domingo, 30 de dezembro de 2007

Livros lidos em 2007

No ano que agora finda li 47 livros (contabilizo apenas aqueles que li da primeira à última página pois há outros que desisti a meio), número dentro de uma média anual mantida há uns dez anos.

Dessa lista pretendo aqui referir os dez que mais gostei.

- “A Estrada” de Cormac McCarthy
- “1984” de George Orwell
- “Cruz de Portugal” de José Sequeira Gonçalves
- “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón
- “A Odisseis dos Dez Mil” de Michael Curtis Ford
- “Filipa de Lencastre de Isabel Stilwell
- “O Canto dos Pássaros de Sebastian Faulks
- “A Voz dos Deuses” de João Aguiar
- “Predadores” de Pepetela
- “A Voz da Terra de Miguel Real

Sem nenhuma ordem de preferência destaco, contudo, “A Estrada” como o livro que mais me marcou, diria mesmo que foi um dos melhores livros que li até à data e “A Voz da Terra”, um livro que merece o rótulo de obra-prima da literatura portuguesa.

Destaco também um livro que reli pela 4ª vez: “A Filha do Capitão” de José Rodrigues dos Santos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Sombra do Vento (A) - Carlos Ruiz Zafón

Grande sucesso em Espanha e praticamente em todos os países onde foi publicada, “A sombra do vento” é um livro que fala de livros e da influência que os mesmos podem ter na vida daqueles que os lêem.

A acção situa-se em Barcelona em meados da década de 40 (século XX) onde ainda se vive sob o espectro da guerra civil que assolou toda a Espanha e sob a ditadura de Franco.

Daniel Sempere, o principal personagem e narrador da história, de mão dado com o pai é levado à descoberta de um local mágico e misterioso: O cemitério dos livros esquecidos. Gigantesca e labiríntica biblioteca onde são guardados os livros saídos de circulação e há muito esquecidos pela sociedade.

Logo aqui há uma clara referência à estrutura labiríntica imagina por Umberto Eco no seu livro “O nome da Rosa” e, na minha perspectiva, uma crítica à sociedade pela forma como trata os seus livros, para além de ele próprio fomentar a idéia da importância de todos os livros como veículo de cultura.

Esta cena inicial torna-se assim na premissa para todo o enredo que irá rodar sob o livro que Daniel escolhe do Cemitério dos livros esquecidos: A Sombra do Vento, escrito pelo enigmático e obscuro Julián Carax.

Apaixonado pela história contida no livro, Daniel empreende uma busca por mais livros deste autor, acabando por entrar numa intrincada teia de ódios, assassinatos, paixões e amizades que vão para além do imaginado e que se situam muitos anos antes do nascimento de Daniel.

Zafón é muito inteligente na forma como cria o enredo e, sobretudo, na forma como liga vários pormenores e personagens de outros autores da literatura e isso é algo que mais me surpreendeu e me fez apaixonar pelo livro.

Como história em si, posso afirmar, segundo a minha opinião, que não é uma grande história, já tenho lido muito melhor, porém uma das mais valias deste livro é a influência de outros autores e dos seus gêneros. É nítida a influência do gótico de Egdar Allan Poe. O inspector Fumero, até na descrição do seu aspecto físico, é quase um clone do inspector Javert nos “Miseráveis” e até no seu relacionamento com Fermín, um dos personagens mais fascinantes, faz lembrar as situações com Jean Valjean no referido título.

Achei curiosa a forma como o autor consegue jogar com vários estilos literários, quase que altera os estilos de página a página. Ora cria um clima de autêntico romance psicológico ao estilo de um Dostoeivsky, como passa para um policial, um thriller povoado de imagens e situações góticas e sobrenaturais, acabando num estilo histórico e até de costumes.

É claro que isso é intencional e dá ao romance algo de inédito, até porque é também uma forma do autor homenagear escritores universais e gêneros.

Bela é também a sua escrita e as metáforas criadas. Facilmente descreve situações de uma forma poética, de uma profundidade emocional e intelectual superior.

Não é de forma nenhuma um livro difícil de ler, é sim um livro belíssimo que fala de outros livros e das capacidades humanas em todas as suas vertentes, tendo também a capacidade de analisar a História e o peso que a mesma tem com comportamento do ser humano enquanto individualidade e em grupo.

Último Távora (O) - José Norton

Pedro de Almeida Portugal, 3.º marquês de Alorna e 6.º conde de Assumar, nascido em Lisboa em 1754, viu toda a sua família ser quase toda eliminada em 1759 por ocasião do célebre processo dos Távoras. No entanto esse processo decretou a prisão do seu pai, mãe e irmãs durante 18 anos, tempo em que Pedro foi criado sob a protecção daquele que esteve por detrás de todo o processo: Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

Descendente da uma família maldita, Pedro irá sentir toda a vida a perseguição de inimigos invisíveis que, na sombra, desenvolvem acções que minam a reputação que Pedro consegue conquistar.

Marquês da Alorna (embora descendente dos Távora, era-o por parte da mãe, pelo que herdou o título do pai, no entanto isso está muito bem explicado neste livro), título da velha aristocracia, os Alorna ocuparam durante várias gerações lugares de destaque em vários sectores do reino, lugares que trouxeram prestígio e riqueza à sua casa, mantida também com casamentos com outras casas nobres, construindo assim uma forte rede de interesses e influências que abarcavam todo o império português.

Filho de D. João de Alorna e de D. Leonor de Távora, uma das filha dos marqueses de Távora, Pedro, como primogênito, logo ficou com o futuro definido.

Estava destinado a altos postos ao serviço do rei. No entanto os acontecimentos posteriores ao Terramoto de 1755 iriam alterar esse destino.

Terá assim uma vida rica em acontecimentos que o levam a manter relações muito próximas com o príncipe D. João. Através desses contactos, D. Pedro vai ocupando lugares de liderança no exército português até às invasões francesas em 1808 quando é nomeado como um dos comandantes das forças portuguesas. A partir dessa data inicia um novo capítulo da sua vida que o irá levar a conhecer pessoalmente Napoleão e comandar nove batalhões portugueses nessa terrível e famosa campanha.

Pessoalmente desconhecia a presença de tantos soldados portugueses na campanha da Rússia de 1812, mas o autor descreve minuciosamente todo o processo de envolvimento dos batalhões portugueses e dos seus comandantes, dos quais fazia parte o Marquês de Alorna. E aqui faço a ressalva para a forma como os portugueses eram vistos e tidos pelos fanceses: Soldados de coragem e bravura. Napoleão sobre isso escrevia na sua proclamação de 7 de Setembro diz, referindo-se a Borodino: “Que a posteridade mais remota cite com orgulho a vossa conduta neste dia.”

Este livro surpreendeu-me bastante.

Antes de mais é um excelente documento histórico. Para além da enorme capacidade narrativa demonstrado pelo autor, é-nos oferecido um documento Histórico que abrange 50 anos de uma época importantíssima na Europa.

Começa por nos situar na época descrevendo o processo dos Távoras e o porquê do mesmo.

Achei também curioso e imensamente interessante a forma narrativa do autor.

Na prática torna-se um documento de pura História onde o autor descreve o sucedido, porém nunca se coíbe em colocar diálogos entre os personagens, ou seja, este livro é uma mescla brilhante entre documento Histórico e romance.

Surpreendeu-me também pelas várias histórias. As ligações familiares, as intrigas políticas, as mesquinhices do Portugal setecentista. O porquê das invasões francesas, a intervenção de soldados portugueses em várias campanhas de Napoleão, etc.

É um livro belíssimo sobre um homem e uma época. Uma época que marca a Europa e que traz ventos de mudança, e um homem que viveu com uma cruz. Lutou imenso e tentou sempre elevar a condição da sua casa: os Alorna.

domingo, 4 de novembro de 2007

remorso de baltazar serapião (o) - walter hugo mãe

Prémio José Saramago 2007, este romance de Walter Hugo Mãe, escrito curiosamente em 2004 mas só agora premiado, situa a acção em Portugal durante o reinado de D. Dinis, logo em plena idade medieval entre os anos 1279 – 1325.

Época brutal e miserável, Baltazar Serapião é o filho mais velho de três (dois rapazes e uma rapariga) que subsistem da agricultura e devem vassalagem a D. Afonso, o senhor feudal todo poderoso.

É nessa perspectiva que a irmã de Baltazar, quando chega à adolescência, vai servir para a casa de D. Afonso, acabando por o servir sexualmente a ele, algo que a família não vê com bons olhos mas que o medo os faz calar.

Baltazar Serapião que, sexualmente falando se vai desenrascando com uma pobre diaba, a puta do sítio, acaba por cair de amores por Ermesinda, casando-se pouco depois.

Mas D. Afonso mete os olhos em Ermesinda e exige que a mesma vá todos os dias a sua casa. Para fazer o quê? Essa é a pergunta que está por detrás de todo o trama do romance.

Baltazar é assaltado por terríveis dúvidas sobre a fidelidade da sua mulher e, imbuído pela sua imaginação e pelas conversas que ouve, emprega terríveis castigos físicos a Ermesinda diante da aquiescência de todos que achavam comportamentos desses normais e até morais.

Num trabalho notável de linguagem (Walter Hugo recria o português medieval), este livro é, quanto a mim, único no panorama literário português.

Não sendo propriamente um livro fácil de se ler, não só devido à linguagem como também à estrutura do texto (nota-se claramente a influência de Saramago), é sim um livro sobre a condição de vida da época medieval e, sobretudo, sobre a condição das mulheres que eram inferiores aos animais.
Gostei imenso do livro, pese embora o tenha achado por vezes repetitivo e algo aborrecido, pois há situações que se repetem e a obsessão e as dúvidas de Baltazar pela mulher é algo que se repete por diversas vezes, deixando também antever o fim do livro.

sábado, 3 de novembro de 2007

Longa Caminhada (A) - Slavomir Rawicz



No dia 17 de Setembro de 1939, o exército da URSS invadiu a Polónia. Cerca de um mês antes, mais propriamente no dia 23 de Agosto, a Alemanha nazi, através de Hitler, firma um acordo de Não-Agressão com a URSS de Joseph Estalin. Esse acordo previa a divisão da Polónia entre a Alemanha e a URSS no final da guerra. No dia 1 de Setembro, os alemães invadem a Polónia pelo Ocidente, enquanto que a 17, a URSS invade o país através das suas fronteiras do Oriente. Nessa invasão muitos inocentes perecem às mãos das tropas nazis e russas, no entanto, são as acusações de traição e espionagem que são hoje alvo de relatos e investigações. E é precisamente por uma acusação de ser espião, que o tenente da cavalaria do exército polaco, Slavomir Rawicz, se vê no meio do inferno.

