quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Cúpula (A) – Stephen King


Pese embora Stephen King seja um dos escritores mais traduzidos do mundo, com mais de 400 milhões(!!!) de cópias vendidas e uma obra extensa que originou títulos de culto, não apenas na literatura bem como no cinema, pessoalmente nunca fui um grande fã de Stephen King, embora já tenha lido vários dos seus livros e visto várias séries e filmes baseados nos livros, aliás, confesso que geralmente até gosto mais das séries e dos filmes do que propriamente dos livros. Aliás, considero Stephen King como um excepcional contador de histórias, conseguindo escrever livros extensos com um simples episódio, mas não o considero um bom escritor. Embora tenha o seu método de escrita que tanto sucesso lhe trouxe, soube criar um género que foi de encontro a um nicho de leitores e, com isso, a fama e o sucesso vieram por arrasto, sendo que, continua a ser a sua linha.

Bom, “A Cúpula”, supostamente começado a ser escrito na década de 70 e que King abandonou, foi retomada em 2007 ou 2008, sendo que a sua publicação aconteceu em Novembro de 2009.

É uma obra muito extensa. Mais de 1100 páginas e o que narra a história?

Imaginemos uma cidadezinha perdida nos confins dos Estados Unidos, num dia de Outono, eis que, de repente a cidade se vê isolada do resto do mundo por uma cúpula invisível que a envolve, uma espécie de campo de forças. Aviões, camiões, tudo, com ela colidem e depressa o governo norte-americano envia o exercito para tentar perceber o que se passa. Ninguém sabe de onde surgiu essa barreira nem de onde veio e muito menos de quando irá desaparecer.

No interior da cidade a estupefacção dá origem a desacatos sociais (como não podia deixar de ser), e eis que Stephen King cria uma micro sociedade que recria a nossa sociedade em toda a sua plenitude, com o respectivo herói e vilão.

Confesso que a sinopse foi suficientemente cativante para pegar nos dois volumes, pois o cenário sugerido era algo que me parecia ir dar a uma espécie de estudo da sociedade e embora isso de facto aconteça, confesso que não gostei do livro e da forma como o autor foi conduzindo a história.

Sim, muitos assassinatos e muito sangue conforme King gosta, muitas indirectas e “bocas” no que vai descrevendo, muito humor negro, mas grande parte do livro achei-o monótono, aborrecido e por várias vezes estive a ponto de desistir, pois a história é muito mastigada, pouco vai evoluindo e depressa começamos a constatar como vai acabar.

Aliás, penso que um dos principais defeitos desta obra é a sua enorme extensão. Facilmente o autor teria conseguido contar o que queria por, vá lá, 500 páginas, mais de 1100 páginas é um tormento e só se compreende porque sabemos que foi uma história que deu imenso prazer ao escritor, mas para o seu leitor se torna uma maçada.

Dos vários livros que li de Stephen King, este foi, de longe, o mais extenso, mas também foi aquele que menos gostei e, que me lembre, o único, que tive tentado a desistir.

Já ouviram falar do Deus das Moscas?

Uma obra excepcional que, tenho a certeza, Stephen King conhece bem!

 


sábado, 25 de agosto de 2018

Segredo de Joe Gould (O) – Joseph Mitchell


Aclamado por inúmeros escritores contemporâneos, dos quais destaco António Lobo Antunes, que efectua o prefácio da obra, onde refere ser este um dos melhores livros que leu nos últimos anos, tendo-o lido por três vezes de seguida, “O Segredo de Joe Gould” é uma espécie de trabalho jornalístico de Joseph Mitchell que, separado por vinte anos, elabora dois capítulos distintos de Joe Gould: “O Professor Gaivota” e “O Segredo de Joe Gould”, capítulos esses onde efectua uma descrição de quem foi Joe Gould e o segredo que estava por detrás da grande obra literária que Gould dizia estar a escrever: História Oral do Nosso Tempo, uma obra monumental, diversas vezes maior que a Bíblia e onde se propunha escrever tudo o que ia ouvindo na cidade de Nova Iorque.

