domingo, 17 de setembro de 2017

22/11/63 - Stephen King



Pese embora Stephen King seja um autor consagrado cujos livros, na grande maioria do género de horror/fantástico, tenham vendido cerca de 400 milhões (!!) de cópias em cerca de 40 países, o que por si só o torna num dos Grandes Escritores de sempre, livros esses que na sua maioria foram adaptados ao cinema com grande sucesso (ex: Shining, Carrie, Pet Sematary, Misery, Rose Madder, Storm of the Century), e tantos outros, o certo é que poucos são as obras que li deste autor, até porque e embora adore filmes de terror, nunca fui grande apreciador de literatura deste género, muito menos quando se mistura terror com fantasia.

No entanto, numa ida recente à Biblioteca, chamou-me a atenção a sinopse deste livro, sobretudo porque colocava na teoria das hipóteses algo que há muito vinha pensando: “E se J.F. Kennedy não tivesse sido morto em Dallas em Novembro de 1963? Sabendo das suas posições políticas, será que o mundo teria sido diferente do que aquele que conhecemos?”

E foi precisamente essa hipótese que me despertou a atenção na breve sinopse e, não descurando as suas 900 páginas, resolvi trazer o livro e partir numa viagem à descoberta da resposta para essa questão.

E simplesmente devorei o primeiro terço do livro de uma forma ávida, pois, para além de estar muito bem escrito, o autor consegue agarrar o leitor dando-nos vários pontos de interesse que se vão encadeando e que fascinaram.

A sinopse em si pode resumir ao seguinte: Jack Epping é um jovem professor de inglês que vive uma vida absolutamente provida de entusiasmo. Abandonado pela sua mulher, vive só numa existência entre a escola e o restaurante onde costuma ir jantar. Esse restaurante, cujo dono conhece apenas em breves cumprimentos, é o seu escapatório diário e é ali que se liberta um pouco do pouco stress das aulas.

Um dia, estando a rever uns trabalhos na escola, recebe uma chamada do dono do restaurante que lhe pede que vá ter no imediato com ele porque tem algo de muito urgente a dizer. Um pouco desconfiado, Jack desloca-se ao restaurante, sem saber que a partir desse momento a sua existência terá uma volta de 360º e nada ficará como dantes.

Sem entrar em grandes detalhes, Jack acaba por entrar por um portal do tempo e viajará no passado até 1958. Inicialmente Jack tentará alterar algumas situações do passado, mas depressa terá como objectivo o de impedir o assassinato de Kennedy no dia 22/11/1963.

Conforme o referi anteriormente, o primeiro terço do livro é fascinante. Vamos acompanhando Jack na sua descoberta e nas suas acções que, desta forma, irão mudar a vida daqueles que Jack conhece em 2011 (data presente).

No entanto a partir de certa altura, o livro torna-se um pouco aborrecido, pois a partir do momento em que ele se centra na história de Kennedy, sobretudo no aspecto de seguir e monitorizar a vida de Lee Oswald, são imensas páginas muito repetitivas até chegarmos à data em que esse personagem abate, ou tenta abater, o então presidente dos Estados Unidos.

Será que Jack Epping consegue impedir esse assassinato e assim alterar de uma forma brutal e incontornável o futuro não apenas dos Estados Unidos como também de todo o mundo?

Mais do que responder a essa questão, posso dizer que cada vez que Jack Epping regressa ao passado e ao presente, muitas linhas se vão interligando até chegarmos a um ponto de rotura. E isso foi algo que me fascinou e que desde o início, para mim, era absolutamente instintivo, pois e isso é referido na obra, o Efeito Borboleta faz-se sentir numa pequena acção, agora imaginemos quando se impede uma acção em 1958 que irá ter repercussões em dezenas, centenas de vidas, até aos nossos dias?

E aí Stephen King é exímio, pois não deixa qualquer nó por desatar, entrelaçando todos os acontecimentos num só e tornando este livro num dos livros que irei recordar para sempre, pois foi com imenso prazer que o li em pouco mais de uma semana, sempre na expectativa de perceber como as coisas iriam acabar.

E agora, depois de terminado a sua leitura, estou desejoso de ver a mini-série que em 2016 foi realizada a partir deste fabuloso livro.

Altamente aconselhável!


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Agincourt – Bernard Cornwell



Eis que depois de vários anos, volto a ler um livro empolgante de Bernard Cornwell, um daqueles livros que me fizeram considerar este autor como o meu preferido e um livro onde é a rara a página em que não existam descrições de sangrentas batalhas.