Esta é uma história real. Narrada pelo próprio e escrita pela primeira vez em 1956, este é um relato pungente de homens que se viram acusados e privados da liberdade sem que nada tenham feito. O único mal que fizeram foi de terem estado no local errado aquando da passagem da maré fascista, numa autêntica "caça às bruxas" na União Soviética. Este é um relato, um grito de alerta ao mundo contra os malefícios do comunismo, da fanatismo político, do fascismo e, principalmente um grito a favor da liberdade e da vida, pois e conforme o próprio Rawicz afirma: "A liberdade é como o oxigénio".

Mas Slavomir Rawicz vê-se, sem saber porquê, aprisionado pelos russos que, sob enormes e variadas torturas, insistem para que ela assine um papel onde admite a sua culpabilidade. Recusando-se sempre a assinar tal documento, acaba por ir a julgamento sendo então condenado a 25 anos de trabalhos forçados num campo de trabalho na Sibéria. Já nesse campo (campo 303), Rawicz narra todas as privações e principalmente a forma como os próprios presos se organizavam. Até que derivado de alguns acontecimentos, toma consciência que a fuga é possível, no entanto ele sabe que a percentagem de êxito é baixa, mas ela existe.

Juntando-se a um grupo de 7 homens, no qual se inclui um engenheiro americano que se irá revelar um elo fundamental, estes homens iniciam uma fuga de 8.000 km, atravessando toda a Sibéria, Mongólia, Tibete, Himalaias, chegando por fim à Índia, onde são acolhidos pelo exército britânico.

Essa travessia dura cerca de um ano e é inimaginável o que aqueles homens sofrem.

Como devem supor, atravessar a Sibéria torna-se um tormento, ainda mais não tendo praticamente quaisquer víveres, dormindo de dia escondidos pelo gelo e caminhando de noite. Agora imaginem atravessar o deserto de Gobi (Mongólia) em pleno Verão e sem água. As descrições são tão reais e fortes, damos connosco a sentir o sufoco do calor, a lingua inchada, as pernas inchadas e os pés em chagas de tanto andarem.

Toda esta jornada se desenrola a pé. Trata-se de uma fuga e mesmo fora dos territórios da URSS, eles não estão seguros, pois os países que atravessam mantém laços de amizade com a URSS, logo, é sempre possível serem capturados.

Rawicz escreve este livro muitos anos depois. A edição actual é de 2000, revisada pelo próprio. Há muitos acontecimentos que o próprio afirma não se lembrar ou de ter uma ténue lembrança, no entanto e é talvez onde encontre algo a apontar a este relato, nota-se, aliás, sente-se e até se pode ler nas entrelinhas, que muita coisa ficou por contar. Embora ele afirme variadas vezes que não se recorda ou que não sabe bem como aconteceu, fiquei com a clara sensação, para não dizer a certeza, que ele omite propositadamente certos factos. A história da mulher do comandante do campo que o ajuda na fuga, está muito mal contada e claramente inacabada. Não sei se se passou algo entre eles, sinceramente não me pereceu, mas sente-se que ele a menciona porque ela foi importante na História, mas há algo que ele omite.

Depois também achei, e continuo-o a achar, muito estranho que, depois daquela fuga, não se terem iniciado buscas ou perseguições para capturar os fugitivos. Eles fogem e jamais relatam qualquer visão de qualquer perseguição. Mesmo com aquelas temperaturas, a nevar toda a noite, o que apagaria qualquer rasto que eles tivessem deixado, achei no mínimo estranho. Depois é também a aparente "facilidade" com que eles vão caminhando. Encontram sempre gente acolhedora que raramente lhes fazem perguntas. Enfim, não ponho em causa nada do relato, mas apercebi-me que existiram acontecimentos que Rawicz achou por bem não mencionar ao mundo.

Mas e mesmo com estes pequenos pormenores, esta é de facto uma viagem fantástica. Eles percorrem sítios recônditos de países longínquos, vêm gentes e seres estranhos (achei fabuloso o estranho encontro que ele têm em pleno Himalaias com duas estranhas criaturas que, segundo opinião de Rawicz, só podiam ser esse ser chamado Abominável Homem das Neves), passam fome, frio, sempre agarrados à esperança de alcançar a liberdade, sempre apoiados uns nos outros, todos como sendo um único corpo. Este é um relato comovente de amizade, coragem, dor, solidão, solidariedade, amor e fraternidade. Uma história que de certo incomoda todas aqueles que defendem e fomentam o comunismo e o fascismo e até para a própria História da Rússia, uma história que merece ser divulgada pelo mundo inteiro.

A todos que gostam de ler bons livros, a todos aqueles que gostam de fazer parte desta "família" chamada ser-humano, a todos aqueles que fomentam o amor e a solidariedade ao próximo, apenas posso aconselhar a leitura urgente deste magnífico livro. No entanto, para aquele que me incentivou a ler esta obra, deixo aqui o meu obrigado, assim como à restante comunidade livriana pelas suas excelentes dicas.

Mais Bela História da Terra (A) - André Brahie, Paul Tapponier, Lester R. Brown



Como tudo começou?
Quando olhamos para o céu, numa daquelas límpidas e escuras noites, contemplando todos aqueles pontos luminosos a que vulgarmente denominamos de estrelas, alguma vez pensaram ou sequer imaginaram, como é que tudo começou? Têm consciência da incomensurável grandeza e da tamanha e fenomenal violência que desencadeou todo esse Universo onde nos inserimos?
E por falar em nós, será o nosso planeta o único que reúne estas excepcionais condições de vida em todo o Universo? Como terá sido o processo de nascimento e consolidação do nosso planeta e dos restantes que compõem o nosso sistema? Poderá existir vida noutros planetas ou, fazendo a pergunta de outra forma, será que existem outros planetas em que as condições para o surgimento da vida sejam tão boas quanto às verificadas na Terra?
Jacques Girardon é um reputado jornalista francês, cujo trabalho está directamente ligado à Astrofísica, Biologia e Geofísica.
Para elaborar este pequeno mas fabuloso livro, convidou três cientistas que são referências dentro das suas ciências: André Brahie, astrofísico, professor na Universidade de Paris VII e director de pesquisas no CEA em Sealay. Paul Tapponier, geofísico, director do laboratório de tectónica no Instituto de Physique du Globe, em Paris e Lester R. Brown, agrónomo, fundador e director do Worldwatch Institute, em Washington.
Assim e em separado, Girardon efectuta uma entrevista com cada um deles.
O primeiro é André Brahie que disserta sobre quando e como surgiu o Sistema Solar e os Planetas; como o Universo se foi expandido; de como ainda hoje se pode “ver” vestígios dessa explosão primitiva; o Sol como sendo uma estrela inusual no Universo; Os primórdios da Terra; os principais componentes do planeta; o enigma da Lua, etc. ou seja, assente na sua ciência, Brahie segue uma linha de orientação muito coerente e clara. Começando na explicação da acumulação de energia que originou a explosão primitiva (Big Bang), ele segue sempre um rumo histórico dos acontecimentos, proporcionando no final da entrevista, uma continuação lógica, um fio condutor para que o segundo entrevistado possa continuar.
No segundo acto do planeta, a Terra já se encontra estável a nível dessas grandes e violentas convulsões. É a hora das alterações dos continentes e Oceanos. Tapponier aborda então o aparecimento dos Oceanos; a infância dos continentes; as alterações dos Pólos; a glaciação; os períodos primários da evolução do planeta.
Depois que o planeta estabilizou desse inferno primitivo, começaram a surgir os primeiros oceanos e, com eles, chegaram as primeiras formas de vida. Todo este processo desenrola-se num período de milhões de anos, ao mesmo tempo, surgem continentes que se movimentam, é o planeta em movimento, começando a compor-se para a forma actual.
Tapponier desenvolve assim a História da Terra para, no final da entrevista e conforme o seu antecessor, a deixar em suspenso de modo a que, o terceiro entrevistado, tenha um fio condutor para a continuar.
Lester Brown continua assim a narração da História do planeta, abordando a proliferação da vida desde a sua origem primitiva até aos dias de hoje, a forma como a vida modificou e continua a modificar a Terra, as florestas que surgiram e desapareceram, os dinossauros que tiveram um longuíssimo período de domínio no planeta até à sua extinção, não esquecendo de explicar o porquê dessa extinção.
Em suma: não é necessário ter-se quaisquer conhecimentos científicos para usufruir deste livro. Este livro é sim uma pequena pérola na forma fácil como explica tantas questões sobre o mundo que nos rodeia. É cativante a forma como as entrevista são dirigidas, sobretudo porque elas são orientadas de forma a formar uma História quase cronológica do planeta.
Para quem se preocupa em saber como tudo surgiu e como se desenvolveu, para quem gosta de aprender e possuir um pouco mais de cultura geral, então acreditem que este livro é de leitura obrigatória. Pessoalmente já o li por duas vezes e n vezes que o abri para ler pequenos excertos sobre determinado assunto.

