quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Jogo do Anjo (O) - Carlos Ruiz Záfon


Záfon é um autor de best-sellers vendendo milhões de livros em todo o mundo e criando um conjunto de fãs que o veneram como um Deus, sendo comum lermos considerações que o intitulam como o melhor escritor da actualidade.

Exagero, sem dúvida, face à escrita, que até é agradável, mas sobretudo face ao argumento que o autor se utiliza na criação das suas histórias e, para isso, estou a pensar nos dois títulos emblemáticos: “A Sombra do Vento” e “O Jogo do Anjo”, nitidamente romances escritos para um público alvo mais juvenil, num género que oscila entre a Aventura, policial, fantástico e gótico, sobressaindo claras influências de outros autores como Allan Põe no gótico, Victor Hugo na aventura, e até situações em que nos debatemos em questões de foro psicológico que fazem lembrar Dostoeivsky ou até no absurdo se nota influências de Lovercraft.

Em todo o caso Záfon tem um estilo próprio que o distingue da maioria dos escritores e que faz dele, não só um autor muito lido, como também muito solicitado pela industria do cinema, pois e nisso confesso a minha simpatia, ele consegue transmitir imagens do que escreve, ou seja, tem uma escrita muito cinematográfica e isso é ainda mais surpreendente quando estamos a falar num estilo que tem tanto de policial, como de aventura, fantástico ou terror e gótico.

Gostei da “A Sombra do Vento”! Não tanto pela história, mas sim por esta mistura de estilos e pela forma como o autor vai buscar situações  a outros livros e as encaixa no seu argumento, assim como gostei das várias metáforas criadas e da forma como o autor explora as várias facetas humanas. Numa escrita ora poética, ora objectiva e por vezes bem directo e incisivo, é, acima disso, original como conjuga os estilos e os géneros e, no final, admiti estar na presença de uma belíssima obra que merecia a fama que lhe tinham dado.

No entanto “O Jogo do Anjo” já não é bem assim, revelando-se um livro muito semelhante à “Sombra do Vento”, não bem no seu conteúdo, mas na forma como o autor procura conduzir a história e na forma como vai criando as situações e a encruzilhada que é o enredo.

Gostei de ler sobre a Barcelona dos anos 20 e acho que o início do livro está fantástico. David Martín, um jovem escritor que recebe uma proposta de um estranho editor chamado Andreas Corelli para escrever um estranho livro a troco de uma fortuna. Claramente que aqui se encontra o conceito de “vender a alma ao Diabo” que o autor vai sabiamente explorando ao longo do livro. A livraria Sampere e Hijos e o Cemitério dos livros esquecidos que já connosco coabitaram na Sombra do Vento, e até a relação de amizade que mantém com D. Pedro me fez lembrar Dorian Gray e Basil Hallward no “Retrato de Dorian Gray”, ou seja, um conjunto de personagens extraordinárias que vão espalhando o seu perfume nas letras do autor.

No entanto Záfon envereda por um caminho demasiadamente fantástico, traçando uma teia cheia de mistérios que roçam o absurdo e que, na minha opinião, tiram beleza ao livro e a alma que o escritor cria no primeiro terço, pois, às tantas, o que parece não é e o que não parece vai dar em becos com pouco sentido que desvirtuam a realidade e que dão pouca coerência à história. A parte final então é surpreendente pela forma como o autor não consegue dar um término aceitável, terminando tudo num amontoado de inexplicáveis situações, num labirinto literário que não vai dar a lado algum e que nos deixa deixa com uma sensação de “esperem, acho que perdi qualquer coisa”.

É um bom livro sobretudo para os amantes do género fantástico, mas que está longe do brilhantismo da “A Sombra do Vento”

6 comentários:

Maria João disse...

Gostei dos dois livros e concordo com a sua opinião - o final de "O Jogo do Anjo é de facto um pouco rebuscado.

Pedro disse...

A Sombra do Vento é daqueles livros que gostava de um dia reler. Gostei muito. Achei um livro completo, apaixonante.

O Jogo do Anjo está aqui em casa por ler, há algum tempo, e suspeito que vá continuar... Não porque não tenha vontade de pegar nele, mas infelizmente estou bastante separado da minha vida literária.

Vim aqui para te contar as novidades, que já não falamos há muito tempo! Entrei em Medicina, pelo que os únicos livros que vou pegar agora dispensam críticas. Cá se vai indo, tentando encaixar-me na vida universitária.

Espero que desse lado as coisas estejam a correr o melhor possível. Abraço grande!

Iceman disse...

Grande Pedro!
Tive saudades tuas pah!
Muito, mas, muitos parabéns por teres entrado em medicina, o curso que eu gostava de ter tirado, sobretudo cirurgia.
Desejo tudo de bom e que o curso te vá preparar para a tua vida profissional e que sejas um excelente médico. Que especialidade estás a pensar?
Em relaçao aos livros, irás ter muito tempo para continuares a ler, agora dedica-te e continua a dar notícias. A vida universitária é linda. Se me permites um conselho, aproveita-a, não tires o curso sem gozar essa vida académica, vai-te ficar para toda a vida e tenho pena daqueles que por lá passam sem a viverem.
Grande abraço!
Miguel

Pedro disse...

Obrigado!! Ainda não tenho nenhuma especialidade em mente, há tantas opções, algumas ainda nem devo conhecer, pelo que estou à espera de que ao longo do tempo uma delas me puxe mais... Sempre tive interesse em Neurologia e Oncologia (este último é, neste momento, o que mais me fascina).

Sei que as coisas não estão nada fáceis, mas há lá várias pessoas mais velhas, algumas muuuuito mais velhas, a tirar o curso! Se irão exercer ou não, não sei, mas ir estudar é sempre uma excelente aposta.

Estou a tentar aproveitá-la. Ainda estou demasiado pegado aos meus "velhos amigos", mas aos poucos vou conhecendo a nova malta. O ambiente é único. E se por um lado há festas todos os dias, por outro ninguém engana quando dizem que é bastante exigente. Mas corre-se por gosto.

O grande problema é que, agora, só posso pensar em Medicina e em tudo o que envolve a Faculdade. E até hoje tenho sido bastante diletante. Vou sentir saudades das leituras, de queimar tempo a ouvir música ou decidir ver um filme num dia vago.

Enfim, sempre que puder vou dando novidades. Abraço!!

Manuel Cardoso disse...

... ia jurar que já tinha comentado este teu comentário. Ou então houve aqui um dejá vu qualquer :)
Ou estou doido ou tinha escrito mais ou menos isto:
gosto imenso deste escritor. Reconheço que esta incursão pelo fantástico não me agradou totalmente; mas acabei por gostar do livro porque penso que este "fantástico" se enquadra perfeitamente na linha do enredo e, afinal de contas, o fantástico é real no domínio da mente humana.
Gostei mais de A Sombra do Vento, sem dúvida, mas Zafon é um dos escritores que mais me entusiasma pela forma como nos faz devorar páginas como se não houvesse amanhã (com um dia de trabalho) :)

Iceman disse...

Olá Manuel!

Eu gostei do livro mas o fantástico torna o livro algo estranho e, quanto a mim, retira-lhe aquela dose de suspense/thriller que, até então, estava a ter. A partir do momento em que o autor segue esse caminho, o livro perde fulgor ate findar em algo que, pessoalmente, me aborreceu.

Agora A Sombra do Vento é um livro melhor estruturado, construido, mais entusiamante.