histórico, mas não deixa de ser um romance.

No entanto o autor, no final nas secções “agradecimentos” e “personagens históricos”, refere que teve um consultor histórico que o “poupou a muitos erros”, deixando claro que as personagens ficcionais são testemunhas de acontecimentos verídicos e que “a cena aconteceu, ou poderia ter acontecido, ou as afirmações foram feitas, ou poderiam ter sido feitas. "

Fica assim claro que é um romance em que os acontecimentos são verídicos.

Mas não deixa de ser um romance e vou tentar não me esquecer disso.

Esta obra gigantesca de Ken Follett, que tem com “A Queda dos Gigantes” o seu primeiro volume de uma trilogia que é suposto abranger todo o século XX, revela-se um objectivo muito ambicioso, diria até, algo utópico face aos inúmeros acontecimentos desse século, porém compreendo que o autor queira centrar a obra na sua cultura, porém é na mesma muito ambicioso.

Confesso que foi com muita curiosidade que iniciei a leitura desta obra. Não tanto por ser um apreciador do autor, mas sobretudo por ter lido ser esta obra comparável a “Guerra e Paz”.

Quanto a essa comparação só é possível se quantificarmos o nº de páginas porque, quanto ao resto, é como compararmos um colar de diamantes e rubis a um colar de missangas feito na hora na Rua Augusta, isso sendo o colar de diamantes Guerra e Paz. Assim quanto a essa possível comparação dou o assunto por fechado.

Ken Follett procura explorar o ponto de vista político de vários povos e culturas, penso que esse é o dado que sobressai no início da narrativa. Aliás, toda a narrativa é bastante centrada nas questões políticas e estratégicas nos bastidores da Guerra.

Desde logo traça-nos a sociedade da altura (1914), a diferença entre burguesia e povo, sendo curioso verificar que seja na Alemanha, seja na Rússia, as diferenças são mínimas.

Neste contexto, o autor aborda muitíssimo bem o estado dos impérios, deixando antever as alterações sociais e políticas que estavam em marcha, sublinhando o início do Movimento Sufragista feminino e a Revolução russa que, mais à frente, terá um tratamento cuidado por parte do autor.

Ou seja, Ken Follett é exímio na forma como coloca as situações e as vai explicando. Consegue situar o leitor e passar para o mesmo o cenário num estilo muito cinematográfico.

Desta forma é perfeitamente perceptível as razões que levaram à Grande Guerra, surpreendendo pela positiva a forma como o autor consegue interligar a História com ficção, recordando-me da narrativa de algumas das batalhas mais sangrentas do conflito que Ken Follett brilhantemente descreve, embora, na minha óptica tinha campo para explorar melhor, sobretudo no que respeita às dificuldade e misérias dos soldados nas trincheiras (a vida nas trincheiras).

No entanto e embora seja um romance que, compreendo pretenda narrar e centrar-se nas principais potências, falha estrondosamente ao omitir factos históricos que tiveram uma influência vital no desenrolar do conflito.

A 1ª Guerra Mundial opôs dois campos distintos aliados entre si por diversos acordos. Por um lado estava o Tríplice Entente (os aliados) liderados pelo Império Britânico, França e Império Russo mas onde participaram mais 30 nações, entre elas, Portugal (1917). Do outro lado as Potências Centrais composta pelos Impérios Alemão, Austo-Hungaro, Turco-Otomano e Bulgária.

Ou seja, cerca de 40 nações estavam em guerra e o autor referencia apenas 8: Inglaterra, País Gales (compreende-se dado que é o país do autor), França (aparentemente só deram as trincheiras), Alemanha, Rússia, Estados Unidos e, na fase inicial, Áustria e Sérvia.

Lamentável a forma como o autor sonega a participação de outras nações, sobretudo aquelas que estiveram presentes nas trincheiras e que tiveram milhares de mortos entre os milhões de soldados mortos na guerra das trincheiras.

Nessa terrível guerra das trincheiras, segundo Ken Follett, apenas estiveram presentes tropas britânicas e alemãs. Os franceses andam por ali a pastar não se sabendo bem a fazer o quê, mas enfim, e os norte-americanos acabam por entrar na guerra quando se apercebem que aquilo começava a pender para o lado alemão e se os alemães vencessem a guerra, lá se ia o pagamento das armas que haviam vendido aos restantes aliados.