Eu, Lucifer - Glen Duncan


Há livros que nos vêm para às mãos de uma forma surrealista e completamente por acaso. O livro que me proponho a opinar foi um dos tais onde uma dessas vicissitudes sucederam. Não interessa estar aqui a divagar sobre a forma como descobri o livro na biblioteca (foi tão por acaso que teria imensa dificuldade em contar), o certo é que o acabei por trazer, sabia não ser um livro de missas negras e afins, mas e talvez tenha sido isso que me seduziu: a forma como a história era descrita, pois se forem ler a sinopse, repararão que estão diante de um livro de humor negro, mordaz, irónico, talvez com episódios chocantes, enfim, um livro para descomprimir...
Posto isto e mesmo sabendo que tinha e tenho tantos livros em fila de espera, lá me lancei à leitura deste livro. Inicialmente de uma forma ávida, a meio de uma forma pausada (já ia pegando noutro que deixei a meio) e no fim de uma forma arrastada (foi um suplício acabar a leitura).
Pois bem: Senhores e senhoras, meninos e meninas ou como dizia o outro; portugueses e portuguesas, quero-vos apresentar o Demónio ou Satanás ou Lúcifer em pessoa (atenção, Belzebú não, porque trata-se da segunda figura mais importante da ordem infernal), aliás, ele quer-se apresentar, pois é ele próprio que nos conta a sua história: Uau! Que uindo! Vem a mim Satanás, pensarão alguns, enquanto os pudicos e os beatos dirão: cruzes, credo, canhoto, vai-te Demo! Bah, nunca percebi essa do canhoto, as cruzes e os credos até que passam, mas que raio têm os canhotos a ver com isto?
Então é assim: Olá malta – diz o Lúcifer - eu sou aquele que foi expulso do céu pelo Velhadas que vocês conhecem por Deus. E vai daí, sou um filho-da-mãe da pior espécie. Nem imaginam o que já fiz desde que o mundo é mundo, imaginem que certa vez até levei o Jesusito quase à loucura. É verdade, o gajo dava-me cá uns nervos, mas o tipo era duro... e Madalena que o diga... E a Eva? Xiii, que mulheraço, nossa mãe do inferno!
Lúcifer reina na terra. Comanda um bando de anjos demoníacos que, outrora como ele, pertenceram ao reino dos céus, no entanto, numa bela época há muito distante, Deus ausentou-se para criar o mundo e vai daí deixou todos os anjos sozinhos (gandas malucos). Sem nada para fazerem depressa o tédio começou a instalar-se e Lúcifer, encabeçando um grupo que se revoltou contra este estado de coisas, acabou por fazer algumas coisitas que chegaram aos ouvidos de Deus e é assim que Lúcifer é expulso daqueles reinos. Sem espinhas, pois Deus não é cá para brincadeiras, Ele gosta é de tudo sisudo e de aspecto muito sério. MAIS NADA! E TOCA A AJOELHAR!
Boa, agora ate já havia animais na terra e imagine-se, Deus havia criado um grande jardim onde habitavam dois seres humanos, Adão e Eva... oh Eva, aquela desenvergonhada...
Já podem ver que género de livro é.
Mas e nos dias de hoje, Lúcifer recebe a visita de um anjo muito importante (não me recordo se é Rafael ou Miguel) que afirmam serem portadores de uma importante mensagem de Deus: Deus está pronto a dar uma nova oportunidade de redenção a Lúcifer, com a condição de ele ocupar o corpo de um ser humano durante um mês e, nesse mês, viver e sentir como essa pessoa, como qualquer pessoa, ou seja, deixar aquele estado angélico, omnipresente, e viver e sentir como um comum mortal. Se ele for capaz de se comportar conforme o estipulado, então Deus recebe-o de braços abertos e manda às malvas todas as maldades de Satanás.
Lúcifer rejubila: "O velhadas passou-se!", e vendo aquela hipótese como um género de férias à pala, ele acaba por aceitar e incorpora um corpo de um jovem escritor falhado que está prestes a cometer suicídio e, agindo como essa pessoa, acaba por escrever um livro que é nada mais nada menos que a própria história de Satanás. Aliás nem é bem assim, porque o que ele vai descrevendo é um género da história da criação ao estilo hollywoodesco, para posteriormente tentar adaptá-lo a um guião.
Neste livro, escrito realmente num tom irónico e mordaz, o escritor elabora uma nova narrativa de muitos acontecimentos bíblicos e históricos: Adão e Eva e o paraíso; A forma como Deus criou o mundo; O porquê da sua revolta; A tentação de Jesus no deserto (Jesusito segundo ele); O regime nazi; A inquisição; Seitas.
Mas eu não gostei.
É um livro que divaga imenso entre a ideia do bem e do mal. Lúcifer, mostra-se um "ser" mordaz e irónico. Demonstra que a sua natureza não é maléfica e que a fama que tem apenas se deve a mal entendidos, ou, vá lá, a alguns mal entendidos, pronto, a poucos mal entendidos e a acusações injustas. Explica o porquê da sua revolta e, achando injusto ter sido expulso do céu, resolver empreender todo um comportamento e práticas que vão em sentido contrário às prática de Deus, no entanto é ele próprio que nos vais colocando questões morais que põem, propositadamente, essa bondade de Deus em causa. É um livro que tem um início verdadeiramente empolgante mas que, com o desenrolar da história, vai perdendo interesse, pois torna-se repetitivo, os diálogos e monólogos não nos levam a lado nenhum e no meio de isto tudo existe algo que me decepcionou, imaginem, o comportamento de Lúcifer é terrivelmente pacífico, nada condizente com a sua fama (chega até a levar uma carga de porrada). E eu a pensar que o livro estaria povoado por acontecimentos sangrentos e macabros, transbordando de orgias, deparo-me com um livro sonsinho que faria corar qualquer ser angélico da hoste de Deus. Amém!
No entanto existe um grande contra-senso, é que o livro está recheado de palavrões, a maior parte deles colocados forçosamente e sem qualquer tipo de lógica, no entanto eles estão lá, parecendo que o escritor não teve coragem de evocar acontecimentos mais fortes, mais chocantes, encontrando nos palavrões a única coisa que poderia chocar... pois, ai que inocente o menino é.
Claro que a história acaba por se ler, nem que seja para seguir o comportamento do senhor das trevas enquanto simples mortal, no entanto e embora a crítica britânica tenha feito excelentes críticas sobre este livro e sobre este autor, a mim, não me convenceu e até digo mais, pareceu-me que ele quis imitar o estilo de Ervine Welsh, brilhante escritor escocês autor de livros como "Trainspotting", "Ectasy", "Lixo" ou "Porno", no entanto, fica muito, mas mesmo muito aquém do talento de Welsh.

Não há lugar para divorciadas - Francisco Moita Flores



Francisco Moita Flores, ex-criminologista e actual Presidente da Câmara de Santarém, é um profícuo escritor, dono de uma já admirável bibliografia da qual destaco o seu último romance “A Fúria das Vinhas”.

Admirador do seu trabalho foi com surpresa que me deparei com este título “Não há lugar para divorciadas”, livro publicado em 2003 e que, pareceu-me, é uma espécie de ensaio da sua própria escrita.

A história passa-se em Lisboa trinta anos no futuro a partir do momento em que começar a ler pois, como o autor refere, estes acontecimentos são iguais quer daqui a 30 anos, quer 30 anos após esses 30 anos...

Como facilmente se constata, o livro é imensamente irônico e mordaz, levando facilmente às gargalhadas tal a paródia corrosiva que Moita Flores constrói.

A premissa é básica: mostrar como um mentecapto da nossa sociedade chega a ministro. E isso é algo bastante comum.

Leônidas Tábuas que arranja Távora como nome artístico (ficava mal um político chamar-se Leônidas Tábuas), um “Zé ninguém” que foge da sua aldeia acusado de vender droga e roubar galinhas, vê-se, com 30 anos, atrás de um balcão no bar de um partido político.

Como foi lá parar?

Vivendo de trabalhos esporádicos, Leônidas é convidado por uns amigos para colar cartazes a troco de bom dinheiro. Vendo que era trabalho fácil, Leônidas decide filiar-se no partido, pois os prosélitos do partido tinham sempre a primazia para este tipo de trabalho e havia que aproveitar.

No entanto, sem saber bem como, acaba por conseguir trabalho no bar do partido onde tudo se ouve e tudo se sabe, condição sine qua non para se construir uma carreira política de sucesso.

De influência em influência, o imbecil do Leônidas consegue chegar a deputado de última fila, local onde se metem os imbecis sem opinião e que nunca abrem a boca. Porém não se fica por aqui e consegue chegar a ministro...

Moita Flores escreveu este livro, repito, em 2003, logo, longe de imaginar que um dia seria político. Porém, ele expõe ao ridículo a política e a vaga de interesses que a varre, assim como os motivos que a grande maioria (aí uns 99%) dos políticos tem.

Opinando de uma forma muito objectiva sobre os meandros da política e dos partidos (chega a dizer que na política os inimigos são aqueles que estão dentro do partido, pois são esses que querem o lugar que agora ocupas) e até da influência e interesses da comunicação social, caracteriza de uma forma corrosiva o político comum: um ser estúpido, intelectualmente incapaz, lambe botas, supérfluo, preguiçoso, demagogo, apenas interessado no dinheiro e no poder.

Inclusivamente é corrosivo nalgumas indirectas que vai distribuindo, como por exemplo, quando refere o caso de um capitão que na guerra roubava batatas para vender e que ainda foi promovido a major... penso que todos sabem a quem se destina tal farpa.

Caracteriza também um futuro onde a obcessão pela Al-Qaeda é paranóica, num mundo supervisionado pelos norte-americanos que tal como um big brother, tudo vêm e tudo controlam.

É um livro delicioso, de leitura muito fácil (li-o em pouco mais de 3 horas), sem uma grande construção literária, pois aqui a idéia é mostrar o ridículo, a banalidade, a hipocrisia e a superfluidade dos políticos.

Quer seja agora, quer seja dentro de 30, 40, 50 ou 60 anos.

Mudam apenas as moscas.

Há dúvidas?


Excertos:

”- E o seu genro? Se o senhor não quer ser ministro de Estado, eu insisto para que o seu genro entre neste Governo”.
- Dá-me jeito. O tipo é um sorvedouro de dinheiro e a minha filha vai ficar contente.
- E pensar numa pasta para ele?
- Dá-lhe uma dessas pastas para imbecis. Sei lá, o Desporto, a Educação.
- Para a Educação estava a pensar no Fernandes. Não é estúpido mas é um grande mentiroso. E quando ao Desporto, não sei se é um bom futuro para a sua família.
- Não?
- Como os dirigentes que temos no futebol, precisamos de um ministro igual a eles para que se entendam. Alguém que seja analfabeto, suficientemente ordinário, que goste de contar anedotas, de almoçaradas, que arrote sonoramente e putanheiro. Para alem de tudo isto, é bom que se deixe corromper barato porque senão custa-nos uma fortuna!”




“- Uma espécie rara senhor almirante. Vive da treta, odeia o trabalho e vive da treta. Uma língua alcoolizada, uma imaginação prodigiosa, uma capacidade excepcional para a preguiça e, apesar de profundamente ignorante, fala todas as línguas que o engenho exija e disserta sobre qualquer assunto com mais convicção do que um acadêmico letrado.
- Está a falar dos portugueses.- Não. Estou a falar dos portugueses refinados. O verdadeiro chulo adora mulheres, sobretudo para lhe passarem a roupa e apertarem os cordões dos sapatos, anseia por uma boa briga, pela-se pela intrigalhada, embebeda-se diáriamente, nunca trabalha, aliás, odeia quem trabalha, e é o rei da inveja. A inveja é um pecado português, sabia?”

domingo, 14 de outubro de 2007

Lolita - Nabokov

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade, meu pecado, minha alma. Lo-li-ta".

Assim se inicia um dos romances mais polémicos de sempre e aquele que marcou toda a carreira literária de Vladimir Nabokov.

Nabokov nasceu em 1899 na cidade russa de San Petersburgo no seio da aristocracia. Em 1919, devido à Revoilução Bolchevique, a sua família é obrigada a abandonar a Rússia, refugiando-se em Inglaterra. Nabokov matricula-se então na famosa universidade de Cambridge onde se licencia em 1922 em literatura russa e francesa. A partir daí, Nabokov saltita de lugar para lugar. Primeiro Berlim, depois Paris e em 1940 e para fugir aos nazis, parte para os Estados Unidos da América, onde se dedica a leccionar literatura russa, além de trabalhar em tradução de livros e no departamento de entomologia de Harvard.

Profundamente pedante, chegando mesmo a afirmar: "penso como um génio, escrevo como um autor distinto e falo como uma criança", Nabokov desprezava escritores que, segundo ele, escreviam literatura ideológica e politicamente correcta. Assim odiava escritores como Thomas Mann, Balzac, Dostoievski, Gorki e Kafka, dizendo insolentemente deste último que a sua obra "Metamorfose" era um excelente livro de dissecação de insectos... Em suma, tinha fama de misantropo, a mania da superioridade e era completamente intratável, ou seja, e digo eu, era um completo Palhaço!

E pergunto: Como é que este senhor consegue escrever uma obra que é considerada como um dos clássicos da literatura?

