
“A Estrada”é um livro que tem tanto de belo como de chocante.
Num futuro próximo o mundo caí numa era apocalíptica. A grande maioria das pessoas morreram e tudo se encontra devastado, coberto por cinzas.
É este o cenário que irá envolver toda a narrativa dando-nos, logo no seu início, uma visão dantesca do mundo onde estamos a penetrar.
Um clima agreste onde a solidão reina a par com o sofrimento que abalou o planeta. A ausência de vida é algo transversal em toda a história e a luta pela sobrevivência, dos poucos sobreviventes, é feroz. Contudo há uma questão que salta logo nas primeiras páginas: sobreviver para quê num mundo sem presente e sem futuro?
Um pai e um filho caminham numa estrada. Empurrando um carrinho de compras com todos os seus parcos haveres, eles dirigem-se em direcção ao mar na esperança de lá encontrarem outras pessoas “boas”.
Durante essa caminhada vão-se apoiando no amor que nutrem um pelo outro numa odisséia onde a solidão e a tristeza contrapõem com o constante jogo do “gato e do rato”.
Pessoalmente penso que existe uma grande similaridade desta odisseia com a de Homero, sobretudo na utopia de chegar a um objectivo antevendo vários perigos que se atravessarão no seu caminho. Uma e outra a esperança nunca morre numa luta diária num mundo irreal.
É uma obra que nos faz ver para onde, se calhar, caminham as sociedades puramente consumistas onde os ideais se vão perdendo assim como se vai retirando a esperança de sonhar. O que é o ser humano nesse contexto, a perda total de valores e piedade que nos aproximam, quanto a mim ultrapassam, os animais ditos irracionais..
McCarthy é exímio nas palavras e nas descrições. A forma crua como vai narrando, entranha-nos na alma, faz-nos sofrer. Basta ver que, a certa parte do livro o pai diz ao filho: “desculpa não ser azul”, “não faz mal”, diz o rapaz (sobre o mar).
Sem dúvida um dos melhores livros que li até à data e um escritor que é, sem dúvida, um dos melhores escritores da actualidade.
5 comentários:
Também para mim, McCarthy foi uma magnífica surpresa. Acabei de ler "Este País Não É Para Velhos" e confesso que não morri de amores, o que não me surpreende, pois escrever 3 livros excepcionais em apenas uma vida seria desafio excessivo para as probabilidades.
PS: iceman, não me leves a mal mas tens que corrigir o verbo “haver” da primeira frase deste teu post…
Li este livro há pouco tempo e também gostei muito... é soberbo! Já agora, o livro irá ser adaptado ao grande ecrã e encontra-se de momento em fase de pré-produção.
Lol, já alterei a forma verbal e claro que não levo a mal.
Esse "País não é para velhos" ainda não li. No entanto li "A Estrada", "Filho de Deus" (que também gostei) e o "Guarda do Pomar" (este não apreciei).
O livro que vocês agora andam a ler e a comentar (Meridiano) está debaixo de olho e é com interesse que sigo o vosso blog. Parece-me de facto ser um excelente livro.
Viva canochinha.
Sim, de facto já li algures que estava em fase de produção a adaptação deste filme e inclusivamente referiam os actores convidados.
Independentemente dos actores, penso que não é muito difícil efectuar essa adptação, só tenho é algumas reservas se o filme conseguirá transmitir a imensa angústia que o livro transmite.
Iceman,
muito obrigado pela atenção. Estive a ler as tuas opiniões e gostei imenso, sobretudo da forma como expões a tua opinião.
Não resta sombra de dúvida na minha mente. O Sr. McCarthy fará parte das minhas leituras.
Um abraço.
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