quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Não nos Roubarão a Esperança – Júlio Magalhães




Confesso que, não sendo de todo um dos meus autores preferidos, já li todos os livros de Júlio Magalhães e, mesmo não apreciando a maioria deles, inclusive criticando-os fortemente, acabei por os ler sobretudo porque gostei do primeiro que li “Um Amor em Tempos de Guerra” e, fico sempre a esperança que o próximo será tão bom como esse.

E foi essa a principal razão de ter pegado neste seu último livro.

De obra em obra, constatei que “Um Amor em Tempos de Guerra” havia sido uma espécie de oásis e que os seus livros primavam por um vazio histórico incompreensível face ao assunto abordado. Por outro lado via os seus livros como romances históricos e, por isso, achava inexplicável a atenção dada à história romântica sempre em prejuízo do contexto histórico. Ou seja, o estilo do autor prima por criar uma história romântica dentro de um importante contexto histórico, porém é errado olharmos para as suas obras como romances históricos e eu percebi isso após ouvir algumas entrevistas do autor, pois ele próprio classifica o seu género como simples romance com características de crónicas jornalísticas, admitindo também não ter pretensões a escritor e que deseja apenas contar uma história. E isso veio alterar a minha visão e exigência quanto ao jornalista e autor.

Neste seu último romance, Júlio Magalhães pega num tema sensível, a Guerra Civil Espanhola, e, baseado em factos verídicos, constrói uma narrativa que interliga a vida de quatro pessoas (principais personagens), com as duas facções inimigas dessa terrível guerra que, ainda hoje, mantém algumas feridas abertas.

Dois irmãos, duas rivalidades, dois lados opostos da barricada.

Nesse contexto, o autor vai-nos oferecendo breves descrições do quotidiano insano desse terrível conflito, deixando igualmente antever a brutalidade do mesmo, sobretudo em episódios que ficaram famosos, como, por exemplo, na tomada de Badajoz.

Um livro que me agradou, pois conseguiu despertar-me o interesse sobre o assunto, deixando também no ar outras pistas igualmente interessantes como, por exemplo, os interesses do governo de Salazar com Franco. De escrita muito simples e fluída, este é um livro que se lê rápido e sem qualquer esforço nem que necessite de qualquer conhecimento prévio do assunto.

domingo, 14 de outubro de 2012

O Pior Livro – “Mulheres” de Charles Bukowsky

O Manuel do Blog "Dos Meus Livros", blog que muito admiro e considero, aceitou o meu convite para nomear o pior livro que leu até ao presente e a sua escolha vai para um livro que eu também já li: “Mulheres” de Charles Bukowsky.
O Pior Livro

As suas considerações:


Chinaski, personagem principal, é o alter-ego do autor. 

Um autor alcoólico, como ele próprio se define, hedonista até ao limite, escreve para poder dormir até ao meio dia. É esse o seu objetivo maior.

Ao longo de centenas de páginas, a “paisagem” não muda muito: Chinaski rodeia-se de mulheres, quantas mais melhor, e de garrafas de vinho.

E a narrativa vai prosseguindo sem novidades: a imagem que se vai criando na mente de quem lê é a de um velho, cada vez mais decrépito, rodeado de mulheres, mais ou menos bem pagas para que o senhor das letras vá disfrutando do que lhe resta dos prazeres carnais.

Talvez se possa dizer deste livro que foi uma pedrada no charco do conservadorismo, que foi um grito de rebeldia, etc. etc. Na minha perspetiva não vai muito além da literatura pornográfica. Mulheres, dinheiro e álcool constituem um quadro deprimente, estéril, desprovido de qualquer interesse literário. 

Na época (o livro foi publicado em 1978), os críticos apreciaram a rebeldia e a voz contestatária do autor. A mim, simples e descomprometido leitor, parece-me um livro inútil e disparatado. 