Mas após a leitura deste livro, entendi porquê.

Como classificar Lolita? Narrado em jeito de memórias, uma forma que torna sempre uma história credível, "Lolita" é uma trágica confissão de Humbert Humbert, o protagonista-narrador, que na prisão e antes de enfrentar um julgamento por homicídio, resolve contar as suas memórias em relação ao grande amor da sua vida. Narrado sempre na primeira pessoa, "Lolita" é um conto chocante que descreve os pensamentos e acções de um pedófilo.

Humbert é um pedófilo. Tem 42 anos, europeu, professor de literatura inglesa que, depois de algumas aventuras amorosas na Europa, chega à América com o intuito de apagar o seu passado no velho continente. Acaba por se instalar numa pequena cidade onde aluga um quarto em casa de uma viúva quarentona chamada Charlotte Haze, que tem uma filha ainda criança: Lolita, 12 anos.

Nessa altura e devido aos seus pensamentos, apercebemo-nos que Humbert gosta de crianças a quem ele chama de ninfetas e percebemos, dentro do possível, o porquê dessa paranóia.

Mas Humbert começa a desejar Lolita, pensamentos libidinosos começam a percorrer a sua mente. Só pensa nela e imagina-se já envolvido com ela. Posteriormente Humbert apercebe-se duma inclinação de Mrs. Haze em relação a ele e, é precisamente através desse casamento que ele se aproxima de vez de Lolita, pois passa a ter “poderes” sobre ela enquanto padrasto.

A narrativa segue o seu pervertido rumo com alguma sensualidade e humor, no entanto o tomo é sempre chocante, a paixão de Humbert é avassaladora, doentia, obsessiva. É curioso o pormenor com que Nabokov analisa a mente de Humbert. Ele efectua um exame profundo da mente do pedófilo, inquietando-nos com o que extraí, as conclusões vai-nos chocando, ferindo e é impressionante o seguinte contra-senso: tem a capacidade de nos convencer que a pedófilia pode não ser tão aberrante, tão doentia como podemos julgar, podendo mesmo ser uma forma de amor. É impressionante mas é verdade. Nabokov joga literalmente connosco, com os nossos preconceitos, com os nossos medos e, depois de entregar o jogo, volta a tirar as cartas e baralha novamente. Repara-se que ele atinge o auge do chocante e do aberrante quando descreve os diários e sucessivos abusos (quase violações) de Humbert a Lolita, [que diga-se também de passagem, não era nenhuma ingénua "colegial" de 12 anos] Humbert deseja até engravidar Lolita para que pudesse dar à luz uma ninfeta, para, obviamente, futuro deleite de Humbert. É asqueroso! Mas depois Nabokov dá completamente a volta a este sentimento.

Mas será "Lolita" um simples livro erótico, pedófilo, pornográfico ou psicológico?

Claro que não!

Este livro é escrito com um objectivo.

Nabokov (um autêntico palhaço) odiava Freud (o homem devia odiar toda a gente), considerava-o um bacoco primitivo que falava por clichés e sem pingo de inteligência. Assim criticava a psicanálise e a psicologia e este livro é simplesmente uma paródia a estas duas ciências. No livro, Humbert (Nabokov) goza com os psicólogos, indo ao ponto de afirmar que inventava sonhos para os psicólogos descodificarem. A forma como Humbert vai narrando os acontecimentos, os seus impulsos sexuais, a sua obsessão por crianças, é notoriamente uma paródia a Freud e à sua psicanálise. Existem também uma série de enigmas presentes em todo o texto, assim como frases com segundo sentido. No romance surge uma personagem feminina que se chama Vivian Darkbloom que é um anagrama de Vladimir Nabokov, ou seja, um autêntico jogo criado por alguém que era mestre de xadrez e que pretendeu fazer deste livro um género de quebra-cabeças. E repare-se que afirmo que isto pelo que fui lendo sobre a obra, porque eu próprio não dei conta de alguns pormenores que afirmam estarem lá colocados estrategicamente.

Independentemente de quaisquer considerações sobre esta obra, independentemente daqueles que afirmam ser este livro uma obra de arte escrito de uma forma genial, eu vejo-o como um livro onde um escritor arrogante brinca e manipula, brilhantemente é um facto, o leitor. Um livro onde o escritor mandas às malvas simples regras éticas e humanas, descrevendo a mente nojenta de um pedófilo com uma finalidade objectiva: Chocar e achincalhar outros personagens destacados doa sociedade da altura.
Por isso, para mim, Nabokov foi um palhaço!

Mulheres do Meu Pai (As) - José Eduardo Agualusa

Por ocasião da morte da mãe, Laurentina, prosaica mulher portuguesa, descobre que aqueles que a criaram não são os seus verdadeiros pais e que é filha de um famoso músico angolano chamado Faustino Manso.

Empreende então uma viagem a Angola acabando por chegar precisamente no dia do funeral de Faustino.

Realizadora de cinema, Laurentina resolve abraçar a sugestão de um dos seus sobrinhos e dá início a um périplo por todos os locais por onde passou Faustino Manso a fim de realizar um documentário sobre o músico.

Saindo de Luanda até Benguela, Namíbe, África do Sul, Maputo, Quilimane e Ilha de Moçambique, Laurentina traça um roteiro que lhe permitirá reconstruir a história do seu pai e, sobretudo, as paisagens e culturas tão diferentes.

E é aqui que o livro resplandece beleza.

As diversas culturas entrelaçam-se nas várias personagens que surgem. A narração poética de Agualusa consegue-nos transmitir o exótico daqueles países, faz-nos ter vontade de conhecer aqueles personagens e realizar-mos, nós próprios, essa espécie de road-movie que Laurentina efectua.

No entanto, nem tudo o que parece é, e Laurentina descobre factos muitos interessantes sobre Faustino.

Gostei imenso do livro.

As descrições de Agualusa sobre essas culturas transmitem alegria e naturalidade. A expressão das relações promiscuas, que é ancestral, está bem vincada e achei curioso a forma como Agualusa contrapõe ou, diria, equivale ao comportamento verificado hoje em dia por grande parte dos jovens portugueses. Não será esse comportamento importando a essas gentes africanas e à sua cultura, tão diferente da portuguesa? Até porque Laurentina representa uma faixa, minoritária é certo, de jovens portugueses: Nascida em Portugal, mas com fortes laços culturais com essa África.

Quanto à escrita de Agualusa, é poética, descreve na perfeição sítios e lugares, transmitindo várias das chagas que abundam em África (e não só) e a alegria e despreocupação em que vivem os autóctones daquelas regiões. Não é tão corrosivo como outro célebre autor angolano, mas deixa entender, embora ao de leve, crítica sociais ao pós independência como também ao papel dos colonos portugueses.
Interessante a leve referência ao aparthaide, assunto que talvez merecesse uma abordagem mais ampla, mas não no contexto deste livro.

Fogueiras de Deus (As) - Patricia Anthony

Patrícia Anthony é norte-americana, mas fruto do seu casamento veio viver para Portugal em 1969 tendo ficado no nosso país vários anos que a marcaram profundamente ao ponto de com “As Fogueiras de Deus” efectuar uma homenagem a Portugal.

Embora com fortes laivos de romance histórico, este livro aproxima-se mais do gênero fantástico, uma espécie de mistura entre histórico, fantástico e ficção científica, mas e em relação a este último com um grau menor.

A acção situa-se entre 1666 e 1667 no reinado de D. Afonso VI.

D. Afonso era o segundo filho de D. João IV e não havia sido preparado para ser rei, posição destinada ao seu irmão mais velho, o Príncipe D. Teodósio, que, no entanto, viria a falecer aos 19 anos.

D. Afonso fica então em linha directa na sucessão de D. João IV, porém D. Afonso, que com 3 anos é atingido por uma febre maligna que lhe rouba as capacidades mentais, não é capaz de governar, comportando-se como uma criança. Uma das páginas negras da História de Portugal.

No entanto Portugal vivia sob o jugo da “Santa Inquisição” que com mão de ferro manipulava e observava tudo, impondo um clima de terror em todos os sectores da vida portuguesa (no resto da Europa igualmente).

Foi tempos de obscuridade que muitos vultos tentaram combater (exp: Galileu), mas sempre impedidos, ameaçados e acusados de heresia, arriscando a morrer nas fogueiras (e tantos assim sucumbiram). Tempos maléficos para a humanidade que impediram o desenvolvimento científico e cultural. Imagino a quantidade de informação que foi destruída e aqueles que foram impedidos de explanar os seus pensamentos (a Inquisição em Portugal vai durar até 1821, impressionante).

É neste contexto sócio-religioso que a acção se situa.

Num povoado perto de Mafra (Patrícia escolhe precisamente o Portugal profundo, rural, analfabeto, extremamente religioso e muito supersticioso), o padre inquisidor Manoel Pessoa, houve estranhas confissões que narram inexplicáveis luzes no céu e na presença, a fim de copularem com mulheres terrestres, de seres cobertos de luz que o povo julga serem anjos.

Ciente que os anjos não existem, o padre Manoel inicia uma investigação para tentar perceber o que se anda a passar, pois ele está convencido que o pecado da fornicação é o culpado pelas fantasias dos homens de luz, até porque ele próprio não é nenhuma alma santa e tem dificuldades em manter a braguilha fechada.

Em simultâneo, na corte em Lisboa, D. Afonso, que anda ali não se sabe bem a fazer o quê, vive num mundo de fantasia cavaleiresca, rodeado de moinhos de vento queixotescos, não se apercebendo das intrigas que o rodeiam nem das movimentações que o seu irmão, D. Pedro, inicia.

É precisamente quando sai atrás do irmão, que julga ter ido descansar para Mafra, que o rei e os cavaleiros que o acompanham, passam pelo povoado , e mesmo numa altura em que outro fantástico acontecimento se dá: a queda de um óvni.

Gostei do livro até certo ponto e é curioso que este livro pode ser dividido e até lido sob duas perspectivas.

Gostei imenso da descrição da época e do modo de viver, sobretudo gostei da forma como a escritora explora a superstição e os influentes tentáculos da inquisição. Ela de facto consegue descrever a teia de interesses e influências da corte e a forma como a igreja mandava e se sobrepunha a tudo e todos. Porém quando entra na fase do fantástico, em minha opinião, retira interesse e até seriedade.

Até certo ponto pensei, até ao fim do livro, que a história dos óvnis e dos extraterrestres fosse uma metáfora acerca do obscurantismo da época imposto pelas garras da Inquisição. Até se lê bem nessa perspectiva e é nessa perspectiva que eu aconselho o livro. Porém no fim do livro surge o Posfácio da autora onde ela assume a intenção da alusão aos óvnis ser mesmo sobre óvnis e vida extraterrestre, indo até mais longe ao referir ter tido, em diversas ocasiões, visões de objectos estranhos.

Respeito, mas nessa perspectiva, não apreciei a mescla deste livro.

