domingo, 1 de abril de 2018

Porquê ler os clássicos?

Antes de mais há que definir o que são clássicos da literatura.

Segundo Italino Calvino, clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo” e nunca, “estou lendo…”, ou então, "Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer".

Pois bem, definições à parte, a grande maioria obviamente subjectivas, tenho para mim que ler um clássico da literatura é, sobretudo, entrar no contexto histórico da obra, no seio do seu escritor, conhecer ou percepcionar os motivos que o levaram a escrever aquela obra, as metáforas ou analogias que encerram e o que o escritor quis passar para o leitor. 

Por vezes dou por mim a pensar porque é que, hoje em dia, tão poucos lêem obras clássicas? Posso falar com diversas pessoas que afirmam, e acredito que o façam, ler 60, 70, 80 livros por ano, para depressa constatar que geralmente nunca leram Dostoievski, Tolstoi, Cervantes, Victor Hugo, Dickens, Amado, Duras, Kafka, etc. Ao questionar do porquê a resposta é indubitavelmente a mesma “ah e tal não me convence, prefiro ler romances policiais ou autores actuais”.

Vão-me desculpar, mas, na minha opinião, o facto de nunca terem lido ou lido raramente uma obra clássica é porque, simplesmente, a grande maioria das pessoas não sabe ler!!!

O principal motivo para que exista tanta resistência para se ler um clássico, é porque, simplesmente, a grande maioria dos leitores não sabe ler. Simplesmente isso!

Não querendo ofender quaisquer susceptibilidades, pois nem me outorgo no direito de o fazer, mas constato que a grande maioria das pessoas que se dizem leitores, e que efectivamente até lêem muitos livros, não entendem, na maioria dos casos, a mensagem dos autores. Lêem um pouco na diagonal sem pensar que se calhar o escritor tinha um objectivo por detrás daquela “simples” história que estão a ler. E isso é perfeitamente perceptível quando nos deparamos com opiniões sobre certas obras em que mencionam o essencial sem sequer aludir ao fudamental, e não é porque se esqueceram ou porque não lhes apetece, é porque, simplesmente, nem se deram conta que havia uma outra mensagem.

E, na minha opinião, um clássico, encerra precisamente esse facto. Mais do que o essencial, o autor pretendeu abordar algo mais profundo, a maioria dos casos sob a capa de metáforas ou analogias, mas que, dado o contexto histórico do seu tempo, só assim conseguiu fazer passar o livro para o grande público. Depois temos os clássicos que abordam factos históricos. Recordo-me, por exemplo, de Guerra e Paz de Tolstoi que é um manancial histórico sobre a sociedade russa e francesa do século XIX e sobretudo sobre as guerras napoleónicas. Podem sempre afirmar que isso não interessa nada… pois, então vão-me desculpar, NÃO SÃO LEITORES se assim pensam.

Dou outro exemplo: Metamorfose de Kafka. A maioria das pessoas que leram o livro que opinião ficam do mesmo? Geralmente do personagem que um dia acorda transformado num insecto monstruoso e que depois tudo é muito fafkaniano, tudo muito estranho e ponto final. Poucos são aqueles que se debruçam sobre a obra e procuram entender qual o objectivo de Kafka quando erigiu essa obra monumental. Tentem perceber a época e o contexto social, cultural, político e económico do próprio autor… eu dou uma dica: Em Metamorfose Kafka faz um jogo de paralelismos com a realidade que ele própria vivenciava. Ele traça praticamente uma caricatura de todos os seus familiares nesta obra… e mais não digo, pesquisem!

Independentemente do gosto de cada um, o que eu respeito, meus amigos e amigas, não virem as costas aos grandes clássicos da literatura. Diante de vocês estão obras fenomenais que viraram clássicos precisamente pela sua Qualidade. Não digo que os livros actualmente não têm valor, não. Decerto que há muitos livros actuais que no futuro serão clássicos, mas os grandes autores clássicos sabiam efectivamente escrever. Escreviam numa escala de valores bem definidas e que nos proporcionam um conhecimento profundo do passado da Humanidade e acreditem numa coisa, conhecer o passado é conhecer o futuro, pois a História é cíclica e há livros que abordam questões que são actuais hoje em dia e serão no futuro.