Agincourt ou Azincourt foi uma batalha, travada em 1415 entre os franceses e os ingleses e onde, reza a lenda, surgiu o símbolo do V da Vitória, feito com os dedos indicador e médio. Mais do que uma batalha, Azincourt tornou-se para os franceses símbolo de humilhação (tirando a época de Napoleão, a História francesa está cheia de humilhações) e para os ingleses símbolo de uma batalha mítica que tornou Henrique V rei de Inglaterra e França.

Conforme é seu apanágio, Bernard Cornwell é exímio na explanação de toda a época medieval e dos acontecimentos que antecederam esta batalha, salpicando, como é normal, pois trata-se de um romance, de vários acontecimentos ficcionais. No entanto poucos são esses acontecimentos ficcionais, pois até as personagens, na sua grande maioria, são reais e Cornwell é mestre em lhe dar vida e voz.

Seguimos assim as peripécias de Nicholas Hook, jovem arqueiro, que a contas com uma inimizade familiar ancestral se vê fugido para França, iniciando-se aí o seu périplo o irá levar ao serviço de um poderoso senhor e à presença do Rei de Inglaterra. Inserido no exercito que ataca França em 1415, Hook toma parte nesta brutal batalha e é face ao seu discurso que somos levados a conhecer o que sucedeu nesse dia, uma batalha que foi uma das mais importantes e sangrentas da Europa medieval.

Em todo o caso e após já ter lido quase todas as obras de Bernard Cornwell, não considero esta livro como um dos melhores e explico porquê. Pese embora seja brutal na sua narrativa, quanto a mim deixa algo a desejar em alguns aspectos. Primeiro, achei-o muito repetitivo. A constante inimizade de Hook com outros personagens vai-se desenrolando ao longo do livro com quase nenhuma evolução, salpicada aqui e ali por episódios quase caricatos e pouco consistentes. Depois, as cenas de batalha são muito semelhantes entre elas: ventres estripados, golfadas de sangue, elmos amolgados, albardas afiadas espetadas nos olhos até ao cérebro, machados esmagando armaduras e é sempre o mesmo. São páginas atrás de páginas com descrições muito semelhantes, de uma brutalidade inaudita que de certo irá impressionar aqueles que não estão habituados ao estilo de Cornwell. Finalmente, e não sendo apenas mais esse pormenor, penso que o autor poderia ter trabalhado mais na história afectiva de Hook que até começa bem, mas que depressa perde fôlego até se tornar numa mão cheia de nada.

Ou seja, gostei do livro, deu para voltar a sentir aquela adrenalina e intensidade apenas sentidas nos romances de Bernard Cornwell, mas, a meu ver, este “Agincourt” fica aquém de outros do autor, sobretudo no excepcional “Crónicas do Senhor da Guerra”, uma trilogia poderosa, brutal e muito bem narrada e recriada.

Finalmente sinal negativo para a revisão da obra efectuada pela Planeta Editora. Possui várias gralhas, palavras com letras trocadas e inclusive incompletas. Mas enfim, é um pormenor menor.


sábado, 5 de agosto de 2017

Lugares Escuros - Gillian Flynn



De facto e pese embora já o tenha repetido inúmeras vezes, o género policial/thriller não é de todo o meu favorito, achando inclusive que é talvez o género que mais abusa de clichés como se a formula fosse sempre a mesma e pouco se pudesse inventar. Em todo o caso e sem qualquer tipo de menosprezo, de vez em quando gosto de ler um romance do tipo e eis que há uns dias, numa pesquisa na internet, me deparei com este “Lugares Escuros” como um dos melhores thrillers de sempre, inclusivamente um livro que originou o filme em 2015 com o mesmo título e interpretado por Charlize Theron. Depois de ler a sinopse, lá fiquei convencido e acabei por trazer o livro da biblioteca.

De leitura fácil e muito rápida, o livro tem um enredo inicial muito apelativo: A história é essencialmente narrada por Libby e desde o início sabemos que quando tinha sete anos a mãe e as duas irmãs foram barbaramente assassinadas na quinta da família. Libby conseguiu fugir e acabou por testemunhar contra o seu irmão Ben que, desta forma, é acusado dos crimes e condenado a prisão perpétua. Com a história dos assassinatos, desenvolve-se um movimento de apoio a Libby que acaba por juntar milhares de dólares que fazem com que Libby viva por mais de 25 anos sem se preocupar com dinheiro e sem trabalhar, até que um dia o responsável pela conta lhe diz que o dinheiro está a acabar e Libby, depois de ser contactada por uma sociedade macabra que se entretém a investigar crimes, aceita recordar aquela noite e, em troca de dinheiro, procurar aqueles que, de forma directa ou indirecta, estiveram ligados aos crimes.

Libby empreende então uma odisseia em busca de respostas para o que de facto sucedeu naquela noite e oscilando entre o presente e o passado, começamos a traçar um puzzle dos acontecimentos que trazem à tona o que aconteceu e que é o verdadeiro responsável pelos crimes.