Obviamente que interessa a muito boa gente, mas admito não ser o meu estilo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami

Em “Kafka à beira-mar” a história de um jovem de 15 anos que foge de casa interliga-se com a história de um velho cuja vida foi toda ela marcada por um estranho acontecimento na sua juventude que lhe retirou a capacidade de inteligência.

Ao longo destas duas histórias interligadas por pontos comuns que se vão fortalecendo ao longo do livro, Kafka Tamura, o rapaz de 15 anos, inicia a descoberta do seu Eu e consequentemente da sua sexualidade e do seu passado. Abandonado pela mãe quando tinha 4 anos, Kafka fica a viver com um pai ausente, criando assim um carácter hermético, habitando num mundo paralelo onde o seu único amigo é um rapaz chamado Corvo que serve também de consciência.

Nakata é alguém que vive num plano paralelo à sociedade. Vítima ainda em criança de um estranho acontecimento durante a 2ª Guerra Mundial que nunca ficou clarificado, Nakata perde aí a inteligência ao ponto de nem sequer saber ler. Com uma mente vazia, Nakata, porém, tem outras capacidades estranhas, como por exemplo falar com os gatos.

É pois estes dois personagens que servem de contraponto para a construção de um mundo absolutamente fantástico (na verdadeira acepção da palavra) que serve também como metáfora de variadíssimas sensações humanas como a solidão, a amizade, o ódio, a angústia, o amor, a luxúria e capacidade de compreender e ter compaixão pelo semelhante.

Não é um romance fácil de ler nem sequer daqueles livros que cativam pela história. Todavia é um livro com um estranho efeito magnetizador. Agarra-nos. A escrita é extremamente inteligente. O autor cria um início alicerçado na angústia de uma criança que foge do seu presente para tentar descobrir o seu passado. E começa então o desenrolar do fio de um argumento num estilo poético, diria mesmo clássico, ou seja, passei todo o livro com a sensação de estar na presença de uma composição de Beethoven, Mozart ou Hyden, sobretudo porque as palavras fluem como um sonho, como uma pauta musical que flutua na nossa imaginação.

Uma gigantesca metáfora de sensações e também de analogias a factos históricos do Japão com vários pontos cheios de ironia sobre uma sociedade que, parece, tende a esquecer o seu passado.

Para se apreciar o livro, pese embora admita que é um pouco extenso, impõe-se um espírito aberto, uma motivação para o estilo e uma total dedicação à obra, pois, para além de estar repleto de enigmas e de pontas soltas que, pouco a pouco, se vão juntando, é ele também um romance bastante longe do arquétipo de um outro romance. Reminiscências, a meu ver, talvez apenas com a “Margarita e o Mestre” de Bulgakov.

Já agora espreitem o site do Murakami... fantástico.

domingo, 7 de outubro de 2007

Hussardo (O) - Artur Pérez-Reverte

Um livro extraordinário

Desconhecia por completo a obra do espanhol Pérez.Reverte, no entanto este livro espicaçou ainda mais a minha curiosidade acerca do autor, sobretudo na forma como fui arrebatado por esta narrativa.

“O Hussardo” é um livro pequeno que se lê em cerca de 3 horas, que situa a acção em 1808 na Andaluzia aquando da invasão do exército de Napoleão a Espanha. A acção temporal é apenas uma noite e um dia, porém 24 horas “n” situações acontecem, sobretudo no que concerne à psique humana e à atitude face à guerra.

Mas vamos por partes.

Frederic Glüntz, jovem alferes do regimento de Cavalaria de Hussardos de Napoleão prepara-se, orgulhosamente, para a sua primeira batalha.

Cheio de ideias e imagens românticas de valentia e honra, Glüntz apoia-se nos ensinamentos recebidos na escola militar e na utópica ideia da invencibilidade do destacamento de Hussardos e do endeusamento de Napoleão. Até porque, e isso é importante referi-lo porque vai influenciar a prestação de todo o exército, há uma imensa falta de respeito pelos guerrilheiros indígenas. Tudo isto por volta de 1808, 4ª invasão francesa, e já num altura em que os espanhóis se começam a revoltar, depois de anos aliados aos franceses, sendo estes dois países responsáveis pelas invasões a Portugal e pela destruição, mortes e roubos que provocaram. É nessa altura que Olivença é usurpada por Espanha e milhares de obras-de-arte são roubadas pelos espanhóis e franceses, algumas das quais ainda hoje se podem ver nos museus do Prado e do louvre. Mas isso são outras contas, e não resisti a situar os acontecimentos neste livro numa época que tanto tocou a Portugal.

Logo, li este livro sem grandes paixões por qualquer lado. Embora admira a Revolução Francesa, não sou um admirador de Napoleão, um assassino, um ditador ai nível de Hitler, Mussolini ou Estaline.

Mas continuemos.

Sedentos de sangue, Glüntz cria uma imagem da guerra assente em contos heróicos, imaginado-se a carregar nos aterrorizados guerrilheiros espanhóis, coroando-se de glória e olhares apaixonados das mademoaiselles.

Porém, e na segunda parte do livro, Glüntz, já no clamor insano da batalha, apercebe-se da realidade nua e crua, no terror e insanidade da guerra que o conduzirá a uma profunda reflexão sobre a morte e o sentido da vida, de todos os valores que, romanticamente, levaram milhares de jovens a combater por algo quimérico.

Face à crueldade da guerra, descrita de uma forma brilhante por Reverte, Glüntz percebe a ilusão da sua vida e da incoerência de tudo aquilo para, no fim, aperceber-se também o quanto enganado estava acerca da valia dos guerrilheiros, supostamente cobardes e sem treino militar.

Em poucas páginas Reverte retracta assombrosamente algumas das mais elementares razões humanas: a sobrevivência e o medo diante da insensatez da guerra.
Um livro excelente!

sábado, 6 de outubro de 2007

Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo

À Tolerância e à Amizade.
"Olhai os Lírios do Campo" era um dos clássicos que há muito estava na minha agenda, no entanto era um "daqueles" que vai ficando sempre no lote das segundas opções, mas, certo dia em que analisava qual o seguinte livro a ler, uma vozinha interior, qual bruma que avança suave, afagando-nos a alma, segredou-me o nome desta obra e acreditem que depois de a ter lido, considero-a como uma das melhores revelações da minha vida no campo literário e humano.
Escrito entre 1936 e 1938 por Érico Veríssimo, escritor que tinha uma imensa paixão por Portugal, o romance divide-se claramente em duas partes:
Na Primeira Parte, construída essencialmente por flashbacks, Eugénio Fontes, o personagem central, recebe uma chamada do hospital comunicando-lhe o mau estado de saúde da sua amiga Olívia. Dirige-se então ao hospital que dista 3 horas de distância e é nesse período que recorda a sua triste e amarga infância. Uma infância marcada pela humilhação da sua condição social, pela vergonha que tem da sua família, a figura do seu pai que tem um comportamento subserviente com os outros e que tanto irrita Eugénio, pela miséria, por um sentimento de ódio contra tudo aquilo e o desejo obsessivo de pertencer à classe alta. No entanto é devido ao enorme sacrifício dos seus pais, sacrifício esse que irá arruinar o futuro do irmão, que Eugénio consegue estudar e entrar na faculdade de medicina, e é aí, na noite da sua formatura, que se relaciona mais intimamente com Olívia, sua colega de faculdade que, tal como ele, vem de famílias humildes.
Nesta parte, Veríssimo personifica claramente o sentimento de vergonha, humilhação e desejo de subir na vida a qualquer custo. Na minha óptica e tendo em conta a sociedade brasileira da década de 30, Veríssimo faz uma crítica feroz e corrosiva a essa sociedade fútil, vazia, ridícula, desumana e hipócrita. Isso é claro no comportamento de Eugénio e o facto de ele se "vender" para subir na vida e para pertencer a essa tal classe alta, mais consolida essa interpretação.
Na Segunda Parte, passada no presente e depois de ter sabido notícias de Olívia, surge nova metamorfose emocional em Eugénio. A primeira metamorfose pode-se considerar o facto de ele sendo pobre, tendo raízes modestas, tenta a todo o custo fazer-se rico e fino. Agora, nova metamorfose mas em sentido inverso, regressando novamente às suas raízes. Eugénio, que no presente é rico, casado com uma mulher que não ama (casou por interesse e admiti-o desde o princípio) e tendo uma amante ainda mais fútil que a sua mulher, finalmente dá "ouvidos" à sua consciência e, assente no amor ao próximo, amor à vida e às coisas simples, consegue ver que a riqueza não lhe dá felicidade, que só com as coisas simples ele consegue ser ele próprio.
Eugénio acaba por ter uma filha de Olívia (que só consegue adormecer com a sua mãozinha na orelha do pai, por isso a título da presente opinião) e nesse acontecimento, Eugénio vê a "luz" que lhe alumia o caminho da felicidade. Finalmente os seus receios desaparecem, os complexos que tinha desde pequeno são vencidos e encontra o amor e a paz na sua filhinha e na natureza que o rodeia.
É um romance que foca a solidão humana mas é também um romance profundamente enternecedor, deliciosamente belo e magnificamente terno. A mensagem de Érico Veríssimo é simples mas poderosa e marcante: O apelo à solidariedade, à criação de um mundo melhor que depende de nós próprios, à tolerância com o próximo, à descoberta de prazeres simples que nos rodeiam diariamente, ao riso das crianças, ao som da natureza, à própria vida.
A personagem de Ana Maria, a filha de Eugénio, comoveu-me profundamente. Veríssimo soube personalizar naquela criança a inocência de todas as crianças e é arrepiante quando Eugénio tem que responder a determinadas questões da filha que, com aquela vozinha infantil, o questiona sobre um trágico acontecimento. Acreditem, dói imaginar aquele cenário.
Gostei muito da personagem de Olívia, talvez a personagem com o carácter mais forte em toda a obra. De uma grandeza moral e humana ímpar, ela incorpora o próprio escritor e é ela o verdadeiro contraponto do romance.
Enfim, sinto que já contei demais, mas acreditem que este é um dos melhores e mais intensos livros que li até à data, um livro que me lavou a alma, que me fez sorrir para logo a seguir comover-me profundamente.
"Saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu. Há na terra um grande trabalho a realizar. É a tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência, mas sim com as do amor e da persuasão. Quando falo em conquista, quero dizer conquista de uma situação digna para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação. Através do AMOR..."
Esta citação simboliza a essência do romance. É magnífico!