Na leitura mais benevolente que se possa fazer, este livro demonstra a incongruência, a ausência de sentido em que a vida humana pode cair: enterrada nas profundezas do álcool e do sexo, sem qualquer sentido que não seja o do prazer efémero, ele próprio assumidamente deprimente. 

Trata-se, em suma, do livro ideal para quem queira afundar-se numa depressãozinha capaz de fazer esquecer qualquer crise. Perante este panorama, o FMI, a troika ou o governo que nos esfola presentemente não passam de anjinhos benevolentes. A vida de Chinaski consegue ser mais deprimente que os discursos do nosso ministro das finanças.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Linguagem Corporal no Trabalho (A) – Allan & Barbara Pease




Ora aqui temos mais um livro de auto-ajuda que vem enriquecer, ou acrescentar, mais um ao vasto número de publicações que saíram no século XXI.

Hoje em dia, parece-me, não podemos ser como somos e sim como aquilo que a sociedade quer que sejamos.

Ou seja, eu ainda sou do tempo em que se valorizava a sinceridade e a forma natural de ser de cada um. Quando íamos a uma entrevista de emprego, o que era valorizado era a forma natural de sermos, por isso é que geralmente quem fazia a entrevista de emprego era o próprio patrão.

Hoje em dia, ou, desde há uns anos para cá, valorizasse a imagem visual e a imagem que conseguirmos construir. Ou seja, há que formatar uma mentira, idealizar um ser que tem de vender, pois só dessa forma parece que seremos bem sucedidos. Depois se for gato por lebre, isso não interessa, pois a fachada é para manter e sorrir, sorrir, mesmo quando somos violentados na nossa ética.

E esta obra ensina de facto, ou dá-nos dicas, de como construirmos uma imagem e uma postura mediante a nossa linguagem corporal, assim como saber ler a linguagem corporal dos outros e virar isso em proveito próprio.

Confesso que me chateia a hipocrisia do mundo profissional e mais me chateia obras que nos ensinem a ser ainda mais hipócritas. Em todo o caso não vou desvalorizar esta obra porque de facto ensina-nos como nos comportar e como tirar proveito de inúmeras situações que nos podem trazer aquele aumento ou mais valorização junto dos patrões, chefes, colegas e clientes.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Abaddon – Rui Madureira



Embora não seja um apreciador do género de fantasia, empreendi a leitura desta obra por duas razões: gostei da premissa subentendida na sinopse e, pareceu-me logo tratar-se de um livro que continha vários elementos de terror, ou seja, fantasia sim mas com fortes laivos de horror.

E, embora tenha ficado um pouco aquém do que esperava, o certo é que este livro revelou-se ser uma leitura agradável, pese embora se revelasse igualmente uma leitura morosa e, por vezes, enfadonha.

A premissa aguçou-me a curiosidade. O mito da revolta de Lucifer, a sua expulsão do paraíso e o consequente aprisionamento no inferno, local que posteriormente se tornou o seu reino. Muito interessante e motivo para empreender a leitura desta obra, até porque, segundo sei, nunca ninguém pegou neste assunto e o transportou para a ficção, quer seja em livro ou em filme.

Rui Madureira fê-lo neste sua primeira incursão na literatura e, quanto a mim, fê-lo muito bem, dando ao mito um tom lógico e transportando-o para os nossos dias.

Após se rebelar contra Deus, Lucifer comanda milhões de outros anjos numa batalha contra o exército divino comandado por quatro gloriosos generais, os arcanjos Michael, Gabriel, Raphael e Uriel. Porém, nessa batalha, Lucifer acaba por tombar sendo então condenado, para toda a eternidade, ao inferno onde deve ser mantido em completo isolamento.

Passam milhares de anos e Lucifer deixa de ser o anjo que outrora foi, o Primeiro Anjo de Deus, a Estrela da Manhã. Milhares de anos de prisão definham a sua aparência e um ódio crescente toma conta do seu ser. A guardá-la encontra-se Abaddon, o demónio que reina no inferno e que foi mandatado por Deus para manter Lucifer sob controlo.

