quinta-feira, 15 de junho de 2017

Andorinhas de Cabul (As) – Yasmina Kahdra



Eu: Chaval, acabei de ler um livro brutal, poderoso, espantoso!

O Outro:Bah, não gosto de livros, aborrecem-me, fazem-me sono!

Eu:Não sejas ignorante chaval, em vez de passares o tempo a olhar para a bosta do telemóvel e a ver vídeos ou a jogar, experimenta passar esse tempo a ler um livro, vais ver que ficas menos ignorante…

O Outro:Para quê que eu quero ser menos ignorante?

Eu:Olha, por exemplo, para saberes responder a algumas perguntas daqueles concursos televisivos que tanto gostas. Assim, pelo menos até podes ficar a saber que o Vesúvio é um vulcão, por exemplo”.

O Outro:Bah, tretas!

Eu:Pois é chaval, já vi que a ignorância é um estado de espírito

O Outro: Um quê?

Eu:Deixa. Mas posso pelo menos contar-te um pouco do livro que acabei de ler e que se tornou um dos meus preferidos?

O Outro responde com cara de enfado sacando da bosta do telemóvel de 500€, “Ok, conta lá!

Eu:As andorinhas de Cabul, de Yasmina Kahdra. Um livro muito fininho, que se lá num ápice, eu demorei umas 5 horas a lê-lo, mas que possui várias e poderosas mensagens, sobretudo uma narrativa pungente sobre uma país que durante algum tempo teve sob o domínio do fundamentalismo religioso que, muito em voga está nos nossos dias devido a essa praga do estado islâmico”.

O Outro:Hum, hum…”, disse sem tirar os olhos da porcaria do telemóvel.

Eu, continuei: “Em menos de 200 páginas, Yasmina, que é um dos grandes escritores, narra a história de quatro personagens que vivem Cabul sob o regime de terror dos Talibans, sobretudo o romance centra-se na horrível vida da mulher afegã que, ostracizada por um regime violento e fundamentalista, tenta sobreviver e manter um pouco de dignidade. No entanto, ao longo da obra, Kahdra, vai-nos dando uma perspectiva da realidade e deparamo-nos com algo que está muito além do que era noticiado na altura, pois a “pedra de toque” dessa sociedade é logo sublinhada no início quando uma mulher é publicamente apedrejada até à morte porque cometeu adultério. Não se sabe bem se ela foi a adultera ou se o adultero foi o homem que foi descansado à sua vida, mas aqui, quem sofre as consequências é a mulher, assim como consequências de tudo. Uma parte que me impressionou, é quando um dos protagonistas consegue convencer a sua inteligente e intelectual mulher, que ele efectivamente ama, a dar um passeio com ele. Ela resiste, pois antes do aparecimento do regime Taliban, ela havia sido uma brilhante advogada e agora estava condenada à vida doméstica e a andar obrigatoriamente de Burka sempre que saísse, algo que ela se recusava. Mas enfim, o marido insiste, insiste e ela lá acede. No entanto a meio caminho, eles são mandados parar por um Taliban que obriga o marido a ir para uma mesquita ouvir a prelecção de um lidei religioso qualquer, enquanto a mulher fica à espera dele sob um sol escaldante e sob uma temperatura de mais de 40ºC. Bom, é arrepiante a descrição que se segue e dá bem a representação da violência e da forma inumana como as mulheres e inclusive os homens eram tratados."

O Outro: Hum, hum…”, disse sem tirar os olhos da bosta do telemóvel.

Eu: Embora o título seja uma analogia às mulheres afegãs, que ocultadas atrás das burkas que as condenam a viver como Nuvens de Andorinhas, penso que o autor vai muito mais longe e isso é algo que ressalta nas últimas páginas, quando um desvairado Atiq, procura por toda a Cabul a esposa, ela própria entretanto executada no estádio diante de centenas de pessoas que lá se dirigem como se fossem a um espectáculo desportivo. Outro drama que o autor expõe é, quando logo a seguir a essa execução, narra, como se fosse algo normalíssimo, um grupo de crianças que se entretém simulando as execuções diante do beneplácito e sorridente grupo de pessoas que assistem enlevados…” continuei: “Em suma, Yasmina Kadra, expõe de uma forma clara e lúcida a tragédia de uma sociedade dominada pelo fundamentalismo religioso que esmaga o próprio povo em prol de algo complemente insano que eles próprios não conseguem explicar, pois aqui e ali o autor vai pintando algumas considerações que nos permitem retirar essas conclusões."

O Outro:Brutal…

Eu:Sem dúvida, um livro brutal, pungente e trágico que aconselho a todos que gostem de um bom livro.

O Outro: Não pah, brutal porque já saiu uma actualização desta app”, disse virando o excremental aparelho para mim.

Eu, de boca aberta, disse: “Vai-te catar, ignorante

Ele riu-se e lá continuou a dança dos polegares.

“… Esse nunca vai saber que o Vesúvio é um vulcão, muito menos onde fica…”, pensei, abandonando o local e deixando-o entregue ao vício insciente da sociedade ocidental.


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