David Copperfield - Charles Dickens

Publicado por fases entre Maio de 1849 e Novembro de 1850, "David Copperfield" é a grande obra de Charles Dickens, pelo menos é aquela que o autor mais tempo dedicou, não se cansando de afirmar ser esta a sua obra preferida.
Publicado numa altura em que Dickens era já um escritor consagrado, "David Copperfield" narra a história de um menino, orfão de pai, que vive com a sua mãe e uma criada que o mimam com carinho e atenção e que, de repente, vê a sua vida levar uma volta de 360º quando a mãe casa com um homem mais velho. No entanto não é só o surgimento desse homem que vai alterar o seu quotidiano, esse homem, austero e crente que as crianças deviam ser educadas num ambiente austero e muito rígido, acaba por convidar a sua irmã para ir viver com eles e é a partir daí que a vida de David se torna um autêntico pesadelo, sempre com o consentimento da mãe, completamente "amordaçada" pelo marido, vivendo num clima de medo e submissão não só ao esposo como e principalmente à irmã deste. Assim, oprimido, espancado e aprisionado, David tenta superar esses traumas através da leitura compulsiva dos velhos livros do seu pai, tornando-se então conhecedor de dezenas de histórias que, posteriormente, lhe vão permitir uma relativa distinção junto dos seus colegas num colégio interno onde acaba por ser internado, ou antes aprisionado.
É uma obra muito vasta que, pessoalmente, divido em três partes:
-1ª Parte: A infância difícil e traumática de David (referida no parágrafo anterior);
-2ª Parte: inicia-se quando David Copperfield é acolhido (adoptado) pela sua tia-avó paterna;
-3ª Parte, é a narração da vida adulta, profissional e os amores de David.
Como podem constatar, esta é uma obra que abrange quase toda a existência de David Copperfield e, em simultâneo, uma época da sociedade londrina que permite a Dickens efectuar várias análises.
Da história prefiro não contar mais. Não gosto, nas minhas opiniões, de aprofundar muito o enredo, porque simplesmente considero que ao faze-lo posso estar a desmotivar o leitor a ler a obra, gosto antes de dar umas luzes, ou como gosto de dizer, de "picar" o leitor.
Assim sendo, passo à análise da obra.
Como já afirmei, Dickens considerava esta a sua obra preferida e a razão é porque esta obra foi baseada na sua vida, ou seja, é um enredo escrito com base nele próprio e na sua família, uma autobiografia.
Dickens foi um mestre na arte narrativa e na forma sublime como criou tantos personagens, sabendo-lhe dar vida e imortalidade. Em "David Copperfield", Dickens cria uma série de personagens que, dadas as suas características marcantes, ficam na memória de quem lê o livro. Para além de David Copperfield, temos o simpático e cortês Mr. Micawber (claramente baseada no pai de Dickens) que com a sua mulher, serão protagonistas de momentos deliciosos; o falso e arrogante Huriah Heep, personagem odiosa (representa os agiotas tão em voga naquela época); a bondosa Mrs. Peggoty, a ama de David que o acompanhará desde sempre; a velha tia de David, das personagens mais importantes; Mr. Murdstone e sua maléfica irmã; a bela Emily, primeiro amor de Copperfield, Agnes; Dora; e muitos outros.
Obra escrita, segundo o próprio Dickens, para ser emocionalmente sentida, é impossível não se fazer análises à narrativa de Dickens.
Primeiro é que esta obra reflecte a infância de Dickens, que oriundo de uma família modesta, vê-se obrigado, ainda em criança, a trabalhar numa fábrica de betume depois do seu pai ter sido preso por dívidas. Acaba por completar os estudos mínimos e emprega-se num escritório de advogados, sendo sensivelmente nessa época que se inicia no mundo do jornalismo, até que aos 26 anos o sucesso surge de rompante devido à publicação do seu primeiro livro "The Pickwick papers", engraçado que todo este percurso está, de um modo geral, bem representado na obra. Redimindo-se de tantas misérias, Dickens dedica a sua vida à escrita, tecendo frequentemente, nos seus romances, críticas mordazes aos ricos e poderosos, aliando nas suas narrativas um tom idealista e sentimental, descrevendo as vidas difíceis e miseráveis dos pobres e oprimidos, tentando assim comover e sensibilizar aqueles que o liam. Neste livro ele fá-lo e este livro é um espelho desse percurso.
Ler Dickens é fácil e agradável. Este livro, embora volumoso, narra não só uma história tocante, como também dá-nos uma imagem nítida da época e de uma sociedade há muito desaparecida. Uma sociedade vitoriana cheia de vícios e misérias, mas também com muitas virtudes. No entanto e embora seja um deleite ler este livro, julgo que ele contém alguns momentos com pouco interesse. Existem partes muito monótonas que trazem pouco ao desenvolvimento da história, dá a clara sensação que Dickens queria escrever mais, parecendo até que não se queria separar da história, que não a queria terminar. Também fiquei algo decepcionado como Dickens trata os austeros Mr. e Mrs. Murdstone.
Um excelente romance, aqui e ali com motivos de pouco interesse, mas que não chegam para não o considerar como um clássico da literatura universal. Uma história comovente que tem o condão de enternecer e de nos envolver num manto de solidariedade.

Natal do sr. Scrooge (O) - Charles Dickens

Scrooge. – Disparate! Feliz Natal? Que razões tens para te sentires feliz? És pobre!..."
Há muitos anos que esta passagem me acompanha assim como a obra de Charles Dickens. Não que tenha alguma beleza literária, mas apenas porque, para mim, significa a beleza do Natal e o imenso significado que ele tem. Independentemente do consumismo e da hipocrisia que reina nessa época, o Natal, na sua génese, antecede a era cristã em cerca de 2.000 anos. Claro que não se festejava como actualmente, mas na época em causa, na antiga Mesopotâmia, realizavam-se festejos populares onde se comemorava o solísticio de inverno e, nessas festas pagãs, já existia o ritual das árvores iluminadas por muitas velas e ofereciam-se objectos uns aos outros como sinal de amizade e paz.
Claro que o cristianismo usurpou toda esta tradição, sendo, hoje em dia o Natal uma festa cristã onde se celebra o nascimento de Cristo e as prendas um ritual que celebra os reis magos.
Assim o Natal, originalmente, representava a época onde se festejava a natureza e a paz com a família e os amigos, e é assim que fui educado e é assim que educo e que gosto de ver e sentir o Natal, talvez a época do ano mais importante para mim. Desde criança que a minha família cultivou esse amor e não é por acaso que grande parte das minhas recordações de infância têm em comum o Natal.
Mas tudo isto porque pretendo exprimir o fascínio que para mim representa essa época: os sons, as cores, os cheiros, tudo característico e que me transporta à minha infância e que me traz doces recordações familiares.
Em 1843, o Natal era visto, em todo o mundo cristão, como uma festa religiosa com muito pouca festividade, pelo menos sem a festividade que hoje se conhece. Até que nesse ano, um senhor chamado Charles Dickens, publica um conto, pago inteiramente do seu bolso, intitulado O Natal do sr. Scrooge, publicado na semana anterior ao Natal de 1843. E não é que é devido a esse conto que surge o conceito de Natal que o mundo ocidental tem hoje?
Sabe-se que Charles Dickens gostava muito da época de Natal e que se entristecia por ver os seus conterrâneos darem pouco ou nenhum valor à época. Pai de cinco filhos e profundamente dedicado à família, Dickens escreve um conto de Natal que resolve publicar estrategicamente na semana anterior e é precisamente devido a essa publicação que o Natal se começou a impor.
O Natal do sr. Scrooge narra a história de um velho sovina que acha que o Natal é um monte de disparates. Homem solitário, tem uma firma onde emprega o seu jovem sobrinho, pobre de recursos mas rico em sentimentos, a quem trata e julga como um miserável. Na véspera de Natal e estando sozinho em sua casa, recebe a visita do fantasma do seu antigo sócio Marley, que lhe comunica que nessa mesma noite irá receber a visita de três espíritos: O do Natal Passado, O do Natal Presente e o do Natal Futuro. Mesmo falando com o fantasma de Marley, Scrooge escarnece do assunto e, após a partida do fantasma, decide voltar a adormecer. Até que quando bate a uma hora da manhã, Scrooge é acordado por terríveis pancadas que anunciam o espírito do Natal Passado. Sucessivamente e nessa noite, surgem-lhe os três fantasmas anunciados que o levam a visitar algo ou alguém, provocando assim uma completa transformação da personalidade de Scrooge, transformando-o num homem bom, generoso e honesto.
A mensagem é simples mas bonita: Bondade, amizade, união familiar e generosidade. São estes, talvez, os quatro pilares do Natal e, não deixa de ser tocante e marcante a transformação que é operada em Scrooge, fazendo-o ver o quanto é errado o seu comportamento e que ainda há pessoas que o amam.

Sinos do Ano Novo (Os) - Charles Dickens

No conto, Os Sinos do Ano Novo, publicado exactamente um ano depois, a receita é bastante idêntica. A acção decorre no último dia do ano, tendo como principal protagonista um bondoso e generoso homem, Toby Veck, que é em tudo contrário a Scrooge. Saindo nessa noite, acaba por adormecer (salvo erro numa igreja) e tem um sonho que lhe permitirá observar o seu futuro e o da sua adorada filha. Um conto mais pequeno, mas cheio de significado e acima de tudo, com uma mensagem de esperança num futuro que pode ser sempre melhor do que o presente.
Gosto muito de Charles Dickens. Da sua escrita, da forma como constrói as histórias, dos personagens que criou, etc. embora tenha sido um escritor que escrevia sobre os males morais e físicos, trazendo ao de cimo os males e injustiças sociais da sua Inglaterra vitoriana, a escrita dele é ternurenta e mágica. Nas suas obras somos constantemente envolvidos por uma teia cheia de poesia, amor e significado. As descrições que tanto gostava, são perfeitamente visíveis e compreensíveis, o leitor é assim convidado a participar na história, pois tão depressa sentimos alegria como, logo a seguir, uma imensa tristeza sobressai dos seus textos, sempre assente numa escrita fluída e eficaz.
Quem nunca ouviu falar de Ebenezer Scrooge, David Cooperfield ou Oliver Twist? Todas elas personagens literárias famosíssimas que se confundem com a vida real, marcos de uma época, de um escritor que, considero um dos 5 melhores escritores de todos os tempos.
Charles Dickens faleceu em 1870, o seu legado proporciona-nos obras de uma grandeza humana impar, onde o amor ao próximo, o sofrimento causado pela sociedade (que ele constantemente criticou), a alegria, a tristeza e a condição humana são destacadas de uma forma única em toda a literatura.
Pessoalmente, e repito, sou um apaixonado pela obra de Dickens. Pretendo, no futuro, opinar sobre todas as suas grandes obras: ”David Copperfield; ”Oliver Twist”; ”Grandes Esperanças” e ”Loja de Antiguidades”.