No entanto Lucifer usa do seu charme para atrair a atenção de Abaddon e acaba por o convencer a soltá-lo e a ajudá-lo a combater Deus, exterminando a sua principal criação: o Ser Humano.

Numa primeira fase, a acção é agradável e interessante. O autor explana, de uma forma muito apurada o panteão e o modo como se organizam anjos, arcanjos, querubins e outros seres celestiais através de longas descrições que tornam a leitura pausada, caindo por vezes numa monotonia face à exaustiva descrição dessa tal organização e da importância que cada um desses seres têm. Quanto a mim, o autor peca por algum exagero nas descrições, alguma repetitividade no enaltecimento de certos personagens assim como perde alguma coerência transformando seres celestiais em, na prática, seres humanos, pois constatamos que anjos e arcanjos também sangram, sofrem e morrem.

O mesmo vai sucedendo no desenrolar da história. Se por um lado, e retirando as descrições, temos uma primeira fase excitante e de acção empolgante, temos posteriormente uma segunda parte que se arrasta em situações repetitivas e, uma vez mais, extremamente longas. As idas diárias do arcanjo a casa do jovem são um dos vários exemplos e começamos a perder o interesse pelo trama face ao pouco desenvolvimento, acabando a leitura por se tornar enfadonha e arrastada.

No entanto o autor salva um pouco a narrativa na terceira parte quando se inicia o apocalipse, a grande batalha entre o exercito de Deus e o exercito de Satanás. Nesta última fase temos situações de violência bem descritas e empolgantes, tornando assim o livro, na sua globalidade, interessante e positivo.

Não me quero alongar mais em considerações sobre a historia de forma a não matar o interesse neste livro que, estou seguro, vai de certo agradar aos fãs do género fantasia, estilo senhor dos anéis, mas atente-se que aqui temos uma componente de horror que de facto traz à memória clássicos como o Exorcista.

Gostei da forma como o autor conseguiu criar a estrutura narrativa, assim como me agradou imenso as descrições das batalhas, contudo não gostei das explicações exaustivas e sobretudo de situações que pouco trouxeram à narrativa e que duravam capítulos inteiros sem que conseguisse perceber, no fim, que mais valias se tornaram. Nota final para os nomes em inglês. Bem sei que o autor, no fim, dá uma breve explicação, no entanto e mesmo a acção se passe em Londres, achei pouco coerente nomes em inglês misturados com expressões bem portuguesas. Teria sido de mais valia a história ter-se passado em qualquer aldeia de Portugal, ate porque e nesse caso, haveria de certos componentes de crenças populares a serem exploradas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Portugal Rating AAA – Alexandra Silva Malta




Hoje em dia, quando tanto se ouve falar de crise, austeridade e mais troikas e o camandro, talvez seja importante pararmos e pensarmos se essas notícias, tão insistentemente veiculadas por uma comunicação social ela própria pouco isenta e ao serviço de muitos interesses económicos, não são colocadas de uma forma propositada com a finalidade de amedrontar, pois, é sabido que uma das tácticas desde sempre utilizadas por qualquer governo de qualquer civilização de qualquer era humana, foi o de sempre governar pelo medo, ou seja, subjugar o povo pelo medo ou, se quisermos e como alguém disse, conhecimento é poder, logo, convém manter o povo em estado obtuso, cheio de medo de algo que, ele próprio, desconhece.



Em todo o caso, nas épocas de crise, quando temos a tendência de bater em tudo o que é nacional, embora admita que os políticos nem porrada são dignos de merecer, aliás nem considero a classe política gente, mas, em todo o caso, é importante haver alguém ou alguma faccão que passe a mensagem de esperança num futuro melhor (já que o governo não o quer fazer), a esperança que tudo há-de passar e nos recorde que o nosso país tem 900 anos de História e um passado feito de glórias, mas também nos recorde que, mesmo com crise e com o epíteto de “piegas”, somos um povo de gente forte e com valor, que se vai destacando em todo o planeta.

