domingo, 20 de fevereiro de 2011

Selva (A) – Ferreira de Castro


“A Selva” é considerado o romance mais autobiográfico de Ferreira de Castro. À semelhança de Alberto, personagem central da obra, Ferreira de Castro também emigrou para o Brasil, também foi abandonado por aquele que supostamente seria o seu protector, acabando por ser ver “obrigado” a ir trabalhar para o seringal Paraíso, viajando em 3ª classe no barco Justo Chermont. Aliás, é o próprio Ferreira de Castro que o admite por ocasião da edição comemorativa da “Selva” em 1955.

Escrito em 1929 em apenas 8 meses, esta é uma obra que serviu de exorcismo ao autor, não só pelas dificuldades por ele passadas e narradas, mas e principalmente, pela exposição ao mundo da difícil e desumana vida levada por aqueles que retiravam (e retiram) borracha na selva amazónica.

Publicado em 1930, a obra foi bem acolhida pela crítica, sendo ainda hoje considerada a melhor obra de Ferreira de Castro.

O argumento é simples mas, em simultâneo, inquietante e revoltante.

Alberto é um jovem monárquico que se vê obrigado a fugir de Portugal por estar associado a um desacato. Emigra assim para o Brasil em busca se riqueza. Logo aqui o autor desmistifica a imagem de El Dorado que se tinha do Brasil. Alberto chega com sonhos de riqueza e logo vê cair essa ilusão ao ser abandonado à sua sorte por aquele que o devia guiar e proteger (o mesmo aconteceu a Ferreira de Castro).

Dessa forma Alberto apenas consegue trabalho na extracção de borracha, partindo então rumo ao seringal Paraíso em plena selva amazónica.

E é neste local, onde as dificuldades da vida ultrapassam o imaginável, que Alberto irá perceber o sentido da vida.

Embora a personagem central do livro seja Alberto, a Selva Amazónica acaba por ser o intérprete principal da obra. É nela que o autor expressa todo o poder da narrativa, dando-lhe alma, carisma, povoando-a de fantasmas, de ameaças ocultas sob a sua densa vegetação, de vida.

Nela se passa a maior parte do romance e é nela que Ferreira de Castro narra a difícil vida dos seringueiros que eram (e não são actualmente?) sepultados vivos na selva.

Pessoas humildes, analfabetas e muito pobres, o seringueiro aceitava que lhe pagassem a viagem em troca de, depois de instalado, ir pagando com a borracha extraída. No entanto este era o início do esquema que levava o seringueiro a ficar totalmente dependente do patrão acabando por cair na escravidão. No seringal, ele era obrigado a comprar tudo o que consumia e necessitava ao patrão (nada mais havia do que kms e kms de floresta cheia de perigos) e via o preço da borracha, que tão dificilmente extraia, ser-lhe pago de uma forma miserável. Ou seja, era explorado e dessa forma a sua conta corrente ia aumentando e nunca mais conseguia pagar o que devia.

Ferreira de Castro expõe essa relação desonesta entre patrão e seringueiro, demonstrando a exploração e a escravatura encoberta.

Mas vai mais longe, efectua análises à alma humana e escandaliza-se com o facto do ser humano ser capaz de ser tornar uma animal sem sentimentos: ”como podia ser, como podia ser que as vítimas saboreassem também o papel de algoz? De que sórdida matéria era formada a alma de alguns homens, que gozavam em castigar a desgraça alheia, mesmo quando era igual à deles?”

Um livro excepcional que adorei cada página, cada parágrafo.

Ferreira de Castro é objectivo, no entanto as suas descrições são pura poesia, arte literária pura, extremamente visual, luxuriante até na forma como constrói a narrativa.

Um dos melhores livros que li até hoje.

3 comentários:

nclivros disse...

Irá ser uma das minhas leituras dirante 2011, assim como terra fria, troxe os dois da barateira. gostei bastante desta crítica, que vai ao encontro daquelas de que ja tinha ouvido falar. fiquei ainda mais curioso.

Paula disse...

Se encontrar compro!
:)

rita murteira disse...

querida é uma seca, nao compre...temos que ler essa porra na escola e acredite... nao vai gostar, é chato e dificil de compreender, assim que leio uma página já me esqueci do que li...