segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

D. Dinis – Cristina Torrão


Confesso que conhecia alguma da obra que o tornou D. Dinis num dos principais Reis de Portugal. Fundamentalmente sabia que havia sido ele que cimentou a identidade nacional, que definiu as fronteiras de Portugal com o Tratado de Alcanizes, que procurou povoar todo o território, atribuindo inúmeros forais, que institui a língua portuguesa como o idioma oficial, entre tantos factos que tornam o seu longo reinado de uma riqueza impar.

No entanto desconhecia que estava muito longe de conhecer toda a sua imponência e grandeza e isso, confesso, foi para mim uma enorme e grata surpresa.

Mas vamos por partes.

Primeiro e depois da boa surpresa que foi o livro Afonso Henriques, não esperava menos deste e, minha cara Cristina Torrão, as expectativas estão cada vez mais altas.

Embora eu aprecie a descrição da barbárie das batalhas da Idade Medieval, tenho que reconhecer que esta obra é sublime na descrição da época e na forma como “pinta” os seus protagonistas, a maioria dos quais, para não dizer todos, não se faz ideia de como foram no aspecto físico. No entanto a autora descreve-os, de uma forma geral, e traça-lhes o perfil psicológico e moral de uma forma justa e que, em alguns casos, chega a ser comovedora. Ou seja, a autora é mais uma vez exímia na forma como preenche com ficção os factos Históricos, “pegando” no que se sabe da época e dos personagens, a autora vai tecendo um trama magnífico que se transforma num romance histórico brilhante, de uma excelente qualidade literária.

Logo no início somos colocados diante do acontecimento que vai moldar o carácter de D. Dinis e, a meu ver, ser o principal responsável pela forma como este rei governou e pela sua obra. D. Dinis, então com 5 anos, vai a Toledo conhecer o seu avô, o Rei de Leão e Castela, Afonso X, que ficou conhecido como o “sábio” ou o “astrólogo”, cognomes que denotam a enorme preocupação pela cultura que D. Dinis veio a herdar.

É esse o primeiro capítulo da obra e, com isso, é dado o mote para a acção que a autora vai brilhantemente desenrolando, de uma forma muito cuidada e com todo o vagar, ou seja, ficamos com a sensação de que pouco ou nada ficou por contar, todos os aspectos da vida de D. Dinis são escalpelizados, esmiuçados por vezes de uma forma exaustiva que até se pode tornar um pouco cansativo para quem procura ler de uma forma despreocupada, sem grandes atenções ou cuidados. A meu ver, este é um livro que deve e merece ser lido com muita calma pois a informação é imensa, chega-nos em catadupa e não é fácil assimilar tudo de uma só vez.

Por isso mesmo foi um livro que me demorou mais de um mês a ler. Fui intervalando com outros porque, repito, a informação era muita e achei que este não era apenas mais um livro, mas sim um livro que devia ser apreciado com deleite.

No entanto não foi só aspectos positivos que constatei.

Embora seja um romance histórico no qual a autora pretendeu traçar a vida e a obra de 63 anos de vida e 46 anos de reinado, o livro, em alguns capítulos, torna-se maçudo face às constantes estratégias e interesses políticos. Pessoalmente gosto de mais acção. Conforme referi, gosto das descrições das batalhas. E embora D. Dinis não fosse um rei guerreiro, o certo é que durante o seu reinado houve algumas guerras e muitas quezílias que são aqui aflorados e pouco mais. Por outro lado, confesso que cheguei a achar um pouco enfadonho as descrições das intrigas políticas que, a meu ver, bem exprimidas, eram quase sempre as mesmas, sendo D. Dinis confrontado na maioria das vezes com os mesmos problemas. Aliás, a certa altura o próprio D. Dinis se mostra aborrecido pelas repetidas intrigas. Dessa forma, o livro chega a parecer-se com um compêndio de História, fugindo um pouco do romance histórico. Com isso quero dizer que pode afugentar muitos leitores que procuram mais o entretenimento em prol da informação.

No entanto isso não deslustra a imensa qualidade do romance e a forma honesta e minuciosa como a autora investigou e pesquisou, o que, por si só, é de louvar, pois, com isso, temos a certeza de estar diante de uma história com contornos verídicos de um dos reis mais importantes da História de Portugal.

Um livro que aconselho a todos aqueles que gostam de se deleitar com uma histórias bem contadas e de escrita de qualidade.

3 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Eu penso que essas partes a que chamas maçudas eram imprescindíveis; a diplomacia da época era mesmo assim; e também para eles era precisa muita paciência para aquelas negociações e intrigas políticas.
Na minha opinião é um dos melhores romances históricos da literatura portuguesa.

Iceman disse...

Olá Manuel!

Compreendo o que referes mas discordo um pouco, pois há algumas dessas partes que podiam ser reduzidas e, de alguma forma, resumidas.

Mas, nota, é um estilo que a mim não me faz desistir, o que eu quis sublinhar é que, face ao estilo da maioria dos leitores, há muito boa gente que desiste quando se depara com páginas e páginas de intriga e questões estratégicas ou políticas.

Agora, é um facto que este livro, assim como o Afonso Henriques, é do melhor que há de romance histórico, não só ao nível da literatura portuguesa, como de uma forma geral.

André Nuno disse...

Terminei em Junho a leitura desta obra e devo manifestar o meu agrado. D. Dinis era já um Rei por quem sentia muita simpatia mas depois de ler este livro fiquei-lhe com uma admiração enorme. A dimensão humana foi um toque de mestre por parte da autora e este romance histórico é uma bela obra.