E é precisamente o que Alexandra Silva Malta faz com este magnifico manual intitulado “Portugal Rating AAA”, numa clara alusão metafórica às agências internacionais de rating.

É um livro muito curto mas surpreendente nos factos que nos narra.

Sabiam que Doze Restaurantes Portugueses foram distinguidos, em 2012, no Guia Michelin? Que somos considerados o 27º melhor país do mundo? Que o cavalo lusitano é uma das três únicas raças de puro-sangue do mundo? Que um queijo português foi considerado o melhor queijo do mundo em 2011? Que a Sagrada Família em Barcelona, um dos monumentos mais visitados do mundo, é revestido com cortiça portuguesa? Que a TAP foi considerada, pelos próprios passageiros, a melhor companhia europeia? Que é um chefe português o chef executivo do primeiro hotel Armani no Dubai? Que é uma empresa portuguesa que fabricou 80% dos caiaques presentes nos Jogos Olimpicos?

São inúmeros casos de sucesso, a grande maioria desconhecidos do grande público e, de certo da classe jornalística, que nos demonstra que temos gente e empresas de muito valor, somos um povo que deu, dá e tem muito para dar e que merecemos ser vistos e tidos com respeito, partindo primeiramente de nós próprios.

É um livro que demonstra que não devemos baixar os braços face às dificuldades que o poder económico e político nos colocou, que devemos reagir em força e com esperança, pois o sucesso é possível e são os exemplos do livro que nos inspiram para vencer esses desafios.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Pior Livro – “Manhãs Gloriosas” de Diana Peterfreund


A Paula, do blog “Viajar pela Leitura”, blog que muito prezo, simpaticamente aceitou o meu convite para nomear o pior livro que leu até ao presente e o seu mimo vai para o livro “Manhãs Gloriosas” de Diana Peterfreund, baseado no argumento de Aline Brosh McKenna.

O Pior Livro
Eis as suas considerações:

Ora aqui está um livrinho que não aconselho a ninguém! Uma leitura que foi um verdadeiro suplício! E porque não desisti eu? Porque foi uma leitura proposta para o grupo de leitura conjunta no Destante. E para poder comentar, lá fiz eu este imenso sacrifício.

Temos então Becky, uma jornalista  que vê o seu sonho - ser produtora executiva - ir por água abaixo quando é despedida da estação onde trabalha.

Depois de alguma procura de emprego por parte da nossa personagem, é claro que ela consegue uma vaga como produtora executiva. É lógico que vai encontrar dificuldades e entraves ao seu sucesso, mas todos sabemos que vai conseguir e até o dito programa terá estrondosos níveis de audiência. Pois é isso que se espera deste romance, tão previsível que era até desnecessário lermos na sua totalidade!

As personagens são fracas, os acontecimentos não convencem o leitor e o discurso entre os personagens é, por vezes, hilariante e descabido!

Este é daqueles livros que não acrescenta nada à nossa vida, a não ser mesmo um par de horas de tédio durante a sua leitura.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Dona Flor e seus Dois Maridos – Jorge Amado


Escrito em 1966, Dona Flor e Seus Dois Maridos é um dos romances mais divertidos de Jorge Amado. Enorme sucesso, já transposto para o cinema, teatro e televisão, Dona Flor e Seus Dois maridos tem como pano de fundo a  Bahía, terra natal de Jorge Amado.

Flor, jovem e belíssima bahiana, excepcional cozinheira, amante apaixonada e versada nas artes eróticas, fica subitamente viúva do seu amado Vadinho, jogador inveterado e mulherengo, que todavia ama ardentemente a sua mulher e a seduz diariamente com inúmeros recursos sexuais e sua irresistível alegria.

