segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um Mundo Sem Fim – Ken Follett


Ken Follett é um escritor de massas, puramente comercial que, com o seu mega êxito "Os Pilares da Terra”, descobriu uma fórmula de sucesso que, intervalando com alguns thrillers, a vai aplicando de vez em quando, tipo, quando deve precisar de ganhar muito dinheiro.

Com isto não quero dizer que não gosto dos seus livros, é verdade que não faz parte do lote dos meus autores favoritos, mas, confesso que as suas histórias me interessam e entretêm, pois o homem, para além de controlar a tal fórmula, sabe jogar as varias peças no tabuleiro romanesco e isso, não lhe tiro o mérito.

Em “Um Mundo Sem Fim”, em Portugal editado em dois volumes (desconheço se no original também), Ken Follett propõem-se a trazer de volta o priorado de Kingsbridge, local onde se passou a acção de “Os Pilares da Terra”. Ou seja, segundo o autor, a intenção seria de dar uma prenda à legião de fãs dos Pilares da Terra, porém eu acredito mais que a principal intenção foi o de tentar reavivar a mina, mas não o censuro.

Inglaterra, ano de 1327, cerca de 200 anos depois da época dos “Pilares da Terra”.

Quatro crianças são testemunhas da morte de dois homens às mãos de um cavaleiro misterioso. Uma dessas crianças acaba por ajudar esse cavaleiro a esconder uma carta na floresta, jurando que jamais contaria a alguém o que teria feito naquele dia nem o que tinha visto.

Esta é a premissa para este romance que, após os factos iniciais, se situa 10 anos após este estranho acontecimento, sendo as crianças já jovens adultos e alguns deles com elos bem íntimos.

E a partir daqui, Ken Follett mostra o seu talento em como escrever tanto contando tão pouco.

Curioso contudo perceber que a obra até é interessante. O autor sabe encadear os acontecimentos, dando-lhe interesse e suspense. Porém, e bem exprimido, o desenrolar da história é demasiado lento e sobre esse mistério, que e como já era expectável, só é revelado no fim, enfim, quase que podemos dizer que “a montanha pariu um rato” dado esse mistério revelar-se, importante sem dúvida, mas… enfim, assim prós modos que, sensaborão.

Mas é inegável que o autor consegue traçar um fresco interessante da época. Refiro interessante porque a acção centra-se apenas em na zona de Kingsbridge (mais à frente dá umas voltinhas por França e por Florença), no entanto é bem perceptível o modo de vida do povo, do clero e dos senhores feudais. E é nesse contexto que sobressai o que de facto me prendeu ao livro: o movimento do clero, os seus célebres tribunais heréticos, o ridículo e os interesses das acusações de heresia, as superstições induzidas pela igreja no povo inculto e analfabeto, na exploração e das leis abusivas contra o povo que fazia dos senhores feudais uns deuses que tudo podiam e faziam, das crenças, do medo. Desse modo o autor acaba por explicar o porquê de tantos séculos de obscurantismo cuja responsabilidade a igreja católica não pode recusar.

Uma época extremamente violenta. As pessoas estavam sujeitas a assaltos em qualquer altura sem que houvesse um sistema de segurança útil, honesto e isento. Arruaças mortais estalavam por ninharias, foras da lei, ladrões e violadores, eram executados em público de uma forma extremamente violenta. Tudo sob a sombra da Lei Divina exercida por abades, padres, bispos e outros quejandos corruptos, cujo poder e influência tudo decidia sobre a vida e a morte.
A peste tem aqui também um papel fundamental no desenrolar da história e o autor situa-a muito bem, dando a imagem, verídica, da sua verdadeira dimensão. Os danos que a doença transporta, dizimando aldeias inteiras, a enormidade de mortos e a impotência no tratamento dos doentes em simultâneo que destaca o modo pouco higiénico no tratamento desses doentes que levou ao natural propagar dessa terrível praga por toda a Europa.

É uma obra que diverte e ensina algumas coisas mas que perde em rodriguinhos que levam sempre ao mesmo sítio. Ou seja, são mais de 1100 páginas de uma história que se contava bem numas 300, mas Ken Follett sabe de facto fazer “render o peixe”, o homem consegue criar voltas loucas nas suas histórias, embora saibamos de antemão onde aquilo vai dar.