Eu, Cláudio - Robert Graves

Embora seja um leitor compulsivo de romances históricos, até à data não havia lido nenhum que tivesse como "cenário" o império romano e, o pouco que sei desse Grande Império é devido a programas de História que vão passando nos nossos canais por cabo. Assim e a conselho duma ilustre livriana, lancei-me na aventura de ler "Eu, Cláudio", livro escrito em 1941 por Robert Graves.
"Eu, Cláudio" relata 82 anos da História do Império Romano (41 a.c. a 41 d.c.). Toda a narrativa é nos contada na primeira pessoa por Tibério Cláudio Druso Nero Germânico, filho de Germânico e Antónia, neto de Lívia e por afinidade do imperador Augusto, sobrinho do imperador Tibério e tio de Calígula, outro famoso imperador.
"Cláudio, o gago"; "Cláudio, o idiota"; "Esse Cláudio"; "o pobre tio Cláudio" ou "Cláu, Cláu, Cláudio", é um homem que teve a sorte (já irão perceber porquê) de nascer coxo, gago, surdo de um ouvido e tido por quase todos, desde a sua infância, como sendo um imbecil. Devido a esse facto e embora pertença à família imperial, é colocado de parte e é entregue para que seja educado a Atenodoro que depressa se apercebe na imensa inteligência e perspicácia de Cláudio, dando-lhe então as bases para ele se tornar num minucioso historiador.
E é precisamente nessa perspectiva que Cláudio faz a narração dos acontecimentos que assolaram o império nos anos antes referidos.
Das personagens que vão desfilando, realço especialmente os imperadores Augusto, Tibério e Calígula. Enquanto Augusto se revela um homem com ideias e actos grandiosos, Tibério já se mostra algo fraco, revelando um gosto obsessivo por depravações sexuais. No entanto, o pior de todos e aquele que mais me impressionou é Calígula. Um homem que se julga um Deus. É completamente louco, manda assassinar quem quer e onde quer. Os acontecimentos absurdos e sádicos sucedem-se a um ritmo demente. Lembro-me que chega a nomear o seu cavalo para o cargo de senador, num casamento para o qual havia sido convidado e só por ver o noivo beijar a noiva, decide logo ali casar com ela, o que faz logo no dia seguinte, obrigando o noivo a assistir. Inventa leilões só para ganhar dinheiro, indo ao ponto de levar 20.000 moedas de ouro por uma sandália, não o par, mas uma única sandália. Um período completamente absurdo onde governou pelo terror. Mas a mais marcante talvez seja Lívia, mulher do imperador Augusto, que se revela uma mulher impiedosa, não olhando a meios nem a laços familiares para defender os seus interesses. E é nas descrições desses jogos e conspirações palacianas, que o romance gira, ficando assim com uma ideia clara da política, do interesseirismo que caracterizava o Império Romano.
"Eu, Cláudio" é um livro excepcional que, na minha opinião e embora eu admita não ter conhecimentos sobre a época que me ajudem a avaliar a exactidão Histórica da obra, mas e quanto a mim, peca apenas pelas imensas personagens que nele desfilam, personagens esses que, por vezes, não têm grande relevância na história. Mas é uma obra que nos revela a magnificência desse grandioso império, os jogos de interesse que iam ao ponto de alguém se divorciar só para casar com outro ou o próprio imperador decidir que aquele se divorciaria daquela para ir para outra. Há espaço também para a descrição das guerras com os germânicos, dos espectáculos sangrentos das arenas onde se digladiavam desde escravos, até simples cidadãos; inclusivamente aborda-se, embora de uma forma leve, a vinda do salvador que Calígula julgava ser ele (era da idade de Jesus Cristo).
Um livro apaixonante que se lê com um interesse redobrado, tal o encadeamento de toda a história, ajudando também a escrita fluída e simples que consegue "agarrar" o leitor do princípio ao fim.
Para findar, achei muito interessante a forma hilariante como Cláudio narra certos acontecimentos passados com ele e sobretudo com o louco Calígula. O homem julgava um ser divino e, por causa disso, Cláudio narra factos imensamente hilariantes que me levaram a dar imensa gargalhadas.
E a sorte dele foi mesmo ter nascido cheio de defeitos porque é precisamente por isso e por o terem sempre achado que era um imbecil que consegue passar sempre despercebido, nunca o vêm como um possível inimigo ou adversário, logo, deixam-no sossegado, no seu cantinho, entretido a escrever histórias.
Aconselho!

Pilares da Terra (Os) - Ken Follett

Apaixonado por romances históricos, ando constantemente à procura de livros do género, lendo opiniões e recensões, efectuando análises e buscas em variadíssimos sites, sempre esperançado na descoberta de um novo título, num novo autor.
Existindo actualmente muitos e bons livros, considero apaixonante os romances históricos porque permitem ao leitor uma digressão e uma percepção da época abordada, do seu modo de vida, forma de pensamento, de estar e de agir.
Assim e ao longo de muitos anos que levo como leitor compulsivo (HÁ QUE O DIZER ABERTAMENTE), tive o imenso prazer de ler romances históricos memoráveis, verdadeiras pérolas da literatura universal, que muito me ensinaram sobre os povos, sua cultura, usos e costumes da época em questão. Senti-me sempre como um deles, fiz amizades com reis, imperadores, bispos, papas, gente do povo, ricos homens, homens primitivos, soldados, generais, etc, etc. Sofri e pensei com e como eles, interagindo no seu mundo que foi também o meu mundo.
Há tempos, aconselharam-me uma obra que, segundo esse pessoa, teria sido um dos melhores livros que já tinha lido. Pois bem, aceitei essa sugestão e comecei à procura do livro... debalde, o livro está esgotado em toda a parte e até a editora, aparentemente, faliu, logo só consegui achar este livro na biblioteca cá da zona e voilá.
O livro é vasto!
Com 916 páginas, cerca de 3 kg. de peso, este é uma obra que podemos considerar, literalmente, de peso. Acima de tudo, de peso na literatura universal.
Escrito por Ken Follett, escritor galês, conhecido e apreciado pelos seus sucessos na literatura policial e de espionagem, "Os Pilares da Terra" começou a ser a ser concebido na década de 70 quando Follett visitou uma catedral medieval na cidade de Peterborough. Esta visita fez nascer nele uma verdadeira obsessão por aquelas elegantes construções, iniciando então uma pesquisa sobre catedrais e sobre a época medieval da Inglaterra do séc. XII.
Então em 1989 Follett publica "Os Pilares da Terra" e acreditem que ao fazê-lo, deu ao mundo uma obra colossal que se não fosse alguns pequenos erros históricos, tinha tudo para ser a melhor obra que já li até à data.
A HISTÓRIA:
Inglaterra, 1123, um homem é enforcado numa praça cheia de gente que se acotovela para ver a face da morte. Quando ela está expressa na face daquele homem, uma jovem mulher, grávida, profere uma maldição fugindo logo de seguida. Os presentes ficam atemorizados, essa maldição irá percutir-se no futuro e inicia-se desta forma uma história que tem como protagonistas principais uma catedral e a época.
Assente em várias histórias paralelas, todas elas com um fio condutor que as une, Ken Follett consegue reconstituir magistralmente aquela época, construindo um painel de personagens que abrande todos os géneros: O clero, onde o prior Philip e o malévolo Valeron Bigot são a sua face para o bem e para o mal; O Povo, por Tom Builder, Alfredo e Jack; A aristocracia, com Aliena, Richard, William Hamleigh, o sanguinário cavaleiro que se vê conde; O rei que surge a espaços; Os proscritos, gente sem casa, sem nada, representada por Ellen. Ou seja, Follett teve o cuidado de reconstruir toda a sociedade da época o que, na minha opinião, é uma das principais razões da beleza deste livro.
Todos estes personagens gravitam em torno da construção da catedral de Kingsbridge cujo priorado, dirigido por Philip é o responsável. E é devido a essa construção que nos surge um painel de tempos conturbados, varridos por uma guerra civil recheada de conspirações, jogos labirínticos pelo poder e muita violência, aliás, Follett não omite a enorme violência daquela altura, existem muitos acontecimentos ao longo do livro onde ele não tem pejo em descrever a violência exercida. As mortes são atrozes, os assassinatos são cometidos de uma forma quase normal, a matança de crianças é mencionada e descrita, as violações são cometidas à vista de todos e recordo-me de quando um nobre viola uma prostitua com toda a gente a assistir e sem que ninguém tenha feito nada, aliás ele viola-a, obriga um amigo a fazer outra coisa e ainda batem na prostituta. O assassinato de Thomas Becket, para além de ser fria e violenta, tem contornos sádicos, pois depois de lhe abrirem a cabeça com uma espada cujo golpe é tão violenta que a espada se quebra, há um cavaleiro que mete a ponta da sua espada na cabeça aberta do bispo e lhe tira os miolos espalhando-os pelo chão...
Mas pessoalmente gosto assim, quanto mais fiel melhor e todos sabemos que essa época foi violenta, então o melhor é saber-se como as coisas efectivamente se passavam.
Mas a história inicia-se , 1123 e finda em 1174. Cerca de 50 anos de acontecimentos da História da Inglaterra. A guerra civil travada pelo trono de Inglaterra; a movimentações políticas e religiosas entre o clero e a nobreza que tem como ponto culminante e de viragem aquando do assassinato de Thomas Becket a mando do rei Henrique II; os episódios com os proscritos envolvendo assaltos e fazendo lembrar o Robin Hood, enfim, um painel riquíssimo.
De salientar a descrição do modo de vida das pessoas, as suas imensas superstições. Follett não deixa escapar o constante confronto entre os Homens e Deus, onde os Homens eram simplesmente manipulados pelos padres que, sabendo do temor dos Homens a Deus, não se coíbem de os mandar fazer tudo o que eles querem para depois os perdoarem através da confissão.
Gostei também da forma exímia como ele descreve o modo de vida das cidades, vilas e aldeias, da forma de organização e do que era necessário para se fazerem feiras e da sua importância para aquela sociedade. A vida nos castelos e nas abadias, até a vida que alguns levavam na floresta nos é apresentada.
Descrito é também a arquitectura das catedrais e a forma como se constróem. A forma de calcular as suas medidas, do estilo romântico ao surgimento do estilo gótico vindo do Oriente.
Dos personagens e como em todos os livros, existem aqueles com quem simpatizamos e outros que odiamos. Aqui há aqueles que são tão asquerosos que aplaudimos a fim que têm, os outros, aqueles de quem gostamos, deixam-nos uma terrível saudade.
No entanto este não é um romance histórico perfeito e simplesmente porque Follett comete alguns erros de análise histórica que, depois de 15 anos de estudo, tinha a obrigação de não cometer.
1º: Naquela época era impossível a forma como Follett descreve a sucessão ou a queda de um nobre. Penso que ele se deu conta desse erro e tenta desculpar-se com a guerra civil onde o rei fecharia os olhos aos acontecimentos absurdos dessas "quedas".
Depois ele refere também alguns produtos alimentares, como por exemplo o milho, cereal ainda desconhecido na Europa nessa altura. Fala também da Espanha, no entanto a Espanha naquela altura era constituída por uma série de reinos independentes uns dos outros não tendo eu a certeza se já era denominada por Espanha, mas tenho dúvidas. E outros mais pormenores que acabam por abalar um bocadinho a obra.
No entanto não é por causa desse pormenores que o livro perde beleza. É uma narrativa muito didáctica e construtiva, tem aqui e ali algumas falhas históricas mas globalmente está assente em fortes pilares históricos.
Escrito numa linguagem fluida, este é daqueles que se devora de uma forma compulsiva, pois e embora a história seja intrincada e extensa, não sendo por isso possível aqui abordar tudo o que o livro nos oferece, esta é de facto uma história muito boa, Follett consegue ainda criar suspense ao longo da mesma de uma forma quase surrealista.
Depois de lermos "Os Pilares da Terra", ficamos com uma imensa nostalgia. Não só das personagens que desaparecem da nossa vida, como também por uma época passada que por algum tempo foi nossa, uma época que tinha tanto de violento como de fantástico.