Enquanto no primeiro capítulo Joseph Mitchell descreve Joe Gould, um excêntrico boémio sem-abrigo, proveniente de família rica e ele próprio estudante em Hazard, o segundo capítulo, escrito e publicado cerca de vinte anos depois, aborda de uma forma frontal o seu relacionamento com Joe Gould e desvenda o mistério dessa obra misteriosa e nunca descoberta: História Oral do Nosso Tempo.

Agora a questão é: porque é que esta obra causou um fascínio tão grande em diversos escritores?

Muito longe de ser tão erudito como esses ilustres escritores, o certo é que gostei do livro e penso que pelas mesmas razões, ou seja, Mitchell consegue descrever Gould como se efectivamente estivéssemos na sua presença e sobretudo com um humor tocante que nos faz ir dando gargalhadas à medida que avançamos na leitura do livro.

Depois ele vai descrevendo a elite boémia da cidade, alguns deles amigos de Gould e conseguimos percepcionar como seria a vida boémia na década de 30 e 40, em simultâneo descreve alguém que teve dignidade, pese embora na minha óptica tivesse efectuado acções velhacas, mas que dada a sua loucura, terá sido compreensível.

Classifico-o como de facto sendo um clássico, por descrever a vida boémia, a cidade, num estilo preciso, muito vivido e onde narra somente o essencial, não se perdendo em considerações que Mitchell até poderia ter feito, mas que se recusou a tal, respeitando esse personagem excêntrico chamado Joe Gould.

Em suma, é uma obra não ficcional, sobre alguém que teve a coragem de viver como quis e fazer o que quis e embora o segredo seja revelado, o certo é que ficamos tentados a pensar que a obra de Gould existe escondida aí algures.


sábado, 18 de agosto de 2018

Alquimista (O) – Paulo Coelho


Pessoalmente não sou um grande fã de Paulo Coelho e sou daqueles que não entende o grande sucesso deste autor, pois os livros que li dele, até este último, sempre me pareceram sensaborões, cheios de clichés e frases feitas e, sobretudo, maus construídos ao nível literário, ou seja, é daqueles autores que não considero escritor mas sim alguém que escolheu um nicho de leitores e que escreve aquilo que eles querem ouvir.

No entanto, tenho de ser honesto, este “Alquimista” surpreendeu-me pela positiva face às inúmeras mensagens subjacentes em todo o texto que confluem numa narrativa coerente e que tem o condão de nos ir atingindo página a página.

Da história em si nada vou revelar porque isso qualquer um pode pesquisar, mas quero aqui deixar vincada a minha percepção e a importância que este livro teve em me mostrar vários factores que estão diante dos meus olhos mas que, regra geral, me passam despercebidos.

O Medo!

Habitualmente temos medo face ao novo nas nossas vidas. Temos medo de falhar, de não sermos capazes. No entanto esquecemo-nos que esse medo nos tolhe os pensamentos e que não deve ser motivo para desistirmos, antes pelo contrário.

O que realmente vale a pena é aquilo que resiste ao tempo e às dificuldades, só as coisas verdadeiras permanecerão.

A mudança depende somente de nós e da nossa atitude. Quer queiramos, quer não, ele é controlada por nós e pela forma como escolhemos viver. Tudo tem um lado positivo, é a tal questão do copo meio vazio ou meio cheio.

De nada vale o lamento ou recordar o passado. O que passou, passou, já lá vai. É o presente que interessa, quando vivemos do passado, perdemos a oportunidade de usufruir o presente e crescer e evoluir.

Seja positivo na sua vida. Quando nos esforçamos para ser melhor pessoa, criamos um efeito proporcional a quem nos rodeia em todas as áreas da nossa vida.

Atitude. Não tenha receio, seja optimista e tome atitudes, aja de acordo com o seu coração e mente.

Se cair, levante-se sempre, nunca desista. Quantos e quantos casos de sucesso vieram depois de inúmeros insucessos. Quantas e quantas pessoas bem sucedidas andaram anos a cair, a tentar “vender” a sua ideia e a ouvir negas? Mas foram perseverantes, inconformadas. Mais tarde ou mais cedo irá ter retorno. Só se saboreará o sucesso depois de anos de insucesso.
Foco!

Seja focado naquilo que pretende alcançar. Não espere que sejam os outros a fazer por si ou não viva aquilo que os outros esperam. Cumpra o seu propósito, seja focado.