Aconselhável, mas aquém, muito aquém, na minha opinião, dos “Pilares da Terra”, obra essa bem mais rica em termos históricos e com mais ritmo.

9 comentários:

WhiteLady3 disse...

Eu adorei Os Pilares da Terra mas concordo quando dizes que esprimidinho esprimidinho dá pouco sumo. :) Nem as personagens são algo de memoráveis, apesar de achar que são muito reais, nem a história tem momentos brilhantes, mas apesar de tudo consegue manter-nos agarrados pois o retrato que ele faz da época é muito bem conseguido.

Tenho andado de olho neste, mas a única relação que tem com os Pilares é o local, não é? Não é propriamente uma epopeia familiar, seguindo descendentes das personagens dos Pilares, pois não?

Célia disse...

A forma como acabas a primeira frase da tua opinião provocou-me uma gargalhada :D

Eu gostei dos "Pilares", mas mentiria se dissesse que ficou nos meus favoritos... Confesso que nunca tive grande curiosidade por ler esta continuação. Quem sabe se um dia estiver para aí virada ;)

Ah, e acho que no original é mesmo só um volume.

Paula disse...

Olá Iceman,
Tenho bastante curiosidade em ler "Os Pilares da Terra" penso, de acordo com os comentários que leio, é o melhor do autor.
Será para um dia destes, mas não muito em breve :P
Abraço

Iceman disse...

Olá White!

Sim, na prática o priorado de Kingsbridge é um único elo entre este romance e os Pilares da Terra, pese embora, no início do livro uma das famílias reclame ser descendente de Tom Pedreiro, o homem que, salvo erro, está pro detrás da construção da Catedral de Kingsbridge e que, pelos vistos, foi elevado a conde ou os filhos dele, algo assim.

O romance abrange 34 anos de uma época de facto que muito me atrai. Não diria que é uma epopeia familiar, mas vamos acompanhando a vida de todas essas crianças e suas famílias. Acaba por ser interessante, não o nego.

Agora que é um livro que não deixa grandes saudades, isso é um facto.

Iceman disse...

Olá Célia!

Partilho da tua opinião. Gostei dos Pilares da Terra, mas nunca o coloco entre os 20 livros que mais gostei. Talvez com alguma boa vontade o coloque nos primeiros 50... vá lá!

Este é mais fraco, na minha opinião. Penso que o autor quis ressuscitar a formula, pois a estrutura é em todo semelhante e tem quase tudo o que lemos nos Pilares,não faltando até o tipo que é jeitoso nas construções.

Pois, sem o saber iria quase jurar que no original seria um volume.

Iceman disse...

Olá Paula!

Acho que deves ler os Pilares da Terra. Não é a 8ª Maravilha como muitos apregoam, mas é um livro bom, que diverte, entretém e até ensina umas coisinhas. E se gostares da época medieval, então vais-te deliciar com alguns pormenores. Mas e lembrei-me agora, tens alguns erros primários, por exemplo, às tantas ele refere que alguém colheu milho ou qualquer coisa do género com milho. O que o autor não sabia é que o milho só é trazido para a Europa no séc. XVI. Mas enfim, pormenores...

:D

Patrícia disse...

Olá
Gostei bastante dos Pilares da Terra e ando com vontade de ler este "O mundo sem fim". Só não o fiz ainda porque este livro por cá está divido em 2 e isso irrita-me bastante. Mas acho que antes ainda vou ler o "Fall of giants" porque me parece mais interessante. Já alguém o leu?
Boas leituras
Patrícia

Iceman disse...

Olá Patricia!

Sim eu já li a !Queda dos Gigantes" e inclusivé já postei aqui a minha opinião.
:D

GONIO disse...

De Ken Follet só conheço "A queda dos gigantes", primeiro livro de uma trilogia sobre o séc. XX.
Do que li até agora, estou a gostar. Caracteriza a classe alta e o povo, os conflitos, o início da I Guerra Mundial... muito interessante.
A escrita deste autor não é um Garcia Marquez cheia de surpresas, mas consegue contar uma história de forma atraente.
Estou ansioso pelo nº 2 desta trilogia!
Quanto aos outros livros dele, não conheço. Mas há um ou outro a chamar-me a atenção. Quem sabe na feira do livro...? :)
Boas leituras!