Brumas de Avalon (As) - Marion Zimmer Bradley

Apreciador de romances históricos, posso até afirmar que este é o meu género predilecto, há muito que ouvi falar nesta obra de Marion Zimmer Bradley "Brumas de Avalon", composta por 4 volumes com cerca de 300 págs. cada um. Obra de culto para milhares de pessoas, existindo inclusive clubes de fãs da obra, esta era, porém, uma obra que nunca me tinha despertado especial atenção, sobretudo e tenho de o admitir, por ser uma obra que aborda a lenda arturiana numa perspectiva mais ficcional ou, se quiserem, mais fantasiosa, usando a magia como algo de normal numa Era da qual não existem muitos registos, onde imperava a superstição, onde, de facto, tudo era visto como sendo realizado pelos Deuses ou de acordo com as suas vontades, e onde o paganismo começou a perder "terreno" para o cristianismo. Assim, facilmente se constata o muito material que está à disposição dos escritores, sobretudo a nível das lendas e da mitologias, numa época, repito, onde os registos são muito poucos, sendo conhecido inclusive pela época onde a Europa esteve mergulhada nas trevas. De salientar os muitos romances históricos realizados sobre o tema, principalmente a partir da 2ª metade do séc. XX, alguns deles, diga-se, excelentes.
Mas mesmo não sendo o meu estilo de romance, pois não aprecio obras de ficção que contenha magias e afins, houve aqui neste excelente site, duas ilustres e prezadas livrianas que me entusiasmaram com o seu entusiasmo e amor pela obra e, vai daí, lá resolvi meter olhos e cérebro à obra e li, de uma assentada, os 4 volumes.
Primeiro há que salientar a visão que Bradley imprime ao mito. Uma visão feminista, ou seja, toda a história é nos narrada tendo como principais protagonistas as mulheres que compunham a corte do Rei-Supremo. São elas que compõem o ramalhete, são elas que jogam no tabuleiro do poder e no destino da Grã-Bretanha. Igraine, mãe de Artur, Morgaine, a meia-irmã e amante por uma noite de Artur; Gwenhwyfar, mulher de Artur e amante de Lencelet; Viviane, a Senhora do Lago, mãe de Lencelet: Morgause, irmã de Igraine e Viviane, filhas de Taliesin. São estas as principais estrelas e são elas que fazem girar toda a história. Só por este facto o livro começou-me logo a interessar, pois aqui a expressão masculina é quase nula, raramente se sente a barbárie daqueles tempos, os relatos dos combates são inexistentes e tudo parece ser um mar de rosas, cheio de paz e tranquilidade.
Assente nas lendas celtas, nos mistérios obscuros e tradições sagradas que Avalon era a guardiã, Bradley constrói um cenário que tem de tudo no que respeita à lenda arturiana: O Rei Artur; Lencelet; a Távola redonda e os doze cavaleiros que a compunham; Gwenhwyfar; Morgaine; Taliesin o "Merlim"; Camelot; magia por todo o lado; Excalibur; inclusive os episódios de Tristão e Isolda e o atirar a espada Excalibur ao lago são aqui abordados; e sobretudo a doce inocência. Nesta obra todos são inocentes, até aqueles que são fanaticamente religiosos, que cometem continuamente adultério, incesto, sexo em grupo, assassinatos, são sempre inocentes.
No entanto e na minha opinião, a autora tentou fazer da luta das religiões o principal protagonista da obra. Em toda o romance é facilmente perceptível que o mal é o cristianismo que, de início ao fim, tenta-se impor ao paganismo. Bradley insiste continuamente nesta luta, repete a fórmula até à exaustão, as mesmas questões são levantadas n vezes, torna assim a obra algo enfadonha, pelo menos nesse sentido. Claro que sabemos que o cristianismo venceu as crenças pagãs, inclusivamente sobressai as influências que os cultos pagãos tiveram e têm nas tradições cristãs, mas o certo é que Bradleu exagera nessa insistência.
Quanto às personagens: Artur é um homem que promete fidelidade a Avalon e que por influência da diabólica/pura/inocente Gwenhwyfar, se vira completamente do avesso para o cristianismo, transformando-se num homem algo bucólico, fraco. Lencelet, um garanhão parte-corações, jura fidelidade a Artur mas passa a vida na cama de Gwenhwyfar. Gwenhwyfar, educada num convento muito casto, vê-se casada com Artur, no entanto quanto melhor Artur a trata, mais ela suspira por Lencelet e por uma gravidez de qualquer um deles. Morgaine, educada em Avalon e sacerdotisa com 18 anos, logo possuidora de conhecimentos superiores, passa a maior parte da sua vida como açafata de Gwenhwyfar, no entanto tem a visão sagrada mas apenas abraça o seu destino já perto da velhice. E dos restantes personagens nem vou falar porque, quanto a mim, estes são os principais.
Mas não se julgue que não gostei da obra. Li os 4 volumes em 3 semanas, fiquei deliciado com a história, no entanto não posso deixar de criticar o que não apreciei (acima descrito) e principalmente o pouco realismo Histórico da obra, pelo menos no que toca a acção e também no que toca às relações entre as pessoas, são todos sempre muito amigos, muito justos, parece que apenas existe pessoas nos castelos, o povo raramente é mencionado.
No que respeita às descrições dos locais e dos usos e costumes da época e embora também não seja um profundo conhecedor, pareceu-me correcta, embora também me tivesse parecido que existem algumas incongruências temporais entre a época descrita e alguns dos povos e lugares abordados, no entanto, não é nada que tenha grande relevância.
A exaustiva luta entre as religiões também me pareceu de acordo com a História, embora Bradley tenha abusado. Achei curioso as farpas que ela atira ao cristianismo.
Em suma, uma obra muito agradável, que se lê num ápice, com uma escrita fluida, detalhes e curiosidades históricas excelentes, contendo todos os condimentos necessários para o sucesso: Sexo, luxúria, religião, magia, guerras, jogos políticos, interesses, estratégia, enfim, se não fosse alguns excessos que tornam a obra algo repetitiva e previsível, poderia considerá-lo como uma Grande Obra, algo que e na minha modesta opinião, não é.

Stonehenge - Bernard Cornwell

Stonehenge situa-se na zona de Wiltshire, zona rica em ruínas pré-históricas com mais de 350 sepulturas que servem de testemunhas a uma intensa actividade que, outroura, dominou a planície de Salisbury.
Constituído actualmente por um anel de monólitos de arenito ligados por inúmeros lintéis e com uma altura de 5 metros, Stonehenge é apenas uma sombra do monumento/construção que um dia foi. Conhecido pelos saxões por Pedras Erectas "Stonehenge" ou "Hanging Stones" (Pedras Suspensas), enquanto que na época medieval eram conhecidas por "Dança de Gigantes", Stonehenge foi, provavelmente, construída há cerca de 5.000 anos, sendo então constituído por uma formação circular em torno da qual se dispunham 56 fossas formando assim um anel. Investigações efectuadas na segunda metade do séc. XX, colocaram a descoberto evidências claras de uma avenida de monólitos que ligavam o monumento ao rio Avalon, a cerca de 3,2 km de distância. Esses monólitos, assim como aqueles utilizados para edificarem Stonehenge, foram extraídos e transportados desde a zona Sul do País de Gales, a cerca de 320 km de distância. Todo este cuidado e preciosismo dá-nos uma clara ideia da grande importância que Stonehenge constituiu para os seus construtores. Sabe-se também que o monumento teve várias etapas de construção, pois cerca de 1500 após o início da edificação, ainda se procedia a arranjos finais.
Stonehenge é um assunto extraordinário que levanta muitas e pertinentes questões:
Quem a construiu? Qual a sua finalidade? Porquê a necessidade daquele tipo de pedras (pedra-lipes e arenito do País de Gales)? E mais extraordinário fica este mistério quando se sabe que ali foram celebrados ritos funerários; que Stonehenge constituía um sofisticado meio de observação do céu; que se podia tratar de um poderoso templo cósmico dedicado aos doze deuses do zodíaco; que o monumento aponta o exacto momento do nascer do Sol quando os dias são mais longos e, mais extraordinário, como foi possível transportar enorme blocos de pedra de arenito a uma distância tão grande (há uns anos tentou-se recriar esse transporte apenas com as ferramentas da altura e, essa experiência constituiu-se como um autêntico fracasso).
E mais há para dizer. Bernard Cornwell teve a coragem de abordar de frente este mistério e essa coragem é de salientar e louvar.
Famoso pela forma realista e excitante como descreve mundo antigos, Cornwell é, na minha opinião, um dos melhores escritores de romances históricos, sendo autor de uma das melhores obras que alguma vez li: "Crónicas do Senhor da Guerra", e precisamente por ter aquele dom da escrita, de Bernard Cornwell espera-se sempre uma grande narrativa e, afirmo aqui, ele também tem essa responsabilidade.
Neste livro e embora seja impossível não fazermos comparações com a obra acima referida, Cornwell não foge às expectativas, criando um romance excitante, com acção e bastante realista de uma época distante onde existem poucas evidências dos seus habitantes, quanto mais da forma de eles pensarem e agirem.
Na base do livro, embora o seu objectivo seja a construção de Stonehenge, estão três irmãos filhos do chefe de Ratharry, cujos feitios e ambições são completamente distintas. Nessa trilogia de amizades, interesses e conflitos, os mitos, crenças e medos vão interagindo de uma forma convincente com o povo e com o leitor, dando assim origem ao desenvolvimento de uma obra que porá em evidência a supremacia da sua tribo no seio dos Deuses, um importante legado para que jamais esqueçam aquele povo: Stonehenge. E assim Cornwell, assente em profundas pesquisas sobre o tema, dá-nos a sua visão e teoria sobre o assunto: Foi um monumento construído para efeitos religiosos. Talvez!, digo eu.
Uma obra que me apaixonou, sobretudo pela forma como Cornwell dá vida aos personagens, pela forma como consegue tornar real as suas descrições e, principalmente, volto a repetir, pela sua enorme coragem em, através do romance histórico, abordar um assunto que mais ninguém abordou.
Uma narrativa excelente, mas que perde um bocado, pelo menos em relação a "Crónicas do Senhor da Guerra", pela quase ausência de suspense, ou seja, Cornwell não tem muito para explorar em relação a batalhas e acontecimentos sangrentos, facto que fazem de "Crónicas do Senhor da Guerra" uma obra monumental.
Um livro que aconselho e que consegue dar uma visão realista desses tempos tao longínquos e desconhecido.