Ler clássicos é beber directamente na fonte, é absorver cultura. Os clássicos encerram vários assuntos que nos dão uma bagagem intelectual brutal, pois não é só dizer que lemos X ou Y, mas e sobretudo ter consciência do que lemos, o que o autor estava a pensar, o seu contexto social e histórico, pois mais do que uma simples história, o autor clássico pretendeu transmitir o que o rodeava, o seu pensamento e a sociedade onde estava inserido.

Pessoalmente sou um amante da cultura e dos clássicos da literatura. Quando vejo aquelas listas na internet de livros que todos deviam ter lido, geralmente são às dezenas os livros que li e outros que, embora ainda não o tenha feito, mas estão na minha agenda. Obviamente que não leio sempre clássicos, por vezes passam-se largas temporadas que não o faço, mas desde sempre tenho uma regra, que é ler uma dezena de clássicos por ano. Nem sempre cumpro isso, mas posso afirmar que já li muitas dezenas de clássicos e sobretudo me debrucei sobre o seu conteúdo e que o entendi. Ou seja, o que pretendo também passar com este post é que não lêem por ler. Ok, ler é também entretenimento e eu concordo com isso, mas, tentem perceber o que está por detrás da história, o que o autor quis transmitir, tentem ler nas entrelinhas, ou seja, saibam pegar num livro e absorver o seu conteúdo, pois, acreditem, irão ficar mais ricos quando o fizerem.

Quando acabarem de ler uma obra, façam uma interiorização pessoal da obra. Pesquisem sobre a época e sobre o contexto social, cultural e económico do autor. Na conjugação de todos esses factores, irão perceber o objectivo do escritor, pelo menos na sua fase inicial. Depois, há medida que percorrerem os meandros da obra, irão encontrar respostas a várias questões e perceber o quão actual essa obra é e constatam, com assombro, que o livro pode ter sido escrito há 100, 150, 200 anos, mas que podia ter sido escrito há meia dúzia de meses atrás, pois ali encerra a História do Ser Humano.

Não ignorem os clássicos. Eles têm muito a ensinar!



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Véu Pintado (O) – Somerset Maugham



Somerset Maugham é um dos meus autores preferidos e o seu nome significa para mim genialidade em diversos aspectos, não apenas como “contador” de histórias, como o considero um génio na arte de conduzir um texto ficcional, ou seja, considero-o um dos Grandes escritores de todos os tempos.

Servidão Humana” é uma obra-prima da literatura, um portento. Uma daquelas obras que considero obrigatória a qualquer leitor, uma obra que atinge patamares literários ao nível de um “Guerra e Paz”, “D.Quixote”, “Crime e Castigo”, entre outras preciosidades literárias. Hoje em dia o nome de Somerset Maugham é muito pouco divulgado, e eu lamento muito por isso, no entanto, há 40 anos atrás, Somerset Maugham era considerado um clássico no mesmo patamar de Heminghway, Tolstoi, Victor Hugo, Dostoievsky ou Dickens, porém e actualmente, vivemos numa Era de profundo e desalmado consumismo, onde qualquer um publica e onde a Qualidade parece não contar muito, pois e prova disso, basta ver os autores best-sellers e os títulos que mais vendem, a grande maioria que narram histórias fúteis, vazias de conteúdo e que têm apenas como única e exclusiva intenção entreter. Mas enfim, é apenas um desabafo e quem sou eu para criticar quem escreve esses livros e quem os consome.

Mas Somerset Maugham foi efectivamente um escritor genial. Nascido em 1874, pertence à velha escolha de Conan Doyle, Louis Stevenson, Walter Scott, Joseph Conrad, Bram Stoker, George Shaw, Oscar Wilde, Dostoievsky, Tolstoi, entre outros, um século de ouro da literatura e que legou dezenas de escritores e escritoras simplesmente geniais.

Este “Véu Pintado”, editado em 1925, é mais uma obra que entra na galeria de grandes livros que tive a felicidade de ler, pese embora, não atinga o brilhantismo de “Servidão Humana”.