Por fim, esteja sempre preparado ou na disposição de agir. Não sonhe em vão, teorize e aja, não passe a vida a teorizar.

Desta forma pode parecer um livro de auto-ajuda, mas quis apenas identificar as principais mensagens da história criada por Paulo Coelho. Na prática, um jovem vai descobrindo a sua lenda pessoal com a ajuda de vários personagens fascinantes, entre os quais, um alquimista.

Mas, à medida que os sinais vão surgindo na longa caminhada, sinais esses que por si só são uma chamada de atenção para os sinais que o leitor tem no seu dia-a-dia, esse jovem descobre algo fascinante: o universo dá-te aquilo que mereces e há certos tesouros que estão diante dos nossos olhos mas que somos incapazes de os ver e isso porque não reparamos nos sinais que o universo nos dá.

Consigo compreender a importância e o sucesso deste livro, pois numa escrita linear, Paulo Coelho escreve uma história simples mas de uma complexidade metafísica que vai para além da obra, ou seja, mesmo que não se entenda todas as mensagens, sentimos que este é um livro que nos ajuda a apontar o nosso rumo, que nos ajuda a situar na vida, logo, é compreensível que milhões de pessoas o considerem como o livro que lhes mudou a vida.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Homem Domesticado (O) – Nuno Gomes Garcia


Publicado em 2017, o autor/historiador/arqueólogo Nuno Gomes Garcia, neste seu terceiro romance constrói uma narrativa distópica surpreendente, pese embora deixe no ar uma nuance de desconfiança de se ter inspirado no célebre romance de Margaret Atwood, “Diário de uma Serva”, pois as semelhanças são algumas mas, neste caso, inversamente.

Num futuro próximo, cidade de Paris, sabemos logo de início que os homens são propriedade das mulheres e que vivem sob o domínio delas, numa espécie de escravatura light, ou seja, são tratados como empregados, os castigos físicos são permitidos desde que exista má conduta e, mais importante, o homem viu-se renegado a uma situação subserviente tal, que as relações sexuais são proibidas e os casamentos são permitidos apenas para que a mulher possa gerar filhos, em laboratório, desse homem, e para que os homens façam o trabalho doméstico, sendo que é a mulher o sustento da casa.

Logo é ai, o autor inverte completamente a sociedade, criando um cenário curioso, até porque ele posteriormente, e penso que seria uma das suas principais intenções, demonstra o quanto inverosímil possa ser esse cenário, quando faz surgir na história um homem “diferente” e que vai virar todos esses conceitos estabelecidos.

A ajudar a essa subserviência do homem, outro dado curioso que o autor vai buscar aos países muçulmanos, neste caso algo que torna a mulher escrava, que é o uso do Hijab ou Niqab, aquele longo vestido em que só se vê os olhos, mas e no livro é o contrário, quem o utiliza são os homens sempre que saem à rua e só o despem quando estão em casa.

Parece-me que aí o autor quis “brincar” com isso, levando o cenário a um extremo, de forma a demonstrar que o que ele está a construir, acaba, de certa forma, por já existir em diversas sociedades (inversamente), mas brincando também com várias situações do mundo ocidental, ou seja, o que me pareceu é que o escritor quis dizer: “hoje em dia os homens são subservientes às mulheres embora pensem que não. Vamos lá construir um cenário onde isso é lei”, entendem? 

Mas a narrativa contém outros elementos que tornam esta distopia bastante atractiva e sujeita a outras interpretações. Aqui o autor expõe, para além da subserviência actual do homem pela mulher, o conhecimento (vai construindo uma espécie de Alegoria da caverna e isso é claro com a questão: “És Feliz?”), manipulação genética, o comodismo das sociedades, autoridade, ambição, ciúme e muita violência, tanto física como psicológica.

O epilogo é algo, a meu ver, desconcertante e onde o autor dá uma machadada brutal, pois deixa em aberto o enredo, ficando no ar que o que se está a passar, já se passou e que está aí diante dos nossos olhos, ele que faz uma transposição irónica para a realidade actual.

Um livro muito interessante que nos dá uma outra perspectiva, mas que tem também o condão de tocar em variadíssimos factos da nossa vida actual, criando várias analogias e metáforas sobre muitos dos factos concretos do Ser Humano e da sua capacidade autoritária.