Passado algum tempo e pressionada pelas amigas que só pensam em homens, Flor decide voltar a casar com Teodoro, um pacato e abastado farmacêutico (emigrante português) profundamente diferente do seu defunto marido (como do dia para a noite). Porém, Teodoro não é homem de fantasias sexuais, preferindo o tradicional, o que deixa Flor profundamente decepcionada nesse campo, pois jovem como é, os apetites são cada vez maiores... Até que um dia e na hora de deitar Vadinho aparece a Flor, começando aí um jogo de tentações sexuais e morais.

Um dos melhores romances de Jorge Amado. Violentamente autêntico e irresistivelmente fascinante, verdadeiramente empolgante e docemente inesquecível, Amado oferece-nos uma obra portentosa de cariz fortemente erótico e muito engraçada, desenhando também um fresco de costumes da Bahia da primeira metade do século XX. As tradições, sobretudo no aspecto religioso onde é bem perceptível a dualidade entre a tradição católica legada pelos portugueses e candomblé, de origem africana, aliada a um vocabulário rico que nos situa no contexto criado e narrado. 

De notar que o povo brasileiro tem em Jorge Amado um dos seus símbolos máximos, alguém que transportou mundo fora a cultura e tradições brasileira. Não só da sua Bahia, como de todo o Brasil. “Dona Flor e seus Dois maridos” expressam essa cultura e tradição.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Jardim do Éden (O) – Ernest Hemingway


Hemingway é considerado, e justamente, como um dos monstros sagrados da literatura universal. Pese embora eu não seja um grande admirador da sua obra, admito que tem um dom maravilhoso, pois através da escrita consegue fazer passar a sua visão das coisas, ou seja, tal como o nosso Eça, consegue descrever na perfeição objectos, cores, sabores e cheiros. No entanto, "O jardim do Éden" fica muito aquém das suas melhores obras.

Baseado em factos reais acontecidos com o próprio Hemingway na Riviera francesa em 1926, quando, com a sua mulher Hadley, aí passou o Verão na companhia da amiga comum Pauline, conta-nos uma história esquisita e surreal passada em França, envolvendo um casal e uma outra mulher que entra de uma forma repentina nas suas vidas.

Romance póstumo publicado em 1986 cerca de 25 anos após o suicídio de Hemingway, desde logo esta obra ficou imersa em controvérsia dada a forma como foi terminada e posteriormente editada e publicada. Sabe-se que Hemingway trabalhou cerca de 15 anos nesta obra, tendo escrito 200.000 palavras. Colocou-o de lado para escrever outros  romances, no entanto, o certo é que nunca o terminou e, aquando da sua morte, esta foi uma das várias obras que deixou por terminar. Já nos anos 80, Tom Jenks (penso que o seu editor), atirou-se ao trabalho de revisão e, quando terminou, o livro continha as 70.000 palavras hoje compõem o romance. Podemos então questionar, será mesmo a obra que Hemingway idealizou, pese embora Jenks tenha vindo a público jurar que se limitou a cortar e a rearranjar?

Em todo o caso, seja esta obra inteiramente Hemingway ou não, o certo é que não gostei. O sentido descritivo continua vivo e intacto e até entendo que o autor quis construir o romance baseado na sua vivência pessoal nos turbulentos anos 20,  no entanto, as descrições não têm grande interesse, as situações são enfadonhas e os diálogos são demasiado surreais para o meu gosto, parecendo tudo fazer parte de um sonho. Das várias obras que li de Hemingway, esta foi a que menos gostei e a que menos saudade me deixou.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Pior Livro – “Viriato, o filho rebelde” de Sónia Louro



Após mais uma listinha de livros que devem ser lidos que há dias foi divulgada por pseudos críticos literários, lista essa que se vem juntar a n delas que por aí pululam, algumas delas já transpostas até para livro que se pretende de culto, eis que me surgiu uma ideia: Criar uma lista dos piores livros, daqueles que não devem ser lidos, daqueles que servem apenas para bibelôt ou, em casos mais desesperantes, para atiçar o lume ao carvão numa churrascada.