Conforme era típico em Somerset Maugham, neste livro o autor efectua uma análise da condição humana numa perpectiva mais mundana, ou seja, voltamos a ter o homem bom que é enganado por uma mulher sem escrúpulos, fútil mas que não em culpa de ser como é, pois foi a educação que teve que lhe moldaram o caracter, ou seja, é perceptível uma critica do autor a convenções sociais do seu tempo, convenções que conhecemos por “vitorianas” e que faziam com que as meninas de “boas” famílias, fossem educadas para casar o melhor possível, vivendo num mundo de “glamour”. Depois temos o marido traído Vs. o tratante que embraia a mulher que, por sua vez, se vê metida num casamento de conveniência sem ponta de amor pelo marido e que vê no amante o homem dos seus sonhos, acreditando no “conto do vigário” e que, mais tarde, ela própria percebe que foi enganada. Lindo, não é?

Maugham, conforme era típico dele, satiriza com a situação, dando-lhe um cunho trágico no desenlace final, levando com que o marido traído empreenda uma vingança face à sua traiçoeira esposa e fazendo, igualmente, com que ela perceba que foi enganada pelo amante, acabando, finalmente, por perceber onde se encontra o amor.

Pode parecer confuso, mas acreditem que não é. De leitura muito rápida face aos capítulos igualmente rápidos, Maugham consegue-nos cativar e prender a uma história aparentemente com pouco conteúdo mas que tem, na sua intrínseca beleza literária e na sua simplicidade algo que nos leva a devorar página a página até ao epilogo que, ele também, tem o condão de nos surpreender, pois ao longo do livro, não conseguimos imaginar, aliás, vamos assistindo, a um lento processo de transformação da personagem feminina que não nos deixa de surpreender no fim.

Não podendo afirmar que foi o melhor título que li de Maugham, este “Véu Pintado” é um livro genial que nos pinta um cenário da condição humana na sua mais pura essência e mostrando que há sempre um amanhã e que qualquer ser humano, por mais desprezível que posso ser, tem o direito à sua abjuração, nem que seja na sua consciência.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Espia (A) – Paulo Coelho



Escrever romances históricos não é, de todo, um exercício nada fácil e para se conseguir um bom romance histórico, um romance contendo factos verídicos e criveis, há que efectuar uma vasta análise e pesquisa não apenas da personagem que se pretende abordar como igualmente da época. Dessa forma, penso, ser o romance histórico um género que requer uma abordagem minuciosa tal a dificuldade desse trabalho de investigação e uma seriedade intelectual por parte do autor e isso, considero, numa época onde os livros se vendem por atacado e onde os autores têm prazos contatuais estabelecidos com as suas editoras, é algo que não é para todos, excepto aqueles que têm uma enorme facilidade em estabelecer linhas de pesquisa e, tenho a certeza, têm uma máquina tão bem montada e oleada que pagam a dezenas de pessoas que efectuem essa pesquisa por ele.

Dito isto, a minha opinião sobre este romance é de alguma desilusão face à fragilidade deste romance.

Não me vou alongar na história de Mata Hari, pois para isso poderá sempre pesquisar na internet sobre a sua vida, mas o meu interesse por este livro despertou no dia em que vi uma entrevista com Paulo Coelho sobre o lançamento deste livro. Achei interessante a forma como o autor falou da personagem e pensei que de facto era uma personagem riquíssima e que “facilmente” poderia originar um excelente e vasto romance histórico, visto a vida que teve e a forma como morreu.

Pura desilusão!

O autor assenta o conteúdo do romance, basicamente, em carta supostamente de Mata Hari, para assim traçar, de uma forma muito ténue, um pouco o percurso da sua vida, abordando-a sempre superficialmente. A preocupação do autor é, a meu ver, apenas uma, tentar ilibar, de uma vez por todas, a acusação de espiã a Mata Hari, desenhando um perfil de uma mulher vítima das circunstâncias e que se deixou levar pelo dinheiro, para assim se enlear num imbróglio tal que acabou por ditar a sua sentença.

Pese embora até compreenda que o autor tivesse pretendido cingir-se a essa sua intenção, julgo que poderia, e tinha muito campo para isso, ir mais longe, explorando vários factores, atitudes e relacionamentos que Mata Hari teve, ofuscando pormenores de somenos importância mas que, somados, se foram revelando vitais para a vida desta mulher que, cem anos depois, continua a ser um mistério.

As minhas questões iniciais ficaram em aberto: Quem de facto foi Mata Hari e foi efectivamente espiã?