Pese embora tenha gostado do livro, não posso dizer que é um livro maravilhoso, daqueles de leitura compulsiva e que nos fazem devorar página a página até ao seu epílogo. Longe disso! A fase inicial é de facto muito interessante, altura em que somos colocados diante dos acontecimentos e onde nos é lançado aos olhos várias pistas. Percebemos que Libby se tornou numa pessoa amarga, interesseira e que vê uma oportunidade em voltar ao passado, uma oportunidade para ganhar dinheiro. Aí é-nos lançado o primeiro choque porque percebemos que a protagonista pouco amor tem pelos entes mortos. No entanto e há medida que o livro vai evoluindo, percebemos que é ao fim e ao cabo uma espécie de capa e que Libby vive atormentada pela aquela noite e é isso que, no fim, a catapulta para descobrir que é o verdadeiro culpado.

E não vou revelar mais, no entanto sempre posso dizer que o fim foi decepcionante e por diversos motivos.

Primeiro porque a meio do livro já tinha criado uma teoria que se veio a revelar acertada. Penso que há diversas pistas que com uma leitura atenta nos joga para o verdadeiro culpado. Segundo, esse culpado, foi muito evidente e levei todo o livro a pensar: “eis que vai surgir uma reviravolta e que nada é o que parece”. Nah! 

Terceiro e não último facto, os capítulos finais parecem tirados de um qualquer filme de categoria B, daqueles cheios de clichés, onde a autora apenas mudou os nomes, pois os acontecimentos são muito semelhantes.

Mas enfim, lê-se muito bem, é interessante e cativante, no entanto está muito longe de ser um dos melhores thrillers de sempre. Embora não tenha grandes conhecimentos, se querem um thriller a sério, experimentem, por exemplo, qualquer livro de Boris Starling, sobretudo o Messias. Esse sim, um thriller brutal!


sábado, 22 de julho de 2017

Manhã Submersa – Vergílio Ferreira



Para muitos considerado um escritor aborrecido, Vergílio Ferreira é um dos grandes escritores portugueses e um daqueles que se fosse norte-americano, francês ou inglês, era considerado como um génio da literatura, pois os seus livros são autênticos afagos à nossa alma e puras pérolas literárias. 

Escrito em 1953 (publicado em 1954) aquando Virgílio estava colocado a leccionar em Évora, Manhã Submersa é, muito provavelmente, o romance mais célebre do autor e aquele onde o autor explana, através do seu alter-ego António Santos Lopes, o tempo em que o escritor passou, na sua infância, no seminário do Fundão.

Romance triste e melancólico, o autor começa logo por traçar um cenário nada simpático do seminário e dos padres que o dirigem, pois e desde logo do início, na voz de António que a contragosto ali se encontra por influencia de D. Estefânia, o narrador traça uma imagem monstruosa e angustiante daquele lúgubre local, deixando também claro que a grande maioria dos seminaristas ali estavam por obrigação e não por vocação.

Desta forma torna-se claro que António sente não ter qualquer vocação para o ofício de padre e que a obrigação de frequentar o seminário se deve apenas à obrigação de D. Estefânia e ao amor que sente pela mãe, amor esse que, quase perto do fim, se torna perceptível quando António sente que não grande escapatória, por é nele que se encontram guardadas as esperanças da família para fugir da miséria na sua aldeia natal.

Pessoalmente foi com muito agrado que voltei a uma obra de Vergílio Ferreira, autor que há muito estava nos meus planos de leitura e que, com a Aparição, se tornou um dos meus livros de culto.

Não me desiludi. Pese embora continue a preferir a obra “Aparição”, Manhã Submersa está muitíssimo bem escrito e consegue-nos transmitir as percepções do personagem à medida que o tempo vai passando, das suas imensas tristezas às escassas alegrias e esperanças.
Há medida que ia desbravando as páginas do livro, ia dando comigo a pensar na quantidade de homens que seguem o ministério de padre sem qualquer vocação, apenas por obrigação porque, no passado mais do que actualmente, ser uma profissão que dá estabilidade e respeitabilidade, sobretudo se olharmos para o passado, quando os padres eram as figuras mais respeitadas e temidas das povoações.

E penso que é um dos factos que Vergílio Ferreira, que conheceu in loco um seminário e as suas muitas falsas vocações, pretende transmitir. Sabe-se que Virgílio estudou no Fundão durante seis anos e que acabou por abandonar, findando posteriormente os estudos no Liceu da Guarda, logo é muito natural que vários dos personagens que habitam o romance se inscrevem em personagens reais que Vergílio conheceu no seu tempo de seminarista.

Um excelente romance de um dos grandes escritores portugueses.