E vai daí, eis que surge uma nova rubrica do Blog NLivros. Vou convidar quinzenalmente ou mensalmente, logo se vê, bloggers e não só, para referirem qual o livro que não gostaram, qual o livro mais execrável que leram, no entanto, do porquê, pois não vale se for apenas por embirração.

E o primeiro vou ser eu. Auto-convido-me para mencionar o pior livro que li.
O Pior Livro

E o galardão vai para “Viriato, o Filho Rebelde”, de Sónia Louro.

Lido nos primeiros meses de 2009, foi o meu primeiro embate com a escrita de Sónia Louro. Confesso que a sinopse me agradou, e julguei que iria encontrar uma obra que, em jeito de romance histórico, divulgasse o quotidiano dos lusitanos e os seus costumes, assim como uma estrutura que narrasse os acontecimentos que opuseram a tribo dos lusitanos aos romanos.

Qual quê? Isso queria eu!

O que eu li foi uma amálgama de episódios com pouca ou nenhuma ligação entre si, incoerentes e, mais grave, o trajecto de Viriato está tão mal criado, que a autora consegue em 3 ou 4 páginas resumir uma viagem que durou anos e que, supostamente, teve uma enorme influência no líder que Viriato viria a ser.

Mas se fosse só isso até que nem era mau.

Nop, há mais. Os usos e costumes? Nicles, batatóides! O contexto histórico? Para quê, isso é para meninos! E é hilariante a forma como a autora descreve tradições de uma forma muito ligeira, como se fosse uma festazita sem importância, quando, na realidade, se tratava de tradições religiosas de uma grande seriedade. Depois, há um exagero nalgumas palavras sórdidas que a autora usa, abusa e volta a abusar até causar exaustão e enjoo.

No fim, sabia pouco da época de Viriato? Temos pena, pois fiquei a saber praticamente o mesmo porque este livro nada ensina. Aliás, para além de nada ensinar, até nos dá informações erróneas. É daqueles livros que nunca deviam ter sido publicados, ou então merecia um maior cuidado da autora que posteriormente até provou que sabe escrever, pois acabei por ler “O Cônsul Desobediente” e gostei bastante.




sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma Vida Francesa - Jean-Paul Dubois


Jean-Paul Dubois é um conhecido jornalista e autor de diversos romances de sucesso em França que tem nesta obra “Uma Vida Francesa” o seu maior sucesso e aquele que lhe deu em 2004 o prémio Femina, um dos maiores galardões literários franceses.

A história é simples, tratando-se, simplesmente, da história de uma típica família francesa com todas as vicissitudes e idiossincrasias dos seus membros e do que os rodeiam. No entanto, debaixo dessa aparente singeleza, o autor traça-nos a História de França dos últimos 50 anos e, quanto a mim, essa é a principal beleza do romance.

Dividido em capítulos que correspondem a cada um dos presidentes da república, surge-nos Paul Blick, uma criança que acaba de perder o irmão mais velho. O mote é lançado com esta ocorrência, ficando sempre no ar que Paul sofre do síndroma de Peter Pan, recusando-se a crescer e a encarar a vida adulta.

A partir daí Paul sente que a vida familiar se desmorona. Os pais caem numa letargia que irá durar toda a vida e Paul acaba por descobrir, ou ir descobrindo o mundo por conta própria.

Assim, numa escrita fluída que nos agarra logo desde as primeira páginas, Jean-Paul Dubois constrói um anti-herói, uma criança, um adolescente, um jovem e adulto que nunca cresce, mas que vê as “coisas” evoluírem à sua volta, “coisas” essas que acabam por montar um mosaico da sociedade francesa dos últimos 50 anos.