Paulo Coelho defende que não. Ela jamais pretendeu entrar nesse mundo, ou pelo menos, jamais o fez de forma consciente, no entanto factos são factos, e o que se sabe, é que Mata Hari foi uma bela dançarina que exercia a prostituição a troco de dinheiro e que não escondia a sua vaidade por se “dar” com homens poderosos. Isso de facto demonstra uma enorme ingenuidade por parte dela, parecendo que estaria mais preocupado na ascensão social e material do que propriamente noutras actividades, nomeadamente, de espiã. Porém, era sabido que ela “dormiu” com inúmeros oficiais dos dois lados na 1ª Grande Guerra e há de facto provas que foi abordada pelos alemães e que com eles teve várias reuniões. Paulo Coelho neste livro diz que não, que ela apenas pretendia riquezas, mas não é de escurar a hipótese de efectivamente ter desempenhado o papel de espião duplo, acusão essa que a levou à sua morte.

Gostei da escrita do autor, mas quanto à história, esperava mais, muito mais.


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Que Faria Eu Se Estivesse No Meu Lugar (O)? – Celso Filipe



Quem me conhece ou quem acompanha ou acompanhou este blog, sabe que detesto a escrita de António Lobo Antunes assim como não tenho qualquer simpatia pela pessoa em si devido ao facto de, era a minha opinião, acha-lo um tipo vaidoso, arrogante, que não tem qualquer problema em catalogar outros autores como “merda”, achando que ele sim, é o melhor escritor de todos os tempos.

Tempos houve que tentei ler livros dele. Sinceramente nunca consegui chegar à página 100 de qualquer da sua obra, pois penso que os livros dele são muito confusos, cheios de vozes que misturam o passado e o presente de uma forma ilógica, um pouco como se o autor escrevesse ao “sabor do vento”, sem qualquer ideia na cabeça. Ou seja, sempre considerei que Lobo Antunes goza com os leitores e sempre o vi a rir a bandeiras despregadas ao ler e ouvir criticas tão favoráveis de livros que são uma autêntica merda, até para ele.

Em todo o caso uma pergunta se levanta: se não gostas do homem, porque empreendeste a leitura deste livro?

Pois bem, de facto não gosto da sua literatura mas há uma coisa que me atrai sempre, que é perveber ou tentar perceber o autor por detrás das obras e o seu método de escrita e foi por isso que resolvi ler esta livro de 10 entrevistas a António Lobo Antunes efectuado pelo jornalista Celso Filipe.

Sinceramente não desgostei e confesso que até a minha ideia sobre o autor mudou um pouco.

Primeiro, constatei que ele de facto se julga o melhor escritor de todos os tempos e o resto, é pouco mais que bosta (exceptuando alguns casos).

Depois porque de facto percebi que ele escreve sem qualquer roteiro, aos repelões e de acordo com as “vozes” que vai ouvindo e que o chamam para fazer os livros.

No entanto descobri também um homem que nada tem de arrogante ou vaidoso, um homem muito humilde e que acima de tudo ama a família e os amigos e que não se considera uma celebridade. Nesta 10 entrevistas, pese embora se repita muito, sobretudo nas lembranças da guerra cujo trauma é notório, Lobo Antunes revela um pouco o seu método de escrita, um pouco porque ele própria afirma que não tem nenhum. Escreve à mão, em blocos médicos e em letra miudinha e afirma carradas de vezes que o segredo de um bom escritor é a correcção. Ou seja, escreve e corrige tantas vezes que, por vezes, da página original só sobra uma palavra.

Depois vai falando da mesma forma como escreve: ao sabor do vento. Tanto fala de guerra como de políticos, passando pelo futebol e acabando nos amigos, sempre cheio de referências a frases de grandes escritores e poetas, aliás, Lobo Antunes demonstra uma enormíssima cultura.

Em todo o caso fiquei com pena que o autor não tivesse coragem de ter ido um pouco mais além. Ou seja, Lobo Antunes cataloga grandes autores portugueses como, por exemplo, Eça de Queirós ou Virgílio Ferreira, como mediocres , no entanto nunca explora essas afirmações e sobretudo nunca explora essa “inimizade” que existia em entre ele e Saramago e da possível inveja que Lobo Antunes sentiu aquando do Nobel de Saramago. Só um parágrafo sobre o Nobel para ele dizer que Saramago não sabia escrever e que era sim uma excelente máquina de marketing.

Mas enfim, desmestificou um pouco a imagem que eu tinha de António Lobo Antunes sem que, no entanto, ficasse com vontade de ler algum dos seus livros.