Depois esquece-se que é nesse conflito que surgem pela primeira vez os bombardeamentos aéreos. não contei nenhuma alusão a sequer um avião. Os gases tóxicos são mencionados mas de uma forma muito ligeira quando, na verdade, eram um dos terrores dos soldados de ambos os lados. Assim como menciona uma ou duas vezes o uso dos tanques quando tais veículos foram usados por diversas vezes, sobretudos pelos alemães.

Algo que também não gostei foi o fraco aproveitamento da Revolução Russa.

Então o homem até consegue narrar muito bem o percurso e as razões que estão por detrás da revolução mas esquece-se de, sequer mencionar o assassinato do Czar e da sua família, perdendo-se em quezílias entre os bolcheviques e os mencheviques?

Compreendo que essas quezílias, as diferenças de políticas pós revolução, as modificações operadas fossem mais importantes para o desenrolar da história, mas entre casos entre lençóis o autor não arranjava um buraquinho para colocar o assassinato ordenado por Lenin e levado a cabo no dia 17 Julho de 1918, não seria uma mais valia?

Mas enfim.

Embora o livro tenha sido escrito de uma forma muito comercial tendo em vista o mercado a quem se destina (é notório o graxismo aos britânicos e norte-americanos), a escrita é simples e objectiva não se perdendo em descrições, sendo concisa nas suas explicações políticas e extremamente prático na descrição da sociedade da altura e do modo de vida das pessoas.

Não tendo achado nenhuma obra prima, considero ser este um bom livro e confesso que vou seguir a trilogia, pois estou interessado em saber o que vai suceder a algumas personagens assim como ao desenrolar da situações política e social da Europa e resto do Mundo, pese embora e pela amostra, não seja muito difícil perceber o que aí vem.

4 comentários:

Paula disse...

Olá Iceman,
Um livro comercial sem dúvida :)um livro que teve como objectivo ser escrito para ter sucesso, aliás este é como o do Peixoto. Antes de estar nas livrarias já estava ditado o seu sucesso pela máquina que é o Marketing!

Então tanta falha assim?? ups (estou a ver que tenho de me dedicar mais à História :( )
Quando li gostei, gostei bastante porque também adquiri bastantes conhecimentos, mas estou a ver é que tenho de ler outros também. Mas mesmo com estas falhas todas não deixa de ser um bom livro (acho eu)

Concordo com o "Colar de missangas" comparado a Guerra e Paz. Penso que o Follett até tentou qualquer coisa, mas diga-se que ficou a milhassssssssss e mais milhasssssss de distância.
Apesar das páginas e do nº de famílias...nem foi preciso fazer apontamentos para não haver confusão :)
Abraço

Iceman disse...

Olá Paula!

E isso foi apenas o que eu detectei, pois imagino que existam mais pormenores que o autor omite.

Mas ressalvo que gostei do livro e que pretendo continuar a ler a saga, no entanto mais num sentido de entretenimento.

Agora que Ken Follett escreve unicamente tendo em vista determinado nicho, isso é mais que perceptível. É um autor que escreve livros para vender. Não tenho nada a opor e nem retira brilho aos livros dele que são de facto muito agradáveis.

Manuel Cardoso disse...

Em termos de pormenor há mais falhas do que essas, há. Mas a maioria não são graves. Graves mesmo são o esquecimento da guerra nas colónias, o depsrezo por uma grande quantidade de países envolvidos entre os quais Portugal e o exagero na importancia dada aos submarinos e à aviação.
A comparação com Guerra e Paz é apenas formal; como diz a Paula, está milassssss e milhassss :)
Mesmo assim concoirdo que não ér mau de todo...

Patrícia disse...

Olá
Este post, claramente, passou-me ao lado.
Continuo com curiosidade em ler o livro apesar de estar agora um bocadinho de pé atrás. Confesso que não conheço em detalhe a história mundial destes últimos sécs. Sendo de Matemática as aulas de história acabaram no 9º ano... apesar disso gosto imenso de história e tenho aprendido imenso através dos "romances históricos" mas às vezes aprendo com alguma incorrecção, o que me irrita.
Boas leituras
Patrícia