Cada capítulo representa uma evolução. Sendo dividido por presidentes, em todos esses mandatos são visíveis as mudanças e mentalidade que marcam esses tempos. O autor vai expondo então as suas percepções e críticas às políticas socio-económicas, em simultâneo que são perceptíveis os seus desencantos com a classe política.

Um romance belíssimo, tocante, terno e divertido, onde a sensibilidade flui página a página, acabando nós mesmos por nos sentirmos identificados com o protagonista, pois todos nós temos uma vida, boa ou má, mas uma vida.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Opinião do Leitor - A Brisa do Oriente

A Mónica Pinho Silva foi uma das vencedoras do passatempo "A Brisa do Oriente" que o Blog NLivros, em conjunto com a editora Saída de Emergência, efectuou no passado mês de Julho.


Simpaticamente aceitou o meu repto para que escrevesse uma opinião quando terminasse a leitura da obra. Eis o resultado.



Esta obra, dividida em dois volumes de soberba qualidade, narra a história de Umberto de Quéribus, um jovem monge cujo percurso de vida semeado de perigos e inesperadas reviravoltas forçam o seu crescimento e a perda da sua candura infantil. A autora promove constantemente o contacto de Umberto com situações extremas que lhe permitem analisar o sentido da sua vida e põem em causa a manutenção da sua fé.

Como pano de fundo de toda a narrativa, destaca-se uma notável caracterização da Europa Medieval do séc. XIII, uma época delineada pela violência e intolerância religiosa. A origem da Inquisição, descrita no segundo volume, fortalece ainda mais esta perceção, na medida em que o clero aumenta o seu poder sobre a vida e a morte dos seus súbditos. Toda a trama é descrita de uma forma intensa, empolgante e sem pudores desnecessários, retratando fielmente uma época negra da História da Humanidade.

Ao longo desta narrativa encontra-se patente um paralelismo entre os membros do clero que promovem este poder desmedido, não apresentando quaisquer valores éticos ou morais e potenciando atos hediondos, e aqueles que ousam questionar estas atitudes em prol do que consideram correto. A desilusão de Umberto perante as ações dos que se consideram os “verdadeiros cristãos” e da crueldade, ganância e insensatez da igreja católica, fornece-lhe uma nova perceção do mundo que o rodeia. Assim, Umberto, ao longo da sua jornada, interroga-se acerca da legitimidade de perseguir crenças distintas – ditos “hereges” – quando os seus detentores apenas pretendem viver uma vida pacífica e muitas vezes mais moral do que o próprio clero. Neste sentido, surge uma questão bastante atual: será que crenças diferentes não poderão coexistir pacificamente? Tudo isto facilita o distanciamento de Umberto da obediência cega e dos ensinamentos rígidos que apresenta no primeiro volume, culminando numa consciência mais abrangente da sociedade em que vive.

A autora é também exímia na criação de personagens com as quais se torna fácil desenvolver uma relação, na qual sofremos com as injustiças e as perseguições aos inocentes, perpetradas em prol do fanatismo religioso, e rejubilamos quando os planos dos vilões fracassam. De igual modo, esta obra possui o típico romance impossível mas com uma pureza que nos faz torcer por um final feliz. No fundo, esta é uma narrativa acerca, não apenas da capacidade de ultrapassar as injustiças de uma era, mas principalmente do sentido profundo da amizade e do amor.

Na minha opinião, o desfecho foi talvez um pouco previsível e algo banal, pois considero que o resto do argumento teria potencial para um final com maior impacto. Contudo, não deixa de constituir um romance histórico verdadeiramente notável, cuja leitura recomendo vivamente. 

Obrigado Mónica pela brilhante opinião. Fiquei contente por a leitura te ter agradado e convido todos aqueles que venceram livros nos passatempos do blog, que enviem as opiniões para serem posteriormente publicadas.